RIQUEZA E PODER : A GEOEGOLOGIA
ELIANE COLCHETE
Conteúdo:
Nota ao Leitor
Livro I = escrito em inícios de 2015
A Escalada do Império = O Business da Comunicação em Massa no Século XX Norte-Americano
1) O banditismo dos homens importantes
2) O diabo não gosta da escritura
3) Cherchez las femmes
I/ na linha, a Casa Branca;
// antes, a “flor de Cuba”;
II/ Dorothy “Buff” Chandler;
III) Marianne Means;
IV/ Missy Chandler;
V/ Katharine “Kay” Grahan.
a) da família ao casamento
b) Phillip e Katharine Graham
c) Mrs. Washington Post
d) O som e a fúria
d. 1) Watergate na mídia
d. 2) E Ehrlichman?
e) A Modernização
4) A Escalada da Violência
a) O Cômputo das Consequências
b) Trajetória da CBS
c) Time Magazine e o New York Times
Livro 2 = escrito em 2017
A CIA, o Nazismo, a Esquerda e o Terceiro Mundo (com um estudo do caso brasileiro)
1 = A penetração política do capital multinacional após 1945 e a ação da CIA
2 = A formação do IPES-IBAD: da CIA ao militarismo e o Nazismo
3 = A abrangência do golpismo
3 . I) Brasil e América Latina
3. II) O IPES/IBAD e o golpe no Chile
3. III) Fundos Internacionais e Corrupção Parlamentar
3.III.1) = A fraude eleitoral / 1962
3.III.2) = O disfarce do dinheiro e o golpismo partidário
3.III.3) = A articulação do Poder na Cultura e Mass Mídia
4 = A Estrutura do Estado Militar
Anexo: O problema historiador
a) O propósito deste estudo e as transformações necessárias
b) A crítica ao conceito de “populismo”
c) As quatro atualizações
5 = O Golpe na História: Trajetória do Capitalismo
a) O capitalismo europeu: colonial escravista e industrial revolucionário
b) O Imperialismo Contra-revolucionário-industrial
c) História da Indústria Nacional
c. 1) O percurso golpista e o capital industrial.
c. 2) Da ditadura à Globalização: os protagonistas do golpismo
c.3) A Ofensiva dos Carteis: redefinição do Estado e do Capital
c. 3.I) O Golpe de 1964 na trajetória do monopolismo
c. 3. II) Capital “Multinacional”: A base econômica do neonazismo
c. 3.II.1) O conceito de neonazismo
c. 3.II.2) A economia nazista de cartel e a “globalização”
c.3.II.3) História dos carteis e ditadura, União Europeia e neonazismo econômico globalizado (“neoliberalismo”)
c. 3.II.4) Volta à História - do militarismo ao caos financeiro
Anexo : Os problemas urgentes
6 = Leste Oeste a Norte Sul: A Transição Histórica:
a) Os testemunhos do neonazismo imperialista após 1945: da guerra contra a descolonização ao crime organizado;
b) “Comunismo”, Ocidente e Descolonização;
c) Os enigmas do expansionismo;
d) Reunificação alemã, eurocomunismo, Perestroika: o neogolpismo e o limite ocidentalista;
e ) A questão atual:
e. 1) Redefinição da “esquerda”
e. II) Os “novos” problemas
Livro 3 = escrito em 2017
Volume 1 / Geoegologia e Alteregologia: A integração Norte e Sul
1) A Modernidade desenvolvimentista: o modelo Norte / Sul (Centro / Margem)
2) A Integração Colonizadora: Geopolítica Histórica como Geoegologia e a Alteregologia: I) ; II;
3) Os paradigmas científicos do desenvolvimento:
I) ;
II) ;
III : a) o pre-texto classicista (sécs. XVII e XVIII);
b) Romantismo (aproximadamente 1800 a 1850) ;
b.I);
b.II);
c) Positivismo (1850 a 1870) ;
d) funcionalismo (1870 a 1950); d.I) ; d.II) ;
e) Os estruturalismos (de 1945 em diante) e o Pós-modernismo (de 1985 em diante);
LIVRO 3 :
VOLUME 2 = A pós-modernidade e o processo cultural brasileiro
1) Os primórdios do Pós-modernismo e o sintoma do Recentramento
1.a ) A primeira teoria em torno do pós-modernismo
1. b) O sintoma do Corporate State
1. c) O Édipo e o Terceiro Mundo
1. d) A Questão do Objeto
2 ) Modernidade, Pós-modernismo e o Terceiro mundo
2.a) “Mulher” e Modernismo of-center
2.b) A Travessia do Gênero
2.c) O Lugar do Gênero : a Margem pós-colonial
2.d) O Horizonte do Desenvolvimento : Crítica (Pós)-edipiana
3) O Processo Cultural Brasileiro
3.a) As ideias e a Independência
3.b) Romantismo e Naciunalidade
3.c) O Positivismo e a República
3.d) Simbolismo e Modernismo: A Revolução Cultural
3.e) Cultura Nacional e Pós-modernidade
3. e. I) Terceiro Mundo e Linguagem
3. e. II) A Clivagem do Inconsciente e o terceiro mundo
3. e. III) O Terceiro Mundo e o Limite da Modernidade
4) Cinema e Inconsciente Político
5) O “Outro Real” na América Latina
6) “Cinematótica” : A tese do Matriarcado
7) O Teatro da Resistência
Notas :
Notas do livro 1
Notas do livro 2
Notas do livro 3, volume 1
Notas do livro 3, volume 2
Anexos :
Lista de obras publicadas de Luís Carlos de Morais Junior (e referências de parcerias com Eliane Colchete)
Lista de minhas obras publicadas (Eliane Colchete)
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Nota ao Leitor :
“Geoegologia” é o termo que define o parâmetro, que julgo pós-moderno, dos estudos em história efetiva que correspondem aos livros 1 e 2 deste volume. O parâmetro resulta das pesquisas que venho desenvolvendo em ciências humanas e “epistemologia” (teoria da ciência), elaborado minuciosamente no livro 3, onde a palavra “Geoegologia” é definida em termos de crítica e discurso da modernidade. Os livros 1, 2 e 3 podem ser lidos em qualquer sequência, mas creio que a ordem em que os coloquei é a mais agradável à leitura.
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Livro I = escrito em inícios de 2015
A Escalada do Império = O Business da Comunicação em Massa no Século XX Norte-Americano
1) O banditismo dos homens importantes
A história começa com a necessidade do leitor visualizar um bando de homens, jovens e relativamente jovens, percorrendo de carro, à noite, as ruas de uma cidade dos USA, à cata de telefones públicos. Ao localizar um, eles saltam do carro, entram na cabine e ligam para certo número. Ao ocorrer da pessoa do outro lado da linha atender, pousam o fone fora do gancho, saem da cabine, voltam ao carro à cata do próximo telefone público. Gastam uma porção de moedas, deixando um rastro de fones fora do gancho atrás de si.
Quem são os moleques? Nada menos do que a equipe de Richard Nixon, disputando eleição com o democrata Pat Brown. Este planejara contatar por telefone todos os possíveis voluntários colaboradores do partido democrata numa campanha corpo a corpo, à véspera da eleição. Os fones fora do gancho significavam que os telefones dos possíveis voluntários estavam presos pela linha dos moleques da equipe de Richard Nixon.
Ao que parece, o sistema de telefonia norte-americano já não está limitado por essa circunstância – que ainda vige em Brasil. Em todo caso, Richard Nixon perdeu a eleição para Pat Brown.
Nixon passou a noite da eleição perdida bêbado, tornando-se a partir daí, de modo manifesto aos seus íntimos, praticamente um alcoólatra. Na manhã seguinte, dado o estado precário de Nixon, os correligionários do partido republicano planejaram uma saída secreta do hotel, enquanto os repórteres eram distraídos por uma coletiva orquestrada pelos mesmos.
O que aconteceu não poderia conservar melhor o frescor do relato, senão citando-se o observador engajado. Quando Nixon, saindo, de passagem entreviu por uma porta os repórteres entretidos na coletiva, “de repente, num impulso, ele voltou-se e atravessou a soleira da porta… Estava abatido, tremendo e com os olhos vermelhos” – mas, com voz “mais firme que nunca”, pronunciou a célebre frase: A imprensa, declarou, “não vai ter Richard Nixon para chutar nunca mais”. E o anúncio: “Nixon falou menos que cinco minutos, durante os quais ele anunciou estar retirando-se da política”.
O espectador em questão se chama John Erlichman – um dos “homens do presidente” –, portanto, Nixon não cumpriu a promessa de 1962, e, inversamente, tornou à cena política em 1967.
Porém esse “homem do presidente” é um caso especial: o único, dentre o escalão decisório, condenado à prisão, quando alguns anos depois de estar Nixon na presidência do país, estourou o escândalo da invasão da sede do Partido Democrata pelos homens do governo.
Erlichman foi considerado pelo tribunal o responsável por ordens de invasão, dentre as quais a mais importante foi à sede do partido democrata no edifício Watergate, com objetivo de obtenção ilegal de informações. Também foi preso o executor Buddy Krogh. O processo deveria continuar até a decisão sobre a responsabilidade do próprio Nixon, que, no entanto, a certa altura, renunciou à presidência.
Na autobiografia que citamos (Witness to Power; the Nixon years. New York: Pocket Books, copyright 1982, p. 17, 8), Erlichman procede à sua defesa, alegando jamais sequer ter tido conhecimento das operações de invasão.
Esse caso estava interligado a outros escândalos, principal para o processo de Erlichman sendo a invasão dos aposentos privados do psiquiatra de Daniel Ellsberg pelos agentes do governo Nixon. Ellsberg havia acusado o governo de distorção deliberada de informação ao público a propósito do verdadeiro estado de coisas no Vietnã. Ele estava sendo processado por ter publicado documentos do próprio Pentágono, que revelavam, porém, a situação real – o Vietnã estava sob uma sangrenta ditadura, uma das piores do mundo, e, ao invés de Ho Chi Minh ser apenas um líder comunista, como na versão governamental para justificar a guerra, protagonizava a resistência nacionalista contra a dinastia opressora.
Porém, o processo governamental contra Ellsberg foi interrompido, quando estourou o escândalo que revelou a manobra dos seus acusadores. A invasão aos aposentos privados do psiquiatra de Ellsberg pelos agentes do governo Richard Nixon, visou à posse dos arquivos do médico sobre Ellsberg, que informariam dos planos de ação deste.
Erlichman informa que o plano de invasão partiu dos nomeados Hunt e Liddy. À questão de quem os apresentou a Nixon, para depois passar a ordem do presidente ao executor Krogh, Erlichman responde que sem dúvida foi Charles Colson. Assim há um consenso informal de que Nixon foi o responsável.
Se Nixon realmente sabia? Segundo Erlichman, isso se tornou algo consensual entre os próprios envolvidos (p. 368), ainda que a princípio ele mesmo estivesse convencido da inocência de Nixon. O que já não era o caso, pois Bob Haldeman, um dos mais importantes managers da carreira Nixon, publicara nesse interim The Ends of Power, relatando que numa conversa privada consigo Nixon afirmou ter ordenado a invasão ao psiquiatra de Ellsberg, algo de que se arrependera depois por ter feito.
Conforme a citação de Erlichman, Haldeman comenta como a confissão privada contrastava com todas as atitudes de Nixon até então, inclusive mostrando-se chocado pelo acontecimento quando houve a denúncia, além de não ter prestado qualquer solidariedade a Erlichman, como testemunho que pudesse tê-lo inocentado no processo durante o qual Erlichman sempre manteve que Nixon não ordenara a invasão. Também uma “memoir” de Nixon é citada: “Dadas as circunstâncias daqueles tempos amargos e tensos e o perigo que eu percebia, não posso dizer se estava informado disso a princípio... Eu não lembro disso [sobre se Erlichman lhe contara sobre o fato antes ou depois de acontecido], e as fitas do período junho-julho 1972 indicavam que eu não estava consciente disso então, mas não posso garantir (‘I cannot rule it out’)” (p. 367).
Erlichman registrou assim que um agente que fôra processado com ele revelara-lhe já ter feito mais de duzentas invasões para a CIA, nos USA, Cuba, Canadá e outros países (p. 364).
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2) O diabo não gosta da escritura
A promessa havia sido de que a imprensa não mais teria “Richard Nixon para ficar por aí chutando”. Portanto, a imprensa de nada mais se lembrava sobre Nixon desde então. Assim informa David Halberstam (The Powers that be. New York: Dell Publishing, copyright 1979, p. 821).
Porém “aquela cena de despedida, desastrosa, embaraçosa, tão imperdoável, estava gravada permanentemente em suas mentes. Uma cena final”. E, no entanto, agora, em 1968, uma reedição daquelas imagens não traria qualquer benefício para os adversários de Nixon.
Os repórteres estavam errados, segundo Halberstam, ao considerar a designação para cobertura de Nixon, desde que ele retornara à política em 1967, como incumbência de menor importância. Para eles “Era como se por terem sido destinados a um perdedor eles eram de algum modo perdedores também”. Ao ver de Halberstam, raciocinavam conforme a lógica da impressora, quando a profissão já estava definida pelo filme.
A televisão relançou Nixon, a televisão a cores, onde a tonalidade demasiado morena de sua figura não parecia tão pronunciada. Entre a escrita da imprensa tradicional, e a emergente televisão, a carreira de Nixon redefiniu uma era na política.
Nixon iniciou o relançamento da carreira, cortejando a imprensa escrita, aproveitando-se o quanto podia da imagem de pobre homem, igual a tantos marginalizados pelo poder, não de fato interior aos seus meandros. A estratégia de atração da imprensa funcionou à base de segregação etária. Os repórteres mais velhos conheciam Nixon, mesmo o “ogro” que ele havia sido durante o McCarthysmo, a implacável perseguição aos suspeitos de comunismo, que aconteceu nos USA dos anos cinquenta. Mas a nova geração, que estava agora por volta de trinta anos, não.
Estes jovens se deixaram impressionar pela montagem do “novo Nixon”, que lhes aparecia extremamente brando de maneiras, tímido, simpático, acessível, chegado a conversinhas informais com os repórteres. Não acreditavam no que lhes diziam os mais velhos. Uma reedição do velho Nixon perdendo a eleição apenas reforçaria a imagem do novo Nixon, sensível, franco e humilde.
Assim que Nixon começou a não mais parecer um perdedor devido a essa estratégia, Bob Haldeman entrou em cena, tornando-se responsável pela campanha. Cortando o acesso à imprensa escrita, logo a brandura se foi, o “new Nixon” não mais existia. Para a imprensa escrita o acesso se tornou sempre menor, mais limitado.
A preocupação da equipe era que de Nixon não transparecesse qualquer deslize, além de alcançar mais e mais pessoas. Todo o esforço se concentrou na televisão, o que contagiou o próprio Nixon. Frank Shakespeare, antes da CBS, e Harry Treleaven, assim como Haldeman, organizaram a campanha televisiva de Nixon (p. 824). Contrataram Roger Ailes, um jovem ambicioso que trabalhava no Mike Douglas Show.
A estratégia era de apagamento de todos os traços do passado, e revisão de como as apresentações de Nixon ao público haviam sido conduzidas antes, para proceder ao contrário, corrigindo na mente do espectador qualquer ressonância com uma outra imagem de Nixon, a do antigo perdedor, o sul-direitista radical.
Não se veriam agora o que na época da TV preto e branco se permitia, a cabeça falante do homem sério, despersonalizado, ditando informes ao público. A cena colorida devia mostrar Nixon de corpo inteiro, descontraído, informal, inserido num contexto. Ailes tinha que evitar porém a demasiada informalidade a que a personalidade de Nixon tendia. “Ele é um cara engraçado” (“a funny looking guy”). Ele parece ter pulado da cama de manhã com sua roupa toda amarrotada e começado a correr à volta anunciando, “eu quero ser Presidente” (p. 826).
Ao que poderíamos acrescentar as informações de Erlichman, sobre a época do confronto com Pat Brown na Califórnia, ilustrando que era preciso “Fazê-los esquecer tudo aquilo” – conforme a expressão de Halberstam para o escopo dos managers.
Nixon e Patricia, sua esposa, haviam sido acusados de racismo pelos democratas, conforme registra Erlichman. Este atuava como advogado em Seattle, quando retornara ao serviço de Nixon nesta então nova campanha. Erlichman especializara-se nos aspectos legais do uso da terra, planejamento urbano e litígios de pioneiros a propósito da propriedade imobiliária na região. Parecia a pessoa certa para elaborar a defesa de Nixon à acusação de racismo, uma vez que estava relacionada ao endereço escolhido pelos Nixon para fixarem residência, uma grande casa decorada à grega, em Truesdale Estates, numa colina atrás de Beverly Hills. Mas Erlichman sabia que a acusação era verdadeira.
O foco da acusação era a compra da casa por Nixon e Patricia, numa região que entrava nas cláusulas dos pactos restritivos de propriedade, pelos quais grupos de conveniados racistas se comprometiam a não vender propriedade imobiliária a qualquer pessoa que não fosse caucasiano, isto é, branco de origem europeia (p. 15). Erlichman testemunha: “Eu vi pelas suas assinaturas que Patricia e Richard Nixon tinham indubitavelmente comprado sua casa na California sujeita à cláusula discriminatória”.
Conversando com Nixon, Erlichman compreendeu porém que ele não tinha muita consciência da substância do pacto, e havia assinado sem ler a escritura incorporando as convenções raciais (“racial covenants”).
Nixon era também advogado, porém não competente, atuando para a firma prestigiosa onde trabalhava em Los Angeles apenas como promotor de negócios (“business-produtor”), não um profissional. Nixon negava não ter lido, porém não garantindo se o lera de fato. Ele estava, em todo caso, comprometido pelo documento que limitava a ação. A equipe se defrontara com o dilema. Ou admitir que Nixon assinara sem ler, fazendo-o parecer idiotamente irresponsável, ou nada responder, ainda que isso permitisse que os outros pensassem que ele era racista. Nixon optou por esse último curso de ação.
Processos de campanha contra o staff de Nixon se apresentaram, apelações deles e processos movidos pelo próprio Nixon também. Os pontos de acordo políticos que Erlichman firmara com Nixon quando haviam podido conversar logo que Nixon viera a Seatle, em função do que Erlichman conhecia bem, se esvaíram na acrimônia com que os candidatos passaram a se enfrentar.
Tornando aos fatos de 1968, conforme Halberstam, só quando Joe McGinniss publicou The Selling of the President, as pessoas na imprensa se deram conta a que extensão estava sendo conduzida a reestruturação da campanha presidencial de Nixon, em função da utilização máxima dos recursos de fascinação das massas por meio da televisão. “Agora havia um novo tipo de campanha, muito mais aproximativa. A imprensa iria cobrir o que os nixonianos (‘the Nixon people’) queriam que fosse coberto” (p. 827).
Mas a história das relações de Nixon com a imprensa não começa nem termina aí, na exposição de Halberstam. A trajetória conduz ao grand finale do sobejamente conhecido desastre de Watergate, onde a imprensa teve papel decisivo. Mas inicia-se de um modo tão obscuro, que nem mesmo Erlichman referencia a proveniência, como do primeiro benfeitor de Nixon dentro do partido republicano, o homem que o lançou como vedete do partido. O índice onomástico de Erlichman não tem referência para “Kyle Palmer”.
A investigação de Halberstam, a propósito dessa origem e tudo que dela se segue, de fato permite refutar as versões mais comuns sobre o que teria provocado a específica animosidade da imprensa contra Nixon, manifesta pelo modo como ela conduziu o escândalo de Watergate.
Kyle Palmer era o empregado número um do clã Chandler, família que se tornara praticamente monopolista na imprensa da Califórnia como proprietária do Los Angeles Times, e uma das maiores fortunas do partido republicano. O Washington Post, de Catherine (“Key”) Graham, sem qualquer traço de oposição aos Chandlers da Califórnia, e, pelo contrário, a eles relacionada, foi o algoz de Nixon em Watergate.
Algo, portanto, está errado, quando se propaga o caso como o faz Francis (Paulo Francis, Uma coletânea dos seus melhores textos já publicados. São Paulo: Editora Três, copyright 1978). Ou seja, em termos de “uma mulher contra Nixon”. E tal que, tratando-a por “Kathy”, inversamente à “Key” de Halberstam, Francis assim moteja no seu estilo mais típico: “Kathy Graham – como o japonês (de anedota) que puxou a válvula de descarga do sanitário de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, seguindo-se um ‘certo’ estrondo – podia ter dito: eu contra o mundo inteiro” (p. 101).
A história em Halberstam não se limita a algo tão simples. O pecado de Nixon foi contra uma coletividade, a dos clãs de imprensa que funcionaram nos USA do século XX como o censor das ditaduras militares em qualquer país dominado por governos totalitários impostos pelos próprios USA. Bem ao contrário do que Francis acreditava, os USA não eram a pátria da liberdade da informação segundo revela David Halberstam. Além disso, todo o processo de representação eleitoral foi sempre mais engolfado pelo poder de manipulação dos clãs dos vários estados, a partir de sua íntima conexão com o partido Republicano, até se tornar um fantoche nas mãos deles – o que se pode afirmar do próprio partido, que os clãs pretenderam que fosse apenas o fiel espelho das suas ordens estabelecidas.
Nixon acreditou, a uma certa altura, que podia governar sozinho, sem conceder poderes decisórios aos clãs, além de ostensivamente forjar uma imagem hostil a eles. Ele pareceu transferir a personificação de sua base, desde as eminências pardas do partido Republicano ao seu próprio Staff, a partir talvez da crença comum desses homens em que o impacto direto, carismático, do presidente sobre as massas seria o novo veículo, suficiente, da garantia do poder político nos USA.
Nixon renegava assim, imprudentemente, os seus benfeitores de origem, subestimando-os sem razão. O que teria acontecido para Nixon romper com os Chandlers – pessoalmente, com o casal protagonista do clã, os proprietários do Los Angeles Times, Norman e Buff Chandler? E qual o papel de Kyle Palmer nesta ruptura?
Poderíamos afirmar que qualquer que tenha sido o fato em si, o importante na decisão de Nixon era apenas a mudança de orientação, o poder da televisão? Porém, devia ser claro que esse poder estava apenas por um lado, mas não por outro, à parte do domínio dos clãs tradicionais da imprensa.
Um estudo mais acurado da questão Nixon se torna necessário ao interesse de obter alguma perspectiva sobre como se pode responder a essas indagações, sendo também muito oportuno como embasamento histórico na origem da época atual, definida pelo açambarcamento total da produção de informação pelo domínio dos monopólios info-midiáticos.
Como se pode aquilatar, é forçoso que a história da dominação da informação pelo capitalismo midiático nos USA seja uma chave para a compreensão da nossa era enquanto cenário do neoimperialismo, formado na circunstância das guerras por libertação nacional afro-asiáticas, e resultando na equilibração conflituosa da geopolítica Norte/Sul. Pois nenhum governo estadunidense que se exerceu nesse teatro de guerra está isento do ônus das decisões que até agora tem determinado os seus rumos.
3) Cherchez las femmes
Todos conhecem a expressão “cherchez la femme”, procure o móvel, o motivo, do crime, se você quer descobrir quem o praticou. Mas literalmente significa: “procure a mulher”. Na conexão histórica da comunicação em massa com os rumos políticos do imperialismo, os usos literal e idiomático se confundem, o feminino é um fator chave: no plural.
I) Na linha, a Casa Branca
Na noite de 27 de outubro de 1972, uma sexta-feira, a esposa de Frank Stanton, o número um da CBS TV, além do chefe proprietário, Bill Palley, estava ao telefone. Ela conversava com uma amiga, quando foi bruscamente interrompida por um operador da Casa Branca, ordenando que desligasse, para que a Casa Branca pudesse contatar o marido. Quem chamava era Charles Colson. Stanton encontrava-se ausente, não por acaso.
Enquanto a esposa de Stanton tentava ela mesma contatá-lo, Colson mudou de ideia, para não perder tempo, passando a ligar para o próprio Bill Palley. Encontrou dessa vez um ouvinte profundamente interessado, ainda que a mensagem de Colson não fosse muito agradável.
O que havia acontecido, para despertar a fúria de Colson? A CBS mostrara, nessa noite, seu especial a propósito de Watergate, protagonizado pelo star Walter Cronkite. Com a arrogância característica da posição que atingira, pelo telefone Colson forçava Palley a comprometer-se com a obrigação de não repetir qualquer programa sobre Watergate.
Palley concordaria sem resistência. Porém, até mesmo para ele, não era fácil deter o processo, àquela altura. Um segundo documentário pôde ir ao ar, Cronkite contribuiu sem dúvida para acelerar a recepção de Watergate como um escândalo nacional, que de outro modo, apenas como matéria de jornal coberta pelo Post, provavelmente não atingiria grandes proporções.
Contra as expectativas de Palley, Watergate se tornou um assunto sempre mais requisitado, impossível de censurar, e fonte dos maiores números de ibope. O que ele pôde fazer para manter intacta a pele sob a ditadura do Staff Nixon, que então já ameaçava “quebrar” toda a cadeia CBS, foi tirar de cena o “Instant Analysis”. Segundo Halberstam, uma “forma inócua de crítica” a que comentadores e repórteres tinham se habituado a propósito do presidente. Os profissionais sentiram a perda como uma vitória sobre a CBS, por parte de Nixon. Na verdade, havia sido praticamente uma ordem de Haldeman.
O Staff de Nixon, a essa altura, já havia transformado a cena do poder. O uso da TV por Nixon para eleger-se havia sido uma farsa, e tão logo instalado na presidência, Nixon realizou sua reforma na política de imprensa da Casa Branca, que passou a contar com uma equipe própria, dirigida por Spiro Agnew e Colson, com Haldeman e Erlichman intrinsecamente relacionados. As poderosas redes de televisão particulares se tornavam agora meras tributárias da equipe da Casa Branca.
A própria farsa de Nixon, cortejando a CBS, NBC e demais cadeias de televisão do país, havia sido apenas um hábil estratagema pelo qual Nixon se beneficiava do ápice de um processo que se iniciara antes dele, entre as campanhas de Eisenhower e Kennedy.
O processo, culminando em Nixon porém como num turning point, é uma escalada ascendente do desequilíbrio do poder democrático – não reduzido ao significado do partido democrata. O uso das televisões pela presidência desestabilizava o papel do legislativo, tornando o cargo do presidente da república menos uma função do aparelho racional-legal burocrático- administrativo, do que uma liderança passional-carismática.
As televisões tiveram parte igual nesse processo, elas o integraram de bom grado, porque mostrar o presidente provou-se um meio de obter “ibope”, mas o compromisso ético para com a nação, de mostrar igualmente os homens do Congresso e de instituições políticas correlatas, não.
Assim, o presidente passou a ter um veículo de acesso direto ao público, enquanto o legislativo caía no esquecimento deste ou se tornava algo menos receptivo aos sentimentos da nação.
O resultado do “ibope” não era também de todo casual. É evidente que a figura do presidente é um atrativo devido à sua importância, mas o processo envolveu um ajuste de todo o desempenho do Presidente da República às leis de ferro da tela, não só a produção da aparência física, mas principalmente o teor e a forma dos comunicados. Este último, um dos fatores chave do distanciamento do legislativo, uma vez que os verdadeiros homens políticos não podiam ser indulgentes nisso.
A orientação nas televisões é de substituir os pronunciamentos dos políticos, que necessitam desenvolver por vários ângulos alguns dos temas de suas respostas, por correspondentes que se tornam famosos pela tela, mas que têm a incumbência de reduzir a “dois minutos” a substância de qualquer comunicado.
O político é mostrado sendo entrevistado, mas não tudo o que ele responde, quem fala por ele informando ao público o que realmente significa a resposta, é o correspondente da emissora, e segundo a lei dos “dois minutos”, um formato de apresentação que conhecemos bem hoje em dia. O que obviamente implica distorção da matéria. Mesmo que não fosse pelo fato de sempre se tratar de uma interpretação, e direcionada ideologicamente, vemos que o problema reside não apenas quanto ao aspecto do conteúdo, mas especialmente quanto à forma. O público fica convencido de que tudo é compreensível instantaneamente, quando de fato nem tudo o pode ser.
Uma questão real que envolve não apenas o tratamento do legislativo, mas todo correlato das mensagens de mídia, como já foi sublinhado por alguns teóricos – especialmente com relação a conteúdos da ciência. As pessoas letradas por vias não restritas à televisão não são tão prejudicadas quanto o sempre maior número que limita suas fontes de informação a ela.
Erlichman tangenciou esse problema, na crítica acerba da mídia de que se compõe o capítulo “The press”, do seu citado livro. Trata-se do registro de vários confrontos entre o staff de comunicação da Casa Branca dos tempos nixonianos e a mídia, elaborado tal que de forma alguma parece ter sido uma operação de domínio sobre a imprensa, mas sim uma forma de defesa de Nixon contra o abuso do poder da própria mídia.
Em todo caso, ele conta sobre os dois jornalistas com quem pôde conversar pessoalmente, de modo a obter resposta a propósito de sua observação de erros da parte deles. O primeiro, um colunista do Cristian Science Monitor que porém não era cristão, havia respondido que estar certo a metade do tempo já devia ser considerado extremamente satisfatório. O segundo, Hugh Sidey do Time Magazine de Harry Luce, dissera que havia muitas lacunas difíceis de preencher, e assim era impossível elidir os erros: “toda história contém erros” (p. 257). Erlichman comenta não compreender como alguém pudesse ser tão tolerante.
Ainda que alguns erros sejam esperáveis em qualquer ato humano, creio que o problema está no próprio modo como as empresas jornalísticas escrita ou televisiva monopolizam homogeneamente toda e qualquer informação para fins de mercado. Em vez de não interferir quando se demonstram os limites do meio, contentando-se em fazer o possível, investem pesadamente na veiculação propagandística de sua infalibilidade. Halberstam compreende o problema, porém não tão interligado ao aspecto teórico da distorção formal. Para ele, um repórter instruído pode reduzir o que importa na matéria a um comunicado rápido, ainda que enfatizando que assim a fonte da resposta se desloca da pessoa “eleita” para a função da mensagem, e em tratando do político, para o poder da imprensa.
Ao ver de Halberstam, o problema histórico real consiste em que tudo isso implicou o desequilíbrio do tempo concedido ao presidente e ao legislativo. Esse é o ponto crucial, podendo-se considerar uma mudança na composição do poder.
Eisenhower utilizara-se pioneiramente da televisão como veículo da imagem do presidente para ganhar a eleição, mas foi Kennedy quem tornou a presidência um veículo da própria televisão, o que é compreensível, dada à vantagem da sua beleza física. Segundo Halberstam, Eisenhower tinha escrúpulos que desde Kennedy deixaram de ser acalentados, de modo que na orientação deste virtualmente tudo na vida do presidente devia se tornar mostrável, capitalizável para efeitos de imagem.
Em 1968 e 1972 Nixon colheu os frutos do que Kennedy havia plantado, não sem ironia, uma vez que Nixon havia sido, em 1960, a primeira vítima da nova arma da arena eleitoral. Kennedy o arrasara num debate televisionado, grande parte planejado como verdadeira arapuca cênica, explorando o que sabiam os seus partidários serem os pontos fracos de Nixon relativamente às leis da tela.
O triunfo de Kennedy, tão desastroso para Nixon, não apareceu como o do partido democrata contra os republicanos, mas sim como o triunfo do novo meio de comunicação de massas, conforme Halberstam (p. 477). O processo que estamos examinando pode ser, a seu ver, do mesmo modo designado como da transferência do papel de seleção e organização de campanhas eleitorais, dos partidos para os manipuladores da mídia.
É nessa designação que encontramos o elo das relações de Nixon entre as já divididas imprensas, escrita e televisiva. Os problemas de Nixon com as figuras femininas chave da imprensa escrita, Buff Chandler e Kay Graham.
// ANTES, A “FLOR DE CUBA”
“Feeling sluggish, feeling sick?
Take a dose of Ike and Dick”
Estes versos de Maria Mannes (Nota 1), citados em David Halberstam, integram o engraçado poema que ela compôs a propósito da inclusão do presidente na lista de mercadorias tornadas célebres pelo poder da propaganda:
“Philip Morris, Lucky Stricke
Alka-Seltzer, I like Ike”
Assim se demonstrava que o eleitorado norte-americano não se deixava mesmerizar pela mera atração da imagem manipulada, que percebia a operação ideológica da dominação midiática a degenerar o processo racional-democrático num mero rito passional-carismático, a livre deliberação da consciência subjetiva do eleitor numa demagogia de massificação. E também que os agentes não eram desconhecidos, que, ao contrário dos inocentes úteis que confundem propaganda com arte, sabia-se bem que o procedimento de mídia era direcionado, ao invés de estilo e de livre expressão.
O poema de Mannes, com efeito, começa assim:
“Hail
to B. B. D. & O.,
It told the nation how to go;
It
managed by advertisement
to sell us a new president”
B.B.D.&O. é o nome da agência de propaganda contratada para “vender” a chapa de Ike Eisenhower na eleição presidencial em que “Dick” Nixon era o vice.
Tinha a propaganda – ou quem quer que fosse – direito de ditar à nação o que pensar e o que fazer? Se obviamente não o tinha, conforme a ironia do “thanks”, o comprometimento da democracia a partir dos procedimentos de direcionamento massificado não era, porém, a essa altura, uma novidade. Apenas se comprovava um passo a mais na rota da dominação da consciência, a partir da cooptação planificada do elemento passional, quando o procedimento passou a abranger a propaganda de mercadorias.
Temos então três fases na história da integração midiática da governamentalidade norte-americana: a do jornal, do rádio e da televisão acoplada à propaganda. Nenhuma delas foi menos direcionada. Antes da propaganda, se limitava ao modo como se produzia o noticiário de campanha. Quanto se tratava da linha republicana de um jornal, por exemplo, limitava a cobertura ao candidato do partido, o democrata era apenas alvo de críticas ou da calúnia aberta.
F. D. Roosevelt marcou a entrada na era do rádio. Como tecnologia de alcance de massas superior à simples cobertura escrita, restrita à distribuição local, a mudança que o rádio introduziu não foi apenas o fator quantitativo. A cobertura de audiência nacional que ele possibilitava foi imediatamente integrada à política presidencial de Roosevelt. Conforme Halberstam, o presidente costumava dizer a Orson Welles que havia apenas dois grandes atores nos Estados Unidos, e Welles era o outro. O presidente, o ator principal da nação (p. 24).
Antes os jornalistas em Washington cobriam questões relacionadas aos interesses regionais do seu próprio jornal, mas depois de Roosevelt, eles eram especialistas treinados que escreviam sobre as implicações nacionais das decisões, implicações que afetavam o país inteiro. Conforme Halberstam, “a velocidade da decisão se tornava mais e mais rápida, o governo local não podia fazer frente ao crescente poder e influência do governo federal”. A tecnologia estava possibilitando a formação de um “Estado central” que “podia alcançar áreas previamente isoladas. Mais, ele podia desempenhar funções, dispor serviços, e fazer julgamentos inconcebíveis numa outra era”.
Nessa era do rádio, o fenômeno midiático não foi menos abrangente, portanto, do que na transformação crucial do marcketing e televisão, e como Halbestam registrou, não se limitou aos Estados Unidos. O Estado central, a centralização do poder federal, foi a marca da era do rádio, ocorrendo paralelamente na Alemanha e na União Soviética. A mola mestra dos regimes totalitários europeus que as democracias ocidentais tiveram que enfrentar nas duas guerras foi, porém, fator de reforço na construção do governo centralizado na América, e por outro lado um fator de questionamento da democracia: “se o poder estava o mais claramente centralizado alhures, não se provaria a democracia vulnerável, numa era de bombardeios, cada vez mais rápidos e destrutivos, e de outras armas, a democracia não seria demasiado lenta, demasiado desajeitada?”. A democracia aqui se deve ler, o Legislativo, a representação da heterogeneidade da população, e o Judiciário.
Conforme Halberstam, portanto, a emergência dos Estados totalitários reforçou o poder do Executivo na América. O presidente usou o seu inusitado poder de influência “não apenas contra os Estados adversários, mas contra o público americano, o congresso e a imprensa, conforme o argumento das necessidades de segurança nacional”. Assim que as guerras acabaram, o foco de Roosevelt mudou “da política interna, sobre que o Congresso estava bem informado, para a política externa, área em que ele se sentia sempre ignorante e desajeitado, portanto inevitavelmente subserviente”. A mídia era usada pelo presidente, mas conforme suas próprias regras de ibope, jamais de um modo que as desafiasse. A mídia era usada, mas ela determinava as regras do jogo para qualquer utilização.
Roosevelt não devia se impor como fonte de obrigatória informação burocrática, um assunto sério que causasse tédio no horário do entretenimento, ele devia produzir-se como um ídolo desejado, ele mesmo o entretenimento, o redentor que todos esperavam numa época tão obscura como a da crise da bolsa, que Roosevelt fez terminar, introduzindo o Estado de bem-estar social.
Creio que pouca gente sabia que Roosevelt era aleijado. Como Halberstam observa, por um pacto sempre respeitado, os fotógrafos da Casa Branca nunca o mostraram em cadeira de rodas ou muletas, e os repórteres dos jornais respeitaram igualmente esse “direito do presidente”. O ar extremamente confiante, a haura do poder, a voz rica, familiar, as mãos possantes e atraentes, tudo em Franklin Delano Roosevelt inspirava um ardor que contaminava a imprensa, por vontade própria os repórteres abafavam notícias que pudessem comprometer sua imagem. Como quando Roosevelt foi votar e um dispositivo falhou, provocando sua irritação: “essa maldita coisa não funciona”, vociferou irado. Se Belair, do Time, imprimiu a nota “Roosevelt estava irado”, ninguém acreditou deveras. Naquela “época de alma pura”, que o presidente dos Estados Unidos pudesse incorrer em tamanha profanação era impossível, os repórteres haviam sempre protegido o público contra a revelação insidiosa, e Roosevelt negou que havia sido blasfemo (p. 21).
Por um efeito de compensação, nessa altura da mercatorização da presidência, a entrada da televisão no processo de açambarcamento midiático do político flexibilizou o antigo modo, e os candidatos passaram a serem ambos cobertos pelos jornais. Porém Ike usou o novo meio com certo comedimento, certo pudor, que a partir de Kennedy já não existia.
A crise na estrutura presidencial-midiática assim estabilizada, no episódio Nixon, corresponde na verdade a um clímax paroxístico, numa trajetória que não deixou por isso de ser sempre ascendente até hoje.
Halberstam soube como ninguém manejar o paradoxo desse momento nixoniano. Não só porque Nixon, como vimos, começou por usar a imprensa, e seletivamente, num golpe magistral que aprofundou a cisão dos veículos escrito e eletrônico, para, por turnos, se livrar depois de um e de outro, impondo uma agência própria e oficial, da Casa Branca. Mas por que ele soube explorar as regras do jogo.
Assim Spiro Agnew, o vice-presidente de Nixon que se lançou numa longa cruzada de crítica à imprensa liberal, na própria imprensa, produziu-se cuidadosamente como um homem carismático de imprensa. Por outro lado, a crítica do staff de mídia nixoniano soube se articular contra um construído estereótipo que unia a imprensa liberal a todas as inovações tecnológicas e sociais que, num ritmo demasiado acelerado, surpreenderam a nação, deixando grandes grupos de pessoas descontentes, desconcertadas.
Esses grupos podiam não ser necessariamente conservantistas republicanos, porém o construto era irresistível como alvo do ressentimento, o novo, as inovações que de modo arbitrário mudavam intoleravelmente os ritmos e os hábitos da vida, as multidões indo às ruas movidas pelo conflito racial ou protestos de jovens contra a guerra, impedindo a normalidade. Além disso, o staff soube misturar críticas procedentes, ecoando as que os próprios intelectuais liberais vinham tecendo, visando à mídia como clique potencial de posições unilaterais, e monopólio privado da informação.
A imprensa liberal, ou meramente autônoma, foi sendo encurralada sempre mais na defensiva. Os proprietários das afiliadas das grandes cadeias de televisão eram eles mesmos republicanos e aprovaram entusiasticamente a estratégia de Nixon. Chegaram a exigir, das cadeias televisivas com que estavam associadas, cobertura heroicizante do exército americano no Vietnã, a fim de reforçar a opinião a favor da guerra. Foi uma tarefa árdua para Sallant, o presidente da CBS, convencer os proprietários das afiliadas que isso causaria apenas imenso ressentimento.
Um fator que contribuiu para o sucesso da estratégia nixoniana de domínio sobre a mídia é que para muitos era notório que isso equivalia a domínio sobre a nação, e muitos americanos sentiam, conforme Halbestam, àquela altura, que era preciso alguém retomar o pulso, que o presidente anterior, Lyndon Johnson, havia perdido o controle do país.
O que é irônico, uma vez que a aceitação por intelectuais, da estratégia Kennedy de total midiatização da campanha presidencial pela televisão, superando os escrúpulos de Eisenhower, ocorreu, segundo Halberstam, porque, para os intelectuais da nação, Kennedy era uma fórmula contra Nixon. Na era Nixon, os intelectuais mesmos já estavam na defensiva, massas descontentes com mudanças que elas não compreendiam ou que resultaram em novos conflitos foram vitais para o retorno de Nixon à política.
Até estourar o escândalo de Watergate, Nixon provocara, pois, uma cisão na estrutura midiático-governamental norte-americana que vinha se estabilizando há décadas, porém se apenas para transformá-la num veículo inteiramente direcionado pelo Executivo, ainda segundo as próprias regras de cooptação midiática. A estrutura em si era inabalável.
Para Halbestam, o momento inicial, a era pré-franklin-rooseveltiana, a era da imprensa jornalística escrita, foi marcada por um passo lento, “relaxado e gentil”, homens de chapéu e bengala que não se importavam muito com a cobertura nacional, poucos homens como Oulahan do The New York Times ou Fred Essery do Baltimore Sun, cavalheirescos, de ar ocioso, cobrindo atividades de dignatários, não como se fossem de políticos práticos. Esses jornalistas cavalheiros eram essencialmente diferentes dos outros, aqueles que cobriam as histórias policiais.
As histórias dos dignatários nunca ultrapassavam o ditado da Casa Branca, mas eram os jornalistas que, como relativamente ao presidente Hoover, construíam a reputação. Somente na era Franklin Roosevelt teria havido algo como uma “explosão de notícias”. Não havia mais chapéu ou bengala, o passo se tornou rápido, havia sempre muitos e mais eventos, agências, fontes governamentais, Roosevelt pessoalmente apressava os repórteres à publicação imediata do que lhes comunicava (p. 17/19).
Cl. Julien (L’Empire Americain. Paris: Bernard-Grasset, 1968), inversamente, cobre o período pré-franklin-rooseveltiano como uma primeira integração estrutural que, para se lançar, atuou com grande impacto e sensacionalismo. A estrutura midiático-governamental coalesceu após a Secessão, no bojo da transformação dos Estados Unidos, de uma nação autônoma em um império neocolonialista que hoje abrange a hegemonia planetária do capitalismo. A violência com que a mídia se integrou pioneiramente como um fator intrínseco ao poder Executivo teve por pivô precisamente essa transformação, que não foi unilateralmente direcionada pelo próprio Executivo norte-americano.
A opção pelo imperialismo teve a princípio dois ingredientes. Por um lado, um alvo concreto e próximo, as pequenas ex-colônias da América Central, até aí orbitando em torno da antiga metrópole, a Espanha. Se o partido republicano, ao contrário do democrata, se notabilizou na história pela opção “isolacionista” junto com o ideário econômico liberal inversamente à ação anti-cartel dos democratas, isso não quer dizer anti-imperialista. O famoso “isolacionismo” republicano ressoa apenas como recusa de participar dos conflitos europeus. E o seu “liberalismo” na verdade implicou num verdadeiro fechamento protecionista dos Estados Unidos a toda ingerência de negócios estrangeiros, com objetivo de aumentar ao máximo o poder do empresariado norte-americano. Se em vez de isolacionismo e liberalismo dos republicanos, os democratas pregavam os direitos civis e o internacionalismo, o resultado quanto à política externa não era muito diverso.
Sobre o citado fechamento, de que o Dingley act, de 1897 a 1909, é um exemplo no tocante a firmas não-americanas, taxando em 57 % vários produtos na alfândega, segundo Julien, atuou inclusive sobre a lei de imigração.
Os Estados Unidos como terra da promissão para todos foi uma propaganda interessante apenas para uma parte da indústria ou para os dirigentes trabalhistas contra os trabalhadores sindicalizados. Inversamente, tanto os sindicatos quanto os republicanos insistiram em leis contra imigrantes. Aproveitando-se de limitações que pudessem mover a opinião pública, proibiram o acesso de anarquistas, iletrados, prostitutas ou condenados, assim como de chineses, mas também houve o recurso de minoração de quotas de entrada para vindouros de outros países. Inversamente, a atração de intelectuais do mundo faz parte de uma política que despovoa a inteligentzia nacional. A “diplomacia do dólar” ou o “big stick” – falar macio mas portar um “grande porrete” – foram lemas presidenciais do tratamento designado para os liderados, por um país que se considerou “líder espiritual dos povos bárbaros e senis”, na fórmula do senador Beveridge, isto é, os não-ocidentais e os europeus. Harding, que não chegou a cumprir o mandato – ao que parece assassinado pela esposa, porque tinha uma amante – apregoava o “America first”, todos os esforços da nação deviam ser apenas para ela mesma. A corrupção de negociatas durante Harding foi radical, apurada por número expressivo de processos escandalosos.
Por outro lado, o segundo ingrediente da transformação imperialista dos Estados Unidos consta de uma ideologia expansionista laboriosamente construída por vários agentes integrados. Homens poderosos da imprensa como Pulitzer e William Hearst; da política norte-americana, como os senadores Beveridge e Henry Cabot Lodge, ou ainda a “gang de Ohio” integrada entre outros pelo senador do Arizona, Albert Fall; líderes da igreja como Josiah Strong; líderes militares como o almirante Mahan; o escritor Herman Melville, e doutrinas presidenciais. (Nota 2 )
Porém, até abranger a conta certa da contribuição presidencial, a clique imperialista teve que romper a resistência de presidentes como McKinley. O apoio precedente de Theodore Roosevelt não se demonstra portanto como prova de um pensamento unívoco pró-imperialista existente desde o início. É justamente na época da presidência McKinley que, na pessoa de Hearst, a imprensa faz sua estreia como elite do poder, mudando o direcionamento do Executivo, a partir da manipulação da opinião pública. Tratava-se para Hearst de impulsionar a guerra contra a Espanha pela libertação de Cuba do imperialismo espanhol, verdadeiramente tirânico, porém não que líderes da resistência cubana como José Marti desconhecessem o perigo do imperialismo norte-americano. Tão certo que, na sequência das ações pró-imperialistas de Hearst, consta a sua amizade com o ditador mexicano Porfirio Díaz, uma das razões pelas quais o Morning, de Hearst, passou atacar o presidente Wilson, reclamando intervenção militar no México. Antes, Hearst havia apoiado Wilson, aliado na cruzada em prol da obtenção da ascendência sobre Cuba, através da guerra contra a Espanha. Outras razões foram, além do aumento das tiragens pela agitação da massa, que a mãe de Hearst possuía um rancho e outros interesses no México.
Na época da promoção por Hearst da guerra contra a Espanha, uma verdadeira histeria nacionalista de massas foi desencadeada nos Estados Unidos pelo seu jornal, que para isso chegou a produzir uma heroína, a “flor de Cuba”. Evangelina Cosio Y Cisneros, havia sido presa pelos espanhóis, conforme informaram os correspondentes de Hearst em Cuba, e logo estava ela apresentada à opinião pública, pelo Morning Journal, como a “Joana D’Arc cubana”.
Uma campanha visando ao apoio das mulheres norte-americanas à causa da “flor de Cuba” envolveu inúmeras signatárias cujos nomes apareceram em várias colunas do Journal, inclusive o nome da própria mãe do presidente McKinley, assim como da esposa do secretário de Estado, Mrs. Sherman.
A campanha atingiu o outro lado do Atlântico, milhares de assinaturas se seguiram, um apelo do papa foi endereçado, e quando afinal a “flor de Cuba” conseguiu fugir de Cuba com auxílio de um mercenário, Karl Decker, subvencionado por Hearst, ela desembarcou em New York provocando, segundo Julien, “um verdadeiro delírio popular” (p. 88). McKinley tencionava continuar resistindo ao populismo, porém, a onda dos protestos movida pela propaganda do jornal foi demasiado potente.
O episódio não foi isolado, e a conhecida história das primeiras anexações imperialistas, abrangendo São Domingos, Cuba, México, Filipinas, Havaí, Panamá etc., se esclarece na cobertura de Julien, a partir da intervenção de Hearst e outros integrantes da clique expansionista. Podemos desde esse episódio, caracterizar os momentos principais da construção daquilo que seria bem designável a “articulação mídia/Executivo” como estrutura do Poder imperialista estadunidense, a qual visou não apenas anexar as instituições do governo para os objetivos do imperialismo, monopolizando-as. Mas também transformar o Executivo numa forma de poder carismática, na terminologia de Weber aquela forma oposta ao desempenho racional. Construindo uma relação passional direta do presidente com o povo, neutraliza a democracia legal pela minimização da importância do legislativo e judiciário.
Se bem que Julien não o tangencie, é notório que o pensamento liberal nos Estados Unidos teve bastante alcance em inícios de século, como na Escola de Sociologia de Chicago, sendo como demonstra os artigos de Robert Park, expressamente anti-imperialista. Assim compreendemos a resistência de McKinley, mas também, conforme o que Julien observa, pelo fato de que os banqueiros e industriais estavam contra a intervenção bélica que julgavam prejudicial naquele momento aos negócios. Porém, logo o idealismo americano se tornou uma mentalidade abrangente, e os presidentes passaram a contribuir com doutrinas que reinterpretaram ao corrente do objetivo imperialista, o ideal oitocentista da doutrina Monroe.
O lema dessa doutrina, “a América para os americanos”, em 1826, foi um enunciado ecoando a guerra da libertação nacional frente à metrópole inglesa. Agora, em princípios do século XX, a ideologia expansionista construía-se como um verdadeiro idealismo, nitidamente reconstituível tanto na letra dos seus enunciados quanto nos acontecimentos de sua produção histórica.
De fato, Julien cuida dos dois aspectos. Já vimos o bastante para os limites do nosso estudo a propósito das práticas construtivas do imperialismo. Quanto à letra, a doutrina Monroe foi primeiro modificada pelo “corolário Roosevelt”, em 1904, condensando os princípios de Richard Olney e L. Drago. Tratou-se, na ocasião, de um conflito com a Inglaterra, provocado pela recusa da Venezuela em pagar dívidas contraídas com potências europeias, num contexto de litígio por fronteiras. O presidente Theodore Roosevelt aprovou a política belicista dos europeus para recobrar a dívida, porém recuou quando soube que se tratava do envio de navios ingleses, italianos e alemães. O que violava a doutrina de Monroe. Richard Olney, que se tornara procurador geral desde que lograra lançar na prisão a Eugene Debs, líder sindicalista por ocasião das greves das estradas de ferro, enunciara, em carta ameaçadora à Inglaterra devido ao conflito de fronteiras, o princípio pelo qual “Os Estados Unidos são praticamente soberanos sobre este continente e sua vontade é a lei para quaisquer matérias em que intervenham” (p.127).
A doutrina Calvo, do homônimo jurista e diplomata argentino, enunciava que um estrangeiro deveria submeter seus processos ao poder judiciário do país em que exerce sua atividade, ao invés de tentar obter reparação por meio de intervenção diplomática. Podendo ser utilizada na ocasião do conflito anglo-venezuelano, a doutrina foi complementada pelo protesto de Drago afirmando que nenhum país poderia recorrer à força armada para constranger uma nação americana a pagar suas dívidas.
Essa doutrina Drago não foi aceita nem pelo Congresso Americano em 1906, nem pela conferência de Haia em 1907, porém, já em 1903, Roosevelt havia obtido julgamento da questão da dívida venezuelana pela Corte internacional de justiça de Haia, a qual abateu o valor da dívida de quarenta para oito milhões de dólares – o que deixou a Inglaterra indignada.
Roosevelt, inversamente, considerou bastante satisfatório o desfecho, e em sua mensagem anual de 1904, enunciou o “corolário Roosevelt” à doutrina Monroe, pelo qual os Estados Unidos respeitam todas as decisões das nações relativamente ao continente americano enquanto eles não fossem perniciosos ao direito internacional, porém, a doutrina Monroe concedendo aos Estados Unidos o direito de “exercer um poder de polícia internacional”, a fim de garantir a vigência das relações civilizadas sempre que fossem elas desafiadas por infrações de suas regras. Assim, conforme ainda o Corolário Roosevelt, os Estados Unidos são “praticamente soberanos” sobre o continente americano, e “sua vontade tem força de lei” (p. 129).
Vicentino (História geral. São Paulo: Scipione, 1997), enuncia mais simplesmente o corolário Roosevelt: “Visando preservar seus interesses econômicos e políticos, os Estados Unidos garantiram-se o direito de usar a força para intervir nos países do continente, na posição de ‘salvadores da América’” (p. 330).
Julien referencia o idealismo americano como enunciado da “liderança espiritual” dos Estados Unidos como designado por Deus ou pelo “destino manifesto” a serem os civilizadores da contemporaneidade.
A “doutrina Wilson”, com efeito, rezava que os interesses dos Estados Unidos deviam ser definidos como os interesses de todas as nações do globo, conforme a orientação deste presidente que assim pretendera eliminar a oposição de nacionalismo e internacionalismo. Foi nesse princípio que o anticomunismo desde Truman se apoiou para sustentar o aparato da guerra fria, contra a expansão da União Soviética, em que vemos o momento nixoniano envolvido. Na verdade, acontecia então, após as duas guerras mundiais, as guerras afro-asiáticas contra a dominação colonial europeia, e os USA intervieram maciçamente, a fim de impedir que as nações emergissem com regime comunista, pró-soviético.
Lembrando que Nixon se elegeu presidente em 1968, quando nações latino-americanas estavam sob ditaduras militares anticomunistas, implementadas pelos USA, nesse ano houve no Brasil o assim designado “golpe dentro do golpe”, de modo que a prometida redemocratização rápida não aconteceu, desde o regime militar instalado em 1964. E quando Nixon se reelegeu, ocorreu o golpe no Chile, contra Salvador Allende.
Os anos setenta não foram tais que o terceiro mundo deixava de importar na cena política internacional – ao contrário do que Fredric Jameson afirmou. Bem inversamente, o anticomunismo foi um limiar pelo qual o imperialismo norte-americano de fato alcançou o âmbito de consequências planetárias. Porém, nem sempre como uma realidade da oposição local. Em vários casos, o anticomunismo foi uma desculpa deliberada, a fim de evitar emancipação econômica e democracia política das nações sob ingerência dos interesses capitalistas, isto é, imperialistas, americanos, atuando em conjunto com os europeus e japoneses. Mas, a essa altura, os interesses de algo como um império já estavam organizados nos Estados Unidos, num só bloco do poder interno, designável “complexo militar-industrial”. Atuando sobre todas as partes do mundo, conforme Julien demonstrou, o império norte-americano pode manobrar conforme os interesses do seu empresariado para obter as requisições que lhe pareçam necessárias, mesmo em questões de menor alcance – por exemplo, o Canadá teve que ceder quanto a uma taxa de importação de revistas americanas como Time Life e Reader’s Digest, que estavam subtraindo o montante dos anúncios das publicações canadenses, sob ameaça de Kennedy, de um corte de milhões de dólares já acordados para empréstimo a uma firma nacional. O caso de Cuba é exemplar, posto que Fidel Castro não fez uma revolução comunista, mas se tornou comunista depois que as firmas americanas Texaco e Standard, assim como a Shell, atuando em Cuba, se recusaram a tratar o petróleo bruto comprado da União Soviética, em moeda nacional e muito mais barato do que o americano a comprar em dólar. A nacionalização dessas empresas por Fidel foi seguida da retirada de enormes quantidades de compra do açúcar pelos USA em represália, o que provocou a ruptura do regime, o qual, enquanto durou, fizera saber que o embaixador americano devia ser “a pessoa mais importante em Cuba”, conforme Julien (p. 302 e segs.)
Nessa fase do complexo militar industrial, que é a da atualidade, os USA são líderes do mundo, mas já não tratam do mesmo modo os povos bárbaros e os senis. Atuando em função do imperialismo capitalístico, se acoplam aos interesses das multinacionais com sede na Europa. O mapa do conflito norte-sul parece a alguns uma realidade supranacional devido à formação de blocos econômicos e o papel preponderante das empresas multinacionais, mas, além da União Europeia, não houve qualquer ruptura das realidades nacionais, como podemos exemplificar pelos “tigres asiáticos” e o Japão. Na perspectiva da hegemonia estadunidense também continua nacional. As multinacionais têm na verdade sedes em países e/ou regiões cujos interesses são estreitamente ligados a elas.
Uma nota interessante da biografia de Ehrlichman, é ter ele sido preceptor de um dos netos de W. R. Hearst. Isso ocorreu após Ehrlichman ter-se graduado na Universidade de Los Angeles, onde estudou ao retornar da segunda guerra, em que participou pela força aérea. Logo que se formou, casou-se com Jeanne, também graduada, formando um grupo de amigos com Haldeman e a esposa Jo. Após o emprego com Hearst, Ehrichman mudou-se com a família para Seattle, e se empregou numa firma de advocacia, sendo também professor na escola dominical da igreja, quando recebeu o convite de Haldeman para integrar a equipe de Nixon, no final dos anos cinquenta. Ehrlichman, pronunciando-se sobre a política externa do governo Nixon, ridiculariza bastante Henry Kissinger. Uma figura caricaturada, o “bom doutor” universitário perseguindo neuroticamente membros do Staff nixoniano, a toda hora ameaçando demitir-se e voltar para Harvard se não acabassem com os odiados perseguidos.
O ressentimento de Ehrlichman se explica, uma vez que Kissinger era um querido da imprensa, e especialmente de Katharine Graham do Washington Post, tradicional alvo da hostilidade de Nixon e que desencadeou – ou não pôde evitar que seus repórteres o fizesssem – o escândalo de Watergate. Para Halberstam, de fato Kissinger era um especialista em creditar aos outros nixonianos a culpa pela agressividade da política externa de que ele mesmo, Kissinger, era o arquiteto – lembrando que Nixon prometera a paz no Vietnã, mas de fato o bombardeou cruelmente, e para alguns, segundo Halberstam, ele preferiu a via do bombardeio por ser algo que a televisão não podia filmar.
Mas Ehrlichman reconhece, afinal, que Kissinger estava certo ao afirmar que, retirando-se os soldados americanos da guerra, o regime pró-americano no Vietnã não duraria mais que um ano e meio. A quem Ehrlichman ridiculariza sem piedade é a Spiro Agnew, num capítulo intitulado “O vice-presidente”. Agnew é visto como um pretenso intelectual pernóstico, que só propunha itens irrealizáveis ou de fato incompreensíveis. Uma vez engajado no projeto Nixon de contenção de despesas, Ehrlichman se orgulha de ter cortado o programa espacial de viagem a Marte, que Agnew consertara com grande estardalhaço a partir da sua cooptação pelos bajuladores da Nasa. Se não fosse por esse corte, a viagem a Marte deveria ter ocorrido em 1981.
II) Doroty “Buff” Chandler
A derrota de Nixon na Califórnia em 1962, desta vez concorrendo para governador do Estado, não foi algo intrinsecamente relacionado ao uso da televisão, mas igualmente relacionado ao poderio da imprensa. Pat Brown estava sendo apoiado diretamente pelos Chandler do Los Angeles Times, não obstante o compromisso deles e do seu jornal com o Partido Republicano. A estabilidade desse compromisso, que inclusive se restaurou depois, tornaria o fenômeno quase inexplicável sem o conhecimento do papel de Buff Chandler, não tanto pelo que ela fez quanto pelo que simbolizou.
Ou seja, Buff, na apresentação de Halberstam, surge como o símbolo do modo confuso e não inteiramente planejável pelo qual os conservadores do Sul, entre os quais os Chandler como referência principal, precisaram confrontar o fato de que os USA, e até mesmo o seu próprio território, a Califórnia, estavam se tornando cada vez menos homogeneamente adaptados aos rígidos padrões do preconceito tradicionalista que até aí pudera imperar. Mas não havia qualquer inclinação destes conservadores para mudar factualmente as posições assumidas, o conservantismo não era seriamente pensado como o que se devia abandonar. Daí as idas e vindas, as reviravoltas, ora apoiando uns, ora apoiando outros, dentre os partidos em confronto.
Trama rocambolesca, que se reflete exemplarmente nas relações Chandler-Nixon, um pêndulo entre os dois extremos da total ruptura à estreita colaboração política. Não surpreende assim que, de tudo o que Halberstam registra, possa se afirmar que a tradição republicana do Times não foi seriamente desafiada. Os valores dos Chandler não chegavam a algo que pudesse facilmente se transportar para o outro lado de um modo total ou sequer totalmente convincente.
Afinal, Buff nunca deixou de ser racista. Já em 1976, tendo organizado o Blue Ribbon 400, “a elite das organizações de elite em Los Angeles”, para obter fundos destinados a um centro musical, almoçando com Betty Ford, então esposa do presidente em visita a Los Angeles, recebeu desta a sugestão de convidar a negra Ethel Bradley, mulher do prefeito negro Tom Bradley, para o almoço. Conforme Halberstam, “Buff respondeu que isso estava fora de questão. A senhora Bradley não era, antes de tudo, um membro” (p. 384, 85).
Como um todo, o núcleo dos Chandler, composto pelo maior proprietário Norman, Buff e o filho Otis, singularizam-se pela deliberação de se tornarem os realizadores da ruptura dos novos tempos no Los Angeles Times. Ficariam para trás, abrupta ou gradualmente conforme o caso, os nomes da história do Times ligados ao que agora se tornara a política autoritária do passado.
Os antepassados, como o avô Otis, um homem brutal, e o histórico Harry Chandler, um típico líder de cartel, igualmente duro, mas usando mais as táticas das leis do que da força, não deviam ser modelos de conduta. E os mais velhos, que permaneciam nos quadros ativos, eram cada vez menos preponderantes nas decisões.
O novo Otis, filho de Buff e Norman, um aluno da nova educação e “lestizado”, não tão tradicionalmente californiano, que se tornou o responsável pela administração nesses novos tempos, não pretendia ser o produtor do rei (“kingmaker”), isto é, o responsável pela campanha do Partido, como antes os administradores do Times haviam sido. Inversamente, para Kyle Palmer, o número um de Harry Chandler, e que continuava na ativa ainda que sem papel decisivo, o Times e o próprio Palmer não apenas apoiavam o Partido Republicano, eles eram o Partido Republicano.
Ainda assim, vemos que Norman, atuando entre os mundos do tio Harry e do filho Otis, fez o papel de “kingmaker” em campanhas como de Patt Brown e subsequentemente, apesar da ruptura, do próprio Nixon. Mas as considerações que podem ser tecidas em torno desse consenso comum do núcleo familiar, entre pai, mãe e filho, não bastam. Buff e Otis formam uma história à parte. Norman, como pai, estava envolvido num círculo mais vasto da dinastia Chandler. Esse círculo de parentes deviam ter recebido Buff como a mais nova integrante da família, mas não foi assim. Eles a receberam com ressentimento. Não estavam interessados em ceder para Norman como pai do novo Otis, este o neto do velho Otis, a direção dos negócios, um verdadeiro “império”.
Norman Chandler foi exitoso em obter para Otis, e não para o círculo exterior da família, a sucessão na direção do “império”. Segundo Halberstam ele foi justo, organizando pensões polpudas para os outros membros. Porém, o antagonismo contra Otis e principalmente contra Buff nunca deixou de existir, e Buff logo descobriu que não era apenas uma questão de família. Devido à importância dos Chandler, era toda a sociedade de Los Angeles que estava contra ela.
Buff, cujo verdadeiro nome era Dorothy, e cujo apelido é abreviação do sobrenome, Buffum, reagiu à depressão a que primeiro sucumbira devido à estigmatização familiar, por meio de um tratamento psiquiátrico com a então famosa terapeuta Josephine Jackson. Com relação ao conflito social, ao retornar do sanatório, Buff utilizou a seção feminina do Los Angeles Times como uma trincheira. Conforme Halberstam, “a importância do que ela realizou por meio das páginas femininas [do jornal] não pode ser subestimada na história da Los Angeles contemporânea” (p. 383). Se ela havia sido “ferida e rejeitada por uma ordem social, Buff Chandler objetivou redefinir a ordem social da cidade inteira”.
Seu instrumento mais agudo foi a seção social do Los Angeles Times. A partir de que ela pôde eliminar ou punir aqueles que não se coadunavam com seus valores, e premiar aqueles a quem estimava.
Buff repetia assim, na escala da vida social, a ordem invariavelmente repetida da política conservantista norte-americana em seus mais altos escalões. O partido republicano ou a mídia que o apoiava e com ele se identificava, a mídia escrita ou eletrônica como negócio de homens poderosos, milionários. Eliminar os adversários, promover e proteger os amigos.
Os adversários eram, portanto, o mais frequentemente, os políticos em campanha pelo Partido Democrático. Mas quando, por um motivo de circunstância, não era esse o alvo, nunca deixava de ser o qualquer-um acusado de “comunismo”. O mais frequentemente era o candidato adversário do Partido Republicano. Mas nem sempre. A propaganda anticomunista de Kennedy foi bastante eficaz, esse era um item infalível da retórica política, contra o “comunismo” sempre se arranjavam correligionários. Assim devemos lembrar que foi o partido democrata de Kennedy quem deflagrou o golpe ditatorial militar no Brasil, em 1964, expressamente programado para derrubar o honesto e democrático governo João Goulart – conforme o que iremos demonstrar à frente (Livro 2).
O pragmatista Richard Rorty documentou a unidade anticomunista da própria esquerda norte-americana nessa época. Creio ser oportuno lembrar que o pragmatismo no Brasil foi a doutrina oficial do DIP (departamento de imprensa e propaganda) da ditadura Vargas, o assim designado Estado Novo que tinha, porém, inclinação fascista. Ch. Reich, em The Greening of America, de fato considera a época precedente aos sixties como demasiado integracionista naquele país, sem muita consciência da subjetividade.
A retórica anticomunista foi não apenas o ítem infalível do ataque ao adversário, mas a senha do imperialismo norte-americano que até aí, o pós-guerras, comentaristas como Cl. Julien afirmam que havia sido brando, quase involuntário da perspectiva do Executivo. Na verdade, algo típico de um setor de extrema-direita, minoritário em princípios de século. Como vimos na história do jornalista Hearst, insuflando a guerra contra a Espanha, apenas para aumentar suas tiragens, e manobrando tão bem a opinião pública que ela, e não qualquer político ou o presidente, passou a exigir a guerra. A qual foi risível – não havia praticamente oposição viável aos combatentes norte-americanos, com o resultado tendo sido a penetração dos USA nas até então possessões neocoloniais espanholas na América Latina. Mas, após as duas guerras, estava em marcha a guerra afro-asiática pela libertação, e os USA se tornaram os artífices da ordem que agora está vigente, com domínio sobre o terceiro mundo. A parte importante dessa história está interligada à escalada do poder das assim designadas, sociologicamente, “comunicações em massa”. Não feita pelas massas, não “de massas”, mas para elas, por uma das elites mais poderosas do mundo.
Quando Buff e Norman Chandler se tornaram os patrocinadores (“spounsors”) de Nixon, isto foi resultado das atividades de Kyle Palmer, quando ainda gozava de prestígio e permanecia o “kingmaker” da Califórnia. Ele vendeu Nixon aos Chandler, iniciando a “conexão” Nixon-Times. A ocasião foi propícia. Nixon, apresentado aos Chandler como o vencedor da campanha contra Voorhis, o candidato democrata praticamente destruído pela falsa história plantada pelo Times, de Voorhis como líder de um ala vermelha radical do Partido Democrático. O Partido não representou problemas a Voorhis, a falsidade da história era notória, porém, o público acreditou, ao menos, num Voorhis diferente dos democratas mais confiáveis, mais radical do que eles.
Como um vencedor, o primeiro encontro de Nixon com Buff e Norman no edifício do Times, em 1946, não resultou, porém, numa amizade real. Buff não simpatizou com Nixon, que não devia ainda assim ser descartado, e, bem pelo contrário, estava solidamente amparado como instrumento político do poder dos Chandler.
A mãe de Nixon estava presente, e, à indagação de Buff sobre o que desejavam beber, ordenou leite, ao que o filho ecoou. Mas subindo aos aposentos privados dos Chandler, Nixon solicitou um Bourbom a Buff, escondido da mãe. O que não causou boa impressão. Buff considerou impertinente que um homem adulto devesse esconder a bebida de sua mãe. Em todo caso, o incidente não desfez a conexão. Conforme Halbestam, Buff “não deixou que isso interferisse no modo do patrocínio do Times a Richard Nixon. Os Nixon, antes de tudo, eram políticos, pessoas para serem usadas, não para serem amadas. Eles o usariam, ele os usaria. Não precisavam ser amigos” (p. 364).
O que realmente interferiu? Anos mais tarde, a derrota de Nixon na campanha contra Kennedy. As circunstâncias militaram contra Nixon, porque na ocasião os Chandler estavam envolvidos ao máximo na sua deliberação de se tornarem o marco dos novos tempos. Contribuiu para isso um movimento social ultradireitista, designado “John Birtch Society”, cuja estratégia havia sido inundar as redações dos jornais com cartas panfletárias, usando termos violentamente injuriosos contra tudo que se relacionava aos novos tempos e às mudanças sociais recentes. A propósito, a John Birtch Society é reportada na literatura de ficção norte-americana como responsável por cooptação corrupta do atendimento em hospitais e por intervenção de sabotagem séria nas instituições educacionais – há referência contundente em O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas; uma investigação sobre valores, de Robert M. Pirsig (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984). Halberstam não relaciona diretamente à Birtch porém, o episódio por ele narrado, em que Buff salva a vida de Otis, que havia sido acidentado, ao recusar o diagnóstico de um hospital e levá-lo a outro, onde de fato constataram que o rapaz podia ser curado, e, assim, empregaram os aparelhos necessários.
A “Sociedade” Birtch estava bastante estruturada, e o círculo exterior da família Chandler, a parte contrária a Buff, profundamente envolvida. Norman fez o papel do cavalheiro das boas novas, investindo contra os birtches na Califórnia, mas isso repercutiria melhor se ele se tornasse do mesmo modo partidário de Kennedy.
A campanha de Kennedy é uma história à parte na exposição de Halberstam. Não só pelo uso da mídia, que, entretanto, tornou-a fenômeno nacional: “as multidões eram incríveis, enormes, intensa, obviamente sexuais...”, resultado “da intrusão da televisão na vida política” (p. 419). Mas, também, pelo uso das técnicas estatísticas de Lou Harris, que informavam Kennedy quais cidades eram pivôs da campanha – assim Virgínia Ocidental foi decisiva, pois, conforme as informações de Harris, concentrara a mais séria oposição a Kennedy, porém, algo que ele poderia e deveria confrontar diretamente, a saber, o problema do seu catolicismo. Kennedy pôde então cortar os argumentos principais explorados contra ele, salientando amplamente pela televisão o seu compromisso de separar igreja e Estado.
Unir-se ao ímpeto das multidões e apoiar Kennedy seria, pois, a opção mais condizente com os objetivos dos Chandler. Porém, eles não estavam preparados para uma ruptura tão abrupta. O que é compreensível, uma vez que a reserva de Nixon para a campanha presidencial havia sido arquitetada muito antes por Kyle Palmer, num negócio bastante sujo, com que colaborara decisivamente Buff Chandler.
Nixon não foi um vice-presidente de que Eisenhower gostasse. A rivalidade deste contra Nixon revelou-se persistente, e moveu pessoas como Frank Staton a uma permanente suspeita anti-nixoniana. Kyle Palmer devia, pois, ainda nessa época, e para proteger a carreira de Nixon, afastar da rota do poder aqueles que futuramente poderiam ser seus antagonistas. Isso mudou o destino do governo da Califórnia. Goody Knight, o governador, detinha sem dúvida popularidade suficiente para reeleger-se, mas Kyle Palmer não o desejava, prevendo que se Knight se tornasse tão poderoso, dividiria o partido na decisão sobre a campanha para a presidência.
Palmer, unilateralmente, decidiu que Bill Knowland deveria concorrer para governador, e Knight para o senado, como uma estratégia Nixon-Palmer.
Convencer Goody Knight foi a parte suja do negócio, uma vez que ele já estava certo de ter o número de votos necessário para vencer largamente o pleito governamental. Palmer atuou por meio do tráfico de influências, de modo que todas as fontes de patrocínio da campanha de Goody Knight, por parte dos contribuintes milionários do Partido Republicano, foram cortadas. A cada vez que Knight reorganizava as forças, e contatava pessoas que pensava poderem obter fundos, recebia um telefonema de Kyle Palmer informando de uma fonte retirada.
Goody não tinha muito o que dizer, a palavra de ordem estava do outro lado da linha, com Palmer: “quando o telefonema acabava o governador da Califórnia estava abatido; ele deitava no sofá na posição fetal, uma pessoa alquebrada” (p. 374).
Buff Chandler, então, completava a operação. Após outros, como Ahmandson, que deviam parecer mais gentis na denegação de fundos para a campanha, tudo bem orquestrado, era agora ela em pessoa, do mais alto escalão, e, portanto, não habitualmente uma interlocutora, quem telefonava.
Quão maravilhoso seria, para Goody e Virginia, sua mulher, mudar para Washington. E o quanto o Times já havia feito por eles, no passado…
O resultado dessa orquestração foi porém desastroso para o partido. Tanto Knowland quanto Goody Knight perderam. Pat Brown tornara-se o segundo democrata governador da Califórnia, êxito que ele iria repetir logo depois, contra o próprio Nixon.
Halberstam nota que concorrer para governador da Califórnia não foi algo que Nixon particularmente quisera. A campanha não foi bem conduzida. Mas nesse ínterim, a cisão dos Chandler com Palmer já havia ocorrido, e do mesmo modo a enorme decepção pela vitória de Kennedy. Buff, especialmente, sentiu-se, na noite da eleição, pessoalmente atingida. Como Nixon podia ter feito isso com eles?
O apoio do Times foi brutalmente denegado na campanha de Nixon contra Pat Brown. Esses acontecimentos sem dúvida vão se refletir na maneira como Nixon tratou a imprensa ao vencer contra todas as expectativas, as eleições presidenciais, em 68. Não teria ele motivos para se mostrar ressentido?
Mas nesse ponto devíamos também conceder atenção a como a história das relações Nixon/imprensa foi contada pela ótica da “testemunha do poder” nixoniano, John Erlichman - ele mesmo agente de imprensa da Casa Branca, na qualidade de responsável pelos assuntos internos.
III) Marianne Means
Ehrlichman não parece preocupado em justificar as assumidas sabotagens contra os democratas. Os números dos telefones para quem Pat Brown deveria ligar conclamando a colaborar no corpo a corpo eleitoral, aquelas linhas que a equipe de Nixon ocupou como vimos acima, foram obtidos pela equipe com um empregado da companhia telefônica. Assim também, o lixo do escritório do oponente de Nixon para governador da Califórnia havia sido regularmente coletado por um amigo de Chotiner, colaborador da equipe de Nixon, de modo que Ehrlichman tinha acesso à agenda de Brown pelo exame dos rascunhos que este jogava no lixo salvo depois pelos lixeiros.
A família de Nixon, grande, tumultuosa, sempre reclamando de sua pouca atenção, especialmente um irmão problemático que tinha acentuada tendência para aproveitar-se da ligação com o presidente para obter acesso fácil a canais de crédito destinados contudo a negócios não muito lícitos, é assunto de um capítulo interessante de Ehrlichman sobre como o Serviço Secreto do governo norte-americano atuou na vida privada dessas pessoas.
A família foi habilmente produzida para encontros formais, que se não satisfizeram a ninguém, criaram uma imagem de harmonia bem irredutível à distância e conflito potencial que existiam na realidade.
Os embaraços que o irmão criou para Richard Nixon tornaram-se caso de apuração, mentiras desse irmão foram descobertas ainda que ele pensasse estar sendo convincente, negócios duvidosos dele ou ligações embaraçosas para o presidente foram afinal francamente proibidos pelo Serviço Secreto.
Nada disso transpira como algo que Ehrlichman pense ser necessário justificar, não há uma palavra sobre o sentido dos atos, tudo é apresentado como decorrência natural da máxima da política de Maquiavel pela qual os fins justificam os meios. Eram os objetivos da administração Nixon o que importava, a tomada do poder pela equipe, o sentimento de estar fazendo o que devia ser feito. Independente de perspectivas pessoais, azeitar as engrenagens da máquina racional-burocrática, apenas permitir que funcionasse sozinha.
Também não há uma palavra de Ehrlichman no sentido de justificar a perpetuação da guerra do Vietnã, a dominação sobre o terceiro mundo. E o que ele pôde dizer de positivo a propósito do FBI limitou-se ao apoio deste à posição antipopular do governo Nixon, como repressor dos “black panthers” - mas recusando ocupar-se do crime organizado e negócio de drogas - conforme a ligação do governo com o diretor do FBI, Edgar J. Hoover, então com 74 anos.
Ligação cuidadosamente planejada por Haldeman, de modo a evitar o acesso direto de Hoover a Nixon, mas por outro lado fazer com que o FBI tivesse um canal privilegiado de acesso ao staff por meio de Ehrlichman. Hoover e Nixon mantinham, não obstante, relações amistosas, como exemplifica o jantar que Ehrlichman relata, na suntuosa casa de Hoover.
Como advogado, homem de letras, crente da “ciência cristã”, Ehrlichman esconde mal sua característica reserva frente ao aparato do poder policial. Sua perspectiva ao visitar Hoover na sede do FBI, ao inverso do que é habitual ao longo do livro, concentra-se na aparência: o corte de cabelo, o modo de vestir e se calçar, dos rapazes do saguão.
Hoover ocupa o centro, a sólida escrivaninha, numa sala cuja aparência semelha a Ehrlichman uma fortaleza. Erhlichman fica um tanto aquém de Hoover, que domina os fatos com profissionalismo. Ehrlichman não consegue mascarar sua incapacidade para entender os meandros do discurso e atos de Hoover. Ou talvez Ehrlichman tenha deliberadamente criado uma imagem de candura e de inocência, a juventude bem intencionada, pura ainda que ingênua, frente aos planos rebuscados dos mais velhos, comprometidos com o que a boa consciência poderia recusar. Porém Ehrlichman não enfrenta a questão Vietnã.
Inversamente, como se estivesse amparando a sua posição de vítima injustiçada, acredita que o FBI não tencionou de fato apoiar o presidente. Ele positivamente crê numa história sobre a amizade de Hoover com o sogro de Daniel Ellsberg, o que explicaria o fato deste ter podido se apoderar do documento secreto no Pentágono, um estudo requisitado por Macnamara a propósito do verdadeiro estado de coisas no Vietnã.
As coisas se tornam algo engraçadas, depois, com Hoover exemplificando as famosas hesitações de Nixon quando se tratava de demitir alguém importante, que houvesse obtido relações pessoais com ele. Uma vez tendo havido o jantar, e contra todas as expectativas, mais uma vez Nixon não consegue demitir Hoover, ainda que isso houvesse sido planejado. Haldeman admoesta Ehrlichman, ansioso por saber se a demissão acontecera: “Não pergunte. Ele [Nixon] não quer falar sobre isso. Não pergunte”. E Ehrlichman é instruído para não dizer nada a ninguém sobre as ligações Hoover-Nixon (p. 145).
Afinal
Ehrlichman consegue completar a produção da imagem do FBI de Hoover
como uma instituição à beira da total incompetência. Hoover
comunicou diretamente a Nixon o que havia sido uma denúncia sobre
ligações homossexuais entre Ehrlichman, Haldeman e D. Chapin. A
história era completamente falsa, mas houve muitas investigações,
e os envolvidos tiveram que provar onde estavam nas ocasiões em que,
segundo a denúncia, participavam conjuntamente de orgias.
Ehrlichman comenta ter Murray Chotiner descoberto que a
história havia sido “reportada” por um agente de Jack Anderson,
agente que fazia a ligação da periferia com a imprensa de
Washington.
Mas o capítulo da imprensa é uma exceção na sequência de capítulos característicos como esse, sequência destinada a corroborar, ao longo do livro, a versão de Ehrlichman como um anjo de candura. Ou talvez um homem perplexo devido à injustiça sofrida, em todo caso sempre podendo parecer algo desajustado para os outros, apenas por não ter a capacidade de prever a crueldade deles.
A imprensa não podia ser tratada de um modo automático. Do outro lado estava a interpretação, estreitamente interligada ao ânimo, à disposição das pessoas envolvidas, não apenas o direcionamento pré-estabelecido do “negócio”. O episódio envolvendo a jornalista Marianne Means tornou-se proverbial. Ehrlichman nunca se livrou, depois, de indagações a propósito. Ele parece convencido de que mostrou o lado verdadeiro dos fatos, e que todas as suas repetições posteriores apenas melhor o corroboram. Porém o leitor tem o direito de questionar a certeza em torno de que Ehrlichman constrói a sua perspectiva.
Ele começa por justificar o seu “direito absoluto” (“absolute right”, p. 253) - assim como o da CBS em designar quem quisesse para a Casa Branca - de ter sua própria opinião a propósito da competência da pessoa escolhida. Porém Ehrlichman não compreende o alcance do pronunciamento endereçado, além da mera escolha pessoal.
Pode ser que a peça tenha sido montada. Que não tenha sido por acaso que Dick Salant, o presidente da CBS, tenha aparecido durante o almoço de Ehrlichman com John Hart, no Plaza de Nova York em abril de 1971. Tendo Ehrlichman viajado de Washington na noite anterior, o que cria a versão de um Ehrlichman sonolento, algo atordoado, participando do programa de entrevistas de Hart na CBS, algo tão cansativo que o almoço ocorre em meio à gravação do programa. Salant, ao se unir a ambos no restaurante, introduz uma questão difícil, e Ehrlichman não percebe estar sendo apanhado na rede.
A questão é sobre Dan Rather, um remarcado crítico da política interna de Nixon na imprensa - nesse ponto, Ehrlichman se expressa em termos de ser Rather um crítico de “nossas iniciativas em assuntos internos” (“our domestic-policy initiatives”, p. 250, o grifo é meu). Uma forma de expressar sua identificação com o governo Nixon como um todo, o que Ehrlichman nem sempre mantem, bem inversamente, muitas vezes se colocando como uma peça adjacente num esquema não inteiramente dominável.
Ora, Salant quisera saber a opinião de Ehrlichman a propósito do pessoal da CBS que ele escolhera para cobrir a Casa Branca. A resposta de Ehrlichman foi que Don Rather, especificamente, era um preguiçoso, “lazy”, ou um mal intencionado, “biased”, ou seja, alguém “tendencioso”, com um viés já predisposto. A resposta viera tão ligeiro porque segundo Ehrlichman pelo menos uma versão totalmente errada de fatos relativos à política de Nixon estava circulando na imprensa, e, pior, ninguém tinha se dado ao trabalho de checar a história com o pessoal do Staff.
Em Junho, Marianne Means, que Ehrlichman apresenta como “uma colunista política de Washington” (“a sindycated Whashington political columnist, p. 251), reportou, “erroneamente” segundo ele, o seguinte. O “principal assistente de política-interna de Nixon” teria visitado Salant na CBS, para solicitar que este demitisse o veterano correspondente da TV na Casa Branca, porque “o presidente não gostara do modo como ele estava reportando as notícias”.
O “principal assistente de Nixon”, Ehrlichman, transcreve em seguida vários desmentidos que tiveram lugar na imprensa: O Times, o Post, e o próprio Star em que Marianne colaborava, publicaram notas dizendo que ele não havia solicitado a demissão de Rather. Porém à época do escândalo de Watergate a história da solicitada demissão de Rather retornou na imprensa, focalizando a versão do próprio Rather, como alguém preterido e eventualmente visado para exclusão pelo staff de Nixon.
A repetição da mesma questão por jornalistas sempre que se aproximavam de Ehrlichman, então em evidência como testemunha nos inquéritos e processos de Watergate, querendo saber se era verdade que ele tinha pedido a demissão de Dan Rather, tornou-se frequente. Ehrlichman repetia sempre a história inteira. O que não bastava para formar uma opinião consolidada a propósito.
Para o assistente do presidente, o caso é exemplar da hostilidade ou má-vontade da imprensa.
A meu ver, realmente não há como separar a acusação de ser mal intencionado ou preguiçoso, feita para um empregador, da intenção de que este demita o empregado. Tanto mais que se tratava de uma acusação visando o modo como se devia continuar procedendo na cobertura de nada menos que a Casa Branca. Eis o ponto que Ehrlichman jamais apreende. Para ele o episódio devia seu significado inteiramente a uma opinião pessoal. Porém segundo ele é fato que suas palavras não foram literalmente um pedido de que Rather fosse demitido.
Um outro episódio envolvendo a falta de tato na interpretação alheia ocorre na exposição de Ehrlichman, quando o governo Nixon reclama que os repórteres faziam perguntas infantis. A imprensa publica que para o governo Nixon, os jornalistas são infantis. Nada menos exato para Ehrlichman. A seu ver o governo jamais disse que os jornalistas são infantis, ao afirmar que as perguntas deles são infantis.
Ehrlichman não esconde revelações, porém, quando se trata do planejamento do Staff a propósito da imprensa. A filosofia do governo se expressava num slogan, “a imprensa é hostil” ( “the press is hostile” ), o que se explica porque Nixon havia logrado, por sobre a cabeça da mídia, alcançar diretamente o público. “A imprensa é hostil, e nós vamos continuar indo por sobre suas cabeças até o público” ( “The press is hostile, and we’ll continue to go over their heads to the public”), a palavra de Nixon para Ron Ziegler. (p.246)
De que resultou um estudo de Herb Klein e Ron Ziegler intitulado “Aqueles com quem podemos contar”, uma lista curta; e um outro intitulado “Aqueles com quem não podemos contar”, de duas páginas e meia. Eram nomes de jornalistas.
Richard Valeriane da NBC estava listado como “inamistoso”, tendendo à negatividade, devendo ser forçado ao positivo; Bob Pierpoint, da CBS, rotulado como “neutro”, porém demasiado emotivo; Cliff Evans, “amistoso”, um bom guia para questões importantes, porém, “deploravelmente com pouca audiência”. Bill Gill era “pouco inteligente”, e como Frank Reynolds, não muito confiável, mas por vezes aproveitáveis. O pior era Sander Vancour: “você o conhece...” (p. 247). Arrolado como o mais “vingativo”. Vancour havia sido amigo pessoal de Kennedy.
A intenção da presente pesquisa corresponde ao desenvolvimento da questão: o que implica tal atitude, além da constatação óbvia de uma crise institucional? Havia realmente um plano do governo Nixon para controle total da informação, que incluiria domínio sobre a mídia mas também sobre as organizações políticas? Como “uma campanha de alto escalão visando sabotagem e espionagem num grau aparentemente inédito na história da América”, como anunciou Cronkite no primeiro documentário da CBS, de quatorze minutos, sobre Watergate?
E de que modo podemos situar a ação da própria mídia, se existiu algo que pode ser unificado nesse sentido, como, inversamente, o que o governo Nixon estava confrontando, independente de Watergate?
Ehrlichman, após os anos de prisão, continuou por algum tempo “on parole”, sob vigilância oficial. O responsável por ele ficou sendo Norman Mugleston. Ehrlichman logo se empregou na Mutual Broadcasting System, que o convidou para uma série de pronunciamentos no rádio objetivando atrair o máximo da atenção da imprensa, em 1978. Mugleston o chamou, porém, uma vez, para prestar esclarecimentos. Ele parecia bastante preocupado acerca da mais recente conferência de Ehrlichman à imprensa, e perante um Ehrlichman perplexo, para quem, ao contrário do que Mugleston dizia, não havia ocorrido nada de polêmico, explicou que a Parole Comission estava decidindo se a permissão para viajar envolvia permissão para conduta que poderia levar a processos legais. Dan Rather reclamara de Ehrlichman à Parole Comission de Washington, acusando-o de circular falsas acusações contra ele.
Erhlichman realmente havia se pronunciado sobre Rather, mas devido às perguntas que a imprensa não parava de lhe fazer sobre isso, ele mantendo que não havia solicitado demissão de Rather a Salant, e até relatando que um dos repórteres afinal lhe disseram que era da CBS Televisão, e que tendo trabalhado para Rather por anos, realmente o considerava preguiçoso.
Ainda assim, a questão para Mugleston era se o pronunciamento podia ou não ser considerado contencioso, uma vez que a Comissão - e o chefe de Mugleton - deviam responder à reclamação de Rather. Ehrlichman reagiu energicamente, indagando a Mugleton se isso significava calá-lo coercitivamente, subtraindo sua liberdade de expressão. Mugleton garantiu não estar pretendendo injuriar Ehrlichman, mas também assim considerava não ser o caso do próprio Rather.
O inquério da Parole Comission não prosseguiu, devido à veemência de Ehrlichman, declarando a Mugleton, como sua resposta à Comissão ou a Rather, que não iria mudar sua conduta a não ser que seu advogado ordenasse de outro modo.
Ehrlichman relata ainda que um ano depois encontrou-se com Tom Brokaw, o concorrente, da NBC, de Rather da CBS. Brokaw contou a Ehrlichman que havia sido convidado para o lugar de Rather na CBS. Ehrlichman reflete assim que seu pronunciamento a Salant, em 1971, pode ter salvo o emprego de Rather por todos aqueles anos, uma vez que a CBS talvez não o tivesse demitido então apenas para não ser acusada de estar agindo sob o impacto da crítica da Casa Branca.
IV) Missy Chandler
A esposa de Otis, filho de Buff e Norman Chandler, Missy Chandler, o esperado ponto de mutação, o marco a partir de que o Los Angeles Times devia resplandecer como o signo do novo.
Porém Mrs. Otis Chandler não se tornou a filha querida de Buff, esta a artífice da transformação histórica. Halberstam a apresenta como alguém “de quem Buff não gostava” (p. 377).
Buff havia se tornado neurótica a propósito de qualquer dúvida sobre seu status de mais importante dama da cidade de Los Angeles. Não poderia alguém atrever-se a não convidá-la para um jantar considerado importante, e ao convidá-la era imperioso fazê-la sentar no lugar principal. Assim, ficaria furiosa se, por engano, um colunista social reportasse que num jantar em homenagem a Ronald Reagan, Missy Chandler sentara-se ao lado do governador, não, a reportagem teria que ser corrigida, havia sido a Sra. Norman Chandler quem se sentara ao lado do governador. (p. 375, 376)
A essa altura, Buff estava sendo chamada pelos amigos a “Rainha Vitória”, enquanto os menos sinceramente afetuosos, como uma irmã de Norman já obrigada a tratá-la cortesmente, a designava “Senhora Rainha”. Missy confidenciava aos amigos ter compreendido, desde que Otis a escolhera por esposa, que não haveria alternativa, iria ser uma vida com pouquíssima liberdade de opção pessoal, devotada às obrigações familiares há muito prescritas. (p. 410) Na verdade, como responsável pelos negocios da família, Ottis nem mesmo podia escolher o candidato que o jornal apoiaria nas eleições, mas apenas seguir a orientação consolidada. Ele não pensava em Nixon senão como uma opção dos pais, não de si mesmo, e havia pessoalmente simpatizado com Hubert Humphrey. Por temperamento, Otis criara uma espécie de vácuo político em torno de si, inversamente à tendência dirigista do avô e do pai, mas, mesmo assim, Missy chamou sua atenção para a necessidade de decisão a propósito, e ele declarou seu apoio a Nixon, em 1968, mais uma vez cedendo à obrigação inerente à responsabilidade do cargo na condução do Times.
Como casal, Otis e Missy passaram a ser convidados para ocasiões sociais importantes, em lugar dos pais, quando Buff já estava com idade considerável, mas a princípio a elite do jornalismo preferia tratar de negócios com Norman e Buff, mesmo com Otis já encarregado do jornal, porque não se sentia à vontade com ele e Missy, considerados ainda muito jovens.
Os pais ditaram praticamente toda a carreira de Otis como publicista (“Publisher”, o termo inglês na acepção de “proprietário de jornal” diferente do sentido histórico na língua portuguesa como meramente alguém que publica artigos escritos por si mesmo). Ele não fez realmente suas próprias escolhas além do parâmetro puramente administrativo.
Se existiram crises, elas foram sempre devidas a ocasiões em que o Times refletiu alguma opção política dele mesmo, coerente com o que ele sentia ou pensava sobre si como pessoa e como cidadão, isso significando que todas as opções divergentes foram depois revogadas, o jornal voltando ao Partido Republicano, e, consequentemente, entre 67 e 73, a Nixon.
Mesmo o que se poderia considerar algo como uma linha puramente administrativa, ela foi constantemente posta em cheque quando refletisse na contratação de um bom profissional. Como Frank McCulloch, que viera do Time magazine, ou o humorista Conrad.
A contratação imediata de Frank Haven, conservador representando a perspectiva tradicionalista californiana, anulou a iniciativa de Otis em “lestizar” o jornal a partir de McCulloch, e mesmo assim algum tempo depois McCulloch retornou ao Time magazine de New York, traumatizado com o período no Times dos Chandlers em Los Angeles. Conrad foi útil a Buff e Otis numa crise, quando eles haviam apoiado um candidato minoritário na convenção do Partido. Mas progressivamente, à medida que a impossibilidade de romper com o partido Republicano precipitou a volta do patrocínio a Nixon, consolidou-se como estorvo no jornal. Sendo porém demasiado importante, Conrad não foi mandado embora, e sim reservadas as suas charges para a seção expressamente dedicada à palavra dos outros, destoante da linha do jornal.
Ainda assim, parece-me afirmável que Halberstam acreditou na trajetória linear do antigo ao novo. Otis era o ideal-tipo dos anos sessenta, tão profunda, tão óbvia e dicotomicamente oponível aos tempos do passado. Otis se sentia, se via a si mesmo, como o jovem dos sixties alinhado numa tríade: “o negro, o jovem, o pobre”. Ainda que seus atos não o pudessem refletir, ainda que ele não fosse precisamente nenhuma dessas três coisas, ele era tudo isso, para si mesmo.
Desde os anos oitenta, e como algo que hoje podemos designar “pós-moderno”, não temos razões para crer que a tríade seja algo real, que algum bloco unívoco da condição marginalizada possa ser composto como algo além de mera fantasia, mascarando os fatos e impossibilitando conhece-los, ou que a mera designação de ser jovem pudesse compatibilizar-se com a marginalidade da situação do pobre e do negro mesmo quando o ativismo estava no auge e muitos jovens tenham participado.
Halberstam crê portanto numa falácia convenientemente explorada pela mídia até hoje, mas hoje à contrapelo da pós-modernidade, ao escrever sobre Frank Haven como “um homem cujos costumes e atitudes sócio-culturais, humanas assim como jornalísticas, haviam sido formadas em outro tempo.” (p. 557). Inversamente a uma visão limitada a acontecimentos cobertos até 1979, estamos conscientizados sobre que Watergate não significou o fim do domínio imperialista, que forçosamente havia jovens alinhados em ambos os lados do espectro político.
Obama protagonizou decisões liberais em matéria de direitos civis, como a liberação do uso da maconha e o casamento homossexual, porém o imperialismo continua mais feroz do que nunca, pois nunca houve uma dominação direta sobre a escrita e a consciência como a que está se impondo com a microsoft, num país como o nosso: num quadro político de tamanho conservantismo, tão interligado à desnacionalização total da economia que os fatos chegam ao absurdo. O imperialismo da microsoft, como monopolismo info-midiático contra a privacidade e o letramento, no Brasil foi consolidado principalmente na época do governo Obama e do “pt”.
Como hoje podemos avaliar, a trajetória linear da “modernização” ao longo do século XX e culminando nos sixties, de que Halberstam não parece seriamente suspeitar de modo que Otis e o Los Angeles Times seriam exemplares, era uma fantasia em si mesma. Não apenas por um fator de circunstância, a fortuna dos Chandler impelindo a decisões conservantistas, o que poderia apenas exemplificar a clássica tese marxista dos capitalistas cegos, rumando tenazmente para a própria destruição. O capitalismo, “dialeticamente” ponte para o novo, criando o novo, porém obstáculo, necessariamente devendo vir a ser ultrapassado pelo novo.
Os acontecimentos, dos anos oitenta até hoje, sinalizam para algo mais do que circunstância, e ao invés de uma reta nós vemos um círculo. Ao invés da racionalidade da empresa capitalista, que como em Marx supera suprimindo a irracionalidade colonialista, o banditismo imperialista que apenas o reedita. De fato, Halberstam não inter-relaciona o que ele destaca como as atrocidades do Vietnã, com um planejamento cuidadoso dos USA como “complexo militar industrial” direcionado para a dominação do terceiro mundo, o que é algo objetivamente demonstrado, especialmente de Eisenhower em diante, em Cl. Julien (“L’empire americaine”).
Ele vê as atrocidades no Vietnã como algo sem sentido, assim como supõe que foram recebidas pelo público as imagens dos soldados norte-americanos pondo fogo em aldeias civis - imagens cuja transmissão custaram caro à CBS, e assim como para algumas das crises no Times, não refletem o espírito dos proprietários, mas intervenções forçadas de profissionais de mercado que haviam se tornado irrecusáveis. O que agora não vemos, porém, como uma lógica implacável da modernização linear, ínsita ao mercado, e sim como algo que foi plenamente dominado subsequentemente pela administração ligada ao espírito dos pioneiros proprietários.
Independente dos acontecimentos, a contradição não-dialética era contudo manifesta. Algo atuando poderosamente num presente histórico, determinando os fatos, mas sendo invariavelmente etiquetada como o outro tempo, o passado, o que não tinha vigência atual.
O que impossibilitava que pessoas do mais alto nível intelectual, como David Halberstam, a compreendessem, de modo que eles mesmos caíam nela? A meu ver o mito do progresso, como o mito da razão, responde adequadamente, sendo porém esse mito o da trajetória do Ocidente colonialista.
Oponentes do “pós-modernismo” como Eagleton, o odeiam porque precisamente ele é a recusa desse discurso da razão moderno-ocidental, assim como de toda totalização identitária indemonstrável na realidade, vista agora como algo não racional, mero mito, contudo construído por meios próprios, modernos, até a mídia ela mesma - e só ela mesma desde os anos oitenta, uma vez que além de intelectuais cegos como Jameson e Egleton, cegos tanto para os acontecimentos quanto para as mudanças no plano dos conhecimentos histórico-antropológicos, ninguém continua acreditando.
Mas tais oponentes nem mesmo conseguiram identificar o que estão assim tão sensacionalisticamente recriminando, e definiram “pós-modernismo” por teorias que do mesmo modo o recusavam, como o pós-estruturalismo, ou o definem por artistas dos sixties como Andy Warhol, que na verdade são “pop”, não necessariamente assumidos como “pós”. Não significa que teóricos como Linda Hutcheon, que recusam a arte dos sixties como pós-moderna, mas aceitam o pós-estruturalismo francês como tal, permaneçam referenciais consoantes com a atualidade, uma vez que o pós-modernismo para Hutcheon é um fenômeno apenas da “cultura ocidental”.
Examinando a ação ilegal no Irã, do general Norman Shwartzkopf, agente da CIA na época de Eisenhower quando o diretor da Cia era Allen Dulles, vemos como o Saturday Evening Post construiu o mito: “A deposição de Mossadegh foi feita pelos iranianos eles mesmos”. A citação é de Julien (p. 408). Porém, como Julien cobriu, foi a ação de Schwartzkopf que deliberadamente produziu o que o Saturday Evening Post apresentou como um cortejo grotesco de saltimbancos iranianos que atraiu uma multidão. Ajuntamento engrossado logo depois pelas forças armadas, leais ao Xá, para investir “conforme a estratégia e a logística de estilo americano” contra os grupos leais a Mossadegh, derrubando-os e capturando o próprio Mossadegh após nove horas de conflito. Eisenhawer, cujas memórias são utilizadas por Julien, não estava inocente nessa história. Mosssadegh, então o primeiro ministro iraniano, foi um dos políticos mais votados da história.
De fato, o conflito foi desencadeado porque Mossadegh, apoiado em referendo popular por quase a unanimidade dos iranianos, havia nacionalizado o petróleo, expulsando a companhia inglesa que monopolizava o negócio local. Porém essa companhia estava unida aos interesses do Xá, que solicitou ajuda aos USA.
Eisenhower apoiou o plano estadunidense pelo qual o petróleo iraniano seria novamente desnacionalizado, mas desta vez não para monopólio inglês, e sim para monopólio da ARAMCO, grupo de multinacionais petroleiras norte-americanas que não obstante concederiam porcentagem de exploração aos ingleses, assim como à Royal Dutch Shell e à Companhia Francesa de Petróleo. Fundos milionários fornecidos pela ARAMCO foram distribuídos pela CIA aos adversários de Mossadegh, de modo que alguns iranianos se tornaram ricos da noite para o dia, enquanto Mossadegh perdia partidários pelo mesmo motivo do suborno. A CIA instalou, consoante indicação do Xá, Zahedi como primeiro-ministro após a deposição de Mossadegh. Zahedi era conhecido de Schwartzkopf dos tempos da segunda guerra. Quem era Zahedi?
Fitzroy Mac Lean é quem o registrou em suas memórias, tendo sido Mac Lean encarregado de o prender como traidor dos “aliados” na segunda guerra.
Ardashir Zahedi, conhecido por negociatas, atuara como líder de duas tribos iranianas (Kachgais e Bakthtiares), que tinham posição regional estratégica, porém pró-nazistas. Ao articular um levante nazista na então Pérsia contra os aliados, Zahedi se tornou alvo da operação de Mac Lean, agente dos aliados, que logrou prendê-lo. Na casa de Zahedi, foram apreendidas armas alemãs, ópio, arquivos de prostitutas de Ispahan, outros documentos importantes.
Norman Shwartzkopf sabia disso indubitavelmente, pois ele estava no Irã na época da guerra: “A CIA sabia pois perfeitamente com quem estava lidando”, escreve Julien (p. 411). Zahedi havia sido nomeado ilegalmente pelo Xá para substituir Mossadegh, na ocasião em que este nacionalizou o petróleo iraniano, em 1953. Mossadegh encarcerou Zahedi, não aceitando a imposição ilegal, o que desencadeou a ação da CIA com anuência de Eisenhower.
Um nazista que havia sido inimigo dos aliados, foi, portanto, instalado pelos USA como governante de um país do terceiro mundo após a segunda guerra mundial. As ditaduras militares que se seguiram durante os sixties na América Latina, do mesmo modo articuladas pela CIA, foram tão sangrentas, operaram por meios de tortura e eliminação tão bárbaros durante duas décadas, atingindo tão grande número de pessoas que se pode arrolar genocídio, como o regime de Zahedi no Irã.
Mas o que permitiria supor o artigo do Saturday Evening Post? Que são os próprios não-ocidentais os arcaicos. Os manuais de história não registram a operação da CIA. Na citação de Julien, o Monde escreveu, sobre o Sul de Teerã, de onde partiu o grupelho armado pela CIA: “O sul de Teerã é formado por uma favela aflitiva. A metade da população se comprime lá, em dédalos de casebres pútridos onde reinam como barões a miséria, a doença, a droga e o vício” (p. 407). O Monde cobriu as duas versões dos acontecimentos. A multidão compareceu, “prova que a revolução é obra do povo, proclamam os partidários do regime. Erro profundo, ripostam os fiéis de Mossadegh”. Estes argumentando que é de favelados miserabilizados assim que se tiram os mercenários “de todos os tempos”- opinião obviamente irredutível a preconceito.
E por que os direitos civis seriam algo novo, ao invés daquilo que associamos o mais intimamente com a humanidade? Ao contrário do que Eagleton ainda pretendeu afirmar, não há uma dicotomia, entre a barbárie primitiva e o civilizado sujeito da evolução social, de modo que o ocidente é imperialista mas com a dominação traz o direito constituído. O ocidente é o agente da barbárie local contra a organização da democracia representativa local, e teóricos políticos ingleses o sabem desde o século XIX, argumentando que o gentleman inglês só está protegido de ser um bárbaro enquanto não é nomeado para administrar colônias.
Ao invés da tese ocidentalista, nossos conhecimentos atuais permitem afirmar que há processos históricos localizados, e não uma história universal da civilização, alguns desses processos protagonizando a democracia, bem mais antiga do que a Grécia. O império também não é alguma novidade, o capitalismo, portanto, muito menos, mas os impérios não são a verdade da história, os processos localizados permitem observar que neles também há conflito social, as pessoas prejudicadas em seus direitos não são passivas apenas porque não leram Karl Marx.
A contradição que Halberstam roça, mas nunca de fato esclarece, Daniel Ellsberg denunciava tendo por alvo toda a incorporação militar-industrial norte-americana. Em entrevista a Paulo Francis na seleção de artigos já citada, Ellsberg declinou da pecha de pessimista, afirmando-se apenas conhecedor da realidade. Reconheceu que a opinião anti-guerra contribuiu para a derrota dos USA no Vietnã, porém, a seu ver, se os liberais impediram assim que Nixon transformasse os USA numa ditadura, “tudo isso é admirável até que se pense na lerdeza em reagir, os milhões de vietnamitas e milhares de americanos mortos e feridos numa guerra inteiramente desnecessária, ou a tentativa de Gerald Ford e de Henry Kissinger de repetir em Angola a experiência do Vietnã, porque, tendo a conivência dos liberais, conseguiram convencer a opinião pública de que o Vietnã era uma guerra pessoal de Kennedy, Johnson e Nixon, e Watergate, criação diabólica exclusiva de Nixon” (op. cit. p. 111).
Ellsberg conta as bênçãos da contribuição liberal e das massas onde elas foram anti-guerra ou desmontaram dispositivos de dominação nos USA, porém crê ser muito pouco, pois o apoio norte-america em Angola, apoiando o colonialismo português, se não teve as mesmas consequências, foi de fato arquitetado como uma repetição do Vietnã. Por que Ellsberg menospreza tanto a minoração das consequências, devido aos vetos do Congresso, não obstante sublinhar que os USA foram pró-aparheid sul-africano? Creio que devido justamente ao que ele observou como necessidade de romper o consenso progressista.
Sua declaração em manchete, destacada por Francis, ecoa: “São todos iguais: Carter, Ford e Reagan. Para eles, Vietnã e Watergate não existiram”. Ele poderia também ter citado Kennedy, não só pela invasão da Baía dos Porcos. Conforme Dreifuss (“1964: poder e golpe de classe”), que cobriu o planejamento do golpe militar no Brasil por ação secreta semelhante à do Irã, as ações se iniciaram aqui três anos antes do golpe, o que implica o governo Kennedy, não só o sucessor, Lyndon Johnson, presidente em 1964.
Ellsberg como gênio, integrara a Rand Corporation, think tank que ele desertou depois, denunciando-a a Francis: “cuja função é planejar o método de controle tecnocrático do mundo para o império americano” (p. 112).
Ellsberg permite confrontar intelectuais como Richard Rorty. Se houve uma geração que acreditou nos USA como paladino anti-estalinista, e em Stalin como o horror ditatorial, seria impossível continuar se justificando por acreditar nisso a ponto de apoiar o senador Joseph Mcarthy na perseguição “anticomunista”, ou após o que se conhece sobre o imperialismo.
Especialmente sobre Jimmy Carter, o candidato do partido democrata pelos direitos humanos, Ellsberg considerava: “A campanha dele, se não se tratasse de algo tão sério, mereceria um lugar entre as comédias de televisão” (p. 112). Ellsberg invectiva. Carter propagava nada ter a ver com o Vietnã, e o povo tinha a consciência absolvida ao votar nele. Porém o povo apoiou a guerra até 1968, e depois reelegeu Nixon em 1972, porque ele prometera paz com honra: “Que honra, santo Deus? Que honra pode haver em termos devastado metade da Indochina, tornando-a impraticável para a agricultura, em termos assassinado milhões, prostituído mulheres em benefício de nossos soldados, em termos sustentado uma fileira de ditadores sangrentos, traficantes de drogas e cafetões?”
A questão nesse meu estudo, não é fazer coro à criminalização da droga, porém mostrar que é aos USA que muito se deve a legislação desastrosa que cria bolsões de banditismo onde não há muita esperança para tantos que integram as suas fileiras. Especialmente no final dos anos noventa, a política dos USA foi de terrorismo contra o usuário de drogas no Brasil, muito dirigido pela mídia. O resultado que ainda hoje é calamitoso, foi o mega-favelamento com banditismo generalizado, à beira de guerra civil sem ideologia política. No final dos anos noventa, a dita campanha, que aliás foi muito relacionada ao mito do capital italiano como redentor do incivilizado brasileiro, representa uma linguagem de mídia tão escandalosamente fascista como a que seria adequada para amparar o neoliberalismo econômico que então se implementava com o governo FHC. Além de ter propagado por toda parte, até nos cadernos à venda nas papelarias, a mensagem “drogas nem morto”, sob uma mão cortada por uma linha vermelha, havia propagandas nojentas como a do rosto de um menino, mostrado parado o tempo todo, enquanto se ouvia um som igualmente constante de descarga de banheiro sendo acionada, e a “história” das repetências escolares dele assim como do seu uso de maconha - narrada por uma voz de homem profundamente cavernosa, estereótipo do padre de igreja medieval.
Mas assim como a propaganda golpista da CIA em 1964, da modernização tecnoburocrática, logo resultou na realidade de um passadismo latifundiário coerente com os interesses do imperialismo no monopólio do mercado consumidor, essa propaganda de generosamente pagas intervenções contra as drogas resultou no contrário. A instalação do poder paralelo do ilegalismo na cidade, que perdura até agora.
De fato muita gente concordava com Ellsberg já nos anos oitenta. O governo Carter terminou na crise iraniana. Os aiatolás, líderes religiosos, fizeram a revolução que acabou com o regime de dominação imperialista no Irã, sem restaurar a democracia representativa, e inversamente inaugurando o retorno de regimes do fundamentalismo religioso típicos da era ante-moderna. Reagan, logo depois, se tornou presidente, implementando o neoliberalismo econômico, desmantelando o Estado de bem-estar social. A presidência Regan significou sinal verde para carteis multinacionais - e a radicalização da dominação sobre o terceiro mundo tem resultado numa paranoia neofascista mundial.
“The Powers that be” mostra Reagan sendo apoiado em 1966 pelo Los Angeles Times, porém não pela preferência de Buff e Noman, apenas por lealdade aos republicanos. Que Reagan não era figura importante ao ver de Halberstam se nota por ter este registrado que Otis, aquela altura, podia não atender chamadas de Nancy Reagan reclamando das alfinetadas de Conrad na figura do marido - tantas ligações interrompendo o café da manhã que Otis afinal se recusava a ouvir. Ainda assim, foi por isso que Con ficou reservado à “op-ed page”. Após um editorial assinado por Otis com uma nota informando que somente o seu editorial refletia a política do jornal (p. 783).
Missy não se tornou uma personagem decisiva, nem mesmo Otis, numa trajetória linear em que haveria sentido no conceito de transição, e Buff sendo a protagonista da transição. O círculo do poder se expressa até mesmo na escolha dos nomes de família, Otis, o bisneto, mesmo nome de Otis, o bisavô, Norman, pai de Otis, mesmo nome de Norman, filho de Otis. Porém Halbestam, que continua uma fonte importante na história da mídia do século XX, não está de todo errado quanto ao sentido de mudanças no interior da dinastia Chandler. Se o exame dessa trajetória não pode ser ignorado, contudo, é porque ela explica a construção de um império financeiro, não só porque Buff e Norman, afinal, quiseram ser agentes de uma mutação.
Realmente, sob as ordens de Buff e Norman o Los Angeles Times alterou a política habitual desde Palmer, que consistia em não conceder qualquer cobertura ao candidato oposto ao escolhido pelo jornal, especialmente em ocasiões de campanha eleitoral. Além, naturalmente, das histórias falsas, calúnias e estigmatização da imagem do inimigo, por meio de artigos ou demais recursos da mídia.
A carreira de Nixon, segundo Halberstam, se iniciou justamente porque Palmer, à cabeça de um grupo californiano que vendia propaganda de jovens candidatos ao congresso, viu nele o candidato ideal para o tipo de propaganda que tencionava circular (p. 360/1).
Há uma controvérsia a propósito de se Nixon foi primeiro escolhido pelo grupo, que o levou a Palmer, ou se foi Palmer quem primeiro escolheu Nixon, de modo que o grupo era mero reflexo de Palmer. Para Halberstam, provavelmente a segunda opção é o caso. Em todo caso Jerry Voorhis foi a vítima, como potencial adversário de Nixon no congresso, mas principalmente como congressista não colocado por Palmer - uma vez que a campanha de Palmer contra ele começou em 1946, pouco antes da vinda de Nixon. “A campanha foi cuidadosamente orquestrada, e não havia dúvida entre os que estavam em Washington que sabiam como funcionava a política de cobertura do Los Angeles Times, sobre quem a estava patrocinando” (p. 362). Como Voorhis logo compreendeu, não havia como protestar contra os constantes ataques do Times. “Os ataques podiam ser impressos, mas nenhuma resposta podia ser dada. O Times simplesmente dominava o distrito”. Buff e Norman não prosseguiram essa política. Kennedy teve cobertura assim como Nixon (p. 402), Pat Brown foi o primeiro democrata coberto pelos repórteres do Times, e com igual tempo que o candidato republicano (p. 385).
Porém o prévio esquema do poder do kingmaker só pôde existir à época de Palmer devido ao poderio do capital ligado ao Times, o qual havia sido obtido de modos bastante desonestos ou ao menos de modo algum altruístas ou sequer equitativos. Com relação a isso, Halberstam permite supor que Buff e Norman não foram deliberadamente rapaces, não há registro de abusos flagrantes além das manobras que envolveram a tomada da direção.
O episódio da Birtch society que vimos acima, quando um grupo de conservantistas passou a inundar as redações com cartas violentas contra toda medida nova corrente na época, então associada à “conspiração da tirania comunista” como o próprio Otis Chandler afirmou ainda que não para apoiar um radicalismo que se voltava contra pessoas como Roosevelt (p. 417), foi um reflexo tanto do esquema que havia antes, quanto do ressentimento do ramo preterido da família.
Philip Chambler tinha cinquenta e um anos, a mesma idade de Harry Truman quando pela primeira vez se tornou senador. Mas por causa da idade, Philip foi habilmente afastado por Norman, seu irmão mais velho, da direção da empresa, argumentando este que Otis Chandler tinha na época trinta e dois anos, e assim devia ser considerado adequadamente jovem para o pesado encargo de administração dos negócios e do jornal.
Philip teria dado continuidade ao modo de operar de Kyle Palmer e Harry Chandler, e se opunha à mudança nesse sentido. Assim como a esposa, Alberta, ele foi organizador da Birtch, e Norman obteve satisfação pessoal na reação contra a iniciativa, apoiando o editorial condenatório assinado por Otis. Porém a reação foi o cancelamento de 15.000 assinaturas, não apenas o esperado da oposição como um número aproximado a trinta assinaturas. O Times assumia, porém, o editorial, e a reação a ele eram o marco do novo e a estreia de Otis, a evidência da ruptura relativamente aos slogans brutais do passado, “que haviam sido Stand Fast. Stand Firm. Stand Sure. Stand True”, a ruptura para com “a filosofia suja” que os predecessores “haviam seguido até morrer”, e o editorial de Otis era “um sinal da vinda de um jornal novo e diferente.” (p. 418)
Porém, tamanha reação foi também um sinal para Otis de que era preciso ser prudente, consciente das pressões herdadas do passado, contra as quais o pai o havia protegido. Uma percepção que se repetiu depois, quando Buff interpretara a opção, a seu ver odiosa, de Goldwater ao invés de Nelson Rockefeller, como candidato pelo partido republicano. Na ocasião Buff arrependeu-se de não ter sido muito mais tendenciosa no apoio do Times a Rockefeller, e sua ira eclodiu como reação a algo que ela sentiu não apenas devido a Rockefeller, mas como “triunfo dos bárbaros”, aquelas pessoas mesmas, “the Califórnia know -nothing right”, que contra ela lutariam a vida inteira, a parte preterida da dinastia. Ao contrário de Norman, cuja decisão havia sido apenas apoiar a escolha do partido.
Buff violou nessa ocasião toda a estrutura do Times, sustando o editorial que festejava a convenção, substituindo-o por um libelo que ela escreveu como uma áspera crítica contra o partido, fazendo com que os empregados encarregados quase não acreditassem nas ordens recebidas. Conrad foi utilizado, segundo Halberstam produzindo uma de suas melhores charges, um cartoon da convenção dos Republicanos mostrando os participantes como internos de um asilo. A dinastia se amotinou, numa das mais séries crises da história dos Chandler. Contudo não obtiveram a evogação da liderança de Otis. Mas não há dúvida de que o episódio o atingira, como consciência das pressões que o pai até então mantivera à distância, consciência dos limites da liberdade de que gozava. Com esses limites, Otis descobrira que “nada era sem preço - e quanto melhor a coisa, mais alto o preço.” (p. 555).
Na verdade, não foi Norman, e sim Buff, quem arquitetara a posse de Otis, contra do mesmo modo que qualquer direito do tio, a vigência plena das forças do próprio Norman, então já estabilizado na direção dos negócios. Buff não perdeu tempo, não permitindo que Norman continuasse, pressionando para que ele instalasse Otis, e segundo Halberstam pode ser que ela tenha raciocinado que se a sucessão fosse feita enquanto Norman era ainda vigoroso, este podia caucioná-la contra possíveis reações da família. Em todo caso, ela pressionou fortemente. Norman não estava a princípio disposto a ceder, mas gradualmente ela o convencera. Porém não para conceder real liberdade ao filho, o novo administrador. Ela, mais do que Norman ainda que agindo sempre à sombra deste, concentrou a verdadeira decisão em suas mãos, não permitindo que Otis agisse sozinho.
Ainda na ativa, Kyle Palmer chegou a indagar a ela, diretamente, se iria cercear sua liberdade de expressão, se ele devia submeter-se à aprovação dela. Buff Chandler respondeu que não: “você escreve como quiser” (you write it just the way you want”) (p. 174). Palmer não causou muito transtorno à política de ruptura de Buff, estratégica à sua própria reação contra o horrível boicote que sofrera inicialmente por parte da dinastia. Uma vez que Kyle Palmer logo contraíra leucemia, nem tendo sido de fato assistido pelo jornal, tornando-se nos últimos tempos dependente de um amigo.
A política da época anterior não foi selvagem apenas quanto ao lema de destruição total do inimigo a partir da linha editorial e seleção do que mostrar e do que omitir. Foi também uma escalada do poder, entre o bisavô Otis e Harry Chandler, respectivamente o fundador da dinastia e seu irmão (ao que parece, pelo sentido dos nomes na história, não obstante Halberstam não esclarecer o parentesco de Otis e Harry.
Otis era um homem colérico, que agia sob o impulso do ódio, visando inimigos que eram, muitas vezes, não limitados aos pobres trabalhadores das “labour unions” ou aos membros do partido democrata, que ele tanto perseguia e pessoalmente detestava, mas outros barões do capital como ele mesmo, os concorrentes.
Harry, inversamente, protagonizou a cartelização dos negócios, a cooptação dos concorrentes: “havia uma fatia para todos, todos os que importavam. A marca-registrada de um negócio de Harry Chandler era uma clique de alguns dos mais poderosos homens ricos...”, barões de terras ou negociantes, milionários ligados aos maiores bancos, um advogado, um político, um juiz, alguns escrivães e uns poucos menos abastados, “abaixo na escada” social(p. 163). Lembrando que uma “clique’ é termo sociológico para uma gang dentro da sociedade realmente estabelecida - assim a própria Birtch, anos mais tarde, é o sintoma de uma clique, não uma “sociedade” real, independente do nome.
Há
muitos negócios de Harry Chandler, a quem a história da cidade de
Los Angeles está intimamente relacionada, investimentos em terras,
óleo, navegação, pecuária, construção, pneus de borracha. Ele
criou novas seções na cidade, como Hollywood, ajudando a trazer o
cinema para a Califórnia, o qual desde esse início foi utilizado
para fins de dirigismo político.
De fato, dado que como vimos o
Los Angeles Times a essa altura não era uma instituição do
partido, era o próprio partido, o Times nomeava os
candidatos, e o dirigente do partido nada tinha a ver com isso.
Assim, porém, o Times garantia a barbárie contra o inimigo e a
eleição do escolhido.
O movimento radical de Upton Sinclair contra o republicano Frank Merrian foi totalmente abortado a partir de Hollywood, então utilizado por Kyle Palmer como veículo de propaganda (p. 168).
Em todos os cinemas da cidade houve séries de falsos documentários, incessantemente mostrados, objetivando derrotar Sinclair por ser socialista. Não eram apresentados como propaganda política, mas como se fossem informação real. Num deles, uma multidão de mendigos esperava na divisa do Estado da Califórnia para inundar o outro lado, como uma onda, caso Sinclair fosse eleito. Havia aquele em que uma dona de casa, de meia-idade, dizia estar votando em Merrian. O entrevistador lhe perguntava por que. Ela respondia que era para conservar sua pequena casa, o seu único bem neste mundo. E um russo folclórico, com uma longa barba, vestido de modo marcadamente estrangeiro, inversamente, informando que iria votar em Sinclair. “Por que”? Ao que o russo esponde com forte sotaque: “ bfem, o sistema dele voncionou bfem na Roosia, pórqui não voncionaria bfem aqui?”
Harry Chandler também participou da ida da indústria da aviação para a California, arregimentando o capital necessário. Com os amigos, impediu projetos de ampliação satisfatória dos transportes públicos, devido aos seus interesses na indústria automobilística, na venda de carros, gasolina e pneus. Para beneficiar-se enormemente num negócio envolvendo compra e venda de terras, impediu, graças a esses amigos, dois projetos civis, um visando a irrigação de Los Angeles a partir de uma cidade próxima, o outro que desenvolveria essa cidadezinha devido a ser possuidora de água. Maurice Dobb (“A evolução do capitalismo”) registrou que a prática do capitalismo sórdido, constando de todo tipo de negócio sujo e perseguição de pessoas, foi típica dos Estados Unidos na época do gangsterismo. O caráter absurdo da ilegalidade com que se marginaliza o comércio de drogas, ao contrário do comércio do álcool, se pode notar por uma comparação com a “lei seca” dessa época, ridicularizada por todos os norte-americanos dotados de senso.
Conforme dados confiáveis obtidos pelos críticos norte-americanos da lei seca, assim como da época de maior corrupção e paranoia conservadora estadunidense, o número de agentes de polícia economicamente sustentáveis empregados na vigilância da lei seca, somava 1520 em 1920, e 2. 836 em 1930. É um número que pode ser graficamente representado pela superposição dos agentes numa linha costa a costa do inteiro Estados Unidos. Assim posicionados, haveria um único homem patrulhando uma porção de espaço tão grande como doze milhas - uma milha equivale a mil seiscentos e nove metros. O salário de um agente policisal estava orçando entre trinta a quarenta ou cinquenta dólares por semana, de modo que ninguém podia crer, exceto como em um contos de fadas, que um agente ganhando um salário assim iria se preocupar demasiado com a vigilância sobre o uso do álcool, e, sobretudo, que teria força de caráter para recusar suborno. Qualquer pessoa fabricava bebida em casa, e o hábito se multiplicou, pelo escárnio à proibição caduca.
Quanto ao terrorismo voltado contra as uniões trabalhistas, é contudo algo insólito o registro de Halberstam, uma vez que o movimento socialista de Los Angeles abortou devido à ação de Harry apoiando o sogro Otis, porém nessa circunstância decisiva, não por uma falsa causa. O atentado a bomba que vitimou duas dezenas de trabalhadores do Times em 1910, realmente foi obra dos acusados, participantes do movimento trabalhista.Ainda que tivessem sido presos ilegalmente, praticamente sequestrados no Meio Oeste para serem levados a Los Angeles, foi comprovado que os dois homens acusados, os irmãos J. J. e J. B.Mcnamara (nome não relacionado ao funcionário do pentágono) foram os autores do atentado.
Quando Otis Chandler encontrava-se no auge da cólera, pronto para satisfazer os instintos de vingança através da condenação à morte pleiteada no tribunal, Harry Chandler interveio. Ele estava de posse de informações precisas a propósito da opinião pública, e todos os trabalhadores afiliados a uniões, assim como as pessoas comuns, estavam convencidos da inocência dos acusados. Todos seguiam a direção de Samuel Gompers, então líder da Federação Americana do Trabalho, que declarara os acusados inocentes, num momento em que tal inocência aparecia como o carro chefe da campanha de Job Harriman, o candidato socialista, protagonizando a oposição ao candidato do Times. Mas o processo havia atingido uma proporção nacional, trazendo Los Angeles, que por tanto tempo vinha mantendo-a à parte, à atenção da nação.
Seguindo o conselho de Harry Chandler, o General Otis não prosseguiu até a acusação no tribunal, ainda que lhe custasse muito controlar-se, e, inversamente, Clemence Darrow, advogado liberal famoso pelo apoio aos pobres e injustiçados, que havia sido encarregado do caso, frente às evidências e desconhecendo as consequências, pleiteou a condenação dos acusados na corte de justiça, mas com apenas pena de prisão, esperando evitar a condenação capital. Ao contrário do que Darrow pensava, a candidatura de Harriman, que estava no auge, declinou imediatamente. O candidato socialista perdeu por trinta mil votos.
O Times, nas mãos de Harry Chandler, não era apenas o jornal de uma cidade em acelerado processo de crescimento, era o instrumento e a arma de uma vasta ordem econômica em expansão. O jornal era a extensão da tarefa política de silenciar os inimigos e indicar sem dúvida à cidade quem eram os amigos, em quem se devia votar para estar em boas relações com o poder dominante. Kyle Palmer revelou-se o coadjuvante ideal, o funcionário perfeito para os objetivos de Harry Chandler.
Porém Norman Chandler, filho do general Otis, não era um homem de inclinações políticas, e quando ele se encarregou dos negócios do pai, o papel de Kyle não preservou a mesma utilidade. A circunstância que resultou na cisão da família devido à vinda de Buff, e o temperamento desta, contribuíram para a transformação da linha de ação.
Porém,
quando Nixon afinal se tornou presidente em 1968, foram esquecidos
todos os percalços nas relações dele com o casal Buff e Norman
Chandler, os quais refletiram a ambiguidade dessa mudança, nunca de
fato podendo atingir a ruptura para com o próprio partido
Republicano.
O modo como Buff tratou Maggie Bellows, mulher de
um dos melhores editores do Times, é revelador do grau dessa
ambiguidade no plano social. Ela cobria o que chamamos de coluna
social em Phenix, tendo vindo a Los Angeles por ocasião do convite
de Nick Williams, um dos principais do Times, que estava prestes a se
aposentar, Bellows sendo cogitado para a função. Porém a
modernização que Maggie imprimira nas páginas sociais femininas do
Times, abordando assuntos como aborto ou causas sociais e funções
habituais dos grupos privilegiados, irritaram as ricas personagens
californianas, “socialites” que logo reclamaram com Buff. Esta,
ao invés de apoiar a causa da liberdade de expressão, permitiu que
inúmeros erros começassem a aparecer na redação dos artigos
publicados de Maggie, e, além disso, realmente a descompôs numa
ocasião, na frente de muitas outras pessoas, com uma terrível e
bruta invectiva verbal. Os Bellow nunca sucederam Nick Williams (p.
773).
Os percalços nas relações dos Chandler com Nixon abrangiam até mesmo o deliberado desconhecimento do casal por este, quando por acaso encontravam-se num restaurante em Veneza, onde Nixon e Patrícia também estavam. Nixon não os cumprimentou, mas, pelo contrário, demorou-se na saudação a um outro casal, que depois confidenciou aos Chandler que nem o conheciam direito. Nesse ínterim não havia sido só alguns pendores liberais que moveram a oposição dos Chandlers, após a tremenda hostilidade despertada pela derrota, na eleição de Kennedy. Buff se sentira desgostosa quando, em 1967, num jantar com Nixon, que havia sido combinado para novamente unir patrocinadores e candidato, Pat Nixon, após a fala de todos em prol da candidatura, tomou a palavra para protestar que, se Nixon não lhe havia perguntado, ainda que o houvesse a todos os demais presentes, em todo caso ela gostaria de declarar não estar satisfeita com a candidatura, pois Nixon se tornara desde o início da década um homem mais voltado ao lar, e agora estava novamente se envolvendo com a carreira política. Como Buff lançara o prêmio “mulher do ano”, e Pat era uma “mulher do ano”, Buff sentia-se contrariada por vê-la tratada desse modo.
De fato, Pat não devia se sentir muito à vontade na Casa Branca. Ela havia sido injuriada por Mamie Eisenhower, quando era Eisenhower presidente e Nixon o vice. Para a visita à América Latina, Pat havia solicitado auxílio à profissional Mollie Parnies, estilista que assistia as mulheres dos homens mais importantes de Washington na escolha das roupas. Parnies mencionou a requisição de Pat Nixon a Mamie , para quem Parnies sempre trabalhava. Mamie se mostrou perplexa: “não, não, querida”, disse ela à senhorita Parnes: “não faça isso. Deixe que a pobre coisa vá ao Garfinckel’s e compre o que estiver na prateleira.” (p. 470)
Por temperamento ou como reação instintiva ao que pudesse sentir de rejeição por parte de Buff, Nixon não deixou ocasionamente de a provocar, contando piada escatológica em um almoço em que ela era a única mulher nuam equipe de homens, por circunstâncias de campanha. Ela reagiu altivamente - se ele havia maliciosamente sugerido que talvez não devesse ter contado, antes de positivamente o fazer mesmo sem que o houvessem incentivado, assim que Nixon terminou ela replicou: “você estava perfeitamente certo, não devia ter contado”.
Não obstante as reservas de Buff, o partido nomeou Nixon para 1968, e quando ele venceu, telefonou a Norman, agradecendo a cobertura em Los Angeles. Assim, na expressão de Halberstam, “era como se o Los Angeles Times tivessem finalmente colocado o menino deles na Casa Branca, ainda que não fosse o mesmo Los Angeles Times e a essa altura ele já não fosse verdadeiramente um menino deles” (p. 564).
Para Halberstam era nítida a cisão dentro do Times, os dois partidos que para ele podiam ser rotulados como o velho e o novo, não haviam sido simplesmente um caso de sucessão, mas coexistiam como duas partes imiscíveis, o pessoal mais constante, os que tinham funções mais burocráticas ou técnicas, nunca tendo de fato mudado. Aqueles que lidavam mais de perto com Otis e Buff, ou os profissionais convidados para renovar a linha do jornal, refletiam a orientação destes em prol de rupturas assinaláveis mas não podiam ir até onde queriam, e ou se adaptavam ou não permaneciam. As duas partes da companhia estavam, além disso, nitidamente distintas entre a parte conservadora que resistia na corporação dos negócios, e o jornal, o Times onde Otis e Buff tentavam imprimir algum eco de contido liberalismo.
Se Otis, na época do escândalo de Watergate, estava ele mesmo envolvido num processo de corrupção financeira, Halberstam não deixa dúvida de que ele estava inocente, que havia agido de modo inexperiente, por isso tendo sido prejudicado por um amigo. E um outro processo também nessa época também não parece ser comprometedor - ainda que estivesse pendente enquanto Halberstam escrevia. Otis foi, porém, um alvo da hostilidade de Bob Haldeman, ainda que não tanto do próprio Nixon, e ao que parece Haldeman fez o que pode para prejudicar Otis na ocasião dos processos.
Como vimos, agindo em comum acordo com Missy, os sentimentos ambivalentes de Otis na ocasião das eleições penderam para evitar crises, e inclinar-se à decisão do Partido Republicano. Ele nunca cultivou um relacionamento pessoal com Nixon. Mas Otis e Missy eram convidados regularmente aos jantares da Casa Branca - assim como antes o eram Buff e Norman. Pode-se considerar que Otis manteve relações convencionais com Nixon, ainda que não tenha se beneficiado pessoalmente por isso, pelo contrário.
Otis revela-se um homem honesto na cobertura de Halberstam, e “The Powers that be” reporta até o momento em que ele é mostrado instruindo o filho, Norman Chandler, na função de líder da corporação dos negócios da família, e do Times.
V) Katharine “Kay” Grahan
a) da família ao casamento
O contraste entre as histórias do Los Angeles Times e do Washington Post é notável. Não há um rastro, uma nódoa do capitalismo sujo, ainda que como coisa do passado, em se tratando do Post. Não obstante cobrir algo da personalidade e ação de Meyer, o patriarca do Washington Post, a história do jornal é interceptada por Halberstam mais a partir do ponto em que o negócio milionário de Meyer, qual o Post era parte, se torna administrado por Philip Grahan. Um dos mais brilhantes e promissores jovens universitários, como que talhado à perfeição para desposar a filha de Meyer, o proprietário dos negócios e do jornal.
O percurso de Meyer não é tão importante, a partir daí, mas não é de todo comprometedor na cobertura do “The powers that be”. O próprio Phil Grahan não é um conservantista republicano, é um liberal que se relacionou intimamente com Kennedy, atuando contra os movimentos racistas que pulularam desde os anos cinquenta reagindo contra as leis anti-racistas que começavam a ser lançadas. Porém Phil Grahan não durou muito na direção dos negócios ou do Post, na qualidade de consorte de Katharine Meyer.
Ainda na vigência de Phil como administrador, ele não se revelou menos um homem de negócios competitivo, tornando o jornal monopolista na informação em Washington, a partir da anexação por compra do principal concorrente, perseguindo o objetivo, que realizou com a ajuda do sogro, de formar um conglomerado de jornal e revista, rádios e televisão. Ainda assim ele permaneceria, ao menos até certo ponto, numa classificação liberal do ponto de vista político. Mas os acontecimentos dramáticos que resultaram na loucura e suicídio de Phil Graham conduziram à tomada da administração por Kay Graham, que revelou-se muito mais afim à mentalidade conservadora.
A trajetória política de Phil Grahan escreve uma página inquietante nos anais das decisões presidenciais, entre Kennedy e Lyndon Johnson, uma vez que nelas interferiu diretamente. Mas a administração do Post por Kay Grahan reverte a impressão de que o jornal tenha mantido uma linha liberal dentro da grande imprensa estadunidense, ainda que, como por ironia, ela não tenha podido evitar que seu jornal se tornasse o veículo dos “furos” no caso Ellsberg e em Watergate - este pelo qual o jornal recebeu o prêmio Pulitzer em 1973. O jornal, representado por Ben Bradlee, o editor de Kay Grahan. Não Woodward e Bernstein, os repórteres que descobriram e apresentaram o caso, na ocasião muito para desconforto de Kay.
b) Phillip e Katharine Graham
A história de Phil e Kay começa com as bênçãos do mundo universitário. Phil havia sido um dos mais brilhantes alunos, verdadeiro “star”, na “Harvard Law School”, numa época em que esta era “a” faculdade de direito na América, atraindo os jovens estudantes mais promissores e dotados.
Felix Frankfurter reinava então como o mais influente mestre, com ligações não apenas intelectuais, dominando os departamentos em Washington e Cambridge, mas também ligações políticas, fazendo a ponte, em Washington, entre a universidade e os eventos e atividades mais importantes. A sua ascendência sobre os jovens universitários criara um tipo de maçonaria, um sucedâneo da sociedade dos fabianos na Inglaterra. Sua autoridade intelectual era única.
Phil Grahan se tornou logo um “protegido” de Frankfurter. Na universidade, foi escolhido para editar a Harvard Law Review, onde atuou bastante talentosamente. Em 1939, Frankfurter foi nomeado para a Suprema Corte, e Phil, já graduado, tornou-se secretário de Frankfurter. Nessa altura ele já iniciara a corte a Kay Grahan. O jovem casal era a menina dos olhos de Frankfurter, que sempre instava com Phil que ele mantivesse Kay ao par dos assuntos do escritório: “Phil, você contou a Kay o que Hughes disse na corte ontem? Ele contou, Kay?... Ele não contou? Phil, você não sabe que Holmes conta tudo à esposa?” (p. 245)
Contudo, ao recusar assinar a decisão de deportar Harry Bridges, num caso famoso, Phil rompera com a ordem de Frankfurter, o que fez Kay sentir-se orgulhosa do marido. Phil mudou de emprego, indo de assistente de advocacia de Frankfurter para uma função em que sua principal responsabilidade era tornar a capacidade industrial americana apta para atender ao que dela viria a requerer a Segunda Guerra mundial. Ele era então radicalmente anti-Hitler, algo que para ele tornara-se uma obsessão. A tarefa revelou-se porém difícil, o governo lento na ação, a indústria ainda mais hesitante.
Ainda que na época da corte a Kay alguns tivessem aventado que ele estava interessado na fortuna dos Meyer, a verdade segundo Halberstam é que Phil vinha de uma família rica, ele não precisava disso, e dissera à noiva que não estava interessado no dinheiro do pai dela, “nem um centavo” (p. 243). Essa havia sido a segunda coisa que ele lhe dissera quando foram apresentados e ele a fez sorrir, sentir-se jovem e bonita. A primeira havia sido que ele iria se casar com ela.
Porém na altura em que enfrentava o esforço colossal de reformar a mentalidade da indústria americana, a aposentadoria de Meyer começou a ser assunto ventilado na família. Phil se tornara um filho querido dos Grahan, Eugene e Agnes, os pais de Katharine. Entre a filha e o genro, eles preferiam a palavra deste último, ele tinha a preferência em tudo. Um outro filho dos Meyer não revelara inclinação para os negócios. Phil se tornou o publicista do Post, realizando a profecia de que viveria à sombra do sogro milionário.
Pode ser que ele tenha amado a função de chefe do Post e de grande magnata, onde ele pôde conceder livre curso aos seus talentos de político e de empresário, maiores do que os de editor. Pode ser que o incômodo perante a ideia de ser a mera sombra do sogro tenha sido obnubilado pela vastidão dos ganhos, a amplidão das perspectivas. Mas sempre estivera lá, e no final foi o que pesou na balança. Quando adoeceu gravemente dos nervos, Phil Grahan passou a expressar sério ressentimento contra a família, o fato de serem judeus, especialmente contra o sogro. Quando a crise era severa, deplorava que seus próprios filhos e a esposa fossem uns “kikes” - o modo como se chamava pejorativamente o judeu.
Meyer havia sido um homem de negócios audacioso e severo. O Post dera prejuízo por muito tempo antes que ele lograsse transformá-lo num negócio lucrativo, obtendo o monopólio da informação em Washington, como vimos. Costumava restringir salários e proventos, argumentando que ele mesmo, quando necessário, continha seus gastos - o que exemplificava porém com o sacrifício de adiar a compra de alguns Rembrandts para a sua coleção. Agnes não era uma mãe judia tradicional, era uma intelectual que se engajava em intermináveis discussões com o genro.
Cissy Paterson, do Herald, rival do Post, tentara lhe roubar algumas de suas melhores tiras em quadrinhos, Dick Tracy, Winnie Winkle, Andy Gump e Gasoline Alley. Meyer se informou com um empregado sobre a importância dos quadrinhos, descobrindo que era enorme. Então processou Cissy Paterson, que ficou tão acabrunhada por perder no tribunal a ponto de mandar para ele, a título de presente, uma caixinha decorada, mas com um bife dentro. Perplexo, Meyer indagou à esposa o que poderia significar aquilo, e Agnes, sempre muito marcada pelo anti-semitismo, respondera que o bife representava um judeu sujo. Meyer ficou chocado. A imagem que fizera até então da profissão de publicista não previa que fosse tão contenciosa. Mais tarde, porém, Meyer comprou o Herald, após a morte de Cissy Paterson.
À cabeça dos negócios, Phil Grahan se mostrou ambicioso. O sogro colaborou com sua ambição, comprando para ele aquilo que tanto desejava - as rádios WTOP e Jackson, a televisão WTOP.
Há uma história sobre Buff Chandler perguntando a Norman sobre por que o amigo do casal, Lee Wasserman, sendo tão inteligente não era nomeado para a CalTech, o famoso centro de tecnologia, e pelo que Norman sabia, era devido a ser ele judeu, além de liberal Democrata. Porém Norman, atendendo a Buff, durante um jantar informou ao reticente Wasserman que ele poderia ser nomeado, ao que Wasserman ripostara não estar disposto a enfrentar uma batalha, mas Norman lhe dissera que não, não haveria nenhuma batalha, de fato sua nomeação por voto unânime havia ocorrido naquela manhã (p. 387). Assim também há uma história sobre Phil e Katharine Graham. Ela pedira que ele lhe comprasse uma revista. Ele comprou a própria empresa Newsweek.
As mudanças que Phil Graham imprimiu no Post acarretaram a vitória final deste sobre o Star, o concorrente principal que sempre zombara do Post como jornal menor. O Star perdeu toda a importância na cidade.
Enquanto subia na carreira de homem de negócios, Phil se envolvia mais profundamente com a política. O McCarthysmo, que ele odiava, foi o pretexto da sua aproximação ao partido Republicano, vendo em “Ike” Eisenhower uma esperança de deter McCarthy, ainda que depois se revelasse uma esperança vã. Atuando ainda nesse sentido, Phil contribuiu generosamente para as campanhas dos candidatos republicanos que pudessem ser considerados centristas.
Para alguns, especialmente californianos, Nixon era centrista, e Phil refletia essa concepção. Há registro em Halberstam de uma associação de Otis Chandler com Phil Graham, de modo que o Times pudesse circular em Washington.
Porém Phil não era racista, apoiando a causa dos direitos civis até o ponto em que não roçasse a acusação de comunismo. Assim o Post se tornou um jornal partidário, de modo óbvio politicamente envolvido.
Como político, Phil era brilhante, sempre obtendo os objetivos, porém contraditório. Ele mais freava do que impulsionava algumas das mais audaciosas coberturas dos repórteres, agindo portanto como os republicanos e conservadores. Porém sua atuação como íntimo de Lyndon Johnson, cuja recomendação para compor como vice a chapa de Kennedy foi obra de Phil, tornou-se frenética por ocasião da crise de Little Rock, um motim contra a lei de inclusão racial nas escolas. E como vimos, foi radicalmente contra o McCarthysmo. Duas posições que o tornam mais tendente a liberal. Em todo caso, ele era o poderoso homem de negócios, o kingmaker.
Quando Allan Barth escreveu um editorial apoiando Earl Browder, o líder do Partido Comunista Americano, que se recusara perante McCarthy a revelar os nomes dos outros comunistas, Phil ficou furioso.
Ele interpretou o editorial de Barth como uma adesão do jornal ao comunismo, o que o editorial não era, limitando-se a uma defesa dos direitos de Browder, Barth argumentando que “nem todos na América testam a lealdade de um homem ao seu país pela sua boa-vontade na traição dos antigos amigos” (p. 271). Ainda assim, e ele mesmo contra McCarthy, só não despediu Barth devido à intervenção de Frankfurter, amigo de ambos.
Phil reagiu imediatamente, ainda que não despedindo Barth, escrevendo críticas ao editorial, e publicando-as como comentário negativo a propósito da bagunça que se poderia esperar caso comunistas tomassem a liberdade de expressão, distorcendo-a, ou se insurgissem contra a lei da cumplicidade. Porém, contra o senador Joe McCarthy, em plena caça às bruxas, nacionalmente odiado àquela altura, Phil aduzia que o valor do testemunho de exilados comunistas ou antigos comunistas era nulo, podendo ser injurioso a pessoas de bom caráter.
A crise de Little Rock, porém, foi um divisor de águas no aspecto da sanidade mental. Phil nunca tinha revelado sinais da doença, além de uma tendência para perder o controle com o álcool. O episódio precedeu uma série de demonstrações do mesmo teor, posteriores. Multidões de brancos se amotinaram em Little Rock, 1957, contra a aplicação da lei anti-segregacionista de Brown, que permitia alunos negros se matricularem nas escolas públicas. A lei era de três anos antes. Kyle Palmer havia se enfurecido contra a lei de Brown, argumentado que Deus não queria que as raças se misturassem, invectivando diretamente Brown, que na ocasião apenas o abraçou, após a série de injúrias recebidas, dizendo que sempre seria seu amigo.
Nessa época Phil havia se tornado o homem de Lyndon Johnson, então líder do senado (“Senate Majority Leader”). Phil havia tentado uma aproximação real com Eisenhower, mas já se desiludira, “Ike” era um homem do status quo, o que Phil não era, e a desilusão o impulsionou para Lyndon, o jornal tornando-se claramente o veículo de Lyndon. Quando a crise de Little Rock estourou, porque o próprio governador do Arkansas, Orval Faubus, perante a ordem federal de aplicar a lei relativamente a nove estudantes negros, negou-se a acatá-la, incentivando a resistência local dos brancos, Phil se envolveu intensamente como se fosse ele mesmo a autoridade que Lyndon Johnson era.
Noite e dia ao telefone, falando com todos os que podia contatar, Nixon, Bill Rogers, inúmeros outros, os editores de Little Rock, repórteres da Casa Branca, líderes do movimento negro, Phil chegou a idealizar “Ike” entrando ele mesmo na escola, dando uma mão a um menino branco, outra a um menino negro. A Casa Branca rejeitou a ideia, Phil apresentou a variante, Ike entrando com uma criança, e ele, Phil, com a outra.
Especialmente tentando cooptar Nixon, ele era bom nessas coisas ao ver de Phil, e se as pessoas ficavam um tanto surpresas pela conexão de Nixon com uma causa anti-racista, Phil respondia que Nixon era melhor do que se pensava, estava argumentando com Ike para fazer alguma coisa. O que Ike finalmente fez, após muito mais esforço de Phil, foi mudar da inércia total para o envio da 101’s Airborne, uma divisão da artilharia do exército americano. A crise de Little Rock foi sustada, mas a essa altura Phil Graham estava tendo um colapso.
Refugiou-se em casa, numa profunda depressão, Kay sem saber ao certo como trata-lo. Argumentando contra si mesmo, confidenciando a ela que perdera a confiança, ridicularizando-a quando ela protestava que ele era tão charmoso. E de fato ele era, Phil Graham era famoso por tantalizar as pessoas, um homem incrivelmente bonito, expansivo, habilidoso, comunicativo. Não, ele dizia, ele não era nada disso, era um fracassado, devia aprender com as pessoas, não mais fingir que tinha algo a ensinar a elas, não mais aceitar o jogo de que podia manipulá-las à vontade.
A crise passou, Phil voltou ao trabalho, mas o “problema x” foi piorando. Phil estava maníaco pela política, a armação da chapa Kennedy-Johnson coroou seu sonho de kingmaker, “seus amigos, Kennedy e Johnson. Kennedy, Johnson e Phil”, expressa Halberstam os sentimentos exaltados de Graham. (p. 443)
Com a progressão da doença, a depressão se tornou cada vez pior, até que transformou-se numa paranoia contra o sogro e a própria família, sob o pretexto do anti-semitismo. Phil tornara-se religioso, cristão fervoroso, esperando melhorar. Porém as ações tornavam-se sempre mais frenéticas, descontroladas. Afinal envolveu-se com uma jovem australiana do staff da Newsweek, Robin Webb. Ela passou a acompanha-lo a todos os lugares, Phil tornando público que pretendia divorciar-se e casar com Robin, porém não abrir mão da direção do Post e da Newsweek.
A nova atração não logrou deter o processo da desagregação mental. Phil fez um escândalo numa convenção de jornalistas, a que comparecera com Robin Webb, quando afastou o porta-voz do Star que apresentava sua palestra, tomando a palavra para descompor a equipe com uma série de injúrias e palavrões, aparentemente a equipe do star mas de fato dirigindo-se a todos os presentes. Após o dramático episódio, Phil foi internado num hospital psiquiátrico, iniciando tratamento intensivo. Ao ser liberado de uma internação ele voltou com Kay, e todos supunham que havia ocorrido a melhora, senão a cura. No entanto, Phil Graham se suicidou subitamente, com um tiro, num quarto ao lado daquele em que Kay se encontrava.
Segundo a explicação médica, houve falha na avaliação da equipe psiquiátrica, ele não devia ser liberado ainda, e a série dos degraus que devia subir para a cura da síndrome maníaco-depressiva foi bruscamente interrompida em algum ponto. Para alguns amigos, Phil Graham se suicidou porque calculou exatamente o que lhe restava na vida, mais nada, nenhuma carreira, ninguém voltaria a leva-lo a sério. Não há registro em Halberstam de qualquer suspeita de que não tenha sido suicídio.
c) Mrs. Washington Post
Para Katharine Graham, o tempo das terríveis humilhações decorrentes da doença de Phil não foi de fato único. Todo o processo do casamento fora insatisfatório, prolongando os problemas que ela havia tido desde menina, com a mãe. Agnes não era uma mãe devotada, porém especialmente não tinha carinho pela filha.
Sendo a mais velha, tornou-se objeto privilegiado da ojeriza de Agnes pela maternidade em si, sempre reclamando que o neném Kay parecia tão feio, tão marcado pelos fórceps. Agnes não ensinara a filha a ser bonita ou elegante. Ela incutira em Katharine o sentimento de ser inferior, burra, inadequada. Certa vez, quando Kay perguntara o que a mãe estava falando com Phil tão animadamente, ela respondera à filha que não se intrometesse pois não poderia compreender, tratava-se de uma discussão intelectual que eles estavam tendo.
Quando Kay viajou para estudar, amigos tiveram que insistir para ela comprar roupas, pois se limitava a duas blusas e eles fizeram ver que chegavam a cheirar mal, por muito usadas. Ela não sabia pôr uma mesa, servir ou receber. Também não sabendo se vestir, quando casada Phil designara uma amiga para orientá-la, à “pobre Kay”. Que no entanto, recebera um dia uma bronca da mãe por indagar o que alguns hóspedes que Kay especialmente prezava, podiam fazer quando viessem para se divertir. Como assim, reverberou a mãe, não via ela que tinham a criação de cavalos de raça, e a mais elegante, a maior das piscinas?
A fortuna dos Graham era invejável, de fato enorme, porém Kay Graham sentia-se como um patinho feio, uma outsider, terrivelmente horrorizada a cada vez que o marido, um homem totalmente dedicado à vida elegante da alta sociedade, lhe informava do próximo evento a que compareceriam. Certa vez, para exemplificar do modo mais sucinto, Kennedy estava presente, e por acaso Kay estava sentada numa espreguiçadeira ao lado da qual Kennedy veio também sentar-se.
Ao se conscientizar que estava ao lado do grande Kennedy, Kay ficou chocada, seu rosto contraído como se sentisse uma dor aguda, parecendo lançada ao mais terrível desespero. Nesse ponto seu olhar encontrou o de Phil, que compreendeu imediatamente a situação dela, e riu.
Assim que se casaram, ele costumava perguntar aos amigos que convidava, se eles sabiam qual era a primeira coisa que Kay fazia quando acordava, e então lhes dizia que ela olhava o espelho e falava para si mesma o quão feliz era ela por ter se casado com ele.
Não havia espaço social, papel social, para Kay. Ninguém lhe dirigia a palavra na sociedade que o casal frequentava, nas festas ou ocasiões a que compareciam, a não ser, de vez em quando, para perguntar algo sobre Phil, sobre o que ele estava fazendo ou planejando. Casada, ela tinha sido reduzido à função de dona-de-casa, e ao longo do tempo, na meia-idade, constatou que para essa função a sociedade não concedia nenhum papel.
Quando Phil se suicidou, ela se encarregou porém dos negócios, tornando-se a publicista do Post. O pronunciamento de Kay na ocasião da posse, constou de um primeiro agradecimento aos presentes por terem mantido o jornal até então. Ao que se seguiu a informação dela de que o Post sempre fora, e continuaria sendo, o negócio da família Meyer, porém havendo agora a vinda de uma nova geração de jovens, e portanto a família pretendia “tornar o jornal pronto para eles”.
Para várias pessoas presentes, a declaração da posse soou como uma demissão. A meu ver é notável como o momento exemplifica o quanto o argumento da modernização era flexível, tendo se tornado de fato instrumento para qualquer mudança de mãos do poder. Relativamente a Phil, a administração de Kay Graham apertou o cerco, tornando-o mais conservantista, mais autoritário.
Na verdade, ao assumir a direção do Post, Kay interrogou alguns dos mais respeitados profissionais do jornalismo, como Scotty Reston do New York Times e Walter Lippman, então considerado intelectual importante, colaborador do Post. Ambos reforçaram a sua própria conclusão de que Phil havia sido bom amigo e bom empresário, mas não um bom publicista, o Post a essa altura reduzira-se a um jornal medíocre, o que lançava dúvida sobre a qualidade dos profissionais com quem ela podia contar na qualidade de pessoal do Post. Kay socorreu-se de Bem Bradlee, então na Newsweek, como o profissional certo para o cargo de editor chefe.
O Post se tornou um escritório regulado por normas rígidas, relativas ao comportamento dos repórteres, proibindo que participassem de outras atividades quando fossem julgadas prejudiciais ao trabalho, que comessem ou bebessem quando estivessem na prefeitura, que invadissem os seus concorrentes, o New York Times ou o Washington Star, - esta uma regra auto-defensiva, já que o Post havia retroagido para uma posição menor.
Quando Bradlee tomou posse como editor, em 1965, chocou-se com a autoridade remanescente de Russ Wiggins. Entre as primeiras tentativas de Kay tomar as rédeas do jornal, e as de Bradlee atualizar a seção de notícias, no vácuo criado pela morte de Philip, Wiggins cresceu como a voz editorial dominante.
Ao contrário de Bradlee, cuja intenção era sintonizar-se com tudo o que pudesse tornar o jornal vendável, Wiggins visava apenas manter uma linha explícita de orientação setorizada, privilegiando leitores conservantistas, na oposição a todas as inovações liberalizantes. Wiggins era racista, pró-Vietnã. Ainda assim Lyndon Johnson logo se conscientizou de que Wiggins manteria o Post como seu porta-voz, assim como logo o descobriram os conservadores da Casa Branca.
A atividade febril de Wiggins, atendendo a todos estes interesses setorizados, dirigia-se numa linha de total oposição aos interesses de Bradlee, mas o que precipitou um diagnóstico de cisão real foi o fato de que a guerra do Vietnã se prolongou, o anúncio da vitória conservantista não ocorria, e os colaboradores de Wiggins começaram a duvidar do êxito de sua causa. Ele confrontou pela primeira vez as resistências, a hostilidade. Wiggins mantinha a autoridade, porém, e a Casa Branca despendia esforços para mantê-lo na linha editorial. O que, na têmpera de um homem como Wiggins, não significava um ataque ao ego, mas ao patriotismo. Todos, de Lyndon Johnson a Marder, este um herói do anti-McCarthysmo no Post, comentavam que o jornal encontrava-se dividido.
Gradualmente Bradlee obteve espaço, lançando o lema da “tensão criativa”, objetivando criar um clima de competição interna no Post, todo o pessoal atuando, uns contra os outros, visando o centro das atenções. A modernização visava sucesso de business, não o liberalismo, ainda que cobrir o que pudesse atrair fosse a palavra de ordem. O executivo do Post se tornou Harwood, escolhido por Bradlee por sua habilidade em chutar o traseiro de quem devia ser expulso. O Post renovou-se, à sombra do New York Times, porém, como seu modelo.
Os limites da sociedade de Washington, assim como a força dessa sociedade, mantinham o Post e seu editor, numa circunstância tal que não se ultrapassava a sua falta de abertura, do mesmo modo que a do editor. Aquilo de que careciam era velocidade, o que o Times tinha de sobra por que não se limitava ao talento de uma ou duas pessoas, mas o produto de uma grande equipe. Consideração bastante irônica, uma vez que Watergate foi o furo do Post, à frente dos outros noticiários.
Porém cobrir Watergate não reflete a opção política do Post em qualquer sentido anti-conservantista. Ainda que isso não significasse, àquela altura, fidelidade à pessoa de Nixon.
d) O som e a fúria
1) Watergate na mídia
A atuação de Kay Graham como publicista tem nela mesma uma referência confiável. Em carta a Ehrlichman, citada por este em Witness to power, ela sublinha que as publicações do Post não eram “um reflexo” dos seus “sentimentos pessoais” (p. 301). A carta comoveu Erlichman, sendo porém evidentemente mensagem a Nixon. Este recusou a sugestão de Erlichman a propósito de uma convite a Kay para confabular.
O propósito da mensagem de Kay é negar qualquer hostilidade pessoal contra Nixon, e relacionar o que o Post vinha publicando a propósito da corrupção na Casa Branca, entre o Vietnã e Watergate, a uma questão de mera autonomia dos profissionais do jornalismo. Nesse ponto em que exalta a qualidade dos seus profissionais, ela concede que a opinião de Ehrlichman possa não ser a mesma que a sua, porém como algo que não impediria que fossem considerados pessoalmente amigos dado que os sentimentos dela por ele eram amistosos. Sobretudo, ela não queria continuar sendo mal interpretada nessa questão de relacionamento pessoal, pelos boatos que corriam a propósito de que ela detestava Nixon, o que a carta tencionava acima de tudo denegar como mera “childish”.
Ela esconde, porém, que poderia não implicar que as publicações do Post não refletissem os sentimentos pessoais de alguém mais. E de fato refletiam, segundo Halberstam. Os de Ben Bradlee, a quem Kay delegou todos os poderes, e que se tornou gradualmente o cérebro e a vontade por trás dos acontecimentos relacionados às publicações polêmicas do Post.
Podemos indagar sobre o que teria acontecido na história do século XX, se Kay tivesse preferido usufruir passivamente da fortuna ao invés de escolher tomar a frente dos negócios. Ben Bradlee, um homem audacioso cujo objetivo era jornalismo de excelência, porém de fato atuante como business, como veículo de massas e não o arcano de uns poucos privilegiados, não tinha tanto a perder quando tomava decisões quanto ele teria se fosse ele mesmo o proprietário de um patrimônio. Kay nunca recuou nisso, porém. Mesmo nos piores momentos, quando à habitual insônia se misturava o terror pelo que podia acontecer ou de fato já estava acontecendo, ela manteve a delegação do poder e Bradlee jamais foi desafiado.
A mensagem de Kay demarca, pois, um momento delicado. As histórias sobre ilegalidades do staff de Nixon relacionadas ao levantamento de fundos da campanha eleitoral, que foram descobertas interligadas ao rumo da investigação principal sobre a invasão do partido Democrata no edifício Watergate, haviam precipitado a fúria da administração Nixon. Em novembro de 1972 porém Nixon estava reeleito, e havia prometido vingança contra a imprensa que vinha publicando as notícias comprometedoras que ele tomou como pessoalmente dirigidas.
Não obstante a publicação dos papeis de Ellsberg ter antecedido Nixon e atingido Lyndon Johnson. Este a quem Kay escrevera também uma carta, muito mais sentimental como declaração de fervorosa devoção pessoal, não obstante a devastação das denúncias que o Post publicou, desta vez com expressa anuência dela mesma, ainda que sob pressão intensa, Bradlee contra todos, advogados e conselheiros que tencionavam evitar a publicação do livro de Ellsberg após o New York Times ter publicado o essencial sobre os documentos roubados.
Aquilo fora obra de Bagdikiam, amigo de Ellsberg, Bagdikian logo percebera que a fonte do Times só podia ser Ellsberg. Ele contatara Ellsberg, e a publicação do livro deste pelo Post se tornou uma questão de tempo, era publicar ou ser depois acusado de omissão censória. Assim os conselhos contrários, especialmente de Fritz Beebe, um dos advogados mais respeitados, puderam parecer pró-forma, de fato todos queriam a publicação.
Lyndon Johnson, amigo pessoal de Phil, tornara-se após a perda de Phil extremamente ambivalente relativamente a Kay, mas agora decidira-se por uma franca animosidade. Por último voltou atrás, em vista da antiga amizade de família. Mas a mágoa nunca passou, Johnson havia feito muito sob o impulso da vingança, demitindo Robert McNamara, amigo pessoal de Kay, e processando o jornal. Assim como a mágoa de Kay contra Bagdikian, que havia se tornado expressa a este. “Que espécie de problemas você nos trará desta vez”? - ela provocou com voz dura, na frente de várias pessoas, numa ocasião. Depois aquilo ficou como “uma brincadeira”, algo que ela não quisera dizer de verdade. Mas o tom fora inequívoco, não havia sido uma brincadeira.
Uma série de processos contra a imprensa se iniciara, tendo por alvo a publicação das histórias reveladoras de corrupção na Casa Branca. No caso de Watergate, com risco de prisão de repórteres e editores, não só do Post. Segundo Ehrlichman, porém, especialmente repórteres do Post haviam sido afastados da Casa Branca após o início da cobertura de Watergate, e Nixon havia ordenado a investigação de um repórter que estava publicando informações sobre a atuação de Julie Eisenhower na Flórida.
Ao ver de Ehrlichman, o motivo do ressentimento pessoal de Nixon contra o Post era de que ele era devotado ao Star, que o Post estava porém derrotando no mercado. Para Halberstam, o motivo eram as charges de Herblock, apelido de Herbert Block, o cartoonista do Post, e um dos melhores cartoonistas da história do jornalismo. Conforme Halberstam, um cartoom de Herblock não era negável, “ficava na atmosfera como uma visão permanente”. (842).
Ele fôra especialmente cruel contra Nixon. Desde 1954, quando era vice-presidente, Nixon havia cancelado a assinatura do Post para evitar que as filhas vissem as charges diárias de Herblock. Nixon dizia que muito de suas reações a outros tinham que ser calculadas relativamente a quem eles visavam, não a ele mesmo, Nixon, mas ao Nixon de Herblock. Um ser que pudesse imediatamente repugnar a todos os liberais, feito de falsa piedade, desrespeito pelas liberdades civis, exploração de paixões sob o pretexto de as estar apaziguando, e de tudo o que havia de vulnerável na aparência, a barba, a cara, o nariz, fazendo de Nixon fisicamente repugnante.
Porém a publicação da carta de Kay por Ehrlichman contradiz a concepção de Halberstam, de que John Ehrlichman, assim como Clark MacGregor, Ron Ziegler e Robert Dole, personificou a saraivada de ataques que se seguiram após as denúncias, da parte da administração Nixon, e que eram cuidadosamente orquestradas, dirigidas de modo altamente pessoal contra Kay Grahan e Ben Bradlee. O comentário de Ehrlichman a propósito revela que ele mesmo considerava boa política aproximar-se amavelmente de Kay, aproveitando-se do sinal verde que ela emitira, de modo que as histórias pudessem parecer pura especulação algum dia, ou, em todo caso, o caráter das pessoas pudesse ser salvo. Mas Nixon não aceitou o conselho de Ehrlichman. Ele considerava da máxima importância destruir os assim considerados inimigos e não acreditava na sinceridade de Kay Graham.
Por outro lado, Halberstam revela que as ligações sociais de Kay com personagens importantes da Casa Branca não cessaram. Muitos eram convidados habituais de suas suntuosas festas, tendo ela já aprendido a frequentar e receber, passando a um status de grande influência na alta sociedade de Washington.
Ehrlichman e Halberstam concordam em que Nixon considerava o problema pessoalmente, e com a maior agressividade, assim como ao menos os que acatavam totalmente a sua linha de ação. Na Casa Branca, portanto, havia uma cisão cada vez mais aparente.
Quando Sloan, uma das fontes de Woodward do Post, levou a John Mitchel, o procurador geral (“attorney general”), como figura chave do levantamento secreto de fundos de campanha para reeleição de Nixon, Bernstein ligou para ele, apenas para ouvir um grito - um “grito primal”, segundo Halberstam. “Jeeeesus!” Tratando “Kay” por “Katie Graham”, o que ainda segundo Halberstam só gente de Nixon fazia, para todos os amigos era Kay ou Katharine, Katie nunca, Mitchel ameaçava: ele torceria o pescoço do passarinho dela - e a resposta de Kay ao recado, como se este fosse como qualquer outro, havia sido: “há mais alguma mensagem para mim”? (p. 899)
Com relação a Nixon, porém, nessa altura a ironia atinge o paroxismo. Pois já não era o Post que estava à frente das investigações, o Los Angeles Times sobrepujou repentinamente todas as expectativas. E a tentativa do Post de reconquistar a preminência perdida resultou numa vantagem tão oportuna a Nixon que pode ter sido a causa da reeleição.
Jack Nelson do Los Angeles Times havia logrado ultrapassar Woodward e Bernstein, os lendários repórteres do Post que descobriram Watergate e o modelaram para grande repercussão, estes os autores de All the president’s men, livro que se tornou um sucesso do cinema.
Nelson estava enciumado pelo fato dos dois jovens terem se tornado estrelas do jornalismo de um dia para o outro, e investigara diligentemente o motivo do sucesso deles com Watergate, tendo constatado que consistia simplesmente na recusa de usar o telefone, e, ao invés, contatar as fontes apenas pessoalmente.
Segundo Halberstam isso podia ser considerado trivial, ninguém confiava em telefone nos USA àquela altura, porém o jornalismo ainda dependia muito das chamadas, em grande escala. Mudando de tática, Nelson descobrira, contudo, não apenas uma fonte com novidades excitantes, mas que como todas as outras tinha que permanecer na sombra, não diretamente identificada. Ele descobrira uma testemunha ocular, Alfred Baldwin.
Após muitas reviravoltas protagonizadas pelos dois advogados de Baldwin, a questão era como ele seria melhor protegido, uma vez que a administração sabia que ele sabia. Os poderes públicos envolvidos tentaram impedir que a história fosse publicada, o próprio juiz Joe Sirica, que condenou Ehrlichman depois, interveio para amordaçar Nelson, proibindo a publicação. Afinal ficou claro para Nelson e os advogados que seria melhor para Baldwin tornar-se de conhecimento público até onde ele atuara. Assim ele concedera a Nelson a história, e ela foi publicada, com a única condição de que Nelson aduziria a seu respeito que ele havia sido antes da marinha - porque ele queria que sua namorada lesse isso nos jornais.
Al Baldwin havia sido na verdade agente do FBI, e estava trabalhando agora para a CIA. Em seu turno de trabalho, casualmente situado em frente a Watergate, ele monitorava fitas gravadas oriundas da escuta clandestina, as quais deviam ser passadas para o quartel eleitoral de Nixon. Num dado momento, ele avistou Hunt saindo de Watergate, andando casualmente, e a polícia se aproximar. A história de Baldwin era tão importante por ele ser uma testemunha ocular, mas a mais importante de todas, por ser a que conectou Watergate diretamente com a campanha de reeleição de Nixon.
O juiz Sirica ordenou a prisão de John Lawrence, do Los Angeles Times, e Nelson declarou ao Post que nesse caso também ele a aceitaria com a consciência limpa. O Post aduziu porém uma nota sobre Otis Chandler, que não se encontrava então em Los Angeles, na qual Otis declarava que ele mesmo iria para a prisão orgulhosamente se fosse preciso. De fato Nelson nada dissera sobre Otis, e se tornou visado por comprometer o editor. Otis, cavalheirescamente, respondeu depois que iria mesmo. Como em todos os demais processos, porém, a Suprema Corte favoreceu a imprensa e ninguém foi preso.
Mas agora os enciumados eram Woodward e Bernstein. O Post havia perdido a corrida, o New York Times ficara para trás há muito tempo relativamente a Watergate, o Los Angeles Times vencia. O Post não publicou, a princípio, a história do Los Angeles Times, comprometendo a sociedade Times-Post de notícias. Na verdade o Los Angeles Times já vinha fazendo uma boa cobertura de Watergate, mas à medida em que as histórias ficavam melhores, o Post roubava os títulos e publicava como se fossem seus.
Halberstam, inclusive, corrige uma cena do All the president’s men, onde Simons, um dos comissionados do Post para coordenar Watergate, é visto pedindo a Bradlee para tornar a história nacional, e Bradlee responde que seria melhor deixa-la ficar como estava, apenas com os garotos. Segundo Halberstam, a cena se deve a razões dramáticas, para fortalecer o papel do ator Jason Robards, pois na verdade, foi Bradlee que em várias ocasiões insistiu com Simon para tornar a história nacional (p. 897). Como vemos, o Post tencionava manter Watergate estreitamente associado a si mesmo e à sociedade de Washington.
Após a vitória de Jack Nelson, os dois jovens do Post intensificaram o uso das fontes, e Deep Throat, como eles designavam a uma delas para evitar identificação por nome próprio, tocou num dos pontos mais delicados do problema que consistia na extensão da ligação de Watergate com o Staff de Nixon. O ponto era Haldeman, o mais alto funcionário da Casa Branca, o mais próximo de Nixon. Se ele fosse implicado, não haveria dúvidas sobre o envolvimento de Nixon. Mas Haldeman era considerado intocável, invencível.
Até aí Woodward e Bernstein haviam descoberto a CREEP, uma organização clandestina, destinada aos fundos de campanha, composta porém por pessoas tão simples e tão leais a Nixon, que tudo o que os jornalistas puderam obter foi a comprovação de que muito medo transparecia da parte de qualquer deles em agir contrariamente ao governo. Mas gradualmente chegaram a John Mitchel, e deste a Donald Segretti, que condensara um plano de vários truques sujos de campanha contra os democratas. De Segretti foram levados a Chapin.
Ora, Chapin era um homem de Haldeman, sem dúvida atuava sob as ordens deste, e não faria nada que Haldeman não aprovasse. Woodward e Bernstein estavam certos de que se chegassem a Haldeman, superariam tudo o que havia sido feito antes em matéria de Watergate, e estavam maximamente interessados em atingi-lo, não obstante ser Haldeman o homem mais temido àquela altura em todo os Estados Unidos. Deep Throat pareceu confirmar que Haldeman estava envolvido, e os repórteres foram atrás de Sloan, que a essa altura já havia prestado declaração ao grande júri.
Assim, quando Sloan confirmou que Haldeman estava envolvido, Bernstein e Woodward publicaram que Sloan havia testemunhado contra Haldeman perante o grande júri. E isso não havia acontecido. Sloan havia falado a eles somente, não ao grande júri, sobre Haldeman. O erro se tornou enormemente explorado contra Woodward e Bernstein. Deep Throat estava furioso, e a nação obteve motivos para suspeitar que todo Watergate não passava de uma montagem. Logo depois, Nixon era reeleito.
Mas a essa altura, a CBS havia tomado a decisão de não omitir Watergate. Integra a história interna da CBS, parte da qual já visamos, o quanto a decisão é exemplar da cisão interna ao jornalismo, entre o que pretendem os repórteres e programadores, contrariamente aos interesses dos proprietários e seus editores. A crise dentro da CBS foi intensa, conhecendo-a entendemos porque Halberstam diz que Bill Paley, o proprietário da CBS, gelou quando Kay Graham, numa festa, beijou-o no rosto, por ter ele “nos salvo a todos”.
Porém Halberstam explora habilmente o sucesso de Watergate, que atraiu a atenção do público desde o início.
Assim, mais tarde, o Post se recobrou do fracasso, ainda que não por mérito próprio. Bernstein e Woodward tornaram-se repentinamente heróis nacionais, e o próprio juiz Sirica convidou Woodward para conhecer sua filha. Watergate havia se tornado nacional. Os dois repórteres constataram a imensa competição entre os jornalistas, a multidão amontoada dos empregados de imprensa em torno das possíveis fontes de informação, quando antes tudo havia sido tão solitário. Watergate não era mais apenas uma especulação sobre a honestidade do presidente, era realmente um caso de implicação de todo o status quo.
Mais uma vez a aplicação do método de contato pessoal de Bernstein e Woodward do Post, porém pelo Los Angeles Times, mudou o sentido dos acontecimentos.
Após a saída de Jim McCord da prisão, seguindo o método de abordagem de Jack Nelson, Bob Jackson se aproximou dele como fonte de informação. McCord com efeito revelou documentos que levaram a John Dean, este tão intimamente ligado a Nixon que seria impossível negar o envolvimento do presidente da república. Desde Maio de 1973, Watergate se tornou um caso de repercussão nacional, a história estava “legitimada”, não mais uma fantasia, mas uma realidade. O impeachment se tornou inevitável, mas Nixon preferiu renunciar.
O sucesso custou Dean ao Los Angeles Times. Ele ficara contra Jackson, como se o Times o houvesse apresentado como mero peão dos documentos de McCord. O Post se encarregou de John Dean. Na verdade, Woodward tentava se apossar da testemunha, revelando que tinha conexões com a central de telefonia, pois todas as vezes que McCord mudava o número, Woodward tornava a ligar. Mas Jackson e McCord tinham relações pessoais, e uma ligação de Bob Toth, da Casa Branca, não apenas apresentou as tradicionais negações, mas também comunicados que revelaram a Jackson a confiabilidade da testemunha, e que a Casa Branca havia sido severamente atingida.
A essa altura, a CBS tinha em Watergate um sucesso tão estrondoso, que permitiu a Halberstam motejar uma conhecida teoria europeia dos mass media, segundo a qual é o público que determina a mediocridade dos programas, especialmente os da noite, o horário que coincide com o do jantar e que é o de maior atração, porque desliga a TV se o programa apresentado não for alguns dos seus favoritos, a novela ou o futebol. Inversamente, aqueles espectadores habituais de novelas que primeiro reclamavam que seus programas favoritos estavam sendo tirados logo se tornaram atraídos. Os números estavam muito bons.
Watergate se tornou mais do que apenas a história de uma degenerescência no governo. Não só um reflexo da mídia na sociedade, Halberstam documenta a íntima relação entre a cobertura do Post em Vietnã e Watergate, e as mudanças históricas na sociedade de Washington, na transição aos anos setenta. Mudanças que inserem os tópicos mais relevantes do conflito social atual, os quais porém ainda não foram equacionados nas visão tradicionais da história.
2) E Ehrlichman?
Foi só depois de ter se desligado da Casa Branca por injunção de Nixon a renunciar, que Ehrlichman se tornou alvo dos processos que o levaram à prisão. A injunção de Nixon na ocasião abrangeu a Haldeman, correspondendo ainda a uma suposta exequível estratégia para manter Nixon incólume, naquela altura dos acontecimentos que vimos acima, em que já Dean estava identificado, prestando declarações que não deixavam mais dúvidas sobre o envolvimento do alto escalão.
A acusação a Ehrlichman procede destas declarações, uma vez que os depoimentos de Dean o comprometiam. Ehrlichman foi ainda acusado de perjúrio, por terem-se constatado contradições entre o seu depoimento e os de Dean.
A crise virou “zona”, conforme a letra do hit clássico de Elis Regina. Logo que a demissão de Ehrlichman foi anunciada publicamente pelo presidente, ele se tornou objeto de inúmeras investigações, entre Washington e Los Angeles, tanto do congresso quanto do FBI. Ele desistiu de contar quantos, após o décimo quinto. Porém o resultado concreto foram dois processos públicos impetrados contra Ehrlichman, relativos aos dois “break-ins” (arrombamentos). O primeiro, do consultório do psiquiatra de Daniel Ellsberg, o dr. Fielding. Neste o juiz foi Gesell. O segundo, da sede do partido democrata no edifício Watergate, tendo por juiz Joe Sirica. Não obstante os dois processos correndo separadamente, Sirica usou o caso Fielding contra Ehrlichman.
Em ambos, Ehrlichman constatou decisões tomadas pelo tribunal apenas visando atrair a atenção da mídia, além de hostilidade contra ele, não obstante haver algumas diferenças no modo como as coisas foram conduzidas pelos dois juízes. A presença da mídia em todo caso foi massiva em todos os dois processos. Ehrlichman se tornou celebridade, sendo reconhecido em todos os lugares, mas não sendo isso algo positivo para ele, ou para os vizinhos de Seattle, onde morava originalmente, a quem a imprensa incomodava.
Nada foi feito por parte da justiça americana contra a mídia, no sentido de defender a integridade da pessoa do réu e a discrição dos procedimentos, pelo contrário. Conforme Ehrlichman, “os inquéritos foram teatro de televisão” (p. 359).
Como vimos acima, o primeiro julgamento teve por objetivo apurar a culpa do arrombamento, em função de Daniel Ellsberg ter publicado documentos do Pentágono relativos ao Vietnã, os quais comprometiam irreversivelmente a versão do governo de que se tratava de uma guerra pela democracia. O governo que estava processando Ellsberg foi, portanto, acusado de ter arrombado o consultório do seu psiquiatra, para obter informações que alterassem o rumo do processo.
Mas foi também, segundo Paulo Francis, acusado de tentar subornar o juiz que estava processando Ellsberg. O que Ehrlichman não comenta. Apenas registra que ele foi comissionado por Nixon para oferecer a este juiz, Byrne, o cargo de diretor do FBI, uma vez que Pat Gray, que até aí ocupava o cargo designado por Nixon, deveria ser substituído por que o senado questionara a nomeação, durante a investigação das acusações do abafamento (“cover-up”) do crime de invasão em Watergate (p. 342).
Na cena reconstituída por Ehrlichman, Byrne aceita entusiasmado a designação, como para algo com que ele sonhava há tempos. Ehrlichman o havia contatado por telefone, sem deixar de argumentar que se o assunto parecesse impróprio, dado ser Byrne juiz do caso Ellsberg, ele estava à vontade para não aceitar o convite do encontro. Conforme o que vimos ser o estilo característico de Ehrlichman, nem por um instante ele considera isso suborno.
Nesse encontro, o próprio Nixon se junta a Ehrlichman e Byrne, instantes depois da oferta e da resposta, para conversar informalmente com Byrne, nem este nem Nixon tocando no assunto da nomeação, enquanto Haldeman filmava toda a cena. Não obstante, mais à frente Ehrlichman informa que o nomeado para o cargo de diretor do FBI foi William Rickelshauss. (p. 356)
Na entrevista que citamos de Ellsberg a Paulo Francis, este observa que a ligação do break-in do consultório do dr. Fielding com Watergate, algo que o fascinava, nunca havia sido analisada profundamente. Ellsberg responde que são a mesma coisa, evidentemente, porém não interessa esclarecer a conexão porque isso seria demonstrar que a mesma corrupção utilizada normalmente quando se trata do imperialismo (política externa) se verifica na política interna americana.”O povo ficaria chocado. Qualquer povo” (op. cit. p.111).
Na verdade, Ehrlichman faz a conexão: “se o arrombamento do consultório do dr. Lewis Fielding, na Califórnia, por Howard Hunt e Gordon Liddy foi o episódio seminal de Watergate, como eu acredito, então os historiadores devem continuar inquirindo sobre suas origens” (p. 364). Ehrlichman anota então as versões que estão em questão: na primeira, versão de David Young, ele é o personagem do alto escalão que autorizou Hunt e Liddy no episódio Ellsberg; na segunda, Charles Colson encorajou Hunt e Liddy, algo bem possível, porque Colson estava sendo acusado de obstrução da justiça por conspirar para difamar Ellsberg.
Para Ehrlichman, parece claro que foram Hunt e Liddy quem primeiro propuseram o plano do arrombamento do consultório. Ele sabe, obviamente, que não foi ele quem autorizou, portanto, “o suspeito logicamente alternativo é Charles Colson. Ele era patrocinador de Hunt, seu confidente e amigo íntimo” (p. 368). Acima já examinamos esse ponto, mas aqui seria preciso aduzir que Ehrlichman não nega ter sido informado do plano de Hunt e Liddy, apesar de não saber sobre o break-in até instantes depois de ter acontecido.
Na realidade foi ele, Ehrlichman, quem aprovou o plano, proposto a ele por David Young e Krogh, este reclamando que o FBI não estava investigando satisfatoriamente. O que, pelo que vimos, seria esperável, Hoover possivelmente ligado a Ellsberg.
Porém Ehrlichman não foi informado de que o plano incluía um “break-in”, somente de que se trataria daqueles agentes “investigarem” Daniel Ellsberg - um plano de “inteligência”, conforme o jargão que Ehrlichman registra. Ehrlichman informou Nixon, que também aprovou o plano, sendo exatamente “ação” como Nixon queria. Ehrlichman comunicou a Krogh o sinal verde, mas com a reserva de que Hunt e Liddy não deviam ser os agentes diretamente envolvidos, para que não houvesse a pista de um serviço secreto do presidente, atuando de dentro da própria Casa Branca.
Depois, Krogh ligou para Ehrlichman, informando de que houvera o break-in no consultório, porém para consulta sobre uma nova proposta de Hunt e Liddy, porque nada foi encontrado, e os arquivos do psiquiatra sobre Ellsberg deviam estar na casa do médico. Krogh perguntava agora a Ehrlichman, se ele queria um novo arrombamento, desta feita na casa de Fielding.
Ehrlichman estava porém chocado com a notícia, algo que ele não esperava. Logo, ordenou que todas as operações de Hunt e Liddy fossem imediatamente suspensas. “Tire-os de lá e jamais os envie de volta”, respondeu ele a Krogh. (p.366)
Hunt e Liddy foram presos, em 1972, como participantes da operação Watergate. A conexão dos mesmos agentes está, portanto, reportada por Ehrlichman. A dupla azarada, Hunt e Liddy, atacou de novo em Watergate, e quis o azar que mais uma vez sua atuação resultasse num fiasco.
Pelo que pude reconstituir, cotejando David Halberstam e Ehrlichman, o que aconteceu em Watergate foi que Hunt e Liddy deviam instalar (ou voltarem para consertar) um microfone oculto na porta da sede dos democratas, enquanto McCord e um grupo de quatro cubanos estavam encarregados de fotografar documentos. Arrombaram a porta, Hunt e Liddy saíram, logo após fazerem o trabalho com o microfone, e o grupo de McCord começou a fotografar. Ocorreu que os dois primeiros fizeram um mau serviço e um zelador do prédio notou o gravador escondido, chamando a polícia. A polícia entrou no prédio devido ao microfone mal oculto, porém assim flagrando McCord e o grupo dos cubanos.
Segundo Halberstam, (p. 846), Joe Califano, advogado do Post e conselheiro geral do comitê Democrático Nacional, ligou na manhã seguinte, sábado, para o jornal, informando o break-in. Woodward foi designado para cobrir o que até aí era apenas uma história policial, registrando a ocorrência de cinco homens presos, quatro cubanos e um americano, às 2:30 da madrugada de 17 de junho de 1972, arrombando a sede do partido democrata.
Woodward compareceu, no mesmo sábado, ao julgamento dos presos. O juiz perguntou a um deles sobre o que fazia para viver, e o homem respondeu “consultor de segurança”. O juiz tornou a indagar: “onde”? A resposta do homem foi “na CIA”. Este homem era McCord.
No domingo, Woodward já secundado por Bernstein na cobertura do caso, este investigava McCord, obtendo com a Associated Press a informação de que ele atuava como coordenador da segurança do comitê de reeleição presidencial. Até aí, a história não tinha muito interesse, segundo Halberstam, mas logo depois tornou-se importante a revelação do repórter policial do Post, Eugene Bachinski. Ele soubera por suas confiáveis fontes na polícia, que com os cubanos foram encontrados dois cadernos de endereços, em um deles constando o nome de Howard Hunt, com uma nota ao lado: “Casa Branca”. Havia também sido encontrado um envelope com um cheque nominal de Hunt, no valor de $ 6.36, de Lakewood Country Club, perto de Rockville.
Simons, o editor do Post que designara Woodward, a essa altura considerava a história fascinante, e se interessava por descobrir a conexão com a Casa Branca. Bem mais tarde, em Julho, o New York Times publicava reportagem sobre ligações telefônicas que comprometiam Gordon Liddy, da CREEP, a “Comissão para Reeleição do Presidente” Nixon.
Na versão de Ehrlichman, Hunt e Liddy foram “apreendidos” em junho - o que pode significar que tenham sido logo relacionados ao caso. Seja como for, no primeiro desfecho do caso, um desfecho aparente, o presidente e a Casa Branca não estavam envolvidos. Tudo terminara com sete homens presos, nenhum deles relacionado ao alto escalão. Hunt e Liddy eram meros free-lancers, sem relação com o alto escalão da Casa Branca. McCord se relacionava com a CIA, não com o staff do presidente Nixon. Este estava reeleito.
Sabemos o que aconteceu depois, de modo que houve um segundo desfecho, no qual Ehrlichman foi condenado por vários crimes, incluindo desde o caso Ellsberg até perjúrio e obstrução da justiça por abafamento do caso Watergate. A imprensa continuou inquirindo e descobrindo histórias, até levarem ao alto escalão da Casa Branca, e ao turning point da identificação de Dean.
Para Ehrlichman, muito do que a imprensa publicou era mentira. Ele identifica várias histórias que arrola como falsas. Quanto ao que era verdade, o enigma histórico permanece. Ao ver de Ehrlichman, a operação poderia ser vista, não obstante os seus próprios escrúpulos, como algo normal, ou ao menos como algo não estranho aos procedimentos de muitos governos, inclusive democratas.
Não obstante afirmar que ficara chocado com a informação do break-in de Fielding, num outro trecho Ehrlichman comenta que para ele Ellsberg foi um traidor dos USA, tendo sido notório que vendera ou cedera cópias das informações secretas à Rússia e Japão (p. 369). Num outro momento, relata que sugerira que suspendessem todas as acusações a Ellsberg, para ridicularizá-lo. Ele iria inutilmente ficar implorando por atenção, dizendo “eu fiz, eu fiz”, mas sem o processo do governo, a imprensa não se interessaria por ele. Este, como vários outros conselhos de Ehrlichman, não foi ouvido.
Aqui ele volta ao momento em que David Young lhe propusera, com Krogh, que Hunt e Liddy fossem à Califórnia. Sendo Young a quem ele desmente como depoente da versão de que aconteceu assim, porém com Ehrlichman sabendo que o plano abrangia o Break-in.
Young e Hunt haviam pedido à Cia um segundo “perfil psicológico” de Ellsberg, mas os psicólogos da CIA responderam que precisavam de mais informação para isso. Até aqui, Ehrlichman dissera que não conhecia Hunt senão por um momento em que o vira com Colson, e que nunca se encontrara com Liddy.
Em todo caso, conforme prossegue Ehrlichman nesta página (369), Hunt e Liddy sabiam que Ellsberg estava tendo auxílio psiquiátrico, e propuseram tentar obter o que a psiquiatria sabia sobre Ellsberg, nutrindo assim os psicólogos da CIA com informação suficiente. A Ehrlichman foi solicitada autorização do plano, e ele a concedeu, porém sem saber que abrangia arrombamento. Não compreendi como ele podia não saber do arrombamento, mas sim que se procurava obter o arquivo do médico.
A estimativa de Ehrlichman, na ocasião da produção do seu livro, era de que quando todas as fitas da Casa Branca estivessem conhecidas, ficaria claro que Hunt e Liddy propuseram um plano de arrombamento a Charles Colson, a proposta específica do arrombamento, que não foi feita a Ehrlichman, sendo necessária para obtenção do dinheiro requisitado para o serviço. E além disso, Colson precisava ser contatado porque Ehrlichman negara a Hunt e Liddy participarem diretamente de qualquer operação secreta para a Casa Branca. Assim, Ehrlichman deduz que Colson deve ter ido diretamente a Nixon para obter a aprovação que Ehrlichman negara (p. 368).
Após o break-in, quanto Ehrlichman soube, de fato ele confessa sua decisão de manter secreto o caso, aduzindo os motivos ideológicos que vimos acima - além de, naturalmente, conforme diz, não saber na ocasião que Nixon pudesse estar pessoalmente envolvido.
Não obtive discernimento sobre como o governo foi implicado neste primeiro caso, do break-in do consultório do psiquiatra de Ellsberg - ao que parece, Ehrlichman não foi processado nos dois casos ao mesmo tempo. Mas quanto ao segundo, os depoimentos de Dean se tornaram um ponto chave não só pelo que ele dizia. Mas porque nessa altura, o sistema de gravação do que era falado na Casa Branca, implementado por Nixon, havia sido descoberto, e as fitas foram requisitadas no processo.
Em todo caso, o enigma histórico cerca o objetivo tão tenazmente perseguido, de envolver o governo. Quem era o inimigo de Nixon? O objetivo não se limita à imprensa - porque as fontes nesse caso foram o fator principal. Para Ehrlichman (p. 360), Deep Throat, o apelido que acima vimos de uma das fontes dos repórteres, era nada menos que Henry Petersen, amigo de Dean e procurador geral da divisão criminal, de modo que segundo Ehrlichman, John Dean era informado sobre quem iria ser visitado pelo FBI (p. 326)
Assim, o FBI, mesmo quando ligado a democratas, parece um dos prováveis apoios da antipatia pessoal de vários clãs de mídia ligados aos republicanos a Nixon, não obstante o partido republicano como um todo o impor. Em todo caso, a meu ver a operação contra Nixon não prejudicou o partido republicano, pelo contrário, a queda de Nixon só favoreceu enormemente ao partido republicano. É certo que os democratas foram eleitos após o interregno de Gerald Ford, o vice que assumiu devido à renúncia de Nixon - Ford concedeu perdão absoluto a Nixon. Porém não parece que Reagan se elegeu apenas porque Carter não foi exitoso na crise do Irã. O partido republicano provara que poderia “limpar a casa” - a mesma expressão que Nixon usou para justificar as demissões que fez com o intuito de se salvar das acusações. Provara não ser algo diferente dos interesses americanos.
O próprio Nixon não sofreu as consequências, os presos foram os de menor importância, a autoridade do partido permanecia incólume. Na altura de Watergate, como vimos, não havia mais uma linha divisória compreensível, Nixon baralhara as cartas, e não se pode afirmar que apenas o liberal Post estava contra. Otis Chandler, do republicano Los Angeles Times, entre a hostilidade de Haldeman e alguma simpatia de Nixon, o comprova.
Ehrlichman registra várias operações contra ele enquanto réu, sendo Leon Jaworski o promotor no caso Fielding (p362). O testemunho de Nixon, pessoalmente ou filmado, vital para a defesa, não foi autorizado pelo juiz. Os pertences de Ehrlichman na Casa Branca, abrangendo os arquivos pessoais, foram apreendidos, e não foram devolvidos estes arquivos de que ele e os advogados precisavam para organizar sua defesa. Um conselheiro de Nixon, Fred Buzhardt, atrapalhou o recurso da defesa para reaver os arquivos, argumentando que eles não tinham a ver com a defesa. Inversamente, inúmeros documentos constantes nos arquivos seriam úteis, conforme Ehrlichman. Buzhardt sofreu um ataque do coração pouco depois.
Houve ilegalidade na escolha do júri por Sirica, segundo Ehrlichman, inclusive um dos jurados protestou não ser adequado para o caso por questões pessoais. A ignorância de Ehrlichman sobre o arrombamento planejado no caso Ellsberg foi confirmada a princípio por Krogh, inclusive por um afidavit contendo a referência de que Ehrlichman não sabia do break-in, mas Krogh foi posto por Jaworski numa cadeia de Maryland com alguns negros forçudos, de modo que depois disso os depoimentos dele se tornaram contraditórios (p. 365).
Por outro lado, o conteúdo das fitas gravadas, como um pivô da acusação no caso Watergate, não era de fato bem audível. Uma transcrição oficial foi feita, porém por pessoas que não conheciam o staff, e o resultado foi que o texto atribuía falas a pessoas erradas, confundindo frequentemente Ehrlichman com outros, atribuindo a ele, assim, ditos que não lhe pertenciam. Algumas palavras não eram de modo algum audíveis, mas na transcrição não apareciam as lacunas. Ehrlichman examinou as fitas e o texto. Reconstitui assim muito do que foi falsamente atribuído no processo, algo que integra a sua exposição dos acontecimentos, vistos pelo ângulo interno à Casa Branca. Essa reconstituição é importante, porque mostra o quanto Nixon mentiu, relativamente a Ehrlichman.
O pivô da acusação a Nixon é uma conversa entre Nixon e Haldeman, logo depois do break-in em Watergate. Nessa conversa, eles planejam convocar dois altos funcionários da CIA (Helms e V. Walters) para contatar Pat Gray, então dado como diretor do FBI, com o objetivo de sustar a investigação de Watergate pelo FBI. Na conversa, fica claro que o objetivo era proteger Hunt da investigação, temendo-se que ele levasse ao alto escalão.
Haldeman é ouvido dizer que se devia proteger a CIA conforme conselho de Ehrlichman, mas este afirma não ter jamais aconselhado nesse sentido, nem ter sabido desta conversa, antes.
Contudo, Ehrlichman foi convocado à reunião da Cia com Pat Gray. Ehrlichman participa assim da reunião sem compreender ao certo o conteúdo dos pronunciamentos. Ele só veio a compreender quando examinava as fitas. Mas Ehrlichman, por outro lado, afirma ter sabido logo após a notícia de Watergate, de um levantamento de fundos na Casa Branca para ajudar na defesa de Hunt. Inclusive, de que Hunt pretendera mais dinheiro para não implicar Ehrlichman - que não se incomodou na época, confiando na própria inocência, e na de Nixon.
Durante a reunião, o que se disse não revelava a cobertura a Hunt, mas sim que o FBI não devia investigar a proveniência do “dinheiro mexicano”, porque o processo poderia levar a revelações de segredos da Cia - neste caso, explicitamente referenciados o assassinato de Dim Diem e o conhecido fiasco na Baía dos Porcos, ambos os itens relacionados à administração Kennedy.
O assassinato de Dim Diem por Kennedy é reportado em Cl. Julien (op. cit., p. 440). Ele foi apoiado no Vietnã pelos USA, porém aconselhada uma abertura política, negou que o pudesse fazê-lo mantendo-se no governo. Logo, que o Vietnã do sul era uma ditadura, não há dúvida de que independente de Ellsberg os USA sabiam há muito.
A desculpa foi aceita, malgrado o aconselhado por Landsdale, que assim perdeu crédito na Cia, porém não aceita por todos. E segundo Julien, a CIA esperou pelo governo de Kennedy, quando um dos agentes se encarregou do assassinato de Dim no Vietnã. Na referência de Ehrlichman, parece que há evidências de que o fiasco na invasão dos USA à Cuba não foi casual, de modo que Kennedy teria sido realmente o responsável. Lembrando o que observou Vicentino (História geral, São Paulo, Scipione, 1997, p.405) a propósito, o plano de invasão a Cuba para derrubar Fidel Castro, foi elaborado pela CIA durante a administração de Eisenhower. Não na de Kennedy, que ainda assim teve que admitir o fracasso quando ocorreu a operação.
Em todo caso, todas essas referências encobriram, na reunião com Pat Gray, o verdadeiro motivo da solicitação da Cia ao FBI para não levar à frente as investigações de Watergate, solicitação mediada pela Casa Branca. Ehrlichman acreditou no que ouvia nessa reunião de 23 de junho, dias após o break-in. Porém ele descobriu que Colson mentira a propósito de Hunt. Este estava registrado, sim, na Casa Branca. Além disso, constatou que no escritório de Hunt havia um cofre. Ehrlichman sugere a Dean que ele se aposse do conteúdo do cofre, registre e arquive o que encontrasse. De fato, alguns dos papeis de Hunt acabaram nas mãos de Pat Gray, para arquivo, mas Gray os destruiu. Haldeman acusou depois a Ehrlichman de ter ordenado a destruição dos papeis, o que este nega.
Em todo caso, Ehrlichman continuou pensando que se tratava apenas de esconder os “segredos da Cia”, na injunção a Gray. Mesmo quando Nixon, após a reunião, teve uma conversa telefônica com Gray, e pela reação de Nixon logo após, Ehrlichman tenha se convencido de que Nixon não estava tranquilo, que temia o FBI ainda que Gray tivesse apenas comunicado que não iria investigar, para proteger a CIA.
Ouvindo as fitas, inclusive das conversas de Nixon e Haldeman, antes e depois da reunião, quando ficou claro que o objetivo era proteger Hunt, Ehrlichman ficou furioso. Além disso, nas memórias de Nixon ficou registrado que ele temia que a investigação levasse à CREEP.
Mas isso não ajudou Ehrlichman a provar sua inocência. Pelo contrário, foi imputado a Ehrlichman, acreditando-se nas acusações de Dean e nas duvidosas transcrições das fitas: co-conspiração por ter autorizado levantamento de fundos para os arrombadores, perjúrio ao tribunal, aconselhar Nixon a mentir, aconselhar o abafamento de Watergate, aconselhar a fuga de Hunt do país, saber do sistema das fitas, mentir sobre o que revelaram as fitas.
Assim que Nixon assumiu o segundo mandato, Ehrlichman foi afastado de qualquer conexão com Watergate. O presidente anunciara medidas impopulares: aumento de impostos, corte nas despesas do governo, revogar leis que impedissem seus programas de governo, substituir todos os funcionários da burocracia por pessoal da confiança de Nixon, subordinar a política interna (economia e política racial) aos interesses do Executivo. E ao longo dos acontecimentos, a doutrina Nixon do privilégio do Executivo, de modo que somente o presidente informaria sobre o caso ao congresso, os auxiliares não precisariam testemunhar.
Com efeito, logo depois da reeleição, Nixon reuniu todo o pessoal ligado à burocracia da Casa Branca e agências, agradeceu profusamente os seus auxílios, e em seguida Haldeman foi ouvido demitindo a todos conjuntamente.
Porém o Congresso fez passar logo em seguida, o orçamento da despesa para melhorar a qualidade da água, antes vetado por Nixon, enquanto a imprensa redobrava as histórias ligadas a Watergate e aos fundos ilegais de campanha. Os democratas obtiveram então no senado um comitê de investigação sobre Watergate. Sam Erwin desponta como aguerrido investigador, não se deixando cooptar em quaisquer das tentativas do staff Nixon. A partir desse ponto, a Casa Branca se tornara porta-voz apenas de seguidas negações das histórias da imprensa, cada negação desafiada pelo que se descobria a seguir.
A doutrina Nixon do privilégio do Executivo não funcionou, e a certa altura, Ehrlichman e Haldeman foram encarregados por Nixon, de investigar sobre o que realmente havia acontecido. O apurado por Haldeman não teve repercussão por que segundo Ehrlichman, pode não ter sido recebido por Nixon. Ehrlichman, em seu próprio documento, reconstitui as responsabilidades desde Hunt e Liddy até Jeb Magruder da Casa Branca.
Logo que Ehrlichman completara o documento de sua investigação que devia apresentar a Nixon, o próprio Magruder se dirigiu a Ehrlichman e o informou da responsabilidade pessoal no caso. A oferta do plano de Hunt e Liddy foram feitas a Mitchel por Magruder e La Rue na Flórida, e depois Dean subornou Magruder para mentir, assim como para destruir o seu “diário”.
Ehrlichman se encaminhou imediatamente a Nixon, para informar do apurado. Então Nixon recusou-se a ouvir Ehrlichman, ou mesmo a tomar conhecimento do conteúdo do documento da apuração dos fatos. Nixon, juntamente com Petersen, ouviram, inversamente, a Dean, que mentiu sobre Ehrlichman, afirmando que ele conhecera antes o plano.
Somente nesse ponto Ehrlichman se torna preocupado com o rumo dos acontecimentos. Ele entende que Nixon perdera o controle da situação, que estava temeroso sobre o que podia revelar o conteúdo do cofre de Hunt na Casa Branca, antes de saber que Pat Gray destruíra os papéis. Ehrlichman notifica Nixon de que as declarações de Dean na imprensa poderiam levar ao impeachment. Ao invés de clemência, como requisitara Ehrlichman, Nixon requisita que ele renuncie ao cargo, junto com Haldeman. A essa altura, Ehrlichman aparecia acusado nas histórias da imprensa relacionadas a Dean, e o Los Angeles Times circulou uma nota falsa sobre Ehrlichman fazendo favor ilegal a Robert Vesco, um contribuinte da campanha de Nixon.
Nas duas versões, de Magruder e de Ehrlichman, as informações que Hunt e Liddy ofereciam obter para a Casa Branca, com possível colaboração do pessoal do Creep e Sloan levantando fundos, foram primeiro interessantes a John Mitchel. Ehrlichman soubera por Dean que Mitchel, inversamente, havia recusado um plano ridículo, como infiltrar prostitutas e iates na convenção dos democratas, para fins de escândalo. Mas depois revelaram-se inúteis. Outros planos foram oferecidos, mas eram muito caros.
Na versão de Ehrlichman sobre o verdadeiro plano aprovado, o resultado foi inicialmente nulo porque o aparelho de escuta era defeituoso, então o plano foi sustado por Mitchel. Mas por conta própria Hunt e Liddy voltaram ao local do crime, para consertar o aparelho e colher mais documentação - nesta versão, a escuta clandestina havia sido instalada primeiro em maio.
Sobre o sistema das fitas na Casa Branca, Nixon dissera a Ehrlichman que gravava menos que Kennedy, que frequentemente os governos o faziam, e que, quanto a ele mesmo, quando se tratava de escuta clandestina, seu governo só estava interessado em informações relativas a grupos estrangeiros em contato com subversivos. Vimos acima que Mitchel foi implicado na investigação da imprensa, o que era esperável devido à ligação com Liddy. Mitchel foi na ocasião afastado da campanha da reeleição, Macgregor tendo-o substituído.
Quando depois Nixon pediu a renúncia de Ehrlichman e Haldeman, a cena que Ehrlichman reconstitui é porém extremamente emotiva. Nixon chora, assim como o próprio Ehrlichman. A injunção é absolutamente além do que Nixon queria, afirmara este. Após mais um encontro com Nixon, em que Ehrlichman não se mostra mais tão confiante nele como até então, nunca mais Ehrlichman esteve com Richard Nixon pessoalmente. Como sabemos, a culpa de Nixon foi apurada, e Ehrlichman estava o tempo todo, e até durante o processo quando ainda o negava convictamente, enganado.
Ehrlichman esteve preso em Sanford, Arizona, por dezoito meses. Foi cassada a autorização para atuar como advogado, e durante algum tempo ele e a família sobreviveram da contribuição de amigos, além de economias. Durante o processo, se divorciou da esposa. Recebeu apoio de muitos americanos que lhe visitaram na prisão ou escreveram cartas encorajadoras. Como cristão, tornou-se mais fervoroso durante a crise. Retornou da prisão fixando-se em Santa Fé.
e) A Modernização
A cobertura do Vietnã pelo Post não foi um evento decisivo historicamente. Naquele momento, o New York Times ainda era o modelo, e de fato o jornal ganhou dois Pulitzers pelo Vietnã, seus heróis em campo tornaram-se lendários, como Johny Apple, Neil Sheehan, Charles Mohor.
Bradlee não se interessava particularmente pelo Vietnã, ainda que o Post tivesse em Ward Just um correspondente notável. Ele foi um herói na guerra, ferido na batalha, exigindo ser tratado depois dos outros pelo fato dos soldados serem mais necessários, ganhando assim reputação entre os militares. Mas Ward era um romancista, o que lhe interessava era ser o Hemingway do Vietnã, captando todos os aspectos da bravura humana em situações singulares, porém não os aspectos políticos. E o Vietnã era realmente político, o que o Post não admitia revelar. As histórias de Ward eram pequenos romances, mas a história real, a que informaria da situação concreta seria uma que mostrasse ser o Vietnã para os USA um capítulo da bravura perdida, totalmente inútil.
Não foi o Vietnã que serviu de teatro interno para Bradlee derrubar Wiggins, apoiando-se na completa devoção de Kay à sua liderança. Assim Kay até mesmo superou algo do seu conservantismo, aceitando o segundo casamento de Bradlee - na realidade ela não havia aprovado Tony, a primeira esposa, mas gostado de Sally. A amizade de Bradlee a fazia sorrir, como antes Phil, mas a fazia sentir-se moça, descompromissada, mais do que Phil.
É interessante que Sally Quinn seja lembrada por Ehrlichman, à página 58 do “Witness to Power”, como um exemplo da nulidade da imprensa como veículo de informação segura, ao invés de simples amplificação de opiniões vulgares. Ela escrevera uma nota no Washington Post, em inícios dos anos setenta, sobre o engano de um alto oficial da Casa Branca, que ao ser indagado sobre a personalidade de Haldeman, respondeu com uma série de características para depois ligar desculpando-se porque havia falado na verdade de Ehrlichman. Sally continua porém informando que tal engano era compreensível, uma vez que Ehrlichman e Haldeman eram colegas de quarto na universidade, o que vimos ser verdadeiro, porém, a partir daí, ela começa a listar uma série de características que seriam comuns a ambos, as quais Ehrlichman se põe a desmentir.
Ao invés do que Sally disse, Ehrlichman informa que ele não era republicano nos tempos de universidade, somente Haldeman o era; que este não era cientista cristão, somente Ehrlichman, que também era o único dos dois que não bebia nem fumava. Ehrlichman lembra que esse tipo de erro foi comum por todo o tempo do governo Nixon, e que o próprio Nixon tinha dificuldade em chama-lo pelo nome porque o confundia com o de Haldeman. Em 198O, quando Nixon enviou a Ehrlichman o “The Real War”, de sua autoria, na dedicatória grafou “for John Erlichman”.
A princípio Kay estava embaraçada sobre como se inteirar não somente dos negócios, mas dos próprios assuntos que moviam o interesse dos que publicavam no Post, e Walter Lippman, um dos jornalistas considerados intelectuais do Post a aconselhou a não se intimidar, a convidar os repórteres para absorver informações deles, apenas transformando os assuntos em temas de conversação, superando assim a barreira dos arcanos de conhecimentos técnicos.
Isso funcionou bem, e quando ela escolheu Ben Bradlee para editor, a combinação revelou-se exitosa porque Bradlee estava justamente interessado num jornalismo não acadêmico, numa modernização que se sublevasse contra aquilo para o que ele não tinha paciência, o trabalho sério, lento, tenaz - conforme os adjetivos de Halberstam. Para quem o “jornalismo, com sua adoração do novo às expensas do antigo, era exatamente assim” (p. 749).
Se alguém contesta a definição do jornalismo assim apresentada, não é que não tivesse pares que o apoiassem. Dessa forma, Halberstam voluntariamente se alinha numa das partes do conflito que estava de fato ocorrendo, entre a modernização de Bradlee e o domínio já estabelecido de Wiggins. Ainda que Halberstam tenha coberto com cuidado a parte que saiu perdendo na história, especialmente Walter Lippman, e mostrando como isso ocorrera de um modo tão injusto. Principalmente como ocorrera de um modo tão generalizado, não apenas o interior do jornal, mas a própria inteira cidade de Washington. Tudo o que podia agora ser alinhado com Wiggins como representante da mentalidade de Phil Graham estava sendo excluído. Mas a luta pela modernização no interior do Post era o foco do que repercutia em Washington, e Lippman, que não concentrava nenhuma simpatia pela dominação férrea de Wiggins, ou pela guerra de posição, sofreu um ostracismo penoso, não só porque ele havia sido o homem de Phil, mas por que ele havia mudado de ideia a propósito do Vietnã, e se tornado crítico da guerra.
Lyndon Johnson tornou-se inimigo de Walter Lippman, e a linha do Post não estava contra a guerra. Ele enfrentou a batalha simplesmente abandonando a sua querida Washington, onde antes havia sido tão feliz, onde suas festas antes haviam atraído tantas pessoas importantes, na verdade o critério de quem era importante era até aí ser o convidado de Lippman. Ele abandonou a cidade depois que suas festas já tinham mudado de personagens convidados, não eram mais os antigos amigos, ou os grandes personagens, mas apenas todos aqueles que estavam contra a guerra. Lippman tentou se adaptar em New York, mas não conseguiu com um apartamento, apenas quando transferiu-se como hóspede permanente a um hotel.
A cidade de Washington não trazia mais prazer, tornara-se fria, pesada. Havia claramente perseguição política de pessoas. Como se exemplifica pelo fato do governo, ainda que antes de Lippman ficar contra a guerra do Vietnã Johnson tivesse sido seu amigo, expressamente o marcar como inimigo político da administração.
Um pouco mais de tempo seria necessário para a opinião pública se tornar anti-guerra, muito mais revelações das atrocidades do exército americano, ou da precariedade das condições da luta, ou das mentiras do governo à nação. Em todo caso, aqueles foram anos em que a situação política e social tornara-se complexa porque Lyndon Johnson polarizava duas posições ao mesmo tempo, o apoio à guerra do Vietnã e o apoio à questão racial - nisso inteiramente contrário a Nixon, que segundo Ehrlichman, acreditava pessoalmente na inferioridade mental do negro.
Segundo Halberstam, porém, o compromisso das pessoas esclarecidas com a questão racial estava declinando. Ainda que Halberstam não o deduza, uma leitura de Ehrlichman em conexão com o que ele revela sobre a mudança em questão parece autorizar supor ver aí uma causa da eleição de Nixon. Em todo caso, é o pivô da oposição de Bradlee a Wiggins, este braço de Johnson no Post, um pivô do que para Bradlee definia a modernização. A questão racial pertencia ao antigo, não ao novo, e assim se definia gradualmente o contexto da modernização enquanto se aproximavam os anos setenta. Já havia acontecido a integração, mudanças sociais correlatas já haviam sido implementadas, mas novos problemas sociais foram criados em decorrência.
O que era considerado antigo agora era a atitude de alinhamento unilateral com a causa racial assim como ela podia ser suportada antes das mudanças, ou seja, uma atitude de simples recusa de se conscientizar dos novos problemas. Wiggins começou a ter que censurar histórias trazidas pelos repórteres, à medida que os conflitos de rua não eram minimizados pelas medidas de integração. Como a de uma sublevação de rua depois de um jogo de futebol americano entre times de brancos e de negros. Ou da migração de brancos das cidades do interior por causa dos problemas criados nas escolas pela integração de alunos negros, uma história que vinha da reportagem feita no próprio departamento de saúde.
O ponto da ruptura entre Bradlee e Wiggins expressou-se na briga em torno de uma foto, revelando um homem branco, no interior de uma loja de roupas, com uma espingarda na mão, esperando, devido ao caos pelo atentado a King, “página 1”, ordenava Bradlee, “não”, contestava Wiggins. A foto saiu na página 1, mas não com a amplitude que Bradlee desejava (p. 755).
A meu ver temos aí a origem, não tanto de uma regressão na trajetória da superação do conflito social, mas do que está hoje muito expandido na televisão norte-americana, internacionalizada pela tecnologia, como o apartheid etário - contra os idosos, ao contrário do cinismo dos search de internet, que põem sites defendendo jovens quando se pesquisa a expressão “apartheid etário”, com se as vítimas fossem eles. Quando se pesquisa “terceira idade”, nas páginas do “search” , o Google, ao lado da lista dos sites adiciona uma nota gênero enciclopédia, constando nas “palavras associadas” , apenas “morte”, “mal de alzenheimer”, “velhice”.
Atualmente o Brasil protagoniza a triste radicalização desse sócio-apartheidismo, que se irradia pela televisão internacional como obsessão do romance do homem velho com a menina nova, a exclusão total da “mulher”, a partir de campanhas fascistas como a que apregoa que com a crise econômica o pagamento de aposentadorias só poderá ser feito com a imposição de uma taxa a toda a população. O que é calúnia, uma vez que as aposentadorias são pagas com os depósitos feitos pelo próprio trabalhador antes de se aposentar por um período muito longo de tempo, mais de trinta anos de contribuição (nota em 2017: o governo, que desde há um ano está atrasando sistematicamente por meses todos os salários dos funcionários públicos, aumentou o desconto para 14% do salário mensal).
O governo ainda na vigência do “pt”, indo à televisão para dizer que as aposentadorias atrasadas só poderiam ser pagas “tirando” de outros quesitos, assim jogando a população contra as pessoas mais velhas, o que estão fazendo por vários meios, também não lembra de informar que o retorno do desconto para aposentadoria só ocorre se o pagamento não for interrompido antes por qualquer motivo, neste caso não resulta o montante do que pagaram por anos senão na apropriação pelo governo. Apresenta este as coisas como se a aposentadoria dos idosos fosse uma esmola arrancada dos trabalhadores que estão atualmente na ativa.
O governo, pretensamente “trabalhista” mas na realidade seguindo os Friedman e Haekel do neoliberalismo econômico, age como aquela mulher que conheci dos tempos de Reagan, que ao casar com um rapaz divorciado de uma mocinha de pouco mais de quinze anos, com uma filha no colo, reclamava que esta aceitasse pensão dele como “esmola” - sem notar que mesmo que quisesse a moça não poderia recusar a pensão, que não era para ela, e sim para a filha, uma vez que essa moça não requerera pensão para si, e o juiz apenas destinou a que era devido ao bebê de colo. Depois, quando a menina cresceu um pouco, a madrasta mudou de tática, passando a exigir que ela chamasse a madrasta de mãe. Ao entrar na adolescência, a menina manifestou sintomas, tendo sido diagnosticada esquizofrênica. Mas a essa altura também a primeira madrasta já havia há muito se divorciado do pai, por ter descoberto a infidelidade dele - o qual já se “casou” dezenas de vezes desde aí.
Assim comprova-se que doutrinas ditas científicas como o neoliberalismo de Friedman não passam de mesma coisa que comportamentos maníacos de doentes impingindo doença às pessoas. Por outro lado há realmente o problema de meninas novas que estão, atualmente, seguindo a propaganda televisiva, se casando com homens idosos, aposentados, colocando o problema da pensão para o Estado, pois não são mulheres idosas como os que se aposentam.
Se ao longo do século XIX a modernidade originou o abuso de indivíduos que a cada geração, se supondo donos da verdade não são mais que assassinos da verdade anterior, o quadro que estudamos da evolução do conflito social nos USA é mais efetivo da patologia social como origem.
As cidades tem se tornado desde então antros de delinquência juvenil, os muros todos imundos de poluição visual, todos os dias se acrescem de imagens aberrantes, palavrões, violência dos direitos a partir de intrusão digital, neonazismo, etc. A partir dos anos noventa, a integração racial no próprio partido republicano acabou com todo o sentido possível na atribuição de linha política definida apenas pela causa racial.
A repressão no Brasil, na campanha nazista da mídia (“drogas nem morto”) de Bush a Clinton, campanha de milhões de dólares, massificada por todos os menores meios impressos, das capas de caderno escolares até propagandas totalmente aversivas à consciência humana, foi feita concomitante à inculcação da ideologia do negro puro, contra jovens brancos que para efeitos de roubo de propriedade para apaniguados políticos, eram caluniados ou meramente associados com o uso de drogas. Porém essa campanha apenas cumpriu objetivo de implementar pelo fascínio terrorista de mídia o neoliberalismo econômico oficial. Não ocorreu qualquer minoração do problema do crime organizado - bem pelo contrário, intensificou-se enormemente na década de 2000.
O próprio Halberstam indulge nisso, como já acentuei, ao contrário de Ehrlichman, que publicou a carta de Noyer, do Star, a Nixon. Uma carta amigável, de alguém que sabia gozar das boas relações com o presidente, mas contendo críticas, tais como a de que muitas pessoas ainda em boas condições de trabalho, alta performance intelectual e que sabiam lidar bem com os problemas, estavam sendo deslocadas por pessoas apenas porque eram da nova escola de administração, cujos instintos eram simplesmente de deixar as coisas seguirem por si só. “Eu acho que esse é um comentário crítico razoável, sem implicações severas”, ajunta Noyer, citado por Ehrlichman, que considerava tais críticas como importantes (p. 306).
Mas Nixon não as acatou e a modernização na acepção de simples substituição de pessoas, cortando nomeações com ligações estratégicas apenas por questões etárias, seguiu conforme o que ele já havia planejado. O que o próprio capitalismo a essa altura não estava fazendo, como informa Cl. Julien, registrando que generais do exército americano aposentados eram pagos regiamente por multinacionais interessadas nas ligações deles com pessoas que pudessem obter as permissões necessárias para o que fosse considerado oportuno aos negócios.
Assim vemos que o Post prestou mais serviços a Nixon do que talvez pudesse se conscientizar, lutando contra os ideais de patriotismo que fizeram de Johnson herói contra o comunismo vietnamita, o que Nixon não tencionava ser e o que significava estar diretamente contra Wiggins; atuando contra radicalismos da causa racial, como algo que Johnson igualmente protagonizava, e assim se colocando diretamente contra Ben Gilbert, o promotor da causa racial no Post dos tempos de Phil. Ou promovendo a ideia da modernização na base de uma simples exclusão de pessoas.
Foi Watergate, contudo, que simbolizou a tomada do poder por Bradlee, este homem que queria tanto ter sido um judeu (o que ele não era), e isso num momento em que os negócios do Post estavam mudando para operar como sociedade anônima. Uma mudança que Kay não queria, que a assustava porque para ela tratava-se sempre de manter o negócio em família, porém, como Otis Chandler a aconselhou, ele mesmo já tendo feito o mesmo, não era uma questão de escolha, era o que determinava o mercado.
Assim porém Bradlee teve que renunciar ao cargo para não revelar o montante do salário, o que teria que fazer conforme as regras do mercado aberto. A essa altura, ele ganhava em torno de 100.000 dólares. A empresa gastara também milhões de dólares com advogados, para defender-se contra os processos do governo.
Ao contrário do que temia, Kay revelou-se um sucesso em Wall Street, não obstante ela ter temido o relacionamento com os homens de negócios, que não eram do mesmo feitio ou mentalidade que seus repórteres e editores. Ela os agradou, ainda assim, tornando-se uma mulher requestada entre os integrantes do clube fechado dos grandes magnatas norte-americanos. A essa altura, pouca gente detinha tanto poder em Washington como Kay Graham, não obstante ao longo do drama jornalístico de Watergate, ela e seus repórteres estarem sendo tratados como párias por toda uma facção na cidade, entre a imprensa leal a Nixon e os nixonianos eles mesmos.
Porém, se Watergate obteve para Ben Bradlee o que ele realmente queria, a vitória contra Wiggins, como vimos a glória do Post não foi totalmente imerecida, porém não inteiramente devida como a algum atuante único na história. O Los Angeles Times teve atuação decisiva, mas a essa altura, o peso na balança foi de fato contado pelas decisões tendo curso na CBS.
4- A Escalada da Violência
a) O Cômputo das Consequências
Hoje nós conhecemos o horror da dominação da mídia na vida cotidiana, a partir da perseguição fatal a pessoas privadas, como Michael Jackson e Lady Diana Spencer; a partir do uso indecente de imagens extorquidas do cotidiano dos cidadãos que não tem governo para defende-los porque são governos dispostos pelos aparatos de mídia, associados ao capital de mídia; a partir da distorção sistemática da informação, calúnias, imposição de modelos podres, eliminação de pessoas comuns pelo banditismo da mídia; a partir do terror tecnológico, a lavagem cerebral por dispositivos aversivos à escrita, totalmente desrespeitosos à subjetividade e sabotadores do exercício pensante subjetivo, com o fim da legalidade pela entrega dos documentos públicos a impérios de firmas privadas, total avassalamento dos direitos das pessoas físicas, como decorrente do monopólio da microsoft no Brasil, a devassidão da venda de aparelhos intrusados por criminosos.
A escalada da violência da mídia, configurando o que hoje está definido como dominação planetária do capitalismo info-midiático, teve porém origens singelas, não começou como um plano orientado.
b) Trajetória da CBS
A trajetória da CBS se inicia com o século XX, quando Isaac Paley, um judeu russo imigrando aos Estados Unidos, sonha construir para o filho uma riqueza invejável. Próspero na Rússia, mas descontente com as restrições que sofria oriundas do anti-semitismo europeu, ele não conseguiu o que pensava obter nos USA, e o filho, Sam Paley, teve que trabalhar muito, ao invés de ser um mimado scholar.
Porém esse filho pôde, quando ele mesmo se tornou pai, dotar o seu próprio filho da fortuna que precisava para escolher como queria sua carreira. Sam Paley tornara-se um grande homem de negócios, um self-made-man milionário, exitoso na indústria de cigarros. Seu filho, Bill Paley, pôde estudar nos melhores colégios dos Estados Unidos.
O neto do imigrante russo revelou -se porém talentoso no rádio, apresentando um programa chamado Miss La Palina - naturalmente, o nome derivado dos cigarros do pai, o nome da família. O pai não acreditava no rádio, já havia tentado e não dera certo. Mas as pessoas começaram a perguntar a ele, nas ruas, porque havia sustado o Miss La Palina, e ele quis checar com o filho o segredo do sucesso.
O rapaz havia apenas empregado uma boa cantora e uma orquestra, aplicando não conhecimentos especializados, mas sua experiência de ouvinte dos programas exitosos, algo que ele havia acumulado. Ao contrário do pai que investira milhares de dólares na propaganda do cigarro no rádio, sem sucesso, com poucos dólares o filho obtivera enorme êxito, aumentando as vendas do cigarro devido à propaganda durante o programa.
O pai comprou assim o que era necessário para o filho, Bill Paley, iniciar uma companhia de rádio duradoura, que marcou época na história dos Estados Unidos, e que mais tarde se tornou a CBS Televisão. O negócio dos cigarros foi vendido a bom preço depois da grande depressão, e o investimento em rádio tornou-se um negócio maior que o dos cigarros.
A trajetória da CBS ilumina muito sobre as relações do business de mídia com o grande capital e a trajetória política do governo americano. Mas até 1945, o que se pode constatar da convergência entre os mass-media e a história política nada tem de desabonador para o business da CBS. Inversamente, na segunda guerra mundial a CBS foi um canal importante da união da nação, um marco histórico na formação da consciência do país.
A contratação de Edward Murrow foi o acontecimento decisivo. Conforme Halberstam, se Murrow é historicamente o responsável pela moralização da cadeia de transmissão em massa e tornou o rádio jornalisticamente respeitável, nessa época a televisão ainda não o era, e Murrow também se tornou o responsável pela moralização da televisão, aventurando-se corajosamente, indo de uma posição confortável no rádio para inovar o trabalho em TV.
O homem Ed Murrow, na expressão de Halberstam, “era mais um educador que um jornalista, e cuja carreira e a tecnologia da qual fez parte foram um dos condutores da transformação da América, de uma sonolenta nação isolacionista pós-depressão, a maior superpotência internacional.” (p. 59)
De fato, a voz de Ed Murrow foi a ligação dos americanos com a Europa, desde a tomada da Áustria pelos alemães em 1938, quando Murrow, da Áustria, anunciava para milhões de ouvintes: “esta foi designada uma conquista sem sangue, e em certo sentido isso é verdade, mas eu gostaria de poder esquecer o aspecto assombrado dos rostos daquelas pessoas na imensa fila nos bancos e agências de viagem. As pessoas tentando ir embora. Eu gostaria de esquecer o aspecto de cansaço vão dos oficiais do exército austríacos, o ruído surdo dos tacões das botas, a destruição dos tanques de manhã na Ringstrasse, e as lamentáveis confusão e incerteza daqueles forçados a levantar a mão direita e gritar “Hy Hitler” pela primeira vez. Eu gostaria de esquecer o som do vidro quebrando enquanto as ruas delojas de judeus eram patrulhadas, os clamores e as chacotas dirigidas àqueles forçados a limpar a calçada”. (p. 66)
Hoje podemos questionar que a história fosse apresentada como algo que devesse ser esquecido, antes que aquilo que precisamos vitalmente que seja sempre mais revelado e conhecido, de modo que o neonazismo atual não possa contar com a ignorância do público a propósito dos campos de concentração e inominável violência racial. Na Europa, com efeito, multiplicaram-se os monumentos em homenagem às vítimas raciais da Guerra, para que o tempo não o oblitere, como o “Monumento aos Heróis do Gueto”, em Budapeste. Porém podemos compreender a força impactante que movia o locutor, perante um horror para o qual ninguém educado pelo mito da modernidade ocidental havia sido preparado.
Todas as noites, enquanto Hitler estragava a paz do mundo inteiro, a história chegava à América pelo rádio. Em New York, Kaltenborn, ancorando o show, vinha e anunciava: “Chamando Ed Murrow, chamando Ed Murrow...”.
Uma década antes de Ed Murrow, como o que conduziu à sua contratação, o interesse de Paley pela moralização do jornalismo havia sido despertado pelo trabalho de Ed Klauber. Conforme Halbertam, “Klauber educou Paley a propósito da importância das notícias, mas apenas porque Paley queria ser educado.” (p. 53)
Antes de 1930, quando Klauber foi para a CBS, o ramo de notícias no rádio estava totalmente corrompido, existia apenas como um pretexto para a propaganda (“advertising”). Klauber transferiu os conhecimentos que acumulara atuando no ramo de notícias em jornal de elite para este novo meio com alcance de massas, tornando possível a vinda de Murrow e seus repórteres.
Klauber foi exceção num meio de imprensa escrita, porque ele não se mostrou automaticamente hostil ao rádio, não se importava com o dano potencial que a propaganda poderia causar por vender produtos pelo rádio. Ele pensava que as pessoas tinham condições de decidir sobre o que lhes era apresentado como produtos para comprar, pois era o que conheciam por experiência própria, e que elas não iriam comprar coisas sem qualidade apenas porque estavam sendo oferecidas por algum tempo no rádio. Mas jornalismo não era a mesma coisa, as pessoas comuns não podiam julgar sobre o que não cabia na sua experiência cotidiana, sobre as pessoas, assuntos, lugares e eventos com que o jornalismo lidava. Assim as pessoas comuns não estavam preparadas para julgar o jornalismo.
Na opinião de Halberstam, sem Klauber o rádio na América iria rapidamente degenerar numa tal vacuidade que finalmente se tornaria um sistema controlado pelo governo, assim como o sistema francês - o que Halberstam sempre desaprova. Ou então iria se limitar a programas de notícias de tipo Walter Winchell. Halberstam afirma que pelo trabalho de Klauber na rádio CBS, em uma década o nível de integridade e inteligência desta ultrapassava o da imprensa tradicional americana em 90%.
Fred Friendly, contratado pela CBS para perpetuar a linha de Klauber, e que depois se tornou intimamente associado a Ed Murrow, explicava aos repórteres que eles deviam esclarecer ao público, como analistas, o conteúdo das notícias obtidas com as fontes. Eles deviam mostrar os fatos pelos dois lados, mostrar contradições relativas ao que já se sabia antes, e assim por diante.
Eles deviam estar conscientes, sobretudo, de que numa democracia as pessoas não devem apenas saber, mas compreender o que sabem, avaliar e julgar, mas não deviam eles mesmos julgar pelo público.
Para exemplificar a atuação de Klauber, Halberstam registra sua oposição a Kaltenborn, um dos novos analistas que porém Klauber criticava por usar demasiadamente a primeira pessoa do singular.
A vinda de Kaltenborg marcara a vitória contra a brutalidade, a vitória da inteligência, e ele era um observador arguto. Um profissional que não podia ser desafiado. Prejudicado pelo uso da primeira pessoa, tinha porém além disso um bom domínio da língua. Todos pensavam na CBS que ainda assim Kaltenborg não iria longe por causa da mania do “I”, até que Klauber assinalou uma vitória importante, expressando que não queria interferir com sua liberdade de expressão, ainda que não permitindo que ele dissesse “Eu ouvi o discurso de Wendell Willkie na noite passada. Foi admirável”, ele teria que anunciar “milhões de americanos de ambos os partidos ouviram o discurso de Wendell Willkie na noite passada. Foi admirável.” (p.56)
Klauber foi o predecessor de Frank Stanton. O trabalho de lidar com as paixões e intensas controvérsias despertadas pelo tipo de situação gerada pelo negócio de notícias e temas públicos, como o exemplificado por Kaltenborn, ficara com Klauber, liberando assim o verdadeiro responsável, o patrocinador e proprietário Bill Paley. Stanton sucedeu Klauber na mesma função. Porém Stanton desenvolveu uma rivalidade frontal contra Ed Murrow, que na era Klauber se alçara a um sucesso estrondoso, de projeção nacional.
O motivo foi que o segundo casamento de Paley, com Barbara Cushing Mortimer, filha de um célebre cirurgião de Boston, havia sido uma cerimônia íntima. Stanton aceitou a desculpa como válida para não ter sido convidado, até que, ao rodar o filme da reunião em casa de Paley, descobriu que Ed Murrow havia sido convidado. Stanton ficou deveras decepcionado, constatando que a despeito da importância do seu cargo, ou da magnitude do seu salário, para Paley ele era apenas um empregado, não um amigo íntimo como Ed Murrow, o verdadeiro homem de sucesso. Dessa inimizade não brotou nenhum fruto imediato, mas na ocasião propícia Stanton soube se vingar.
Paley havia se casado uma primeira vez com Dorothy Hearst, uma intelectual partidária de Roosevelt, com visão independente. Nessa época Paley já havia obtido invejável posição na sociedade, mas era assediado pela consciência de ser judeu, e ele não dizia sobre suas origens que era um judeu russo, ele se apresentava quando era preciso se referir a isso, como judeu americano. Na verdade o anti-semitismo tem um triste papel nessa época também nos USA. Phil Graham não sabia o quanto, assim convidou Bill Paley para associar-se a um clube elegante, ao que Paley recusou, aduzindo que não iriam aceitar registra-lo devido ao preconceito. Phil teimou, ele mesmo iria apresenta-lo como amigo pessoal, mas para vergonha de Phil realmente o clube barrou a entrada de Paley. Como vimos, o próprio Phil refletiu o anti-semitismo como sintoma da doença mental, chegando ao preconceito contra os próprios filhos e a esposa.
Dorothy, divorciada de John Hearst e a favorita do velho William Hearst ele mesmo, aquele que provocara a guerra da Espanha em inícios do século, era a jovem mais bonita de Los Angeles, brilhante e enérgica. O casamento com Paley devia aproximar a este da mentalidade liberal. Na verdade, Dorothy era demasiado crítica, e Paley, um homem traumatizado pelo preconceito, mas que pelos próprios méritos fizera uma carreira e fortuna invejáveis, precisava de incentivo e consideração. O divórcio se seguiu algum tempo depois.
Babe Cushing era uma moça extremamente prendada, uma socialite que tornava qualquer lugar onde fosse um lugar da moda. Bonita e elegante, sabia receber e frequentar, suas respostas para tudo eram sempre bem equilibradas, fazendo Paley se sentir confiante, suas ações eram sempre as mais apropriadas, de modo que ele se sentia relaxado. Conforme Halberstam, as outras moças procuravam um modelo externo de conduta, mas Babe, inversamente, agia orientada apenas pelo seu interior.
O próprio Paley era um homem extremamente bonito. Babe Paley era considerada então a mulher mais bela da sociedade, porém Marella Agnelli, mulher do proprietário da Fiat, também era muito elogiada, e certa vez Kay Graham perguntou a Truman Capote qual das duas era a mais bonita. Capote hesitou perante a dificuldade de elucidar a questão, mas afinal respondeu “bem, minha cara, eu creio que se ambas estivessem numa vitrine da Tifany Marella custaria um pouquinho mais caro” (p. 177).
Em todo caso, isso ilustra como, ao contrário de Kay e Phil Graham, Bill e Babe Paley formavam um par perfeito. Ela o aproximou do Partido Republicano, ao qual Paley se converteu, tornando-se o protetor de Ike Eisenhower ao longo do que Halberstam designa a era dourada da economia americana em matéria de propaganda (“merchandising”), logo após a guerra contra Hitler.
A sociedade americana inteira parecia ter se concentrado na classe média, carros, casas e máquinas de lavar eram oferecidos a todos, todas as coisas, todos os luxos pareciam subitamente possibilitados, havia lucros abundantes, e particularmente havia os novos meios de comunicação, o rádio e a televisão. Os Estados Unidos estavam ricos, enquanto o resto do mundo estava pobre. Mas politicamente, ao contrário, o momento americano era depressivo, um tempo obscuro (“a dark time”), uma era de suspeitas que terminou na paranoia do McCarthysmo (p. 180).
Conforme Halberstam, a contradição norte-americana entre o bem estar econômico e a patologia política produzira na CBS uma tensão única. Por um lado, os lucros eram tão imensos, a riqueza tão largamente produzida, que nenhum dos executivos da CBS queriam se preocupar com o problema político da nação, e assim, por outro lado, eles foram como que automaticamente cooptados ao papel a-crítico de simples porta-voz da histeria nacional. A consciência crítica se tornara de repente cara demais para o padrão de lucros da CBS. Quem pagou o preço foi principalmente Ed Murrow, que com Klauber havia construído a assim designada tradição Klauber-Murrow, signo de respeitabilidade e honestidade que foi demolida a partir da conversão de Palley aos republicanos como expressão de sua própria transformação em tycoon, isto é, magnata.
O rádio, mas especialmente a televisão, como informa Halberstam, ostentam uma cisão interna entre o que é designado serviço público, o setor de notícias, e os programas como o que serve de fundo para a propaganda - assim o Pulitzer do Post por Watergate foi pelo quesito serviço público. Esses dois rumos do negócio são inconciliáveis, porém, e o serviço público de hábito se torna apenas um pretexto para o incremento da propaganda. Na CBS foi o que ocorreu, enquanto a NBC, que antes havia sido líder mas depois fora deslocada desse status pela CBS, tornou-se inversamente mais aplicada como veículo de notícias.
A essa altura, tanto Paley já estava relacionado pessoalmente ao partido Republicano, quanto o rumo dos negócios da CBS se esmerava no setor de notícias apenas para manter a fama, pois durante os anos cinquenta ela era, já como televisão, o maior meio de propaganda do mundo, um meio de entretenimento de massas. Foi a CBS que transformou a veiculação da propaganda, tornando um programa compartilhável por vários anunciantes. O critério do que chamamos ibope tornara-se o único como critério de seleção do que omitir ou mostrar. Assim o patrocínio converteu-se num controle explícito sobre a programação durante a guerra fria.
Nesse ponto há uma ambiguidade, contudo. A junção público-patrocínio que embasa essa consideração de Halberstam, logo se contrasta por acontecimentos que mostram direcionamento político explícito refletindo a cisão do público e do capitalismo, de modo que os interesses deste predominam na mídia, cujas leis de atração da imagem formando um corpo de técnicas autônomas, acabam por alterar o que era primitivamente a consciência pública.
Murow, e num grau menor também Shirer, pontuam os episódios que ilustram a crise na instituição a partir do objetivos gerados pela opção pelos lucros, confrontados ao que antes havia sido a opção pela qualidade da análise. Eles mostram o quão inexorável resultou a linha de ação escolhida, assim como o peso das deliberações do grande capital patrocinador.
A tradição Klauber-Murrow foi construída, como vimos, pelo Paley democrata ou ao menos liberal, não comprometido politicamente com o conservadorismo republicano. Em 1936, Klauber recusara a oferta de compra de propaganda na CBS, pelo partido republicano, sem qualquer reprovação por parte de Paley. Recusara, pois, a junção da frivolidade da propaganda com a política como tema importante, atuando explicitamente segundo as regras da consciência democrática.
A demolição da tradição Klauber-Murrow foi orquestrada pelo Paley convertido ao conservadorismo republicano após 1947, ano do seu casamento com Babe Cushing. Não se trata de um simplismo maniqueísta na visão da história. Como vimos, Halberstam mostra que a manipulação política da mídia começou com o partido democrata na era F. D. Roosevelt, o primeiro líder carismático produzido conscientemente pelo uso do rádio, e ao modo como a utilizou Roosevelt, Halberstam associa um curso completo de manipulação, “a textbook course in manipulation” (p. 19).
Essa “nova ordem” introduzida por Roosevelt, foi também uma invasão da vida privada, pela qual “o governo poderia penetrar na existência cotidiana de quase todos os cidadãos, regulando e ajustando suas vidas” - “ajuste” a objetivos alheios aos da pessoa, obviamente.
Porém como ilustra o padrão Klauber-Murrow construído sob os auspícios de Bill Paley, a própria mídia se defendeu do dirigismo político, ao menos enquanto os seus organizadores se consideravam a si mesmos como cidadãos do país. O que muda sempre que eles deixam de se considerar assim para se identificarem com o poder. É somente nesse ponto que a história da CBS se torna exemplar da corrupção da consciência pública e profissional pelo que se pode designar o business de mídia.
Mesmo considerando desse modo as coisas não são simples, e vemos que o poder penetra na forma da coação econômica via patrocínio, mas também na forma de ligações pessoais esperáveis do próprio empresário de mídia que se torna grande.
A cooptação resultar numa integração total do grande capital incluindo a mídia como business não é o fenômeno que explica a história, e sim o que deve ser explicado entre vários fatores subjacentes, como por exemplo mecanismos de defesa psicológica contra a constatação de estar sendo coagido a partir de uma ação de classe e status abrangente, que ultrapassa a cisão de público e privado uma vez que atua na esfera da passionalidade.
Assim cooptado, ao longo dos anos cinquenta Paley pessoalmente trabalhou contra a orientação de Murrow, que havia, em inícios dos anos cinquenta, transportado o padrão da respeitabilidade, de sua atuação no rádio para a televisão. Paley passou a trabalhar, portanto, para destruir o que ele próprio havia tão ciosamente construído ou ajudado a construir.
As rupturas explícitas como crises na instituição, rupturas pessoais de Paley com seus antigos amigos, e não importando o quanto estes haviam se tornado importantes na consciência nacional, ilustram do mesmo modo episódios seminais da guerra fria.
As celebridades Murrow e Shirer eram alguns desses amigos. Shirer havia sido o correspondente em Berlim da CBS, na segunda guerra, quando o rádio era ainda o único veículo do jornalismo sério na mídia elétrica, enquanto Murrow se celebrizara como correspondente na Europa. Ambos eram também amigos íntimos, ainda que com uma rivalidade subjacente como as duas vozes da nação, a qual os identificava completamente não obstante cada um deles seguir seu próprio estilo, o civilismo elegante de Murrow, a crítica mais cerebral de Shirer.
Murrow exigia dos seus repórteres inteligência e informação acurada, sem ostentação de idiossincrasia, com um sentido alerta para o tipo de receptor a quem estavam se endereçando. A equipe de correspondentes estrangeiros da CBS, naqueles dias, sob a orientação de Murrow, se orgulhava de que integrantes da CIA, os maiores experts da nação, acordassem com o programa “Morning News Rondup”, além da leitura obrigatória do New York Times.
O rádio era uma tecnologia confiável, não interpondo coisa alguma entre o texto do correspondente e o que ia ao ar, nenhum aparato de produção ou requisito técnico. / p.188.
Quando Shirer retornou aos Estados Unidos em 1945, porém, compreendeu que a amizade com Paley esfriava paralelamente à expansão de suas críticas ao programa de Truman para funcionários do governo, à doutrina Trumam para a Grécia e a Turquia, e ao governo de Chiang. Conforme Halberstam: “Muito sutilmente a norma para a maioria dos jornalistas americanos estava se tornando a aceitação da Guerra Fria, e de algum modo Shirer estava recusando se integrar nela.” (p. 191).
A ruptura explícita de Paley com Shirer ocorreu logo depois do retorno deste, sob o pretexto da recusa de Shirer mudar-se para Chicago, cidade de que ele não gostava. Paley havia aproximado Shirer do milionário do chiclete, Phil Wrigley, para um almoço. Wrigley era admirador de Shirer, e pretendera que este realizasse coberturas para ele por uma soma considerável semanal, apenas devendo ir morar em Chicago. Shirer já estava comissionado para lecionar nesta cidade, porém não desejando mudar-se definitivamente. A recusa decepcionou Paley, mas a partir daí, Shirer se tornou um problema porque suas críticas políticas, feitas conforme a consciência liberal, atraíram a hostilidade do patrocinador, J. B. William Company, e Paley o demitiu.
A decisão de Paley pode ter sido precipitada por sua decepção inicial, ou não. Em todo caso, Murrow, que pessoalmente não aprovara o arrojo de Shirer, interpôs-se, em nome da autonomia profissional, organizando uma espécie de piquete pró-Shirer. O que enfureceu Paley ainda mais, tornando sua decisão irrevogável.
Murrow, responsável pelo setor, teve que assumir o ato de demissão de Shirer, que por isso cortou a amizade, profetizando que também Murrow seria vítima da censura institucional. Shirer escreveu, depois, um romance tendo como alvo um personagem parecido com Murrow.
Murrow começou na televisão, em 1951, associando-se ao produtor Fred Friendly. A ruptura traumática com Shirer representara não apenas a perda da amizade, mas também o enfrentamento de questões para as quais Murrow não estava preparado. Optara pela convicção de que o patrocinador podia escolher o profissional, porém não podia controlar o conteúdo. Segundo Halberstam, ele sabia no entanto que essa era uma opção claramente insatisfatória, pois uma vez escolhendo o profissional muita coisa já estava pré-estabelecida, não havia algo como conteúdo puro.
Sobretudo, o incidente Shirer mostrara que já não era a CBS News quem tinha o direito de limitar ou fomentar a carreira do profissional, mas sim o patrocinador, o que implicava que já não era o melhor jornalismo, mas sim o mais ofensivo, o que passaria a ser premiado. O início de Murrow na televisão foi cercado por hesitação e cautela, objetivando preservar a consciência profissional e as qualidades do seu estilo.
O talento de Friendly como produtor era bastante conhecido, porém do mesmo modo a sua ambição. Ele moldou o novo Murrow televisivo, convicto de que com Murrow atingiria as alturas a que sempre pretendera. Ainda que naturalmente muito devido aos dotes e pretérita celebridade de Murrow, o sucesso da fórmula Murrow-Friendly resultara num hábito reiterado de Friendly começar uma frase assumindo que ele era um simples garoto do interior para concluir pela implicação de ter ainda assim inventado Murrow, omitindo que a respeitabilidade de Friendly se estabilizara a partir de sua atuação com o grande jornalista.
Em 1951, com efeito, o Hear it Now se transformava em See it Now. Foi essa a época em que a aliança do business de mídia com o governo e os interesses do capitalismo se tornou estabelecida em torno da extensão da televisão a status de penetração nacional, na atmosfera marcada pela guerra fria que confrontava os USA como superpotência, à URSS com igual poder, ambos pugnando por maior influência internacional. O business não pretendia prejudicar em nada aos poderes da nação, julgando porém que isso significava cortar a consciência crítica.
Com o McCarthysmo, a caça do senador homônimo às bruxas do comunismo local, muitos profissionais de mídia foram atingidos, assim como tantas pessoas do país. A celebridade, a respeitabilidade do intelectual perante o público, já não era garantia. Uma vez que Murrow não acreditara na extensão da crise institucional, confiando na tradição que consolidara, a ruptura com Paley se tornou inevitável, mediada pela recusa do patrocínio, primeiro pela Alcoa, depois pela General Motors. Mesmo com todas as concessões que Murrow já havia feito ao novo meio.
A principal concessão, conforme Halberstam, foi a corrupção do conteúdo não por direcionamento político, mas pela exigência de ser misturado a frivolidades. Num show de Murrow em Berlim, com Howard Smith entrevistando o prefeito da cidade, Murrow introduziu como que casualmente o comentário de que entre outras celebridades de um novo show que ele estava produzindo, convidara Lucille Ball. Profissionais formados pelo padrão da respeitabilidade Klauber-Murrow, como Joe Wershba, ficaram perplexos. Como parecia incongruente, Lucille Ball em meio a conversações políticas de alto nível e com importância histórica…
Os projetos de Murrow para seus escritores Johnny Aaron e Jessy Zousmer, que abrangiam primitivamente trazer à cena americanos índios, negros e operários, foram logo mudados, com Murrow comentando que seus escritores iriam ter que se adaptar. Somente importava a ambição da celebridade, a estima de Bill Paley tornando Murrow cada vez mais desconhecido de si mesmo, frente a frente com um lado de sua personalidade antes desconhecida, atiçada pelo montante do patricínio - Paley designara um milhão de dólares para os novos shows frívolos de Murrow, o que não era apenas amizade pois incluía maior controle sobre os resultados.
“See it now”, o programa do Murrow original, potencialmente controvertido, se tornara rivalizado por “Person to Person”, o programa do Murrow frívolo, etiquetado não-controvertido.
As equipes do See it now e do Person to person estavam em guerra devido à irredutibilidade dos estilos e interesses de cada uma. Nessas condições o confronto de Murrow com McCarthy tornou-se surpreendente. Ele mesmo um homem que se projetara midiaticamente, McCarthy revelou-se intocável pelos padrões de Bill Paley para a CBS, e Murrow não aquilatara o quanto a decisão havia sido irrevogável.
A censura explícita contra as primeiras críticas de Murrow a McCarthy introduziu a crise, em meios da década de cinquenta, de que Stanton, que como vimos alimentava um ciúme implacável de Murrow, aproveitou-se. A televisão podia assim focalizar durante o programa de Murrow, alguém que este estava criticando, como ocorreu com o senador John Bricker, que Murrow desfavoreceu retirando alguns minutos de exposição, e inversamente concedendo-os ao senador Kefauver. Stanton focalizou Bricker, além dos minutos previstos por Murrow, comprometendo a estratégia discursiva do apresentador.
Ao perceber que era inaplicável a tática da omissão deliberada quanto a McCarthy, Murrow tentou uma armadilha, convidando McCarthy para um show que iria contudo ridicularizá-lo, com Murrow fechando a apresentação com algumas críticas mordazes ao que McCarthy dissera durante o programa. Porém isso resultou num desastre, com Stanton furioso, brandindo estatísticas que supostamente demonstravam que o público, ao contrário, se solidarizara com McCarthy. A Alcoa, que até aí havia sido uma patrocinadora liberal de Murrow, concedendo-lhe inteira autonomia, retirou os proventos, também pelo apoio explícito de Murrow a Oppenheimer, perseguido pelo McCarthysmo.
Paley pessoalmente interveio. Sua injunção a Friendly e Murrow, convidados ao escritório do chefe absoluto, significava a mudança completa do formato dos programas deles, que deviam agora ser constantes pela semana, algo que implicava muito maior poder de controle por parte da CBS. Mas a General Motors retirou o patrocínio combinado para alguns destes programas, logo que seu pessoal soube que seriam sobre o vice-presidente Richard Nixon, assim frontalmente exposto a críticas ácidas.
Logo depois, o partido republicano exigiu tempo igual para o secretário de agricultura, Ezra Benson, responder as críticas que num programa Murrow havia feito a ele. Murrow negou, mas a CBS concedeu o tempo mesmo assim. A crise estava se tornando aguda. Murrow, furioso, pensava contudo ter ainda poder de barganha, mas Paley afinal decretou unilateralmente a morte do “See it Now”.
O gesto implicava a total perda de poder por parte de Murrow, na organização CBS. Como celebridade, ele estava ultrapassado. O exemplo de Murrow tornou-se traumático. Um homem que do ápice do sucesso se tornava um nada, de um dia para o outro.
A visão de mundo de Murrow conservara algo de obscuro desde a cobertura da guerra, e agora isso se tornava radicalizado pela decepção. Paley, o grande colega dos tempos aventurosos em que a tarefa de cada um era criar um verdadeiro canal da consciência crítica e da informação respeitável, já não era um amigo. Era meramente um utilizador das pessoas para fins corruptos, a tarefa mudara para a criação de um meio de manipulação que pudesse obnubilar a compreensão real.
A queda de Murrow, que logo depois adoeceu gravemente, foi a consagração de Stanton como líder da CBS. A mídia tornara-se a ambição do poder sem responsabilidade, comentário de Halberstam que ecoa o que constatei na leitura do sociólogo Peter Mann, em “Métodos de investigação sociológica”, aduzindo este que essa ambição da mídia é a mesma da prostituição. Mann revista vários procedimentos dolosos da imprensa, como falsidade ideológica da informação.
Como estamos constatando e Mann também observa, a corrupção da mídia não parece ser um fator inerente ao veículo, inversamente aos efeitos colaterais que MacLuham conceituou como o que os mídia elétricos podem provocar do ponto de vista cerebral, pelo fato de isolarem o espectador do meio ambiente a partir da forma de recepção sensível, puramente passiva e não linear como a escrita, além de projetarem uma comunidade fantasiosa, passional-identitária, impossível de ser politicamente organizada pelos padrões da consciência civil.
Ao contrário, a corrupção ideológica da mídia como business corresponde a um processo não-necessário, mas que corre paralelamente ao capital-imperialismo de hegemonia estadunidense.
Em 1958, com efeito, Murrow pronunciou-se num congresso de diretores de rádio e televisão em Chicago, afirmando: “e se houver historiadores... daqui há cem anos, e forem preservadas filmagens (kynoscopes) de uma semana de todas as três cadeias (networks), eles encontrarão registrados, em preto e branco ou a cores, evidências da decadência, escapismo e isolamento das realidades do mundo em que nós vivemos. Se as coisas continuarem como estão, a história se vingará e retribuirá os feitos de cada um de nós.” (p. 215)
Paley ficou furioso, ali estava Murrow traindo Paley, aquele que, ao ver do próprio Paley, havia tornado Murrow rico e famoso. Conforme Halbestam, “a coisa mais perigosa no que Murrow dissera, é claro, era o fato de ser verdade”.
Que um Jack Gould do Times estivesse escrevendo coisas desse tipo àquela altura já era algo ruim, porém muito diverso surgia o caso em se tratando de um homem da estatura de Murrow, o sujeito mais respeitado da indústria de mídia. Isso era bastante injurioso. A crítica vindo de dentro provara-se insuportável. O pronunciamento de Murrow nunca foi bem assimilado. A CBS tornava-se extremamente hostil a todo tipo de crítica, respondendo de modo radical a observações de muito menor peso, como a de Roger Mudd. Os profissionais da CBS, admirados por sua verve crítica contra outros assuntos, tornavam-se odiados quando o alvo era o próprio business de mídia.
Mas o rumo da mudança estava pré-estabelecido no contexto da guerra-fria. Como ilustra a cobertura de Halberstam a propósito da conexão da televisão com o processo eleitoral em curso ao longo da década de cinquenta, quando a violência do imperialismo norte-americano se armou para alcançar status planetário.
Conforme Halberstam, “em 1952, pela primeira vez a televisão afetou profundamente a escolha dos candidatos das duas convenções, e assim indiretamente a capacidade dos adeptos (“regulars”) dos partidos controlarem suas próprias organizações” (p. 319).
Porém os efeitos dessa transformação interposta pela inter-relação técnica/sociedade não foram de modo algum os mesmos nas duas convenções referenciadas, dos democratas e republicanos. Pode-se afirmar que foram precisamente o inverso uma da outra.
Entre os democratas, a competição de Adlai Stevenson e Kefauver representou o último reduto da consciência política não midiaticamente manipulada nos Estados Unidos. Os republicanos, tendo que escolher entre Taft e Eisenhower, pontuam nesse momento a primeira articulação intrínseca, como campanha política televisiva.
Contra Stevenson, o senador Kefauver era o homem de mídia, “catapultado à proeminência nacional por seus inquéritos criminais televisionados”, o que os democratas repudiavam como um meio de atingir a população sem a intermediação do partido. Não sendo um homem bonito, não obstante Kefauver soubera se adaptar às regras da câmera, assim escondendo o que ele era, um graduado na universidade de Yale, para mostrar-se como o estereótipo do garoto caipira interiorano tentando manter sua integridade entre os grandes de Washington. Ele, porém, embaraçara realmente, com suas investigações de jogatinas e negociatas, alguns desses grandes administradores democratas, e tornara Truman um inimigo poderoso por sua amostra da política da água em New Hampshire.
Adlai Stevenson parecia perfeitamente talhado para uma estratégia partidária de dirigentes pretendendo manter suas prerrogativas tradicionais de nomeação de candidatos. Estratégia que devido à popularidade de Kefauver, adentrando a convenção como homem do povo circundado por seus próprios delegados, quando em nível nacional a lealdade partidária estava decrescendo pela suspeita do povo contra conclaves secretos, não podia ser a de simplesmente rejeitá-lo. Já Stevenson era o homem do partido, cujo talento era a retórica cultivada, de longo alcance dedutivo, o contrário de tudo o que cabia num estereótipo televisivo como idealização de um tipo a partir de uma visão de câmera instantânea. E já naquela época Nixon era um referencial da mudança, com seu discursos nacionais justificando-se contra acusações de corrupção que ele assim logrou convencer o público de que não era culpado, e Stevenson foi forçado a assistir.
Como um homem de sua geração, Stevenson não possuía um aparelho de televisão, ele os detestava. Newton Minow, um jovem que integrava sua equipe, quisera fazer ver a ele que mesmo que considerasse que a televisão veiculava apenas irrealidade, milhões de americanos consideravam o que viam real, e por isso a diferença tornava-se pouco importante. Mas para Stevenson, isso era essencialmente demagógico, contrário ao seu estilo de apresentação pessoal dirigida a uma plateia que responderia a suas sofisticadas prédicas buriladas, tradutíveis em grego ou latim.
Contudo, a equipe de Stevenson logo se tornou consciente de que Eisenhower estava planejando apresentações contínuas na televisão, designadas para saturar áreas cruciais. Lou Cowan, produtor da CBS que mais tarde se tornou presidente da rede, foi consultado e confirmou o boato. Ele pensava que podia neutralizar o peso das apresentações de Eisenhower, produzindo Stevenson, mas a resposta ao que propôs foi desencorajadora: (“Isso é a pior coisa que jamais ouvi. Vender a presidência como cereal”).
Cowan tentou, ainda, minimizar o impacto negativo de Stevenson ser divorciado, enquanto Eisenhower podia por uma Mamie na Casa Branca. Cowan sugeriu que um dos filhos de Stevenson o cumprimentasse simpaticamente, “boa sorte papai”, quando ele fosse subir à tribuna. A essa altura o próprio Cowan já se sentia algo corrupto ao meramente propor - e Stevenson, indefectivelmente respondeu, “Lou, nós não fazemos esse tipo de coisa em nossa família” (p. 323). A campanha pela nomeação foi toda feita ao jeito de Adlai Stevenson, lembrada com nostalgia pelos organizadores dentro da inteligentzia estadunidense.
Eisenhower também não se sentia muito à vontade com a televisão, mas ao inverso de Stevenson, ele sabia que não podia recusá-la. David Shoenbrun da CBS se encarregou de convencê-lo, a princípio lembrando como De Gaulle usara o rádio para se tornar a voz da nação, mas logo percebendo que estava na direção errada, Eisenhower não queria ser De Gaulle. Ele considerava De Gaulle egocêntrico. A referência à linha Klauber-Murrow, como a homens honestos na televisão, provou-se argumento melhor.
Halberstam relata alguns dos desastres que ocorreram nas primeiras filmagens, correlatos da insipiência do novo meio - Eisenhower ensopado no meio de uma parada em Abilene, as lentes dos óculos escorrendo, porque havia caído uma pancada de chuva em meio à filmagem. “Para o inferno com isso, eu não vou fazer nada disso”, Ike exasperava-se. (p. 326)
Muito seria impossibilitado não fosse a intervenção de Henry Cabot Lodge, da equipe de Ike. Ele orientou as coisas para transformar a convenção do partido numa peça de teatro, de modo que Robert Taft, o oponente de Eisenhower, iria desempenhar à revelia o papel do conservantista dos velhos dias, avesso à consciência do público, enquanto Eisenhower emergiria como o homem do povo, sendo público e povo o mesmo que permissão para cobertura televisiva.
Aqui seria desnecessário transpor os incidentes pelos quais a estratégia de papéis de Cabot Lodge foi tão exitosa. Taft comportando-se como esperado, tentando barrar o “público” para manter a convenção como supunha ser o respeitável, Ike sendo visto como o representante do “público”, aquele que iria descortinar finalmente o mistério à vista de todos.
De fato a invasão de convenções pelos constrangimentos de edição televisiva, que repugnou a muitos políticos com formação intelectual esmerada, provou-se o contrário da revelação a público, a demonstração de que o acesso visual de forma inadequada induz a julgamentos contrários aos interesses da própria pessoa que ingenuamente julga ter assim testemunhado a realidade. Como as imagens e o som não são captados simultaneamente, mas montados depois, os políticos foram instruídos a não ler jornais no saguão do hotel, porque a imagem que mostrariam deles estaria concomitante, na tela, ao som dos pronunciamentos que na verdade estavam sendo feitos posteriormente. Assim o público iria pensar que aqueles homens estavam ociosamente lendo jornal ao invés de estarem assistindo aos pronunciamentos.
Já em se tratando da eleição presidencial, ocorreu a contratação da agência BBD& O para catapultar Ike na consciência nacional.
A agência devia projetar o estereótipo de Ike, e havia alguns à escolha. Ike Eisenhower, o homem que limpou a bagunça em Washington, o anticomunista ideal, ou o general, o herói que destruiu o poder de Hitler na Alemanha? A inclinação para Ike o herói já existia, porém Rosser Rivers, um voluntário na campanha que exerceu bastante influência, projetou uma consulta aos leitores de Seleções, pelo correio. Uma quantidade de 1O.OOO leitores respondeu preferir Ike, o herói anti-nazista.
A televisão estava vendendo a presidência como cereal. Cenas rápidas das multidões excitadas, Ike parecendo tão modesto, o herói comovendo as massas, um flash em Mamie, “não devia todo herói ser chamado Ike, e não devia ele ter uma Mamie?” Um breve discurso de Ike, e depois a única coisa que podia emparelhar com a volta do herói, a anterior partida do herói para vencer na guerra. Flash nas bandeiras da América. “Tudo muito bem feito”. / p.331 / Eisenhower, o herói, conviria com Ike, o homem que nos trouxe a paz, aquele que poderia acabar com a guerra na Coreia - porém esse slogan não foi aprovado por Eisenhower, ele não podia garantir paz alguma, então algo mais sutil, menos comprometedor porém com o mesmo subentendido: “Eisenhower, o homem da paz”, o que significava exatamente “Adlai Stevenson, o homem da guerra”.
O resultado das eleições foi como o esperado, Ike o herói presidente, eleito na primeira campanha em âmbito nacional da história. Como presidente, Eisenhower fez um uso notável do novo meio televisivo, mas não tanto quanto Kennedy e Nixon. Ike se tornou popular entre os repórteres, apelidando “Merrian” a Merriman Smith, o correspondente da agência UP e deão do corpo de imprensa da Casa Branca, Ike começando sempre as conferências de imprensa com “hello, Merrian”, assim como anos antes Franklin Roosevelt apelidara Belair de Butch.
Na perspectiva de Halberstam, Ike não dominou totalmente a imprensa porque ele não precisava disso. Ele tinha o anticomunismo, alvo que surgiu com todo o peso da guerra fria, na transição dos anos cinquenta para os sixties. Tanto mais o comunismo se tornasse o símbolo de tudo o que era antiamericano e hostil à América, mais o povo, o congresso e a imprensa estariam naturalmente inclinados a conceder ao presidente controle inquestionável sobre todos os interesses nacionais.
Jim Hagerty foi o produtor de imprensa de Eisenhower, provando-se bastante talentoso e útil. O presidente aceitou a televisão mais do que a explorou, ainda que ele o tivesse feito um instrumento do poder presidencial. Ao contrário de Kennedy, que logo a seguir explorou todos os recursos da mídia. Ironicamente, ele repetiu a ênfase nos truques contra o adversário que havia garantido o êxito a Ike, desta vez a vítima tendo sido Richard Nixon.
Resta a questão de porque Nixon aceitara os debates televisionados com Kennedy, que tanto o prejudicaram, fazendo-o parecer um pobre-diabo escuro aos olhos do público, inversamente a Kennedy, o galã que cuidava de cada detalhe da aparência, da maquiagem ao creme Max Factor “puff” quando mais apropriado. A resposta parece ser que Nixon não estava consciente do quanto era necessária a produção da aparência em meio televisivo, de modo que nenhuma garantia ulterior de popularidade permaneceria decisiva frente à exposição na tela com grande número de expectadores. E o machismo americano fazia o resto. Nenhum repórter iria ao ponto de mostrar um candidato se maquiando.
Em todo caso, Halberstam assinala que até 1964, a televisão havia afetado profundamente a campanha presidencial, mas só desde 1964 a televisão veio a se tornar a própria campanha presidencial. Walter Cronkite, o homem da classe média, era agora a estrela, como uma instituição, sua influência igualando a dos presidentes (p. 577).
Na História, a eleição de Eisenhower é o primeiro trunfo do meio televisivo. Na história da CBS, porém, o lance seguinte à introdução revolucionária da tv na política presidencial, foi o escândalo do Quizz Show, em 1958. Os boatos de que o programa de perguntas valendo 64.OOO dólares estava sendo manipulado foram protelados como problema a enfrentar pelos responsáveis na CBS, até que a imprensa escrita furou o bloqueio e o caso se tornou público. Cowan foi responsabilizado pessoalmente. Ou ele sabia, ou ele não tinha controle algum sobre seu próprio pessoal.
A tradição Klauber-Murrow na CBS estava definitivamente encerrada, propaganda e política já não eram coisas imiscíveis, o intelecto do profissional já não devia ser respeitado perante os desmandos dos donos do capital. Para suceder Cowan, foi contratado Jim Aubrey, o homem mais rapace, mais desonesto, mais indecente de que jamais se teve notícia, o qual introduziu o padrão baixo-nível na programação que conhecemos até hoje.
Houve reações contra a dominação televisiva da política, como a de Sam Rayburn, a figura mais tradicional do legislativo americano (“House of representatives”), que insurgira-se. Todas as providências contrárias, que visaram banir a cobertura televisiva do legislativo, apenas tornou a “House of representatives” menos apta a competir com o Executivo, tornando menor a importância do legislativo aos olhos do público (p. 352).
A nota final da tradição Klauber-Murrow poderia ser o que Halberstam anteriormente anotou sobre David Shoenbrun em Paris, ou seja, algo já previsível a partir do rumo traçado pela ambição de Paley. Shoenbrun, o homem que mais tarde criou Ike o herói, o presidente da república, em inícios da década de cinquenta era o correspondente da CBS em Paris. Logo tornara-se celebridade, uma figura importante que conquistara a França e conhecia pessoalmente De Gaulle. Contudo, Paley telefonara solicitando-lhe o favor de servir de cicerone ao casal Jack Benny e Mary Livingstone. Shoenbrun iria adorá-los, garantiu Paley.
Benny, estrela do programa Amos “n” Andy, era nesse momento o trunfo mais importante de Paley para sobrepujar a NBC. De fato, David Sarnoff, da NBC, havia errado clamorosamente ao subestimar Jack Benny como algum tipo ultrapassado de artista na era da televisão. Substituindo-o por Horace Heidt que logo provara-se um fracasso, enquanto Paley recolhia Benny, que continuava um grande sucesso, assim como outros programas que Sarnoff não mantivera. Sarnoff reclamara com Paley: como ele podia ter feito isso, contratar todo o seu stock de celebridades, quando havia existido um acordo de cavalheiros pelo qual nenhum deles roubaria a cena do outro ? Paley respondeu apenas: porque precisava deles - e um amigo de Paley comentou que essa havia sido a única vez em que ouvira Paley falar de modo tímido.
Contatado como cicerone de Benny em Paris, Shoenbrun não esperava ser tratado por Jack e Mary como um simples garoto de recados. Mas foi o que aconteceu, Mary exigindo de Shoenbrun, por telefone, no meio da noite, que lhe comprasse o perfume mais famoso, o qual ela pretendia usar numa festa. Não lembrava o nome, era o que Babe Paley usava. Shoenbrun consultou uma lista de perfumes, recitou nome por nome, até Vent Vert, quando Mary informou ser o que queria. Porém Shoenbrun lembrou que não poderia comprá-lo quando acordasse, pois seria feriado. Mary informou secamente que Paley havia garantido que Shoenbrun faria tudo o que ela e Jack precisassem, e se ele não o fizesse, então eles abandonariam a CBS.
Shoenbrun, em desespero de causa, lembrou-se de seu amigo Balmain, proprietário da loja homônima, telefonando ao amigo que por sua vez ligou para a loja onde atendeu o segurança. Instruído, o segurança pegou o perfume para Shoenbrun. Orgulhoso, ainda que espicaçado, Shoenbrun escreveu a Paley sobre o que fizera - para a companhia. Nunca recebeu qualquer resposta.
Mais importante que correspondentes, ainda que tivessem ganho a França e conhecido De Gaulle, provara-se o comediante de domingo à noite. As coisas haviam mudado. A mulher de Shoenbrun concordou: quando tratam repórteres como lacaios de comediantes, era melhor ir-se embora – ela comentou.
Em 1955, o escândalo do Quiz Show provocou um retorno da companhia à ênfase no setor público, isto é, de notícias. Porém já dentro do novo espírito, e foram precisos mais quatro anos para obter-se a fórmula: Fred Friendley, o melhor produtor de documentários da CBS, contratado para um tipo de programa que relembraria o See it now, porém sem Murrow ou tendo-o apenas como um entre demais correspondentes - conforme esperado, Murrow incentivou Friendley a aceitar o convite, devido à necessidade de salário. “See it now” se tornou “CBS Reports”. Para Murrow não se conseguiu uma fórmula adequada na CBS, e ele já estava muito doente a essa altura. Multiplicavam-se porém êmulos de Murrow, apenas sem a consciência crítica. A mulher de Murrow acabou elegendo Bill Moyers como o que mais se parecia com ele. Casey Murrow, o filho, nunca quis comprar um aparelho de televisão.
A estadia de Jim Aubrey aumentou consideravelmente os proventos da CBS, porém abaixando o padrão a um nível torpe. As pessoas mais velhas foram impedidas na tela, somente jovens deviam ser mostrados, especialmente mulheres. Os assuntos de interesse sociológico proibidos, somente deviam ser ventilados assuntos interessantes a pessoas pouquíssimo inteligentes. Os programas deviam limitar-se a comédias muito simples, de esquemas sempre repetidos, como “The Beverly Hillbillies”, uma série que Halbestam designa “tão demente e sem gosto como nem se pode imaginar, delineando, como fazia, nas palavras de Murray Kempton, ‘uma confrontação de personagens de John Steinbeck com o meio ambiente de Spyros Skouras’ “ (p. 355). O jargão profissional consagrou o padrão Aubrey com a expressão “broads, boobs and busts” (“mentiras, besteiras e peitos”).
Halberstam atribui a Jim Aubrey o epíteto de “O patife dos patifes”. (p. 354) Ele exemplifica. Quando Kennedy foi assassinado, Blair Clark, um dos cabeças da CBS News muito amigo de Kennedy, chocado, estava também obcecado pela questão de como condensar nas imagens o drama nacional de modo a não ferir os sentimentos do público, até que Aubrey, totalmente dessensibilizado, ordenou-lhe que apenas repetisse incessantemente, a intervalos de alguns minutos, a cena do assassinato, aduzindo que “é só o que eles querem ver”. Quem, se não Aubrey assim procederia, indaga-se Halbestam, em meio a outros exemplos da rapacidade do produtor. (p. 355)
Porém o sucesso fácil terminou por se revelar desastroso. Em 1964 a convenção do partido Republicano devia ser o ápice do processo em que se estabilizara a estrutura governo-mídia, mas para o padrão Aubrey era apenas uma coisa aborrecida, apenas conteúdo de notícias, e Aubrey detestava o setor de notícias da CBS. A propaganda provara-se fonte milionária por meio de programas de baixo nível, seria perder muito concentrar-se na convenção.
Mas a NBC, que se especializara em notícias, pôde assim bater a CBS dado o interesse nacional na convenção de 1964. Com efeito, o sucesso da NBC nesse ano tornara-se espantoso, e Paley, já algo aturdido pelo êxito do baixo nível de Aubrey, que por um momento parecera inquestionável devido aos números, agora estava furioso, obcecado pelo desejo da reconquista da proeminência, espicaçado ainda mais por que a nomeação de Lyndon Johnson significara uma vantagem para a NBC devido a ligações pessoais de Johnson com o repórter Sandor Vancour.
Então Cronkite tornou-se o trunfo da CBS, e quando Stanton tentou censurar uma palavra do discurso de Cronkite - “erosão” - Cronkite pôde barganhar, ele deixaria a rede, “e de repente alguém estava gritando ‘pelo amor de Deus, diga a ele que volte, não o deixe ir embora” (p. 597). Paley parece ter aprendido a lição de que não poderia manter a proeminência sem investir o bastante em talento.
Mas a importância do setor de notícias só fez crescer. Foi a cobertura do Vietnã que trouxe mais uma vez a atenção do público à CBS. De fato, houve um momento em que a censura do novo Paley, aquele que abandonara os amigos conscientes e se tornara o protótipo do conservantista rico, cercando-se de tipos iguais, não pôde impedir que as atrocidades da guerra fossem reveladas, não apenas com relação aos vietnamitas, mas à precariedade de condições que cercava os jovens combatentes americanos.
Moler Safer captara a cena dos soldados em fila, portando tochas para incendiar Cam Ne, simples aldeia civil que nada tinha a ver com os vietcongs, porém havia se tornado alvo da fúria do potentado local por não ter pago impostos num ambiente de profunda crise, com os soldados americanos servindo de veículo por não saberem bem do que se tratava. Atrocidade em si, tanto quanto pelo fato de que soldados eram feridos na fila pelo fogo portado pelos que se encontravam atrás.
Além disso, havia se tornado prática lançar granadas nos buracos onde se refugiavam civis, ou incendiá-los, aparentemente por ignorância sobre a identidade dos refugiados e houve um momento em que o cameraman vietnamita da CBS conseguiu salvar uma dúzia de pessoas por que, podendo falar em vietnamita, inglês e francês, pôde também demonstrar aos mariners que as vozes que se ouviam do buraco eram de mulheres e crianças, de modo que os soldados não o bombadearam (p. 680/1).
Certamente Halberstam sublinha que as atrocidades não foram tanto dos americanos, quanto da ação sob injunção da crueldade da ditadura vietnamita local contra os vietcongs - até mesmo chegando a considerar honroso devorar testículos de vietcong capturado, o que revoltou os mariners presentes à cena, como a consciência de que a dinastia odiava o seu próprio povo.
As reportagens tornaram-se comoção nacional, alterando a opinião pública a propósito da guerra.
A partir da segunda metade do século XX, a televisão estabilizou de modo aparentemente indecomponível a articulação mídia/Executivo que vinha sendo construída, como vimos, desde o começo do século, quando se iniciara por uma clique de homens da imprensa e poderosos prosélitos do imperialismo. Após os primeiros êxitos, na época de Hearst, vimos que Roosevelt protagoniza o momento da afirmação dessa articulação que passou a caracterizar a estrutura de Estado norte-americano. Com a televisão, o processo completava-se, transpondo por vários recursos da fraude os interesses da sociedade norte-americana anti-imperialista, tornando a presidência foco do Poder pelo carisma, inversamente à ordenação racional do Estado compósita de Executivo, Legislativo e Judiciário, que caracteriza a plena democracia. Porém não significando que a imprensa escrita deixasse de ter papel intrínseco na composição do Poder, uma vez que a articulação havia sido construída inicialmente por meio desta.
c) Time Magazine e o New York Times
Na Califórnia, como vimos, a modernização do Los Angeles Times implicou alguma reserva ao primitivo papel de kingmaker, também verificamos que o Washington Post de Phil Graham, pelo contrário, o empreendeu tenazmente, compondo a articulação de Kennedy e Lyndon Johnson. E se Kay Graham não quis ou não pôde preservar esse papel, ainda assim pode-se constatar que nenhum destes igualou a Time Life e Fortune, de Harry Luce na consecução dos acontecimentos políticos. O que se pode demonstrar especialmente relacionado à guerra fria. Harry pessoalmente pode ser responsabilizado por algumas das mais proeminentes posições norte-americanas, como relativamente à China e ao Vietnã.
Assim como apresentado por David Halberstam, Henry Robinson “Harry” Luce, seria o tipo ideal que resume todas as demais personas que influíram tão poderosamente por meio da mídia na história do século XX norte-americano. Também especificamente a atuação de Harry, como ele preferia ser chamado, espelha a ligação dessa influência com a política internacional.
Protestante presbiteriano, filho de um missionário, ele mesmo se sentia dotado com uma missão e uma visão cristãs, odiando especialmente o comunismo e o existencialismo sartriano, ainda que ele tivesse feito muito pela teologia de Paul Tillich e pelo historiador Niebuhr. As revistas Time e Life trouxeram o fotojornalismo a uma altura nunca antes atingida, inclusive sendo produtos de novas tecnologias na área da reprodução de imagem e fabricação de papel.
Harry marca a mudança de uma era. Ficaram para trás os tempos do aventureirismo de Pulitzer e Hearst. O investimento em educação escolar formou um público com aptidões de crítica e expectativa de qualidade que já não os tolerava, na presença de publicações de pessoas que refletiam o novo ambiente civil, além de Harry , Adolph Ochs, que criou o New York Times apostando na mesma mudança intelectual.
Se bem que a atuação de Ochs tenha começado muito antes, nos idos de 1878, de modo que a linha do Times perpetuou-se por meio da filha e seu marido, Iphigene e Arthur Sulzberger, ele mantém em comum com a Time magazine de Harry a mesma opção pela seriedade, mantendo o foco em seu endereçamento, especialmente governo e empresariado. Somente em meios de século XX o Times se tornou um jornal popular, mas sem ter mudado a linha editorial.
Para o New York Times, porém, seriedade implicava o não-partidarismo. Harry, inversamente, tornou a Time magazine intensamente política e partidária. A escolha do Times restringia-se a informação, o tipo de fato que o financista ou o político precisava saber. Quanto mais cinza, menos florido, estilizado ou agressivo, melhor.
A história do Times se constrói por um série de vitórias e feitos importantes, mas sempre relacionados à mesma opção, tendo a coincidência de várias mentes, proeminentes na organização da empresa, caracterizadas pelo mesmo tipo de temperamento, marcado pelo patriarca Ochs e Iphigene - dentre os quatro publicistas do Times, ela foi a filha do primeiro, a mulher do segundo, a sogra do terceiro e a mãe do quarto. Com efeito, nessa linha de sucessão, Halberstam referencia Orvil Dryfoos, que se casou com Marian, filha de Iphigene e Sulzberger. E os jornalistas mais destacados em postos importantes da empresa, Reston e Van Anda.
Reston, na opinião de Halberstam, seria o símbolo do bom jornalismo, a mais poderosa figura da profissão nos Estados Unidos de meios de século, e Van Anda, uma mente brilhante e matemática. Van Anda é o referencial de dois feitos notáveis. Ele foi o único jornalista que apostou no naufrágio do Titanic, quando todos os outros acreditavam na invulnerabilidade, logo que se soube que o navio se chocara com um iceberg. Foi um grande feito, que criou a lenda de Van Anda.
Além disso, ele corrigiu o próprio Einstein, quando este começou a publicar sua tese na América em visita a Princeton, onde mais tarde como sabemos ele lecionou. Um repórter do Times cobriu uma preleção de Einstein, obtendo para o jornal a cópia da extensa fórmula que o gênio delineara no quadro negro. Van Anda checou o papel e registrou um erro. Um professor de Princeton foi consultado e devido à fama de Van Anda, resolveu levar o caso ao próprio Einstein, que verificou as notas e ligou para confirmar que ele havia cometido um erro ao transcrever a equação ao quadro.
A sobriedade como algo em comum entre as linhas de Ochs e Harry Luce aporta a uma ideologia comum, a do protestantismo. Mas Harry era cristão de família, enquanto Ochs era filho de um judeu-alemão imigrado, Julius Ochs. O filho já estava sustentando a família com o Times de Chattanooga quando ainda era um rapazinho que precisava da assinatura do pai para caucionar os documentos do próprio negócio. Sua aguda consciência de ser judeu era, assim como a de Paley, temperada pelo patriotismo da nacionalidade norte-americana.
O jovem Arthur desprezava os judeus imigrados que não renunciavam aos seus papeis tradicionais e mantinham os longos cabelos e barbas. Ele pensava que estes homens, cultivando modos estranhos no novo mundo, eram os culpados pelo anti-semitismo. Também Ochs era o que se chama o “judeu branco”. Uma piada sobre o Times, o jornal endereçado à classe governante, era que havia sido comprado por judeus, editado por católicos e lido por protestantes. Porém pela altura da década de trinta, o judeu branco se tornara o tipo dominante entre os judeus americanos, com a educação escolar em seus horizontes - se não na própria formação, como o que almejavam para os filhos. Eles fortaleceram o jornal como seus leitores mais assíduos e típicos, porém não o típico editor escolhido para profissional do Times. Este devia ser, inversamente, protestante e impecável de maneiras. Judeus só eram permitidos como empregados até o nível do repórter.
Quando Krock, um velho jornalista, pretendeu a vaga de editor-chefe, Sulzberger negou francamente por ser Krock judeu. Krock argumentou que ele não o era por parte de mãe, apenas por parte de pai, e segundo a lei mosaica, somente se é judeu legítimo por filiação materna. Sulzberger respondeu: ”Arthur, como você saberia de tudo isso se você não fosse judeu?” (p. 305).
Ochs, o patriarca, era um maníaco-depressivo, porém muito mais controlável que Phil Grahan. Ochs tinha pesadelos constantes, insegurança, obsessão com a morte. Quando a obsessão se tornou insuportável, comprou um jazigo, costumando desde aí a convidar os amigos para visitá-lo, insistindo que devia ser perfeito, assim quando morresse estaria bem acomodado, acalmando-se desse modo. Como tivesse adoração pela filha Ihigene, a sua princesa, confidenciou à esposa que a filha teria tudo o que quisesse neste mundo, se ao menos ele pudesse viver por mais dez anos. E essa inclinação otimista se manifestara apenas por Ochs estar de fato entusiasmado. Roosevelt havia autografado uma foto de presente à Iphigene, o que Ochs considerou ótimo augúrio.
Ochs tinha demasiada consciência da fragilidade de sua posição, da possibilidade constante da perda. Ele batera inegavelmente, contudo, Hearst e Pulitzer. Na época da guerra da Espanha, tópico que vimos acima com Julien, segundo Halberstam circulava uma piada. Remington, o grande artista, reclamara com Hearst de que quase não havia ação. Hearst respondera que ele próprio forneceria a guerra, Remington devia fornecer somente as imagens.
Uma vez que Ochs não podia desafiar os gigantes, Pulitzer do World e Hearst do Journal, ele atacou por outro lado. Tornou o preço do jornal muito menor que os outros, além da opção pela seriedade, inteiramente contrária ao sensacionalismo. Visou assim um público alternativo ao deles.
Ironicamente, a guerra da Espanha fez o Times, na concepção histórica de Halberstam, pois um ano depois da mudança do preço, a circulação do jornal de Ochs triplicava. Ele não competiu pelos mesmos leitores dos gigantes.
Quando o World fechou, Pulitzer o ofereceu a Ochs por pouquíssimo, mas Ochs não o queria nem de graça. A história de Hearst - que Julien considerava o pior tipo de jornalismo - é similar. Conforme Halberstam, ele ofereceu o jornal aos Chandler, porém estes compraram a circulação da manhã. Nessa época, o rádio estava acabando com a circulação da tarde. Os Chandlers fizeram o melhor negócio, dominando o mercado matutino, que resistia bem ao rádio.
Roubar Reston do Times foi um dos grandes desejos de Phil Grahan, porém apenas resultando numa grande frustração. Reston, bom calvinista, pensava no Times como parte de si mesmo, ou uma honorável senhora contra quem uma greve ou abandono surgia como algo tão impróprio. O outro lado do Reston do Times era apenas o Reston marido de Sally Fulton. Bom calvinista, Scot Reston era, como os outros líderes do Times, um homem da empresa e da família.
A opção ideológica do Times pela mentalidade protestante, porém não partidária, era o reflexo natural do patriotismo, tão intenso porque artificial, produto da consciência do imigrante, de Ochs.
Assim, quando William Hale, em 1908, entrevistou o Kaiser Wilhelm, que revelou tão ardorosamente sua opção pela guerra, Ochs estudou o material com Van Anda e outros editores do jornal, decidindo consultar o próprio presidente Theodore Roosevelt, que aconselhou que não publicassem. Assim fez Ochs, censurando a entrevista histórica. Porém uma década depois, quando o país estava orgulhoso pela participação na guerra, o apoio de Ochs à opção pela paz dos austríacos resultou desastroso, e a rejeição ao Times assim como a Ochs foi tão generalizada que ele quase perdeu tudo, por onde iniciou-se a depressão incurável, não obstante ele ter recuperado a boa sorte do Times algum tempo depois.
A depressão tinha ainda um lastro no anti-semitismo generalizado na época das duas guerras. E por um longo período, o Trib (“Herald Tribune”) foi um sério rival do Times, não obstante a vitória deste sobre o aventureirismo de princípios do século.
A decisão do governo racionar a imprensa, em 1942, resultou em opções diversas dos dois jornais. Sulzberger pensou que a época não era para grandes proventos, assim seria melhor conceder o espaço limitado mais a notícias que a propaganda. Helen Reid, do Trib, acreditou que investir na propaganda seria um meio de superar o Times. O Trib agradava aos republicanos que abundavam nos subúrbios, enquanto o Times fazia mais sucesso na parte central e mais liberal da cidade.
O Trib conseguiu por algum tempo superar o Times em proventos devido a propaganda, porém a cobertura da segunda guerra pelo Times gradualmente consolidou a posição deste entre os leitores mais respeitáveis, e logo a sua reputação tornava-se inquestionável.
Quando a guerra acabou, também o racionamento foi suspenso, e com o espaço livre, o Trib já não pode continuar a competição com o Times. Afinal Homer Bigart, dois prêmios Pulitzer pelo Trib, cruzou a rua para solicitar emprego ao Times. Lester Markel garantira uma fórmula imbatível para o New York Times dominical, o famoso Toynbee e Barbara Ward entre as seções de propaganda da indústria têxtil, do futuro do mundo ocidental, e das tendências do Ocidente em roupas íntimas.
As inquietações depressivas de Ochs já não tinham correlato na situação da empresa. O Trib não restava competidor para o Times. Na expressão de Halberstam, “Assim o Times tinha na primeira metade do século vinte alcançado a posição do jornal mais influente não apenas no país mas no mundo.” (p. 309) O Times tornara-se respeitado pela qualidade da informação. Time e Life Magazines, com influência quase igual, eram contudo apenas temidas.
A influência direta, partidária, de Harry Luce sobre os políticos do tempo, inversamente a Ochs, era a de um patriota americano, crítico do New Deal de Franklin Roosevelt, tanto porque ele não gostava de Roosevelt, que havia sido preconceituoso com Clare Booth Luce, sua segunda esposa, julgando-a frívola de maneiras quando na verdade era inteligente e conscienciosa, como porque ele pensava que os dias da primeira guerra haviam passado, crente na guerra fria como o desafio da América, a verdadeira missão dos americanos na luta ideológica mais decisiva da história da humanidade.
Time magazine refletia mais do que Life, a opção de Harry. Life era mais à vontade, F. D. Roosevelt podia até aparecer nela, devido ao seu intenso carisma. A opção de Harry: não apenas a sobriedade, o desprezo por roupas elegantes, por ninharias sociais - quando Clare Booth Luce, sua segunda esposa após divorciar-se de Lila Hotz, pediu de presente um colar de pérolas, Harry custou a se recuperar do susto diante do preço, não obstante ser um dos homens mais ricos da América. Não só a rusticidade, pois, traduzia a opção de Harry. Mas, especialmente: americanismo, protestantismo, presbiterianismo, republicanismo, e, sobretudo, capitalismo.
A guerra fria traduziu na mente de Harry, uma luta por tudo isso. A infância de Harry havia sido na China. O pai havia sido missionário neste país. Pearl S. Buck, a grande escritora, comentou certa vez com Harry como ela se sentia feliz por ter tido, como ele, uma infância na China, sendo igualmente filha de missionários cristãos. Muito surpresa ela ficou diante da resposta de Harry: “não, isso não teve nada de maravilhoso, ele odiara, o fizera sentir-se tão diferente em Hotchkiss e Yale, ele havia detestado ser aquele pobre, e era dolorosamente embaraçado por isso.” (p. 86)
Sua admiração por Eisenhower vinha justamente por este ser tão à vontade, tão sem qualquer sentimento de inadequação pessoal, o contrário da inadaptação permanente de Harry e seu sentimento de solidão, o que resultara da infância, do temperamento rígido do pai.
Com relação à China, Harry sentia-se contudo uma espécie de patrono, considerando Chiang Kai Check não apenas um partidário dos seus interesses anticomunistas, mas um amigo pessoal. Por outro lado, a amizade de Harry com Teddy White, seu correspondente na China, sofreu o impacto dessa opção política, exemplificando até onde o republicanismo, orgânico em Harry, poderia ir na consecução dos seus objetivos.
Na história do jornalismo, Harry inovou decisivamente. Ele inventou o jornalismo não restrito a política e crime. Harry introduziu como noticiável cada parte do que Halberstam designou a estrutura social (“social fabric”): medicina, lei, esportes, lazer, até a própria imprensa. A curiosidade fazia parte de sua personalidade, porém de um tipo raro, incompreensível para os circundantes mas geralmente antenado com o gosto do público.
Certa vez, viajando à França, em meio ao tour de apresentação à cidade, Harry indagou: Os franceses são felizes? Como assim, replicaram, não se pode saber se os franceses como um todo são felizes. Ele queria saber. Num estádio de futebol, olhando a plateia, sua pergunta era: quantos deles são comunistas?
Nascido em 1898, ele criou a Fortune, na década de vinte, para mudar a sua geração de jovens capitalistas, que ele via além de si mesmo como tipos de Babbits - o personagem do rico bobo, caricaturado por Sinclair Lewis. Inapropriados para o próprio papel. Não, Harry educaria a classe dominante a fim de que ela pudesse cumprir o seu dever.
Harry inventou o formato da revista de notícias semanal. Quando alguns estudantes contestaram que ele tivesse o direito de chamar Time de revista de notícias, uma vez que estava cheia de opiniões dele mesmo, Harry respondeu: “Bem, eu inventei a ideia, então estou certo de que posso chama-la como eu quiser” (p. 71). Assim também respondia a quem reclamava por ele ser tão tendencioso que era verdade, mas todos sabiam que o jornalismo não era objetivo. A verdade era apenas uma estratégia, como qualquer outra.
A reportagem de capa (“cover story”) foi introduzida por Harry , segundo Halberstam a inovação que trouxe o maior impacto ao jornalismo da nossa era. Ela respondeu aos conceitos de Harry sobre o que as pessoas deviam ler, o que seria bom para elas que lessem, e sobre o jornalismo como sendo de alta qualidade porque qualquer assunto importante poderia ser reproduzido como algo interessante.
Ele criou o Sports Ilustrated, quando ninguém acreditava que esportes fossem noticiáveis. Harry anteviu o interesse crescente do público nesse assunto. Ironicamente, comenta Halberstam, quando o sucesso da televisão como veículo obrigou ao fechamento da Life, nos sixties, como a todas as similares, foram os esportes e o lazer, itens que Harry exclusivamente trouxera para o jornalismo, o carro chefe do sucesso televisivo.
Harry tencionou criar uma revista intitulada Murder (assassinato). Ele tinha grande curiosidade sobre o assunto e achava que as pessoas também tinham. Ele adorava estar à frente dos próprios editores, uma vez ligando de Phoenix para Otto Fuerbringer, um dos principais editores da Time, porque uma espécie de sombra de Harry, perguntando se Fuerbringer sabia que em Chicago havia um milhar de gangs de assassinos.
A John Crosby, que estava escrevendo uma coluna sobre televisão no Trib, Harry reclamou que não via televisão porque não sabia o que era bom para ver, sugerindo a Crosby que este poderia ganhar muito dinheiro criando uma revista que noticiasse programas de televisão e quais eram os melhores. Harry projetava assim o que foi produzido como TV Guide, segundo Halberstam um dos maiores sucessos comerciais da época.
Harry de fato ganhou muito dinheiro com suas revistas, começando nos anos vinte, alcançando o auge do sucesso em meios de século. Life gozou de posição principal nas vendas antes que a televisão levasse à obsolescência o tipo de publicação que representava. A preocupação da empresa, então, era não deixar que ela engolisse todo o empreendimento, como ameaçava fazer devido ao enorme sucesso de público. Pois Harry se interessava muito mais pela Time, o veículo de suas ideias pessoais - assim Sartre jamais foi capa da Time e quando se cogitou nos Beatles, a preferência foi para Westmoreland, o general americano no Vietnã.
Na altura do fechamento de Life, nos sixties, quando também Time Inc. vendeu com grande lucro, à MacGraw-Hill, as cinco estações de televisão que possuía, Harry deixava para o filho, Hank Luce, um império que na fusão com a companhia de Temple tornou-se uma grande indústria de papel. (p. 1012-14). Na verdade a empresa não podia ser considerada um negócio de família, e Hank Luce agiu mais conforme aos associados do que como um novo educador.
Harry quis e logrou preencher o papel de ideólogo do Ocidente, conforme Halberstam observa, pretendendo-se um educador antes que um jornalista. Como vimos com Julien, os ideólogos da América já existiam, porém Harry inovou também nesse campo. É certo que nas pegadas de Theodore Roosevelt, prolongando o mesmo mito da liderança espiritual da América, porém projetando-a como a superpotência do superséculo da educação, quando a massa se tornara culta, endereçando-se a esse público bem educado por meio da linguagem internacional. Ser homem de grande força de vontade, Harry o demonstrou ao superar completamente a gagueira que havia sido traço tão forte na sua juventude.
Sedução das mentes, dirigismo, indução à falsa compreensão dos fatos, não era o que Harry pretendia como fins, porém não hesitando em utilizá-los como meios, por que para esse cristão radical os fatos não diziam algo por si, eles eram apenas parte da Verdade, aquilo em que ele acreditava piamente, a missão de Deus para a América. Harry não era de modo algum corrupto. Na noite do discurso de ingresso de John Kennedy no partido democrata, Harry conversava com Joe Kennedy, o pai, sobre filhos, e este sugerira a ele que comprasse para o filho Hank Luce uma cadeira no congresso. Harry protestou, não se faz uma coisa dessas, e Joe apenas sorriu, é claro que se faz, todo mundo sabe. Mas Harry permaneceu incontaminável.
Como vimos acima, muito da campanha presidencial de John Kennedy deveu-se ao emprego da companhia de pesquisa de opinião de Lou Harris, e Halberstam comenta que se a conta foi ficando cada vez mais alta, Joe Kennedy não era um homem disposto a deixar seu filho perder uma eleição por causa de dinheiro. Inversamente, o dinheiro não era o alvo de Harry tanto quanto a influência com objetivos morais, e ainda que fosse um amigo ostensivo de Bill Paley, nutria certo desdém por ele, assim quando Paley e Frank Stanton quebraram por causa dos programas impiedosos de Jim Aubrey, Harry sentiu algum prazer nisso.
Problemas como raça e segregação racial não existiam na imaginação de Harry, a América era o mundo livre pugnando para eliminar o inimigo, o comunismo ateu. A ideia de que Harry pudesse dominar uma cadeia de televisão inteira com suas perspectivas e atitudes não fazia os seus íntimos associados sentirem-se muito à vontade. Quando um fato não refletia por si só a Verdade, ele devia ser simplesmente ignorado, na sua concepção.
Assim quando Mao Tse Tung tomou posse do governo na China, Harry se recusou a aceitar o veredito da história, continuando a guerra muito depois que Chiang já havia desistido. Nas páginas das publicações de Harry, a China continuava sendo governada por Chiang, ou era a nação que refletia o desejo desse governo. Harry se conscientizara da importância das relações sino-americanas na guerra-fria, projetando uma aliança ideal entre Chiang e um presidente republicano dos USA, agindo nos anos quarenta como o embaixador do nacionalismo americano. Compreende-se o gracejo de um amigo, com quem Harry confidenciara, quando Clare Booth Luce se tornou embaixatriz na Itália, que não considerava isso muito positivo, Clare estava parecendo alguém que pensava dever carregar o mundo em seus ombros – “mas é você mesmo o homem ideal para isso” - respondeu o amigo.
E quando em 1944 Teddy White, um judeu correspondente e amigo de Harry, enviou uma entrevista com Chiang, feita em parceria com Annalee Jacobi, ficaram ambos desagradavelmente surpreendidos quando viram a publicação inteiramente distorcida, praticamente reescrita, com perguntas que nunca foram feitas e respostas que nunca foram dadas, resultando numa propaganda anticomunista que anunciava a vitória iminente das forças nacionais.
White já havia escrito sobre uma terrível fome grassando na província de Honan, em 1943, quando a situação era tão desesperada que ele teve que chicotear o cavalo que o transportava para que se movesse o mais rápido possível, do contrário a multidão faminta iria derrubar a montaria a fim de devorá-la, deixando o jornalista abandonado para morrer de fome.
Salvando-se, porém, White forçou uma resposta do governo, devido à impressão causada pela reportagem na América, inclusive designando a causa da fome pela cobrança de imposto sobre o grão a camponeses extremamente pobres, além disso, perante várias colheitas fracassadas, o governo não distribuindo grãos. Na China, Madame Chiang tentava obter a demissão de White, enquanto o governo negava a informação sobre Honan, por sorte White obtendo o testemunho de fotos que alguém fizera dos camponeses. A vida de provavelmente milhares de pessoas foi salva pela reportagem, que forçou o governo chinês a enviar grãos.
Nessa época Pearl S. Buck instou com Harry para publicar um artigo em Life, expressando perspectiva bem oposta a de Chiang sobre a situação chinesa. Harry não negou, porém não mudou a própria concepção da necessidade vital de apoio a Chiang. Numa carta a White, explicando porque editara o artigo de Buck, Harry instava a conservar a fé na China capitalista e em seu Generalíssimo, o qual importava acima de tudo manter. Mas White estava perdendo a fé diante dos fatos.
Mas continuava confiando em seu amigo Harry. White continuou pensando, até bem tarde, que a censura estava sendo feita por Whitacker Chambers, um editor do Times que havia sido antes um membro do partido comunista americano, porém passado para o lado oposto, tornando-se um propagandista da guerra fria, convencido da inevitabilidade do conflito total entre o Ocidente e o comunismo, e que considerava os correspondentes inimigos por sua mentalidade liberal, e se isso irritava todo mundo no jornal, Harry não se importava minimamente, considerando Chambers um trunfo, instalando-o como editor em 1944, o que significava sinal verde para a censura e o dirigismo - Chambers, autor do famoso “Witness”, sendo para a geração dos anos quarenta o que Halberstam considerou a palavra definitiva, junto com Algers Hiss.
White compreendeu que a censura estava procedendo do seu próprio jornal, não apenas pelo governo chinês. A essa altura, um conselheiro de Chiang, o general Joseph Stilwell, estava contradizendo abertamente o presidente chinês, e instando por maior liberdade de movimentos contra os japoneses assim como algum tipo de acomodação com os comunistas, mas a censura frustrava os esforços de esclarecimento de White para a América a propósito dos rumos da orientação de Stilwell.
Já certo de que Chiang era o inimigo dos chineses, White voltou-se à prospecção da realidade do comunismo, descobrindo que as forças de Mao estavam muito bem organizadas, grandemente apoiadas pelos camponeses, militar e politicamente muito mais eficientes que a do governo. A história enfureceu Harry, porém o que ocorreu não foi a demissão de White, e sim a promoção do nome do correspondente associado entretanto a publicação de artigos que diziam o contrário de tudo o que White pensava e estava informando aos editores.
John Fairbank, oficial de Informação de Guerra na Índia e antes um professor de White em Harvard, perfeitamente consciente do que estava ocorrendo na China, escreveu a este uma carta desaforada, destoando de toda a amizade que sempre havia existido entre eles como se fossem pai e filho, pelas mentiras que White andava publicando. Chocado, contudo White recobrou nisso alento para a elaboração do seu livro, “Thunder out of China”, revelando o que era realmente sua perspectiva dos acontecimentos.
O livro fez grande sucesso - porém apenas um elemento no quadro maior da ruptura a caminho, com Harry.
Em 1944, as forças de Chiang foram batidas naquilo que foi designada Retirada da Asia Oriental. Para White e Stilwell, ocorrera um colapso, não uma simples retirada, era a confirmação do que vinham prevendo há tempos. De fato, Washington afinal aceitava tomar consciência do estado de coisas na China, e Roosevelt ordenou a Chiang que concedesse a Stilwell “irrestrito comando de todas as suas forças”. Chiang resistiu, sabendo que Stilwell era simpático aos comunistas. Roosevelt foi desobedecido, tendo que retirar Stilwell da China.
Ao contrário de repórteres menos conscienciosos, que apenas resumiram o momento da partida de Stilwell, White escreveu a história inteira: “Chiang sobreviveu à sua utilidade histórica”, como “um homem de espantosa ignorância. Ele não é apenas ignorante mas é inconsciente de sua ignorância”. (p. 120) A fúria de Harry aumentou, nada disso foi editado. White escreveu a Harry admoestando-o de que estava prejudicando a China, enquanto Harry defendia-se, Chiang era melhor porque sua ideologia era a mais aceitável por “nós”. Após a cobertura da capitulação do navio de guerra Missouri, conforme a ordenação de Harry, White devia retornar aos Estados Unidos, não continuando como correspondente na China.
Harry e White fizeram as pazes mais tarde. Mas nesse ínterim a demissão fora ruinosa. White foi salvo financeiramente pela venda de “Thunder out of China”, escrito com Analee Jacobi, ao “Livro do Mês” . Ele considerou bom que a oferta pelo livro fosse feita depois de já ter se demitido da Time. Harry detestou, mais que o livro, a sua influência, por exemplo sobre George Marshal, responsável por uma tentativa falhada de armistício, invectivando que Marshal estivesse “carregando o livro daquele judeuzinho feio filho da puta” (p. 125).
Para Harry era algo espantoso que alguém que ele não apenas havia contratado, mas que havia “feito” - conforme pensava - pudesse estar agindo de modo inverso a tudo que ele podia esperar. Páginas de Time não deixaram de ocasionalmente ferir White, que ficou mais alarmado ainda quando leu a entrevista de Harry ao Post-Dispatch de Saint Louis, em que designava White como um comunista, explicando porque o demitira. A essa altura, os livros de White eram banidos do país, e ele não tinha muitas ofertas de emprego - era o momento do McCarthysmo.
Porém o livro de White sobre a China havia sido um imenso sucesso, vendera 43.000 cópias na edição regular e 400.000 na do Livro do Mês. Ele se mudou para a Europa, quando sobreveio a crise, onde escreveu sobre o renascimento da cultura europeia-ocidental em “Fire and Ashes”, e obteve posição proeminente como articulista político na Collier’s, uma revista que, como a Saturday Evening Post, reproduzia o formato de Time e Life, porém sem o aparato fotográfico que Harry introduzira tão exitosamente.
Em 1956, quando White estava ainda em Paris, amigos comuns o reaproximaram de Luce. A revista falira, e Harry convidou White para a Life, o qual aceitou ainda que com certa hesitação. Com o tempo a antiga amizade refloresceu e White ficou sendo o único colaborador de Harry com licença para interrompê-lo - Harry tinha a mania de enveredar por monólogos que não admitia serem interrompidos. Porém com reserva: “mas não me interrompa muito, Teddy! Não me interrompa muito” (p. 129).
Os acontecimentos na China não fizeram de Harry um McCarthysta apenas devido ao montante de vítimas que obviamente eram pessoas respeitáveis e não comunistas de fato, o que tornou-se intolerável. Mas de fato o anticomunismo de Harry tornou-se mais vivo, e ele aproveitou o momento para estigmatizar o partido democrata, responsabilizando-o diretamente pelo desastre na Ásia e lançando o estigma da “moleza com o comunismo” (“softness on comunism”).
Tornou-se uma obsessão de Harry produzir um presidente republicano, ainda mais porque fazia vinte anos que um republicano não se elegia, e se não ocorresse agora seria como se o sistema bipartidário estadunidense houvesse colapsado. Na convenção do partido, a estratégia de Harry obrigou-o a trair o amigo Robert Taft, que contava com o apoio dele. Harry não acreditava que Taft pudesse ganhar a eleição, posto que era forte apenas em estados que os republicanos ganhariam de qualquer modo ou naqueles em que os democratas eram maioria, enquanto Eisenhower demonstrava boas chances justamente onde o partido mais precisava.
A publicação de um artigo mostrando essa simples aritmética da nomeação culminou uma série de outros francamente antipáticos a Taft, o que o surpreendera grandemente, dada a antiga amizade. Eisenhower, porém, tornara-se o ídolo de Harry, e de fato Eisenhower era um líder em qualquer grupo, segundo Halberstam. Harry relacionava Taft com uma imagem que acima vimos os republicanos estarem tentando afastar de si mesmos, modernizando-se, sendo ele o estereótipo do conservador elitista, quando o partido almejava propagar uma imagem popular e democrática.
Harry obtivera êxito em convencer o público e o partido de que se os republicanos quisessem vencer, eles tinham que optar por Eisenhower, assim como antes obtivera êxito em convencer o mesmo Eisenhower a concorrer. Ideologicamente porém Harry era bem aproximável a Taft, e quando um dos seus repórteres, Robert Elson, foi enviado para entrevistar Eisenhower, Harry ficou algo espantado com a vagueza das respostas do general, a evitação óbvia de se pronunciar sobre questões determinadas. Segundo Halberstam porém era por isso mesmo que o partido republicano simpatizara com Eisenhower, ele era ideal para a modernização da imagem, um homem que não tinha um passado na acepção de uma causa.
Porém a modernização do partido republicano, como vimos acima, era um movimento hesitante. Se o visado era a imagem popularesca, Nixon era o ideal, como observou Paulo Francis em seu estudo sobre a disputa com MacGovern - Nixon, tão inconsequente e apaixonado, tão imediatista e impaciente quanto o homem comum da América, contradizendo as taxas de alta educação; mas a elite patrocinadora do partido, oriunda do business de mídia, não estava disposta a ir tão longe, e o próprio Harry não se sentia à vontade com Nixon. Essa elite acreditava então na sua própria missão educadora.
A vitória nas eleições suavizaram o ardor anti-comunista e republicano de Harry, que para Halberstam criou literalmente o cenário do McCarthysmo, uma vez que os desejos de Harry eram contemplados na retórica agressiva de Eisenhower.
Halberstam convém com os admiradores de Harry, que observaram que seu registro dos desmandos de MCarthy foi o melhor naquele período sombrio, porém crendo que a história real é mais complexa. Pois Harry, paralelamente, estava colocando o partido democrata na defensiva, acusando Acheson de “moleza com o comunismo”, e produzindo um vácuo a partir da censura da informação tal que permitia o surgimento de teorias conspiratórias, não expressando de fato qualquer compaixão pelas vítimas decentes, posto que em todo caso elas eram relacionáveis à questão comunista. Além disso, continuava a cobrir Chiang como o verdadeiro líder da China.
É até algo jocoso o modo como Chiang bajulou Harry na sua visita à China, instando por um encontro quando ele já estava a caminho do aeroporto após os compromissos agendados, e quando Harry concedeu a visita, meio sem saber o que ainda havia para falar, pensou ser apropriado perguntar o que Chiang antevia para o futuro da China, sendo a resposta a antevisão de “grandes perigos”. Harry insistiu por um esclarecimento, algumas vezes. A todas a resposta era a mesma, “grandes perigos”.
A meu ver, o lema do anticomunismo como uma questão de “segurança nacional” não foi bem uma criação de Harry, mas uma formulação adequada ao que os Estados Unidos haviam se tornado, um complexo militar-industrial, como acentuou Julien. Em todo caso, sem dúvida Harry refletiu a tendência e produziu-se como seu ideólogo, o que explica a posição singular da Time com relação ao Vietnã. Para Halberstam, o próprio Harry “claramente considerava que o Vietnã era até certo ponto o seu bebê” (p. 639).
O curso histórico que conduziu à maximização do conflito bélico na Ásia intercepta de forma crucial a atuação da imprensa, conforme o tratamento de Halberstam: “O governo americano estava menos lutando na guerra do que numa campanha de relações públicas” (p. 626). Nesse ponto Halberstam se coloca ele mesmo como um personagem na trama dos eventos, já que atuara como correspondente para o New York Times. As duas administrações, de Kennedy e Johnson, o estigmatizaram pessoalmente.
Uma política definida de cooptação da imprensa havia sido estabelecida, e não devia haver complacência, a mentira era a ordem do dia. Não devemos deixar de observar que os acontecimentos contribuíram para esse resultado, uma vez que a princípio não havia muitos que duvidassem da vitória dos americanos. A resistência a mudar a opinião frente aos fatos é que não só revelou-se demasiada, como foi verdadeiramente produzida pela estratégia equivocada dos governos - como sabemos, nisso não importando a origem do partido.
Os honestos repórteres de campo, contudo, conhecendo a verdade pela experiência, foram críticos da mentira dos grandes da administração na América, mas nunca deixaram de ser simpáticos aos membros das forças armadas que lutavam efetivamente. Porém como leais à verdade eles foram exceções num meio extremamente corrompido a partir de uma estratégia cuidadosamente orquestrada: bajulação de profissionais de campo, resumos assinados pelo alto-escalão publicando informações contrárias às que profissionais reportavam, e como por “razões extremamente básicas” isso não adiantou, mandar VIPs para Saigon, que deviam monopolizar a atenção dos repórteres para depois voltarem relatando que estava tudo muito bem com as tropas e a vitória estava à mão.
Por outro lado, os profissionais que insistiam em não se deixar cooptar eram caluniados, francamente hostilizados. Eles eram chamados de demasiado jovens, desinformados, maricas (“sissies”), dizia-se que choravam quando viam fotografias de corpos de vietcongs, ou então que grassava entre eles perigosos radicalismos políticos (p. 627).
Sobre Halberstam, Kennedy se pronunciara a Sulzberger: ”o que você acha do seu jovem em Saigon”? Sulzberger respondeu favoravelmente ao rapaz, que nessa altura tinha vinte e nove anos. Kennedy insistiu, indagando: “não acha que ele está demasiado envolvido com a história”? Sulzberger continuou na linha defensiva. Finalmente Kennedy sugeriu: ”será que vocês não estariam pensando em manda-lo para Paris ou Roma”?
Halberstam aduz que se Kennedy estava irado com a cobertura da imprensa em Saigon - ao contrário do que Reston informara a Sulzberger sobre a natureza do encontro com ele – era particularmente porque Kennedy sabia que os repórteres estavam mais rapidamente informados sobre as lutas de facções na embaixada do que a própria administração nos Estados Unidos. Consigo mesmo, Halberstam afirma que Kennedy estava sobremodo furioso por que como repórter ele tinha as melhores conexões, estando há quinze meses em Vietnã, sendo o único repórter de tempo integral para um jornal americano em Saigon.
Quanto a Lyndon Johnson, quando tomou posse já não havia apenas 15.000 americanos na Ásia como nos anos Kennedy, mas 100.000, e, logo, 200.000. Repórteres comissionados pela Casa Branca estavam sendo enviados ao Vietnã para dizerem o que a Casa Branca queria que fosse dito, e esses visitantes, conforme Halberstam, estavam deveras desinformados, suas fontes limitavam-se aos resumos produzidos pelo alto escalão administrativo. Johnson gostava particularmente deles, e os admoestava: “não sejam como aqueles garotos, Halberstam e Sheeran... eles são traidores da nação”. (p. 628).
É interessante observar que se Sulzberger precisava do conselho de Reston na ocasião, é porque Sulzberger estava reassumindo os negócios do New York Times como sucessor de Orvil Dryfoos, que morrera de um ataque do coração. Sulzberger havia sido designado, porém afastado pela preferência da família por Orvil. Sulzberger, judeu, era um homem muito bonito, segundo Halberstam, mas a família o apelidara “Punch” - um pequeno “peso-leve”, como alguém que não tinha muita seriedade.
Ele se sentia, pois, inseguro na profissão, e devendo entrevistar o presidente estava demasiado pouco à vontade, por isso tendo interrogado Reston sobre o que devia ser o teor da conversação. Reston respondera que o presidente perguntaria sobre os seus filhos, e Sulzberger deveria indagar do mesmo modo, sobre os filhos de Kennedy. Nada disso verificou-se, e ao invés Kennedy estava furioso com o Times e seu correspondente radical, David Halberstam. Afinal Sulzberger negou a Kennedy que estivesse pensando em retirar o correspondente do cenário bélico.
Uma das variáveis do curso histórico da guerra poderia ser equacionada como a eleição de Kennedy contra Nixon. Ainda que este não tenha deixado de bombardear, não parece ter sentido que aquela era de fato a sua guerra, o que ficou claro quando Nixon assumiu mais tarde. E Luce foi algo responsável pela eleição de Kennedy, não obstante o antagonismo partidário.
Luce expressava-se francamente seduzido por Kennedy, e se a Time apoiou Nixon, não o fez com qualquer intenção real, Harry arrependendo-se ao ver que um democrata havia ganho, culpando-se por isso - mas no fundo deliciando-se: “você sabe”, confidenciava aos amigos “eu não gosto de Nixon”, ainda que fosse sua obrigação apoiá-lo, “eu não gosto de Nixon, mas eu gosto de Kennedy”, ainda que não concordasse com tantas coisas nele: “ele me seduz”. Os amigos respondiam “não é tão ruim assim, Harry”, e Harry retrucava “é sim, quando estou perto dele me sinto como se fosse uma prostituta” (p. 498).
Na verdade, Kennedy trabalhou por esse resultado, objetivando se não o apoio, tornar Time parte de sua estratégia de governo a fim de contornar a oposição aberta, e assim também devia fazer Lyndon Johnson. Eles visaram suas relações com a imprensa como uma das mais importantes questões do seu governo, e entre todas as publicações da época, Time e Life ou, alternativamente, o New York Times.
As relações de Kennedy com Sidey, empregado por Harrym são algo reveladoras da personalidade de Kennedy e de sua estratégia política. Quanto a esta, já vimos que se a relação com a imprensa tornou-se central a ponto de suplantar todos os demais objetivos, estes contudo os únicos legitimáveis como responsabilidade do governo, tratou-se de um jogo duplo em que a oposição se complementava pela bajulação. Nada o espelha melhor do que o exemplo da estratégia kennedyana relativamente a Time Inc. Porém neste caso o valor do exemplo é igualmente duplo, uma vez que Harry estava pessoalmente interessado em ser o condutor nas decisões que no entanto deveriam ser exclusivamente responsabilidade do governo eleito e representativo.
O momento histórico é particularmente interessante para o demonstrar, posto que singularmente concentrado num ponto único, a guerra do Vietnã, condensando todas as paixões e contradições da guerra fria como aquilo que havia substituído a multiplicidade de atribuições da sociedade americana.
A cobertura de Halberstam permite a meu ver considerar que a intenção de Kennedy com relação a Harry era obter exatamente o efeito que vimos ocorrer, a sedução pessoal, dadas as fragilidades a que estava exposto, a condição religiosa minoritária e a oposição partidária.
Pois, quanto ao momentun, a guerra do Vietnã, não havia muito o que Kennedy pudesse temer da parte de Harry. Pelo contrário, segundo reporta Halberstam o presidente foi até mesmo chantageado pelo proprietário da Time, com a promessa (“pledge”) ao pai, Joe Kennedy, de que se ele mudasse a política americana na China ou parecesse mole no Vietnã, Time o isolaria (“will tear him apart”). A propósito, Mert Perry, repórter da Time no Vietnã, maravilhado com o número de celebridades enviadas, designou o Vietnã de “Time Magazine Disneyland.” (p. 639).
E Halberstam acentua o quanto o Vietnã foi um divisor de águas na história política americana, deslocando inteiramente a oposição tradicional de presidência e congresso para uma oposição real entre presidente e imprensa, enquanto o anticomunismo da era McCarthy transformava-se no imperialismo da era atual. Houve constantes investigações da CIA e das forças armadas sobre as fontes dos repórteres no Vietnã, com uma piada correndo a propósito, os correspondentes recebendo mensagens dos escritórios centrais perguntando por que os coronéis que os informavam nunca eram nomeados, e eles respondiam, porque se fossem nomeados eles não seriam mais coronéis.
A batalha era sobre a informação de como e quanto durava a guerra. Nunca houve, segundo Halberstam, conflito de repórter contra repórter, propalado pela Casa Branca e o Pentágono, inversamente o consenso dos correspondentes em Vietnã sobre o rumo desastroso da guerra era completo, destoava sim apenas a informação de correspondentes e visitantes pagos para perpetuarem a versão falsa da administração. Se os repórteres não confiavam na diplomacia, mas viam como honestos aos soldados que lutavam, era porque aqueles funcionários eram os que haviam sobrado após o mcarthysmo, ou seja, sem consciência política, sem convicção existencial.
Nesse cenário a censura tornou-se um requisito do aparato do Poder imperialista, articulado entre a Cia, a Casa Branca e o Pentágono. Aos itens que vimos acima compondo a estratégia de contra-informação do governo na guerra, ajustou-se ulteriormente a doutrina da segurança nacional com o componente expresso do dever de autocensura por parte dos repórteres, uma vez que o debate seria oportuno ao inimigo (p. 625).
Compreendemos assim a pressão sobre o New York Times quando Kennedy soube que Tad Szulc, um repórter com boas conexões na América Latina, descobrira que a CIA estava recrutando e treinando cubanos exilados num quartel secreto da Guatemala. Algo dessa história já havia transpirado em The Nation, contudo houve uma cortina de silêncio, como desinteresse motivado por um sentimento de temor. A história de Szulk no Times era algo bem diverso em termos de recepção. Kennedy convocou Scotty Reston, quando o Times ainda estava sob Orvil, instando para que a história fosse cortada, de modo que não impedisse o plano de segurança nacional.
Orvil, seguindo Reston, concordou com a censura de Kennedy, não sem resistência da parte de editores em New York que se sentiram particularmente irritados, Theodore Bernstein argumentando argutamente sobre a irredutibilidade entre segurança nacional e interesse nacional, não era atributo do governo impedir a livre expressão garantida por lei num país democrático. Surpreendido pela veemência dos seus próprios colaboradores, contudo Orvil sentiu-se demasiado ameaçado para desafiar a autoridade de Kennedy e a história não foi publicada. Porém, como Halberstam observa, como segredo o caso não tinha razão de ser, uma vez que se Szulc sabia, Fidel certamente também sabia.
Como já deve ter ficado claro, o treinamento integrava o projeto de invasão da Baía dos Porcos, que resultou no fiasco que a história registra. Após o que, Kennedy chegou a arrepender-se, se a reportagem fosse publicada poderia tê-lo salvo do desastre, confidenciou a testemunhas, porém a atitude de Kennedy perante os repórteres no pronunciamento oficial à imprensa foi uma mistura de ostentação pessoal e reforço à doutrina de segurança nacional, recusando-se sob essa escusa a informar o que todos queriam saber, o que realmente havia acontecido na Baía dos Porcos, ao invés apresentando a doutrina da autocensura.
Com a Time nunca ocorreram tais conflitos de interesses em política externa - que agora invertendo a hierarquia era a marca da liderança nacional - mas sim os que pudessem decorrer da pretensão do presidente dominar os pormenores da veiculação de sua imagem pública. Sidey, o repórter da Time para a Casa Branca, se tornou assim o alvo natural da instabilidade emocional kennedyana.
Não havia na Time voz discordante de Harry que permanecesse deveras audível. Emmet Hughes, grande amigo e colaborador de Harry, que se comprazia em discorrer sobre questões teológicas com ele, mesmo não sendo presbiteriano e sim católico, e a quem Halberstam considera um homem de profunda inteligência, dotado de beleza e cultura, se viu envolvido num prolongado confronto a propósito da nomeação do editor chefe. Hughes fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar a nomeação de Fuerbringer, um luterano conservantista que almejava apenas servir como o melhor instrumento das intenções de Harry, tencionando ao invés que a nomeação fosse para alguém mais cultivado e liberal. Porém o jogo de pedir conselhos era mais aparente que real, Harry queria apenas concordância, e se Hughes afinal não a concedeu, então ele apenas desistiu de procura-la e decidiu por si mesmo. Ainda que soubesse que também os seus repórteres de campo não gostavam de Fuerbringer.
As relações de Hughes e Harry afinal expressaram os dois pesos e duas medidas de Lucy, após o interregno de 1958 a 59 quando não havia ninguém tão íntimo deste quanto Hughes, que ficara famoso por ter inscrito na Time a sentença mais importante de Eisenhower no ano de 1952: “I shal go to Korea” (“Irei à Corea”). É que Hughes escreveu depois um livro crítico sobre o governo Eisenhower, o que irritou Harry.
Nomeado Otto Fuerbringer para editor manager de Harry, o caminho para a aprovação da beligerância imperialista em política externa estava garantido, porém Kennedy queria mais do que isso, ele queria pessoalmente inspirar uma atração irresistível, que fosse sentida até pelos oponentes partidários. Por meio dessa atração ele esperava neutralizar ataques relativos à sua posição interna liberal, o que porém ele dificilmente poderia esperar de Fuerbringer.
Sua estratégia consistiu em ser visto, em momentos importantes de exposição pública, lendo a Time, profundamente interessado na linha editorial, convidando Harry para constantes jantares na Casa Branca. Certa vez, quando Fuerbringer esteve doente, mesmo antes de Kennedy ser eleito, surpreendeu Harry, perguntando-lhe se Otto estava de férias. Harry indagou porque ele perguntava, Kennedy respondendo que era por ser claro que a revista não estava como de costume naquela semana.
Quando Kennedy se elegeu, Fuergringer adoeceu gravemente, de um aneurisma, sendo substituído por Tom Griffth na Time, em quem Harry não confiava tanto. Kennedy refletiu a mudança, pois quando Fuerbringer retornou, ele o compreendeu de imediato. Ao desembarcar numa noite de viagem, deteve-se um pouco na pista do aeroporto, lendo a Time sob as luzes do avião, os dedos correndo pela página enquanto lia, a face se tornando cada vez mais severa: “Isso está errado... isso está errado... isso está errado...”, vaticinava. Chamou Sidey que esperava junto ao corpo de imprensa: “Sidey, ouvi que Fuerbringer voltou.” O repórter confirmou a informação. “Sidey, você havia me garantido que ele estava virtualmente às portas da morte. ... Você me enganou” - ele estava totalmente furioso. As relações de Kennedy com a imprensa não foram comprometidas apenas pelo movimento pacifista, como se demonstra pela curiosa batalha de Kennedy na Time.
Conforme Halberstam, 1961, o início da década, é uma era favorável ao incremento de lucros na imprensa, o próprio Kennedy era uma fonte de notícias, uma garantia de prosperidade, e Time se beneficiou igualmente. Ao contrário, para Kennedy a época não era boa, uma época de grandes fracassos pessoais, e ele procedia nisso de modo oposto a Nixon. Este, sob pressão, apelava para repórteres de publicações favoráveis a ele, e restringia o acesso a estes. Kennedy apelava para os críticos, os que lhe eram favoráveis não precisavam de atenção a seu ver, no máximo alguma confirmação. Na Time, Fuerbringer estava sofrendo oposição de Clurman, responsável pelo setor de contratações, e Sidey era um homem de Clurman, em quem Fuerbringer não confiava, o que o levou a tentar sustar a nomeação de Sidey para cobrir a Casa Branca, porém Harry, sendo o único satisfeito com o conflito entre a sede do jornal e os repórteres de campo, permitiu que ele continuasse.
Kennedy passou a uma constante perquirição de tudo o que era publicado sobre ele e seus íntimos. Se o artigo versasse sobre política ele se mantinha controlado, mas não se fosse sobre detalhes da vida pessoal, uma referência ao velho Joe, ou às aulas de tênis da célebre esposa, a bela Jackeline Kennedy, que depois do assassinato dele casou-se com o milionário Onassis.
Kennedy nutria suspeição diretamente voltada contra Sidey. Mesmo quando nomeado Homem do Ano, ficara irritado. Chamou Sidey para reclamar: “soube que os seus filhos das putas fizeram isso de novo”. Qual era o problema? - Sidey tentando entender. Kenny O’Donnell havia registrado que Kennedy estava sendo retratado por um famoso artista, uma operação difícil, com Kennedy nada satisfeito com o resultado, parecia cansado, os olhos não alinhados. Kennedy acusou o artista de tê-lo feito parecer vesgo, e o pintor respondeu, “bem, ele é vesgo”.
Certa vez a fúria de Kennedy parece mais justificada - Time havia coberto um evento mas cortado o número de pessoas na multidão para 40.000 quando o número beirava os 80.000. Nessa ocasião a fúria foi descarregada não em Sidey, mas em Harry, Kennedy invectivando repetidamente que sua revista não era decente, não agia honestamente, até que vindo do Salão Oval, deram com Sidey que lá fora esperava por Harry. Kennedy aproveitou para desancar Sidey - “aí está, Sidey, o melhor repórter de Washington. Sidey, se você for a Pensilvânia Avenue e perguntar a qualquer um que seja razoável, se Time foi decente comigo, o que você acha que ele responderia”? O repórter, chocado, ouviu a si mesmo balbuciando que provavelmente Kennedy estava certo, era verdade, mas que o trabalhador comum de Washington não era representativo do trabalhador em geral uma vez que Washington era uma cidade da companhia. (p. 504).
Algo engraçado como possa parecer o incidente, Harry compreendeu que as coisas estavam mal, que não era interessante Kennedy estar pensando que sua revista não era decente com ele, porém quando confidenciou sua preocupação a Fuerbringer, este indagou o que o proprietário da Time queria que seu empresário-editor fizesse, e obteve como resposta apenas, nada.
Mais um incidente registrado por Halberstam, mostra Kennedy absolutamente furioso pelo fato de que a seção social da Time havia publicado que posara para a capa do Gentlemen’s Quarterly. Sidey relaxou, pensando que fosse assunto de menor importância. Havia ficado temeroso porque Kenny O’Donnel lhe dissera que algo sério havia ocorrido, Kennedy estava realmente aborrecido.
Sidey foi chamado ao Salão Oval e Kennedy, sendo a ocasião em que John Glenn havia completado a pioneira órbita espacial, ligava para cumprimentar o astronauta. Enquanto esperava na linha, descompunha Sidey: o que as pessoas iriam pensar dele, o que significava publicar que ele havia posado, “Sidey, seu filho da puta, vê se você faz as coisas direito”, subitamente voltando-se ao fone, para cumprimentar Glenn com a voz mais gentil do mundo, “quão maravilhada, quão orgulhosa dele a nação inteira estava”, continuando nesse tom por vários minutos até que pousando o fone no gancho, voltou-se para o repórter, xingando-o de novo, amaldiçoando a publicação.
E Sidey, que despertara ainda maior raiva porque sem notar o quão séria a coisa era, rira quando Kennedy mencionara a Quarterly, agora estava rindo novamente, ao sair da Casa Branca sob o pior agravo que um repórter já sofrera, mas isso significava acesso, “maravilhoso acesso para ele e a Time” (p. 506).
As relações de Harry com o presidente Lyndon Johnson deveriam ser melhores do que com Kennedy. Fuerbringer gostava de Johnson e Sidey não teria dificuldades uma vez que era amigo pessoal do presidente. Sidey ligou para Johnson, sob injunção de Fuerbringer, para combinarem um encontro em que Fuerbringer seria apresentado a Johnson, e este, que adorava errar o nome das pessoas como uma forma de coloca-las na defensiva, respondeu: “então, quem é esse velho amigo que eu devo ver? Otto Foofinger? Otto Fingerbinger”? Durante o encontro Johnson tornou-se bem claro quanto à preponderância do Vietnã em seu governo. Ele seria muito mais duro, aprestado para a guerra e a vitória. Isso era porém o contrário do que Johnson estava anunciando publicamente, prometendo suavizar a política externa.
Nessa época ainda não havia os termos opostos que se tornaram correntes, dove e hawk, respectivamente pombo e falcão conforme os que eram contra ou a favor da guerra. Assim Frank MacCulloch não podia ser chamado ainda um hawk porém quanto ao sentido das palavras, ele certamente não era dove, e estava frustrado com o rumo da guerra - Halberstam nota que o pensamento dele era bastante complexo, porém resumindo estava a favor do conflito bélico. Consequentemente, publicou uma reportagem sobre o envio de tropas por Johnson a Da Nang, quando o presidente estava ainda anunciando que ele não iria mandar tropas americanas - nessa altura, os protestos de rua contra o alistamento de jovens soldados se tornando maiores.
Uma mensagem da Casa Branca foi imediatamente despachada, negando autorização para publicar, quando a consulta da Time fora feita - a importante reportagem, mostrando a contradição de palavras e atos da presidência, não pode chegar ao público. Nada menos que o próprio Lyndon Johnson enviara a mensagem negando consentimento para a publicação, e o procedimento se tornou corriqueiro. Johnson concedia muito acesso a Time Magazine, mas apenas para controlar o que a revista publicava ou não. McCuloch gradualmente se tornava o White do Vietnã. Sempre mais consciente da realidade, sempre mais censuradas as informações pela Casa Branca, e a Time não rompia com o sistema de contrainformação instituído.
Quando McCuloch se demitiu, não houve sucessores imediatos. Não muitos profissionais pretenderam o cargo, mas os que o queriam eram barrados. Fentress obteve o emprego, porém para chocar-se com a mesma dificuldade. Mas nessa altura, em 1967, Donovan era o novo encarregado da Time, sucedendo o proprietário, e as coisas mudaram um pouco. Qualquer contato com a realidade estava agora patentemente contrastada à informação oficial. Donovam foi ao Vietnã e constatou que havia 500.000 americanos, porém mesmo essa quantidade já se sabia não ser suficiente. A linha mudara, ainda que Fuerbringer não o aprovasse pessoalmente.
Ralph Graves, da Life, foi o jornalista que expressou a mudança, e segundo Halberstam, sua reportagem na Life em 1969 foi a maior contribuição para o movimento pacifista - nada além de fotografias das vítimas no Vietnã, 242 jovens americanos mortos na guerra, em uma semana (p. 676). Quando a revista faliu, três anos depois, Graves deplorou que sua remanescente posse como editor jamais resultaria numa publicação tão importante e poderosa na história.
Com relação a Watergate, incidente que encerra a cobertura das fontes que estamos examinando, Time Inc. refletiu as desilusões de uma era de republicanos que se não a princípio bem dispostos relativamente a Nixon, estavam ao menos convictos de que as decisões do partido deviam ser respeitadas para logo se tornar claro o proveito para todos. Harry pessoalmente não gostava de Nixon, mas desde os anos cinquenta Time produziu a boa imagem do político que o partido requeria. Como os acontecimentos se sucederam, porém, mesmo as mais arraigadas fidelidades tiveram que ser postas de lado.
Como uma tendência geral do business de mídia, isto é, do alto escalão dos proprietários e managers que compunham a articulação do poder com o Executivo, houve a necessidade de refletir a cisão em curso, a partir da reação do legislativo frente aos descalabros de uma administração não dotada intelectualmente, francamente hostil à inteligentzia, enquanto os jovens eram dizimados no Vietnã, os protestos de rua beiravam a guerra civil devido a inépcia na política racial minada pela demagogia e unilateralidade, e a carestia grassava no país como à época de Nixon.
Em 1967, a morte do proprietário de Time Inc., tendo antes designado o sucessor Hedley Donovan, facilitou que a revista acompanhasse a tendência de ruptura para com a tradição de décadas do principado da presidência. Para Donovan a fé no partido republicano e o anticomunismo não eram uma adesão da alma. Ainda que ele tivesse sido apontado como sucessor, o contrário virtualmente não ocorreria, ele não apontaria o próprio benfeitor se fosse ele que estivesse tendo que escolher.
Time apenas acompanhou a tendência. Cronkite e Friendly da CBS, são mais exemplares do desencadeamento da mudança, assim como uma série de incidentes relacionados à cobertura da imprensa, quando a reação do legislativo implicou a necessidade de ampliar o leque das opções do que mostrar, o presidente já não resumindo a unidade da atração.
Os inquéritos de William Bill Fullbright desencadearam a reação do congresso e apelaram a uma mudança na política de cobertura, o que Friendly empreendeu, ainda que para chocar-se com grandes resistências. Não obstante, ele obteve atenção do público para as tremendas revelações da inépcia e corrupção governamental que estavam surgindo dos inquéritos.
Cronkite, a princípio como todos os conservadores tendo se alinhado com a decisão governamental contra o Vietnã, foi uma peça chave na aceleração da mudança da opinião nacional a propósito da guerra, ele mesmo mudando ao visitar pessoalmente o Vietnã, tendo que voltar num veículo com doze corpos de GI’s, de uma suposta cidade pacificada.
O que o chocou não foi tanto a ferocidade da batalha, ainda que realmente impressionante, mas testemunhar generais simplesmente mentindo, escrevendo resumos para correspondentes informando que a batalha na cidade de Saigon estava terminada, quando Cronkite verificava pessoalmente, como todos que lá se encontravam, que estava obviamente pendente: “o que significava que os generais era mentirosos ou tolos, e se eles mentiam sobre algo como aquilo, poderiam mentir facilmente sobre qualquer coisa”, conforme Halberstam (P. 714).
A viagem de Cronkite ocorreu em 1968, quando da ofensiva Tet, o que implicou uma mudança na estratégia dos guerrilheiros vietcongs em Hanoi, que até aí só lutavam à noite, pois não dispunham de força aérea e à luz do dia podiam ser filmados. Não sendo muito visíveis, a televisão pudera cunhar a impressão do inimigo fraco, não totalmente sério. Mas com a ofensiva Tet a batalha a céu claro tornou-se obrigatória, e a ferocidade, organização e eficácia dos vietcongs ficaram evidentes à cena televisiva, o que minou a credibilidade da administração de Washington.
Mas desde Lyndon Johnson a tradição da mídia como veículo presidencial começou a perigar, devido à instabilidade emocional que ele também revelou após Kennedy. Johnson era inseguro especificamente com a aparência diante das câmeras - o nariz, os óculos, os modos pouco à vontade.
Até o desastre no Vietnã tornar-se patente, contudo, a mídia perseverou no papel de sedimentação do monopólio do poder presidencial. Conforme Halberstam, ela ampliava os argumentos do governo e silenciava as críticas dos especialistas mais conscienciosos. Ela dava a impressão de que o governo estava não apenas unido, mas confiante no curso da guerra, quando o contrário é que era verdadeiro, a presidência estava solapando as atribuições dos outros ramos do governo, a partir da doutrina da segurança nacional desdobrada numa prerrogativa da informação secreta, o que funções do Departamento de Estado estavam agora drenando para a CIA.
Congressistas importantes como Fullbright estavam sendo cooptados por meio de bajulação, sendo consultados sobre decisões cruciais, porém quando elas já haviam sido tomadas secretamente pela Casa Branca. O Conselho de Segurança Nacional, protagonizado por homens como Rostow, Bundy e Kissinger, é que realmente importava à decisão, uma vez que eles eram completamente “homens do presidente”.
Veiculando a imagem de um governo confiante e unido, o business de mídia escondia a verdade de que, pelo contrário, ele estava terrivelmente dividido, a maioria na Cia, Departamento de Estado e forças armadas, eram críticos do andamento da guerra, enquanto a minoria que a conduzia concentrava a decisão contrária, por ser hierarquicamente mais importante. O consenso era tão frágil que mesmo homens como McNamara e o próprio Johnson nutriam dúvidas, porém a mídia, particularmente a televisão, nunca as registravam, passando a convicção de um governo confiante porque informado pelos experts.
Assim o desafio de Fulbright à presidência foi um evento histórico de grande importância, ocorrendo um ano depois da intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. Em quase quinze anos, essa era a pioneira concessão da mídia de uma plataforma nacional a uma figura do congresso. Fulbright a princípio não se incomodou, e até se divertiu com o modo como Kennedy usou a mídia, enquanto o partido republicano tentava barra-lo com o Ev e Charlie Show, mas na ocasião da guerra tornou-se perplexo pela total cooptação da mídia como veículo presidencial, a política do governo sendo sistematicamente vendida pela televisão, e pelo fato de que além da prerrogativa de exposição presidencial assim como de altos cargos relacionados ao presidente, não havia na televisão meio de expressar opiniões em desacordo. Ele mesmo não tinha acesso ao ar.
Com os seus inquéritos na Comissão para Relações Externas, ele se tornou uma figura maior na mídia, sendo irônico, ao ver de Halberstam, que personagens como Dean, que reclamaram tanto de que ele os havia emboscado num ambiente manipulado, não sabiam que a equipe de Fulbright pudera sentir prazer com as câmeras, mas ele propriamente não, ainda que não proibisse que os inquéritos fossem televisionados, de modo a alertar a nação.
Antes Fulbright tentara alertar pessoalmente a presidência, entre Kennedy e Johnson. Escrevera um memorando a Kennedy, porque ouvira rumores sobre uma operação clandestina, desaconselhando-a, argumentando que esse tipo de política arbitrária, de força, era aquilo mesmo contra que os Estados Unidos estavam se batendo na guerra fria, porém se Kennedy considerara cuidadosamente o memorando, como sabemos a desastrosa invasão da baía dos Porcos não foi detida.
Fulbright colaborou com Johnson, quando este assumiu, tendo apoiado a nomeação de Johnson para as eleições. Goldwater era odioso, Fulbright poderia ter dúvidas sobre Johnson porém não tinha dúvida alguma de que Goldwater tinha que ser evitado a todo custo - como a redução da política às armas nucleares, a força militar como solução para problemas políticos.
Baseado nisso, Johnson aproveitou para obter de Fulbright apoio no congresso para a invasão do golfo de Tonkin, de que Fulbright mais tarde muito se arrependeu, porém convencido na época pela desculpa de Johnson sobre que não haveria muitas tropas dispensadas ao Vietnã. Fulbright, muito influenciado por Walter Lippman, começou a instar com Johnson sobre ser exequível para a América viver pacificamente com o governo unificado do Vietnã sob Ho Chi Min, porém nessa altura sobre esse tipo de proposta Johnson não se dignava sequer a enviar uma resposta.
A ruptura de relações de Fulbright e Johnson ocorreu na verdade não por causa do Vietnã, mas da República Dominicana, um episódio que equivaleu a uma miniatura do Vietnã. Fulbright considerou a operação - que devia ser incrivelmente rápida - como um símbolo do imperialismo yankee, algo brutal, reportando-o a Szulc do New York Times. Johnson passou a odiar Szulc por causa da cobertura negativa da República Dominicana: “aquele pé-rapado fodido, Schultz” - sempre a mania de alterar o nome - “aquele pé-rapado fodido. Se apenas pudéssemos jogá-lo na cadeia liquidaríamos com a coisa toda em duas semanas” (p. 697).
Johnson detestava expor-se à mídia, ainda que soubesse o quanto precisava de cobertura - ele convidou Fred Friendly para ser o seu guru televisivo, num cargo que teria importância equivalente a do seu conselheiro para assuntos estrangeiros, na esperança de acabar com a insegurança que nutria quanto à aparência, porém Friendly recusou ainda que Johnson houvesse insistido bastante.
Certa vez Johnson perguntou a um produtor da CBS, Mike Honeycut, se o rapaz estava tentando “fodê-lo”, e o rapaz: “Sir?”, chocado. Johnson repetiu a pergunta para em seguida gritar, subitamente, “tirem-no daqui”, o rapaz ainda mais perplexo. Havia ocorrido que Honeycut filmara Johnson logo após tê-lo maquiado, esperando contornar alguns dos problemas da aparência e modos, porém o resultado não agradou ao presidente - o que depois explicaram ao jovem como o motivo do estranho comportamento.
Halberstam traça um contraste notável entre Johnson, sem qualquer habilidade conceitual mas com talento para fazer as coisas acontecerem, e Fulbright, cerebral, admirado, senão de fato amado, por seus companheiros, o residente do Senado, incapaz de empurrar um braço ou pressionar um colega para votar com ele.
Coerente com sua honestidade intelectual e ausência de agressividade sádica, Fulbright tentou convencer Johnson de que sua ofensiva contra a política no Vietnã e a corrupção interna não era pessoal, mas apenas institucional, o que de modo igualmente coerente, mas com a personalidade vingativa de Johnson - Lyndon Johnson da Cidade de Johnson - não foi aceito.
Fulbright se deixou levar pelos conselheiros que instaram que ele fosse até o aeroporto, numa noite de tempestade, cumprimentar Johnson que retornava de uma viagem ao exterior, a fim de provar que não era um inimigo pessoal. Johnson olhou através dele, como se não o visse, não se dignando a reconhece-lo ou falar com ele.
Se Fulbright fizesse o seu discurso contra a política presidencial, as relações seriam cortadas - isso estava claro de início. Fulbright se ateve apenas à qualidade do pronunciamento. Uma vez obtendo a confirmação de que estava bom, recusou os conselhos para preservar as relações com Johnson.
Foram os carbonos preservados por Szulc, das entrevistas de Fulbright sobre a República Dominicana, que serviram de base para organização da comissão de inquérito. Os inquéritos de Fulbright não atraíram a atenção do congresso no começo. Porém quando Thomas Mann, o Secretário Assistente para a América Latina e um dos arquitetos da intervenção foi chamado a depor, manteve-se na clássica linha da guerra-fria: se vissem as mensagens cabografadas por si mesmos, concordariam imediatamente com a ofensiva. Apenas ver a mensagem - a arma que se acreditava suficiente.
Fulbright, bem aconselhado pela equipe, retrucou prontamente que, sim, queriam ver as mensagens. Intoxicados pelo poder, crentes na ausência de desacordo interno, a administração enviou os cabogramas. Pat Holt verificou o tráfego das mensagens, observando que havia conteúdos que confirmavam, ao contrário do que havia sido dito pela Administração, a versão de Szulc. O efeito foi devastador, mostrando a Administração não informada, depois tentando arranjar a informação de modo diferente do que realmente Johnson e Dean haviam declarado.
O tratamento de Dean por Fulbright foi o mais amargo, devido ao montante de irritação e descontentamento deste com o rumo das revelações. A televisão não mostrou o depoimento ao vivo, ela simplesmente não estava preparada para cobrir o que Halberstam designou “o maior debate entre dois ramos equivalentes do governo na questão mais vital da década” (p. 702), e amiúde rodava reapresentações de “I Love Lucy” em ocasiões cruciais ao invés de cobrir os eventos, o que significava na verdade adesão à política governamental.
Friendly, então presidente da CBS, considerou a lacuna indesculpável, e quando ocorreu o próximo depoimento, de David Bell, ele o cobriu ao vivo, o que representou uma enorme despesa - 175.000 dólares - porque o inquérito durou o dia todo, o que Friendly não antevira. Stanton ficara particularmente insatisfeito, ele era amigo pessoal de Lyndon Johnson, e não havia apoio para Friendly continuar cobrindo.
Johnson estava tão irado com as coberturas críticas que quando Safer mostrou os soldados americanos incendiando Cam Ne, ligou de manhã cedo para Stanton, perguntando se ele estava querendo “fodê-lo”. Stanton, despertando sonolento, indagou quem estava na linha: “Frank, aqui é o seu presidente, e ontem os seus rapazes cagaram na bandeira americana.” Lyndon continuou nesse tom. Como a CBS podia ter empregado comunistas como Safer, e se comportado tão antipatrioticamente? Johnson encarregou a Polícia Montada de investigar Safer, e inclusive uma sua irmã, porém nada foi apresentado contra ele (p.683).
Significativamente, o depoimento mais importante na comissão de inquérito de Fulbright, de George Kennan, “o homem mais reflexivo e cerebral no campo da política externa americana”, autor da política de restrição (“containtment”) e “a mais importante voz do país”, não foi televisionado pela CBS (p. 704). Stanton argumentou que voz importante ou não, Kennan não tinha um título, e títulos eram o essencial, além disso, as donas de casa não tinham interesse nos depoimentos - de fato, muitas ligaram reclamando porque suspenderam o “capitão canguru”, programa infantil que mantinha as crianças ocupadas, por causa do depoimento de Bell.
A NBC cobriu Kennan, enquanto a CBS mostrava reapresentação de antigos números de “I Love Lucy”.
Paley e Stanton estavam de fato furiosos. Friendly perdeu acesso, eles lograram encurrala-lo por uma organização especialmente designada para mantê-lo como diretor da divisão de notícias longe da sala deles, de modo que era com uma burocracia que Friendly tinha agora que se haver para obter decisões. Em alguns dias Friendly se demitiu, e seus superiores não se surpreenderam, se preocuparam somente com as declarações públicas que ele pudesse fazer.
Friendly apenas permaneceu na dúvida sobre se sua demissão havia sido planejada por Lyndon Johnson. De fato, não houve novas transmissões da comissão de inquérito, enquanto Johnson anunciava estar enviando todo o pessoal a Honolulu para conferenciar com Cao Ky - a clássica política presidencial de reobtenção das atenções da mídia no momento em que o congresso o lograra.
Ainda assim, quando Nixon assumiu as relações da mídia com o executivo já não eram como na antiga tradição de veículo presidencial, a crítica já não podia ser de todo ignorada, muitos profissionais estavam pessoalmente envolvidos com a visão contrária à Administração. Os prolongados anos de guerra haviam minado a confiança do público, e em 1968, quando Cronkite mudou, tornando-se pessoalmente desimcompatibilizado com a guerra, Johnson compreendeu que estava acabado. Em 1968, a presidência estava na defensiva.
A Time Inc. refletiu a mudança na tendência, e sua cobertura de Watergate também foi um efeito da mudança na própria estrutura da empresa sob a liderança Hedley Donovan.
Inversamene a Grunwald, o novo editor chefe da Time, a concepção de Donovan sobre o governo era típica do cidadão inocente americano, conforme Halberstam. Enquanto a perspectiva Grunwald era a de um olhar condescendente com algum esperado pecado ou corrupção, Donovan esperava apenas moralidade e comportamento aceitável. Ele estava bastante embaraçado com a inteira presidência Nixon, incomodado com o que ele sentia serem os defeitos de caráter de Nixon, o isolamento que trouxera ao cargo, a tendência à crítica devastadora, personalizada.
Nesse comentário sobre Donovan, Halberstam insere a repulsa que o vice-presidente despertava em Donovan, que o considerava um homem perigoso, de capacidade estreita, não compreendendo como alguém poderia ter escolhido Agnew para a vice-presidência. Em inícios dos anos setenta, Life até mesmo escreveu um artigo sobre a necessidade de escolher outro vice-presidente. O próprio Halberstam porém anota que “Agnew, um homem orgulhoso e sensível, ficou profundamente ofendido pelo editorial e imediatamente solicitou um encontro com os editores de Life”.
Inversamente ao que Donovan esperava, Agnew não se comportou com tato e civilidade durante o almoço, de modo que o editor e a equipe pudessem avaliar o terreno para conceber a estratégia apropriada. Agnew estava irado, ele tinha tão pouca paciência com os críticos quanto Nixon, e tudo o que puderam fazer foi tentar garantir não se tratar de um ataque pessoal, apenas de uma questão administrativa, tantas pessoas na América eram boas, porém não apropriadas para a vice-presidência. Eles não quiseram negar suas qualidades como pessoa. Mas Agnew continuou interpretando a crítica como dirigida a ele pessoalmente.
Ainda assim, quando Watergate requisitou uma decisão sobre empregar repórteres para investigar ou não, Donovan estava chocado, não aceitando comodamente o escândalo. Mas gradualmente ele se tornou um fã, profundamente interessado na evolução dos acontecimentos. Ao inverso de outros, ainda que ele pensasse no incidente como bem de acordo com o caráter de Nixon, e não acreditasse nos desmentidos da Casa Branca às acusações, mantivera-se extremamente cuidadoso, exigindo que as evidências fossem avaliadas detidamente, não permitindo ir muito longe. Time Inc. possuía a essa altura um par de excelentes investigadores, Sidey e Sandy Smith.
Quanto a Smith, Halberstam acentua o quão singular ele parecia entre os homens de Time, todos bem talhados para agirem como “embaixadores do império”, experts em almoços e com ótimas relações sociais, especialmente com fontes de alto escalão. Smith, inversamente, era péssimo em almoços, não conhecia ninguém famoso, e suas fontes eram diversificadas, tanto dos níveis suboficiais, de pessoas que atuavam ocultamente no coração do governo, quanto fontes secretas, quando se tratava do alto escalão. Para ele fontes de alto nível refletiam a política escolhida, não a realidade.
Smith era um lobo solitário em seu trabalho, totalmente ao inverso do profissional típico da Time inc., porém segundo Halberstam, provavelmente o melhor repórter investigador do país, vivendo para o emprego e a família, e seu emprego sendo as suas fontes, exigindo dele um tipo de relação das mais compreensivas por se tratarem de pessoas vulneráveis à publicidade, requerendo extrema discrição da parte do repórter para não compromete-las.
Assim como Sidey, ele estava desde o início convencido de que Watergate era produto do alto escalão, não do baixo, provavelmente do próprio Nixon. Smith se convenceu ainda mais a propósito quando soube por suas fontes que Pat Gray do FBI e altos oficiais da CIA estavam tentando desordenar a investigação.
Sidey, por sua vez, agiu como advogado da cobertura de Watergate dentro do sistema Time, argumentando tratar-se de questão das mais sérias, o que surtiu efeito entre aqueles que os repórteres chamavam os Pilotos do Zeppelin, os mais altos funcionários responsáveis pela edição e que conduziam o escritório de New York, a Fábrica do Zeppelin - ou seja, quem resolvia se eles poderiam ou não “voar”.
Uma mudança importante nessa época, segundo Halberstam, foi a decisão do jornalismo em geral e da Time em particular, em abandonar o costume de seguir o New York Times como modelo consagrado de divulgação de notícias. A ponto de que mesmo se um correspondente da Time houvesse logrado uma boa reportagem, porém sobre algo ainda desconhecido, ele devia ceder ao Times a precedência da notícia a fim de que se tornasse legitimada, só então noticiável. Agora havia contudo vários repórteres talentosos na Time, que se tornara competitiva não apenas relativamente a Newsweek como também aos próprios New York Times, Los Angeles Times e Washington Post.
Ainda assim, ir totalmente contra a linha do governo não era coerente com o espírito da Time. Sidey, em parceria com Lance Morrow, havia recentemente escrito o que Halberstam considerou um dos mais inteligentes e vigorosos editoriais sobre Watergate, mostrando que os desmentidos de Nixon não valeriam por muito tempo, o problema não iria embora tão cedo. Porém logo depois, em inícios de 1973, Time premiou Nixon e Kissinger como Homens do Ano, para desconforto dos repórteres. Se nem todos estavam satisfeitos, as viagens a China e a Moscou estavam lá, não havia nada comparável. O efeito de neutralização de Watergate seguiu-se eventualmente, porém algumas semanas depois as reportagens começaram a vir mais e mais fortes, e a revista mostrou-se receptiva a elas.
Time estava legitimando por si mesma Watergate, e afastando o centro de Nixon. O que se revelou lucrativo. Como homenageado, Nixon vendera 214.000 exemplares, sendo 245.000 o usual para capas comuns. Alguns meses depois, a série de reportagens de capa sobre Watergate atingiram progressivamente 280.000, 290.000 até chegar a 300.000 exemplares.
Em torno de John Dean como testemunha, o juiz Sirica e o promotor Jaworski, a Time desenvolveu sua estratégia de investigação em meio ao escândalo que havia se tornado, segundo Halberstam, a maior história policial da nação.
Quando McCord começou a falar, dando conta dos motivos da sua prisão, a defesa da Casa Branca começou a desmoronar. Se antes não havia praticamente repórteres além de Bernstein e Woodward, agora todo mundo queria uma fatia em Watergate, que como vimos provou-se muito lucrativa. A Time já não precisava ocupar-se com dúvidas, e Smith, o repórter da Time para Watergate, teve oportunidade para aplicar sua prática singular, centrada apenas em fatos, sem cor ou referências exemplares. Porém logo todo o processo se concentrou em torno de John Dean, um dos mais brilhantes jovens próximos a Nixon, lembrando aos mais idosos o próprio Nixon quando jovem político. Sobre ele, Halberstam escreveu: “Os grandes homens da Casa Branca, Haldeman e Ehrlichman, o recrutaram para fazer o trabalho sujo de Watergate, e involuntariamente ele se tonou íntimo do lado interno da Casa Branca”. Dean era funcionário tão pouco graduado e o presidente tão incrivelmente poderoso, um deus para peões como Dean, que a ninguém ocorreu que ele não caísse sozinho para proteger Nixon. Para Halberstam, realmente ele o faria nos bons tempos, mas não se lembraram de duas qualidades importantes nele, um agudo sentido de autosobrevivência, e uma memória exemplar.
O presidente não parecia mais uma figura poderosa. Inversamente, tornava-se progressivamente inábil e errático aos olhos de Dean. Ele estava surpreso por Nixon não ser capaz de notar a ironia no fato das agências menores do governo estarem minando a onipotência do presidente, quando antes Nixon havia se notabilizado pelo “caso Hiss”, provando que um promotor congressista sozinho poderia derrubar dominações, mesmo do presidente da república. E Dean não era um simples peão nas mãos de um ídolo. Ele estava estudando línguas na escola Berlitz, esperando se tornar embaixador de algum pequeno país de fala francesa. É compreensível portanto que se desde Maio de 1973 as evidências de Watergate se mostraram indeslocáveis, ele pensasse ser oportuno cooperar com a promotoria.
Assim, segundo Halberstam, ele e Bob McCandless, seu advogado, este muito versado na natureza do corpo de imprensa de Washington, lição que Dean rapidamente apreendeu, não lidavam do mesmo modo com a imprensa e o tribunal. Eles não confiavam nem em um nem no outro, porém usaram a imprensa para manter o processo aberto e movimentado ainda que não declarando tudo de uma vez para não perder o interesse dos repórteres. A essa altura já havia a gíria sobre a “indústria Dean” de notícias, tão segura a venda dos seus testemunhos havia se tornado.
Ehrlichman cita Halberstam a propósito de John Dean em nota à página 352 do “Witness to power”: “Para um resumo da extraordinária barganha de Dean com a imprensa, ver David Halberstam...”. De fato, “The powers to be” fala em “barganha” à página 965, porém como algo muito mais orquestrado por McCandless, o advogado de John Dean, interceptando decisivamente a história de Time Inc. O pivô da barganha era a imunidade, que McCandless tentara obter com o alto escalão da Time. Porém não sendo possível garanti-la, a obtenção do testemunho pela revista pudera ser negociada à base da promessa de honestidade e cortesia relativamente a Dean.
Ocorrera nesse ínterim uma mudança na política da Time, uma vez que a princípio a revista não pôde alcançar Dean. Em New York não se compreendia bem o motivo de algo tão estranho como a Time não poder noticiar o mais importante testemunho. Ocorrera que a utilização da imprensa por Dean foi primeiro uma relação exitosa com o Washington Post. Dean gelara o New York Times por ter considerado que o jornal adotara uma linha contrária à pessoa dele, e Reston obteve um café da manhã com McCandless para saber como poderia reatar as relações com a indústria Dean, e a resposta foi que o jornal deveria ao menos solicitar imunidade para ele - o que ocorreu, pois Seymour Hersh foi designado para cobri-lo, paralelamente ao Post.
Porém a cobertura de revista semanal não era a mesma coisa, requisitava um certo humanismo na apresentação da reportagem, o que jornais diários não podiam produzir. Mas Newsweek já havia batido radicalmente a Time, na cobertura de John Dean, e um grande problema para esta tornara-se o fato de Newsweek estar de posse de uma grande reportagem sobre Dean, baseado em material enviado por ele, diferente dos que os demais possuíam. Seria a reportagem da acusação feita por Dean ao presidente.
Woodward e Bernstein, como os repórteres mais fortemente ligados a Dean, e realmente McCandless se dirigiu rapidamente ao Post. Bernstein tentou arrumar as coisas tal que a reportagem seria publicada em duas semanas. Mesmo confiantes na verdade dos fatos, eles não viram necessidade de apressar a publicação, assim Bernstein ficou grandemente irritado quando, estando em Omaha numa convenção de jornalistas, pegou uma Newsweek na banca e topou com a reportagem já publicada na revista. Mais alguém estava irritado, Henry Grunwald da Time. Ele não queria ter que citar a Newsweek sobre o assunto. Hays Gorey foi designado para cobrir aquela parte de Watergate para a Time e fazer a conexão com Dean.
Mas sendo McCandless o único veículo para Dean, o advogado, adepto do partido democrata, não tinha particularmente admiração pela Time. Crescera com Tom Dewey sempre na capa dizendo a ele e à nação o que era bom, o que deviam fazer, e acreditava que Time era parte da maquinaria do partido republicano. As chamadas de Gorey ficaram sem resposta. Afinal, o repórter foi até o apartamento de McCandless, esperando que ele tivesse que atender a campainha pensando que fosse o entregador de mercadorias, McCandless viria à porta e Gorey o interceptaria. Eventualmente ele conseguiu marcar um almoço.
Nesse encontro, Gorey perguntou porque McCandless os estava “matando” , e ele replicou que era porque eles eram do partido republicano e assim eles iriam “matar” Dean nas reportagens. Os dois homens fizeram as pazes, e por sorte Newsweek havia cortado uma reportagem sobre Dean naquela semana - o que New York exagerou ante as objeções de Washington. McCandles, pois, resolveu conceder uma chance a Time, baseando-se nas garantias obtidas com Gorey de que McCandless poderia controlar tudo o que fosse escrito - promessa que de fato ele não estava certo de poder cumprir.
Gorey e Dean colaboraram maravilhosamente, com Dean racionando com habilidade a informação para prender o interesse de Gorey, com o material em dois níveis, o publicável e o que só Gorey devia saber. Nesse ponto Halberstam comenta que Dean tentara obter imunidade com Gorey, mas não havia possibilidade disso ser garantido, assim a troca de favores ficou em nível da maior cobertura possível à perspectiva de Dean sobre Watergate. Grunwald, presente no almoço, garantiu a promessa de Gorey.
Hedley Donovan, em New York, estava fascinado, as reportagens seguiram-se sempre mais rapidamente, estava claro aquela altura para ele e Grunwald, que Richard Nixon devia ser afastado. No outono de 1973 o escândalo do vice Spiro Agnew arrebentou, e logo depois Time estava apelando pelo impeachment do presidente. O que muito deveu-se à orientação de Donovan, que se manteve conectado com as informações dos repórteres de Washington. Nessa altura, os dois principais executivos da Time voaram para Washington a fim de jantar com o juiz Sirica.
Gorey observara aos chefes que Sirica parecia um homem desatualizado, um hawk dos velhos tempos, porém ele não o era, e quando as pessoas se demoravam na companhia do juiz por alguns momentos mais, verificavam ser ele um homem sincero e compreensivo.
A princípio, como Gorey previa, os executivos da Time pensaram que Sirica estava há anos luz de distância deles mesmos, pois não era nada gracioso, porém enquanto a noite passava ficavam sempre mais agradavelmente surpresos com o juiz, e cogitaram com ele que poderia receber o prêmio de Homem do Ano. Sirica se tornara a seu ver o símbolo não apenas do funcionamento do sistema judicial, mas do funcionamento da América, e ganhou o coração deles quando indagou se poderia comunicar à esposa que estava sendo cogitado para Homem do Ano. Efetivamente eles o premiaram, e a reportagem de capa de John Sirica vendeu 291.000 cópias nas bancas.
Em fevereiro de 1974 o ritmo do processo tornou-se mais lento. No ano anterior assistira-se a um tão vertiginoso fluxo de informação que a expectativa pela ação imediata tornara-se enorme. Mas agora era o aspecto legal e político do processo o preponderante, na “velha marcha” (“in older rhrytims”) - na expressão de Halberstam - o que tornava a mídia desapontada.
Nesse ponto vemos o quanto algumas das mentalidades ligadas à mídia são perigosas, pois é evidente que decisões graves envolvendo o destino de pessoas não podem ser tomadas sem muita ponderação e exame acurado das provas, o que é contrário ao espírito da mídia sensacionalista, e assim respondo ao artigo de um defensor incondicional que motejara do adjetivo “perigoso” habitualmente relacionado a ela. De modo nenhum se trata de um termo vago e não definido pelo contexto.
Porém o desapontamento na época relacionava-se ao temor de que Nixon pudesse estar por trás dos procedimentos oficiais, o que deixaria grandes profissionais de mídia numa situação deveras difícil. Independente do valor das fontes jornalísticas e do senso de responsabilidade com que os profissionais as houvesse checado, se Nixon permanecesse no cargo eles iriam parecer errados aos olhos do público, enquanto Nixon pareceria inocente.
Nesse momento de incerteza, os principais editores da Time agendaram um jantar com Leon Jaworski. Ao tribunal era interessante o encontro, pois desejava manter a imprensa de New York informada e envolvida, Gorey tendo-o obtido. Esse momento, contudo, estava sendo crucial para o promotor. Ele havia recebido as fitas gravadas, e estava hesitante entre simplesmente indiciar Nixon ou aponta-lo como co-conspirador não indiciável.
Halberstam caracteriza Jaworski como um homem “da segunda geração americana” (p. 967) - talvez seguindo a classificação de Charles Reich (“The greening of América”), pela qual após os rudes puritanos pioneiros que acreditavam estar desbravando e construindo, emergiu a geração dos burocratas que acreditavam integrar um sistema totalizante permeado por eficiência e lisura, Reich defendendo a geração hippie dos sixties como a terceira, ligada ao que seria a “nova consciência”, porém não me parecendo muito convincente. Pois conscientizar-se de questões de real interesse político não deveria ser prerrogativa etária excetuando-se a condição infantil não consciente, e, além disso, a teoria política e filosofia por trás da “nova consciência” havia sido produzida por intelectuais já não jovens, além de que sobrava apenas a ideologia da mercadoria barata - a motocicleta e a música de rádio - além das drogas letais que fizeram daquela geração de tantas vítimas os “inocentes úteis” da propaganda de algum “mundo livre” diretamente oponível ao comunismo soviético. Realizei um exame da sociologia de Ch. Reich em meu “O pós-moderno: poder, linguagem e história” (em edição independente pela Quártica, ver site da editora).
Em todo caso, para Halberstam, Jaworski, típico da mencionada geração, seria ao mesmo tempo um homem vaidoso e hábil, apreciando ligações com pessoas importantes. Phil Geyelin e Meg Greenfield do Post sedimentaram sua boa reputação em Washington, e também Tony Lewis do The New York Times havia se provado útil nesse sentido. Agora Jaworski interessava-se por uma conexão comparável com a Time. Ele precisava da simpatia dos líderes, pois com efeito estava para amarrar uma corda bem apertada.
O jantar correu agradavelmente, Jaworski evidentemente necessitando de aliados e de auxílio, e por isso deliberadamente resolvido a ultrapassar alguns limites. Assim, quando todos pareciam bem relaxados, Jaworski indagou aos editores se na suposição - “apenas hipoteticamente” - de evidências seguras da implicação do Presidente dos Estados Unidos numa impeachiável ação ofensiva, o que eles pensavam que o presidente deveria fazer. Alguém perguntou o que era “uma impeachiável ação ofensiva”, mas Jaworski pôs de lado a questão e simplesmente repetiu a indagação: “o que o presidente deveria fazer?”
Ed Magnuson, escritor chefe da Time, que estava escrevendo as reportagens de capa e estabelecera para elas um novo record na Time - de fato, na quinquagésima primeira reportagem ele ganhou a imagem da capa para o seu escritório, sendo, é claro, sobre Watergate de Richard Nixon: “O impulso para o impeachment” (“The Push to Impeachment) - respondeu ”ele renunciará”. Algumas pessoas começaram a rir.
Jaworski protestou, ”não se deve rir disso, devemos realmente pensar nisso por um momento” (p. 267). Ele prosseguiu. Projetou a situação do presidente tomando conhecimento de que o tribunal já se encontrava na posse das fitas irreversivelmente comprometedoras. Jaworski induzia nitidamente à concepção de que seria elegante para Nixon renunciar, porém pondo-se no lugar dele, como se tratasse de uma decisão do próprio promotor, evitando obviamente nomear o presidente dos Estados Unidos como conspirador.
As pessoas deixaram de rir. Jason McManos, editor da seção Nacional, escreveu um bilhete para Magnuson: “nós o conseguimos”, a propósito de Jaworki (p. 968). Jim Doyle, secretário de imprensa de Jaworski, estava deliciado pela indiscrição do seu próprio cliente. Enquanto ele se maravilhava, ainda que temesse um pouco as consequências, David Beckwith , apoiou: “Este é o melhor jantar que já tivemos!”. Doyle intimamente concordou com ele.
Tudo isso era a estratégia de Jaworski para manter Time informada, tentando fazê-los entender o que ele próprio empreendia e obviamente tentando se tornar capa da Time, o que significava muito para ele. Com efeito, a reportagem de capa com Jaworski, duas semanas após o jantar, vendeu 325.000 cópias nas bancas.
Magnuson escreveu depois uma carta a Jaworski, perguntando por que ele havia sido tão franco. O promotor respondeu que acreditava em ser sincero, e que exceto se soubessem como o processo estava correndo os jornalistas poderiam cometer erros. O efeito entre os Pilotos do Zepellin foi devastador. Eles ficaram mais excitados do que nunca, mais ainda do que os seus próprios repórteres. Como se as incertezas, as tensões que pesavam sobre a redação em New York naquelas semanas desaparecessem.
Eles sabiam que tudo agora era apenas uma questão de tempo.
O discurso de renúncia de Nixon causou desfavorável impressão. Ao ver de Halberstam, provavelmente para os padrões de Nixon foi algo pior do que 1962, quando fizera o discurso de despedida da política. Porém, como Halberstam acentua, de fato Nixon não estava assumindo culpa factual pelos crimes de Watergate, nem - o que era pior - por deixar a nação aterrorizada pelo pesadelo de Watergate quando ele e somente ele sabia ser culpado do abafamento do caso. Ele estava renunciando, ao que parecia, porque havia inexplicavelmente perdido o apoio do Congresso. Se havia alguma culpa para ser atribuída pelo seu abandono do cargo, parecia assim dever ser atribuída ao Congresso.
Não sendo uma performance atrativa, talvez não podendo ser de modo algum dado o horror que representara Watergate, o trabalho de cobertura da CBS aquela noite foi péssimo. O pior de Cronkite, Sevareid e Rather. Até o topo a CBS estava temerosa de que Nixon não se arredaria sem amaldiçoar a imprensa em geral e a CBS em particular. Os principais executivos fizeram passar uma ordem pela qual os correspondentes deviam ser o mais educados, não parecer de modo algum que estavam se vingando.
Mas de fato CBS havia feito parte da história e parte da batalha. Mesmo assim o espírito centrista, o desejo de não parecer radical ou rebelde não pode ser ocultado, pelo contrário, mostrou-se inapelavelmente.
Cronkite classificou o discurso de conciliatório, Sevareid o tratou como o mais magnânimo e efetivo dos discursos nixonianos: “poucas coisas na sua presidência o mostraram tanto quanto sua maneira de deixar a presidência - como Walter disse - ... um toque de classe, um toque de majestade... naquela parte de tantas pessoas que pensam consigo mesmas, reverenciar e respeitar o presidente: A República e o país vem primeiro...” (p. 981) Para Halberstam, “eles estavam fazendo sua parte na política do país, tentando facilitar a transição do poder, tentando limpar seus próprios quadros eleitorais e reduzir o antagonismo contra eles, mais interessados em proteger sua própria base política como um instrumento de massas do que em cumprir suas assinaladas tarefas.”
Halberstam foi bastante cuidadoso, elaborando por cinco anos o seu material que constou de bibliografia recomendada e entrevistas pessoais. Seu livro é um dos mais bem escritos e talentosos dentre os que conheço. Mas inspirado pelo clima de uma época, creio que ele publicou mais uma peça otimista a propósito do destino do veículo de comunicação em massas do que propriamente uma lição sobre como seria impossível que ele se tornasse politicamente não comprometido.
Dialeticamente, a culminância do processo de sedimentação da estrutura governo-mídia num fracasso tão grande quanto foram Vietnã e Watergate pode ter sido naquele momento, em que a verdade se evidenciava de modo insofismável e a honestidade triunfava, interpretado como uma necessária tomada de consciência.
Especialmente o Vietnã havia forçado a mudança na posição de homens como Donovan, que então tiveram que impulsionar os companheiros à mesma mudança. Não só tiveram que alterar o teor do que haviam asseverado - não, o Vietnã não estava para ser derrotado nem a causa era justa, ao contrário do que eles mesmos haviam alardeado por tanto tempo. Donovan e a imprensa devia ainda sentir que havia contribuído decisivamente para o curso do desastre nacional, que como se podia dizer relativamente a Lyndon Johnson, eles haviam se deixado apaixonar por aquilo que nada mais era que um “tar baby”, um presente envenenado (p. 671).
Porém na atualidade, avaliando o curso das três décadas recentes, sabemos que a profecia não se cumpriu. A mídia se tornou o veículo de um novo despotismo, e em termos de Brasil, de um neofascismo generalizado.
O acoplamento da microinformática radicalizou as possibilidades de lavagem cerebral e dominação da liberdade de consciência - os protestos que estão anexados aqui e em vários dos meus escritos publicados o registram. Podemos imaginar o que aconteceria se os editores de mídia tendenciosos que estudamos pudessem interferir com o que as pessoas escrevem assim como o faziam com seus repórteres, mas é isso que o “personal computer” pré-configurado de mercado permite, por ser obviamente intrusável ainda que isso não esteja no contrato de compra pelos usuários. Com efeito, a mídia-informática da atualidade está permeada pelos fatores criticados por Halberstam a propósito daquilo que deveria então ter sido considerado uma mentalidade ultrapassada - uma bonita teoria assassinada pela evidência feia, a teoria da supremacia ideológica da classe dominante, a evidência do imperialismo e da corrupção correlata como em Watergate.
Não foi ultrapassada tal mentalidade no business midiático, pelo contrário. Muito menos se pode dizer que foi na mentalidade da política norte-americana. A pecha do “império” tem sido recentemente circulada - ainda que a meu ver de modo algo presunçoso, traindo uma tendência sensacionalista que deveria ao contrário estar sendo repudiada. Os autores, Hardt-Negri, acreditam estar acontecendo algo totalmente novo, mas os prosélitos não noticiam que “o império americano” de Julien precede de cinco décadas o seu título homônimo, revelando as bases factuais da dominação atual.
Sabemos que a globalização corresponde a uma estratégia de “industrialização complementar” do terceiro mundo, viabilizada pela tecnologia mais recente, e que estamos num quadro pós-soviético. Porém a estratégia serve ao mesmo objetivo imperialista renovado em seus métodos pela hegemonia da clique do capitalismo que dominou fraudulentamente a sociedade norte-americana, sem confundir-se de todo com ela, sendo porém o que vem se verificando constante após 1945 – como iremos estudar à frente, portanto não resumindo-se a ação da clique capitalística aos Estados Unidos.
Como seria esperável, essa renovação dos instrumento do antigo colonialismo-imperialismo, que é apenas a mentalidade despótica agindo na atualidade, implica mudanças necessárias nas concepções daqueles que se organizam para opor-se ao neoescravismo, e defender a ecologia – que ela sim é um elemento novo e indispensável a equacionar politicamente. O conhecimento detalhado das operações, mentalidade, e meios de influência da domimação atual é o que mais precisamos, pois como vimos, se ao capital de mídia é o eixo da instrumentação, a crítica da ideologia como hegemonia ou consentimento não basta, a violência é – digamos – neural, atua na base da informação circulante, etc. O que torna axial a “história efetiva” - a que se faz pelos fatos documentáveis de um processo conceituado – como o meio da resistência e mudança social com vistas a garantir os direitos humanos.
Meu interesse neste estudo relaciona-se contudo à minha convicção sobre a importância dos Estados Unidos e da história efetiva na mudança da compreensão histórica. Uma vez que a mola é o imperialismo, e que quanto a este não é secretado pelo Estado assim como a bílis pelo fígado, mas sim é a dominação do capital sobre as instituições conquistadas pela sociedade civil representada pelo seu Estado constitucional, autonomia da nação e garantia dos direitos dos cidadãos, a história da emancipação das nações europeias não fornece a inteligibilidade necessária. E sim a história que abarca a Secessão e a articulação mídia/Executivo, cujo modo de operação internacional estudaremos a seguir (Livro 2). Assim também a Revolução Soviética não tem potencial de modelo. É a inteligência dos processos efetivos o que necessitamos tanto na conservação da nossa consciência e humanidade contra o avassalamento escravista das máquinas, como naquilo que essa conservação faculta, a reelaboração de políticas saudáveis e legalidade do Estado constitucional, que não tem antagonismo algum com a erradicação do crime e segurança pública mas nestes se baseia. O que precisamos num quadro caótico como tem se apresentado o nosso, devido a imposição de tantas mudanças profundas e não refletidas, num tão pequeno intervalo de tempo, desde os anos noventa. Além disso, um motivo que me impulsionou a este estudo primeiro publicado em Blog na Internet – e cuja elaboração ali foi traumática devido a sérias sabotagens que o documento sofreu – eu li Halberstam há alguns anos, e sendo livro de mais de mil páginas, em inglês (não conheço tradução local), fiquei com várias pontas soltas, as quais eu quis ligar num todo coerente a propósito de um assunto que me parece dos mais importantes na reelaboração histórica que preconizo.
Livro 2 = escrito em 2017
A CIA, o Nazismo, a Esquerda e o Terceiro Mundo (estudo do caso brasileiro)
1 = A penetração política do capital multinacional após 1945 e a ação da CIA
1 O estudo de René Dreifuss que ora examinamos, cobre a responsabilidade da CIA (Agência Central de Inteligência), o mais famoso ramo do serviço secreto norte-americano, pela ação golpista que instaurou a ditadura militar brasileira, em 1964. O estudo de Dreifuss, intitulado “1964: a conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe”. (Petrópolis/RJ, Vozes editora, 1981), resta por assimilar na historiografia local, corrente nas escolas.
2 A historiografia curricular costuma tratar o golpe ditatorial recente como apenas o corolário da reação das classes conservadoras brasileiras às reformas sociais que o governo Goulart estava promovendo. Conforme Dreifuss, isso é apenas parcialmente verdadeiro. O IPES/IBAD foram organizados por contingentes ligados à classe conservadora, porém atuando não de modo representativo, e sim dirigista, relativamente a ela. E o seu interesse estava definido internacionalmente, na ligação dos seus elementos principais com a CIA.
3 Dreifuss utiliza documentação comprobatória de que a ação golpista foi coordenada localmente por dois institutos que tiveram base ampla de ligações políticas e influência social. O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), e o IBAD (Instituto Brasileiro da Ação Democrática). Estas duas instituições não são conhecidas na historiografia das escolas. Conforme Dreifuss, elas tiveram participação de um vasto contingente de intelectuais célebres, artistas, políticos, clero, notáveis da alta sociedade, pessoas historicamente promenientes, e, naturalmente, altas patentes das forças armadas, integrantes da ESG (Escola Superior de Guerra). Tiveram o IPES/IBAD, também, colaboração de inúmeras empresas nacionais e multinacionais. E na cúpula de ambos os institutos, constavam os elementos de ligação com a CIA.
4 A propósito da ligação do IPES/IBAD, os institutos que coordenaram a ação golpista brasileira em 1964, com a CIA, registra Dreifuss a resposta de Niles Bond, ex-encarregado de negócios americanos, ao ser indagado se a CIA financiara o IBAD : “não sabia quem mais o estaria financiando”. (op. cit. p. 330). Já o embaixador Lincoln Gordon havia expresso não ser possível negar “a existência 'de um ou dois dólares americanos' em 1964”, na ação que desencadeou o golpe. Parece fato indiscutível hoje, quanto à revolta dos marinheiros liderada pelo cabo Anselmo, que estava este apoiado pela CIA, o objetivo sendo justificar a reação golpista (p. 159).
5 Com efeito, a propaganda do golpe contra Goulart se aproveitara da margem de insatisfação existente para radicalizar as opiniões contra as reformas governamentais que visavam sanear os problemas seculares da desigualdade. Quanto à faixa reunindo a classe média urbana de profissionais liberais - o que parece ser aquilo que Dreifuss qualifica “burguesia profissional” - os quadros médio e superior das Forças Armadas e a tecnocracia empresarial, o descontentamento era movido não só pelo decréscimo da renda e insegurança do status. Mas, especialmente nas Forças Armadas, o status parecia ameaçado justamente pelo crescente movimento reformista de massas e a incipiente agitação nos escalões menores de suas respectivas hierarquias.
6 Assim também a ação golpista obteve uma unificação de classe em torno do objetivo de derrubar a FMP, “frente de mobilização popular” que o governo Goulart fomentava. Com o objetivo de aprofundar as reformas de base, foi composta por todos os segmentos organizados da sociedade então muito atuantes, como UNE (união nacional dos estudantes), CGT (comando geral dos trabalhadores), PUA (pacto de união e ação sindical), Ligas Camponeas e sindicatos rurais. Essas organizações estavam factualmente ligadas a aguerridas lideranças de esquerda. A derrubada da FMP tornou-se a palavra de ordem das “forças dominantes”. (p. 139)
7 A organização do IBAD está ligada nominalmente à CIA, pela interveniência do seu coordenador geral, Ivan Haslocher. O anticomunismo foi a propaganda exploradora das oposições possíveis ao surto de esquerdas organizadas, fossem as opções reacionárias algo justificadas, por parte de setores não comprometidos com ideais de radicalização revolucionária mas não necessariamente contrários ao reformismo proposto por Goulart; ou por parte de setores conservadores contrários positivamente a reformas visando melhorar o nível de vida da população e acabar com privilégios intoleráveis, por mais necessárias que as reformas se mostrassem àquela altura, devido ao incremento populacional e da consciência social.
8 A prática de formação de “aneis burocrático empresariais” por parte de elites coordenadas aos interesses de empresas multinacionais, precede o complexo IPES/IBAD. Já na época de Juscelino Kubitchek, o JK, tendo se constituído a CONSULTEC (Sociedade civil de planejamento e consultas técnicas Ltda.). O bloco de elite, atuante na entidade, mediava pedidos de empréstimos ao BNDE (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico) por multinacionais, decretos e regulamentos importantes à obtenção de acordos comerciais, tendo por exemplo sido a executora do projeto apresentado ao congresso em 1962, pelo primeiro ministro Tancredo Neves, assim como do plano governamental do petróleo. (p. 86)
9 A Consultec caracterizava-se por intervenção direta de empresas multinacionais, especialmente a Hanna Mining, mas também Bunge e Born, Light e Brazilian Traction. Goulart se incompatibilizou frontalmente com a Hanna Mining Co., pretendendo o governo controlar seus poderes corporativos. (p. 92)
10 O IPES e o IBAD foram criados no final do governo JK. O IPES seria um centro estratégico, e de operações que ampliariam os objetivos da Consultec. O IBAD devia agir como unidade tática do IPES (p. 162 e seguintes).
11 Ao ver de Dreifuss, nisso algo em desacordo com demais fontes historiadoras que consideram JK um governo exclusivamente elitista, o surgimento do complexo IPES/IBAD traduziu um descontentamento do capitalismo multinacional com o aspecto popular do governo Juscelino. Na verdade os motivos exatos do golpe são algo ambiguamente desenvolvido ao longo do texto dreifussiano.
12 Ainda que exista considerável margem de controvérsia a propósito da indústria local antes do golpe, em termos de poder ou não ser caracterizada propriamente nacional, como examinaremos oportunamente, em todo caso JK não é usualmente assimilado à opção econômica nacionalista, devido ao seu modelo de colaboração econômica internacional. Dreifuss constata, inversamente, que Juscelino não estava totalmente identificado com as exigências imperialistas. Estudaremos na parte correspondente à história do capitalismo, a intercessão histórica do imperialismo com a indústria local de modo a esclarecer mais essa questão.
13 Dreifuss informa a situação econômica local em princípios dos sixties, desde o final do governo JK. Era, segundo suas fontes, predominantemente nacional numa proporção generalizada de 65, 1%, para 34, 9% de multinacionais, em amostra de 276 grupos bilionários dos quais porém 55 grupos eram “multibilionários” por terem capital maior que 4 bilhões de cruzeiros. Na proporção generalizada, 55, 2% das empresas multinacionjais eram de grupos não-americanos. E, “de um total de 144 grupos 'nacionais', somente 78 não tinham ligações bem definidas com interesses multinacionais”, configurando a maioria formas de capital misto. Ainda assim, na perspectiva conjuntural de Dreifuss, “apesar da superioridade numérica dos grupos nacionais na faixa dos grupos bilionários, eles se ressentiam de uma menor capacidade de concorrência, com sua atividade limitada por desvantagens tecnológicas, tendo de operar dentro de um mercado oligopolista controlado por companhias multinacionais”. ( p. 50)
14 A maioria das multinacionais atuando localmente, europeias, japonesas ou americanas, era líder de mercado em seu setor, e, além disso, a minoridade da participação americana é apenas aparente: “o capital transnacional americano era proeminente dentro dos grupos multinacionais bilionários”, representando o setor que mais cresceu, concentrado em produtos químicos, transportes e maquinário. (p. 50, 67). Anderson Clayton, Firestone, Goodyear, Union Carbide, General Motors, General Electric, Eastman Kodak, citadas entre as mais famosas e atuais entre um número substancial de empresas. A cobertura das citadas é bastante extensa.
15 Há atenção para o impressionante incremento da concentração fundiária desde 1950, como o número de grandes propriedades em dez anos reduzindo-se de 2,3 para 0, 98 %. Conforme Dreifuss, “o comércio agrícola estava ligado a uma grande parte da estrutura bancária”, e a maioria absoluta “dos grupos nacionais eram controlados por grupos familiares”, com excessão de apenas três. (ps. 58 a 61) Entre estes vale citar a Matarazzo, cujo percurso vem de época anterior, a do capitalismo imigrante de princípios de século coberta pelo estudo de Warren Dean que oportunamente examinaremos. A empresa de propriedade da família é um modo de organização empresarial alternativo à integração em holdings transnacionais, diferindo desta, conforme Dreifuss. Porém, se este reporta a crítica ipes-ibadiana ao patrimônio familiar, como constatamos na parte consagrada ao business de mídia norte-americano, inversamente, que a empresa familiar era também o dominante na formação desse capital.
16 Dreifuss menciona ainda a atuação, desde 1962, da ADELA, organização supranacional originada como think tank liderado por Rockefeller e o complexo Agnelli (Fiat) com vistas ao controle sobre o capital internacional. Atuava como grupo de pressão sobre o governo local, sendo integrada pela contribuição de fundos de inúmeras multinacionais americanas, europeias e japonesas, listadas por Dreifuss cobrindo nada menos que duas páginas (p. 497 a 500). Com representação aqui ao longo da ditadura, atuou junto à IFC ( International Finance Corporation), instituição semelhante, com investimento registrado em algumas dezenas de empresas funcionando localmente. A composição do capital é porém complexa, como demonstra as listas de Dreifuss sobre a operação no Brasil dos grupos Mellon, Rockefeller e Morgan através de companhias. Vemos a Coca-Cola controlada por Rockefeller, aparecendo também na lista de participações de Morgan.
17 Dreifuss atribui, pois, desde o pós-guerras, um capital transnacional atuante como adaptação do que havia sido um capital nacional restrito à era Vargas. “O capital nacional, que fora predominante no governo de Getulio Vargas, conseguiria coexistir de modo significativo somente em sua forma associada ou em empresas pertencentes ao Estado. Mesmo nesse útimo caso, o capital transnacional teria ainda um papel central através de joint ventures (empreendimentos conjuntos) entre o Estado e corporações multinacionais, além de exercer controle multinacional parcial das ações de empresas estatais brasileiras”. (p. 49) O que após a ditadura se converteu em controle majoritário, configurando ordinariamente venda das estatais na Globalização, liquidando-as assim para efeitos de propriedade nacional.
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2 = A formação do IPES-IBAD : da CIA ao militarismo e o Nazismo
1 O centro em organização e propagação do golpe de 1964, os dois institutos designados IPES/IBAD, foram como constatamos, precedidos por outras formas de intervenção das multinacionais na economia e governo local. O estudo de Warren Dean intitulado “A industrialização de São Paulo” é importante referenciar como uma visão acurada do processo formativo da economia local, que desfaz alguns pressupostos precipitados, há muito sedimentados. Quanto à Vargas, Dean reporta que já havia orientação institucional estadunidense. As missões Niemeyer e Cook representaram importante aspecto da evolução capitalista local nessa época, não obstante o sempre atribuído compromisso nacionalista de Vargas. Dean sublinha que na verdade, o Vargas ditatorial dos anos trinta nunca agiu contrariamente à orientação do governo estadunidense. E décadas depois, as ações ipes-ibadianas relatadas por R. Dreifuss caracterizam-se por uma amplitude propriamente política de atuação golpista, mas agora visando ocupar cargos do Estado nacional diretamente pelo empresariado multinacional ou seus representantes juramentados.
2 A estrutura do comando inicial do IPES foi iniciativa do norte-americano Gilbert Hubert Jr., então operativo empresário do Rio de Janeiro, que cooptou o anticomunista Paulo Ayres Filho, de quem surgiu o convite à integração de Leopoldo Figueiredo., este último tornou-se o líder do IPES em São Paulo durante a ascenção presidencial de J. Quadros, subsequentemente tendo-se gerado escritórios ipesianos em todo o país. Entre os nomes mais importantes da agremiação do Rio, o líder parece ser Glycon Paiva, sendo porém importante citar A. T. Azevedo Antunes, Antonio Galloti e José Garrido Torres.
3 O objetivo dos empresários era impedir a penetração da esquerda, mas de fato inovações do capitalismo multinacional estavam por trás da organização, como se pode comprovar pelo teor do estudo de Dreifuss. A ligação desses inícios com oficiais de reserva, e, depois, com a ESG (Escola Superior de Guerra, fundada em 1948), apenas explorou uma ideologia já presente localmente, das Forças Armadas como “poder moderador” - expressão que entre nós significa o poder que era atribuído ao imperador, antes da República, de modo que a ele cabia um papel de resolução autoritária acima das decisões partidárias do legislativo. Essa ideologia não seria de fato típica dos objetivos do capitalismo multinacional, que almejava ele mesma concentrar o poder absoluto.
4 O que se pode deduzir do estudo de Dreifuss é que o capitalismo multinacional usou as Forças Armadas nacionais, mas não tendo nelas qualquer objetivo intrínseco além de mantê-las sob sua égide.
5 Não obstante, a associação ideológica da ESG com o capitalismo internacional, o alinhamento estadunidense de sua formação e a exigência de alguns dos seus cursos presenciais nos USA, é opção característica sua desde a fundação. Em geral, a supervisão norte-ameriana da Polícia brasileira na forma de apoio em vários níveis, mas especialmente em treinamento tático contra-insurrecional, crescendo na antecedência do golpe, está documentada (p. 115 e seguintes).
6 A criação do complexo IPES/IBAD foi alardeada pelo líder conservador Raul Pilla, como um acontecimento auspicioso para as classes superiores. Ivan Hasslocher, o coordenador geral do IBAD é então referenciado por Dreifuss: “integralista... e que foi nomeado agente de ligação da CIA (Agência Central de Informações) dos Estados Unidos para o Brasil, Bolívia e Equador”. (p. 102) O grupo pioneiro foi constituído na década de cinquenta, conforme Dreifuss, ainda, “pelo ex-integralista Marechal Inácio de Freitas Bolim, instrutor da ESG”, e empresários como G. Borghoff, Behring de Mattos e Alberto Byngton Jr. Alguns outros atuantes do complexo IPES/IBAD são citados em conexão ao integralismo.
7 Ora, não obstante não haver referência dreifussiana da ideologia nazista na ação ipes-ibadiana, pelo contrário, sendo esta assimilada aos rumos novos da burocracia tecnocrática do empresariado estadunidense e multinacional, o termo “integralista” significa, na história local, ter sido adepto da versão nacional do nazi-fascismo na segunda guerra. Dreifuss se limita a utilizar o termo, sem comentar ou agregar nada a propósito. Porém o “integralismo” dos “camisas verdes” sendo a versão local do nazismo, liderada por Plinio Salgado - o gesto do partido aqui era o braço erguido e a exclamação “anauê” - seria importante que ele houvesse desenvolvido mais essa questão. (Nota 1)
8 Ao ver de Warren Dean, o varguismo foi a opção local contra o integralismo, por outro lado o partido fascista integrado ao italiano tendo relação com o capital industrial privado de imigrantes como expressão de sua verdadeira ideologia. É geralmente afirmado que na época da segunda guerra, Getúlio Vargas, então presidente que visava a ditadura pessoal do seu “Estado Novo”, não subscreveu o “integralismo”. Não obstante a ditadura varguista do Estado novo ter manifesta tendência fascista, utilizando como modelo do seu “trabalhismo” a “carta del lavoro”de Mussolini, porém com uma característica corporativista local contrastante com a ênfase passional do líder carismático nacionalista totalitário, típico do fascismo italiano. A propósito, o estudo de Oliveira, Velloso e Gomes (“Estado Novo, ideologia e poder, Zahar Editores, coleção Política e sociedade, s.d.). Warren Dean não considera porém que Mussolini fosse menos corporativista, esta a ideologia do industrial local.
9 Vargas foi homenageado por Plinio Salgado, que lhe devotava simpatia, tendo por certo imaginado que seria chamado ao governo por Getulio. Porém, assim que Vargas colocou todos os partidos políticos na ilegalidade, o partido integralista revoltou-se, obtendo adesão de grande número de descontentes, mas ostensivamente a rebelião sendo constituída pelos milhares de integralistas insubordinados devido ao fechamento da sede do partido, na rua Sachet paulista. O chefe militar da revolta foi o General João Candido Pereira de Castro Junior, que não era integralista.
10 A biografia de Getulio, da coleção”Biblioteca da História” (São Paulo, Editora Três, 1974) registra o “putsch integralista” (capítulo XV). O plano constava de uma série de sequestros e atentados a chefes civis e militares, assim como na tomada do Palácio e assassinato de Getulio. O tenente Fournier, integralista, que estaria de serviço no Palácio Guanabara, na época residência do presidente, na madrugada de dez a onze de maio de 1938, facilitaria a invasão, vinda de um casarão da Avenida Niemeyer. Porém, ao que parece por inexperiência, os revoltosos não chegaram a entrar, sitiando-o pelos pátios e arredores, iniciando o tiroteio.
11 A invasão por Plinio Salgado fez de refém Getúlio e a família no interior do Palácio Guanabara, detendo estes apenas revólveres para defesa, junto a uns poucos servidores internos. Getulio comandou pessoalmente a resistência. Alzira Vargas, sua filha, tentava obter socorro pelo telefone, por meio da linha com o palácio do Catete, mas vários canais estavam interceptadas, e, com quem obtinha comunicação pelo operador do Palácio do Catete, sede do governo, descobria estar na mesma situação sitiada. Como o próprio General Goes Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, em seu apartamento. Ou não ter meios de intervir, como o ministro da justiça, Francisco Campos. Mas o telefonema ao chefe de Polícia obteve êxito, prometendo ele que enviaria tropas. Com efeito a intervenção policial obteve a rendição de Salgado. As investigações posteriores verificaram a participação de diversos políticos na insurreição do nazi-fascismo “integralista” contra Vargas. Parte da direita se juntava assim aos presos esquerdistas, estes que Vargas perseguia implacavelmente, às vésperas da instauração ditatorial do seu regime.
12 O ensino de História trata de hábito o integralismo como capítulo totalmente ultrapassado após 1945. Dreifuss nada esclarece a propósito da ligação de Hasslocher com Plínio Salgado ou com o partido integralista. Mas documenta, como vimos, a relação do “integralista” Hasslocher com a CIA na ocasião de sua liderança do IBAD. Como podemos aquilatar, Dreifuss segue nisso o senso comum da neutralização ideológica do nazi-fascismo desde o pós-guerras, não havendo concatenação desse dado com o restante da sua exposição. Inversamente, Cl. Julien, que estudamos inicialmente, expõe com minúcia a ligação com o nazismo, do homem utilizado pela Cia na derrubada do governo representativo do Irã, nos anos cinquenta, e mesmo na presente exposição vamos encontrar testemunhos nesse sentido a propósito de outros regimes militares instalados do mesmo modo na América Latina, assim como colaboração de nazistas contra os movimentos de libertação nacional africanos.
13 Já na parte que cobre a história do capitalismo, iremos comprovar com Mirow a composição de carteis dos tempos do nazismo na configuração pós-guerra das empresas multinacionais.
14 Sem qualquer referência a essa questão, na perspectiva de Dreifuss a atuação do IBAD evolui coerente à projeção política do Conselho Superior das Classes Produtoras, o CONCLAP do Rio de Janeiro, que tinha membros integrantes do IBAD, assim como tinha também o American Chambers of Commerce.
15 O IBAD organizou dois canais de sua atuação. A ADEP (ação democrática popular), patrocinada pela estação da CIA no Rio de Janeiro, com vistas a coordenar a ação de entidades e de pessoas ideologicamente compatíveis, para ação política, e influenciar o processo eleitoral. O seu colegiado nacional se compôs, com Hasslocher, do mineiro Leopoldino, então ex-auxiliar do gabinete de Janio Quadros, o general Barbato, Vicente Barreto e Raimundo Padilha, do partido UDN. O líder nacional da ADEP era o presidente da ADP (Ação democrática parlamentar), João Mendes.
16 Dreifuss não comenta a importância de sua própria revelação sobre uma relação direta da CIA com o partido UDN. Mas a importância dessa revelação é evidente na história local. A composição do golpe militar ditatorial seguiu, pois, uma orientação anterior, cujo tipo ideal foi Lacerda e cujo alcance se pode aquilatar pelo fato de ter sido responsável pelo suicídio de Vargas. Na composição local, trata-se de um anti-nacionalismo radical como ideologia da classe média urbana importadora do capital-imperialismo, que teve expressão a partir da consolidação da indústria nacional com envergadura de base. A UDN mergulhara no ostracismo político à época de Juscelino, que representou porém apenas a ilusão de uma composição do capital nacional e estrangeiro. Porém uma vez convergindo com a ação da CIA, a UDN mostrou-se útil ao objetivo deletério do imperialismo, traidor da composição que já proporcionara dominância à orientação imperialista. A qual porém não bastava ao objetivo de total domínio sobre países a serem progressivamente miserabilizados, submetidos a governos nazistas.
17 Como segundo canal de atuação do IBAD, criou-se a Incrementadora de Vendas Promotion S. A, tendo Ivan Hasslocher por diretor-proprietário, e seu irmão Claudio Hasslocher como gerente em São Paulo. A Promotion funcionou como o canal publicitário do IBAD, e de patrocínio de suas atividades encobertas.
18 ADEP, IBAD e Promotion compartilhavam os escritórios bem equipados e funcionários administrativos, assim, por exemplo, Francisco Lampreia, administrador da Promotion, era acessor do presidente da ADP, João Mendes. Os escritórios em nível nacional eram geralmente dirigidos por oficiais reformados do Exército, a maioria coronéis e generais, cuja ação era coberta no Congresso pela ADP. A representação do IBAD na igreja foi feita pela ligação com o Centro Dom Vital, cujo líder extremista de direita era Gustavo Corção, e a organização tecno-clerical Opus Dei, que agia coordenada à ADP e ao IDN (instituto democrático brasileiro) presidido por Gladstone Chaves de Mello, deputado do PDS (Partido Democrata Cristão). É evidente que a designação de democrata atrelada a essas entidades não é congruente com o que habitualmente se designa democracia, o liberalismo político.
19 Além disso, Dreifuss registra o próprio IBAD como uma das principais operações políticas da CIA no Rio, sendo “basicamente uma organização de ação anticomunista”. Instituições anticomunistas associadas ao IBAD foram OPAC (organização paranaense anticomunista), a CLMD (cruzada libertadora militar democrática) e o MAC (movimento anticomunista). A ADP (ação democrática parlamentar) serviu de ligação ibadiana no Congresso. Dreifuss registra extensa lista de ativistas do núcleo IBAD/ ADEP/ Promotion, que seria excessivo registrar aqui. Mas conservando-se pertinente observar a participação do Padre Leopoldo Brentano, um dos organizadores dos Círculos Operários e das Marchas religiosas em 1964, as gigantescas passeatas contra o comunismo, que antecederam e favoreceram o golpe. E de Eudes de Souza Leão, por ser ligado ao mesmo tempo à multinacional Sambra, à Adesg e à Esg.
20 Dreifuss exibe detalhado estudo sobre a ação do complexo IPES/IBAD no meio estudantil e cultural, entre as classes médias e apoio feminino, nos sindicatos e movimentos camponesses, entre as classes trabalhadoras industriais, nos partidos políticos e Congresso. Configurando ação obviamente populista, não é contudo assim conscientizada por Dreifuss, que inversamente a caracteriza como ação orgânica de classe ou de elite, contra o “populismo” ambiguamente relacionado à mobilização social reformista visando melhorar o nível de vida da população.
21 Nessa multifacetada ambientação de suas coordenadas, o êxito do IPES/IBAD foi relativo a tendências ideológicas já existentes, ou obtendo penetração junto a oportunistas de modo a obter controle sobre sindicatos nas regiões do país. Não obteve relevo entre os estudantes e uniões trabalhistas já orientados por opções antagônicas, assim como entre grupos empresariais nacionalistas que eram igualmente antagonizados pelo capital multinacional. Entre estes cabe ressaltar Antonio Ermirio de Morais, cujo filho ironicamente colaborou com os ipesianos, tendo cargo no Instituto.
22 A ação ipes-ibadiana cobria tanto a movimentação social no campo como na cidade. Os objetivos de contenção dos movimentos camponeses como ULTAB (União dos lavradores e trabalhadores agrícolas do Brasil) e MASTER (Movimentos dos agricultores sem terra), organizados subsequentemente às pioneiras Ligas camponesas da década de cinquenta, e que mostravam assim o desenvolvimento da organização dos trabalhadores agrícolas nesse ínterim, foram complexos. Era de fato crucial, porém, uma vez que o movimento dos trabalhadores do campo não descendia de organizações sindicalistas dos dois governos Getulio Vargas, o ditatorial e o eleitoral. As Ligas Camponesas foram organizado pelos comunistas de partido, mas, em seguida, um outro tipo de Liga se estabeleceu, com muito êxito, em torno de Francisco Julião, em Pernambuco, considerado por Dreifuss o estado chave do Nordeste.
23 O IPES/IBAD tencionava obter o controle dos rumos da reforma agrária, substituir a propaganda comunista pela sua, nos termos de “reformas cristãs e democráticas do estatuto da terra”, porém as classes conservadoras rurais não aceitariam qualquer alteração do seu regime de propriedade latifundiária. O IPES/IBAD manteve o apoio aos conservadores, mas utilizou-se de grupos católicos e instituições de assistência social para atuar encoberto por eles. Por outro lado, a contenção dos camponeses por meios violentos foi deixada a outras organizações e à ação dos proprietários de terras.
24 Atuou como canal Ipes-ibadiano na região Nordeste, o SORPE (serviço de orientação rural de Pernambuco), reunião de aproximadamente vinte e seis padres da zona rural promovida por dom Eugenio Sales, e bispos de Pernambuco. O SORPE era apoiado pela CLUSA, a liga cooperativa dos Estados Unidos financiada parcialmente por instituições receptoras de fundos da CIA.
25 A penetração ipes-ibadiana mais explícita contudo, não deixava de ocorrer, como o Padre Melo que aceitava abertamente financiamento e assistência do IBAD, atuando contra políticos importantes da esquerda local. O objetivo de contenção das lutas camponesas especialmente pernambucana era premente à elite orgânica. Como Dreifuss observa, “Obviamente, a visão de uma massa de quarenta milhões de camponeses mobilizados, libertando-se do jugo rural e tomando de assalto as cidades, representava uma perspectiva atemorizante para os proprietários de terra e a burguesia também”. (p. 300).
26 As relações trabalhistas no campo eram tão ruins até aí, que atestavam usos feudais, como o “cambão”, algo semelhante à talha medieval, como obrigação do camponês trabalhar por alguns meses apenas em benefício do patrão, nesse caso por um salário inferior ao que recebia regularmente. Em Pernanbuco, segundo Dreifuss, a pobreza era de fato escandalosa.
27 Na cidade e no campo, a ação ipes-ibadiana também cobriu grupos identitários específicos, a exemplo do apoio feminino. Dreifuss registra entre outros exemplo, a criação da CAMDE (Campanha da mulher pela democracia), pouco antes das eleições de 1962. Foi ideia do vigário franciscano carioca de Ipanema, Leovigildo Balestieri, Glycon Paiva e Golbery do Couto e Silva. A CAMDE era liderada por Amélia Molina Bastos, irmã do General Antonio de Mendonça Molina. Como instituição feminina, a CAMDE realizou inúmeros programas promocionais anticomunistas desde 1962 até o golpe. Tornando-se muito proeminente, com especial destaque para seu papel de agitação política, atuando harmonicamente com elites políticas e militares, assim como com a Globo, especialmente o jornal e a rádio. (p. 296)
28 Cerca de quinhentas corporações multinacionais e associadas, entre Rio e São Paulo, responderam ao esforço do IPES/IBAD, tornando-se cooptadas ao papel de contribuintes de meios do desenvolvimento da ação do IPES.
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3 = A abrangência do golpismo
3 . I) Brasil e América Latina:
1 Dreifuss não deixa de informar sobre a coordenação da ação ipes-ibadiana local, com o processo geral americano latino. O desenvolvimento de organizações que congregavam novos setores profissionais e empresariais nas respectivas sociedades americano-latinas, similares à ação ipes-ibadiana em patrocínio, objetivos e psicologia dos recrutados, mostra-se coordenado estreitamente a esta.
2 Sendo instituições congêneres, nem sempre ostentando os mesmos métodos operativos, ainda assim todas “cooperavam em esforços conjuntos e tinham, em certos casos, concomitância de membros individuais e corporativos”(p. 170) Havia também ligação do IPES/IBAD com instituições ideológicas similares na Europa, Japão e Estados Unidos.
3 A lista de Dreifuss cobre mais de uma página de siglas historicamente importantes ligadas ideológica e operacionalmente ao IPES/IBAD em vários países, assim aqui registro apenas, entre as citadas, as latino americanas que são relacionadas à Cia ou nominalmente ao complexo ipes-ibadiano, e algumas internacionalmente preponderantes.
4 Ligadas à Cia estão citadas a CEAS (Centro de estudios y acción social), controlada pela estação da Cia em Bogotá. A CERES (Centro de estudios y reformas económico sociales), controlada pela agência da Cia em Quito, Equador. Vale citar, também brasileiras, a SEI (sociedade de estudos interamericanos) e a Fundação Aliança para o Progresso. A CEMLA (Centro de Estudios Monetarios Latinoamericanos) e o Instituto de Investigaciones Sociales Y Economicas, eram associados ao complexo IPES/IBAD por meio de Dênio Nogueira, que tinha assim atuação contomitante nessas agremiações.
5 Entre as que extrapolam o cenário latino americano, em particular a LAIC (Latin American Information Commitee), e o CED (Commitee for Economic Development), imprimiram “coordenação internacional e apoio logístico ao IPES e organizações congêneres”. O escritório latino-americano de Nelson Rockefeller fundou o The United States Interamerican Council, e especialmente Rockefeller atuou como fator de instigação das atividades dessas instituições, assim como promotor de sua causa entre as grandes companhias norte-americanas, a fim de que se convertessem em patrocinadoras da sua campanha eleitoral local em 1962.
3. II) O IPES/IBAD e o golpe no Chile
1 Ainda conforme a conjuntura americano latina, conforme Dreifuss, “os líderes do IPES finalmente exportavam para países vizinhos a perícia adquirida na campanha para depor João Goulart, envolvendo-se em operações internacionais de desestabilização de seus regimes”. Sem dúvida, segundo ele, “os líderes do IPES também atuaram na preparação da campanha que depôs o presidente Juan Torres, da Bolívia, em 1971”. (p. 424) A estrutura da ação ipesiana segundo consta, atuou como o modelo para a derrubada de Allende do Chile, em 1970. Sem dúvida “membros do IPES trabalharam de perto com associações empresariais e profissionais chilenas”, e o MAC, grupo paramililtar anticomunista, forneceu armas e dinheiro a grupos semelhantes no Chile”, juntamente com GAP, uma linha ativa do IPES, sendo elemento de ligação entre Brasil e Chile. Na interpretação de Dreifuss, o Brasil foi o centro de propagação do golpismo na América Latina.
2 Que as técnicas organizacionais do 1964 brasileiro foram utilizadas no Chile para derrubar o governo, é registrado até mesmo em revistas de circulação conhecida como “Isto é”, segundo Dreifuss. (p. 461) Este documenta assim, no caso chileno, a participação de Fuenzalida, um empresário chileno que veio ao Brasil para associar-se a Gilbert Huber Jr. na articulação do golpe chileno. O golpe ocorreu em 1973, Fuenzalida iniciou a articulação aqui em 1970. A sua campanha de angariação de fundos, efetivada junto ao IPES, obteve apoio substancial da CODESEC, “Companhia de estudos sociais, econômicos e culturais”, mantida com contribuições brasileiras e dos Partidos democratas cristãos italiano e alemão.
3 A CODESEC “se envolveu na mobilização das classes médias e com outras campanhas anti-Allende” no Chile, segundo Dreifuss. Também o chileno Orlando Sáenz envolveu-se com a preparação golpista, resultando tornar-se acessor financeiro do governo militar chileno após o golpe.
4 Conforme Eduard Korry, diplomata estadunidense, ele e outro chileno compareceram a uma reunião anti-allende, de executivos de multinacionais, na Park Avenue 410, o endereço do escritório de David Rockefeller. A reunião foi convocada por Thomas Mann, então Subsecretário de Estado, “o homem de [Lyndon] Johnson para assuntos da América Latina”, que falou aos presentes da importância da derrubada do governo democrático do Chile para a Casa Branca. Os homens da CIA presentes “assumiram o comando a partir dali”.
5 Convocavam pequenas reuniões onde instruíam as multinacionais sobre como fazer sua parte contribuindo com dinheiro, influência e materiais, para eleger Eduardo Frei, não obstante ele não ser direitista, como porém opção viável a Allende. Segundo Korry, citado em Dreifuss, Thomas Mann convocou a reunião logo após o golpe de 1964 brasileiro, “seu mais importante 'êxito'“. Quanto a este, segundo Korry, inequivocamente “envolveu a CIA, membros-chave de multinacionais do grupo Rockefeller e o Pentágono, que ordenou a ida de uma força tarefa-naval com para-quedistas ao Rio de Janeiro, “a fim de eliminar qualquer resistência à deposição de João Goulart”.
6 O embaixador americano Korry, que reenfatiza a similaridade dos casos Goulart e Allende inclusive quanto à psicologia de ambos, havia no Chile vetado a proposta secreta do Council of the Americas para um programa conjunto de desestabilização do governo Allende, orquestrato pela Cia e grandes empresas. Em decorrência, MacCone, ex-chefe da Cia e executivo da ITT, contactou Richard Helms, diretor da CIA no Chile, para em nome do presidente da ITT, Harold Green, lançar uma campanha intensiva na Casa Branca, de anulação da decisão de Korry. O lobbyng foi coordenado a atividades de empresários chilenos ligados ao Council e à CIA. É evidente que a opção de Korry contra a opressão chilena é algo extremamente defensável, porém quanto ao parentesco psicológico de Goulart e Allende parece haver certo exagero. Allende era comunista, não obstante não ter mudado o regime do país ao ser eleito, e resistiu ao golpe, tendo por isso sido assassinado brutalmente na própria sede do governo pelos golpistas. Goulart não era comunista, ou não era assim visto pelos comunistas mesmo que fosse reformista nacionalista, e acatou o golpe, inclusive tendo recusado as sugestões de resistência por parte de seus colaboradores.
7 É interessante que McCone tenha sido antes chefe da CIA e Helms seu representante, porém quando McCone se tornou diretor do ITT, permaneceu também como acessor remunerado de Helms. Conforme Dreifuss, Enno Hobbing, diretor do CED e do Council for Latin America, havia trabalhado de perto com o IPES e estava envolvido na campanha contra Allende, tendo sido agente da CIA.
3. III) Fundos Internacionais e Corrupção Parlamentar
3.III.1) = A fraude eleitoral / 1962
1 Viagens de ipesianos aos USA foram constantes, e encontros internacionais das entidades tiveram papel proeminente, sendo destacado o encontro de Nassau (Bahamas). Empresas aéreas como Cruzeiro, Varig, Panair, supriam imediatamente necessidade de transporte ao IPES, sem cobrar as passagens. Conforme Dreifuss “os serviços aéreos seriam de incalculável valor na coordenação do movimento militar para a derrubada de João Goulart”. (p. 205)
2 A propósito do quesito financiamento, vimos que Lincoln Gordon não ocultou seus conhecimentos da ligação de fundos da CIA com as atividades ipes-ibadianas. Dreifuss cita Langguth, que relata o fato de ser do interesse da CIA manter embaixadores informados, porque “algumas operações não poderiam ser disfarçadas”, e durante o período golpista a CIA aumentou o número de seus consulados brasileiros. (p. 226) Conforme Langguth, citado por Dreifuss, “Certamente Gordon conhecia tudo sobre o IBAD. Ele estava ciente não só de que o IBAD era o meio da CIA canalizar dinheiro para as campanhas políticas locais, mas também que tais contribuições clandestinas eram uma absoluta violação da lei brasileira” (p. 205, 206).
3 A violação da lei por meio de fundos destinados está historicamente documentado por Dreifuss na cobertura das eleições de 1962. A ação ilegal de corrupção do legislativo para obter domínio sobre os políticos está informada em dois níveis, o do IPES e diretamente o da CIA. Quanto ao primeiro, conforme Dreifuss, “O Ipes e o Ibad chegaram à decisão de se estabelecer no Congresso, e a estratégia combinada para a sua ação seria coordenar os esforços do IBAD com aqueles do Grupo de Ação Parlamenar do IPES, ou seja, 'estabelecer o eixo Ivan Hasslocher-Mello Flores na Câmara dos Deputados e no Senado” (p. 320).
4 O “eixo”, como passou a designar-se a associação de Ivan Hasslocher e Mello Flores para manipular o resultado eleitoral, coordenaria “ação discreta” na Câmara dos Deputados e no Senado, assim “isentando o IPES de responsabilidade pública”, e tudo isso junto à manipulação dos sindicatos por pelegos. A ADP foi um meio de ação ipes-ibadiana, adotando a técnica de voto em bloco, para frustrar as propostas do governo Goulart. Segundo Dreifuss, “A equipe do General Golbery asseguraria o acesso de Mello Flores às propostas de emendas e projetos a serem introduzidos no Congresso pelo bloco nacional-reformista bem antes de sua definitiva apresentação”. (p. 323) Em contrapartida, “os projetos técnicos” - conforme a propaganda de redução de projetos políticos a parecer de técnicos - serviam para atenuar perante a opinião pública o verdadeiro objetivo de apresentação de “leis antidemocráticas e desestatizantes”. (p. 322)
5 A rejeição a Santiago Dantas, que representava os industriais nacionais, foi um meio da elite forçar o gabinete Goulart a uma crise de remanejamento constante do ministério. Ao ver de Dreifuss, Santiago Dantas era a última oportunidade da burguesia brasileira compor racionalmente com o trabalhismo, e a rejeição dele um dos fatores principais do fracasso do capital nacional.
6 O patrocínio de candidatos nas eleições foi feito não por critério partidário, mas por orientação ideológica. Os candidatos financiados pelo Ipes/Ibad/Adep tinham que assinar um compromisso ideológico: lealdade ao Ibad acima da lealdade ao seu partido, anticomunismo, defesa dos investimentos estrangeiros, união à ADP liderada pelo udenista João Mendes. (p. 324) Onerosas pesquisas de opinião conduziam as estratégias de campanha, e a mobilização por patrocínio de organizações criadas para terem peso nas eleições, entre outros, o Movimento Adulto da Ação Católica, Liga Eleitoral da Família, a ALEF do comandante Moura na Marinha, endossada pelo Conselho Nacional dos Bispos do Brasil. (p. 325)
7 Dreifuss cita em nota o estudo de Schlesinger, “Memorandun to the White House”, a propósito dos principais componentes dos grupos de extrema-direita no clero. (p. 355) Encontravam-se na mais alta hierarquia da igreja, convindo com os objetivos tradicionalistas do IPES porque a alta posição hierárquica estava personificada pelas famílias antigas e conservadoras, e devido ao apoio financeiro. A posição ideológica desse grupo clerical, conforme Schlessinger, era “violentamente anticomunista” porém, “dentro do país, acusam serem de origem comunista qualquer manifestação contra investimentos estrangeiros e qualquer reforma agrária”.
8 Conforme o memorando de Schlessinger à Casa Branca, os objetivos desssa retórica violenta do grupo de conservadores católicos ligados ao IPES/IBAD “atraíram jornalistas e são de fato a inspiração principal para O Globo, o jornal vespertino do Rio de Janeiro.”
9 Entre os políticos, prossegue Schessingler informando contarem com a adesão de Carlos Laceerda, governador da Guanabara [atual município do Rio de Janeiro] e da liderança da União Democrática Nacional – UDN.
10 O dinheiro requisitado por Mello Flores para operar em Brasília foi obtido a princípio por um acordo com Rui Santos, representante baiano no Congresso, que recebia apoio financeiro da Usiminas, joint-venture nipobrasileira, e da Américan Chambers of Commerce.
11 Mas a necessidade era de fundos de muito grande porte. Só para Amaral Peixoto, presidente do PSD, seriam necessários seis Jeeps. Entre os vários itens que requisitavam gastos, Dreifuss informa sobre a compra de candidatos com capacidade de angariar votos. Glycon de Paiva sugeriu a Mello Flores a quantia de seis milhões por candidato, mas ele respondeu ser esse o preço de candidatos da Paraíba e outros estados menores. Já entre Ceará e Bahia, o preço era mais alto, São Paulo e Rio sendo os mais caros. Em média, seriam necessários 15 milhões para cada parlamentar. Para os demais quesitos da campanha a ajuda requisitada era de 1.000.000 de dólares (p. 328). Para o financiamento de duzentos e cinquenta deputados e candidatos, o Ibad gastou mais de cinco bilhões de cruzeiros. (p. 330)
12 Basicamente Dreifuss registra denúncias pelo IPES-IBAD usarem três fontes de renda para financiar a intervenção dos grupos de ação da elite orgânica, no processo eleitoral e demais atividades: caixinha mantida por empresários estrangeiros e nacionais, agências governamentais estrangeiras e o “fundo do trigo”. A caixinha se torno recurso comum, sendo constatado também no Chile. (p. 320)
13 Outros meios ilegítimos e ilegais de campanha pró-capital estrangeiro estavam sendo mobilizados pela CIA. Com efeito, Dreifuss comenta que “as eleições brasileiras de outubro de 1962 foram consideradas o auge de uma das maiores operações políticas, jamais empreendidas pela Divisão Ocidental da Cia Americana.” Naquele ano, a estação carioca da Cia “e suas muitas bases nos consulados distribuídos pelo país, que muito oportunamente haviam sido aumentados em número”, estavam comprometidas num campanha de milhões de dólares para financiar o anticomunismo eleitoral em todos os níveis de postos, federais, estaduais e municipais. Já as chamadas “ações contextuais”, organização de propaganda de grande impacto para impressionar a população, relacionavam-se a mais instituições com apoio direto do governo americano. A Embaixada Americana sustentava o que designou “ilhas de sanidade”, como lugares do cenário político que apresentavam os requisistos para realização de empreendimentos conjuntos.
14 O embaixador Lincoln Gordon não deixou de perceber o signifcado das eleições de outubro, relatando em um telegrama ao Departamento de Estado, que estava se configurando uma “guerra política de grande importância, que determinará sua orientação doméstica e externa e, com ela, a maior parte do continente”. Convertendo-se a semana anterior às eleições em “um momento estratégico único”. Tratava-se especialmente de impedir qualquer obstáculo à remessa de lucros ao estrangeiro, por empresas multinacionais aqui instaladas, como também de obter penetração de livros traduzidos em Português e cooperação máxima de militares americanos e brasileiros visando o anticomunismo.
15 O próprio Gordon atuava na obtenção de apoio multinacional às ações do complexo IPES/IBAD, na substância de dinheiro proveniente da CIA e empresas americanas privadas. (p. 205) A reserva de fundos para atuação da CIA é usual, sendo utilizada para ação em qualquer país, como na Itália na década de quarenta, para “revigorar a Democracia Cristã”. (p. 330)
16 Na operação eleitoral-golpista brasileira, a intervenção ipes-ibadiana e da Cia nas organizações trabalhistas foi notável. O Ibad foi particularmente ativo no movimento sindical do Paraná, onde levantou apoio para o governador Nei Braga.
17 Independente das várias intervenções documentadas por Dreifuss em vários estados, no sentido da doutrinação anticomunista do operariado, a fim de criar líderes trabalhistas que pregassem as “recompensas” oriundas da colaboração dos empregados com o capitalismo, conforme o vocabulário norte-americano, é importante registrar organizações políticas a que o complexo Ipes/Ibad estava relacionado.
18 Ressalta a importância da AIFLD, American Institute for Free Labor Development, organização ligada ao sindicalismo, aos empresários americanos e às agências governamentais como AID e CIA (p. 315).
19 O “instituto” foi inaugurado nos Estados Unidos em 1961, como uma ramificação da AFL-CIO, a referência do movimento sindical norte-americano. O livro que já citamos, de Claude Julien, revelou que a Cia dispunha por vezes de fundos oriundos da AFL-CIO, hauridos de contribuições dos trabalhadores americanos sindicalizados, para suas ações anticomunistas e de propaganda em todo o mundo. Mas conforme Dreifuss, o financiamento do próprio “instituto” provinha de mais de cinquenta multinacionais, como Anaconda, Pan American Airways, Merck, Ebasco, etc.
20 Peter Grace era o responsável pelo instituto e homem de cobertura para ações trabalhistas da Cia, apadrinhado para o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, por seu amigo John Kennedy. O Business Group for Latin America substituiu o departamento, mantendo porém as atribuições de orientar o desenvolvimento local.
21 Como centro trabalhista controlado pela CIa e financiado pelo AID, o “Instituto” tinha Serafino Romualdi como diretor executivo, o qual testemunhara que ele possuía ramificações em todos os países da América Latina e Caribe. (p. 315) Romualdi é uma prova do envolvimento do “instituto” com a CIA, uma vez que acumulava ainda o cargo de agente da Divisão das Organizações Internacionais da Cia. (p. 316) Conforme Dreifuss, “para minar o apoio a João Goulart através do movimento sindical organizado”, substituindo assim as reformas exigidas pela população consciente por reformas escravistas e de prejuízo à população brasileira, “a Embaixada dos Estados Unidos trabalharam arduamente para apoiar os sindicatos de direita e opor-se ao Comando Geral de Trabalhadores, dominado pela esquerda, e que havia se tornado a maior e principal confedereção de sindicatos do Brasil”.
22 Conforme Dreifuss, o Movimento Sindical Democrático - MSD, originou-se como organização controlada pelo complexo IPES/IBAD, com seu lema “Deus, propriedade privada e livre empresa”. O MSD era um dos receptores da ajuda e da orientação do AIFLD para o patrocínio de reuniões e o estabelecimento de cursos sindicais”. (p. 317)
23 É interessante registrar que a sigla MDB, conhecida como o único partido de esquerda permitido durante a ditadura, e que hoje é o PMDB, começou porém como sigla do “Movimento Democrático Brasileiro” de São Paulo, organização ligada ao IPES. Mantinha um sítio-escola naquele estado, com cursos de quatro meses para militantes de sindicatos e trabalhistas, de linha ideológica basicamente anticomunista. (p. 311) Na vigência da ditadura o partido de direita era o ARENA, e só eram permitidos estes dois mencionados.
24 Para formação de líderes e ativistas de sindicatos de direita pelo complexo IPES/IBAD, foi importante a Confederação nacional de Círculos Operários - CNCO. Tinha cobertura ibadiana e recebia desta um orçamento mensal, segundo carta de Rubem Fonseca, diretor do IPES, ao Padre Velloso, que coordenava a Confederação , de dois milhões a dois milhões e quinhentos mil cruzeiros. (ps. 310, 347) O Ipes financiava também a Escola de Líderes da PUC (Pontifícia Universidade Católica).
25 Dreifuss também assinala que “o próprio IBAD era um canal financeiro de fundos multinacionais para o IPES” (p. 207), destacando entre os contribuidores das contas Ipes-ibadianas e Promotion, a Texaco, a Shell, a Esso Brasileira, a Standard Oil of New Jersey, a General Electric, a Cia. de cigarros Souza Cruz, a Belgo-Mineira, a General Motors, e mais nomes de famosas empresas listadas [ verNota 2 ].
3.III.2) = O disfarce do dinheiro e o golpismo partidário
1 Os problemas de aumentar, ainda assim, as contribuições, e disfarçá-las, de modo que não se tornassem de conhecimento geral, foram solucionados por diversificados meios. As contribuições tornaram-se regularmente integradas à rotina de Associações de Classe, como a dos Banqueiros e o Centro de Indústrias, CONCLAP ou sindicatos como o das Companhias de Seguros. Assim protegendo ao mesmo tempo os nomes das empresas contribuintes que pertenciam às associações. Os “ipesinhos”, seminários regulares, eram meios pelos quais também podiam ser feitas contribuições, na forma de pagamentos pela participação, e especialmente a agência do IPES em Friburgo tornou-se unidade permanente de seminários e recebimento de fundos. (p. 203)
2 Mas a forma mais proeminente de camuflar doações foi a utilização de empresas de propaganda e relações públicas, clientes das grandes corporações multinacionais. Estas poderiam canalizar suas participações, através de fundos destinados a empresas de propaganda que estavam apoiando o IPES. Especialmente a “Denisson Propaganda, ofereceu seus préstimos para operar como um conduto para a 'limpeza do dinheiro'“. Também participaram dessa operação a “Gallas Proganda, Norton Propaganda e Multi Propaganda”. (p. 204)
3 Na emergência da era pós-moderna, ou seja, na descolonização e organização desenvolvimentista do terceiro mundo, os Estados Unidos tiveram pois um papel de liderança na defesa dos interesses imperialistas. Porém, conforme tenho ressaltado, ao contrário do que a polarização da época induzia a crer, não se reduziam aos seus, mas eram do mesmo modo europeus e japoneses. Assim também devemos destacar que, ao contrário das impressões causadas pelo neoliberalismo de Reagan na década de 80, na medida em que este presidente esteve muito ligado ao problema remanescente da descolonização, a opção imperialista entre os norte-americanos não se restringe ao partido republicano.
4 O golpe brasileiro foi de fato articulado pelo partido democrata nos USA, de Kennedy ao sucessor Lyndon Johnson. Conforme Dreifuss: “Quando o Coronel Vernon A. Walters, eficiente homem de informações que se tornaria mais tarde vice-diretor da CIA, voltava da Itália em direção ao Brasil, para, ostensivamente, tornar-se adido militar, foi informado que Kennedy 'não se oporia à deposição do governo de João Goulart, se fosse substituído por um estável governo anticomunista que ficasse ao lado do mundo 'livre' ocidental'“. (p. 172)
5 A injunção kennedyana ao golpe militar subvencionado e organizado pela CIA na América Latina foi uma política bem definido como objetivo do partido democrata estadunidense, não um mero fator de circusntância na administração Kennedy, conforme documentado em Dreifuss.
3.III.3) = A articulação do Poder na Cultura e Mass Mídia
1 A penetração ideológica da “elite orgânica”, conforme a designação da ação ipes-ibadiana em Dreifuss, envolve o tema dos mass midia de um modo abrangente. Vimos que a ênfase da ação estava na articulação dos movimentos sociais, populares e de elite, no campo e também na cidade, com uma linha populista óbvia como dirigismo cartilhesco que devia assim deslocar a conscientização real dos problemas e a organização competente correlata, por estereótipos tradicionalistas ligados à ideologia da autoridade e poder. Assim a penetração de mass midia deveria ser uma linha ativa especialmente coordenada, como seria esperável.
2 Hoje talvez um dos mais importantes focos na articulação desse item seria o fato da penetração ipes-ibadiana ter criado uma linha única de publicação, entre periódicos de mass midia, ideologia do fascínio televisivo e o mercado editorial de livros. Criou-se uma política editorial permanente de controle sobre as publicações, enquanto os programas de televisão se tornavam pré-direcionados pelo comando ipes-ibadiano.
3 Por exemplo, a Saraiva, que hoje é um referencial único nacional de cadeias de livrarias por seu número de lojas, já naquela época detinha importância editorial, e propôs ao IPES um plano de publicações “através do qual a Editora Saraiva daria ao Grupo de Doutrina de São Paulo a oportunidade de examinar os trabalhos que ela editasse, podendo a qualquer hora, publicar os panfletos e traduções do IPES”. (p.195) A Companhia Editora Nacional também se ofereceu para publicar livros do IPES. São citadas ainda várias, entrre as quais a Agir e O Cruzeiro. O importante escritor Rubem Fonseca atuou como líder do IPES, supervisionando as atividades do GPE, o Grupo de Publicações/Editorial. Também Augusto Frederico Schmidt e Raquel de Queiroz, grandes nomes das letras, tiveram participação ipesiana.
4 A Franklin Book Program utilizou o GPE como canal de divulgação de editores americanos. Quanto à penetração ipesiana em rádio, cinema, cartuns e televisão, Dreifuss a trata em termos de “guerra psicológica”. O complexo ipes-ibad “saturava o rádio e a televisão com suas mensagens políticas e ideológicas”, alistando “um grande número de escritores profissionais, jornalistas, artistas de cinema e teatro, relações públicas, peritos da mídia e de publicidade” (p. 232). Os jornais Estado de São Paulo, O Globo, Folha de São Paulo, a Tribuna da Imprensa de Helio Fernandes, o Diário de Notícias, as televisões Record, Paulista, a já citada Rádio Globo, eram canais diretos ipesianos.
5 Dreifuss registra o expediente do jornal “O Globo”, pelo qual notícias de impacto junto à opinião pública, ostensivamente fantasiosas, eram disseminadas sem revelação da fonte, como a notícia sobre a instalação de um Gabinete Comunista no Brasil pela União Soviética. (p. 233) Essa linha de ação seria tão abundantemente exemplificada até hoje, que nem valeria a pena insistir nisso, dado ainda o caráter trivial de que o fenômeno se revestiu a partir da década de setenta. Não sendo já apenas notícias, mas cenas de novelas, desenhos animados e filmes, os quais são decalcados do cotidiano para serem porém distorcidos quanto à mensagem de modo a estigmatizar “tipos” referenciais, que representam a boa consciência ou a esquerda, para promover o contrário. Ou atribuir feitos e ditos meritórios, sabidamente oriundos desses estigmatizados, àqueles tipos inteiramente contrários na realidade, mas que se quer promover. Aqui vemos contudo a articulação ipes-ibadiana como localmente a origem histórica concreta da cooptação de mass midia na dominação imperialista.
6 Dreifuss comenta por exemplo como “a reação da imprensa foi extremamente desfavorável à liderança da UNE em particular e ao congresso [ o XXIII da UNE, pouco antes do golpe] em geral. O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo esperialmente deram ao congresso intensa cobertura e muito comentário editorial negativo”. ( p. 285) Mas o Ipes mantinha também ligações com várias Universidades - ao que parece foi o IPES quem estabeleceu o Curso de Ciências Políticas e Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Campinas. Mantinha relações com o Caco, o Centro Acadêmico da faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
7 Vários outros nomes de jornais atuantes em estados brasileiros são citados, assim como os nomes de seus organizadores que colaboravam com o Ipes, sendo porém ocioso repetir aqui, exceto Arlindo Pasqualini, diretor das empresas Caldas Junior, importante complexo empresarial do setor de mídia do Sul do país. Não obstante ser irmão do ideólogo do PTB, Arlindo era considerado político promissor contra o brizolismo sulista. E a coluna Seção Livre assinada por Pedro Dantas, pseudônimo de Prudente de Morais Neto, que era canal do IPES no jornal O Estado de São Paulo.
8 A propósito, o retorno de políticos de esquerda após a ditadura, tendo sido exilados ao longo desta, resultou em governos decepcionantes, apesar da confiança que o povo depositava em suas candidaturas. Muito do deplorável quadro partidário atual está ligado a essas origens na anistia e redemocratização. Como relatei, na época das eleições a governador, eu mesma fui atropelada por um prefeito do partido de Brizola, o PDT, aquele o prefeito de São João de Meriti, que estava dirigindo bêbado na Avenida Antonio Carlos, em frente ao Forum. Voltava do estágio à tarde na biblioteca do IBQN (Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear), pois cursava então Biblioteconomia de manhã na Uni-Rio, quando ocorreu o acidente. O prefeito bêbado do PDT responsável pelo acidente sendo Manoel Valença O'Passo, chapa do carro nº 1313, conforme registro na reportagem do jornal O Dia (janeiro de 1987).
9 Eu mesma não tenho a lembrança do acidente, pois a gravidade chegou a ponto de acordar no hospital público, demorando para lembrar-me até do meu nome, sem saber porque ou onde estava. Minha filha que estava na creche, ficou esperando até bem mais tarde, pois eu a pegava regularmente ao voltar do estágio, até que a família pudesse fazê-lo. Tendo sido eu, como relatado por testemunhas, socorrida pela polícia, que deteve o prefeito no local do acidente e o submeteu ao teste de bafômetro - o que permitiu a minha família pressionar insistentemente ao telefone para que ele pagasse o internamento na Beneficência Portuguesa, onde fui tratada e me recuperei do grave acidente. Nem o prefeito, nem o PDT, ofereceram-me qualquer auxílio ao tratamento ou apoio no hospital público, e logo a rede pública tendo recusado manter minha internação, estando eu porém com febre e apresentando quadro grave. Além disso, não obstante ser partido dito de esquerda, nunca houve qualquer oferecimento do PDT ou do prefeito de qualquer indenização, auxílio ou qualquer contato humano após o acidente. Só por meio de processo movido por mim poderia haver indenização, porém eu fiquei em tratamento, em casa, sendo demasiado envolver-me com os encargos do processo. Não me senti incentivada a retornar à Uni-Rio. Já durante os anos noventa cursei filosofia na Uerj.
10 Na época da biblioteconomia, eu participava discretamente do movimento estudantil, que apoiara na eleição de 1986 o também anistiado Gabeira - do partido da consciência ecológica, por isso designado “partido verde”, obviamente sem ter nada a ver com o integralismo. Não obstante a opção eleitoral na ocasião, nunca tive qualquer relação com partidos políticos nem com a UNE. Solicitaram-me porém os integrantes do departamento de alunos da Uni-Rio, o encargo de prosseguir a organização do departamento, pois estes integrantes do grupo responsável estavam se formando e tinham a meta de obter um Centro acadêmico. A solicitação explica-se por eu ter, inversamente, iniciado aquele ano na faculdade, de modo que pudesse arcar com a direção do departamento e continuar o processo de obtenção do Centro após as férias de Janeiro. O que efetivamente não ocorreu, devido ao acidente.
11 A Uni-Rio tinha na época por reitor o famoso teatrólogo Guilherme Figueiredo, irmão do último presidente da ditadura militar, o General João Figueiredo. Com efeito a reitoria exibia uma impressionante galeria de fotos dos presidentes militares, desde Castelo Branco.
12 Na Uni-Rio reencontrei professores com quem eu havia travado conhecimento no segundo grau, e que neste foram colaboradores do meu grupinho, em nossa tentativa de fazer um grêmio ligado à UBES, a união dos estudantes secundaristas. Porém, como já estávamos nos formando, só havíamos conseguido um jornalzinho, devido ao apoio do nosso professor de física, que publicamos com uma entrevista de Heloneida Sudart, que eu fiz na rádio, ao final da apresentação de Cidinha Campos. Nessas circunstâncias eu iniciava meus contatos com a cultura humanística, a leitura de textos teóricos e jornais engajados. Meu interesse anterior havia sido apenas literatura e poesia, que eu havia começado a apreciar pela influência, na infância, do meu padrinho Durval Messonier Alves, poeta romântico, parente do famoso pintor oitoscentista. Tendo praticado a atividade de escrita de diário íntimo e poesia desde infãncia e adolescência, agora no segundo grau consagrei-me à atividade de escritora, e me tornei simpatizante do comunismo marxista - lembro-me como eu costumava ir ao Centro da Cidade para obter o jornal clandestino A Voz da Unidade, que na época relatava o nascimento da CUT, ganhando a eleição dos trabalhadores (concorrendo com o “Conclat”). Mas logo depois que completei o segundo grau, tive contato com amigos muito ligados à vanguarda estética, e entre eles conheci as críticas sobre as posições censórias do sovieticismo à liberdade de expressão da Vanguarda. A geração “80” do Parque Laje considerando-se porém já numa posição de questionamento de época, em torno da questão sobre o que poderia ser novo, que já não houvesse sido praticado na Vanguarda.
13 O pt surgia nesse ínterim como esquerda nova, relacionada tipicamente ao operariado da industrialização transnacional
que havia crescido na ditadura, parcialmente ligada a Gramsci e outros expoentes do marxismo, conforme estudos a propósito, mas também relacionado a Felix Guattari como testemunhou este no seu “Cartografias do desejo”, Lula oriundo do movimento operário de São Paulo. A disputa petista impossibilitou que lideranças da esquerda tradicional como o brizolismo alcançasse a presidência na primeira eleição livre na redemocratização, em 1990 - até aí houve o interregno da presidência civil, porém por voto indireto, assim conservador. O racha das esquerdas, entre o pt e a tracional brizolismo, resultou numa inicial presidência da direita, daí o assalto à poupança por Collor de Melo e depois o esquema de corrupção com seu acessor, o “PC”, assassinado escandalosamente, seguindo-se o impeachment.
14 Mas, como se sabe, a conquista da presidência pelo pt em 2004 resultou no fracasso total da esquerda no país, com o impeachment de Dilma (2016), por corrupção comprovada do pt, o qual não apresentou qualquer reforma durante a estadia no governo. Pelo contrário, foi totalmente coerente com os ditames das multinacionais e do neoliberalismo econômico, imposto aqui formalmente desde o final dos anos noventa, pelo governo direitista de Fernando Henrique Cardoso - conhecido porém até aí como sociólogo importante de esquerda na história das ideias local.
15 Retornando ao tema da articulação do golpe de 1964, registra Dreifuss que a campanha do Grupo de Opinião Pública do Ipes envolveu a elaboração de um quadro da suposta infiltração comunista, com uma lista de denunciados circulando entre empresários e outros formadores de opinião. Patrocinava também “Manifestos” de categorias, solicitando intervenção contra o comunismo, como o Manifesto das Enfermeiras às Forças Armadas, o Manifesto das Classes Produtoras, O Manifesto dos Estudantes de Direito da Universidade Mackenzie.
16 Realmente porém havia ressentimento de estudantes que não se identificavam com a hegemonia da esquerda na UNE, como Dreifuss comprova por fac-simile agregado ao seu livro e cobertura de caso. Aí revela-se exemplo de elementos estudantis revoltados com o atribuído direcionamento da UNE pelo comunismo, com a preponderância do ISEB, uma agremiação de intelectuais nacionalistas, e da “história nova” de Sodré nas faculdades.
17 Esses elementos foram ostensivamente úteis ao IPES, porém ficaram descontentes depois do golpe, pelo Ipes não ter eliminado prontamente os esquerdistas nos serviços públicos, de modo que se sentiam expostos a sabotagens pessoais por estarem identificados como pró-ditatoriais. Também mostravam-se extremamente ressentidos porque o Ipes não os integrava agora em seu próprio esquema de operações, por vínculo empregatício. Pode-se aquilatar que o Ipes não tinha intenção de se envolver com figuras de imagem exaltada, passionais ou folclóricas na rotulação de “direitistas”, que haviam contudo antes sido usados e ficado conhecidos por esquemas ipesianos. [Nota 3] . Também capitais nacionais que haviam contribuído com o golpismo, nem por isso ficaram garantidos depois, sendo o caso da Panair, que tornou-se insolvente conforme Mirow (referenciado à frente). Porém também se conhece o truque das falências, que Mirow não reporta, mas foi noticiado comum na época, uma vez que empresários lucravam por não precisarem pagar contas e salários.
18 Em geral a programação ipesiana de televisão era preestabelecida quanto ao conteúdo, por exemplo, as respostas a entrevistas ou declarações de convidados, envolvendo formação de opinião sobre temas relevantes de decisão política, escolhidos pelo IPES. Nas universidades o Ipes era proeminente em Centros de pesquisa, organização de diretórios acadêmicos e seminários. O Ipes montou um esquema de cinema em ônibus, de modo que os filmes politicamente tendenciosos podiam assim ser levados a favelas ou bairros populares, ou eram produzidos para elites e mostrados em agremiações exclusivas como Escola de Polícia de São Paulo, Lyons Clube, Faculdade de Medicina de São Paulo. Filmes especialmente voltados a platéias nas Forças Armadas também foram produzidos.
19 Uma tão abrangente gama de atividades não podia ficar desapercebida do governo e das agremiações favoráveis a Goulart. Segundo Dreifuss, ocorreu de fato que Goulart obteve provas contra o IBAD e o desarticulou antes do golpe, neutralizando assim a ação possível de Hasslocher. Porém o governo representativo não logrou provar a ligação do IBAD com o IPES, e este prosseguiu a ação de classe na derrubada do governo representativo.
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4 ) = A Estrutura do Estado Militar
1 Após o golpe, o complexo IPES/IBAD provou sua liderança, em meio porém a certa instabilidade produzida pela expressão de contingentes não ligados a ele, que foram mesmo assim preponderantes na conjuntura golpista, como Costa e Silva e Mourão Filho. Segundo Dreifuss, a direção dos militares havia sido perdida pela iniciativa destes opositores, que deflagaram precipitadamente o golpe e surpreenderam os ipes-ibadianos.
2 Assim se demonstra o dano causado: “O domínio completo da ESG dentro da hierarquia do Exército havia sido derrotado [pela iniciativa do General Mourão Filho], e o troupier General Costa e Silva, apoiado por um grande número de oficiais de médio escalão e extremistas de direita tornou-se Ministro da Guerra, um posto para o qual o General Jurandir B. Mamede havia sido preparado”. (p. 396)
3 Não obstante, segundo Dreifuss, “apesar desse revés, a elite orgânica do complexo IPES-IBAD conseguir colocar-se na direção do Estado e ocupar os postos-chave da burocracia civil e da administração tecnocrática, enquanto a ESG, lentamente, mas com segurança, conseguiu suplantar um grande número dos seus oponentes e, a longo prazo, controlar uma boa parte dos postos militares-chave bem como obter uma posição de supremacia no ensino e na doutrinação da Forças Armadas, onde sua ideologia de segurança e desenvolvimento passou a dominar”. Com efeito, os componentes do complexo IPES/IBAD apoiavam Castelo Branco.
4 O homem do IPES na redação do Jornal do Brasil da época, Wilson Figueiredo, sumariou a situação: “O bombocado não é para quem o faz, e sim para quem o come”. Apesar do General Mourão Filho desencadear o golpe, “sem dúvida foi a elite orgânica... quem colheu os frutos da vitória...”, de modo que “o complexo IPES/IBAD e os oficiais da ESG organizaram a tomada do aparelho do Estado e estabeleceram uma nova relação de forças políticas...” na instância do poder. (p. 397)
5 Dreifuss é algo confuso quanto a isso, relatando mais de uma reunião de militares visando um golpe com status de “primeira”, mas o Ipes/Ibad sempre eram de algum modo relacionados por algum participante que o recomendava. O que resultou entretanto foi um levante bastante imprevisto pela ação de classe.
6 Segundo Dreifuss, a estratégia do Ipes foi assumir o controle não pugnando diretamente onde havia sido derrotado, mas sim instalando o SNI, o Serviço Nacional de Informações, agência de “inteligência” que se criou logo após o golpe.
7 Na verdade o SNI congregou todo o peso do aparelho golpista, tornando-se o núcleo da ação repressiva, seja contra grupos realmente atuantes na resistência ao regime, ou contra representantes da mentalidade nacionalista quaisquer. A repressão homicida e violenta atingiu inúmeros contingentes da cultura nacional, de modo algum comunistas, pelo contrário, alguns como os músicos tropicalistas eram até estigmatizados pelo partido comunista.
8 “Os elos do IPES com o SNI”, segundo Dreifuss, permaneceram tão “fortes” como se pode observar pela sucessão dos chefes iniciais do Serviço Nacional de Informação, todos ligados ao IPES: Golbery do Couto e Silva e o Coronel Ivã Perdigão. Conforme Dreifuss, “No campo das informações, o IPES permaneceu como um fonte independente para o SNI, e como sua ligação imediata com a comunidade empresarial. Em troca, o IPES recebia informações para a ação do SNI”. (p. 423)
9 O General Golbery, com efeito, levou para Brasília os arquivos completos de informações do Ipes, reunidos pelo Grupo de Levantamento da Conjuntura que havia sido chefiado por ele mesmo, e onde haviam sido compilados dados sobre 400.000 brasileiros. Este arquivo serviu de base para a trama informativa do SNI, conforme Dreifuss. (p. 422, 423)
10 Ventilou-se aqui, nas vésperas dos anos oitenta, a posição do líder do Ipes, H. Boilessen, como agente da CIA. Houve rumores a propósito na revista Veja. A suspeita procedeu da campanha de levantamento de fundos, feita por Boilessen, para a criação da OBAN, a chamada Operação Bandeirantes, cujo fundador ostensivo foi o General Canavarro Pereira. Em 1970, a OBAN foi substituída pelo DOI-CODI (Departamento de operações de informação - Centro de operações de defesa interna), o temível serviço de repressão política que funcionou na ditadura militar, e que atingiu cruelmente a muitos perseguidos do regime, criado supostamente pelo General Menna Barreto. Era basicamente um CCC, comando de caça aos comunistas, conforme uma sigla atribuída pelos populares na época. [ Nota 4 ]
11 Dreifuss não referencia a montagem do departamento da Censura Federal, que passou a funcionar de modo a dele depender qualquer publicação circulando em territorio nacional. Nada revela de sua orientação ou modo de funcionamento. O que podemos compreender pelo fato do livro de Dreifuss ter sido publicado ainda na ditadura - assim vemos que também não faz referência à ação repressiva, torturadora genocida, para acusados de comunismo, por parte do SNI e Doi-Codi, tratamento incompatível com qualquer tratado internacional para prisioneiros de guerra - sem nem mesmo chegar a ser este o caso. Especialmente as universidades foram afetadas pela repressão política.
12 A censura, porém, é a pista para a união destes dois fatos aparentemente incongruentes, o caráter tecnoburocrático modernizante do discurso golpista, mas o resultado histórico de regressão ao esquema de dependência econômica da indústria estrangeira e produção nacional agrícola, moldada pelo tradicionalismo latifundiário.
13 O nacionalismo de fachada que o regime militar sustentou ao longo dos anos setenta, entretanto paralelamente a alguma modernização científica das escolas, logo expressou-se numa série de campanhas de mentalidade ruralista passadista. O “sítio do picapau amarelo”, a propaganda dos encantos da nossa natureza virgem no “Amaral Neto, O Repórter”, o elogio da “TFP” (terra, família, propriedade), sigla da mentalidade preconceituosa a ponto da negação psicótica da realidade quanto a mudanças comportamentais onipresentes na sociedade contemporânea – nisso não muito diferente da própria esquerda sovieticista que desaprovava a geração “pop”.
14 Na produção pensante local, a resistência e crítica à ditadura imperialista contrária inteiramente aos interesses da população brasileira, não deixou de refletir a mudança relativa à propaganda modernizante, centrada na imagem do way of life norte-americano. O humorista Stanislaw Ponte Preta satirizou o que designou FEBEAPÁ, “festival de besteira que assola o país”, registrando, entre outros, o famoso dito: “ninguém vai levantar a saia da mulher mineira” - de um político basbaque de direita, pronunciando-se contra a mini-saia.
15 A censura foi o canal do verdadeiro propósito nazista-tradicionalista, como aparato do regime. Roberto Schwarz relacionou a nova propaganda passadista, estereotipando o nacionalismo pela restrição à imagem do interiorano meio boçal, com um estratégia de contrabalançar a tendência ao resgate das raízes que estava ocorrendo na resistência à ditadura por parte de teatrólogos, o “tropicalismo”, etc. Enquanto que, como registra Nelson Wernek Sodré em “A Fúria de Calibã, Memórias do Golpe de 64” (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994) ocorriam detenções de artistas de televisão para averiguações, quando suspeitos de subversão por tangenciarem assuntos ou convidarem pessoas não gratas ao regime, e a frequente invasão da cena de teatro por agentes de segurança que destruíam com violência as instalações. [Nota 5]
16 O próprio Sodré foi indiciado, por sua “História Nova”, não obstante ser militar, e ao que parece não ter sofrido a violência física que documenta na publicação a propósito de casos que conheceu - se bem que de muito menor impacto que outros informes conhecidos. Em todo caso, conforme reporta, a instauração de “IPM” (inquérito policial militar) procedia apenas por denúncia de qualquer profissional por parte de qualquer procedência, nas universidades amiúde ocorrendo que docentes usassem este expediente para incriminar colegas.
17 Porém Schwarz, ao que parece como comunista, não apoiou a penetração de mass midia do “tropicalismo” e outros expoentes da transvanguarda, considerando-os inconsequentes por importarem os novos meios tecnológicos que assim alienavam o significado da mensagem estética. Além disso ele criticava a temática das raízes que os novos grupos de teatro, estratégia de esquerda e resistência, estavam promovendo, como meio de provocar o comodismo da plateia e expressar algum rancor pelo que a essa altura havia se sedimentado como consenso da cumplicidade da classe média com o golpismo.
18 Ao que parece, Schwarz privilegiava a linha do progressismo ilimitado, não nacionalista. Mas fica a dúvida sobre que motivos estariam por trás da guinada passadista ditatorial de meios dos anos setenta. [ Nota 6]
19 Ora, ainda hoje, o interiorano boçal travestido de jocosidade piegas é o código da Globo para referência a “nacionalismo” - não obstante a homogeneização dos costumes e dialetos pelos próprios mass midia, e a produção cultural das regiões, que sempre foi rica e multifacetada, não restrita a desinformação. Independente de qual tenha sido a trajetória das elites após o golpe, o estereótipo interiorano é congruente com a esterilização temática provocada pela censura.
20 Além do SNI, o Ipes controlava também o ministério mais importante do país, o Ministério do Planejamento. Ele foi chefiado por Roberto Campos, figura central da CONSULTEC, professor da ESG e ex-embaixador nos Estados Unidos, associado ao Ipes. A estratégia do Ipes para assegurar a posição de Campos foi a criação, logo depois do golpe, da ANPES, Associação Nacional de Planejamento Econômico e Social, por um grupo de diretores de grandes bancos e indústrias, sendo Campos o seretário geral. O Ministério do Planejamento estava ligado intrinsecamente ao SNI, e a equipe dos acessores do ministro tinha maioria de membros oriundos da Consultec e do Ipes.
21 Dreifuss enfatiza, a propósito da equipe de Campos, que surgia como inovação, pois, “contrariando a crença já estabelecida, os membros significativos do Ministério do Planejamento não eram técnicos, mas tecno-empresários, se não simplesmente industriais e banqueiros”. (p. 427) Além disso, o Conselho Consultivo de Planejamento (CONSPLAN), onde Roberto Campos tinha o cargo de secretário executivo, criou-se em 1965, como instituição central para “assegurar a participação [da empresa] privada no processo de planejamento”. Composto na maioria por aassociados e colaboradores do IPES, ligava-se a vários elementos da vida nacional relacionados a instituições chave que então funcionavam, mas também “pelegos” de sindicatos, nomeadamente Ary Campista, José Rotta, Paulo Cabral, e Odilo Nascimento Gama. (p. 426)
22 Aqui tocamos num ponto importante, de modo a ficar totalmente definida a natureza da operação da tomada do Estado pela CIA. A operação destinou-se a apropriação dos cargos democraticamente estabelecidos pelo sistema de representação civil, por banqueiros e negociantes de empresas multinacionais, que por esse meio esperavam poder reduzir a instância legal à exclusiva expressão dos seus interesses imediatos, dominando a coisa pública por meio de decretos, de modo a ter total domínio da propriedade e consciência privada, e poder de eliminação brutal das populações que resistissem.
23 Não há dúvida sobre que esse esquema de apropriação do Estado em países do terceiro mundo pelo capital-imperialismo, que hoje apenas expressa a maior efetividade com que poderia jamais sonhar obter, uma vez que conta agora com a dominação de monopólio microinformático, podemos designar articulação business/Estado. Algo bem mais abrangente do que estudaremos como articulação business de mídia/Executivo estadunidense, ainda que obviamente estejam interligadas. A maior abrangência é obtida a partir de que não há apenas a neutralização do Legislativo por desvio carismático à imagem do Executivo, mas domínio efetivo sobre todas as instâncias legais. Assim diferenciando-se o tipo de domínio do capitalismo sobre o Estado esperável no primeiro e no terceiro mundos. Não obstante, é nítido que uma abrangência especializada nunca será menos poderosa, se o âmbito da restrição é o Executivo norte-americano.
24 Quanto a interligação das oligarquias do business de mídia imperialista, que controlavam os canais de financiamento de campanhas na América, com as operações da CIA americana, não conheço estudos, porém seria inconsequente supor negáveis. Hoje são manifestas, praticamente, pela ligação do business info-midiático com o controle virtual da produção escrita pela CIA e serviços associados em todo o mundo dominado pelos monopólios info-midiáticos do capital-imperialismo - se bem que não dispomos de fontes documentadas, é algo inteiramente previsível.
25 As duas articulações, como temos visto, nada definem relativamente aos papéis histórico, sociológico e político do Estado, ou à sua significação antropológica. São, inversamente, a desestatização das sociedades, por grupos que visam dominá-las por estratégia de guerra social a partir da reserva do poder econômico. Vale insistir que o montante do poder econômico necessário não é obtenível por nenhuma forma de exploração exclusivamente nacional e legal, sendo inversamente oriunda das associações de cartel monopolista ilegais com as práticas imperialistas sobre o terceiro mundo, perpetuando-se há quinhentos anos.
26 A seguir do seu domínio sobre o SNI, do qual se desdobrou o açambarcamento dos ministérios, a estratégia dos ipesianos obteve domímio tanto na Casa civil, com o ipesiano Luiz Viana Filho, como na Casa militar do General Ernesto Geisel. E logo os generais presidentes tornaram-se expressamente os favorecidos pelo Ipes, como Castello Branco e Geisel.
27 Dreifuss estuda minuciosamente a estrutura institucional do regime militar, mostrando a sua íntima associação com a orientação do Ipes. Em todos os setores da vida nacional o Ipes colocou a sua marca, sendo de sua proveniência recursos que hoje são corriqueiros como o FGTS , que, porém, devemos lembrar ter sido a estratégia do Ipes para contrabalançar a sua concessão à vontade dos empresários, de modo que o FGTS substituiu a lei de estabilidade empregatícia de João Goulart, assim como foram também proibidas as greves. Os salários foram violentamente achatados pelo Ipes, segundo Dreifuss, ainda que nunca se tenha assistido até agora o descalabro da contínua suspensão de pagamentos de servidores públicos, com cínicas promessas reiteradamente adiadas de liberação dos valores devidos, ou de valor baixíssimo por suspensão dos aumentos previstos pela lei há anos, como está ocorrendo agora pela ocupação do Planalto pelo “pt” ou seu “vice” (PMDB paulista). Houve uma exceção no governo de Moreira Franco em Niterói (RJ), o que causou porém enorme escândalo - e é significativo que após ter se eclipsado por tanto tempo, hoje em dia este político esteja de novo em evidência, assim como Collor, que roubou a poupança pública em 1990, está agora no senado devido a ter-se exaurido o prazo da inegibilidade desde o impeachment. Color, Moreira e Dorneles Vargas são o trio prosélito da sangria neoliberal contra o Estado e de assalto direto ao bolso dos cidadãos.
28 Vemos como tem sido inevitável referenciar a atualidade, em se tratando de implementações que se verificaram ipesianas após o golpe. O que demonstra a articulação do regime como o sistema que estrutura todo o capitalismo planejado internacionalmente na cena da descolonização afro-asiática e rivalidade bi-polar de URSS e USA. Toda a estrutura ministerial e institucional do país foi de fato moldada pelo Ipes-Ibad e Cia.
29 O INPS expressa o controle político ipesiano sobre o trabalho, assim como o Ministério da Previdência Social. Especialmente deve ser ressaltado o papel do Ipes na política educacional que estruturou as instituições de ensino e curriculuns após o golpe. São conhecidos acordos entre o Mec-Usaid e instituições norte-americanas que pretenderam controlar o sistema nacional de ensino. Mas conforme Dreifuss, o Ipes teve atuação proeminente.
30 O costume ipesiano de parodiar métodos de intervenção cultural da esquerda, mas privando-os dos conteúdos de conscientização correlatos, expressa-se aí na criação do Mobral, após a cruzada ABC de alfabetização, protagonizada por um pastor protestante norte-americano. O Mobral utilizou o método Paulo Freire, mas expurgando-o dos conteúdos filosóficos e políticos. De fato não aprovo esse método, que considero confusão psicologicamente inaceitável de público e privado, além de ser impossível, quando a psicologia lida com a necessidade de informação como algo comum a todos os seres vivos, o jargão de pedagogos freirianos referindo-se a informação essencial à formação de profissionais como “depósito” similar ao depósito bancário, na “cabeça” do aluno. Algo verdadeiramente absurdo. Porém Dreifuss documenta a utilização. Em todo caso, já reportei que na mentalidade escolar nas décadas de setenta e oitenta, bem inversamente à atualidade, havia alto senso de individualidade, e o ensino estava laicizado, desconhecendo-se mistura da veiculação das matérias com “identidade” ou demagogia familiarista.
31 Na estruturação do capitalismo local, Dreifuss documenta a abrangência do Ipes. Embraer, Sudene e canais de crédito agrícola, BNH, e inúmeras instituições chave foram também oriundas de pessoal do Ipes - assim vemos quanto ao BNH, sistema de habitação popular, que originou-se com o programa de Sandra Cavalcanti, conhecida política, conferencista do Ipes. Porém depois do desentendimento de Carlos Lacerda, de quem Sandra Cavalcantei era protegida, com o governo, ou devido ao interesse em privatizar a construção de habitações, o projeto BNH foi assumido por megaempresários da construção, como Carlos M. G. de Almeida, e Herry Cole, com direção de Mario Trindade, colaborador do Ipes. A orientação exclusiva do IPES preservou-se daí para a frente neste setor da política habitacional, já estando programaticamente assimilada pelos personagens de liderança sucessivos. [Nota 7]
32 Toda a estrutura industrial de aço-mineração e petroquímica, assim como política de eletricidade, tiveram do mesmo modo o comando assumido por ativistas e colaboradores do IPES, cuja penetração alcançou praticamente todos os ministérios, e os modulou à sua maneira, visando acesso máximo de empresários e banqueiros. Não surpreende, pois, que se tornasse “notável”, o que Dreifuss designou “a coincidência de seus interesses particulares com o papel específico desempenhados pelos empresários na administração pública.” (p. 447)
33 A articulação Banqueiros-Cia-Governo não foi desestruturada na redemocratização. Ao contrário, o sistema foi construído com a finalidade de assegurar a continuidade, pela eliminação de toda a possibilidade local de iniciativa e capital independentes. Atualmente o sistema está atuando em dois níveis de ilegalidade e crime contra a população. O roubo direto, na forma de operações inconstitucionais de apropriação do erário, como o roubo da poupança por Collor em 1990, e na atualidade o roubo do salário dos funcionários públicos . E a dominação de lavagem cerebral através de monopólio de toda informação corrente, escrita privada, educação e documentos públicos, articulado a fascismo sobre a vida privada por canais de mídia e invasão micro-informática. [ Nota 8]
Os computadores são intrusados por espiões e sabotadores, que impedem uso regular, além de impingidos por monopólio de multinacional Microsoft que condiciona aversão à escrita por dispositivos de direcionamento ideológico e impedimento factual da atenção. Quanto ao plano salário, consiste numa operação de transferência direta do dinheiro dos salários públicos para o bolso dos banqueiros, pelo seguinte esquema. O salário do servidor público, cuja dedicação à função é exclusiva, é temporariamente suspenso pelo governo – a operação começou no ano passado. Para cobrir as despesas, o assalariado usa recurso de empréstimo bancário imediato como o assim designado “cheque especial” no exato valor do salário, esperando que assim que o salário entrar cobrirá o valor. Porém o governo não paga o salário atrasado conforme o valor integral, mas apenas por parcelas, o que implica que o cheque especial não é coberto. Ou seja, a partir do primeiro mês de atraso, o assalariado passa a ter uma conta de juros descontada mensalmente pelo banco, sendo que os juros são escandalosos no país, mais de dez por cento ao mês, e assim terá que pagar mensalmente até o valor ser reposto pelo governo, o que não ocorrerá porque mesmo que o governo comece a atualizar o que está devendo – décimo terceiro, dois meses de defasagem- ele o fará por parcelas. Um salário de dois mil e quinhentos reais, rende ao banco setescentos reais por mês desde o primeiro mês de atraso do governo. Como os atrasos e pagamentos picados já duram um ano, o esquema resulta em que quanto menos o assalariado recebe, mais ele paga ao banco. Ou seja, em um ano de atraso constante e defasagem de valor do salário por pagamento picado, o assalariado deu oito mil e quatrocentos reais ao banco. Não se tem portanto previsão de como o assalariado deixará de ser escravizado ao banco pelo governo, nem o que fará para cobrir as despesas. O esquema implica portanto que as contas individuais dos assalariados públicos estão sendo usada para repasse direto do dinheiro do governo, isto é, dos impostos, para o bolso do banqueiro.
Enquanto isso, está havendo genocídio da segurança estadual por incremento de crime em nível de calamidade pública, porém não sendo do interesse do governo federal que haja segurança aos cidadãos privados, se são bandidos da jaez dessa espécie de plano salário que estão circulando nas vias públicas, sem comportamento civilizado. Que o governo não tem o menor interesse em repor a segurança, mostra-se por que não há providência eficiente, contingentes federais de exército são enviados apenas em número cinicamente insuficiente. As prisões que a polícia federal está multiplicando, de políticos corruptos no passado, não altera o roubo direto contra os salários dos servidores públicos, inconstitucional, porém não coibido pelos tribunais responsáveis, que está ocorrendo escandalosamente agora. [Nota 9]
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c) As quatro atualizações = 1 O objeto do estudo de Dreifuss, o golpe de 1964 como fenômeno da ação capital-imperialista, está sendo aqui apresentado como algo bem oposto a qualquer página ultrapassada da história. Essa concepção assoma como uma atualização do parâmetro historiador. Hoje pareceria trivial a dedução de que o golpe que instalou o regime militar representou apenas a instalação necessária para que se seguisse a atual “globalização”, como domínio das multinacionais sobre os territórios nacionais do terceiro mundo, inclusive o Brasil. Compreender a “globalização” requer que tenha havido entendimento de sua estrutura, articulada na ação golpista. Porém pelos critérios que vinham sendo utilizados, não se tem cogitado na coordenação necessária dos dois momentos.
2 Uma vez estando conscientes da unidade do fenômeno capital-imperialista de expressão pós-1945, decorre a necessidade de se questionar a amplitude do fenômeno na história local, com vistas a apurar como ele se tornou possível na abrangência das forças em presença.
3 Também interpreto a cobertura dreifusiana com ênfase maior naquelas informações, antes descuradas, que permitem considerar a operação golpista não apenas estadunidense, ainda que protagonizada pela CIA. Mas ação conjunta do imperialismo multinacional, o bloco ocidental colonialista que congrega Estados Unidos, Europa e Japão. O próprio Dreifuss menciona fatores que favorecem assim deduzir, porém não os caracteriza especificamente.
4 Também na atualização dos estudos históricos é importante o equacionamento da relação dos acontecimentos do período com aquilo que desde os anos oitenta vem sendo testemunhado como o incremento do neonazismo. Independente, pois, da vitória dos aliados na Segunda Guerra, como de qualquer fator que pudesse relacionar-se à geopolítica da segunda guerra mundial.
5 Contra todo bom senso aparente constituído pelos dados que vinham limitando a visibilidade fenomênica, é forçoso atribuir o neonazismo à acomodação regida pelos países inimigos do próprio “eixo” totalitário nazi-fascista - alemão, japonês e italiano. Os dados mostram derivar-se da ação imperialista promovida após 1945 sobre o terceiro mundo, por parte dos países congregados como “primeiro mundo” capital-imperialista. Conforme acentuamos antes, eles já não estão cindidos como na época da guerra, entre blocos totalitário e liberal. Conjuntamente atuam como sede de multinacionais que exercem domínio férreo sobre o “terceiro mundo”, decorrente da ação progressiva orientada para tal fim, desde o pós-guerra.
6 Na verdade, a expressão “pós-guerras” mascara o principal acontecimento do período, que são as guerras promovidas pelo terceiro mundo em prol de sua libertação nacional, lembrando que especialmente a África e países asiáticos estavavam sob jugo propriamente colonial e não apenas de domínio econômico. A Europa resistiu aos movimentos de libertação após 1945, declarando guerra a eles, atuando pois de modo repressivo com os mesmos métodos desumanos das ditaduras que os Estados Unidos estavam implementando na América Latina e Oriente Médio sob pretexto do anticomunismo. É sabido que os Estados Unidos intervieram também na descolonização afro-asiática, em prol dos países europeus, ou, ao menos, para impedir que as nações que emergissem independentes fizessem opção comunista. Mas o que se seguiu dos métodos desumanos dessa dominação foi o neonazismo como fenômeno político, especialmente após a dessovietização dos anos noventa. Já citei os testemunhos de Dreifuss e Julien a propósito dos elementos nazistas da composição do poder imperialista no terceiro mundo. À frente desenvolverei mais esse tema.
7 O quarto elemento de atualização histórica inerente à presente interpretação relaciona-se à redefinição necessária do capitalismo à luz do que precedentemente expomos. Inicialmente devemos salientar que capitalismo não significa livre empresa, mas inversamente, atuação de carteis ou monopolística em geral, ora presentificada nas multinacionais, como operação de domínio de mercado. Também não significa progresso intrínseco à tecnologia ou dialética de burguesia e proletariado, mas “assimetria internacional do capital” que desde há quinhentos anos tem se configurado como colonialismo e/ou imperialismo. Já os temas tratados ao longo deste estudo exemplicam e desenvolvem a redefinição proposta como termos da história efetiva recente. O livro 3 expõe a teoria contra-ocidentalista que tenho desenvolvido nesse sentido, o que tenho designado a “geoegologia”, a explicação do termo constando na parte designada. Aqui seria porém oportuno especificar alto a propósito.
8 Vários referenciais tem se tornado clássicos na tarefa de equacionar as mudanças do capitalismo verificadas ao longo do século XX, em que principalmente ocorreu a mudança da Europa aos Estados Unidos na qualidade de protagonistas da organização do modo de produção. A minha ênfase está, como salientei, num caráter ainda não explorado, se bem que sempre visível, dessa mudança em termos do imperialismo como nexo intrínseco à atuação do capital, tornado ostensivo naquele século.
9 Mas trata-se agora dos conceitos que já foram também levantados como importantes. O deslocamento do proprietário fabril oitoscentista para o controle acionário e empresarial-financeiro em geral, como identidade do capitalista, em Berle e Means. O papel preponderante da “elite do poder”, conforme os termos de Gerth e Mills, enquanto sempre maior concentração do processo capitalístico nas mãos dos técnicos e gestores especializados, com altíssimo nível de qualificação científica profissional.
10 Vários autores tem se ocupado das mudanças relacionadas à composição do que foi antes designado “proletariado”, como classe trabalhadora, mas que agora está extremamente diversificado em níveis de ocupação não unificáveis num único determinante de renda, status e cultura. Mas também, o que não tem sido hábito referenciar, a cisão no interior do modo de produção.
11 A cisão referenciada é o mais importante na superação da redução “científica”- “comunista” da sociedade à evolução psicossocial que se traduziria pela lei do capitalismo eurocêntrico na história. Para a formação de um conceito atualizado, seria necessário um trabalho teórico especialmente voltado à interpretação desses novos dados. Torna-se interessante assim o que poderia ser considerado um primeiro impulso nesse sentido, configurado por Pierre George em “Panorama do mundo atual” (São Paulo, Difel, 1970).
12 Ele congrega os aspectos já mencionados, porém com relevo para a qualidade singular do capitalismo norte-americano: preponderância dos bens de consumo, imperialismo na apropriação de matérias primas e controle de fontes energéticas, pesquisa de mercado e uso da psicologia social para colocação de produtos, produção abaixo das capacidades para evitar excesso de estoques, reinvestimento do excedente produtivo em pesquisa tecnológica. Assim resultou, como feição do neocapitalismo norte-americano, um horizonte de pesquisa, de operações financeiras e de investimentos sociais, junto a “ uma proliferação de atividades de serviços públicos, de publicidade, de distribuição de mercadorias, de public relations. A proporção de ativos não diretamente produtivos aumenta, a fim de atender o conjunto dessas necessidades.” Mas tudo isso faz-se exclusivamente em prol de um aumento dos lucros derivando de possíveis intensificações da oposição de custos e preços. (p. 34, 5).
13 Pierre George recenseia as mudanças causadas pelas novas tecnologias, desde a eletricidade, de modo que a indústria teria se tornado espacialmente independente da proximidade das fontes energéticas primitivas. Já equaciona pois o horizonte da robotização total, que tornaria a independência espacial absoluta, sendo esse o princípio da globalização como exportação das fábricas às localidades subordináveis aos interesses imperialistas. Ora, se a integração planetária é a operatória mesma do imperialismo, o modo de produção encontra-se ulteriormente à definição unívoca, uma vez que existiria um capitalismo central e o que podemos designar um “capitalismo subalterno” das nações submertidas à dependência econômica que se traduz pelo impedimento do desenvolvimento tecnológico autônomo.
14 Para Pierre George, o capitalismo seria um modo de produção cuja cisão se mostra pelos insumos diferenciados: o subdesenvolvido, dependente de matérias primas tradicionais e o desenvolvido, coordenado pela automação. Mas seria a meu ver a própria história da exploração imperialista que deveria implicar não numa dicotomia de antes e depois, relativa à revolução industrial, uma vez que o estado de coisas nas economias subdesenvolvidas não são de fato independentes de suas relações atuais com as economias desenvolvidas.
15 Descontando-se defasagens de interpretação - como considerar que a heterogeneidade étnica brasileira não comporta qualquer preconceito de “raças” interno - Pierre George considera oportunamente que a expressão “revolução industrial” já devia ser superada por imprópria, para caracterizar o desenvolvimento dos países centrais, uma vez que este não se reduz a um acontecimento datado no tempo. Mas é um processo continuado, uma “fase de transformação contínua e acelerada” inversamente a qualquer contingência única por decisiva que fosse na evolução de técnicas, economia ou sociedade. (p. 29)
16 Por outro lado, nós o vemos, esse processo implicando a existência de um capitalismo subalterno, este não se define por qualquer acontecimento ou processo autônomo desse tipo.
17 Ora, considero bem mais viável conservar o uso da expressão “revolução industrial” para o processo continuado, uma vez que o complemento “industrial” já redefine contextualmente a substância da “revolução”. Mas também deveríamos proceder a ciência da História na margem anexada como fenômeno do capitalismo, a partir do conceito de contra-revolução industrial ativa, a qual seria o processo geopolítico da era histórica que define o imperialismo.
18 A questão antropológica da integração planetária do homem, está assim interligada essencialmente ao conflito geopolítico, de um modo que temos que pensar, se o que queremos é a superação dos antagonismos visando uma era de cooperação dos povos e harmonia universal. Como vimos, o imperialismo não define a sociedade norte-americana, que está, como todas, enfrentando um domínio oligárquico que também não tem no capitalismo científico-industrial a sua origem, ainda que o tenha quanto ao modo de operação.
19 Mas a definição do neocapitalismo estadunidense em Pierre George define com muita clareza a obsolecência do capitalismo clássico europeu, enquanto um primeiro sonho de integração planetária do capitalismo, ou seja, um primeiro imperialismo de ambição mundial, cujo fracasso ou limite histórico ocorreu na Guerra de 1914. Os Estados Unidos viabilizam pois, o sonho atual dessa integração.
20 Porém assim seria necessário, a meu ver, uma consciência menos confusa a propósito do papel integrado do próprio imperialismo, como o que se expressa atualmente na cartografia do conflito Norte Sul, que exponho algo minuciosamente no “livro 3” deste estudo.
21 É certo que George antevia um objetivo integracionista dos países europeus de concorrência à hegemonia estadunidense, algo que Aron também testemunha. Por outro lado os japoneses tendo substituído os europeus quanto a porções do imperialismo asiático desde o pós-guerra. Também superaram os Estados Unidos na produção da tecnologia de ponta, segundo outros, tendo porém mais países do extremo oriente se destacado na produção tecnológica de exportação, os assim designados “tigres asiáticos”.
22 Porém hoje o que os geógrafos relacionam ao esforço dos “blocos” regionais a princípio econômicos não é uma rivalidade das economias do primeiro mundo, mas sim a cisão de economias nacionais e capital privado transnacional. Já a situação do capitalismo central, enquanto conjuntamente oposto ao subalterno ou do terceiro mundo, naquilo que se relaciona à atual União Europeia, estaremos examinando a seguir, em nosso estudo do capitalismo histórico. Em todo caso, podemos convir que após os primeiros prognósticos, não houve superação do Estado nacional na maioria dos casos, como o americano e o asiático, e a Inglaterra voltou à independência recentemente, obtendo penosamente desligar-se da União Europeia. Mas houve, sim, a redefinição da cartografia planetária conforme a duplicidade dos status hemisféricos do “sul” (países subdesenvolvidos) e “norte” (desenvolvido).
5 = O Golpe na História : Trajetória do Capitalismo
a) O capitalismo europeu : colonial escravista e industrial revolucionário
1 O capital-imperialismo, operação colonial escravista do início ao fim, que já dura cinco séculos, está organizado desde o quinhentos, em torno de empresas monopolistas. Ou seja, companhias que articulam um círculo vicioso entre seu funcionamento e um domínio de cargos políticos que monopolizam a organização social exclusivamente em seu proveito.
2 O círculo se estabelece entre um poder de cargos públicos monopolizado pelo financiamento dos capitalistas, e uma elite de capitalistas que detem monopólio sobre a economia concedido pelo poder desses mesmos cargos públicos.
3 Portanto, o conhecimento histórico que equaciona a evidência do colonialismo e imperialismo para efeitos de caracterização do mundo pós-feudal, já não admite qualquer identidade entre “capitalismo” e “livre empresa”. Pelo contrário, “capitalismo” se define por monopolismo, prática que agrega recursos ilegais de cartelização, imperialismo e escravismo colonial, visando justamente coibir a livre empresa em todo o mundo. Aqui é importante salientar. O cartel é um mecanismo de junção de algumas empresas visando nada menos que o domínio do mundo em seu setor de mercado. Este mecanismo efetiva-se desde a transição ao século XX. Mas anteriormente, os albores da colonização derivam do monopólio de setor obtidos pela aliança do capital com as monarquias europeias.
4 Em nossa definição, não há vínculo necessário entre capitalismo e liberação da subjetividade, assim como não há entre capitalismo e funcionamento da democracia constitucional. Quanto ao vínculo entre capitalismo e trabalho assalariado, pode ser considerado uma tendência a partir da Revolução Industrial do século XIX, porém não é, do mesmo modo, necessário. A existência do trabalho assalariado em um lugar pode estar condicionada pelo escravismo em outro, como na era neocolonialista recente. Além disso, surtos de superexloração do operariado levam a relativizar a condição de “assalariado”.
5 Ninguém considera que o camponês do latifúndio, que está preso ao patrão por dívidas que por vezes atravessam gerações, referentes às compras de subsistência no “barracão” do mesmo patrão, embora não formalmente escravo, não o seja factualmente. Mas o mesmo esquema é encontrado na cidade capitalista bastante amiúde, apenas trocando o “barracão” pelo inteiro “mercado”. O que não tem nada de novo afirmar, porém ocorrendo agora a radicalização do neoliberalismo econômico, que até mesmo está impondo “arrestos” inconstitucionais aos salários de servidores públicos como às verbas de funcionamento das escolas, hospitais, etc.
6 O fato de que antigas formas de domínio bárbaro foram assim solapados também, pela superveniência da sociedade constitucional, não basta para caracterizar o banditismo colonial escravista como fator de progresso - ao contrário do recente argumento colonialista de Eagleton. O monopolismo capitalista é apenas uma entre quaisquer formas de brutalidade. Quanto à organização democrática, hoje sabemos que não eram universais as condições do barbarismo, antes da colonização havendo sociedades pacíficas, e que a superação do antigo regime bárbaro da monarquia europeia não se deve ao capitalismo, mas à organização da sociedade civil.
7 Também não se poderia concordar que as formas de domínio pretéritas eram melhores do que o moderno capitalismo, apenas porque eram circunscritas a territórios de muito menor extensão, ao contrário do recente argumento ilegalista de Foucault, que também confunde organização social e propriedade capitalista. Por outro lado, o monopolismo não poderia ter poder de açambarcamento das instituições de governo, de modo a garantir o seu monopólio, atuando apenas contra a sociedade local. Somente com o colonialismo escravista desde o quinhentos, desdobrado no imperialismo desde o oitoscentos, é que o modo moderno específico de monopólio econômico-político se torna possibilitado.
8 As formas dessa atuação, característico do escravismo dos pobres europeus tão brutais na Europa pós-feudal como a dos índios e negros nas Américas colonizadas pelo capital monopolista europeus dessa época, estão minuciosamente relatadas em Maurice Dobb (“A evolução do capitalismo”). Aí relata ele como se fizeram decretos leis expulsando os camponeses do campo pelo capitalismo nascente, mas havendo também leis que prescreviam que fossem escravizados todos os vagantes sem moradia, expostos a horríveis castigos físicos. A contradição de ambas as leis não era inconsciente, mas propositada, conforme Dobb.
9 Tais práticas desumanas contra os pobres na Europa apresentam-se paralelas à transferência da renda da aristocracia agrária feudal à burguesia e aristocracia modernizantes, por meio de fraudes e estratégias de endividamento à indústria do luxo. Houve, pois, oportunidade para nobres se integrarem ao novo sistema de exploração, enquanto a criação de qualquer novo meio de exploração econômica produzia uma geração de capitalistas competindo com os já conhecidos, e superando-os - essa uma verdadeira tendência, conforme Dobb.
10 Assim os capitalistas, “aristocratas” ou “burgueses”, isto é, plebeus, alcançam o característico círculo vicioso de monopolismo e estrutura de cargos, refletindo-se na composição injusta da própria lei. Mas, repetindo, o monopolismo, para atuar por tempo suficiente nas duas frentes do antagonismo social, interno e externo, só podia ser exitoso se a sua definição real fosse a atividade em grande escala, colonial, o que Dobb também considera. É um mito que apenas Portugal e Espanha foram aí protagonistas antes do século XIX.
11 Para acabar com a ideologia weberiana do capitalismo como racionalidade da empresa, quando se trata intrinsecamente de banditismo e colonialismo, Leo Huberman (“A história da riqueza do homem”, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986) assinala algo do número de empresas de alcance global no período europeu colonial escravista dos séculos XVI a XVIII: “Havia sete companhias das 'Índias Orientais', sendo as mais famosas a britânica e a holandesa; havia quatro companhias das 'Índias Ocidentais', organizadas na Holanda, França, Suécia e Dinamarca; companhias do 'Levante' e companhias 'Africanas' também eram populares; e de interesse particular para nós, na América, eram as companhias 'Plymouth' e 'Virginia' organizadas na Inglaterra”. (p. 92). Acrescenta ele o nome de uma das primeiras e mais famosas das novas companhias, de modo a enfatizar o seu caráter oportunista: “Mistério e Companhia dos Aventureiros Mercadores para a descoberta de regiões, domínios, ilhas e lugares desconhecidos”.
12 Huberman comenta haver dúvida sobre se os monopólios esgotavam ou não o potencial de exploração das colônias recém-descobertas, sendo mais fácil considerar que a expansão comercial seria maior se não houvesse monopólio para exploração. Era também importante o papel das casas bancárias, como a do judeu alemão Fugger, que nomeava os monarcas europeus por conta dos empréstimos de que estes precisavam para se coroarem, e até o papa devia dinheiro a Fugger nessa época (p. 94). Eis como o rei recuperou a centralidade, estabilizado o seu exército entre os séculos XVII e XVIII, superando a independência dos senhores feudais do medievo.
13 Entre estes monarcas, a rainha inglesa sobressaía por seus recursos de simulação, de modo a enganar Fugger em alguns trocados, o que o irritava bastante, tornando-o um missivista ameaçador. Assim, entre outros recursos de que Fugger se ressentira, a rainha estimulou a pirataria marítima dos ingleses, emprestando navios, de modo que pudesse porém participar dos lucros sem ter que declará-los a ninguém. (p.91) O comércio de escravos africanos para as colônias iniciou-se entre Portugal e Inglaterra, ao longo do século XVI, alastrando-se logo por toda a Europa.
14 O primeiro navio negreiro que aportou nas então colônias inglesas na América, onde agora são os USA, viera da Holanda em princípios do século XVII. O primeiro inglês escravista foi John Hawkins. A rainha interessou-se muito por ele, assim que tomou conhecimento dos seus grandes êxitos monetários, logo emprestando navios de modo a participar dos lucros do tráfico negreiro. Segundo Huberman “A 'boa rainha Bessie' achou tão excelente a ideia desse assassino e raptor, que o fez cavalheiro após sua segunda expedição negreira”. Essa segunda expedição foi justamente a que já contava com um navio real, cujo nome era “Jesus”. Hawkins escolhera por brasão de sua nobreza recém-adquirida um negro acorrentado. (pgs. 160 e segs)
15 A conversão da sociedade assim designada burguesa, com a queda do regime feudal na Revolução da França, só teve um interregno liberal em inícios do século XIX, quando se tratou de quebrar a prerrogativa ibérica nas Américas. Para uma transformação substancial do monopolismo, não para liquidá-lo. Logo a seguir, em meios desse século, a Europa estava rearistocratizada quanto à mentalidade corrente dos próprios grandes burgueses, e o capitalismo era geralmente de modelo prussiano - nunca tendo havido aí defecção da nobreza, como também não houve na Inglaterra. É este capítulo da história oitoscentista que está recalcado na historiografia, para preservar a lenda de que por toda parte o capitalismo é como na Inglaterra, o impulsionador da Revolução Constituicional, e, como dizia nostalgicamente Edmund Burke, o avesso vulgar, sofístico e calculador, da idealizada chilvary medieval. Assim nem mesmo se poderia questionar a causalidade atribuída da mudança social ao determinismo econômico. Por outro lado, a idealização do feudo não se restringe a um apanágio direitista. Seria bom que se indagasse a propósito da origem do termo “comunismo” - de fato, uma idealização da comuna do servo medieval, suposta isenta de ideologia.
16 Já há algumas décadas a historiografia tem questionado até mesmo a unidade econômica do feudo para atribuição de qualquer “modo de produção” unívoco ao medievo. Não era certamente desmonetarizado - a propósito, o testemunho da descoberta em Georges Duby, “A história continua” (Rio de Janeiro, Zahar, 1993), documentando também o elitismo meio ilegalista em geral e da escola dos annales em particular. [Nota 13] Que este não se restringe a partidarismos, documenta Peter Burke (“A escola dos annales (1929/1989): a revolução francesa na historiografia”, São Paulo, Editora da Unesp, 2910, p.82), a propósito da colaboração de Labrousse e Mousnier, respetivamente o marxista insólito e o direitista típico da escola.
17 A oposição ao estado de coisas do privilégio monopolista, como pioneira assunção teórica da legitimidade da economia do trabalho, parece-me dever ser atribuída a John Locke. Em seu “segundo tratado do governo”, entre os parágrafos 40 e 50, bem inversamente a saudosismos feudais, ele utiliza justamente a América para argumentar que nas terras americanas não há valor de posse senão pelo sistema colonizador.
18 O índio possui a extensão em que se estabelece, não resultando necessariamente qualquer montante de renda. Mas, sim, se houvesse apropriação e monopólio sobre o que fosse cultivado na mesma extensão de terras. Ao ver de Locke, essa possibilidade decorre da transformação do valor de uso em valor monetário, que em seu uso prático desde a durabilidade do ouro, conserva contudo apenas a utilidade de servir como critério das trocas de produtos perecíveis.
19 O argumento de Locke é pois antimercantilista, em pleno século XVII - ainda que calcado numa ignorância sobre a existência do trabalho aborígine adaptado ao ambiente tropical, ignorância que até bem recentemente não havia ainda sido desfeita.
20 Ao ver de Locke, pois, a posse da terra ou do ouro só tem valor por causa do que se seguiu, como possibilidade de acumulação, do trabalho. É este que explica o valor.. Na América pré-colombiana, suposta não haver trabalho acumulável, não se seguia a ideia do valor.
21 Assim Locke considera que esse é o estado originário da economia, decorrendo todo o subsequente pensamento social e econômico em torno da legitimidade da renda. Se não houvesse o privilégio monopolista, jamais o valor da produção resultaria na desigualdade da renda, apenas na desigualdade dos frutos hauridos de cada trabalhador, que seria porém socialmente proveitosa. Podemos conjecturar que Locke pensou num regime de trabalho em proveito próprio, mesmo as trocas poderiam ser de valor igual, e o progresso técnico se seguiria da colaboração.
b) O Imperialismo Contra-revolucionário- industrial
1 A Revolução Industrial em curso na Europa desde o século XIX, como vimos, é apenas um aspecto da mudança que abrange a transformação do colonialismo em imperialismo inglês nas Américas, e depois em todo o terceiro mundo. A propósito da Revolução Industrial oitoscentista, seria muito mais útil que os historiadores não deixassem de referenciar a história da América Latina, especialmente Paraguai e Brasil. Assim eles teriam que considerar a Revolução Industrial na Europa efetivamente imperialista, isto é, dependente da contínua Contra-Revolução Industrial alhures.
2 O livro de León Pomer, “Paraguai: Nossa Guera Contra Esse Soldado” (São Paulo, Global, 1984), documenta bem como os industriais ingleses estavam associados para obter ação governamental de reserva imperialista de mercado, mesmo antes do capitalismo de cartel e o neocolonialismo afro-asiático serem a norma. Também registra como a indústria paraguaia de Lopes estava bem aparelhada, com desenvolvimento autônomo de patentes, integração da heterogeneidade nativa na produção, e bons níveis de homogeneidade da qualidade de vida, antes da intervenção destrutiva inglesa que mobilizou por meios diplomáticos a guerrra regional.
3 Pomer acentua especificamente que a intervenção inglesa visando a guerra, através de empréstimos e ação diplomática, foi decorrente do interesse comercial e industrial associado, visando captura do mercado, porém não só isso. Foi expressamente voltada contra a nacionalidade “Guarani”, visando subjugação racista, geopolítica. Pomer cita a declaração absurda de um contemporâneo estadunidense, sobre a opinião do diplomata inglês Edward Thorston: a existência do regime paraguaio “é nociva, e sua extinção como nacionalidade... seria muito proveitosa para seu próprio povo, como também para o mundo inteiro”. (op. cit. p. 19) Porém daí a fácil cooptação de governos americano latinos que odiavam o povo, por serem governos testas de ferro do eurocentrismo à exemplo de Pedro II, mas também o argentino Mitre, que prolongava a guerra para auferir proventos e dominação política (p. 44). Especialmente “o ouro brasileiro afluía abundante ao país [Buenos Aires], devido às grandes compras que o Brasil fazia para abastecer seu grande exército”.
4 Para tais tipos de governantes americano latinos, associados ao imperialismo inglês do século XIX, possibilidades como o Paraguai de Lopes eram assim considerados: “Exemplo de independência, da vontade nacional na condução dos destinos da Nação sem submissão aos interesses britânicos, são maus exemplos. Outros poderão ser tentados a se apoiar neles e os imitarem.” (p. 44)
5 A Praieira, o maior dos levantes nacionalistas da era romanticista brasileira, contra o império local, foi duramente reprimida por um aparelho armado que considerava, na Pernambuco de 1848, apenas dois partidos, a Ordem, onde estavam “os defensores da situação dominante”, e a Praia, as “classes inferiores e ignorantes da população”, conforme Werneck Sodré ( “História da Burguesia Brasileira”. Petrópolis, RJ, Vozes, 1983, 85).
6 Na Argentina, segundo Pomer, o resultado do que Mitre designava “grã política” de guerra eram, em 1871, a febre amarela oriunda de um Paraguai devastado, e, internamente, um rol de 85 tentativas de revoluções, 27 sublevações de tropas e 43 levantes de contingentes militares por atrasos de pagamentos. As somas em dinheiro investidos na repressão da resistência interna, acrescidas dos gastos de guerra, foram avaliadas em 4 milhões de libras. “Isso sem falar nos mortos, feridos e expatriados” que “não tem preço”. Mitre perseguiu inúmeras pessoas que estavam contra a guerra ao Paraguai. “Corja de pilantras e charlatães”, “governo de palhaços”, eis como se expressava o intelectual Juan Maria Gutierrez em carta de 1870, a um amigo, traduzindo um sentimento generalizado.
7 Nada muito diferente do que estamos vendo ocorrer no Brasil devido à quadrilha de roubo direto da poupança e salários públicos, inteiramente mancomunada com multinacionais da “globalização”, estas que estão impondo um regime de extorção monetária e opressão de atendimento que à frente examinaremos. Por ora sendo importante observar que uma situação pacífica só poderíamos afirmar que há num plano externo, pois internamente desde a “globalização” e neoliberalismo econômico do final dos anos noventa, há guerra constante nas cidades, entre “comunidades” (favelas) de governos paralelos armados como crime organizado, que estão instaladas majoritariamente em todo o imenso contingente povoado por um megafavelamento que só faz crescer continuamente, de modo espantoso, em áreas extensas, da noite para o dia. Em cada comunidade está vigente pois uma lei autônoma, instituída pelo grupo dominante local, não constitucional, garantido pelas armas. Eventualmente há interferência desses grupos na vigência da lei constitucional do perímetro urbano regular.
8 Pomer citava as relações do Brasil contemporâneo com o Uruguai, que havia integrado a aliança contra o Paraguai na guerra oitoscentista, mas nos anos setenta do século passado protagonizava o levante dos Tupamaros, contra o imperialismo. Em plena ditadura militar, o General Golbery concitava ao Brasil intervir no Uruguai, referenciando a teoria da “história continental”, de Ratzel, como o que estava se cumprindo agora, e por aí argumentando que se “os países fortes se tornam cada vez mais fortes”, por outro lado “os fracos cada vez mais fracos”, as pequenas nações estavam fadadas a não subsistir, assim devia haver uma aliança bilateral do Brasil com os Estados Unidos a fim de eliminar o germe “estranho” do continente, “na defesa do mundo Ocidental e cristão”. (p. 28, 30)
9 Quanto ao Brasil do oitoscentos, é exemplar do que se poderia designar a reserva da nacionalidade como um ramo do imperialismo internacional. O fim do Império dos Pedros pelo levante positivista republicano coincide com a invasão do capital e do elemento imigrante, não apenas como mão de obra substitutiva dos escravos ora libertos. Mas principalmente como protagonistas da produção comercial e industrial.
10 A dívida externa crônica brasileira, da Independência até a Globalização, desmente a versão de Lenin a propósito do imperialismo como simples fase do capitalismo. Essa fase, conforme Sodré, que segue Lenin, seria da exportação de capitais, iniciando-se no fim do século XIX, que coincide com o avanço do capital-imperialismo sobre Ásia e África. Porém o próprio Sodré antes testemunha que aqui a exportação de capitais financia os governos testas de ferro do imperialismo, desde a reserva da independência pelo colonialismo luso, que resultou numa independência pífia, um império da dinastia dos próprios colonizadores que durou até o levante republicano. E desde aí ao longo do período republicano, sempre que a representação constitucional atinge o nível de ruptura para com a abjeta subserviência, ocorre a intervenção imperialista aberta por via armada. Como devemos considerar o golpe militar recente, uma vez que só teve vigência devido à repressão por essa via.
11 Quanto à independência, em princípios do século XIX, vemos que a ingerência inglesa é a verdadeira mola do processo efetivo. Não porque não houvesse levantes de libertação nacional na colônia portuguesa local, que durava já desde o quinhentos, e levantes sem relação com a ambição continuísta dos Pedros. Mas sim, pelo contrário, porque a Inglaterra financiou o continuísmo português contra esses levantes, do que resultaram empréstimos vultosos, como de um milhão de libras para enforcar Frei Caneca.
12 Os movimentos de libertação nacional sem relação com o continuísmo dos Pedros, nem mesmo são tipicamente de Tiradentes, mas já abolicionistas e republicanos, com participação popular. Porém foram com muita evidência, nacionalistas quanto à economia. Ora porque tratava-se da injunção do livre comércio, monopolizado até então pelos colonizadores, ora porque já na época do Romantismo manifestava-se consciência da necessidade da indústria nacional. [Nota 14]
13 Assim o império foi vital para a Inglaterra, porém a proclamação da República, contra a dinastia dos Pedros, ocorreu ulteriormente também por conveniência ao imperialismo inglês, devido à necessidade deste na ruptura com o compromisso escravista do império. A essa altura, a estrutura agro-exportadora que define tipicamente o “imperialismo”, como dominação econômica dos países centrais sobre o terceiro mundo, já estava consolidada, e a dominância na importação de manufaturados tranquilizava quanto ao futuro. [Nota 15]
14 Muito se tem a ganhar com a crítica da versão da história local moldada pelas oposições características do capitalismo imperialista, ignorando a definição complementar da “margem”. Não pode continuar crível a oposição de cidade e campo, numa base tal que a opção nacionalista da economia, por ser da industrialização independente em ruptura para com o imperialismo, seria ao mesmo tempo a da classe média urbanizante, contrária ao domínio da plantation agro-exportadora.
15 Essa versão eu mesma aprendi como válida desde meus estudos de Sodré, centralizados na “História da Burguesia Brasileira”, utilizando-a até recentemente. Não se trata de deslocar de todo importantes contribuições da publicação de Sodré, porém minha descoberta do estudo de Warren Dean sobre “A industrialização de São Paulo” (Rio de Janeiro, Bertrand, 1991), desfez o formidável obstáculo leninista na compreensão da história local, resultando na coerência obtida a propósito do sentido do golpe de 1964, como vemos desde aqui.
16 Bem inversamente à oposição simples de cidade e campo, as classes em presença desde a República são: a elite agrário-exportadora cafeicultora - mas depois também de outros ramos agro-pecuários e extrativistas, sem quebrar a hegemonia do café; a elite industrial local primeiro imigrante; a classe média urbana importadora dos industrializados imperialistas; os representantes da penetração capital-imperialista fornecedora da importação de industrializados e compradora da produção de matérias primas; burocracia governamental e funcionalismo público; forças armadas; clero; intelectuais; proletariado urbano; proletariado campesino; peão (curral eleitoral) sertanejo, ramificado no peão (curral eleitoral) favelado urbano.
17 A trajetória da República, após o império submetido à Inglaterra desde a aportação de João VI por injunção do governo inglês na estratégia contra Napoleão, não expressa senão a trajetória da contra-revolução industrial na margem, protagonizada pelo capital-imperialismo, tendo por alvo o empresariado local - isto é, nacional porém a princípio imigrante.
18 A estrutura agro-exportadora típica é efetivada pela aliança dos latifundiários com a potência capital-imperialista que compra a matéria-prima, reservando assim o mercado para os seus manufaturados importados. Ao longo do século XIX, como Dean reportou, a Inglaterra tinha preponderância, porém não era única no negócio. Sodré, inversamente, registra opiniões como a de Say e outros, de que o Brasil tornara-se colônia inglesa por essa altura, não obstante, como todos concordam, já desde princípios do século XX havendo a dominância dos Estados Unidos. Contudo, Dean revela com clareza que a repressão contra a indústria nacional teve na classe média urbana o principal agente, devido à preferência dela pelo produto importado, e não necessariamente no capital agro-industrial. Por outro lado, mostrou também conclusivamente que a classe média urbana não é necessariamente contrária ao capital agro-industrial.Isso, como poderíamos acrescentar, já que é o pivô do interesse da rapina imperialista com que ela se identifica psicoticamente.
19 A trajetória da indústria nacional e sua repressão contínua pelo imperialismo pude assim aqui mostrar bem articulada em segmentos coerentes, de que se segue a plena inserção do golpe de 1964 na história e de modo nenhum algo anômalo.
20 A princípio, conforme documenta Dean, a indústria dos imigrantes era meio de reforçar o seu comércio de importados ou beneficiar sua lavoura. Assim construíram-se refinarias de açúcar, e Dean registra como algumas delas acabaram por serem açambarcadas por franceses, que já possuíam fábricas na cidade do Rio de Janeiro, mas algumas foram consruídas por fazendeiros em Ribeirão Preto. (p.44)
21 A cafeicultura dedobrou oficinas produtoras de equipamento modelado e usinado, para uso das fazendas e de estradas de ferro como caldeiras, bombas, vagões de carga e similares. A Companhia Paulista de Estradas de Ferro estava construindo locomotivas inteiras em 1911. Mas o dinheiro da lavoura e especialmente do café, antes da Primeira Guerra, produziu também vários ramos independentes dos requisitos de cultivo, como enlatados de carnes, curtume, fornos para tijolos, aço, entre outros exemplos. Nem sempre com matéria prima local. como foi o caso da cervejara, drogas, pólvora, artigos esmaltados e aparelhos sanitários. (p.45)
22 Conforme Dean, portanto, as estradas de ferro foram construídas com capital nacional, dotado de monopólio governamental (p. 14; 52), muito por interesse de escoamento das safras da lavoura. Ao contrário, Sodré informava que elas foram predominantemente inglesas, objetivando transporte dos produtos industrializados ingleses a todas as regiões compradoras, por mais interioranas que fossem. [Nota 15 b]
23 Dean registra que os fazendeiros paulistas também investiram em construções públicas, eletricidade, água, bondes e telefonia. Os imigrantes nas cidades eram principalmente importadores que forneciam o comércio varegista, e eles mesmos associados antes às grandes casas internacionais. Reporta Dean o caso do Rio de Janeiro, onde os portugueses suplantaram as casas importadoras inglesas que haviam dominado até 1880, porém sem as consequências fabris que atribui a São Paulo apenas por um conjunto de circunstâncias fortuitas, não por fatores congênitos que diferenciassem os paulistas. Ele critica deste modo a tese de Maria Isaura a propósito de alguma diferença de mentalidade não-aristocrática dos paulistas, relativamente aos cariocas, mostrando Dean que alguns dos empreendedores de São Paulo vieram do Rio de Janeiro, migrados quando declinou a fertilidade da terra. (p. 47, 48)
24 Dean salienta que as defasagens de transporte ferroviário em São Paulo, só tardiamente superadas, implicou que o cultivo tivesse começado após a abolição, que assim não causou o dano que se verificou na lavoura de alhures. Assim, a seu ver, “até certo ponto, portanto, o que ocorreu foi que o sistema de mão de obra livre estimulou uma perspectiva capitalista, e não o processo inverso”. (p. 49) Além disso, nessa época já não se tinha tanta confiança na lavoura cafeeira como antes, tornando-se compreensível que em São Paulo, desde o início se almejasse densenvolver formas de capitalização independente. E os fazendeiros controlavam a máquina do Estado, devido a terem que nela se imiscuir a fim de garantir a propriedade imobiliária que não era inteiramente regulamentada na época. Em São Paulo, contavam também com um mercado lucrativo, com maior circulação monetária. (p. 51)
25 Mas esses fatores apenas explicam o impulso capitalista em São Paulo, não a qualidade do seu desenvolvimento. A propósito, Dean é bem mais explícito. Interessado em demonstrar que a conversão do comerciante importador em industrial nacional não teve origem qualquer possivelmente relacionada a uma atitude nacionalista definida contra o capital imperialista, Dean considera o caso do Rio de Janeiro. O conflito de ingleses e portugueses, em que estes ficaram com o negócio desde que se apresentou a concorrência alemã aos primeiros, e também construiu-se o cabo submarino de modo que comunicações com as matrizes fornecedoras se tornaram viáveis, só exemplificaria uma antítese do interessse importador nacional e internacional limitada ao século XIX, e em que venceu o interesse nacional, não obstante representado pelo colonizador português. Mas não se seguiu um desdobramento industrial, e a indústria do Rio de Janeiro não se antecipou à paulista.
26 Em São Paulo, onde as consequências da indústria nacional se desenvolveram, ao contrário, os ingleses nunca tiveram parcela significativa do comércio: “Ao invés disso, importadores imigrantes independentes partilharam do mercado com várias grandes companhias mercantis administradas por súditos germânicos, cujas operações na Europa eram tão dispersas que não permitiam o controle por parte dos fornecedores”. (p. 30). A essa altura os ingleses mudaram de política, financiando três fiações em São Paulo, e envolvendo-se com a circulação desse produto. Como reitera Dean: “O mercado paulista” nunca foi submetido a “um só país ou um só truste financeiro”. (p. 55)
27 Os importadores paulistas, de origem imigrante vária, fabricavam mercadorias que favoreciam o seu comércio de importação estrangeira, como embalagens e outros complementos. Ou, eventualmente, substituíam a importação quando o preço demasiado alto por peso, unidade transformada ou estocagem tornava isso vantajoso; o produto era perigoso ser transportado como o acetileno ou vidro; ou a indústria era de alimentos, como biscoito ou pasta.
28 Assim a natureza mesma da atividade importadora tinha consequências na atividade industrial, à exemplo da firma importadora sueca Holmberg Bech, que começou a produzir aço em São Paulo, ocupando técnicos e máquinas já localizados aqui por necessidade das suas instalações de importação. (p. 26) E os importadores nacionais exerceram influência na indústria nacional ao se converterem em importadores de meios de produção, como máquinas e tecidos, também motores e automóveis, e, assim, fornecedores, como Frederick Upton, a Mesbla, Lion & Companhia. (p. 36) Já em 1929, “as atividades industriais de importadores e de importadores convertidos em manufatores, impressionantemente variada, incluíam o controle de todas as fases da manufatura têxtil, da moagem, do engarrafamento de cerveja e de bebidas, da manufatura de ferragens, da forja do aço e do latão, da laminação de metais, da estampagem do alumínio, da esmaltagem do ferro fundido, do fabrico do papel, da refinação de óleos vegetais e de toda a sorte de máquinas feitas de encomenda - elevadores, caldeiras, fornos, bombas, balanças e equipamento de moagem. (p. 35) É assim, ao que parece, pelo fator integrativo e portanto, por uma diferença de natureza, que Dean explica a verdadeira singularidade da indústria paulista, não por mera diferença do fator quantitativo: “Com efeito, se observarmos os outros casos de economias orientadas para a exportação na América Latina” a conclusão é que “o desenvolvimento de São Paulo foi único”. Ele recusa aí as análises dos primórdios da industrialização que geralmente se concentram na questão do grau em que as manufaturas nacionais foram capazes de suplantar as importações.(p. 15) Como vimos, a seu ver o que explica realmente o desenvolvimento industrial paulista é primeiro o caráter associativo, complementar, do empreendimento nacional ao estrangeiro, mas, em seguida, a integração obtida entre os vários setores da produção.
28 Dean critica várias perspectivas correntes acerca do conflito de interesses na origem da indústria nacional, ao capital internacional. Além do caráter “complementar” ao interesse estrangeiro, da indústria local na origem, um termo que se utiliza para a indústria do terceiro mundo atualmente, também havia segundo ele fábricas “autorizadas” - prática igualmente recente. E a princípio as firmas europeias elas mesmas podiam ter interesse em financiar a indúsria local, porque exportar no setor era dificultado, como no caso da moagem do trigo relativamente à exportação de farinha, ou para melhorar a posição, como na indúsria têxtil.
29 Ou o importador e associado imigrante nacional alcançava posição tão forte que se tornava independente. Tendendo à confusão de sua identidade de importador com a do fabricante, ele também não temia que a fábrica nacional independente chegasse ao status de concorrente, e não se preocupava muito com a questão tarifária já que como importador e fabricante, qualquer que fosse o favoreceria. (p.31)
30 Conforme Dean, já em 1870 pode-se considerar o impulso industrial consolidado, mas nesse início utilizavam-se meios de burlar a preferência dos consumidores por importados, como uso de rótulos falsos ou cópia de partes de máquinas. (p. 17A invenção de patentes local, como a máquina de beneficiar café de Engelberg, era vendida ao exterior antes que explorada como política viável da industrialização nacional - ainda que eventualmente fabricada aqui não resultava numa linha de produção.
31 Por volta de princípios do século XX, ocorre a fusão da elite importadora-industrial imigrante com o capital agrário-exportador dominante, por matrimônio geralmente de filhas de fazendeiros com imigrantes, mas por vezes de filhas de imigrante com filhos de fazendeiros. Nessa decorrência, Dean mostra que o imigrante local não corresponde totalmente ao ideal tipo do homem marginal da sociologia de Park e outros. O conceito de “margem” para as economias do terceiro mundo, dependentes por serem anexadas ao imperialismo do “centro” revolucionário industrial, realmente não tem essa aplicação.
32 O imigrante explora a ideologia colonial que é uma política racial de intenso desprezo às etnias nativas ou escravizadas, criando por outro lado um mito da nacionalidade superior, colonizadora europeia cristã, racional, poupadora e trabalhadora.
33 A miscigenação é escamoteada, embora existente, mas quando se trata da assimilação do imigrante europeu capitalizado, há ambivalência, como Dean sublinhou. Por um lado, certo esnobismo dos patriarcas de origem, relativamente ao ramo misturado da família prestigiosa. Por outro lado orgulho pela ascendência europeia fortalecida, e naturalmente pela perspectiva da capitalização. A situação é parecida com a nobilitação do capitalista plebeu na Europa, a partir do casamento com moças da antiga aristocracia em dificuldades financeiras. Não obstante o patriarca da cafeicultura brasileira ser dominante na economia, e não ter dificuldades desse gênero, o desenvolvimento industrial desse capital acumulado seria esperável, e a aliança imigrante efetivou-se como o meio.
34 Assim o desenvolvimento do capital agrário-exportador se coaduna inteiramente como impulso ao capital industrial, a peculiaridade do agente imigrante não seria algo anômalo neste contexto, correspondendo apenas à característica estritamente local da composição social, como secular colonialismo ideológico. Apenas é anômala a contrariedade ao processo local, pelo imperialismo.
35 Houve, efetivamente, após longa unidade identitária do comerciante importador, fazendeiro e industrial, por vezes uma só pessoa, geralmente uma só família, certa estabilização do capital industrial nacional, expresso na criação do Centro das Indústrias paulista (CFTSP), de que se compreende a oposição folclórica de capital industrial e agrário-exportador. Mas mesmo nessa época comprova Dean bem inversamente a Sodré, não haver intenção dos industriais, minimamente, em contrariar os interesses dos fazendeiros como classe economicamente dominante, e a qual se ligaram progressivamente. Para ambos, manter altas as taxas de importação era interessante, não havendo entre os próprios agentes capitalizados a guerra política que Sodré testemunha a propósito, porém documentando factualmente apenas trâmites parlamentares.
36 A política inflacionária, ao contrário do que supõe Sodré, era um objetivo eminente dos industriais, e a deflação traduzia sempre uma política de governo anti-industrial, contra a qual usualmente se batiam aqueles, atuando junto à máquina governamental. Esta, dominada como era pela elite fazendeira por via do voto de cabresto (curral eleitoral), os industriais não tinham qualquer interesse partidário diverso, sendo representantes do Partido Republicano Paulista, cuja matriz era o capital da plantation oligárquico-tradicional em todo o país.
37 Ao contrário do que alguns vem apregoando recentemente, o Império dos Pedros não era menos dependente dos empréstimos no exterior do que a República, porém, repetindo, os interesses do capitalismo internacional na exportação de capitais foram atuantes todo o tempo, desde a Independência até a recente globalização. [Nota 16] A extinção da secular dívida a valores anômalos aconteceu apenas devido à venda das estatais ao capital multinacional, conforme o ideário do neoliberalismo econômico de Friedman, Hayek e outros, do que porém não decorreu normalidade financeira ao contrário do que apregoavam eles, e como se tem comprovado na atualidade o estado de caos declarado pelos governos.
38 Para Sodré, a ênfase na indústria de bens de consumo antes de Vargas traduz limitação da indústria local, porém conforme Pierre George, esta é uma característica do capitalismo norte-americano. Por si só este não seria um fator de obstáculo ao desenvolvimento.
39 Como enfatizou Warren Dean, a condução de decisões na área industrial por Vargas não foi uma política de apoio aos interesses dos industriais nacionais, mas o cumprimento de planos monopolistas autônomos do governo, que subjugariam o industrial aos seus propósitos.
40 A construção da indústria de base não correspondeu ao interesse dos industriais nacionais, mas aos do varguismo, que, segundo Dean, começou porém tentando obter a penetração da United Steel Company - foi porque ela declinou da oferta varguista que a Companhia Siderúrgica Nacional se consolidou. Ao ver de Sodré, pelo contrário, a criação da Companhia ilustra o início da série de lutas varguistas contra as tentativas de ingerência estrangeira em geral e da United Steel em particular, sobre a indústria local.
41 A política industrial de Vargas traduziu, por um lado a sua ambição dirigista totalitária. Mas também a circunstância da Segunda Guerra, que tornou os Estados Unidos atuantes localmente por seu interesse na normalidade do consumo, de modo a não favorecer simpatias alemãs. As duas missões econômicas norte-americanas junto a Vargas, a Niemeyer e a Cook, conforme Warren Dean, tinham por objetivo manter a regularidade do consumo, o que acarretava necessidade de produção local devido ao comprometimento do imperialismo com o armamentismo e demais circunstâncias de guerra. Porém, como documenta Dean, o objetivo era maximamente evitar favorecer o empresariado local.
42 O episódio do varguismo eleitoral havia suturado a brecha do nacionalismo, entre a liderança carismática efetivamente fascistizante de Vargas e os partidos de esquerda ou anti-oligárquicos, que ele perseguiu e encarcerou na ditadura do Estado Novo. Porém não só isso, nos anos trinta Vargas fornece um modelo para o golpismo subsequente, por sua intenção de obter poder decisório sobre todos os rumos industriais e modernizantes.
43 Sodré, na já citada “História da burguesia brasileira”, constroi uma antítese simples entre a oposição latifundiária e o projeto político industrializante de Vargas. (p. 247) Assim ele focaliza como pronunciamento pró-industrial o ato inaugural do governo varguista, enquanto o adversário esgrimira a conhecida tese anti-industrializante do país essencialmente agrícola, onde a indústria seria artificial.
44 Dean focaliza a prisão do presidente da CIFTSP, Roberto Simonsen, como ato inaugural de Vargas. Conforme Dean, a acusação do governo a Simonsen foi de ser ele “'membro de uma das firmas que contribuíram para o estado de crise do Brasil', e só foi libertado por ocasião da anistia geral. (op. cit. p. 197). A veemência de Simonsen contra o agrarismo de Vargas, ao sair da prisão logo depois, demarca, como que pela primeira vez, o folclore da cisão do capital local interiorizado pelo próprio industrial do Partido Republicano.
45 Conforme Dean, Simonsen estava certo quanto a isso. Vargas nunca foi realmente um adepto da sociedade industrial. Cultivando a nostalgia rural, não obstante compreendia oportunisticamente os rumos do tempo. A subsequente colaboração dos industriais, sempre otimitas e dóceis aos poderes, com Vargas, assim como o próprio Simonsen, está pontuada pelo óbvio predomínio do dirigismo autoritário varguista.
c) História da Indústria Nacional
c. 1) O percurso golpista e o capital industrial.
1 Os industriais brasileiros formavam na altura da Segunda Guerra uma elite coesa, tipicamente imigrante, de origem nacional muito variada, tanto europeia como estadunidense, oriental e médio oriental. Mas cujo ramo italiano, proeminente devido ao porte de indústrias principais como das famílias Matarazzo e Crespi, estava geralmente identificado com Mussolini. Contribuíam com somas vultosas ao partido fascista na Itália, que visitavam regularmente, e eram lá recompensados com importantes títulos honoríficos pessoalmente presenteados pelo Duce.
2 O integralismo e o varguismo eram de fato, ou pró-forma, opções do nacionalismo econômico, não como mera normalidade institucional de que se seguiria a livre ação do empresariado, mas, inversamente, como planos dirigistas totalitários. Assim, enquanto monopolismos de Estado, seu “nacionalismo” não era incompatível com alianças de interesses multinacionais em geral, e no caso de Vargas o estadunidense em particular.
3 O varguismo foi interessante à fusão de elites, na medida que o horizonte agrário-exportador não se limitava ao Oeste paulista, o setor da cafeicultura de ponta que estava associado por ligações de família e investimento, ao capital industrial imigrante nacional. Assim vemos que o conceito deanista de “fusão das elites” só podemos compreender como um aspecto, a partir da cisão mais heterogênea.
4 O integralismo era sectário, porém mais atuante na classe média do que poderia parecer inicialmente, e vimos como demonstrou influência no episódio do Putsch contra Vargas - o que Vicentino e Dorigo tratam como “intentona integralista” (São Paulo, Scipione, 1997, p. 365).
5 Numa vertente paralela do jogo político encontrava-se a classe média urbanizante, que havia prosseguido, desde o positivismo dos militares revolucionários republicanos e especialmente o florianismo, até o “tenentismo”. Não obstante a popularidade de Floriano e sua política em prol do aumento do consumo, barateando a carne e os alugueis na capital do país, então o Rio de Janeiro, entre outros decretos, e devemos lembrar que ele tinha pleno apoio dos cafeicultores.
6 Vicentino e Dorigo consideram como proezas de Floriano, a obtenção de aliança convergente ao seu governo, entre os cafeicultores do republicanismo econômico-liberal, os militares positivistas e o republicanismo radical. Porém o industrialismo de Floriano, cerceado por incongruência com o interesse inflacionário dos industriais, assim como pela escassez dos recursos do governo que impediram um monopolismo de Estado como o varguista, teria também conduzido a uma cisão com os interesses estrangeiros, decorrendo assim oposições internas, que sua política de unidade nacional apenas visava encobrir. (p.275, 276)
7 Em todo caso, o tenentismo como ramo tardio do florianismo estava representado numa organização tipicamente militar. Ela se expressou em levantes sucessivos, do Forte de Copacabana (1922) e na Revolução Paulista (1924). Prestes, O famoso líder da esquerda, era um dos “tenentes” que tomaram a cidade por alguns dias.
8 Como os levantes tiveram lugar na época anterior a Vargas mas posterior a Floriano, ou seja, na República Velha, que, assim, tipificara os interesses da tese do país essencialmente agrícola, Sodré trata o “tenentismo” como uma expressão de desenvolvimentismo industrializante que seria um bloco histórico único, convergindo as aspirações da indústria nacional e da classe média urbana. Do outro lado, não havia apenas interesses na tese do país essencialmente agrícola, mas os próprios oligarcas agro-exportadores.
9 Vimos que esse recorte não é adequado a São Paulo, o maior centro do desenvolvimento urbano e industrial da América Latina. A ordem dos fatos é bastante oportunística e circunstancial, de parte a parte, quanto às relações de industriais e cafeicultores, porém como assinalamos, estavam ambos agremiados num mesmo partido conservador, o PRP.
10 A repressão do governo à revolução paulista de 1924, desencadeou o movimento designado “coluna Prestes”. Com adesão de elementos tenentistas, um contingente de militares liderados por Prestes percorreu grandes extensões do território nacional, como iniciativa subversiva porém não partidária. Vicentino e Dorigo acentuam que o tenentismo da classe média militar era de fato um movimento elitista, que pretendia dirigir as consciências num sentido ideológico modernizante preciso, porém não necessariamente coerente ou sequer ligado aos industriais. Mais tarde o Partido Comunista contactou Prestes, que após refletir longamente se converteu ao comunismo. Assim ele liderou a “intentona comunista”, em 1935, contra Vargas.
11 Moscou apoiou o movimento - o que relativiza a conhecida história da opção stalinista pelo socialismo de um só país. Conforme Vicentino e Dorigo, citando Sergio Pinheiro, a URSS supôs equivocadamente tratar-se de uma reedição do levante bolchevique (p. 361). Vicentino e Dorigo observam porém que a estratégia estava invertida. Prestes organizara o levante de modo que o povo seguiria o exército, e não o contrário. Com efeito não poderia ser de outra maneira, uma vez que não havia adesão suficiente. A revolução estava planejada para ser iniciada dentro dos quarteis. o que ocorreu em Rio de Janeiro, Pernanbuco, Rio Grande do Norte, Natal e Recife. Mas o governo Vargas frustrou a iniciativa, utilizando a oportunidade para multiplicar as formas de violência política repressiva e decretar o Estado Novo, inteiramente ditatorial.
12 Possibilitava-se assim a Vargas permanecer com um governo não eleitoral, sem necessidade do rótulo de provisoriedade ao estado de coisas, do que se seguiu a mudança da constituição. O Tribunal de Segurança Nacional e a Comissão Nacional de Repressão ao Comunismo foram criados imediatamente. Vemos aí a estrutura básica do golpismo.
13 A essa altura os anseios contra-ditatoriais e anti-integralistas compactavam-se na Aliança Nacional Libertadora (ALN), que, porém, encontrava-se de fato sob hegemonia do Partido Comunista.
14 A perpetuação da ditadura de Vargas, após a repressão ao levante comunista de 1935, que proibiu todas as agremiações partidárias, não alterou a composição de forças local. A classe média compradora de industrializados importados continuava oposta à produção industrial nacional, porém todos dependentes da predominância do capital cafeeiro. Não obstante as cisões do plano político, a mesma dependência abrangia o varguismo.
15 Na cidade, como Dean reporta, nem mesmo havia identidade dos grandes industriais imigrantes e seu grupo étnico local. A etnia se identificava geralmente com a classe média ou estava subjugado como mão de obra imigrante que o industrial, ainda que do mesmo modo imigrante, desprezava por embarcados de “terceira classe”. O industrial não era portanto o ideal-tipo do seu grupo étnico, mas visto como megalômano, sem vínculo com as tradições comuns, mesmo que também houvesse a fama pela riqueza. As maquinações de industriais concorrentes eram a norma, e eles estavam sempre dispostos a obter “a ruína uns dos outros”, não obstante haver a prática de carteis. Porém Dean registra que “Matarazo, o maior dos industriais e talvez o mais eficiente, costumava evitar as táticas inescrupulosas dos demais”. Suas empresas eram também mais limpas e tratavam os operários com mais humanidade. Ele recusava a prática de carteis com outros produtores. (p. 73) Porém também Dean considera que quanto mais se destacava em grandeza, mais os industriais eram desprezados pelos seus próprios conterrâneos, não obstante sua influência, como capitalista, na efetividade urbana. Também não sendo desprezado pelo partido fascista local, como já observamos quanto ao caso italiano.
16 Por outro lado, Dean documenta, como Leandro Konder, o desprezo do operariado imigrante relativamente à mão de obra nacional. Konder (“A derrota da dialética”, Rio de Janeiro, Campus, 1988) cobre com minúcia a trajetória do movimento operário brasileiro, que não foi a princípio organizado pela mão de obra nacional, e sim imigrante, a qual não integrava a outra por julgá-la irracional, malevolente e primitiva.
17 Houve uma fase de predomínio do anarquismo, antes do marxismo, em termos de movimento operário imigrante organizado. Quanto ao marxismo, consolidando-se como a tendência dominante, só gradualmente integrou expoentes brasileiros. Quanto aos motivos pelos quais a mão de obra imigrante foi privilegiada como gênero de primeira necessidade garantir, por sucessivas políticas raciais desde a abolição da escravatura, geralmente não são esclarecidos. Há um consenso tácito, portanto, que repete em linhas gerais o mesmo pressuposto dos primeiros marxistas imigrantes.
18 Sodré demora-se um pouco a propósito, notando que realmente o racismo era tão praticado que o negro era considerado nexo entre o homem e o animal. A questão é algo complicada porque na verdade houve intensa campanha abolicionista, porém não menos resistência das classes conservadoras, e tratou-se em geral a questão pelo lado do direito à propriedade, uma vez que se considerava o escravo pelo valor monetário de sua posse. O que reporta o mesmo Sodré permite deduzir que nenhum dos contendores sobrepujou o outro, e o que ocorreu foi a lei abolicionista como mera caução a um estado de fato, desde que a polícia recusou prender os escravos fugidos em vários estados do país. Vemos como é complexo entender a questão racial, pois mesmo após a campanha abolicionista, podemos observar que o “nacionalista” Euclides da Cunha, em Os Sertões, devido ao seu positivismo, pensava as raças não brancas como não inteligentes, pior ainda sendo a condição dos miscigenados “mulatos” do litoral. Inventou Euclides o conceito de sub-raça para dignificar o elemento fenotipicamente mais estável do interior, que por seu isolamento permanecia com uma cultura imutável - sendo o preconceito positivista um dogma da raça como constante de cultura.
19 A convergência perfunctória dos industriais sob o dirigismo varguista não foi de todo incoerente ao menos quanto à política trabalhista, na perspectiva de Warren Dean. Os industriais nacionais haviam organizado a CFTSP como irradiação de verdadeiro terrorismo patronal. Eles haviam obtido, na República Velha cuja ordem era estritamente oligárquica, cooperação da polícia local, e o próprio industrial podia fazer operações de polícia.
20 Conforme Dean, organizou a CFTSP, antes de Vargas, aparelho repressivo, por um procedimento de cartões de ingresso e listas negras, capaz de identificar em qualquer fábrica associada e alijar das fileiras de empregados qualquer representante de movimento operário organizado. Assim como garantir a disciplina interna à fábrica por meio de castigos físicos, também sobre menores e mulheres. Havia uma política de minimização de salários a tal ponto que Dean registra o fato do emprego na indústria ser o menos preferido por todos os que necessitavam empregar-se.
21 Não obstante os industriais esmeravam-se em propaganda de sua atitude beneficente relativamente aos empregados, pleiteando por exemplo que se aumentasse o limite do trabalho infantil para menos de quatorze anos, sob o pretexto que assim se tirariam as crianças pobres do rumo da criminalidade, no entanto sem apresentar a alternativa delas serem simplesmente escolarizadas.
22 Ao contrário dos elogios de Sodré à sua atitude nacionalista, Dean registra fatos que comprovam a aliança de Vargas com a política repressiva do operariado. Ele cobre a atuação do interventor João Alberto, o jovem “tenentista” do exército, em 1930, que suspendeu o prometido pagamento das férias atrasadas desde 1925, quando se promulgara a concessão do benefício, preservou a questão trabalhista como assunto de polícia de modo a obter decreto de repressão a greves, e enviou mais de cinquenta mil pessoas para trabalhar no interior esperando assim cumprir um programa de pleno emprego.
23 Na subsequência, mesmo ao ver deanista, pode-se afirmar que Vargas favoreceu a política de bem-estar social, rompendo com o radicalismo patronal. Ele nacionalizou o operariado, a partir da lei dos dois terços, em que essa proporção devia ser garantida para posição de operários brasileiros na composição empregatícia. Porém de fato conduzindo-se apenas oportunisticamente, pois concentrando a ditatura burocrática-governamentl plena autoridade sobre o movimento sindical e operariado, além de ter subsequentemente suspenso os direitos políticos partidários. Assim também, como já acentuamos, dominando sobre os industriais, subordinando-os à política governamental de construção da indústria de base, na qual eles não tinham interesses próprios respeitados, como Dean documenta, mas inversamente, deviam atender ao comando da máquina governamental.
24 Alguma convergência dos interesses da classe média, representada pelos interventores, tanto João Alberto como Armando Salles Oliveira, desde o varguismo nacionalista, com os próprios industriais, havia nesse interim sido obtida pela circunstância da guerra, em que os industriais foram extremamente úteis para suprir o consumo interno, e até mesmo exportar regionalmente. Porém com o fim da guerra, os antagonismos retornaram, e os expoentes do tenentismo da classe média transformaram-se tipicamente na agremiação udenista.
25 A UDN, como composição da classe média importadora de bens industrializados, protagonizou, daí para a frente, uma intenção de empregar o instrumento golpista para alijar do âmbito político-governamental a todos os contingentes ligados ao nacionalismo. Seja o econômico-industrial, ou o operário.
26 A UDN obteve inicialmente a queda de Vargas, quando este, após ter sido deposto como ditador, tornava ao governo por via eleitoral. Nesta fase, entre 1951 e 1954, o governo Vargas foi uma frente ampla de centro-esquerda, congregando partidos e lideranças que ele mesmo havia encarcerado e perseguido durante o Estado Novo, inclusive o PCB de Prestes. O udenista Carlos Lacerda atuou como o inimigo ostensivo de Getulio Vargas, abertamente promovendo propaganda golpista por meio de artigos no seu jornal “Tribuna da Imprensa”. Por fim um atentado a Lacerda resultou na queda de Vargas, porque investigações comprovaram a ligação de Gregorio Fortunato, o chefe de segurança do governo.
27 O acontecimento do atentado parece bastante truncado, uma vez que Lacerda foi apenas ferido no pé, tendo sido porém vitimado o vigia que o acompanhava. Porém as apurações contra Gregorio extrapolaram os limites do atentado, levantando operações de tráfico de influências e corrupção financeira com acumulação de imensa fortuna pessoal, que se tornaram escandalosas.
28 A queda de Vargas foi estrondosa, devido ao suicídio, após uma performance de radicalização progressiva contra o imperialismo à medida que as manobras udenistas contra ele se tornavam mais intoleráveis a ponto de desagradar a muitos pelo despudor. Assim a reação que se seguiu aglutinou uma oposição histórica entre as opções nacionalista e internacionalista na economia, que só desde 1945 pode ser plenamente afirmada num âmbito da consciência partidária. A oposição foi construída em torno da eleição de Vargas, indesejada pelos setores que haviam obtido a deposição da ditadura estadonovista. .
29 A atuação de João Goulart destaca-se desde sua participação como ministro do trabalho no governo varguista eleito. Goulart decretara o aumento de cem por cento do salário mínimo, tão temido pelas classes conservadores e pela classe média urbana, de fato o fator de radicalização da propaganda golpista de Lacerda - exatamente o que se repetiu em 1964.
30 Goulart não era um típico político varguista, e ressalta a singularidade de sua posição entre os demais componentes do gabinete. Observando os programas ligados ao nacionalismo, podemos convir que as reformas de base de Goulart, que desencadearam o golpe de 1964, como reação imperialista, eram geralmente coerentes com eles. Similarmente, o golpismo udenista exibe trajetória homogênea ao que se expressa como a atuação ipes-ibadiana que estudamos com Dreifuss. A UDN havia obtido, ainda na época do governo eleito de Vargas, uma composição com a ESG visando o golpismo.
31 Conforme Vicentino e Dorigo, o então major Golbery do Couto e Silva enunciou a ideologia anti-nacionalista da Esg nessa ocasião, polarizada como alinhamento ao mundo ocidental-capitalista, ou seja, como um discurso “anticomunista”. (op. cit. p. 383).
32 Vicentino considera porém, que os prolongamentos do tenentismo nos quarteis criavam uma cisão interna às forças armadas, por sua opção nacionalista. Contudo, temos visto que a deriva do tenentismo é algo complicada pela ramificação revolucinária, assim com uma ala convergente com o comunismo. Não sendo propriamente um alinhamento com o capital industrial nacional na sua forma efetiva, pelo contrário, podendo atuar também repressivamente contra ele.
33 Seria importante pois, reconsiderar o antagonismo, como não apenas entre nacionalismo e imperialismo, mas entre nacionalismo, dirigismo doutrinário possivelmente nacional, e imperialismo internacionalista.
34 A UDN propagandeava a opção entre liberalismo e esquerdismo, obviamente destinada a impedir a compreensão do nacionalismo como não necessariamente dirigista. De fato o comunismo não é necessariamente nacionalista, e, repetindo, o dirigismo estatal também não, independente da propaganda. Por outro lado, a composição UDN/ESG era também favorecida por elementos oriundos do integralismo como o próprio Mourão Filho - que vimos contudo deflagrar o golpe de 1964 independente do IPES/IBAD.
35 Antes Mourão Filho havia sido pró-Vargas, na época do varguismo ditatorial. Inventando o “plano Cohen”, mentira sobre um levante comunista que estaria planejado, após a repressão à intentona prestista, Mourão Filho colaborava com Vargas para a instituição do Estado Novo ditatorial, em 1937. Efetivamente Vargas se utilizou da calúnia para desfechar o golpe estadonovista. Quanto ele se incompatibilizou com os anseios da classe média e do imperialismo após 1945, e a ESG pronunciou-se contra a intenção reformista do governo eleito, mesmo o suicídio não resultou num legalismo udenista.
36 A intenção golpista da corrente UDN comprovou-se por ocasião da sucessão presidencial de Café Filho, o vice de Vargas, de quem ele não gostava muito segundo a já citada biografia da editora Três. A candidatura do general Juarez Távora pela UDN foi derrotada por Juscelino Kubitschek. Ato contínuo, o coronel Jurandir Bizarria Mamede, da ESG, se mobilizou para impedir a posse do presidente eleito pronunciando violento discurso de ataque.
37 O ministro da Guerra, Teixeira Lott, solicitou a punição do coronel, mas a atribuição pertencia ao presidente, que ainda sendo Café Filho, estava afastado sob pretexto de problemas cardíacos. Carlos Luz, presidente da câmara dos deputados, exercia a função de substituto. Sendo do PSD, um partido muito heterogêneo mas geralmente não identificado com a intransigência udenista, esperava-se que defendesse a legalidade, porém de fato a ala pessedista por ele representada era a mais conservadora, de modo que negou-se à punição.
38 Lott estava convencido a afastar-se por incompatibilidade com a liderança governamental, mas percebeu-se que era isso o que o golpe em andamento pretendia. Ficando em seu cargo, conforme a injunção dos legalistas, Lott fez fracassar a tentativa golpista, destituiu Café Filho - subitamente curado do mal cardíaco - e institui Nereu Ramos, o presidente do senado, para a presidência até a posse de Juscelino em janeiro de 1956.
39 Lacerda, Luz e Mamede fugiram de navio, do Rio de Janeiro, então a capital do país, para São Paulo, chegando a trocar tiros com comandos da base carioca, porém sem consequências. Não obstante, como vimos Lacerda ainda teve participação política na ditadura militar.
40 Bem inversamente à tendência nacionalista que representava, a política de Juscelino foi elitista num sentido de desenvolvimento industrial que privilegiava a associação com capitais estrangeiros. Comenta-se, como por exemplo Sodré, que a posse de Café Filho já significou livre curso à ingerência imperialista, porém ele mesmo, Vicentino e Dorigo, estão de acordo sobre que, nas palavras destes: “JK fez um apelo ao capital estrangeiro que, de fato, começou a ingressar no país num ritmo jamais visto”. (p. 391).
41 Conforme Sodré, “O Plano de Metas foi, assim, a forma pela qual o Estado, no Brasil, se prestou a servir ao imperialismo, agora em escala descomedida. Nele, não é o interesse nacional que constitui a base, mas o interesse externo, levando a ostensivas e claras deformações do processo de industrialização, porque estávamos na fase em que o imperialismo se associaria ao processo industrial, como meio adequado de participar da renda auferida no mercado interno, agora principal”. Nunca houve tamanha brecha na política cambial brasileira. As “sucessivas desvalorizações no valor do cruzeiro, por imposição da política ditada do exterior, transferiam às classes trabalhadoras e aos consumidores em geral os pesadissimos ônus da política de entrega dos recursos nacionais e do mercado interno ao imperialismo”. (p. 292, 293)
42 De fato, Juscelino governou segundo os ditames do FMI, e se ele chegou afinal a romper com o receituário da recessão, foi só no final do mandato, quando ao mesmo tempo podia salvar sua fama de nacionalista e garantir a continuidade da orientação do FMI após as eleições. Seu plano desenvolvimentista era um tripé de interesses nacionais e estrangeiros em indústrias chave, havendo uma preponderância da automobilística que poderia ser definida como o pivô do imperialismo local até hoje. A fundação de Brasília, para onde se transferiu a capital do país, foi obra de Juscelino, consumindo enormes quantidades de dinheiro sem proveito nacional além de encastelar o governo num ermo inabitado da região interiorana do país.
43 Dean não considera qualquer quebra de continuidade no estado de coisas após o suicídio varguista. A seu ver, não obstante todos os percalços na relação de Vargas com os industriais nacionais, a queda dele acarretou também a do capital nacional na indústria, com a consequente invasão do capital estrangeiro.
44 O estudo de Dean cobre apenas até o fim da década de quarenta. A seu ver, nessa altura verifica-se o limite do café como capital propulsor da indústria nacional. O maquinário já não podia ser atualizado por insumos da exportação cafeeira, a indústria local tornara-se obsoleta. Preservando-se assim o quadro de motivos que implicavam a facilidade da penetração imperialista. A princípio, uma produção industrial, como vimos, apenas complementar das importações manufatureiras. Em seguida, um hiato social intransponível entre empresariado, classe média compradora e operariado, que impedia o desenvolvimento de ocupações ligadas a relações públicas, segundo Dean. Ou seja, não havia uma continuidade de propaganda possível entre o empresariado e a consumação assalariada, por onde não decorre qualquer política consciente de industrialização. A meu ver, este é um argumento verdadeiro, mas incompleto. Na verdade, o hiato social do empresariado era decorrente de sua composição complementar num sentido muito mais preciso, ou seja, de sua compopsição não imperialista. O atraso tecnológico e do mercado local é um resultado dessa diferença, não o contrário. O empresariado da Revolução Industrial não solicita as mesmas coisas do governo, atinentes a meras questões internas. Ele está articulado a um governo como ao móvel do seu açambarcamento do mercado externo - assim como vimos documentar Pomer para o caso paraguaio na Inglaterra.
45 Dean considera que uma política de industrialização local, coerente com o empresariado nacional efetivo, deveria, em inícios dos anos cinquenta, ter permitido a acumulação e depois a atração da populança local ao consumo, assim como a formação de mão de obra especializada, treinando-se um quadro de técnicos e engenheiros. Porém se durante a guerra as defasagens verificadas tornaram o governo melhor posicionado para resolver o problema da estagnação industrial, a seu ver a reassunção do liberalismo econômico foi um erro pelo qual o governo estava pagando caro, de modo que teria sido por falta de alternativa que se vira obrigado “a chamar o capital estrangeiro nas condições por ele impostas”. (op. cit. p. 254)
46 Cobrindo porém o interregno desde aí até a era Juscelino, vemos que o imperialismo tem um papel muito mais deletério do que Dean chegou a registrar. O pronunciamento de Vargas próximo do golpe da deposição final, atacou a disposição fraudulenta da dívida, conforme Sodré o reporta, documentando Vargas que sua averiguação dos contratos revelava regularmente valores acordados por contrato muito inferiores ao que estava sendo cobrado e pago. Configurando-se assim um tipo de fraude por roubo direto, ainda que ligada a contratos imperialistas de exportações de capitais, que mesmo Romanova não reconheceu na publicação do seu “A expansão econômica dos Estados Unidos na América Latina (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968), onde registra os vários tipos de fraude costumeiras nos contratos impostos na América Latina pelos Estados Unidos, após a dominação inglesa do negócio.
47 Também o pronunciamento varguista registra a obstaculização da Eletrobrás e outros procedimentos de carteis internacionais mancomunados com o capitalismo local ansioso para evitar a subida do nível de renda dos assalariados.Não obstante a honestidade comovente de Vargas, ele estava a essa altura isolado como decorrência da sua própria atitude ditatorial de perseguição à liberdade partidária e de consciência, na época do Estado Novo. Algo que sua coalização com as esquerdas na redemocratização não conseguiu recuperar num grau de mobilização suficiente para fazer frente às forças golpistas que o depuseram, impondo Café Filho como um governo de total dominação imperialista, conforme Sodré. O mesmo tipo de governo que foi continuado por Juscelino.
48 Creio porém que ao menos ideologicamente a mensagem de JK era de conciliação otimista, uma convivência harmoniosa possível entre capital nacional e estrangeiro. Este era a espécie de compromisso que a classe média udenista não queria para si, mas, inversamente, o livre curso do imperialismo, na fantasia de que assim o país estaria identificado ao mundo rico e desenvolvido. Porém uma possibilidade em que ainda o nacionalismo acreditava, como Sodré expressa. Cobrindo até a antecedência imediata do golpe de 1964, ele considera que a burguesia jogava sua cartada decisiva, na presidência Goulart. Sem atribuir a este um verdadeiro compromisso com o operariado, antes a continuidade da “política de conciliação com o imperialismo”, considerava porém que o essencial da revolução burguesa necessária a uma consolidação do proletariado poderia estar assim se consolidando nas proposta de suas reformas de base.
49 Quanto ao conflito de industriais e operariado, que vimos importante desde o início da industrialização, tomava vulto, paralelamente, na decorrência da recomposição partidária após a morte de Vargas, onde o PCB e lideranças de esquerda foram preponderantes.
50 O processo cultural da nacionalidade já estava suficientemente maduro, em termos de organização social, de modo a resultar a aliança de amplos setores, tanto em prol da independência econômica, como do objetivo de melhorar a qualidade de vida da população. Como Vicentino observou, a UDN “ficou praticamente sozinha na oposição” após a posse de Juscelino, sendo tratada jocosamente como “a banda” - de música - devido ao barulho que fazia num Congresso onde se tornara minoritária, reduzida à função de protestar. (p. 391)
51 Assim seria esperável que uma ideologia da industrialização estivesse àquela altura empolgando a consciência também dos industriais.
52 Se a Semana de Arte Moderna em 1922 é usualmente reportada como um eco da industrialização paulista, agora poderíamos, a meu ver, considerar assim amplos movimentos estéticos neonacionalistas, como o Concretismo. Eram algo incoerentes como a composição desenvolvimentista que ao mesmo tempo nacionalista, não pensava na heterogeneidade local senão como o que poderia ser aproveitado como reflexo do progressismo do experimentalismo internacional. Mas estavam firmemente engajados numa política nacional industrializante. O próprio Sodré espelha esse processo, por sua atuação nas lides culturais, em prol da renovação estética e intelectual, como ao mesmo tempo expoente da ala progressista à esquerda nas forças armadas.
53 A meu ver, porém, várias forças estavam a caminho da melhoria da qualidade de vida, o que na composição democrática iria aportar a uma normalidade do desenvolvimento local em nível nacional, se bem que não de potência. Mas observamos com Dreifuss que o acréscimo da CIA à aliança UDN / ESG subverteu a democracia, açambarcando ilegalmente a economia por um processo de recolonização que se prolonga até agora.
54 Na interpretação de Dreifuss, de fato o golpe aconteceu apenas em decorrência da vitória da oposição à UDN, nas eleições de 1962. Como vimos, enormes somas e planejamento foram liberados para obter o controle dos votos, e o resultado expressa, inversamente, a consciência nacional amadurecida em prol da melhoria da qualidade de vida.
55 A ação golpista UDN/ESG/CIA, na medida que extrapola as condições do país e atinge como vimos a dimensão continental, assoma como a prova histórica da impossibilidade de mantermos qualquer teoria a propósito do desenvolvimento normal em nível de nação, até a suspensão das possibilidades intervencionaistas do imperialismo mundial.
56 Ou seja, enquanto houver o nível de potência na composição geopolítica planisférica, caracterizando um “primeiro mundo” capital-imperialista, significa que a mencionada suspensão ainda não foi obtida e que dois terços do mundo estão submetidos a regime quase-colonial semi-escravista.
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c. 2) Da ditatura à globalização: os protagonistas do golpismo
1 Já vimos que Dreifuss concorda com Dean a propósito da submersão radical dos capitais nacionais na forma associada ao estrangeiro após Vargas, excetuando as estatais, que também não eram totalmente independentes da associação. Mas vimos que Dreifuss mesmo documenta ter subsisitido um capital nacional autônomo, ainda que minoritário. Sodré, inversamente, sublinha com Prebish que as “inversões nacionais... alcançaram grande vulto, depois da guera. No período de 1946 a 1952, a média das inversões, no conjunto da América Latina, alcançou uns 6 bilhões de dólares anuais, expressando em preços de 1950, dos quais 5% correspondem ao capital estrangeiro”. (p. 317, 318) Esses dados eram apresentados contra o conhecido argumento de que o desenvolvimento local dependia do investimento de capital imperialista.
2 Contudo, assinala Sodré o descompasso entre “nossa capacidade para importar”, em que “os capitais estrangeiros tem participação reduzidíssima”, de modo que “sua contribuição ao nosso desenvolvimento é mínima”, e o aumento “de forma desmedida” do “montante dos capitais estrangeiros em nosso país”.
3 Um documento da Federação das Indústrias, o ramo atualizado da CFTSP, reclamava que as grandes empresas estrangeiras que haviam se instalado, estavam atraindo todo o capital local, por si escasso. As multinacionais não se interessavam pelo desenvolvimento do país nem faziam contribuições de natureza técnica ou científica. A pergunta sobre porque é assim, tem como resposta que “na verdade, trata-se de capital nacional que é titulado estrangeiro para fins de remessa de lucros”.(p. 318)
4 Além disso, o próprio desenvolvimento econômico nesse período comprovou-se autofinanciado. As multinacionais cresciam localmente por reinvestimento do que hauriam aqui mesmo, além do que remetiam para suas sedes no exterior. A proporção desses dois valores, na indústria automobilística, era de 1.033 de remessas ao exterior para 525 de reinvestimento. Um relatório publicado pela McGraw Hill, noticiado na imprensa local, anunciava que “nenhuma das subsidiárias norte-americanas” aqui situadas, “deixou de registrar lucros equivalentes a mais do dobro do que registrou a sua sede”. (p. 320)
5 Em 1956 publicaram-se balanços públicos em que se revelavam lucros de multinacionais aqui funcionando, superiores ao capital investido localmente, “entre outros exemplos contundentes”, da ordem de 377% (Atlantic do Brasil), 466% ( Timken Roller Bearing Co.) e 126 % ( Frigorífico Wilson). (p. 321) Porém estes grandes auferimentos não parecem ombrear com o montante dos proventos atuais de multinacionais que obtiveram monopólio sobre as necessidades dos serviços mais básicos em todo o país, como gás (espanhola), luz (francesa), telefonia (espanhola) integrada a internet e televisão - lembrando que o whattsap vem sendo requisitado a assalariados pelos próprios diretores de empresas, mesmo na educação pública, para efeitos de comunicação interna.
6 Ainda segundo Sodré, não obstante o crescimento econômico na América Latina, a “transformação de capitais brasileiros em capitais americanos” foi de tal porte que já entre 1939 a 1955, o ingresso efetivo de dólares foi de 173 milhões de dólares, mas a remessa de lucros alcançou 1 bilhão e 112 milhões de dólares. E nesse periodo, em que a remessa de lucros alcançou tamanho porte, “o valor dos investimentos americanos” aqui “passou de 240 milhões para 1 bilhão e 107 milhões de dólares”.
7 Ele considerava o problema do capital misto, já se afigurando agudo para qualquer análise a propósito. Mesmo na Federação das Indústrias, “não fica bem definida a separação entre industriais nacionais e industriais estrangeiros, do ponto de vista da procedência dos capitais com que operam. Como as estatísticas, se esmeram em englobá-los em todas as suas estimativas. Para tal sistema de mensuração, é nacional toda empresa instalada no país”. (p. 317) Vários dispositivos de fraude ou ocultação de informação relevante são especificados nesse trecho da “História da Burguesia Brasileira” por Sodré, especialmente sendo necessário registrar que os números da remessa de proventos eram considerados siligosos pelo governo, não de todo confiáveis quanto aos publicados.
8 Ora, ao ver de Sodré, a burguesia já estava consolidada como classe dominante após Vargas, superando o quadro anterior da economia latifundiária, e, ainda assim, continuavam estáveis as práticas de medidas entreguistas da economia e esforços para descapitalizar as empresas do Estado. Práticas de tão impressionante homogeneidade “que atravessa os sucessivos governos”, de modo que se o imperialismo sobrepuja qualquer interessse de composição com o proletariado nacional, “a saída é o Estado Novo, as Instruções da SUMOC, os acordos lesivos aos interesses nacionais”. (p.321, 322, 323) Na véspera do golpe, a perpetuidade dessa situação apenas expressava, a seu ver, que o vínculo do latifúndio e imperialismo continuavam fortíssimos.
9 SUMOC, BNDE e “instruções” governamentais frequentes - como a de número 113 - eram ainda meios de debilitar as estatais como Petrobrás, Companhia Siderúrgica Nacional. Fábrica Nacional de Motores, Fábrica de Álcalis, de modo que se pudesse, sob pretexto de má administração do Estado, privatizá-las. Um recurso que foi usado após a ditadura militar, quando a “globalização” significou a venda das estatais, processo traumático ainda em curso. Ficou muito feio o papel de contrainformação que vem sendo desempenhado pelos instrumentos de pesquisa da internet como o Google, em 2015, quando a mineradora Samarco destruiu três cidades brasileiras em Minas, de patrimônio histórico, comprometendo ainda irreversivelmente a ecologia de área maior que alguns países da Europa, por incúria. Ao pesquisar na internet, os sites apresentados na primeira página eram documentos superproduzidos, porém ora para negar que a Vale do Rio Doce tivesse sequer sido vendida, ora para elogiar a administração privatizada em detrimento da anterior nacional - este sendo apresentado como blog ganhador de prêmio por qualidade.
10 Sodré mencionava assim, por exemplo, o fato de que os preços do aço de Volta Redonda eram mantidos intencionamente baixos, a fim de subsidiar a indústria automobilística estrangeira aqui instalada, enquanto “se permite a exportação desenfreada do melhor manganês brasileiro e do melhor ferro do mundo, enquanto setores inteiros de produção são dominados pelos capitais externos, como o farmacêutico”.
11 Além disso, praticamente todos os interessados na economia não rural tinham projetos de reforma agrária prementes, ainda que de índole particular conforme o grupo, nem sempre coerentes com o projeto que favoreceria o capital nacional, e, não obstante, a reforma não se fazia, por continuidade do poder da plantation exportadora. Aqui há uma contradição notável de Sodré, pois, por um lado, o capital imperialista era dado como responsável pela continuidade, que importava na perpetuação do modelo do país limitado a produzir matérias primas e importar industrializados. Mas por outro lado, ao ver de Sodré também o imperialismo estava abandonando a “tradicional aliança” latifundiária, tendo se tornado patente que a plantation estava superada pelo tempo e que nova aliança devia se firmar com a burguesia. (p. 317)
12 Como sabemos hoje, não houve reforma agrária alguma, na ditadura ou depois, não obstante os documentos do IPES a propósito de projeto próprio nesse sentido, ainda que antagônico ao de Goulart. Pelo contrário, desde 1964 houve sucessivas guinadas ao interior. Na época do registro de Sodré, a debilitação do cafezal como referência econômica já estava configurada, porém ainda havia importância da plantation, o que Sodré explicava pelo interesse imperialista contra o capital nacional, porém de fato tendo havido a subordinação do próprio negócio do café ao truste norte-americano. Em todo o mundo, escrevia Francisco Malta Cardoso, citado por Sodré como presidente da Sociedade Rural Brasileira, “cinco poderosas firmas americanas dominam o mercado comprador”.
13 A estas cinco firmas encontravam-se portanto subordinados entre “400 ou 500 mil fazendeiros e sitiantes brasileiros”, economicamente dispersos. Assim sem qualquer definição quanto ao que poderiam fazer, frente à situação imperialista do truste, de cuja ignorância Cardoso acusava “crime de lesa-pátria e ao bem-estar da coletividade”. (p. 309)
14 Ora, raciocionando na véspera do golpe, para Sodré a “questão central” estava se colocando em torno da “burguesia”, num momento em que, devido às promessas reformistas de Goulart, representando a possibilidade da mudança, “a inquietação se alastra a todos os setores da vida nacional” (p. 301). Sodré coloca assim os termos da questão central: “Pois, se justamente na fase em que a burguesia tem a seu serviço o aparelho de Estado é que se desenvolve tal política [ de continuidade das concessões ao imperialismo ] como aceitar a existência de uma contradição que imporia senão a luta pelo menos a resistência a tais concessões?” (p. 322) A questão se endereçava, pois, diretamente à burguesia, dela esperava-se a definição, iminente e capital, do curso histórico.
15 A partir daí, Sodré reflete com determinação sobre as contradições da burguesia, entre a modernização e o latifúndio, entre classe patronal e proletariado, com vistas a obter algum prognóstico do curso da ação ou prover alguma orientação que evitasse a escolha errada. Parece-me porém que nesse desenvolvimento final da “História da Burguesia Brasileira”, o próprio Sodré revela-se algo contraditório quanto ao significado do termo “burguesia” na referência considerada.
16 Afinal chega a reconhecer que os capitais comercial e industrial não tinham os mesmos interesses. Enquanto as Associações Comerciais “reiteram sua fidelidade ao imperialismo... já com as Federeções das Indústrias não ocorre o mesmo... são repetidos os seus pronunciamentos antiimperialistas”. Não obstante a questão do capital misto, ele afirma sem peias que “nos relatórios das grandes empresas nacionais, por outro lado, o problema aparece exposto com clareza, e a posição dos grupos que operam com recursos internos se afirma categórica e contrária aos capitais externos aqui introduzidos por via imperialista”. (p. 317)
17 Porém à frente, considera errados os critérios que partem “de que a burguesia comercial não pertence à fracção nacional da burguesia, a que pertenceria ... [ majoritariamente ] ... a industrial, pois aquela está comprometida com o imperialismo, o que não acontece com esta. Aí ele considera ao invés, que “o critério válido consiste em verificar as ligações de cada camada ou fração da burguesia com o imperialismo para se concluir de sua posição nacional ou não, e pode bem ocorrer que parte da burguesia comercial seja nacional e parte da industrial esteja comprometida com o imperialismo, como pode acontecer que parte da alta burguesia represente uma parcela importante da burguesia nacional”. (p. 327)
18 Essa contradição de Sodré é importante considerar, como corolário do problema de interpretação que percorre o seu livro, oriundo da adoção dos conceitos leninistas. Tanto o de “burguesia” como um bloco oposto à economia tradicional do campo, como o de “latifúndio” como se fosse o sucedâneo do feudalismo europeu, na acepção do que faz o papel de contrário à “burguesia”. Um sintoma da impossibilidade do que assim resulta na História local, já se vê por isso que por utilizar-se dessas categorias leninistas, Sodré não integra na sua história - justamente - da “burguesia brasileira”, qualquer referência à UDN.
19 O andamento anterior da exposição mostra que Sodré confunde de fato o sentido da revolução de 1924 com as metas da antípoda, a revolução constitucionalista de 1932 em São Paulo. A tenentista, em 24, conforme Vicentino e Dorigo, citando Basbaum, uma vez que dirigista, só tinha uma opção após a capitulação, no contexto da época. A maioria se incorporou ao varguismo na tomada do Estado em 1930, formando uma ala fascista “legionária”, e alternativamente houve a guinada prestista ao comunismo. (p. 350)
20 O caráter elitista que vimos atribuído ao tenentismo, na verdade se relaciona apenas à tendência dirigista da classe média, como sua ideologia de ponto de contato com o centro revolucionário-industrial, assim superior ao “atraso” da hinterlândia. Nem por isso se deve considerar que se trata da oposição clássica de cidade e campo, uma vez que o interior não é apenas o campesinato pobre, mas também o latifundiário rico, e, além disso, o dirigismo da classe média coloca como “atrasado” nacional provincianamente tudo que apenas destoa de si mesmo, porém sob o pretexto de si enquanto ponto de contato modelar do mundo desenvolvido, isso também na cidade. O erro de Sodré foi acreditar nessa oposição marxista de campo e cidade, de que decorre utilizar de modo truncado o termo “latifúndio” relativamente ao contexto da história local.
21 Vemos que Sodré, em “Brasil, radiografia de um modelo” (Rio de Janeiro, Bertrand, 1987), de modo algo espantoso, considera com Bailby o fascismo em “países subdesenvolvidos” como uma opção da economia latifundiária. Aí o fascismo seria “um mecanismo de defesa das classes latifundiárias e demais forças conservadoras, contra a ameaça de revolução social, ou mesmo de reformas” (p. 135).
22 Compreensivelmente, mas de modo muito questionável, na “História da Burguesia Brasileira” atribui ao tenentismo objetivos democráticos, contrários ao “latifúndio”: “Pleitear representação livre, isto é, um sistema eleitoral de base democrática... era o que impulsionava o tenentismo” (p. 238). Bem inversamente, Vicentino e Dorigo, citando Basbaun, demonstram que após a tentativa de revolução de cima para baixo, em 1924, o tenentismo convergiu para a revolução ditatorial varguista de 1930, e, com efeito, os “tenentes” se tornaram os principais auxiliares da ditadura de Vargas.
23 Sobre o Clube 3 de Outubro, agremiação dos “tenentes” após a capitulação de 1924, Sodré o coloca como um programa de nacionalismo e sindicalismo “cujos traços burgueses eram inconfundíveis” (p. 249). Enquanto Vicentino e Dorigo, com Basbaum, demarcam que o Clube 3 de Outubro homenageava Gois Monteiro, o General do golpe varguista em 1930, como líder máximo. Assim, ao ver destes autores, o Clube foi fundado pela “ala direita” do tenentismo que se professava simpatizante do fascismo (op. cit, p. 349).
24 A propósito, foi o General Gois Monteiro quem depôs o Vargas ditatorial, porém eles se reconciliaram posteriormente, conforme a biografia da editora Três. O General já estava comprometido com a candidatura oposicionista a Vargas, porém prometera não permitir que Vargas fosse impedido de concorrer ou que o eleito não fosse empossado, quem quer que ganhasse o pleito.
25 O maior problema da interpretação de Sodré, como sublinhei, é seu uso não muito definido do termo “latifúndio”. Ao contrário do procedimento de Sodré, na situação brasileira, especificamente a da época do “tenentismo”, estar contra o “latifúndio” não significa estar a favor do industrialismo nacional, ou ser desincompatibilizado da economia rural, da plantation, pecuária ou extrativista. Isso, pelo fato de que o “latifúndio” como termo de oposição, se usava na língua corrente para designar apenas a cafeicultura do Oeste paulista, associada como vimos que era, por desdobramento do investimento próprio ou laços familiares, ao capital industrial nacional.
26 É notório na história local que o cafeicultor paulista se capitalizava e integrava técnicas capitalistas como a de reinvestimento, ao contrário de outros referenciais do cultivo agrário, por aí o desdobramento do seu capital industrial e interesses modernizantes.
27 Além disso, esse uso do termo se compreende pela preponderância, na verdade centralidade, da economia do café que se concentrara nessa região de São Paulo. Porém é manifesto que a Revolução Varguista em 1930 estava apoiada pelo capital rural de todo o país voltado contra o domínio de São Paulo - que na condução do governo só era alternado pelo de Minas. Não por alternativa industrial, portanto, mas porque mais opções agro-pecuárias e extrativas haviam crescido e estavam muito bem organizadas como força econômica inclusive de exportação. O golpe varguista foi congregado por estes opositores do “latifúndio” na acepção de agricultura cafeeira exportadora paulista, sem que os próprios opositores fossem menos latifundiários ou exportadores de matérias primas no sentido descontextualizado do termo.
28 Vemos por exemplo o uso truncado de Sodré, que negligencia o uso contextual entretanto fundamental para entendermos a correlação de forças, quando ele referencia Joaquim Murtinho como o ideal-tipo da tese do país essencialmente agrícola, o político do “latifúndio”, feroz adversário da industrialização, frontalmente oposto à defesa desta por Serzedelo Correa. Ora, de fato Murtinho não era cafeicultor, era apenas, na política, testa de ferro dos interesses da sua família num cartel do Mate, em Mato Grosso (cf. Faria, F. A. “Arquivo de sombras, a privatização do Estado brasileiro nos anos iniciais da primeira república”, Rio de Janeiro, Sette Letras, 1996). [Nota 16 b]
29 E ele não atacava por mera ideologia de homo faber, mas sim esgrimindo a teoria spenceriana positivista do capitalismo como decorrência da natural destinação dos fortes para o domínio. O que expressamente significava aversão à caridade e valorização do monopólio, como meios de eliminar os fracos - de raça ou de condição - em prol da melhor humanidade, isto é, em prol do que convinha ao eurocentrismo imperialista.
30 Sodré, com outros referenciais, pode assim encenar a antítese do curral eleitoral do “latifúndio” contra a “burguesia”, na medida que usaram-se as forças armadas do interior contra os rebelados tenentistas, em São Paulo e Rio de Janeiro, em 1924 e 1922. Porém a mesma antítese do peão interiorano autoritário e iletrado contra a população esclarecida do Sudeste é testemunhada por Oswald de Andrade, cobrindo por realista ficção, em sentido lato, a repressão aos revolucionários de 1932 contra Vargas. Este sim pode ser considerado um levante “paulista” num sentido não apenas geográfico circunstancial. E constitucional, já que o pretexto foi, dado o descontentamento pela nomeação por Vargas do “tenente” pernambucano João Alberto como interventor em São Paulo, a restauração do regime democrático.
31 O que se deve sublinhar historicamente é a oposição do interior como referencial de um setor agro-exportador que não se compreende na designação do capital cafeicultor-industrial paulista, e o “latifúndio” como termo contextualizado referencial da cafeicultura paulista. Essa oposição determinante não visou, pois, diretamente a indústria, mas a dominação regional agrária paulista.
32 Além disso, o próprio Vargas não poderia se sustentar sem os cafeicultores, e radicalizou a política de valorização do café a ponto de usar a rubiácia como combustível de locomotivas, por que estava queimando significativa quantidade de sacas, compradas pelo governo, a fim de garantir a produção prejudicada pela guerra. Política econômica que teve bons resultados, segundo Vicentino e Dorigo, já que estabilizou a economia e garantiu o crescimento interno na época do incentivo à produção local devido à guerra.
33 Após o Estado Novo, a oposição a Vargas não foi protagonizada pelos industriais nacionais, mas pelos interesses da classe média compradora de importados, que deveria prosseguir alinhada com o contexto do pós-guerras. Na cobertura de Vicentino e Dorigo da contestação que depôs o Estado Novo, nem mesmo há referência à questão das classes sociais, apenas o prestígio da FEB na guerra contra os fascistas na Europa, e a aglutinação, desde o retorno dos “pracinhas”, das forças, democráticas e outras, que estavam até aí - como o próprio Oswald - na perseguida oposição. Escusado lembrar que Vargas já estava há quinze anos no governo.
34 Não havendo já a opção fascista derrotada na guerra, Lacerda torna-se a figura chave da oposição a Vargas, mas que ela não era o oposto do antigo tenentismo, em termos de composição de classse, se pode ver por isso que seu prercurso desde aí foi o golpismo e não a opção democrática. Nem mesmo há necessidade de nos ocuparmos aqui com o interregno de J. Quadros.
35 Assim também o golpismo anti-varguista da classe média udenista pós-1945 foi tanto de elementos tenentistas como de integralistas. Juarez Távora, o oponente de Juscelino na eleição, que vimos quase ter precipitado um golpe, havia sido tenente interventor nomeado na época do varguismo ditatorial. Não poderia haver diferença mais radical da opção do Vargas eleitoral do que o do Vargas ditatorial, após-1945 compondo-se com a esquerda comunista, fundando o PTB, partido “trabalhista”, etc., opção que não era unicamente da classe média.
36 O critério que Sodré considerou bom, de discriminação entre elementos pró ou contra o imperialismo tanto comerciantes quanto industriais, elide a oposição da classe média compradora de importados e industriais nacionais, porque almeja definir um bloco único da “burguesia” local oponível ao “latifúndio”, também não especificado em sua cisão interna que definiria porém o ramo paulista em composição orgânica ao industrialismo.
37 Por outro lado, a composição da classe média tornou-se complicada desde Juscelino, com o udenismo de um lado, mas a coalizão nacional em prol das reformas de base, por outro lado. Uma vez que a política imperialista de concentração da renda principiava a esboçar-se, mas a conjuntura internacional ainda era favorável aos levantes por independência econômica e política no terceiro mundo, numa conjuntura em que o Estado de Bem Estar Social keynesiano promovia o ideal dos países “em desenvolvimento”.
38 Essa tendência ao esclarecimento se acentuou após o golpe, quando a política de concentração revelou aos ingênuos que continuaram udenistas, que não porém os que se beneficiaram com cargos de governo ou capital misto, a verdadeira face da mentira do regime quanto às promessas de desenvolvimento social. Estava em curso o favelamento crescente, e o achatamento progressivo da classe média, além do caráter iníquo da repressão política por tortura e eliminação a niveis genocidas, independente de classe. Uma tendência da classe média ao esclarecimento e resistência à ditadura, que na “globalização” se tornou diretamente atacada pelo neonazifascismo expresso na forma do neoliberalismo econômico, mas como temos repetido e examinaremos oportunamente com minúcia, correlato da repressão ditatorial à nacionalidade.
39 A meu ver o balanço de fechamento da “História da Burguesia Brasileira” é um documento importante da situação na véspera do golpe, como um testemunho contundente de que apesar de tudo um capital nacional havia se afirmado, e estava demonstrado à sua ideologia, a conveniência da aliança com o desenvolvimento da qualidade de vida, isto é, com as classes nacionais economicamente desfavorecidas. Era de fato o que Sodré queria demonstrar, pelo que podemos julgar de sua definição das reformas de base de Goulart como revolução burguesa, nacional.
40 Não obstante, para Sodré as reformas de base ainda não haviam sido suficientemente esclarecidas, e até onde ele pudera cobrir a política econòmica do governo estava em continuidade conciliadora com o imperialismo, Goulart tendo mantido os mesmos quadros de técnicos e especialistas que serviam a qualquer governo. Por outro lado, reconhecia que Goulart tinha tudo o que era preciso para fazer as reformas necessárias a uma revolução burguesa: “trazia a base popular indispensável, e atendia claramente às exigências e necessidades da burguesia brasileira”.
41 Em “Brasil: radiografia de um modelo” , Sodré cobre o período após o golpe, até os anos setenta. Em princípio ele confirma a sua impressão de Goulart como apenas tendo feito uma política de conciliação com o imperialismo, que porém não teria bastado a este último. Contudo, agora Sodré tinha mais elementos para explicar a defasagem. Repetindo as linhas gerais com que terminara “A história da burguesia brasileira”, em “Radiografia de um modelo” faz o balanço do governo deposto: “... as chamadas 'reformas de base' visavam ampliar o mercado inerno, pela manutenção do salário real e por uma reforma agrária a longo prazo, a alargar o mercado externo pela abertura de novas áreas aos produtos brasileiros”. Mas conclui agora: “A crise se aprofundara demasiado, entretanto, para que restasse prazo suficiente ao alinhamento e funcionamento dos resultados”. A derrocada teria sido provocada pela “pressão conjugada e simultânea, do latifúndio e dos interesses externos”. (p. 94) Sodré não documenta pois o apurado em Dreifuss a propósito do que aqui interpretei como a aliança histórica UDN/ESG/CIA, que não representavam diretamente o latifúndio, mas sim a classe média urbana e o capital multinacional. Ele persevera na dicotomia simples de campo e cidade, latifúndio obsoleto e modernização industrial, desconhecendo inteiramente o IPES/IBAD.
42 Porém quanto ao meu propósito de relacionar o resultado histórico e atualizado dessa trajetória, em termos das evidências nunca antes enfatizadas de que os Estados Unidos não foram protagonistas solitários do golpismo, mas agiram em conjunto aos interessses imperialistas da Europa e Japão, e de que o desdobramento dessa ação integra o neonazismo internacional após 1945, Sodré revela alguns elementos interessantes.
43 Primeiro, ele faz um paralelo explícito entre a situação do hitlerismo e a atualidade. Afirmava um consenso dos observadores, acima de distinções ideológicas, de que o capitalismo estava numa fase recessiva, e cita Barraclough sobre que “Hitler e seus ditadores satélites” teria apenas se aproveitado da fase recessiva semelhante, no passado, assim como do “deslocamento que a depressão criara” . Mas a demonstração dessa tese, quanto ao presente, era de que “assim como em 1930” quando “a ordem internacional restabelecida após a Primeira Guerra” colapsara por causa “do impacto do recesso”, agora, em 1970, “a nova ordem internacional, criada pelos EUA depois de 1945, estava visivelmente rangendo nas articulações. Já em 1968, um comentarista anunciava que a 'pressão do dinheiro' estava forçando a détente em todo o mundo”, enquanto Perlo mostrava como “a Alemanha Ocidental, a Suiça e o Japão estavam na realidade subsidiando a influência econômica externa dos EUA numa extensão de muitos bilhões de dólares por ano, e, segundo Sodré, caberia acrescentar: “o Brasil também...”. (p. 7)
44 Porém minha intenção não é considerar que a associação de capitais do primeiro mundo fosse de mesma natureza de um saque colonialista como o que se verificava pela invasão de multinacionais garantida pelo golpismo. Bem inversamente. Sodré mesmo documenta, quanto a isso, já utilizando a expressão “internacionalização da economia” que se tornou oficial apenas na “globalização” para caracterizar a esta, que, conforme Levinson, “das 53 empresas multinacioanis, indicadas como controladoras da produção e das finanças internacionais, 38 operavam no Brasil e, destas, 21 faziam parte das 200 grandes 'empresas brasileiras'“. Na época, conforme Sodré, Francisco Oliveira contestava o uso do título “empresas brasileiras” nesse caso, como mero disfarce para os grandes trustes e monopólios atenuarem “diante da consciência dos explorados, a brutalidade da exploração”. (p. 8)
45 Também não considero que a interpretação da convergência de capitalismo e neonazismo seja epifenomênica a uma conjuntura de crise, pelo contrário. Pois, inversamente ao que se pensava na década de setenta, quando o ocidente se fazia de vítima perante o que era alardeado como a vitória próxima do comunismo totalitário, que subjugaria finalmente toda liberdade de consciência humana, e mesmo intelectuais de centro-esquerda acreditavam nisso, assim se colocando num falso dilema de liberdade ou pobreza, hoje sabemos que em curso estava apenas a dessovietização e recolonização do mundo pelo capitalismo associado de Estados Unidos, Europa e Japão. É mesmo algo contraditório que Sodré estivesse ao mesmo tempo reportando tempos recessivos no ocidente e como o golpismo estava sendo tão exitoso em seus objetivos de obtenção de lucros de valor inimaginável à poupança comum, jamais obtidos nessa escala anteriormente.
46 Além disso, a relação de depressão econômica e hitlerismo não deveria ser considerada um fenômeno de época quanto à história econômica, mas sim um fenõmeno da história geopolítica ali onde a economia não é algo particular, discernível de sua amplitude. Pois o que ocorria na Alemanha era apenas reflexo da guerra de concorrência movida antes pela Inglaterra, não obstante ambos os países serem protagonistas do neocolonialismo como os maiores impérios do mundo em termos de extensão de povos dominados na Ásia, África, Oriente Médio e América Latina.
47 Mas a preocupação dos anos setenta já estava voltada ao capitalismo como fenômeno que deixara de ser inteiramente superponível ao desenvolvimento dos regimes nacionais constitucionais. O impacto do terceiro mundo já estava forçando à redefinição do ocidentalismo teórico, não obstante Sodré não o ter assimilado, assim considerava que no quadro recessivo, devia se considerar a guerra por descolonização afro-asiática como uma nova alternativa ao capitalismo, que o ameaçava de frente. Porém como sabemos, o capitalismo estava envolvido radicalmente na descolonização, de modo nenhum disposto a permitir que resultassse num continente economicamente independente.
48 Em todo caso, conforme Sodré a propósido da internacionalização da economia, sabia-se já que na América Latina, em 1972, apenas três países, Brasil, México e Artentina, tinham produção anual superior à General Motors em valor. Em 1969, a General Motors tinha movimento de vendas maior do que o PNB da Suécia, Bélgica e Holanda, o da Standard Oil de New Jersey superava o PNB da Dinamarca, e o da Ford era maior que o PNB da Áustria.
49 Uma década após a interpretação de “A história da burguesia brasileira”, Sodré deveria ter certa consciência do que vimos como o fenômeno local preponderante, a trajetória da classe média compradora-importadora, do Tenentismo ao Estado Novo, à UDN e ao Golpe de Estado, sempre objetivando o dirigismo pela via da tomada do poder governamental. Como vimos, porém, ele persistiu na oposição de campo e cidade. Porém, ele emendava: “na verdade, as forças que se uniram para empreender, em 1964, a destruição do regime vigente, eram heterogêneas”. Apenas tendo preponderado por fim “o latifúndio de um lado, os interesses externos, de outro, com alguns reforços da burguesia associada aos capitais estrangeiros e na pequena burguesia.”
50 Ainda não tinha, pois, plena claridade quanto à composição tenentista-udenista no seu antagonismo à indústria nacional e economia realmente livre de mercado. Assim continua ele também a não questionar a heterogeneidade do proletariado, como um fator não apenas folcloricamente cindido por um regionalismo de atraso. Mas interno à ambiguidade de suas relações com a ideologia da classe dominante em cada caso, conforme a lógica do curral eleitoral do campo e da cidade, visto que ao contrário do que pretenderam Foucault e outros, não é possível separar o proletariado de movimentos sociais como de religiões, costumes, etc., assim como tampouco a burguesia e/ou classe média.
51 Vimos que Claude Julien, em 1968, reportou que o AFL-CIO, maior sindicato dos Estados Unidos, sustentava “a política do presidente Johnson no Vietnã, como ela tem manifestado um anticomunismo virulento ao longo de toda guerra fria” . Reporta assim que o AFL-CIO estava unido à CIA para intervir a pretexto do anticomunismo, na Guiana mas também na Europa, “para influenciar seus sindicatos, seus jornais, seus partidos políticos”. (op. cit.p, 433) Sodré, inversamente, citando o Jornal do Brasil, reporta em 1973 que “Para a poderosa AFL-CIO, as multinacionais estão tendo um impacto devastador na economia e na sociedade dos Estados Unidos”, e, ainda, que “A internacionalização do movimento sindical enfrenta inúmeros obstáculos, um dos quais é a posição do Governo de certos países que se, por um lado, abrem suas portas para as multinacionais, por outro as fecham para o intercâmbio de ideias e colaboração entre os sindicatos”. (p. 8, grifo dele)
52 A infiltração do peleguismo não era aí comentada. Porém vemos que devia estar havendo alguma movimentação internacional de reação ao caráter desumano da repressão política e roubo direto da população. Sodré cita o Washington Post, de fins de 1971, a propósito da “situação econômica brasileira”, que em uma década até 1970, enquanto 80% por cento dos brasileiros pobres estavam bem mais pobres, 5% dos brasileiros ricos haviam ficado bem mais ricos. E já em inícios de 1972, tornou-se pública a decisão da ONU em recusar como válidas as estatísticas econômicas brasileiras, enquanto a FAO impugnava o índice de 12% de crescimento da produção agrícola do país, quando a seu ver só se poderia computar 3%. [Nota 17]
53 A recusa das estatísticas visava principalmente o cálculo do Produto Nacional Bruto (PNB), e aquela altura até mesmo o presidente do BIRD, Robert McNamara, havia declarado a propósito do Brasil que “não se devia confundir PNB com desenvolvimento”. Todos se pronunciavam criticamente ao que estava sendo propagandeado como o “milagre brasileiro”, e Sodré recenseia vários pronunciamentos internacionais a esse propósito, em contraste com os anúncios governamentais de estabilização e crescimento. (p. 25 a 27).
54 Em “Radiografia de um modelo”, portanto, os problemas discutidos na “História da burguesia brasileira” mostram-se agravados. Sodré, em linhas gerais, pôde lidar com isso como demonstração de sua posição anterior. Goulart não havia feito tudo o que era necessário, mas o que logrou fazer mostrou-se insuficiente. Porém vimos que antes ele considerava o latifúndio liquidado pelo próprio imperialismo, o que não se coadunava com o quadro após o golpe. Pode ser defensável, considerando o que já vimos como uma guinada interiorizante da ideologia ditatorial nos anos setenta, uma hipótese da aliança dos poderes com os quadros nordestinos e interioranos, estes sim latifundiários no sentido não local da plantation tradicional, na contingência da resistência do Sudeste esclarecido e economicamente mais desenvolvido.
55 O Nordeste é tradicionalmente de mentalidade autoritária e escravista, e as piores violência\s contra os direitos humanos da população lá se verificam, assim comoas formas mais grotescas de brutalidade contra a organização política dos cidadãos. A mentalidade arcaica do caudilhismo, mantida a população a níveis bestiais de incultura, configura a ideologia do trabalhador peonado, não só pelo que Sodré considera na História da Burguesia Brasileira, uma “passividade” deplorável, expressiva da dependência econômica ao “coronel do sertão”. Mas por razões históricas que ele mesmo cobre antes, na mesma publicação, de modo a mostrar que ao contrário do folclore, o “engenho” escravista colonial foi apenas típico do Nordeste, enquanto o Sudeste desenvolveu trabalho livre, de mineradores e ligado à criação estancieira do gado, assim como também concentrou a burocracia governamental e o capital urbano.
56 O mérito de Sodré contra tantos outros que reduzem costumeiramente tudo o que na colônia não era o “engenho” escravista, a mera selvageria do índio ou trânsfugas alienados no mato, é grande a meu ver, porém ele ainda não cuida da heterogeneidade efetiva. A mais do trabalho livre que Sodré designa “conjunto pastoril”, bem oposto ao escravo negro primeiro nordestino e depois concentrado às centenas de milhares em levas africanas crescentes destinadas ao café oitoscentista, de fato a colônia tinha mais três ambientes.
57 Os “quilombos”, como cidadelas de escravos foragidos a que se integravam dissidentes brancos e colaboradores índios, e que tiveram duração considerável, além de número constantemente revezado, não obstante as guerras repressivas movidas pelos colonizadores. As vilas urbanizadas em torno dos funcionários públicos, focos da intelectualidade, esta relacionada aos movimentos separatistas e abolicionistas. E as tribos da etnia aborígine, que eram ainda numerosas não obstatante o genocídio colonizador e imperialista persistente. Não devemos considerar que havia assim de qualquer modo uma tendência à integração. Na “sociedade nacional”, sempre se refazia a cisão originária de primitivo e colonizador cristão, por mais que fosse artificial e psicoticamente projetada a pertença do elemento ao segundo - assim o próprio negro escravo estava cindido entre o escravizado subordinado e o “feitor”, além de outros tipos de serviçais, aliado à “casa grande”. Somente o índio, em geral, nunca teve grupo de status “nacionalizado”. Pelo contrário, o imigrante europeu sempre gozou de nacionalização requerida e facilitada, para “melhorar” (branquear) “a raça”, como expressavam os positivistas.
58 Ao deslindar a questão do crescimento do latifúndio na ditadura, num sentido agora não relacionado ao café, Sodré corretamente observa o declínio da agricultura para fins de aproveitamento da população local, o pequeno camponês, numa proporção antes desconhecida, a fim de incrementar a plantation – o latifúndio monocultor como agrigultura “extensiva” não mecanizada, porém com a mecanização apenas agravando o problema do êxodo rural pela perpetuação da monocultura agroexportadora anti-ecológica, contra a policultura dos pequenos produtores. Mas a política era de atração do capital estrangeiro ao campo, como a multinacional Sambra, de modo que o negócio lucrativo em si era a acumulação das terras que se capitalizavam pela simples posse, além da pecuária. Assim o substitutivo da lavoura de subsistência foi, via de regra, o “intenso latifúndio ocupado por bois e capim”. (p. 13)
59 No entanto Sodré não nota ainda o que depois se verificou, a saber, que estava havendo um intenso êxodo rural da peonada nordestina e interiorana às cidades, de modo a originar-se a megafavelização.
60 O número de pessoas faveladas só em São Paulo, entre 1970 e 1980, cresceu numa proporção de 50 mil para 500 mil, em números aproximados, segundo fontes confiáveis. Na globalização, desde o final dos anos noventa, o fenômeno alcançou proporções drásticas, de transformação do próprio significado da cidade brasileira, como já sublinhei, devido à convergência das comunidades faveladas com o novo fenômeno do crime organizado. Porém, assim, com um crescente aproveitamento do curral eleitoral pela política demagógica, não só de direita mas de “trabalhismos” autoritários, de ampla gama de ideologias, voltada contra a população esclarecida, como examinaremos oportunamente.
61 Na altura do exame de Sodré a propósito do “milagre brasileiro”, a questão do capital misto havia se tornado de simples dominação estrangeira, conforme o exemplo do grupo Antunes, sócio, mas praticamente apenas representante, de várias multinacionais, entre as quais Betlehem, Hannah Mining e Nippon Steel. As concessões às empresas multinacionais estavam multiplicadas, registrando Sodré que toda a infraestrutura de serviços básicos e extensão territorial necessária era fornecida pelo Estado nacional à empresa estrangeira. Antunes exemplifica como as concessões a multinacionais eram facilitadas, tendo ele, ou antes a Hannah, obtido construção de estradas e portos. A concessão de territórios a multinacionais era escandalosa na década de setenta, em plena era do “milagre” econômico brasileiro.
62 O frigorífico Anglo tornara-se proprietário de um terço de um município em São Paulo. O projeto Jari destinara na Amazônia, a Daniel Ludwig, um dos homens mais ricos do mundo, um milhão e 250 mil hectares, maior que o Estado de Sergipe, com cinco mil peões semi-escravizados, e ele exigira ainda incentivos fiscais. O preço da terra subira entre 500 % a 10.000%, enquanto seringueiros nacionais do Acre eram “escorraçados” para a Bolívia, quando as terras que habitavam foram destinadas a grupos econômicos apropriando-se dos seringais. (op. cit. p. 11 e segs.).
63 O crescimento das estatais na época da ditadura militar foi documentado por Sodré em termos de manobra do governo para poder aplicar recursos nacionais ao favorecimento dos investimentos multinacionais, como no caso da energia elétrica, que o governo prometia fornecer a preço barato “às indústrias estrangeiras estabelecidas no Brasil”.
64 Assim também, conforme Sodré: “Falou-se em 'crise do aço'; não havia crise, mas transferência de renda, da área estatal para a área do imperialismo: o Estado estava, no Brasil, subsidiando os investimentos estrangeiros aqui estabelecidos”.
65 Ao mesmo tempo, “a pretexto de conter a inflação, o novo regime operou a estagnação dos salários pela força, a restrição ao crédito, levando à falência centenas de pequenas e médias indústrias, a concentração da produção e da renda, pela destruição da concorrência e incentivo às fusões”. O Ato Institucional número 5 (AI 5), na sucessão dos que foram decretados pelo regime militar, e que em 1968 cassou todos os direitos políticos e liberdades individuais dos cidadãos brasileiros, também “entregava ao capital privado estrangeiro a melhor fatia da exploração petrolífera”, segundo Sodré. Pois, devido à criação da Petroquisa, que na realidade era uma política de incentivo à participação acionária estrangeira, afirmando o seu próprio estatuto “não constituírem as atividades da petroquímica monopólio estatal”. A propósito, registra Sodré os grandes interesses do grupo Rockefeller que “conseguiu uma divisão do trabalho com a própria petroquímica estatal e a associação com grupos nacionais minoritários” (p. 157). Acima vimos como Rockefeller atuou decisivamente em prol do golpe de 1964.
66 O PAEG, Plano de Ação Econômica do Governo, implementado por Castelo Branco, tinha por objetivo “entregar aos interesses externos as áreas mais rentáveis da indústria brasileira”, de modo que a política de incentivos fiscais destinava-se a discriminar empresas nacionais para privilegiar as estrangeiras. (p. 143, 144).
67 Sodré aprofunda aí o seu importante argumento, a meu ver válido, de que o Estado nacional na verdade sustenta qualquer desenvolvimento industrial local estrangeiro, ao invés de ser ao contrário como se apregoa. O que vem sendo referenciado como a novidade da globalização, o deslocamento da própria fábrica imperialista ao terceiro mundo, já não apenas a exportação dos produtos, ele registra como estando plenamente em curso na época do regime militar: “Esta última etapa [do imperialismo] vem funcionando, no Brasil, e com a associação do Estado às empresas multinacionais, já sem nenhum disfarce”. (p. 145)
68 De acordo com a informação de Sodré, devemos considerar portanto a globalização como apenas o aprofundamento da ditadura militar, possibilitado pela dessovietização e incremento tecnológico da robotização da produção, que assim permite o deslocamento da fábrica, em maior escala ainda. [Nota 18]
69 A propósito do argumento importante de que o Estado nacional sustenta a indústria privada multinacional, em vez de ser o contrário como apregoa o neoliberalismo econômico, ainda na “História da Burguesia Brasileira” Sodré reportou sobre os estaleiros Ishikawagima, que a participação do governo brasileiro em investimento inicial orçou em 743 milhões de dólares, enquanto a do grupo japonês propriamente em 8,6 milhões de dólares e algumas dezenas de milhões de cruzeiros. Os Verolme, tiveram investimento governamental de 300 milhões de cruzeiros, o grupo holandês de apenas 8 milhões de cruzeiros e quatrocentos e poucos mil dólares. (op. cit. 290 e segs.) Assim vemos que é o Estado nacional quem sustenta o capital dito privado imperialista, ao invés de ser o contrário. Podemos compreender desse modo que só a ruptura para com o determinismo ocidentalista-progressista, adotando-se a realização da legalidade constituída em função dos direitos da subjetividade, como objetivo social independente do a priori de planejamento econômico, é que se seguirá a instauração dos meios da livre empresa, salários justos e assistência social do Estado nacional democrático que seja compatível às necessidades, conforme os critérios do “desenvolvimento humano” que medem a homogeneidade da qualidade de vida em itens definidos (alimentação, longevidade, saúde, letramento, hahitação, acesso à cultura, liberdade de expressão e consciência, etc.). Ou seja, só assim, podemos considerar, se seguirá a prosperidade das economias nacionais.
70 É preciso, pois, contrapor-se à inconsistente opinião de que só tolerando a roubalheira do tesouro nacional pelas multinacionais ou seus associados, é que se terá capital privado suficiente para sustentar o Estado - o que é absurdo flagrante, porém um dos argumentos mais “seriamente” expostos pelos defensores do neoliberalismo econômico, que já agora não se restringe à direita, mas abrange a esquerda oportunista que tem sido patrocinada pelas mídias por seu caráter possivelmente “populista”.
c.3) A Ofensiva dos Carteis : redefinição do Estado e do Capital
c. 3. I) O Golpe de 1964 na trajetória do monopolismo
1 Na tese de Warren Dean, conforme examinamos, a indústria nacional, atribuída apenas pela expressão significativa alcançada em São Paulo, explicava-se pelo fator da integração de capitais, ou “fusão das elites”. A princípio, integração e não conflito, com o capital estrangeiro, o nacional na qualidade de complementar. Em seguida, havia o fator da integração dos setores de produção nacional, que se tornaram capazes de suprirem-se mutuamente, e produzir numa gama muito extensa de mercadorias. O episódio Vargas foi um terceiro fator, mas apenas na medida circunstancial da guerra.
2 Nesse ínterim tornara-se notável, na observação deanista, o antagonismo da classe média compradora de importados à indústria nacional. Conforme Dean reportou, nisso mais coerente com a cobertura de Vicentino e Dorigo do que Sodré, o Vargas ditatorial não estava comprometido com o projeto industrializante na acepção de qualquer aliança com o empresariado existente.
3 Vargas refletia antes o interesse convergente da classe média compradora de importados com a agro-exportação que o impulsionara ao governo justamente por oposição ao predomínio cafeicultor-industrial paulista. Mas Dean explora habilmente o oportunismo do projeto monopolista da ditadura varguista na conjuntura da Segunda Guerra. Assim o que pudera haver de projeto industrial monopolista de Estado, ancorava-se na circunstância da guerra, do mesmo modo que as brechas que nesse projeto puderam ser abertas como proveito à colaboração dos industriais nacionais efetivos, que na substância do monopolismo de Estado eram alijados.
4 Conforme Dean, essa colaboração inteiramente oportunística de parte a parte, e circunstancial, significava porém o limite da indústria nacional na conjuntura da época, o que podemos compreender tanto porque daí para a frente requeria mais do Estado, relativamente aos períodos anteriores, como pela predominância obtida pela classe média. A convergência de ambos os fatores, na medida que o Estado pós-varguista justamente concentrou-se na classe média compradora de importados quando já não havia para ela tampouco uma opção fascistizante disponível, concorrem para que após a ditadura o capital industrial tenha se desnacionalizado inteiramente, na perspectiva de Dean. Ele considerou, portanto, que a história da indústria nacional findava com a deposição da ditadura varguista.
5 Ora, o que ocorre porém, como vimos, é que o processo não se estancou na queda de Vargas. Na altura do varguismo, o que aconteceu foi não apenas a consolidação da classe média como limite da burguesia que estava ascendendo ao poder, mas o amadurecimento político da sociedade, que tornou mais heterogênea a gama das opções, e, assim, nascia o conflito antes desprezível do capital nacional e estrangeiro.
6 Compreendemos criticamente o anacronismo de Sodré, recuando até às origens um tipo de conflito que só emerge bem depois. Mas também o que motivou o anacronismo na época em que se produzia, em termos de uma continuidade da questão econômica nacional, que pela perspectiva de Dean seria apenas superfluidade inessencial referenciar.
7 A meu ver, o real campo de prova da perspectiva histórica é o governo Juscelino, uma vez que ele teria efetivamente personificado a lição deanista do caminho integrado, quanto à industrialização nacional viável. O modelo do tripé forneceria a integração do capital nacional e estrangeiro atualizada, isto é, planificada, funcionando além disso em nível de governo, por incorporação dos conselhos internacionais organizados.
8 Porém não era tal a opção do capital multinacional cartelizado, favorecido pela convergência aos interesses da classe local efetivamente integrada a ele, mas não pela via da produção, e sim do consumo por um lado, mas também do monopólio associativo e da resistência à organização social em bases humanitárias - reduzida à etiqueta falsa do “comunismo”. Esses interesses conjugados provaram sua aliança na soma colaborativa da CIA à antes obtida convergência coerente de UDN e ESG.
9 Assim é compreensível que após o golpe, tenha sido retomada a repressão contra a indústria nacional, não apenas a totalização do capital estrangeiro. O que permite conjecturar que o golpe foi o interregno necessário para a “globalização” - que na atualidade, está porém provando-se também não ter obtido a totalização característica de sua fórmula, pelos conflitos remanescentes que iremos subsequentemente reportar.
10 A pergunta sobre por que foi possível a integração do capital nacional ao estrangeiro na origem, não obstante a hegemonia do capital estrangeiro desde sempre, tem fácil resposta se compreendemos o capitalismo maduro, aquele que após a guerra seguiu o curso golpista. Organiza-se pelo monopolismo de cartel, e é assim que a empresa capitalista, ou seja, o capital privado, obteve alcance de domínio do mundo em cada setor de mercado. Antes as associações capitalistas europeias já estavam integradas aos governos imperialistas, porém não havia ainda a ação cartelizada do capital em si mesmo. A guerra de todos contra todos era a regra, até o caos resultante da unfair competition.
11 Além disso, na época da origem da industrialização paulista , o neocolonialismo afro-asiático estava se tornando uma prática oficial como o corolário da associação imperialista de capital e governo na Europa, de modo que antes das duas guerras já estava ocorrendo um motivo de fuga ou negligência do interesse europeu. Mas sem dúvida a questão do cartel é o preponderante, uma vez que o monopolismo cartelizado só está plenamente consolidado nas décadas iniciais do século XX.
12.Assim vemos que o curso do capitalismo clássico, europeu, limitado à guerra de 1914, possibilitou a soma de teorias que definem o capitalismo por uma convergência determinista ao modo de ser do Estado constitucional contemporâneo. Nesse conjunto teórico, seria compreensível que o marxismo tivesse tanta preminência, sendo axioma do Estado como mero reflexo “ideológico” da dominação capitalista, para o bem ou para o mal.
13 Porém, logo que a verdadeira face do capitalismo financeiro monopolístico se apresenta, comprova-se que nada está mais oposto ao interesse capitalístico do que a ingerência legal do Estado na sociedade. E a evolução do capitalismo ao longo do século XX, podemos agora, na “globalização”, rever como mais do que apenas a hegemonia dos Estados Unidos enquanto um neocapitalismo atribuído, e sim a ação concertada dos carteis internacionalmente organizados visando o domínio econômico mundial em cada setor do mercado. Ainda, esse domínio preserva o escalonamento colonialista, bem inversamente a ser dele independente.
14 O que se pode demonstrar por isso que na altura em que a redefinição mostrou-se irresistível, às vésperas da “globalização”, o que ocorreu não foi a intensificação da propaganda dos países “em desenvolvimento”. Mas sim o inverso, a injunção do Clube de Roma para a paralização do desenvolvimento do terceiro mundo.
15 Ainda que se possa atribuir essa injunção como a solução autoritária na contingência da descoberta da problemática ecológica, o que resultou na realidade foi o planisfério geopolítico atual, clivado em dois hemisférios, o sul ou “terceiro mundo” subdesenvolvido (“países pobres”) e o norte ou “primeiro mundo” desenvolvido (“países ricos”). Sem que qualquer limite à expansão industrial do primeiro mundo tenha se verificado, mas sim a guerra dele contra as economias e Estados nacionais do “terceiro mundo”, a fim de implementar territorialmente as suas fábricas exportadas.
16 Com a dominação imperialista, isto é, econômica, sendo feita agora pela ação empresarial “multinacional” - isto é, os carteis - diretamente, conforme a ideologia do neoliberalismo econômico do “Estado mínimo”, ocorre pois a evidente redefinição do capitalismo como o contrário do Estado, independente dele ou devendo dominar as instituições neutralizando a legalidade representativa, bem inversamente a depender dela para produzir-se. Na “globalização” que define o capitalismo pleno, ao contrário das previsões das teorias anteriores, nessa plenitude as populações não estão expostas a um Estado sempre mais poderoso, totalitário e super-controlador. Elas estão, ao contrário, depauperadas por algo mais do que a economia, e uma vez que a clivagem geopolítica não permite, e isso já há muito, atribuir ao “proletariado” do primeiro mundo qualquer força de resistência, já que ele é mimado pelo capitalismo central. A propósito, ver Lucien Goldman (“sociologia do romance”) que expõe essa questão da redefinição do proletariado no seio mesmo da análise marxista, no entanto sem jamais ter antecipado a desestatização.
17 Na globalização como capitalismo pleno e planetariamente dominante, portanto, as populações estão sempre mais expostas a um regime de retrocesso contínuo à ausência de representação legal constituída, isto é, desestatizado.
18 Por retrocesso não quero dizer que na origem das sociedades estava a hobbesiana guerra de todos contra todos como estado das populações ameríndias “selvagens”. Mas sim que, se nas organizações legais, que ao contrário de Hobbes ou de Weber, definem todas as sociedades “nacionais”, etnicamente definidas ou por níveis mais complexos de integração, conhecidas, sem que nenhuma possa ser reduzida a mera comunidade de costumes, o Estado constitucional contemporâneo expressou um nível novo na compreensão humana, oriunda da abertura da visão à heterogeneidade das culturas, devido à descoberta ultramarina, o retrocesso é atribuível conforme à trajetória do Velho Mundo, ao estado dos seus impérios oligárquicos, ante-contemporâneos.
19 Estamos pois, em todo caso, num momento em que o capitalismo está “globalizado” mas definido em seu modus operandi como ação para-legal ou ilegal de cartel.
20 A estruturação institucional do Brasil desde o golpe de 1964, estruturação em que, conforme Dreifuss documentou, atuam como protagonistas o IPES/IBAD enquanto face visível do capitalismo “multinacional” integrado localmente na dominação UDN/ESG/CIA, articulando pois todos os setores do capitalismo info-midiático, já vem sendo conceituada como operação da economia de cartel desde o estudo de Kurt Rudolf Mirow. Justamente intitulado “A ditadura dos carteis, anatomia de um sub-desenvolvimento” (Rio de Janeiro”, Civilização Brasileira, 1978), cobre a preponderância dos carteis multinacionais na ditadura militar até o início do governo Figueiredo, isto é, cobre o período da linha dura do regime, antes de abrandar-se nas vésperas da redemocratização. Mirow define o estado de coisas em termos de “colonização econômica do País pelas corporações multinacionais” (p. 11). Como poderíamos esperar, se a história é como conceituamos, documenta vários casos de repressão à iniciativa capitalista nacional.
21 O golpe expressa portanto a retomada dessa repressão indevida, como expressa recusa da integração possibilitada do capital nacional e estrangeiro, portanto recusa mesmo da via já não radicalmente nacionalista de Juscelino Kubitchek.
22 Os exemplos que Mirow recenseia foram protagonizados ora pelo próprio Estado, ora também por ação de sabotagem direta das “multinacionais” que, na terminologia de Mirow, são o mesmo que a ilegalidade de “cartel”. Na contingência história porém de um Estado tomado pela dominação anti-social, contra-nacional, do capitalismo “multinacional”. Assim o suposto como tal estatismo econômico da ditadura mostra-se propaganda mentirosa, à observação de como funcionava já na antecedência da liquidação direta ao capital estrangeiro dos anos noventa.
23 Quanto à dominação sobre o Estado a partir do direcionamento das empresas estatais, há a considerar inicialmente o fenômeno de acoplamento do capital multinacional às assim designadas empresas estatais ora já estabelecidas desde Vargas e Juscelino, ora emergindo na ditadura golpista. A propósito, em “Radiografia de um Modelo” Sodré também considerava que a ditadura fornecia um modelo de monopolismo estatal que era apenas um meio de possibilitar o monopólio das “multinacionais” na economia.
24 Ele cita Glycon de Paiva, que vimos com Dreifuss ser um dos líderes máximos do IPES/IBAD, para quem “a intervenção estatal na economia 'facilitaria consumar-se, sem efusão de sangue, a 'noite tcheco-eslovaca ao fim da qual um país que adormece capitalista acorda socialista'“. Também cita a mesma opinião de Eugenio Gudin, que destinava a Companhia Siderúrgica Nacional, uma vez reduzido o capital da empresa “a cifras compatíveis com sua produtividade”, à venda das ações de propriedade do governo ao público, reservadas contudo em 30 a 40% ao capital estrangeiro. (op. cit. p. 141) O que se inverteu na globalização foi apenas a composição acionária, que passou a ser majoritariamente estrangeira naqueles casos em que se atribui “venda” da estatal.
25 Nesse ponto, Sodré adota a terminologia do conflito histórico dos capitais nacional e estrangeiro, em termos de lados que defenderam ora a intervenção do Estado na economia, ora a “livre iniciativa” ou a “iniciativa privada”, enuquanto Roberto Campos tratava o Estado como o “Leviatã” todo-poderoso a que era necessário impor “freios”. (p. 140) Porém com o empresariado cartelizado, o que significa domínio de multinacionais por setor, é evidente que estes não são os termos adequados para a antítese considerada. Sodré continuava porém anacrônico, visando ao que parece a construção de um estereótipo popular. Assim ele persevera na referência, que constatamos acima inteiramente equivocada, a Vargas como o “grande líder” da “burguesia” nacionalista.
26 Ao contrário de Sodré, Mirow não nega ter havido qualquer inciativa do Cade entre 1968 e 1972, sendo “Cade” o departamento de polícia brasileiro com atribuição repressiva dos abusos de poder econômico. O processo administrativo de número 9 do Cade é citado por Mirow por ter tido um depoente que testemunhou sobre a intervenção do cartel do material elétrico estadunidense, criado pelo inventor Edson, na Ingalterra. O que resultou na “sociedade de fato”, fusão cartelizada com as maiores empresas inglesas nesse setor. (op. cit. p. 43)
27 Porém o Cade não tem até hoje história significativa em defesa da empresa nacional, inversamente ao que singulariza ação em outros países, do que decorreram os processos contra multincionais famosas que Mirow arrola.
28 Não obstante, houve CPI na época da ditadura, como a que levantou os dados da condenação à Firestone por abuso de poder econômico, empresa que investiu no Brasil 4,1 milhões de dólares, obtendo proventos, que remeteu ao exterior, na ordem de 50, 2 milhões. Assim os proventos que a Firestone açambarcou, segundo Mirow, teriam sido oportunamente utilizados pelo governo para fomento da Fábrica de Pneus do Brasil, falida há anos, se ao contrário da política de atração do capital multinacional o governo tivesse apoiado a indústria brasileira. (p. 226) Mais um lembrete contra os prognósticos acerca dos “limites” produtivos dos setores exploráveis por brasileiros, pois invariavelmente são atribuídos negativos por diminutos, ao contrário do que se verifica depois, na exploração do mesmo setor liberado a estrangeiros.
29 Ao menos quanto ao acoplamento dos carteis privados às estatais, Mirow confirma amplamente o noticiado por Sodré. Mirow cobre porém, as formas de pressão governamental sobre o capital nacional, que foram geralmente criação de obstáculos creditícios, redução de créditos e recusa de financiamento pelo tempo necessário da fabricação, concomitantemente sendo liberada orgia de incentivos às multinacionais. Mas por vezes, também, o Estado atuou diretamente contra a empresa nacional, limitando-lhe os preços e os lucros.
30 É popularmente conhecido o caso da brasileira “Kolinos”, em que o Cade proibiu que continuasse a ser vendida a pasta de dente da marca, porque havia alcançado muito sucesso e hegemonia de vendas, do que se seguiu a mudança para o rótulo “Sorriso”, sem que o mesmo sucesso tivesse sido alcançado. O ramo de pasta de dente e perfumaria em geral é dominado localmente por multinacionais como a Unilever, que Mirow reporta ainda na época em que se destacava aqui apenas na produção de alimentos.
31 Mirow registra o exemplo da empresa brasileira Consul. O empresário Wittich Freitag, por ter na ocasião 66 anos, precisou até mesmo de um aval de sua família, para eventual liberação de recursos necessários a um projeto de interessse nacional, porém o que se seguiu foi que o Conselho Interministerial de Preços limitou-lhe preços e lucros, sendo a empresa de Joinville cobiçada pelo cartel internacional da indústria eletro-eletrônica. O que o fez afinal ceder à pressão de venda da empresa à Philips, de modo ao menos a garantir o emprego dos seus 2000 funcionários. Perplexo, Freitag declarou que já não era com a Consul que ele se preocupava, mas sim com o Brasil. Conforme Mirow, “assim, quanto mais eficiente era o empresário brasileiro e maior aceitação tinha seu produto, mais rapidamente ele se aproximava da falência”. (p. 212)
32 Já o Almirante José Celso de Macedo Soares Guimarães, narrou ao Jornal do Brasil, em 1975, como havia acreditado na propaganda do presidente Ernesto Geisel a propósito de liberação de créditos para agricultura, assim dirigindo-se ao Banco do Brasil em Rio Bonito, para obter um empréstimo.
33 Ocorreram então várias exigências exorbitantes por parte do banco, porém o grupo do Almirante não se desencorajou até que a fatura da garantia exigida pelo banco do Estado se apresentasse. Requeria dez vacas puras, substituíveis se fossem perdidas, de modo que, como o grupo calculou, cada vaca valendo 15 mil, o banco estava exigindo 150 mil cruzeiros em caução para um empréstimo de 30 mil. O banco avaliava cada vaca em 7 mil. Mesmo assim, aduziu o Almirante, seriam 70 mil para 30 mil, o que continuava exagerado. O banco apenas reafirmou serem essas as regras. Mirow acrescenta que bancos particulares estavam exigindo compromissos ainda maiores.
34 A proporção entre o requerido aos capitais nacional e estrangeiro, para acréscimo de giro, era de 27% para o primeiro e 7% para o segundo. A situação era tão curiosa que houve auto-limitação do próprio Estado, impedindo o desconto de contratos de fabricação, como se as próprias instituições governamentais não merecessem crédito.
35 A cobertura de Mirow a propósito dos descalabros políticos contra a indústria nacional, paralelamente à sua cobertura da invasão contínua, brutal e sistemática dos setores de mercado pelos carteis multinacionais, é extensa, e com o seu estudo me ocupei em publicação na internet, do blog de minha autoria intitulado “A conspiração” - termo que Mirow utiliza para a cartelização internacional. Aqui seria oportuno apenas resenhar os procedimenos que ele levantou, utilizados amiúde pelas multinacionais na depredação do capital nacional, impedindo o desenvolvimento do mercado assim como do nível local da sociedade.
36 Uma das técnicas ilegais de sabotagem da empresa nacional pelos carteis multinacionais na ditadura, que me parece mais notável é o cinismo de contratos de compra de que decorre o golpe das encomendas. Toda indústria depende de outras para fornecimento de equipamentos ou componentes, porém o mercado mundial destes já estando dominado por um cartel, o empresário nacional faz compras de encomendas vitais para cumprir seus contratos de vendas, que porém tem a entrega adiada interminavelmente. Nesse caso o motivo é que o cartel está cobiçando a empresa para sucateá-la, tirando-a do mercado de modo a exercer sobre ele a dominação. A empresa nacional compradora torna-se pois, comprometida irreversivelmente com aqueles que dependem do seu fornecimento, e o resultado é o descrédito do empresário nacional acusado de incompentente por não arcar com o compromisso da entrega.
37 Esse procedimento é notável, pois assim temos, a propósito da atribuída incompetência do capital nacioanal, uma profecia auto-confirmadora - aquela que Robert Merton classificou como sendo vaticinada por grupos segregativos contra pessoas segregadas, cujo cumprimento porém é garantido pela ação das próprias cliques segregativas na sociedade.
38 Outros procedimentos de abuso ilegal regularmente utilizados pelos carteis multinacionais são estudados em Mirow. Na técnica da discussão interminável, se depender de certos acordos para desenvolvimento de algum projeto do interesse nacional, eles são protelados por agregação de contínuas exigências ou adiamentos. Há, como já consideramos desde a origem do capitalismo, monopólio dos cargos políticos. Aqui já ressaltamos como na ditadura e globalização tem sido exacerbado o recurso, de modo que as concessões governamentais de crédito, subvenção de instalações, de energia elétrica e telefonia, são inteiramente negadas ao empresário nacional concorrente delas, pelo contrário onerando-se a ele as obrigações de modo espantoso.
39 As garantias a multinacionais abarcaram sem dúvida, conforme Sodré (op. cit. p. 139) e Mirow, a repressão política, como o que elas mesmas solicitavam. Sobre a censura federal, Mirow cita Moniz Bandeira, em carta ao Pen-Club de Londres, protestando que “são as corporações estrangeiras, chamadas multinacionais, as maiores interessadas na censura e na repressão, criando autêntico clima de obscurantismo político e cultural no país”. (p. 196) A propósito, Moniz Bandeira assina a nota biográfica na orelha do livro de Mirow, informando que este não produziu o citado estudo por opiniões políticas ou inclinações partidárias, mas sim por ser diretor da secular Codima, empresa brasileira de origem alemã, que se viu numa crise cujas causas Mirow descobriu devidas à ação do Cartel de Edison, como vimos, o cartel do material elétrico. Moniz Bandeira comenta que o livro de Mirow mostrou “o grau de insegurança nacional” a que o país tinha chegado, numa “situação de completa insolvência” traduzindo-se em meios da década de setenta por um déficit na balança de pagamentos superior a seis bilhões de dólares, com uma dívida externa de 30 bilhões de dólares. Porém atualmente, já extinta a dívida, e implementado o neoliberalismo econômico há vinte anos, a situação de caos financeiro está declarada, com quadrilha de roubo direto atuando o que já referenciei como o roubo dos salários dos funcionários públicos que resulta na transferência direta do dinheiro do governo para o bolso dos banqueiros, o governo usando para tal fim o repasse das contas individuais endividadas a juros escandalosos devido não só aos atrasos dos salários, mas ao fato dos pagamentos efetuados serem parcelados, de modo que o montante que cobriria o empréstimo inicial que o assalariado contrai logicamente, o valor integral do salário mensal, nunca é apresentado, a partir do primeiro mês de atraso o assalariado tendo que arcar com os juros mensais sem fim.
40 De fato na cobertura de Mirow, operações de corrupção financeira havia que não podiam ser feitas alhures, pela ausência de censura, como aquelas que envolviam demissão de milhares de trabalhadores. Em contrapartida, conforme Mirow “Em virtude das críticas ao desempenho de corporações multinacinais alemãs, o presidente mundial da Siemens [fortemente cartelizada] Berhnard Plettner, chegou a se reunir, em fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, com Hans Joachim Kuhn, a fim de coordenar a contra-informação publicitária”. Isto é, meios de fazer calar as denúncias públicas. Campanhas na imprensa local envolviam de fato, segundo Mirow, vários meios de repressão à imprensa, especialmente por via do tráfico de influências que desviaria patrocínio caso o jornal prosseguisse na linha de franca denúncia. Os jornais que insistiram na publicação das denúncias foram fechados por falta de patrocínio. Os jornais que aceitaram fazer reportagens distorcedoras dos fatos para engrandecer a imagem dos corruptos, foram beneficiados com acréscimo de patrocínio. (p. 193 e segs.) Assim reforça-se a mensagem de que não se deve confiar na mídia, por motivos ulteriores à mera decisão em confiar ou não nas pessoas que nela trabalham. Somente estudos com bibliografia explicitada das fontes e argumentação coerente como suporte das informações reportadas são veículos que podem ser cotejados e assim criticados e assimilados validamente.
41 Hoje temos visto o caos financeiro e o caos na segurança pública. Não há reforço suficiente do exército federal para acabar com o genocídio por crime comum nos Estados. Mas quando se tratava do “anticomunismo” na ditadura, para que a Cia impedisse as reformas de base apenas racionais quanto ao nível de vida local, Mirow considera que a OBAN, antecessora do Doi-Codi na ditadura, foi um prolongamento em nível estatal, do procedimento de guerra social que estava sendo adotado na Alemanha pelas próprias grandes empresas como abuso armado contra grevistas e trabalhadores - destaca-se na denúncia de Mirow a cobertura de Wallraf Guenter (p. 197).
42 É notório quanto a Wallraf, que suas “treze reportagens” chocantes integraram uma tendência de época tendo em Truman Capote e Hans Enzensberger exemplos dignos. Tendência que revolucionou a literatura, não só pela decomposição do texto na apresentação do testemunho dos protagonistas reais da patologia social, como pela técnica do escritor se disfarçar, incorporando o papel do protagonista do status que se trata de investigar. Günter Wallraf se disfarçou assim de jornalista para infiltrar-se no famigerado Bild, um jornal alemão de péssima reputação dirigido à classe média para veicular ideologia capitalística, a fim de registrar o que testemunhara pessoalmente dos procedimentos de distorção e de mentira utilizados amiúde pelo jornal. Processado pela direção do jornal assim que descobriu que seu melhor repórter contratado pelo editor feito de ingênuo era um espião, contudo Wallraf publicou seu livro, que tem tradução brasileira, com o carimbo da censura alemã em algumas páginas. Na atualidade, os computadores pessoais são infiltrados por operações clandestinas ligadas provavelmente a mídias como o Bild, ou por gangs de malfeitores, ou pela Cia, ou por bandidos, ou por camarilhas de técnicos, em todo caso, tendo na tecnologia podre das multinacionais a porta de entrada facultada ao monitoramento clandestino, de que o usuário comprador do produto não tem controle nem informação alguma da procedência ou qualquer garantia de segurança pública não obstante o governo participar do esquema de obrigatoriedade do uso – até para se declarar imposto - além de malware, vírus, etc. O objetivo, ao menos localmente, é tão óbvio quanto costuma ser pela idiotice notória dos protagonistas do código atual, ou seja, denegrir imagem e reputação de pessoas idônias e principalmente das orientações corretas, para promover a burrice, a bandidagem, a mentira, o logro, como o que é recomendável e aprovado pelos “profissionais” (da corrupção). A indecência dos agentes que temos visto atuarem é tal que concentra todas as piores qualidades, nenhuma boa atribuível. Por outro lado, o código da burrice circulante também não respeita o bom senso de que geralmente as pessoas tem qualidades e defeitos, ao contrário, o código se limita a idolatrar o nazista burro da gang, estando à roda para enterrar a pessoa do bairro que não a integra como se fosse alguma espécie de verme.
43 Mas na decorrência das denúncias, mesmo jornais conservadores alemães, obviamente que não o Bild, estavam segundo Mirow alertando contra as “forças brutais” que se verificavam sendo “utilizadas” pelas multinacionais, considerando assim que “o gangsterismo começa a dominar”, e que “muitos empresários consideram hoje desprezíveis as leis penais”. De fato o know-how do capital alemão em brutalidade estava sendo exportado para o mundo, segundo Mirow. O que Maurice Dobb registrou como o gangsterismo do capital americano de inícios do século passado, aparece pois repetido na Europa das multinacionais do pós-guerras.
44 Os public relations das multinacionais rechaçavam as denúncias de abusos bárbaros aos direitos humanos como acidentes deploráveis de um curso de ação em si mesmo necessário. A necessidade alegada sendo porém a tranquilidade do trabalho e ação anti-terrorista, que não era apenas isso pode-se verificar pela observação de Mirow a propósito da importação brasileira do know-how. Quando houve a notícia de que uma firma de acumuladores estava liberando vapores venenosos de chumbo na atmosfera, em 1975, motivando fortes protestos da população vizinha, a ABINEE (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), reuniu diretores e conselheiros que resolveram em reunião plenária “classificar o protesto como 'subversivo', denunciando a advogada que o orientara” de modo a silenciá-la.
45 Recentemente o que já relatei sobre a apurada incúria total da SAMARCO, a privatizadora da Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, causando destruição ambiental e urbana, em 2015, não teve qualquer medida meramente compensatória até hoje, cobrança de multa ou suspensão da licença de atuação no país. A propósito, soube que a Kruppe de Santa Cruz no Rio de Janeiro, causou liberação de tóxicos na atmosfera há alguns anos, de que decorreu várias infecções da população local, porém do mesmo modo não tendo havido providências contrárias ao funcionamento descontrolado da multinacional.
46 O “respeito” ao suposto direito de funcionamento isento de qualquer controle da sociedade é concedido às multinacionais, porém cada vez mais negado pelas próprias multinacionais às pessoas privadas em seu status de cidadãos protegidos pela constituição do Estado. O incentivo ao crime para efeitos de aliança ideológica, por parte dessa multinacionais, vem sendo cada vez mais dirigido a grupos sociais que se alternam no papel de pseudo-legitimação, sendo agora o caso dos “jovens”. Li a propósito, a entrevista de um grupo de rock que - bem inversamente às mensagens de paz e amor do tão perseguido hippismo e psicodelismo dos anos setenta - testemunhava sua simpatia ao fanático Charles Manson, que assassinou coletivamente com sua seita, a atriz Sharon Tate, invadindo-lhe o domicílio. Segundo a revista Rock Book nº 1 (São Paulo, Nova Sampa Diretriz Editora, 1994, p. 78), Rob Zombie, “vocalista, compositor e líder do grupo White Zombie”, teria atribuído à declaração de Charles Mason aí reportada, que ela era “a definição perfeita” do referenciado grupo de Rock. As palavras de Manson registradas foram: “Em outras palavras, nós temos que ser caras maus para que vocês possam ser bonzinhos, não é? Na realidade nós sabemos que vocês não são tão bonzinhos assim, são piores que nós, sacaram? O que é aceitável porque somos fora-da-lei e isso é que nos mantem à distância”. Atualmente este tipo de ação criminosa do “jovem”, na qual porém colaboram elementos machistas de qualquer idade, tem sido impulsionada contra mulheres de meia idade ou idosas, algo obviamente conectado à paranoia info-midiática globalizada. Também são observadas ações dirigidas contra terceira idade em geral, ou indivíduos segregados por grupos numa escala que já parecia ter sido superada há muito, desde o fim dos governos totalitários na Segunda Guerra.
47 Acrescenta-se ao rol das técnicas de sabotagem ao capital nacional, praticadas pelas multinacionais na ditadura, a técnica de propaganda negativa dos produtos nacionais, patrocinada ostensivamente pela multinacional concorrente, que foi amplamente documentada por Mirow. A propaganda investe até em calúnia, acusação infundada contra a qualidade do produto, etc. - assim a Nestlé impôs localmente a Minalba contra empresas nacionais de águas minerais, atuando campanha gigantesca de difamação especificamente atingindo a Lindoia, conforme documenta Mirow.
48 A prática do conselho errado, quando o governo consulta instituições internacionais, é a regra - mesmo com o potencial local patente, o conselho é sempre para não desenvolver o setor. Este não é caso privado brasilerio, mas geral em todo o continente latino americano. Especificamente em Brasil ocorre a compra de produção local, inteira, como a dos usineiros do leite, de modo que a revenda é muito onerada ao comprador, desse modo descartando parcelas pobres do mercado consumidor, as mães pobres, e investindo pesadamente em propaganda para classe média - como fez a Nestlé, segundo a documentação de Mirow.
49 O livro de Mirow alcança um nível clínico, ressaltando ao empresário nacional, que ele não é o incapaz que a propaganda alardeia, ou que os resultados negativos dos investimentos sinalizam. Na verdade o empresário nacional é muito produtivo e capaz, porém está sabotado por uma concorrência em nível planetário, que ultrapassa todas as dimensões do desleal. O destino do empresariado nacional tornou-se via de regra empregar-se como gerente de firma multinacional. As vicissitudes do gerente tornam-se curiosas.
50 Mirow reporta assim o caso do gerente local da Elin austríaca, Julio Ehrentreich (p. 26). Ele investira por vários anos em concorrências que invariavelmente perdia, até que, no desespero, apelou para o conselho do Sr. Kohnruss, diretor da Elin e presidente do cartel IEA, que lhe respondeu que a Elin venceria a próxima concorrência, cujo edital nem sequer fora publicado, o que efetivamente ocorreu. A explicação é que entre os regulamentos dos carteis estudados por Mirow, está a seriação das empresas que controlam o setor quanto à consecutividade na atribuição das vitórias nas licitações sucessivas daquele setor. A Elin sendo arrolada sob número 31 do cartel da IEA.
51 Mas a história do empresariado nacional não parou aí. À frente examinamos o período da “globalização”. Aqui sendo oportuno observar que além do que vimos a propósito das técnicas de eliminação da concorrência pelos carteis visando dominar o mundo, o que porém constatamos envolver operações criminosas contra toda a sociedade, no intuito de dominação total, devemos observar que os regulamentos dos carteis contem cláusulas relativos ao alijamento de todas as empresas “não membros” no setor, isto é, quaisquer livres empresas do setor, que assim sofrem a mesma violência que a sociedade em geral. [Nota 19]
52 O capítulo dez do livro de Mirow fornece exame minucioso a propósito das cláusulas de integração ao cartel, aqui sendo importante registrar que as cláusulas incluem, segundo Mirow, cooperação financeira a “fundos de combate”. Isto é, dinheiro reservado para eliminação por qualquer meio, do concorrente “não membro” que porventura se fizer proeminente.
53 Violência direta contra instalações das empresas são reportadas como ofensiva dos carteis contra a livre empresa, o que Mirow documenta terem sido verificadas também contra petroleiros da Fronape, ainda antes do golpe. Nessa oportunidade registra Mirow a ação louvável do Almirante José Celso de Macedo Soares, que efetivamente logrou alterar a situação de descalabro do Lloyd Brasileiro. Enfrentou ele porém inúmeras pressões movidas por governos ultramarinos como o da Noruega, que até mesmo enviou ao Brasil o seu rei como meio de intimidação (p. 149). As pressões repercutindo aqui no esperado procedimento de acerbas críticas públicas à conduta do Almirante José Celso de Macedo Soares.
54 Mirow cita a consideração do Almirante José Celso de Macedo Soares. sobre a situação anterior do Lloyd como reserva de funcionários por um governo que os mantinha apenas para impedir o desenvolvimento da empresa a níveis compatíveis com a performance corrente do mercado. Não considero assim que sua crítica se endereçasse ao serviço público de per se, que não tem par como alvo da ofensiva multinacional na “globalização”, assim obviamente não em prol de qualquer interesse nacional.
55 Reporta ainda Mirow o afundamento do navio Teutonia, de empresa alemã que desafiara o cartel de pesca na Alemanha, culminando a série de acidentes que vinha sofrendo, tendo sido comprovada sabotagem das válvulas de águas de refrigeração. E também em Campinas foi constatada sabotagem da firma que fabricava turbogeradores, por parte da General Eletric que estava fornecendo a ela vernizes de isolamento danificados.
56 Como se pode considerar a partir do que vimos até aqui, vem a ser urgente o estudo histórico da relação que já tangenciei, de monopolismo capitalístico e a questão do neonazismo. Mirow permite estabelecer com mais clareza a relação de capitalismo e neonazismo, após 1945, na perspectiva mesma da base econômica. Ele explica esta relação a partir da continuidade, antes e depois do hitlerismo, de cartel entre empresas de vários países, independente do lado da guerra em que estavam. Assim ele refaz a história do capitalismo na ambiência do século XX.
57 Porém Mirow não considerou a mídia como business capitalista. A propósito do business de mídia norte-americano, quanto ao aspecto predatório por um lado, e integrado ao interesse de domínio capitalista sobre sociedade e Estado, vimos as referências em Halberstan. Mas ampliação da pesquisa seria importante ao tema de um “imperialismo informativo exercido pelas grandes potências”, definido na enciclopédia Salvat, que também registra a onipotência das poucas agências de informação que dominam o mercado planetário. (Biblioteca Salvat de grandes temas, nº 9, Rio de Janeiro, Salvat editora, 1979, p. 107).
58 O que vimos até aqui permite considerar, à guisa de corolário, que uma articulação sistemática da situação do terceiro mundo seguiria menos o 1789 francês e mais a história dos Estados Unidos cujos componentes estruturais são a independência mas também a Guerra da Secessão – abstração feita da opção pelo comunismo, complicada na dessovietização. Algo que poderia convir à invectiva de Franz Fanon contra a pseudo-burguesia do terceiro mundo assim como se consubstanciara também na África, no interregno entre a guerra de descolonização e a consolidação do regime.
59 Fanon já convinha que a pseudo-burguesia testa de ferro do imperialismo nem mesmo obtinha do Ocidente sérias vantagens ou concessões espetaculares. Observando o incremento das montadoras em vez de fábricas nacionais, ele considerou que o regime estava apenas “consagrando assim o tipo neocolonialista em que se debatem as economias nacionais. (“Uma ilustração: subdesenvolvimento e anticolonialismo”, in Pereira, L. “Subdesenvolvlimento e desenvolvimento”, Rio de Janeiro, Zahar, 1976).
60 É interessante que na mesma coleção de artigos, Francisco Zamora tenha se detido na caracterização do que seria uma política desenvolvimentista em países subdesenvolvidos, uma vez que seu esquema estaria mais coerente à dualidade neoafricana do que à complexidade oriunda do núcleo paulista. Zamora apenas antevendo a indústria estrangeira e um débil capital nacional comercial à margem dela, sem assimilar o problema da indústria nacional. (“Subdesenvolvimento e política global de desenvolvimento”, in Subdesenvovimento e desenvolvimento, op. cit. p. 198),
61 Em todo caso, considera que a superação do latifúndio por reforma agrária é o essencial, entendendo desenvolvimento como também A. Tourraine, superação de obstáculos internos na economia. Ao ver de Tourraine, contudo, a superação de obstáculos resulta na industrialização como realidade ulterior ao próprio “desenvolvimento”, requerendo assim uma sociologia autônoma, da “sociedade industrial”. (“Sub-desenvolvimento-desenvolvimento como movimento social”) Mesmo que hoje a questão da industrialização seja mais complexa, havendo assim o conceito de desenvolvimento como qualidade de vida, continua a meu ver sendo decisivo definir a natureza dos obstáculos econômicos.
c.3.II) Capital “Multinacional”: A base econômica do neonazismo.
c. 3. II.1) O conceito de neonazismo : 1 O uso do prefixo “neo” pode significar tanto um retorno no tempo, como o acréscimo de alguma mudança em algo que se conservou ou recuperou. A expressão “neonazismo” tem sido utilizada desde os anos noventa para o gravíssimo acontecimento do retorno de comportamentos e doutrinas nazistas, porém significativamente, ao contrário de tudo o que se poderia esperar, não se tem conhecido estudos capitais voltados à explicação do fenômeno ou ao levantamento de formas de combate à ofensiva violentamente segregacionista-autoritária que define todo nazismo. Logo, não há definição corrente a propósito de qual dos dois modos do uso do prefixo “neo” seria mais cabível ao presente contexto.
2 Sem dúvida há o fator temporal, visto que nas décadas seguintes a 1945 seria impensável qualquer defesa ou valorização aberta do nazismo em qualquer parte do mundo. O tribunal de Nuremberg eliminou fisicamente os chefes nazistas julgados quanto à participação na própria guerra, desde a derrota dos países do “eixo” nazista, alemão-italiano-japonês, pelos países “aliados” liberais, Estados Unidos, Inglaterra e França. Mas, subsequentemente, continuou havendo tribunais julgando nazistas na Europa, tendo havido o caso de um que foi enviado para Israel, a fim de lá ser julgado. O retorno da valorização ostensiva do nazismo é assim obviamente um fenômeno temporalizado, típico do estado de coisas consolidado na altura dos anos noventa, típico ainda da atualidade, muito contrastante com as décadas anteriores desde o pós-guerras.
3 Porém quanto à substância desse fenômeno, ainda que este estudo não se dedique a analisá-lo, de um modo algo superficial podemos convir que realmente seria o caso da adaptação de um novo tempo a algo que se conserva. Não ocorreu a legalização partidária do nazismo, por exemplo, na maioria dos países, não obstante o caso de políticos nazistas já arrolados atuantes na Europa, ao que parece tendo tido o movimento início na Áustria ou aí tendo sido mais preponderante. Mesmo assim as constantes definidas permanecem as mesmas, como segregacionismo racista e culturalista, passionalidade violenta, autoritarismo anti-democrático. O que me parece importante considerar hoje porém, é a necessidade de desfazer-se a confusão que as décadas de crítica ao nazismo produziram, a propósito da relação de nazismo e poder de Estado. [Nota 20]
4 A princípio deveríamos considerar a inserção epocal do neonazismo. Assim encontraríamos o fator com evidência relacionável, a saber, a oficialização planisférica do “conflito norte-sul”, deslocando a bipolaridade leste- oeste que caracterizara a rivalidade americano-soviética. O conflito norte-sul como de países desenvolvidos e assim designados subdesenvolvidos, tornou-se definidor do contexto histórico, na abrangência da globalização e neoliberalismo econômico. O depauperamento dos países até aí “em desenvolvimento”, provocou a inversão do fluxo das migrações, que vinha sendo tipicamente do norte para o sul. Assim como internamente já documentei o fenômeno do incremento do êxodo rural, a ponto de mudar a geografia da cidade brasileira, assim ocorreu em nível mundial, com os países do primeiro mundo desdobrando a nova xenofobia, devido ao incremento da mão de obra barata e demais defasagens adaptativas, vinda do terceiro mundo.
5 Mas a efetividade histórica não se limita a um fator extrínseco à questão teórica da relação do nazismo e poder de Estado, que até aí vinha, muito tranquilamente, sendo acomodada numa dicotomia simplista, de fato distorcedora, de Estado e totalitarismo nazista por um lado, e variadas propostas de redução do político ao ético, por outro lado. Quando o neoliberalismo econômico emergiu como uma doutrina de neutralização de qualquer poder de intervenção do Estado na economia, o que isso significava na prática, a redução do Estado a serviçal do poder econômico, aquela diotomia simples que assim se via refutada, era o que estava há muito sendo atribuído por uma esquerda que nos parece hoje bastante irresponsável.
6 A atribuição autorizava pois à valorização de um eticismo prático, ilegalista, na acepção de distanciado das instituições legais por descrédito delas, isso em plena vigência do Welfare State, isto é, o Estado de Bem Estar Social que à Oeste vinha representando o contraponto à opção socialista do Leste. A irredutibilidade entre Welfare State e a patifaria do Neoliberalismo econômico é hoje escandalosa, mas até os anos noventa, vinha sendo ignorada por uma esquerda interessada, em definir ab aeterno as condições do primitivo não-ocidental e do Ocidente Civilizado, a partir de uma dicotomia que iria ter na presença do Estado o divisor de águas. Mas por aí tratava-se de uma esquerda interessada em contrapor-se a reforma social não conduzida por algum teórico planificador, de modo que assim se poderia desmentir o propalado vínculo de Estado e alienação.
7 A aparente valorização do primitivo puramente ético de fato resultava numa contradição insuportável, já que evidentemente não se tratava para a esquerda crítica do lado Ocidental do conflito de época, que porém não era já possivelmente sovieticista, adotar modos tribais. Ignorava-se assim, solenemente, o óbvio, a saber, que o totalitarismo nazista só era a hipostasiação do Estado enquanto este devia definir-se como império anterior ao que a contemporaneidade havia produzido por esse nome, a saber, a democracia e/ou parlamentarismo constitucional. O nazismo de fato havia sido um culturalismo de vanguarda propriamente primitivista, ainda que na acepção de um racismo etnocêntrico, de modo nenhum fôra um positivismo cientificista que, inversamente, era um cosmopolitismo universalista.
8 Portanto, bem inversamente aos prognósticos das esquerdas recentes, é totalmente coerente a concomitância do neonazismo e do neoliberalismo econômico que por meio da “globalização” reproduz o colonialismo violentamente racista do “eixo”, além de resultar no totalitarismo prático dos abusos de multinacionais contra os direitos humanos em geral e a liberdade de consciência e expressão em particular.
9 Ao contrário, aquela esquerda chegou a confundir neoliberalismo econômico e liberalismo político, a exemplo de Foucault em inícios dos anos oitenta, refutado inteiramente não só pela atualidade notória, mas já pelo estudo de Stuart Hall sobre o governo Tatcher. A propósito, o artigo de Michèle Barret, comentando que a tese de Hall demonstrou o domínio das subjetividades e a ofensiva ao liberalismo político, definindo o objetivo conspícuo do governo de “neoliberalismo econômico” introduzido por Tatcher. A meu ver, apenas isso deveria conduzir ao oposto da perspectiva gramsciana, por se revelar muito simplista quanto à questão do que se opõe à dominação ideológica do “Poder”, que não deveria pois reduzir-se a algo como hegemonia (“Ideologia, política e hegemonia, de Gramsci a Laclau e Mouffle”, in Um mapa da ideologia, Rio de Janeiro, Contraponto, 1996)
10 O pós-sovieticismo da esquerda equivocada de antes da globalização conservava, porém, a projeção oitoscentista do Estado que orientara Engels coerentemente a Marx. Ela estava totalmente defasada com relação à contemporaneidade sócio-política, assim como com a atualidade da ciência social.
c.3.II. 2) A economia nazista de cartel e a “globalização”: 1 Não se trata aqui de ignorar a objetividade da “base econômica” na autonomia de suas práticas efetivas, bem longe das reduções psicóticas que já se tentaram naquela via hoje abandonada. O vínculo de todo nazismo com o neocolonialismo é óbvio, podendo-se definir nazismo como um segregacionismo baseado na prerrogativa de raça, que atinge o nível da prática política. O segregacionismo racial sendo porém apenas a base de outras formas de exclusão, com a raça sendo reduzida à fabricação de um ideal “tradicionalista” que elevara meros costumes de grupo ao nível de lei, ou seja, configurando a dominação do Estado por uma oligarquia que, porém, organizava a adesão popular pelo incitamento do ódio segregacionista contra intelectuais, etnias não “arianas”, comunistas, quaisquer antipatizados pelo regime.
2 A transferência de renda atuando desse modo, por roubo direto dos segregados no plano interno e promessa de riquezas maiores pela conquista bélica no plano externo, a propaganda alardeava que o problema social “nacional” estava resolvido. Porém estando a nacionalidade assim apenas reduzida ao fascínio oligárquico, inúmeros contingentes da cidadania nacional tratados como apátridas para serem recolhidos a guetos, destinadas multidões a eliminação nas câmaras de gás dos campos de concentração, expostos ainda a vexames, trabalhos forçados ou torturas.
3 Mas, dominação contra-democrática do Estado, tratava-se nas nações nazistas, de uma estrutura econômica decorrente desse direcionamento passional segregacinista belicista. O estudo da estrutura econômica do “eixo”, revela-se hoje de importância, por coincidir em vários aspectos com o capitalismo globalizado. Mais à frente, estudamos o aspecto da repressão política contra o terceiro mundo, o referencial ostensivo do regime militar. Aqui visamos a questão propriamente econômica.
4 Conforme Maurice Dobb (“A evolução do capitalismo, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987) as medidas econômicas do governo nazi-fascista só diferem das economias dos países politicamente liberais, porque estas puderam prover seu objetivo neocolonialista em territórios do terceiro mundo [afro-asiáticos, na transição ao século XX]. A Alemanha, para o mesmo fim, voltou-se aos vizinhos europeus. Mas o objetivo em si era o mesmo: “controle político dos territórios estrangeiros... e.... despesa do Estado com armamentos, feita em cumprimento das necessidades de guerra mecanizada do século XX, com seu efeito dominante sobre toda uma cadeia de indústrias e particulamente a pesada.” (p. 370)
5 Não devemos pois, na organização da economia “globalizada” do pós-guerras, subestimar o papel do belicismo. Tão ostensivo no conflito leste-oeste, que se configurou como corrida armamentista; quanto se efetivou no Vietnã e conflitos similares com os movimentos de descolonização afro-asiáticos. Quanto à preponderância da formação militar na economia norte-americana está bem caracterizada em Claude Julien, que reporta os números quanto aos índices empregatícios e ao valor das encomendas à indústria do país.
6 Porém como venho insistindo, o imperialismo que acabou dominando sobre a sociedade norte-americana mesmo na decorrência de oposição interna acerba a isso, não agiu como se pensava, visando uma hegemonia individualista contra a URSS. Mas sim, enquanto efetivamente imperialismo, o mesmo que nazismo, agiu representando o capital transnacional, o mesmo que os carteis, que agremiam os capitais dominantes tanto norte-americanos como europeus e japoneses. A essa altura do presente estudo, tendo ficado nítido que a dominação do mundo num setor econômico pelo cartel resultou na dominação do mundo em todos os setores, pela associação dos carteis em “multinacionais”. E isso tanto em setor primário (agro-pecuária), como secundário (indústria) ou terciário (comércio, cultura, serviços) da produção econômica, sendo que a classificação utilizada deve ainda ser desdobrada para a questão da circulação financeira (bancos, dívidas públicas, etc.). Na fase do cartel formalizado como empresas “multinacionais”, ocorre pois o açambarcamento dos setores do mercado numa dominação info-midiática que integra ao capital, ainda, o business da indústria cultural.
7 Não surpreende que as características da economia nazista, como listadas por Dobb, sejam as mesmas que reconhecemos vigorando desde a ditadura militar de 1964, exacerbando-se porém na redemocratização para mostrarem-se na plenitude na atualidade. A “lei do cartel compulsório” na Alemanha seria análoga às garantias de domínio cartelizado no terceiro mundo pelo imperialismo. O “controle autoritário dos salários” típico do governo nazista, foi o objetivo imediato do golpe de 1964, e está agora, na ocasião em que escrevo, expresso na própria condição anticonstitucional do atraso programado dos pagamentos de funcionários públicos - desde há um ano os salários são atrasados por vários meses consecutivos, o que implica roubo direto da população pelos juros bancários, além de prejuízos incalculáveis das pessoas, por serviços básicos cortados por falta de pagamento. Hoje (20/07/2017), está sendo anunciada a provável superação do estado de coisas da suspensão dos salários daqui há um mês. [ Nota 21 ]
8 A quadrilha do roubo direto, instalada num governo não representativo, anômalo, amparado no judiciário, é responsável pela manutenção do regime de extorção monetária e opressão de atendimento estruturado porém pelo próprio “pt” afastado por impeachment devido a corrupção comprovada, que não impediu a recolonização do país pelo nazismo de multicionais nos serviços básicos. Já o objetivo estatizante do golpe militar foi apenas o pretexto para obter esse estado de coisas, uma vez que a continuidade da estatização foi movida a exportação de capitais estrangeiros por via de contratos fraudulentos, e só a privatização resultou na extinção da dívida externa, entretanto para escravização do país.
9 O nazismo do “eixo”, segundo Dobb, foi apenas “destinado a ser um imperialismo de tipo mais avançado e mais predatório, mais impiedoso e intransigente, mais organizado e sistematicamente planejado, que seguiria em parte as linhas da economia de plantation [colonial], equipado com métodos técnicos modernos porém apoiado no trabalho de uma população colocada num nível mínimo de subsistência e consumo”. (p. 375)
10 O mesmo se pode dizer para o atual estado de coisas planejado cuidadosamente pela suspensão de salários dos funcionários públicos, isto é, funcionários do Estado: professores, médicos, policiais, e todos os demais setores. Mas também para a instalação imperialista no Brasil desde a ditadura militarm aprofundando-se no momento atual, sem que o país seja qualquer singularidade relativamente a todo o aparelhamento de opressão nazista do imperialismo norte-americano-europeu-japonês em todo o terceiro mundo. Não cremos que o odioso crime contra os salários públicos não seja do interesse imperialista, do contrário não seria internacionalmente tolerada uma operação de abuso dos direitos humanos nessa proporção, num país infestado por multinacionais nos próprios serviços básicos e setores estratégicos.
11 Obviamente muitos estão lucrando enormemente - pelo que se pode ver do montante de propaganda e glamour televisivo - com as propriedades retiradas dos insolventes, sobretudo com os empréstimos a juros escandalosos, a cobrança de juros por dívidas acumuladas, com a sujeição de mão de obra semi-escravizada, além de obter-se genocídio e impedimento da autonomia do pensamento local por simples esvaziamento das condições de sobrevivência alimentar - a carestia impressionante está sendo minorada apenas desde há alguns meses. Havendo, além disso, genocídio por confrontos propriamente armados com a segurança pública, a partir do incremento de megafavelamento e crime organizado, que está a um nível de guerra civil cotidiana.
12 Há algumas semanas a imprensa mostrou as esposas dos policiais militares que se organizaram para ocupar os quarteis, na tentativa de impedir que eles se encaminhassem aos confrontos, devido não só à intensidade dos mesmos, como ao fato do depauperamento da instituição pela sonegação de verbas do equipamento e valores agregados dos salários. Já estava havendo a mensagem de conclamação à greve dos policiais e bombeiros, pelas associações profissionais, mesmo antes da suspensão dos salários, devido às suspensões contínuas das verbas. O rol das situações absurdas que vem sendo constatadas pela suspensão de verbas que antecede de muito a suspensão salarial, seria demasiado para este estudo reportar, constatando-se porém em todos os setores do Estado, como também escolas e hospitais, havendo especialmente política visando apropriar-se dos valores destinados aos aposentados. Mas creio importante historicamente registrar a insurreição da tropa do Espírito Santo, que porém resultou apenas em processo instaurado contra mais de setescentos profissionais da segurança pública. [Nota 22]
13 Também devemos chamar atenção ao problema do monopólio de personal computer microsoft, totalmente sabotável e intrusável, dependente do pagamento de internet a multinacionais provedoras que defraudam monetariamente e violentam o atendimento público. Não parece haver qualquer alternativa justa para os responsáveis pelo estado calamitoso, além do fuzilamento sumário, uma vez que a eliminação das distorções gritantes por abuso de poder econômico foi comprovado, pelo golpe militar conforme estudamos ou pelo caso iraniano, não pode ser feito por vias pacíficas na região do terceiro mundo. O governo representativo só poderá ser garantido após termos eliminado os sabotadores da legalidade. Porém o avassalamento brutal dos direitos humanos vinha sendo feito por outras vias desde o golpe. O que apenas prova que a ação imperialista envolvendo a CIA impossibilitou a libertação humanitária do terceiro mundo por meios pacíficos, mas assim também que a libertação ocorrerá por incremento contínuo do ódio e guerra futura, mesmo se o que gostaríamos que acontecesse, e a que tanto conclamamos os governos do mundo, fosse a colaboração pacífica dos povos como respeito mútuo pela autonomia das nações.
14 Em 1945, em pleno pós-guerras, houve a ofensiva dos países liberais contra os carteis da era nazista, nos países que antes foram do “eixo”. Na América do Norte, a ofensiva anti-cartel estava relacionada ao Welfare State, desde Roosevelt, mas em geral não houve qualquer impedimento da ação imperialista do capital privado, bem inversamente. As polícias anti-cartel se organizaram, atuando ostensivamente em todo o mundo. Porém, de fato os carteis continuaram atuantes na ofensica geopolítica ao terceiro mundo, o que a meu ver explica a base econômica do que designei o neonazismo atual.
c.3.II.3) História dos carteis e ditadura, União Europeia e neonazismo econômico globalizado : 1 Kurt Mirow documentou a história dos carteis, iniciando-se ainda na transição ao século XX, a exemplo do cartel do material elétrico, que teve os Estados Unidos como berço devido a preponderância da General Electric, empresa do próprio inventor Edison cujo engenho se orientou também para açambarcar toda a produção do setor. Os acordos internacionais da partilha do mundo, que estavam em trânsito antes da Segunda Gueerra, inclusive com empresas dos países que na circunstância bélica pertenceram ao “eixo”, haviam sido confirmados ao longo do conflito como o que deveria se reativar depois. Realmente isso ocorreu: “Em 15 de maio de 1957, confirmou expressamente [o cartel da International Electrical Association/ IEA], em Assembleia Geral, todos os acordos firmados no período anterior à Segunda Guerra Mundial, os quais incluiam também as firmas General Electric e Westinghouse, registrando-os, a partir de 1959, no Departamento de Carteis de Berlim”.
2 Assim também, segundo ele, além de empresas europeias, “Data de início deste século a cooperação norte-americana, General-Electric e Westinghouse, com as japonesas Toshiba, Hitachi e Mitsubichi. Interligadas acionariamente, participantes do pool de patentes e dos acordos de proteção territorial, mantiveram com os parceiros, mesmo em época de crise e guerra, suas velhas ligações comerciais”. (p 53, 55). A propósito da Mitsubichi, data da era Meiji japonesa, em meios do século XIX. Integrava a formação de “zaibatsu”, empresas que, conforme Vicentino “controlavam a maior parte dos negócios e passaram a dominar a eocnomia japonesa” supostamente até 1945 - porém vemos que na atualidade, integram também a globalização (cf. Vicentino, História Geral, op cit. p. 338). Na era Meiji, a industrialização japonesa abarcou a venda de estatais ao capital privado, o que explica a formação dos “zaibatsu”.
3 Quanto à mencionada “cooperação” da General Eletric com a Mitsubichi e demais empresas citadas - vimos antes a ação da G. E. também na Inglaterra - de fato Mirow cobre pormenorizadamente como resultou de que a Westinghouse, que restara como a única não liquidada ou açambarcada ainda por Edson nos USA, acabou tendo o mesmo destino das demais, tornando-se subordinada à GE. Devendo assim integrar os mesmos métodos de domínio do mercado, suborno das autoridades para imposição abusiva de preços, etc. Por “pool de patentes” devemos entender o que hoje se designa correntemente “Reserva de Saber”, o que significa um dos mais importantes obstáculos atuais ao conceito de nações em desenvolvimento segundo o critério tecnicista de progresso, uma vez que estas ficaram sem competitividade inventiva na produção, devido ainda ao monopólio dos recursos da pesquisa.
4 A propósito, conforme Mirow, “o killowat por habitante instalado é um bom indicador do estágio de desenvolvimento de uma nação, o que, aliás, permite classificar o Brasil entre os países mais subdesenvolvidos do mundo”, não obstante as instalações elétricas existirem aqui desde antes da proclamação da República. (p.46)
5 Segundo Mirow, a razão é a sabotagem sistemática ao fornecimento, que fazem as multinacionais secularmente fornecedoras, São Paulo Railway, Light, Amforp. A sabotagem delas visava não apenas vantagens econômicas, por atendimento abjeto, mas principalmente impedir a instalação de indústrias nacionais por falta de força elétrica, segundo Mirow. Para sabotar o aumento de energia fornecida, usavam a tática conhecida da eterna discussão - nesse caso, em torno de tarifas e remuneração do capital investido. Crises políticas eram associadas a crises de energia elétrica.
6 A Amforp americana era tão odiosa, segundo Mirow, que o governo americano se colocou contra ela devido à péssima imagem dos USA que estava promovendo entre os brasileiros. Após o golpe, ao contrário da Light, a Amforp não ficou neste país, por injunção do próprio golpista partido democrata norte-americano. Dreifuss, contudo, registra versão oposta a propósito do destino local da Amforp. Já vimos que o IPES monopolizou a política de eletricidade após o golpe. Conforme Dreifuss, o que ocorreu foi que uma polêmica acirrada havia se seguido ao anúncio da compra da Amforp pelo governo brasileiro. Especialmente Lacerda se opôs, como até a direita local, devido ao preço exorbitante exigido e o estado obsoleto do aparelhamento. Porém o governo americano mostrou-se exasperado com a reação, e o objetivo do governo brasileiro foi proteger suas relações com os investimentos norte-americanos. A Amforp foi comprada pelo preço estipulado, originando o núcleo da ELETROBRÁS, estatal que havia sido fundada em 1962 mas só então começava a funcionar.
7 Na atualidade, a eletricidade local é dominada pela estatal francesa, a Eletricité de France, pelo que sei, devido à processo de compra que ocorreu já há alguns anos. Assim como todos os setores estratégicos e serviços básicos estão em mãos de multinacionais, capital estrangeiro, ou em vias de assim se tornar, como o serviço de águas - estando em trânsito privatizações de setores públicos.
8 Na condição de processada pelo governo estadunidense por acusação de várias atividades ilegais, documenta Mirow a United Fruit, que Cl. Julien cita como a conhecida entre os latino americanos pelo apelido de “el pupo”, o polvo, tendo açambarcado todos os trâmites da sociedade, dos transportes às comunicações, operando uma uma dominação tão odiosa na América Central que despovoou Honduras. Já a prática da Light funcionando localmente era o suborno, conforme Mirow, que aproveita para registrar o baixo nível que invadiu a política brasileira, como tipos que consideram que “não é erro da Light tentar subornar. O erro é nosso, de sermos subornáveis”. Opinião totalmente errada, pois como na sociologia americana, se um cidadão ou um grupo social se comprova subornável, primeiro cumpre pesquisar se sua situação é de carência tal que não seria esperável que resistisse. De fato, um dos meios dos que subornam é antes precipitar situações desse gênero.
10 Não obstante, como informa Mirow, a Light articulou licitações justas, exclusivas para firmas nacionais, para construção de linhas de transmissão em 1976.
11 Ora, o importante aqui é notar que o cartel age globalmente, mas de forma seletiva. Isto é, estritamente imperialista, de modo que a articulação mídia-cartel-nazismo, do pós-guerras, cumpre o plano de domínio colonial do hemisfério “Sul” colonizado pelo ““Norte” colonizador, e não age de outro modo. Não há vantagem ou humanitarismo que tenha resultado naquilo que não se vê, a saber, a ação do cartel integrar em sua hierarquia, porém equitativa quanto ao mínimo de sua base sempre acima do meramente aceitável, empresariado do terceiro mundo. O que ocorre é a globalização como domínio neo-neocolonial do mundo por parte de multinacionais com sede em países “centrais”.
12 A crise do petróleo em 1974, foi o fator que precipitou a decepção relativamente às promessas do crescimento acelerado, aquilo que sustentava ideologicamente, e apesar de tudo, o regime ditatorial militar. O caráter circunstancial dessa crise foi capitalizado pelo regime, de modo que não houve ruptura séria, mesmo na redemocratização, que forçasse a classe média mistificada, ou antes, “dopada pelo anticomunismo”, na expressão de Sodré, a refletir (Radiografia de um modelo, op. cit. p 94).
13 Isso até recentemente, quando as preliminares da criação da União Europeia haviam alcançado um patamar de importância que despertou as pessoas para a realidade de que a atração exercida pelos capitais dos tigres asiáticos havia ultrapassado a canalização habitual dos investimentos capital-imperialistas na América Latina.
14 Wilson Cano em “Reflexões sobre o Brasil e a nova (des)ordem internacional” (Campinas/SP, Unicamp editora, 1993), equacionou com minúcia as questões que estavam emergindo para configurar o que hoje está estabelecido em termos de nova ordem internacional. A mudança do nome da CEE, a “comunidade econômica europeia”, estabelecida desde 1957 pelo Tratado de Roma, para UE, União Europeia, ocorreu somente em 1994. Assinalando abrangência maior dos vínculos de unidade entre as nações europeias e a criação da moeda comum, o Euro, a UE porém apenas radicalizou os princípios e efeitos da CEE, internos e mundiais, sendo patente a necessidade de conhecê-los.
15 Assim vemos, conforme Cano em 1993, que “as exportações da América Latina para a CEE já caíram para 2,2 % e o mesmo ocorreu com as da África. No mesmo período, as provenientes dos NICs [new industrialized countries] do sul e sudeste da Ásia e as do Leste europeu aumentaram, respectivamente, de 6,6% para 7,3% , e de 2,7% para 3,0%, estas últimas, graças às preferências e negociações já efetuadas pela CEE com vários países ex-socialistas”. (p. 64) A propósito, a economia australiana, caracterizada primeiro mundo, é na verdade integrada ao capital japonês. A indústria tecnológica de ponta japonesa ultrapassou os limites da tecnologia ocidental desde os anos oitenta, conforme registra Cano. Assim como a ajuda para reconstrução da Europa, os Estados Unidos também foram pródigos na reconstrução do Japão, após 1945, esperando fortalecer uma base anticomunista insuperável na região, conforme a política do cordão sanitário, do presidente Truman.
16 Como vemos, as economias oriundas do Pacto de Varsórvia logo se apresentaram como parceiras preferenciais do mundo capitalista, ao inverso dos comentários de que o fim do comunismo representou apenas crise econômica de um leste europeu assim suposto terceiro-mundanizado em pleno norte hemisférico.
17 Já nessa época também a China havia se convertido em imbatível fornecedor ao mercado americano, segundo Cano. O que prova que somente como nações economicamente independentes os países do terceiro mundo poderão superar o lobbyng do imperialismo ocidentalista. Cano não discute o gigantesco problema da recolonização ou “globalização”, como política para impedir precisamente isto. [ Nota 23] Na época da produção do seu livro, de fato ainda não era totalmente discernível. As questões que coloca são porém interessantes e reveladores. Assim quanto à queda nas exportações americano latinas, vemos que só fez acentuar-se. A globalização vem conduzindo ao desequilíbrio sistemático da balança comercial. A imigração de filiais de fábricas do primeiro mundo para os países subdesenvolvidos não anulam o fato de que muito continua sendo importanto. O principal meio da revolução microinformática local é a importação, com a ressalva apenas das “montadoras” que completam a fabricação dos produtos importados.
18 Trata-se do já há muito utilizado “efeito de demonstração”, modo de subdesenvolvimento econômico que se caracteriza pelo incentivo à modernização pela importação de produtos industriais que são utilizados por elites como exemplo de consumação para as demais classes, estas que não se interessariam pela consumação fútil usual da vida urbana. As elites tornam-se assim designadas “pontos de contato” com o primeiro mundo desenvolvido, enquanto as demais classes, a “hinterlandia”, são por esse meio de imitação propagandística incentivadas a comprar. Sabe-se já que o efeito de demonstração resulta invariavelmente no desequilíbrio da balança comercial dos países importadores. Além disso há vários truques de mercado que oneraram singularmente tanto investimentos produtivos quanto consumo privado, como vender o produto primeiro barato, para depois sofisticar a produção de modo que, tendo-se tornado necessário, vem porém caríssimo. Onerando desse modo toda a economia, como exemplo do celular que agora, após ter circulado por anos muito barato como tecnologia miniaturizado, está vindo com wattsap (internet), assim custando minimamente mil reais, restringindo-se as vendas ao aparelho sofisticado em regiões prósperas, também sendo exigido aos funcionários terem wattsap, por gerências aos empregados em local de trabalho e inclusive por diretores de serviços públicos, como em escolas públicas, obviamente sendo o pagamento mensal das contas de provedor e compra do aparelho a cargo do funcionário.
19 Ao contrário das mentiras dos radicalizados políticos representantes da bandidagem neoliberal, a propósito da abertura do mercado como prática universalizada na globalização, Cano salienta a formação do bloco europeu como estratégia do neoprotecionismo mais intransigente, o que alijou muito do comércio habitual da América Latina. Porém considera esse neoprotecionismo não apenas novidade do bloco europeu, mas algo típico de “todos os blocos” nos “países desenvolvidos”. (p. 64)
20 Especificamente a inflexibilidade da posição europeia quanto à salvaguarda neoprotecionista, se relaciona ao atraso tecnológico da agropecuária de regiões na Europa, relativamente aos incrementos norte-americanos e japoneses, assim como ênfase na pequena e média empresa europeia. (p. 65)
21 Vemos que o argumento da defasagem tecnológica é um argumento procedente, pois Cano ressalva a Inglaterra como exceção, e recentemente ela pugnou para ver-se livre da União Europeia. Esse argumento mostra pois, que a América Latina nada ganhará sem protecionismo, nacionalização das empresas estratégicas, e reforma agrária para desenvolvimento produtivo da agropecuária, de modo que beneficie os cidadãos brasileiros, não apenas conglomerados predadores.
22 Designando “fascismo de mercado” ao neoliberalismo, Cano se utiliza do exemplo chileno. Conforme Cano, “ao contrário do que diz o discurso neoliberal”, o total de rendas do Estado chileno aumentou, no período 1977, “graças, fundamentalmente à receita parafiscal imposta ao cobre que se mantem estatizado” (p. 31, o grifo é meu, em parênteses no original). De fato, o Chile foi um dos primeiros países a implementarem o neoliberalismo, sendo sobejamente conhecido os efeitos nefastos de recessão econômica que lá se seguiram.
23 Quanto a isso, Cano especifica que, segundo as cifras da Cepal e do FMI, enquanto os gastos sociais do governo chileno, por habitante, de 100 em 1980, caíram no ano de 1988 para 58 na educação, 78 na saúde e 70 no seguro social e habitação, os gastos com pagamento de juros saltavam para 1.707. Critica fortemente a fantasia sobre o México, cuja abrupta e radical abertura era apregoada como boa medida duradoura, porém conforme Cano, as tarifas médias mexicanas de importações caíram de 22,7% para 11%, muito abaixo dos 20% sugeridos pelo Gatt - que desde 1995 é o OMC (organização mundial do comércio). Outros critérios de invasão lesiva da economia mexicana são reportados.
24 Cano também refuta a asserção de que a importação soluciona a necessidade brasileira de informática porque do contrário o investimento seria excessivo. Inversamente, demonstra que o programa de informática nacional, a “Cobra” da década de oitenta, antes de se impor a importação, mostrou-se lucrativo e vantajoso.
25 Porém Cano se torna um exemplo sintomático da inferiorização “alteregológica” do brasileiro, que aceita como normais os piores abusos contra si, o que ninguém aceita alhures, apenas porque interioriza como ideal as teorias auto-glorificadoras do mundo “desenvolvido”. Analisando criticamente o governo Collor, nem mesmo registra o crime genocida contra a população pelo roubo direto aos pequenos poupadores, perpetrado por ele juntamente com a ministra da economia. O efeito da neurose alteregológica, a interiorização dos mitos ocidentalistas, é nítido, pois como se pode dizer que Collor “pretendeu diminuir o papel do Estado”, quando, pelo contrário, utilizou o Estado para intervir diretamente nas contas de poupança e saqueá-las por meio de decreto mais arbitrário que qualquer Ai 5 ditatorial militar?
26 Mas Cano assim se pronuncia, ao que parece, como que por efeito automático de associação, conforme o treinamento discursivo da papagaiada ocidentalista - uma vez que a política de Collor era “de corte neoliberal”, e o neoliberalismo é tão abundante quanto mentirosamente apregoado como política de Estado mínimo. (p. 54) De fato, é a dominação nazista (oligárquica) do Estado, que implica o contrário do Estado democrático constitucional-representativo.
27 Pelo contrário, portanto, neoliberalismo é apenas um outro meio de ditadura sobre o Estado representativo dos direitos civis, ditadura de banqueiros e negociatas, quadrilhas de roubo direto orquestrada por CIA e multinacionais europeias e japonesas, contra população indefesa do terceiro mundo. Ainda com amplitude de dominação ideológica abjeta sobre a consciência e a cultura sã, como demonstrou Stuart Hall.
28 A propósito configura-se mais uma contradição no discurso da evolução psicossocial, uma vez que segundo tal discurso eurocêntrico (weberiano) do desenvolvimento, o hábito de poupança é distintivo dos povos avançados e das classes racionais protestantes nórdicas, contra a dissipação costumeira dos subdesenvolvidos primitivos. Porém a poupança foi roubada pelo alagoano Color de Melo, assim como tem sido pelo atraso inconstitucional dos salários dos servidores públicos na atualidade, crime hediondo perpetrada pelo “vice” do pt – e pela extensão de tempo, mais de um ano, não podemos duvidar de que está apoiado pela máfia internacional, já não podendo nós também designar de outro modo o imperialismo, não obstante a confiança que tivemos na recente mudança do governo nos Estados Unidos. Na ocasião da revisão deste texto, 10 de dezembro de 2017, não só não está regularizado o pagamento, não obstante o cinismo odioso de adiados anúncios à imprensa, como registro aquui a triste nota a propósito da professora aposentada que se suicidou, incendiando-se, após quatro meses de suspensão salarial. Os aposentados são os que recebem por último. Meu desejo é que Temer seja condenado a morte numa cadeira elétrica, agregando-se à nossa constituição a pena de morte contra invasão de computador, invasão de privacidade, assassinato, corrupção abrangendo fraude anticonstitucional de roubo de poupança ou de salários públicos. Teria também que ser levantados os nomes inculpados da agência internacional que está suportando o crime de Temer contra os servidores, para serem no mínimo expulsos do Brasil sem poderem nunca retornar aqui.
29 É o mesmo que se pode considerar quanto ao critério da modernidade pelo incremento da longevidade, como na definição de Ives Lacoste (“Os países sub-desenvolvidos”, São Paulo, Difel, 1981). Segundo o qual, economias atrasadas, isto é, agrárias, tenderiam a não ter controle de natalidade porque as crianças são úteis na lavoura, além de haver, na modernidade industrial, maior progresso médico e assim maior longevidade inclusive por ser a modernidade definida como aumento ilimitado do nível da satisfação das necessidades. O controle da natalidade seria decorrente necessidade da espécie na modernidade, havendo intensa preocupação dos geógrafos com a explosão demográfica.
30 Pois o Brasil já atingiu há décadas o nível etário adulto, sendo industrializado, porém o capitalismo na globalização está atuando diretamente segregação de pessoas com mais de quarenta anos, especialmente mulheres, configurando-se factualmente apartheid social, por interessar tanto às multinacionais, sem qualquer compromisso com o futuro da população local, o emprego de crianças sem consciência dos direitos civis, como à propaganda de currais eleitorais. Recentemente uma dessas revistas de hoje que se parecem com a “Visão” dos anos setenta - que Claude Julien reportou editada pela CIA - ostentou em manchete de capa pejorativa que, segundo alguma “pesquisa”, “a classe média tem menos filhos e mais cachorros”.
31 Enquanto isso, o primeiro mundo desenvolvido, com população caracteristicamente já envelhecida, vem exibindo desde os anos oitenta performances de longevidade tipicamente acima dos noventa anos de idade.
32 Quanto à superação da dívida externa, ocorreu com a mudança da moeda, do “cruzeiro” ao “real”, em 1994, por equipe do partido conservador, o PSDB, então sendo FHC ministro da fazenda. O plano permitiu as vendas de estatais, que puseram fim à dívida. Até aí, mesmo na transição aos anos dois mil, FHC agora na presidência, estava pagando por mês, apenas para rolagem da dívida, em torno de 17, 5 bilhões de dólares segundo Vicentino e Dorigo (op. cit. p. 461). O déficit na balança comercial na mesma época era um record em torno de cinco bilhões. Mas também o plano real desindexou a inflação. Adotando uma paridade do dólar à nova moeda, com o dólar entre apenas dez a vinte centavos mais caro, implicava que o câmbio continuaria estável se as reservas em dólar continuassem também assim, o que seria obtido com as taxas de juros elevadas, que atrairiam o capital estrangeiro. Com uma circulação de capital multinacional sempre maior, contudo, o que vem ocorrendo desde há anos é um câmbio em que um dólar está invariavalmente entre tres ou quatro vezes mais que um real, e o euro mais caro relativamente ao dólar
33 Na Globalização até mesmo as esquerdas se mostraram cooptáveis aos objetivos que primeiro foram servidos pelo golpismo. Porém o percurso do pt desde os anos dois mil até o impeachment de 2016, resulta numa oposição atualizada do capital nacional e estrangeiro, que parece explicar o confuso quadro relacionado ao processo de deposição na conjuntura das provas de corrupção.
34 Podemos constatar, em todo caso, a situação do capital nacional na “globalização”. Era ainda constatável, tendo incursão nas redes de supermercado, por exemplo, que Mirow registrou terem sido implementadas na ditadura, como expressão do capital internacional oprimindo o pequeno comércio varejista. Porém na “globalização”, o “Sendas” destacava-se, entre outros referenciais menores. Contudo nessa época começou a haver a competição do grupo estrangeiro “extra”, que realmente dominou o mercado por um interregno considerável até que há alguns anos começou a haver reação.
35 A princípio o “pt” que se instalou após FHC, em inícios dos anos dois mil, poderia até ser considerado um governo de multinacionais, não obstante a origem partidária no operariado da região do “ABC” paulista - sigla que designa as três cidades da maior concentração da indústria em São Paulo, Santo André, São Bernardo e São Caetano. Não confrontou nenhuma prerrogativa do capital estrangeiro, que foi ampliado ao longo do período, não propôs qualquer reforma de base, autorizou a repressão brutal às passeatas de 2013 contra o abuso econômico na desvalorização cruel da moeda, permitiu incremento da dominação contra a liberdade de consciência e expressão assim como sobre a vida privada por cliques nazi-fascistas peleguistas nas cidades, protatonizou por vários modos a própria conexão personalista dessas cliques, não cortou o megafavelamento, pode ser atribuído beneficiário dos currais eleitorais mormente os do campo.
36 Porém na decorrência dos processos de corrupção que vem se avolumando, tem-se configurado a sociedade do “pt”, por capital particular ou outros meios, com indústrias nacionais que revelam grande porte como Obedrecht e Friboi. Algumas como estas, por ligação com esquemas petistas, porém não todas, estão sendo os grandes empresários nacionais objeto de severa repressão por acusação de corrupção. Além disso, não há processo relacionado a questões de atendimento ao público. Não obstante, o capital multinacional perpetra fraudes de cobranças indevidas, abuso de atendimento de todo o tipo, sem repressão qualquer, pelo contrário, sendo incentivadas pela eliminação da concorrência nacional.
37 É fato que os dois lados do capitalismo, nacional e internacional não se diferenciam por presença ou ausência de ilegalidade contra os direitos constitucionais. Ambos vem procedendo por meio de abuso econômico, porém não são o mesmo, revelando antagonismo intrínseco, nem configuram sempre o mesmo tipo de abuso. [ Nota 24]
38, 39 Em todo caso, repetindo, ao que parece é lícito deduzir que na atual profusão dos inquéritos e prisões, além do quadro confuso do partidarismo político, se trata, ainda, de clivagem entre capitais internacionais e nacionais. Seria reedição da ofensiva do capital internacional exclusivamente monopolista à versão atualizada da composição à Juscelino, do capital nacional e internacional. A possibilidade de estar havendo, inversamente, o enfrentamento dos ilegalismos capitalísticos nacionais e multinacinais infiltrados nas instituições de governo, era mais favorecida a princípio, e a população que se mobilizou fortemente nas ruas, em movimentos de massa como até a vigília de Brasília, a favor do impeachment, foi calculada em quatro vezes maior do que os petistas mobilizados na defesa dos governantes acusados.
40 A hipótese de alguma iniciativa de tipo udenista contra o capital local - repetindo, assim colocado apenas por que não se segue a mesma defensiva contra o abuso multinacional - que explicaria o quadro presente, é porém algo complicada, já que a pequena diferença decisiva dos votos na eleição de 2014, descontando-se a hipótese da fraude digital por Diebold (a “chave alternativa” que se instalada clandestinamente possibilita domínio por terceiros de todos os comandos do computador), proveio das regiões do latifúndio interiorano. Não obstante a origem paulista do petismo, São Paulo foi o estado que liderou a oposição ao “pt” e a campanha a favor do impeachment. Inclusive tendo sido o único, que eu saiba, a mobilizar intelectuais famosos reunidos em torno deste objetivo específico. Nessa composição porém predominou uma posição agresssiva ao “forum de São Paulo”, que seria uma agremiação de esquerdas latino-americanas. [ Nota 25 ] O envolvimento da Venezuela como fornecedora das urnas eleitorais digitalizadas, além da questão econômica do tráfico de drogas, vem complicando também o conceito tradicional de esquerda em países da América Latina à exemplo da Bolívia. As eleições de 2014 mostraram o grau de infiltração do neofascismo, pois praticamente os cargos do legislativo foram disputados por respresentantes de sindicatos corporativos, em vez de candidatos por causas públicas. Por outro lado, como já sublinhei, o que se seguiu ao impeachment local foi a dominação do mercado pelo capital multinacinal objetivada pelo “udenismo” histórico da ditadura à globalização.
41 A mídia parece clivada entre internet (“uol”) e imprensas. A televisão tem se pautado por uma aparência de neutralidade, o que na prática implicou mostrar a maioria a favor do impeachment, mas agora havendo destaque sensacionalista às prisões espetaculares ou pronunciamentos do “vice”, sem radicalizar a cena do avassalamento dos salários e aposentadorias. A imprensa escrita ficou decididamente contra o “pt”, primeiro a favor do impeachment, por que houve violência de petistas contra instalações de revista que, na véspera das eleições de 2014, denunciou o primeiro escândalo da Petrobrás, mas recentemnte tem radicalizado a cobertura dos descalabros contra a população. A internet, pelo contrário, tem apoiado ostensivamente Lula e o petismo.
42 Ainda é precipitado um julgamento definitivo sobre o processo efetivo em curso, com os mandatos de prisão e apurações de fraudes envolvendo capital nacional e governantes corruptos se avolumando de modo impressionante. Em todo caso, vemos que independente de toda repressão econômica na época da ditadura, um capital nacional conservou boa margem de crescimento, estando porém na decorrência de processos criminais numa atualidade que podemos conceituar como extensão perfeita dos objetivos udenistas ipesianos ligados ao absolutismo imperialista do capital”multinacional”.
43 A meu ver, somente a exaustão de todos os aparatos de pseudo-legitimidade alteregológico, do que são apenas meios de coerção generalizada sobre o terceiro mundo, deve acarretar a superação desse estado paroxístico de corrupção generalizada. A queda do “pt” apenas é coerente, como corolário do esquerdismo irresponsável que chegou a tornar-se prosélito do ilegalismo apenas por recusar-se a incorporar os fatos da história e ciência social que vieram a ser conhecidos como imposibilidade de continuar havendo rótulos de condições primitivas ou anti-estatais.
44 O limite verificado das esquerdas instaladas, é pois o limite ideológico do sócio progressismo tecnicista eurocêntrico, que não assimila o paradoxo do imperialismo como impossibilidade de reprodução do modelo pelo terceiro mundo. Do mesmo modo, a perda do poder das multinacionais, além da atribuição efetiva da ilegalidade do funcionamento delas, deverá acontecer a partir do franqueamento do mesmo limite ideológico pelo terceiro mundo e todos os interessados na superação do nazismo como já redefinido na atualidade, em termos de inevitavelmente a sinonímia do capital imperialismo ou (re)-colonização.
45 O importante nessa história é pois o alto nível que a cidadania democrática brasileira havia atingido, político, econômico e cultural, demonstrado na resistência à corrupção eleitoral antes do golpe, de modo a tornar compreensível a abrangência formidável do golpe imperialista contra ela. Uma vez que estivesse garantidamente ausente, o desdobramento verificado efetivo de total avassalamento dos direitos na globalização nada tem de surpreendente, pelo contrário.
c. 3. II. 4) Volta à História - do militarismo ao “caos financeiro” do neoliberalismo econômico : 1 A redemocratização do Brasil ocorreu em 1985. À época do “regime militar” instaurado em 1964, na vida comum, longe do impacto da repressão brutal ao ativismo político de esquerda, a mentalidade corrente havia apresentado alterações de rumo, como seria esperável num interregno de vinte anos, mas certa homogeneidade bastante característica se estabeleceu, prolongando a mentalidade esclarecida que havia se expressado nas eleições, antes do golpe.
2 Nascida em 1964, comprovei pessoalmente bons níveis de escolaridade média, com cursos profissionalizantes em todos os estabelecimentos secundaristas, curriculuns de primeiro e segundo graus totalmente laicizados e isentos de dirigismo ideológico ou partidário, ainda que com acesso restrito à universidade porém ampliando-se; bons níveis de consciência dos direitos salariais e privados - ainda que frequentemente expressos na contestação aos “arrochos” do salário, estes não chegavam a extremos tais que alterassem o padrão da expectativa; bons níveis de consciência dos direitos humanos, de respeito à privacidade, de policiamento nas vias públicas, de assistência médica e higiene urbana, de providências admnistrativas visando saneamento de condições deficitárias estruturais.
3 Se as providências, como projetos de alfabetização, ampliação creditícia, financeamento da casa própria e projetos de habitação popular, anunciadas amiúde, não se mostravam à altura do que prometiam, sendo meros paliativos à expectativa das verdadeiras reformas de base, as críticas poderiam não ter que se relacionar apenas ao governo. Mas a conjuntura de época, pois como no exemplo do projeto de habitação popular, os “conjuntos habitacionais” estavam sendo concebidos em várias capitais do primeiro mundo para sanear a defasagem do favelamento, e os problemas que se seguiram a essa opção tiveram que ser equacionados pela ciência social em vários países.
4 A consciência do regime ser ditatorial não atingia plenamente a consciência comum, especialmente das novas gerações, até os anos de transição à redemocratização, quando material artístico na forma de filmes e livros de denúncia da repressão dos perseguidos políticos inundaram o mercado cultural. Essas publicações precederam a volta dos exilados, com a “anistia”, de modo que o nível de informação a propósito, corrente na comunicação de massas, foi geralmente compreensível às novas gerações que então se “politizavam”.
5 Após os dez anos iniciais do país redemocratizado, seguiu-se a “globalização” e oficializou-se o “neoliberalismo econômico”. As estatais foram vendidas, assim como a maioria dos serviços básicos, havendo processo de privatização ainda em trânsito. Então houve alteração radical. Tanto mais a redemocratização se estabilizava com prática eleitoral regular, mais o cenário exibia distorções tão profundas, que já não se reconhecia a sociedade como de mesmo nível de “desenvolvimento”. O que se exenplifica por isso que ao fim dos anos noventa, quando se anunciou o neoliberalismo econômico, o nível de escolaridade brasileira já estava tão prejudicado que as escolas do primeiro grau adotaram a aprovação automática a fim de evitar o crivo das provas. Os curriculuns só fizeram degradar-se desde aquela época, com todo tipo de sectarismo pugnando por deformar a formação letrada.
6 O livro de Luis Carlos de Morais Junior, “A autoeducação e o século 21” (Rio de Janeiro, Litteris Ed. 2014) desenvolve reflexão inteligente, bem aplicada ao contexto, tanto da problemática que a educação vem enfrentando, como demonstrando o alto nível da formação dos profissionais brasileiros, que não são os culpados dos lobbings e intervenções de interesses estranhos na política educacional do Estado.
7 O achincalhe à educação era tamanho desde a transição à década de dois mil, que o assim designado “Garotinho” - “esquerdista” do “pdt” , partido do famoso ex-exilado “Brizola” - introduziu o projeto “nova escola”, com utilização de recursos para a educação, porém que recompensava com um salário mínimo a mais aos professores de escolas públicas localizados em regiões ricas da cidade do Rio de Janeiro. Isto é, usava o orçamento estadual, que havia sido destinado a melhorar o péssimo estado da educação, para premiar as escolas que estavam nas melhores condições. Enquanto a multidão de escolas de subúrbios e regiões carentes, deterioradas a ponto de oferecer risco devido à necessidade de consertos estruturais, com carência de profissionais, etc., era assim “castigada” como se fosse culpa delas a escassez crônica de verbas destinadas, de modo que não tiveram qualquer reparo. Na atualidade, aquele político foi processado por compra de votos, porém pagou fiança de mais de oitenta mil reais. Havia então sido alardeada a culpabilidade dele na imprensa, porém desde então a popularidade do partido não só não parece ter sido prejudicada, como ainda na internet circulam inúmeros panfletos atribuindo inocência. A tendência ilegalista é generalizada, não só neste caso.
8 Se há uma tão pronunciada mudança na sociedade, entre a vigência do “regime militar” de empresas estratégicas estatais e a “globalização” inteiramente multinacional-privatizada, vemos que a desconfiguração da consciência política democrática pela ditadura não foi recomposta na redemocratização. Assim o primeiro setor a ter as verbas suspensas desde o descalabro recente do “pt”, foi o de pesquisa, onde várias “bolsas” foram interrompidas. Junto à dominação da microsoft, configura-se pois na redemocratização a continuidade da repressão à cultura do terceiro mundo, agora por outros meios relativamente à força bruta.
9 A sucessão de governos desde a eleição inicial na redemocratização, direitistas ou esquerdistas, não alterou os efeitos continuados da concentração de renda, pelo contrário, aprofundou-a continuamente até agora. O megafavelamento tornou as partes regularmente habitadas da cidade, sujeita a taxação de impostos e despesas correlatas, muito minoritária, o que provavelmente explica também a mudança do nível discente nas escolas públicas.
10 Na transição aos anos dois mil, isto é, quando ses oficializou o neoliberalismo econômico e a “globalização” neste país, o crime organizado ficou sem controle governamental possível a ponto de paralisações por exigência do poder paralelo do tráfico de drogas serem impostas frequentemente em todo o perímetro urbano, com suspensão de circulação de ônibus e funcionamento de lojas, em inícios da década de dois mil. O controle das comunidades faveladas pelo tráfico, de modo que nelas não vige a lei constitucional mas só a decretada pelo poder paralelo, é até hoje o referencial efetivo da situação local. Não há qualquer providência de legalização do comércio de drogas, que regularizaria a situação das “comunidades” - modo de se referenciar as “favelas”. Pelo contrário, o mais provável é conchavo de política populista e poder paralelo. Como iremos examinar à frente, o crime organizado na configuração atual é relacionado na história tendo origem no neonazismo repressivo do “anticomunismo”.
11 A mentalidade veiculada por mass midia, acrescentando-se a revolução microinformática que tornou monopólio da “microsoft” os documentos públicos, a escrita privada e a educação letrada, digitalizou de forma incontrolável as eleições, assim como permitiu controle despótico do mercado pelas operadoras estrangeiras de telefonia, é de tal modo inferior quanto à consciência dos direitos e inteligência, como se pode testemunhar pelos fatores generalizados.
12 Houve generalização de autoritarismo conspícuo; os imaginários nazista, monarquista, infantilizado, não obstante o regime democrático e paralelo a monopólio de grupos identitários populistas sobre a cultura escolar e universitária; nazismo peleguista de faixas subalternas como comerciários, motoristas de ônibus e taxistas, que passam a tratar do pior modo os cidadãos enquanto se verifica monopólio de menores de idade nos postos de trabalho, com evidente ostentação de “poder” pedófilo; comportamento incivilizado nas ruas; total ausência de privacidade ligada ainda às possibilidades de intrusão dos aparelhos microinformáticos e sabotagem dos arquivos; ausência de consciência básica da individualidade; juros escandalosos e crescentes; suspensão há tempos dos aumentos regulares dos salários; carestia incontrolada e abusos conspícuos dos cidadãos, por apresentação de contas estapafúrdias e desrespeito frontal no atendimento, pelas multinacionais dos serviços básicos ou operadoras de telefonia; péssima qualidade de mercadorias ou de serviços. Sobretudo, tem havido campanhas diretas de apartheid etário contra pessoas não-jovens, de um teor de cinismo e brutalidade realmente notável, configurando ação deletéria ao nível já alcançado da longevidade como índice do desenvolvimento humano, regressão dirigida que privilegia de modo totalmente demagógico a propaganda da natalidade. A segregação discriminatória porém tem sido típica da dominação info-midiática, não só neste país, contra as ciências humanas e filosofia, ou seja, pensamento e linguagem teórica não reduzidos à idiotice do “jornalismo” simplório neonazista.
13 Como o partido esquerdista do “pt” esteve no governo durante praticamente os quinze anos recentes, a radicalização de todo esse absurdo decorreu na vigência de um governo “trabalhista”, organizado na transição à democracia como representante do “operariado”, finalizando porém com o já mencionado impeachment devido a provas de corrupção.
14 O quadro atual supera em absurdo abusivo. Já reportei suficientemente a situação. Nesse ínterim em que se negocia a regularização dos pagamentos dos salários, o “vice” do “pt”, que é do PMDB paulista, está tentando impor medidas odiosas, bastante reconhecíveis como ideário do capital multinacional - já aumentou a previdência para 14% de desconto mensal, alardeia suspensão de garantias já estabelecidas na lei há tempos, e mais privatização de serviços básicos. [ Nota 26 ]
15 Nada tão fácil como culpar a democracia, pela decadência registrada na redemocratização, contra todas as previsões supostas racionais. Rumores de apoio ao retorno dos militares foram registrados, especialmente durante o período do julgamento do impeachment do “pt”. Os demais partidos de esquerda abandonaram o povo que desde há anos tem ido às ruas, enfrentando pancadaria generalizada pela repressão governamental às manifestações, taxando-os de traidores por terem apoiado ostensivamente o impeachment. Não houve porém qualquer justificativa ao público, ou qualquer negação frontal, da parte deles ou do próprio “pt”, concernente às acusações e provas judiciais da corrupção mais escandalosa, com inúmeros indiciados, continuando até agora os mandatos de prisão - destino que não atingiu porém os próprios ex-governantes do “pt”.
16 Os rumores de reinstauração ditatorial militarista não traduziram contudo qualquer possibilidade efetiva. A posição das forças armadas não ostenta qualquer pendor nesse sentido de um golpe, assim como o quadro internacional. Pelo contrário, não obstante ter sido o partido democrata norte-americano que instrumentalizou localmente a ditadura, houve na imprensa apoio declarado da candidatura do partido democrata à eleição presidencial, ao “pt”, no auge do escândalo das provas da corrupção petista, ainda estando por apurar a relação do governo democrata daquela época com o próprio acontecimento do impeachment. A eleição do republicano Donald Trump representou um alívio neste país, na ocasião.
17 O presente estudo, visando mais do que compreender a ação golpista instauradora do regime militar em 1964 - uma vez que há um contraste espantoso entre as fontes historiadoras quanto aos fatos - também compreender a inserção desse acontecimento numa história geral do capitalismo, não tem porque espantar-se com a posição das forças armadas nesse contexto atual, que tem sido de apoio à ordem vigente.
18 A consequente redefinição do capitalismo como monopolismo “imperialista” - dominação de economias de países emergentes por empresas multinacionais com sede em países ricos - bem ao contrário de causa da organização social democrática ou de livre empresa - não permitiria seccionar do resultado atual, o pretérito interesse ditatorial, definido como açambarcamento imperialista da economia por mínima que seja a base comum das fontes historiadoras.
19 Assim o quadro da redemocratização, o crime organizado, a crise da legalidade e a recolonização globalizada nos termos neoescravistas da ocupação do território do terceiro mundo por multinacionais cujo regime de roubo direto e opressão de atendimento, assinalam que a opção internacionalista não é consentida. Mas imposta pela força bruta ou por meios de intoxicação midiática a partir do imperialismo multinacional. Na globalização, configurou-se o grau do abuso neonazista das multinacionais que personificam o capital do “neoliberalismo econômico”, portanto regime inteiramente contrário à livre empresa.
20 Assim também o termo “redemocratização” deve ser relativizado em seu uso. Na verdade, é apenas o eufeminismo de um estado de caos derivado da incúria anti-nacional, cujo saneamento só poderá ocorrer por uma verdadeira democracia, em que a privacidade das pessoas físicas, a lei constitucional do país e os direitos humanos dos cidadãos estejam sendo respeitados.
Anexo: os problemas urgentes
1 Reitero, solicitando urgentes providências contra o estado de coisas, que o mais importante a propósito dos descalabros que estão ocorrendo desde o governo “pt” e neoliberalismo econômico, além do roubo dos salários, são os abusos por parte de multinacionais operando segundo o neoliberalismo econômico, sem controle por parte do Estado. A opressão de atendimento é especialmente intolerável por parte do sistema de provedores de internet e telefonia. Como o governo lhes permite contratar transações com o cliente pelo telefone, o que elas tem feito é simplesmente revogar tudo o que o cliente combina a cada vez que declaram estar contratando um serviço que importa em pagamento por parte do cliente. O telefonema seguinte desmente o que ficou contratado com o cliente, alegando que ele combinou algo diferente, mas a mesma coisa se repete depois, e assim indefinidamente. O governo não obriga o telefonema ser gravado e enviado ao cliente para efeitos de validar contrato de serviços, ficando a cargo do cliente solicitar, porém é claro que não sendo obrigada, o cliente solicita mas a empresa não envia. Porém qualquer imputação de conta por serviço contratado ao cliente, tem imediatamente força de lei junto ao serviço de proteção ao crédito, de modo que mesmo que o cliente jamais tenha contratado o serviço, ou tenha negado expressamente o querer , o nome do cliente fica “sujo” no serviço de crédito, não podendo contrair prestações, além de ter que pagar à empresa ou sofrer processo com risco de prisão, caso não possa, como seria de se esperar, provar que não contratou o serviço.
2 Os serviços de provedor de internet e telefonia são evidentemente básicos, já que todo o mercado de trabalho está integrado ao uso de whatsapp, computador e celular. O terror das multinacionais neste país está sendo de tal porte que a qualquer pessoa, a qualquer momento, pode serm imputado débito de qualquer valor, ao arbítrio das empresas multinacionais, com aquiescência do governo. É urgente que exista lei obrigando ao envio da gravação do telefonema para qualquer efeito de validade de cobranças ou atribuição de contratos com os clientes.
3 Além disso há vários “truques” sujos de empresas para cobrar muito mais do que o anunciado, ou cobrar o que é oferecido grátis, etc., porém nada tão grave quanto o desrespeito sistemático à palavra dos clientes, e a possibilidade de imputação de contas por serviços jamais verificados. O “procom” do centro da cidade do Rio de janeiro, não atende reclamações dos cidadãos, sendo porém a instituição pública a isso destinada. Ao invés, está mantendo quiosques das próprias empresas, de modo que o cliente pode apenas “reclamar” com elas mesmas, e são elas quem decidem a propósito.
4 Também, repetindo, há casos de várias empresas de serviços básicos que estão apresentando contas fraudulentas, cobrando valores absurdos pelo consumo mensal sem variação alguma do padrão de uso da pessoa. especialmente é o caso do gás e Claro, espanholas. Estas empresas estão denegrindo a imagem da Espanha. Até agora não tenho registro de defasagem quanto à estatal francesa da luz. Em todo caso, é urgente que se altere a mentalidade jurídica contrária aos interesses da população. Também que se aprovem leis contra a discriminação social.
5 Principalmente devemos observar que o “pt”, até mais do que o governo declaradamente elitista de FHC não se opôs ao regime das multinacionais, sendo os quinze anos recentes aqueles em que o domínio odioso de multinacionais como regime caracterizado de extorsão econômica e opressão de atendimento se implementou - inclusive sendo Lula um dos dirigentes da “Oi”, que como a espanhola Claro tem sido típica do que estou aqui definido “regime de extorção monetária e opressão de atendimento” vigente na Globalização, cujos inícios por FCC não abrangem a estruturação que foi montada na época do “pt”, desde 2002 a 2016. Não era conhecida Dilma até o ministério do governo Lula, onde porém ela se caracterizava por declarações pró-capitalistas na mídia.
6 Assim é coerente que desde há cinco anos, o início das manifestações contra os abusos, o “pt” autorizou repressão por pancadaria generalizada, utilizando-se da cumplicidade com os dirigentes do aparelho de segurança e das forças armadas - chegando a vitimar pessoas por pancada, como ocorreu há dois meses na manifestação da greve geral (Rio de Janeiro), que porém só durou um dia, o que comprova o grau de desmobilização em que o “pt” deixou o país.
7 Creio ser importante registrar que as manifestações de 2013 foram precedidas de um mês, pelo anúncio da eliminação de um ativista no campo, com cartazes por toda a cidade Rio de Janeiro) com a foto do “companheiro Renato”. Realmente a repressão à organização do campesinato, onde a pobreza e o autoritarismo dos latifúndios é cada vez mais escalandalosa, tem sido por muito tempo odiosa. Assassinatos até de freiras - que participam dos setores da igreja não comprometidos com o capitalismo - se verificaram. “Papel Máquina” de Derrida, registra um apelo a FHC, que na época era presidente, pela proteção de um ativista conhecido (José Rainha), porém que não surtiu efeito, tendo sido o ativista assassinado despudoradamente. Como vemos, o “pt” não alterou a situação calamitosa no campo, pelo contrário, prosseguiu o megafavelamento na cidade.
8 Mas provocou revolta, especialmente, o fato de que somas imensas estavam sendo gastas com obras para receber com fausto olimpíadas e copa do mundo, na conjuntura da pauperização local. De fato estava acontecendo a liberação pelo governo federal, de enormes somas para endividamento dos estados, de que está decorrendo o pretexto da suspensão dos pagamentos dos salários públicos. Esse endividamento foi gasto por uma orgia de obras públicas, que não se limitou de modo algum aos eventos desportivos, mas transtornou a cidade pela quantidade de pontes, túneis, embelezamentos da orla, etc. - tudo na “zona sul”e “Centro”, ambos a zona rica e litorânea da cidade. O incentivo ao turismo não resultou na minoração da problemática econômica, mas já naquela época se registrava a desqualificação do trato humanitário aos turistas por parte dos peleguistas ramificados no curral eleitoral, cuja insânia autoritária só vai de par com a ignorância característica. Além disso, é notório o absurdo de um governo federal agindo como agiota, sem responsabilidade civil, tendo dinheiro para sanear a crise porém não só eximindo-se de o fazer, como ainda impedindo os pagamentos por exigência inconstitucional de prioridade à dívida em vez dos salários dos servidores públicos. Mas o curral eleitoral migrado ao Rio de Janeiro, acredita piamente na propaganda alagoana dos funcionários públicos como “marajá” - como ouvi pessoalmente - zomba de quem estudou para mendigar, enquanto a mídia alardeia a fortuna do subemprego e economia marginal de ambulantes e camelôs, enquanto por outro lado a repressão ao contrabando e à venda de mercadoria roubada torna-se matéria de segurança nacional devido à escala sem precedentes dos assaltos, etc. Assim o sentido da pesquisa como meio do conhecimento básico da realidade é totalmente inapreensível na mentalidade usual, tanto mais se alardeia a evolução em pessoa devido a ser etariamente redutível ao advento do novo programa microsoft em particular e microinformática em geral - com que se identificam patologicamente os dessubjetivados. A noção de “capacidades” que requerem compreensão quanto ao modo como se desenvolvem não existe, pois a linguagem universal da consciência midiatizada, do desenho animado à novela de televisão, filmes e até subrepticiamente o jornalismo é a de “poderes” extraterrenos ou sobrehumanos comunicados à pessoa por alguma forma de “energia” que também pode ser”absorvida” (roubada) de outros, etc., poderes que tanto mais são fortes quanto menos se tenta explicar como funcionam. Nas escolas e faculdades, o referencial da pesquisa é negligenciado pelo estudo de caso fictício, onde situações simuladas apenas para ilustrar calhordamente certos pontos de vista utilitaristas ou de outros modos sectários, situações que nunca aconteceram, cujos personagens são apenas estereótipos ideológicos óbvios, são projetadas como o referencial único do que se deve fazer a propósito - sendo situações que supostamente só tem uma resposta “coerente”. Nas bancas de jornal, ora o universal da “cultura” degradada, as revistas de esclarecimento adaptadas a idade, gênero sexual, etc., tornaram-se raras, havendo profusão de revistas ostentando manchetes que são porém apenas o que está acontecendo na novela da televisão, a alternativa sendo o tipo neurótico derivado de “Visão”, cujas capas costumam ser de ofensa em nível nazista a pessoas ou formas de comportamento esclarecido.
9 Eventualmente foram feitas obras necessárias para evitar as frequentes inundações por chuvas, porém a duração da eficácia foi pouca, e já este ano (2017) as inundações voltaram nas mesmas partes já reparadas. Na verdade, em 2009 houve uma catástrofe de desabamentos em todo o estado, que, ao menos onde pude observar, foi facilitado pela sapa decorrente de obras da prefeitura da época, que porém não nos indenizou. Seguiu-se em 2010 um boom imobiliário com aumento de mais de mil por cento do valor de imóveis.
10 As consciência de que a invasão multinacional é recolonização, e de que a repressão física ao desenvolvimento de pesquisa e cultura local, que ocorria na ditadura, estava sendo repetida por meios de roubo de verbas e salários, estava patente nas manifestações de 2013. Não havia porém muita clareza quanto a questão microsoft, na medida que, detentora de monopólio sobre documentos governamentais, escrita privada e educação, opera por intrusão clandestina mas óbvia dos aparelhos de personal computer, tentando impedir que as pessoas possam escrever privadamente, além de inúmeros dispositivos aversivos à escrita. Os computadores virem das lojas com windows, e alguns aparelhos não permitirem mudança. Independente disso, as eleições são digitalizadas por programas obviamente expostos à fraude do Diebold.
11 Em todo caso, as reformas que os manifestantes exigiam no movimento de 2013, eram especialmente que se concedesse dez por cento para a educação, devido ao depaupermento das instalações escolares e salários dos educadores. O “pt” não concedeu nenhuma das reformas prometidas, pelo contrário, anunciou na reeleição em 2014, antes de se iniciar o processo do impeachment, medidas autoritárias contrárias ao que se estava exigindo, as quais estão se radicalizando nos pronunciamentos do “vice” empossado. Mas assim registro que a instalação pós-petista não correspondeu, de forma nenhuma , a qualquer mensagem que emitimos na internet expressando os interesses básicos da população, o nosso repúdio imediato e ostensivo à medida inconstitucional de atraso suspensivo dos salários e verbas dos funcionários públicos, especialmente dos setores básicos (escolas, hospitais, justiça e segurança). Isso, não obstante termos apoiado o impeachment. Também não correspondeu ao que estava sendo justamente exigido nas manifestações que tem se seguido, inclusive com pessoas assassinadas a pancada não obstante estarem protestando contra a inconstitucionalidade da suspensão salarial.
12 Vemos assim que há conexão inextrincável do aparelhamento capitalístico e repressão ideológica, como peças da programática geopolítica. O aspecto neonazista da exploração capitalística deixa de ser questionável como conceito, quando se examina o continuum histórico da ofensiva ocidental ditatorial e belicista, entre os anos cinquenta e oitenta, e a atualidade da globalização ou neoliberalismo econômico.
13 Na soma das ofensivas aos direitos humanos, torna-se ridículo o argumento de que o aumento dos salários conduz à inflação. Quando os níveis de alta inflação, pelo contrário, são constatados sem qualquer alteração do assalto crônico aos valores salariais dos terceiro mundo. Não obstante a desindexação da inflação ao plano real, continua o argumento a ser ventilado. Além disso, a própria desindexação apenas está mantendo os juros a níveis escandalosos, sem meios de indexar o descontrole sobre os preços seja em mecanismos de ajuste salarial ou da renda em geral. Ou seja, os juros bancários escandalosos não são indexados aos cálculos dos ajustes de renda e salários, assim enquanto empréstimos bancários são cobrados a mais de dez por cento de juros por mês, nas cadernetas de poupança só são agregados juros mensais de 0,5%. E os salários sem qualquer aumento há vários anos, o que é inconstitucional.
14 Um dos motivos preponderantes do investimento das multinacionais em pesquisa tecnológica é que ao permite transportar setores de fabricação de produtos a áreas do terceiro mundo, nestas as multinacionais minoram os custos de produção, pagando muito barato por mão de obra, obtendo incentivos de tributação, sem qualquer compromisso com reaplicação social dos proventos ou com a proteção da ecologia local. Sobre isso, o livro de Dreifuss a propósito da globalização registrou que a mesma empresa multinacional paga na Europa uma base de dezoito dólares por hora, mas no terceiro mundo, centavos de dólar por hora. (referenciado de memória). [ ver Nota 27]
15 Já vimos como essas facilidades são obtidas por favores governamentais das nações prejudicadas. Trata-se em escala geopolítica, do círculo de financiamento de cargos e monopólio da produção. Porém especificamente como política que cria a oposição centro/margem, podendo definir o capital-imperialismo como marginalização anexadora ou “assimetria internacional do capital”, estão implicados nesse círculo os dois itens característicos do imperialismo “globalizado” desde o golpe de 1964, como aquilo que as empresas multinacionais exigiram ou fizeram por si mesmas. São eles repressão política e a repressão direta ao capital nacional, isto é, o que designei a Contra-Revolução Industrial na margem como política definidora da Revolução Industrial dos “países centrais”. A ofensiva dessa atuação tem sido de modo inversamente simétrico à ordem da necessidade. Quanto mais necessária é a repressão devida, com objetivo de manter-se a legalidade como respeito aos direitos civis, mais o ilegalismo é propagandeado, porém com incremento de repressão inteiramente indevida às liberdades civilizadas. A partir daqui, visando apreender como vem se configurando esse tão exorbitante quadro histórico, estaremos examinando a trajetória da repressão político-ditatorial sobre o terceiro mundo após 1945, e suas consequências na transição da beligerância leste/oeste ao conflito norte/sul.
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6 = Leste Oeste a Norte Sul : A Transição Histórica
a) Os testemunhos do neonazismo imperialista após 1945 : da guerra contra a descolonização ao crime organizado
1 O “anticomunismo” foi um dos principais objetivos segregacionistas nos países nazistas da Segunda Guerra. Na evolução do conflito leste-oeste presentificado depois de 1945, tornou-se compreensivelmente um emblema da ação norte-americana contra o direcionamento comunista atribuído ao lado soviético. Porém convergindo com o objetivo capital-imperialista de domínio sobre o terceiro mundo, o “anticomunismo” passou a expressar o caráter neonazista da composição monopolística do capital logo que este transitou à ofensiva golpista. Isso é testemunhado tanto na repressão ditatorial na América Latina, como na ofensiva aos movimentos de libertação afro-asiáticos.
2 Sobretudo a relação entre estes dois fatores, que definiria a transição histórica da beligerância leste oeste ao atual conflito norte sul resta por se definir. Aqui iniciamos a tarefa dessa definição pelo exame dos acontecimentos. Com efeito, testemunhos recolhidos nesse sentido registram o caráter neonazista dos aparelhos repressivos-belicistas, assim como a relação do neonazismo com a estrutura do crime organizado que se tornou típica a partir dos anos setenta.
3 A definição histórica da transição tem sido dificuldada justamente porque esses testemunhos não são relevantes para aqueles que vinham e vem apenas pensando em termos das necessidades e decisões do primeiro mundo na conjuntura após 1945. Sendo porém já estabelecido o novo planisfério do conflito norte-sul em meios dos anos noventa, o motivo econômico da nova cartografia está explícito em todos os manuais de história e geografia, porém estando-se ainda na expectativa de alguma verdadeira connsciência histórica a propósito do mundo em que vivemos hoje.
4 Já deve ter ficado evidente ao longo deste estudo, que seu propósito é demonstrar a autoconsciência que precisamos desenvolvida como dependendo de se reconfigurar o próprio capitalismo em termos de colonialismo. Assim o conflito Norte Sul se reveste de um significado mais abrangente do que o Leste Oeste, podendo inclive explicar as discrepâncias que a teoria anterior deixava subsistentes. Mas o sintoma notável é que após 1945, tanto mais isso se torna a prova mesma dos fatos, menos se viabilizou teoricamente a iniciativa dessa redefinição. O que precisa começar por ser considerado é a evolução da época até hoje.
5 Para toda análise eurocêntrica após 1945, o nazismo era o totalitarismo de ontem, ultrapassado pelo comunismo como a ameaça totalitária de hoje. Certamente uma ameaça mais sutil, já que representando por outro lado o ideal de superação da injustiça como da desigualdade de classe. E certamente uma ameaça que tinha o ar de ser final, a mais letal já conhecida antes, pela demarcação nuclear da corrida armamentista.
6 Podia configurar-se, historicamente, apenas a centralidade do conflito Leste Oeste. A descolonização podia não ser a mesma coisa, e mesmo desse modo não representar qualquer verdadeira questão à humanidade além de um episódio de circunstância. E se tal ameaça se votou ultrapassada na véspera do milênio, na dessovietização, chegou-se a falar do fim da história em plena marcha do trânsito econômico do terceiro mundo à “globalização”, rompendo a secular barreira à indústria, ainda que pelo incremento da fábrica estrangeira, e com um mundo confrontado à nova possibilidade do holocausto ambiental.
7 É certo que ninguém em sã consciência endossou o veredito sensacionalista do fim da história e já se compreendera suficientemente, então, que apenas havia findado o conflito meio-secular Leste Oeste. Porém é algo curioso. Os que assim protestaram, o fizeram contra o fundo de uma imprensa tanto mais idiotizada como cada vez mais prepotente, que universalizou como clichê de ordem o veredito absurdo do fim da história, ao mesmo tempo que multiplicava as notícias sobre os novos conflitos globalizados.
8 Absurdo por um lado, até porque formalmente é impossível, o fim da história seria ele mesmo acontecimento histórico, e o que estaria depois só se compreenderia pelo modo como aconteceu o fim e do que ele decorreu, etc; contradição pelo outro, pululando os fatos históricos anunciados nas manchetes, e de que a mídia, assim como seus idólatras, pugnavam por anunciar estarem historicamente se tornado monopólio dela, por um assim atribuída histórico fenômeno da obsolecência das ciências competentes.
9 Além disso, o caráter de golpe publicitário que cercou a universalização de nada além de um dito inconsequente alçado a esse “novo parâmetro” da inconsequência que é o que diz a mídia acéfala, se tipificou por isso que, paralalemente, também se alçou ao mesmo status o insano argumento de que alguém mais do que os filósofos e teóricos que estavam protestando, alguém que era justamente apenas editor de revista, havia errado num julgamento que veio a público, “portanto” todos os filósofos e teóricos que não tinham nada a ver com o fato, nunca deveram sua celebridade à revista, ou que até já estavam mortos na ocasião, eram os protagonistas do mesmo erro, haviam perdido o crédito e a utilidade para todo o sempre.
10 Isso, quando a dispensa da obrigação social da empresa e do Estado, pelo neoliberalismo econômico, não provava de modo algum que a economia é independente da sociedade, mas apenas desviava as verbas dos impostos para o megainvestimento do capitalismo na propaganda e dominação info-midiática da cultura.
11 Porém o curioso é que, uma vez a bogagem do fim da história devidamente criticada pelos que detinham a digna responsabilidade da refutação, estes não chegaram de modo algum a qualquer conceito do conflito Norte Sul. Pelo contrário, grassava na época um preconceito contra a configuração de um estado de coisas designável “terceiro mundo” na qualidade justamente de sujeito político, num recuo inexplicável pelo qual, de protagonista das guerras por descolonização conjugadas a opções políticas que deviam ser feitas, o “terceiro mundo” tornava a ser visto como arcaico pré-político assim como na época anterior à descolonização.
12 Não se pode argumentar que foi porque foram escolhidas as opções erradas. Porque as opções não foram justamente feitas pelo “terceiro mundo”, mas na conjuntura geopolítica imperialistas que intervindo, articulava-se porém a uma singularidade dos conflitos e dissensões internas. É esse caráter interno do terceiro mundo político que se revelou, sintomaticamente, na mesma hora de sua espetacular concretização, o inominável, o inaceitável, como o recalcado da neurose ocidentalista. Pois o mesmo caráter impede a separação absoluta de geopolítica e economia, assim como complica sem de todo anular a oposição dos componentes internos e externos.
13 O neonazismo era já conspícuo na época da mudança cartográfica que integrou apenas a mudança do plano econômico, mas tampouco se configurou até hoje o neonazismo como um fenômeno de porte histórico, isto é, que implicaria a crítica do discurso até aí praticado. Continua-se oficialmente até hoje um discurso de tipo aroniano, pautado pelos imperativos acima descritos, tais que o totalitarismo nazista foi o eliminado na segunda guerra.
14 O crime organizado, que hoje já se desdobra num óbvio fim da legalidade devido à dominação microinformática, de poderes econômico-políticos ou de mero hackerismo, a mesma coisa. Quanto mais os problemas novos são portentosos e sua abrangência é planetária, menos esclarecimento e estudos são exigidos ou fornecidos. Assim a própria tecnologia se torna inútil, por inutilizável devido à sabotagem e intromissão odiosas permitidas pelo capitalismo egoísta de um punhado de empresas monopolísticas que impedem a programação individual de aparelhos, como estava sendo feito antes dos anos noventa, impingindo desde aí que só podem ser vendidos com software de alguma multinacional. O fim da legalidade é óbvio também pela constante sabotagem das instituições públicas, que não tem mais credibilidade, por dependerem de funcionamento on line dominado como se sabe que é por hackers ou pelos domínios ilegais associados às multinacionais. Frequentemente o atendimento de instituições ao público é interrompido deste modo, e todos os documentos públicos do país estão dependendo de firmas multinacionais particulares, o que é absurdo.
15 É patente a meu ver que para atender à necessidade de reflexão, não basta apenas romper a inércia premiada das instituições de letramento que estão sob jugo de lobbistas patrocinados pelo businesse info-midiático, além do problema ele mesmo, isto é, a dominação da escrita e cultura pelos aparelhos de transnacionais info-midiatizados - além do absurdo conspícuo dessa dominação abranger os documentos governamentais, toda a documentação da cidadania. Sem o suporte dos fatos além do que interessa ao primeiro mundo fazer conhecer como os protagonizados por si, não haverá autoconsciência.
16 O termo “descolonização” no contexto após 1945, pode ser utilizado tanto para os conflitos bélicos que se seguiram na Ásia e África com objetivo de libertação das regiões que foram neocolonizadas por potências do primeiro mundo desde os fins do século dezenove até a época das duas guerras, uma vez que as potências neocolonialistas não a concederam agora por via pacífica. Ou para os planejamentos de libertação econômica como os que até aqui viemos estudamos, desde o Oriente Médio à América Latina, em termos do que estava sendo paralelamente antagonizado pela repressão imperialista. Ficou patente, como vimos, que os testemunhos do terceiro mundo quanto a este segundo aspecto, mudam substancialmente a qualificação histórica da ação do primeiro mundo capitalista na época considerada, permitindo tematizar a origem do neonazismo na perspectiva da evolução econômica pela centralidade do monopolismo.
17 Continuando esse exame para abarcar também o belicismo afro-asiático, essa origem torna-se bem mais evidente, porém na perspectiva política e ideológica. Iremos constatar assim muito mais convergência entre os dois aspectos da descolonização do que poderia ser evidenciado pela análise eurocêntrica.
18 Sam Nujoma (“Batalha em um acampamento sitiado”, in: “Problemas, publicação teórica e informativa”, Abr/Mai/Jun/ 1984), o presidente da SWAPO (Organização Popular da África do Suleste), movimento bélico de libertação nacional da Namíbia, registrou que “a serviço dos racistas”, estes que atuavam ao lado dos exércitos colonialistas sul-africanos na guerra, “estão, igualmente, os koevoet, grupos neonazistas de assassinos. Criados à imagem e semelhança dos comandos hitleristas S.S., irrompem à noites nas casas, brutalizam seus habitantes ou os tornam prisioneiros”, os quais depois são eliminados. (p. 100)
19 Segundo Nujoma, se “os patriotas da SWAPO” devia fazer cativos “os soldados do inimigo”, tratando-se de circunstância bélica, inversamente às atrocidades que os apartheidistas nazistas faziam com os prisionairos, “os tratam conforme a Convenção de Genebra sobre Prisioneiros de Guerra”. (p. 102)
20 Revoltado contra as tentativas de vincular a questão namíbia à questão angolana, e principalmente contra a injunção dos racistas de que a SWAPO namíbia e os angolanos deviam reunir uma convenção regional que integrasse a “organização criminosa UNITA”, Nujoma registrou que os soldados da libertação nacional namíbia “se consomem em campos de concentração ou estão prosioneiros”, junto a resistência ao regime sul-africano na própria África do Sul, “na sinistra ilha de Robben, onde aos prisioneiros se reserva um destino atroz” . (p. 103, 102)
21 A propósito, Vicentino informa que a UNITA de Jonas Savimbi era financiada por Reagan e Margareth Tatcher, os introdutores históricos do neoliberalismo econômico (op. cit. p. 445). Essa informação é importante, uma vez que na década de setenta o concenso eurocêntrico pode ser feito pela dissociação do sentido Leste Oeste do conflito mundial, relativamente ao cenário bélico da descolonização - como exemplarmente Raymond Aron ensinava. A Argélia era algo bem irredutível ao Vietnã após os anos cinquenta. Na Argelia tratara-se de um conflito circunstancial, o nacionalismo argelino contra o império colonial francês, mas no Vietnã de Johnson e Nixon, não, era uma questão de intervir contra o comunismo e só por isso se compreenderia o envolvimento norte-americano ao Sul. (“O Espectador engajado, op. Cit. p. 264).
21 Voltaremos a essa questão, mas desde aqui podemos observar como a transição da beligerância Leste Oeste ao conflito Norte Sul é paradoxalmente algo que inflete a própria verticalidade da linha primeira, como se bastasse um giro a partir da sua extremidade para que se houvesse traçado o segmento horizontal que estabelece o segundo.
22 Podemos considerar que Nujoma já está se opondo a uma política de oposição anterior, a do pan-africanismo. Este, aliás, devemos registrar como algo a ser criticado na sua própria relação com um ideal “pan-americano”, o qual reduzia-se porém a pensar a “latino-americanidade”, e nela a questão da aportação negra, como vínculo cultural do catolicismo continental - conforme defendia Gilberto Freire. Ou seja, um tipo de colonialismo ideológico nítido.
24 Segundo Nujoma, testemunhando em plena época da guerra de descolonização que se prolongava na década de oitenta, “o regime do apartheid arma toda a população branca da Namíbia”.
25 Os homens brancos tinham que servir o exército, homens e mulheres brancos tinham que integrar a milícia civil. Também negros poderiam ser atraídos para integrarem as tropas racistas, que são “em geral, formações paramilitares das 'forças da ordem' que se criam sobre a base tribal, ou as chamadas 'forças territoriais da África do Sudeste'. Essas formações são tristemente célebres por suas atrocidades e assassinatos, sendo utilizadas para amedrontar a população nativa”, e, como vimos, também neonazistas disso se ocupavam.
26 A redução da Namíbia a um vasto cenário bélico foi, conforme Nujoma, “um instrumento chave para perpetuar o controle da Pretória sobre o país, com a finalidade de mantê-lo como última zona-tampão entre a cidadela racista e os Estados africanos independentes situados ao Norte”. Aqui seria importante observar que a independência ao Norte apenas decorre de um cenário de guerras de descolonização nas décadas anteriores, cuja tematização foi decisiva para a consolidação do consenso eurocêntrico do quadro conflitivo ao Sul como algo tão superficial como superado.
27 Quanto à ofensiva anti-colonialista sul-africana se deve a que repetiu-se na África do Sul algo da pseudo-independência brasileira à época do império. A classe racista colonizadora havia feito a independência, porém unilateralmente, mantendo e exacerbando assim o regime do apartheid. Estudos sobre a situação após a extinção do apartheid na África do Sul não são muito conhecidos nas livrarias brasileiras, além da propaganda da época na mídia. Porém soube que o governo brasileiro importou algo recentemente o projeto sul-africano de segurança pública designado “verdade e confiança”. Até agora não tenho notícia sobre se continua vigente. Segundo as fontes, o projeto foi implementado pelos altos escalões, não apoiado pelos contingentes da tropa. Parece-me de fato questionável, uma vez que “verdade” não deveria ser conceito sobreponível ao que se limita à observância da lei constitucional, do contrário o que há é confusão de público e privado.
28 Apesar de tudo, Nujoma estava firmemente convicto de que o exército de libertação da Namíbia iria vencer as tropas inimigas e obter a independência do país. Apoiando a independência, segundo ele, estavam a Onu, os Estados independentes da África, os países socialistas e as “forças progressistas do mundo inteiro”. Nujoma testemunhou o apoio à luta pela independência da Namíbia, por representantes católicos, anglicanos e luteranos protestantes, mas assim também sublinhou que a Igreja Reformista Holandesa, cujo credo justifica o racismo, atuava como “um dos principais pilares do regime neonazista do governante Partido Nacionalista”. Escusado lembrar que por “nacionalismo” entendia-se aí justamente o contrário, a dominação imperialista sobre as colônias africanas.
29 Na América Latina, a redemocratização vem ocorrendo, como já referenciei, desde 1985. O mundo mudou substancialmente na dessovietização, e revendo estes textos do número da revista “Problemas”, entre os quais há artigos assinados por dirigentes comunistas de vários países na época, parece inacreditável que as coisas tenham sido como sabemos, a derrocada do regime comunista agregado pelo Pacto de Varsovia entre tantas nações da União Soviética, ocorrendo apenas seis anos depois. À frente examinamos algo dessa mudança, questionando os motivos dessa imprevisibilidade. Aqui é importante notar que a versão usual do crime organizado nas legendas de grupos famosos hoje em dia, como tendo resultado de doutrinação em guerrilha, por parte de presos políticos a presos comuns nos cárceres da ditadura, não procede, pelo que podemos apurar da leitura de alguns destes textos da revista “Problemas” já referenciada.
30 Pelo contrário, a sociologia americana já registrou há tempos o antagonismo do crime organizado ao comunismo, segundo fontes tendo até mesmo ocorrido na Itália do pós-guerras o favorecimento dos poderes à reorganização da máfia para evitar o fortalecimento comunista. É corriqueiro que a estrutura do crime organizado é tradicionalista, ao contrário da crítica comunista à desigualdade e à ideologia. E de fato a resistência dos comunistas na clandestinidade à época da ditadura militar local testemunhou a ligação dos regimes nazistas ditatoriais do imperialismo americano na América Latina, com a organização do tráfico de drogas em grande escala, apenas não havendo menção desse nexo quanto aos militares brasileiros.
31 A questão da repressão ao crime organizado tem sido o pão cotidiano do noticiário e alcançado proporções gigantescas, porém isso não refuta os testemunhos. Pois como se tem ventilado há muito, o enigma persiste quanto aos motivos pelos quais não se tem legislação racional de legalização do comércio de drogas, porém tampouco ocorre a repressão exitosa do “crime” a um limite considerável regular, configurando-se ao invés escandaloso.
Até mesmo em nível de boato costuma-se atribuir o motivo da proibição a interesses de poderosas eminências pardas da política internacional na comercialização ilegal, mais rendosa, permitindo ainda domínio incontrolado sobre áreas de carência conspícua. E de fato podemos considerar enigmático que o tráfico ilegal jamais se extingue, pelo contrário, cresceu enormemente ao longo das décadas recentes, como já informei a propósito do descalabro da situação local, com a cidade fragmentada em territórios de regimes próprios alheios à constituição civil, guerreando amiúde entre si na proximidade contígua às áreas residenciais de modo que ouvem-se os tiroteios pela noite adentro e tem-se notícias de combates selvagens, resultando num quadro que só teria semelhança com uma guerra civil, porém não havendo ideologia ou finalidade além das pressões dos negócios do capitalismo ilegal. Os megaprogramas intermitentes de intervenção armada, patrocinados por iniciativas sensacionalistas visando o controle da vertiginosa curva acendente dos territórios ocupados pelo poder paralelo, mostraram-se até agora sempre baldados, mas não se explica porque.
32 À luz destes testemunhos de “Problemas” sobre a ligação do tráfico de drogas com os negócios dos grandes ditadores na época dos regimes militares na América Latina, torna-se significativo o registro de Ehrlichman a propósito das relações Hoover-Nixon, em “Whitness to power”. Hoover, então o chefe do FBI como já referenciamos, demarcou segundo Ehrlichman, a política da instituição seguida na década de setenta a propósito do que se reservaria a ela investigar. Ao contrário do que Nixon quisera, a princípio Hoover recusou aumentar a esfera de ação do FBI contra o “O.C.”, o “organized crime”, em geral e a Máfia em particular, alegando que o número de processos à espera de funcionários que deles se ocupassem somava já centenas, e também porque suspeitava que facilitaria seus homens serem subornados. Mas ficou depois estabelecido como norma o preceito de Hoover, de que o FBI não investigasse de modo nenhum o crime organizado, somente a ameaça interna como os “Black Panthers”, movimento anti-racista de cuja repressão Hoover pessoalmente se ocupou. (“Whitness to power”, op. cit. p. 142)
33 Quanto a relação de crime organizado e neonazismo, já vimos com Claude Julien a ligação com o nazismo na Segunda Guerra, do homem da CIA em Teerã, substitutivo do governo representativo deposto por golpe de Estado similar ao de 1964 brasileiro, porém de mais simples execução.
34 Hugo Campos (“Paraguai: cresce a luta contra a ditadura fascista”) registrou também a ascendência fascista do ditador Stroessner. Igual ao exemplo iraniano, o fascismo configurando-se não só na ideologia do ditador, como na prática instituída por ele conforme o aval da CIA, de suspensão dos direitos humanos típica das ditaduras militares como a brasileira. Mas também o que menos se noticia: a “deliberada política de estímulo à corrupção, entre seus comparsas, a troca de fidelidade, principalmente com os comandos das Forças Armadas. [Stroessner] Oferece-lhes facilidades para se tornarem latifundiários, contrabandistas, traficantes de drogas, especuladores etc., isto é, como reconhece o próprio ditador, o preço da paz interna'“. (p. 215, o grifo é meu.)
35 Também Rogelio Gonzáles registrou neste número da revista “Problemas”, a relação do nazismo com as ditaduras imperialistas americano latinas. Testemunha sobre o General Alfredo Stroessner, “que durante a Segunda Guerra Mundial fazia alarde entre seus amigos oficiais de que era nazista, inclusive fazia propaganda das ideias de Hitler e do livro do chefe nazista 'Minha Luta', que distribuía entre seus amigos mais próximos nas Forças Armadas.” (p. 125). Stroessner foi investido no Paraguai em 1954, segundo Gonzáles, “com a ajuda da Missão Militar Norte-americana”.
36 Quanto à questão econômica resultante da instauração do regime militar paraguaio, é um quadro impressionante o relatado por Gonzáles, da detenção de trezentos trabalhadores, em uma noite, após ter sido decretada a greve geral, por ocasião do confronto da CPT, a Confederação Paraguaia dos Trabalhadores, com o Ministro do Trabalho. Este ofereceu café aos delegados da confedereção, que responderam não terem dinheiro para pagá-lo. O Ministro o ofereceu de graça, por conta do ministério, e o delegado operário respondeu: “Ah, é assim que se gasta o dinheiro que poderia servir para o aumento dos nossos salários!” Ato contínuo, o Ministro negou o aumento solicitado pela delegação, do que decorreu a Greve Geral e a prisão simultânea de três centenas de pessoas. (p. 123)
37 Também o articulista cubano Raul Vivo (“As crescentes contradições entre a América Latina e os Estados Unidos”), na citada revista “Problemas” comentou que na década de oitenta, “A Bolívia conquistou seu direito a ter um governo que não foi produto dos tradicionais golpes dos generais, de um modo ou de outro patrocinados pelo imperialismo, afastando do poder os 'narco-gorilas', os militares enriquecidos com o negócio do tráfico de drogas com os Estados Unidos, verdadeiro paraíso dos piores vícios.” (p. 229)
38 À frente retomaremos a esse julgamento da questão do uso das drogas, uma vez que Raul Vivo expressa um ponto de vista do comunismo cubano a propósito, independente do que interessa à citação presente, ou seja, a referência à origem da configuração atual do crime organizado.
39 Ora, o “anticomunismo” se tornou, no contexto recente da América Latina, como estamos constatando, rubrica de bastante simples definição, como prática de cruel infração dos direitos humanos constatada nas ditaduras recentes impostas ao Sul pelo “primeiro mundo” agindo em convergência aos remanescentes localizados da violência nazi-fascista. Mas o “comunismo”, se além de mero rótulo de acusação sem provas e sem necessidade de justificativa, por aparelhos golpistas do terrorismo ditatorial, não tem de modo algum definição simples, porém muito menos ainda enquanto uma questão histórica a propósito de como se compõs ao Sul após 1945.
40 Um aspecto do que vimos até aqui na transição ao conflito Norte Sul, pode definir-se como a pressão dessa questão sobre o “comunismo” historicamente eurocêntrico. É manifesto que na ordem bipolar após 1945, já não se podia preservar o princípio capital do “comunismo” ortodoxo que regia porém a União Soviética, a saber, a cisão de base econômica e estrutura política, uma vez que a geopolítica determinava a própria ordem na qual inseria-se a razão de ser da União Soviética como um regime comunista.
41 As acusações do bloco capitalista à sovietização como disputa pelas zonas de influência internacionais restam por ser checadas, sendo interessante hoje um recenseamento dos estudos que ocuparam as mentes da época obcecada com a ameaça do holocausto nuclear.
42 Em todo caso, não seria crível que as questões doutrinárias permanecessem intocadas nessa conjuntura, e as mudanças do “comunismo” teórico e prático foram um aspecto da transição, se as questões nacionalistas dos movimentos de independência política e econômica deviam em algum ponto extrapolar a fronteira do eurocentrismo. Mas até que ponto, de modo a permanecer atribuível o “comunismo”, isto é, a subsunção do que estava sendo na prática a efetivação do conflito Norte Sul, ao conceito inerente ao conflito Leste Oeste? Está se verificando sempre mais necessário a consideração desse problema histórico.
b ) “Comunismo”, Ocidente e Descolonização
1 O que estava sendo rotulada para os efeitos persecutórios do imperialismo, de “comunismo”, era sem dúvida algo bem mais generalizado e abrangente em termos de um movimento histórico da descolonização em vários níveis, do cultural ao político, mesmo após a cassação do econômico pelo golpe ditatorial. Não obstante, o aporte do “comunismo” propriamente devia estar se transformando na razão inversa, isto é, pelo fato de integrar uma problemática nacional. A dificuldade de se desfazer a confusa atribuição a algo que não se limita ao teor da acusação, vai de par com a de apreender o aporte exato dessa transformação.
2 Alguns pontos se tornam esclarecidos nestes artigos de “Problemas”. Mas eles só podem valer hoje como referencial da interpretação histórica. Assim na verdade ultrapassa porém este valor, um obstáculo notável, que é o caráter desistorizado atribuído costumeiramente a tudo o que não é eurocentrado.
3 Sabemos bem que o pacto germânico-soviético havia ligado Stalin ao nazismo, não como colaborador, certamente, mas pela renúncia na atuação contrária aos alemães. A mudança soviética em prol dos “aliados”, devido à traição da União Soviética por Hitler, ocorreu bem depois da vigência do pacto que havia sido importante para a ocupação da França pelos nazistas alemães.
4 A magnitude de algo tão espantoso como esse pacto do comunismo com o próprio perseguidor nazista, alcançou a perplexidade de muitos que se tornaram, na época da Segunda Guerra, “ex-comunistas” na definição de Carpeaux - não só quem havia pertencido antes ao partido e abjurara, mas todos os que haviam até aí se considerado comunistas em suas convicções. Assim ele referencia Ignazio Silone, Charles Plisnier, Arthur Koestler, e George Orwell a quem Isaac Deutscher considerou ter como fonte o ex-comunista russo Zamiatin, Carpeaux sugerindo também nesse status a Conrado Alvaro.
5 Porém essa tendência seria ao ver de Carpeaux, um novo dogmatismo. Os ex-comunistas “afirmam que só eles sabem e podem indicar o caminho certo contra o perigo [totalitário] comunista; são os mesmos homens que, quando eram comunistas, afirmaram durante tantos anos que só eles sabiam e podiam indicar o caminho certo contra os perigos do capitalismo e do fascismo”.
6 Afinal a tendência ao ex-comunismo oriundo da segunda guerra desemboca num novo período a partir do McCarthysmo, conforme Carpeaux, A seu ver emergiu aí um novo tipo de literatura de oposição, de considerável menor valor, exemplificando-se desde Norman Mailer em “Barbary Shore”, ao “The Crucible”, de Arthur Miller. (Carpeaux, O. M. “História da literatura ocidental, Rio de Janeiro, Alhambra, 1985, V. 8, p. 157 e segs.”)
7 Pode ser que o “ex-comunismo” como uma tendência seja hoje algo muito comum a vários de nós. Em âmbito histórico, porém, apenas sucede o que havia sido, antes da guerra, ao contrário, a opção sovieticista daqueles que presenciaram um espanto similar na derrocada do levante comunista chinês de Xangai traído pelos próprios soviéticos.
8 O estudo de Lucien Goldman intitulado “A sociologia do romance” ( Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976) referencia “A condição humana”, como o romance de Malraux que trata o acontecimento e analisa a conjuntura histórica. O romance foi considerado por Trotski, crônica romanceada da malograda revolução, ao que Malraux respondeu tratar-se de um verdadeiro romance, tendo contudo havido o referente histórico real. Goldman sugere que revela uma inclinação trotskista, porém de fato registra que Malraux, como a maioria, na época aprovou a opção soviética stalinista na base de que Trotski raciocinava segundo as razões de 1917, quando a Russia pudera estar na ofensiva, quando agora, inversamente, tratava-se da estratégia adequada a país na defensiva.
9 Creio que se pode observar que por um lado, a traição russa a Xangai foi deplorada, do mesmo modo que os horríveis atos stalinistas como o assassinato de Trotski e de todos os comunistas russos consideráveis dissidentes da opção stalinista pelo socialismo de um só país, que havia se tornado a decisão oficial do partido soviético. Por outro lado, parece-me que segundo Goldman, Malraux e a maioria dos comunistas inclinaram-se pela orientação russa, não só devido à estratégia que restara como a opção do anticapitalismo posto que afinal entre Trotski e Stalin era isso mesmo, qual a melhor estratégia, defensiva ou ofensiva, o que estava em questão. Mas porque seu desejo estava na vida racional, e esta restara apenas na União Soviética.
10 Ora, não se minimiza assim a exiguidade da opção, pois de fato, Malraux, em um outro romance designado “A Esperança”, ao ver de Goldman “baseia-se inteiramente na diferença de natureza entre os 'dois verdadeiros partidos', entre o fascismo bárbaro que defende o interessse de alguns privilegiados e o comunismo revolucionário” lutando pelo triunfo da fraternidade e virtude da humanidade. Mas esta sendo a luta de “partidos organizados de que há pelo menos dois”, isto é, não mero confronto de ideais como “revolução e reação, humanismo e barbárie, nacionalismo e comunismo, nacionalismo e proletariado”, mas uma luta efetiva pela “conquista do mundo”. (p. 129 e segs.)
11 Ao que parece, o “ex-comunismo” que Carpeaux referencia tem um certo limite após 1945, justamente pela bipolaridade Leste Oeste e o rearmamento do cenário internacional na descolonização - independente do paradoxo das armas nucleares que apenas neutralizavam qualquer possibilidade de confronto bélico das superpotências.
12 A traição soviética aos comunistas chineses de Xangai, entregando-os ao governo pró-ocidentalista de Chiang, antecedeu porém a revolução de Mao Tse Tung, que foi vitoriosa na China após 1945.
13 Não obstante a União Soviética e a China não foram precisamente colaboradoras num bloco socialista desde aí, mas modelos rivais do socialismo de Estado. Em todo caso, não obstante a inviabilização da propagando do “monolitismo” comunista , até os anos oitenta manteve-se como uma possível interpretação à esquerda, a oposição entre um capitalismo redutível a fascismo disfarçado e comunismo como opção humanitária.
14 O lado oposto tinha como opção considerar que ambos os regimes, por terem se tornado protagonistas do conflito Leste Oeste, expressavam a mesma ambição de domínio. Porém nessa segunda opção, o capitalismo podia aparecer como “liberalismo”, contrariamente à ditatura sovieticista, conforme a posição de Aron que ignora totalmente a questão do monopolismo de cartel. Ou, pelo contrário, conforme a opção de Noan Chomski, como a mesmíssima coisa que o sovieticismo, ou seja, apenas a leste e oeste havendo os dois “gigantescos sistemas de massacre e destruição potenciais”. (in Ricardo, Adhemar, Flavio, Belo Horizonte /MG, ed. Lê, 1989, p. 195).
15 Após a morte de Stalin, na altura dos anos cinquenta, o XX congresso do PCUS revelou a extensão do totalitarismo interno da era stalinista, tendo havido domínio do partido sobre toda ciência e cultura, encarcerando-se para eliminação tanto artistas modernistas, que se opunham à diretriz do “realismo socialista” como os geneticistas que corretamente recusavam a perspectiva dialética. Porém pelo próprio fato do pós-stalinismo soviético estar revelando as antigas atrocidades , a União Soviética demonstrava estar superando o que podia ser visto como um mal necessário ou os percalços da infância, por um lado, e opção viável do “comunismo” por outro lado, em qualquer âmbito da luta anticapitalista. Agora a rubrica do anticapitalismo envolvia necessariamente as zonas de influência oriundas da descolonização, e o problema do controle capitalista sobre fontes de energia e matérias primas do terceiro mundo. O socialismo de um só país parece uma tese sumamente inadequada ao status de superpotência.
16 O curioso é que nem mesmo Aron considerava que a URSS queria de fato passar à ofensiva, não só no que poderia parecia óbvio, o plano nuclear, mas naquilo que poderia representar um verdadeiro avanço ao desequilíbrio do poder. É preciso salientar, conforme Aron registra, que o consenso da impossibilidade da vitória numa guerra nuclear não era total.
17 Conforme Aron, a impossibilidade de confronto nuclear devido ao potencial destrutivo ser toral era na verdade apenas o mito construído pelos inúmeros estudos norte-americanos a propósito. Pelo lado da União Soviética, ao contrário, as armas nucleares não eram diferentes das armas clássicas, apenas tinham maior poder destrutivo, podendo, sim, ser usadas mesmo que isso fosse desaconselhável. (op. cit. p. 258 e segs.)
18 Para Aron, a superioridade bélica nuclear dos soviéticos era tão dedutível como incontestável (p. 261). Torna-se complicado compreender Aron, porém. Por um lado pregando o perigo totalitário e a superioridade bélica soviética, não negando que as armas nucleares impediam uma “guerra no sentido convencional do termo”. (p. 315) Por outro lado, considerando não haver possibilidade de guerra declarada pela Russia, que a seu ver não queria a guerra: “o comunismo é um movimento histórico considerável. Ele se julga dono do futuro, não tem motivos para se atirar a aventuras militares perigosas”. E mesmo já em inícios da presidência Reagan, Aron nunca considerou a possibilidade da ofensiva norte-americana que se seguiu, de Reagan a Bush. Na consideração aroniana, os Estados Unidos estavam decididamente na defensiva.
19 Um aspecto do discurso eurocêntrico na imanência do conflito Leste Oeste, como se pode constatar em Aron, era a atribuição à União Soviética desse verdadeiro poder bélico superior ao ocidental. Não suscitava interpretação unívoca, certamente. Isaac Deutscher, citado em edição de 1969, a contestava com paixão, observando de modo justo que inversamente á opinião consolidada logo após 1945, não eram dois “colossos” o que resultaram em termos de potências bélicas vitoriosas, visto que na Segunda Guerra a Russia havia sofrido perdas humanas muito superiores a qualquer nação ocidental, e, assim, os Estados Unidos é que tinham inicialmente a superioridade bélica.
20 Os números de Deutscher são exagerados relativamente a outros referenciais que coligi, numa proporção de 20 milhões para 14 milhões de mortos. De fato, mesmo tendo sido importantíssima a partticipação americana na guerra, foi Stalin quem acabou com Hitler. O ônus de perdas humanas soviética é impressionante, contra um limite de quatro milhões na Alemanha, que com a Polõnia foi a que mais sofreu excetuando a Russia, nessa atribuição ulterior aos números de Deutscher. Os Estados Unidos foram o que menos perdas tiveram, nessa atribuição apenas 300 mil. A China e o Japão sofreram perdas superiores a qualquer nação europeia, na ordem de um milhão e duzentos mil. Na Europa, os números são 530 mil na França, 400 mil na Itália, o mesmo na Inglaterra.
21 Porém Deutscher considera que o lado ocidental vinha atribuindo superioridade tecnológica aos USA, o que é evidente juízo sobre a capacidade bélica nuclear, mas na verdade desde o lançamento do Sputinik russo ficara comprovada a falácia da superioridade americana. Porém era isso mesmo o que assustava, ao ver de Aron. A possibilidade de um novo totalitarismo imposto ao mundo. Não obstante, o que se efetivava assim era o limite “comunista” de toda opção à esquerda do capitalismo. Mesmo o trotskismo havia sido potencializado pela opção nova apresentada por Mao na China.
22 Isaac Deutscher informou com efeito que desde 1953 já houvera previsões de um pós-stalinismo que seria também superação do “monopolitismo” comunista, mas que isso não havia sido acreditado. Porém na decorrência da cisão sino-soviética desde a revolução maoísta, o que estava ocorrendo segundo ele era a aproximação do ocidente à União Soviética vista agora como o oposto ocidental da exótica China.
23 Na altura dos anos setenta, Aron considerava essa opinião de proximidade algo criticamente. Ele convinha que havia se estabelecido uma certa normalidade de relações comerciais entre o Ocidente e a URSS, sendo citada a França, e que muitos viam esse caminho como um meio de domesticar o comunismo, ocidentalizando-o. Mas a seu ver a URSS era essencialmente uma doutrina anti-capitalista, nesse sentido anti-ocidental, e isso não mudaria apenas devido à vantagem do Leste europeu com os bilhões de dólares em empréstimos como ocorreu na Polônia. Sendo a URSS o que ela era, seria improvável qualquer paz verdadeira, ainda que a guerra fosse impossível, o que resultava a seu ver num paradoxo histórico apto porém a definir o presente do conflito leste oeste(op. cit. p. 314)
24 Hoje sabemos que a proximidade do capitalismo ocidental orientou-se à China desde Nixon, o que porém não mudou o regime chinês. Porém permanece a questão sobre o que mudou o regime soviético. Aron criticava o totalitalismo soviético justamente atacando o domínio do partido oficial sobre os sindicatos e movimentos do operariado. Mas se, desse modo, ele antevê algo da força oposicionista efetiva, que se expressou logo depois na emergência do sindicato Solidariedade justamente na Polônia, não antecipa o argumento contrário, de que poderia, sim, mudar o regime.
25 O artigo intitulado “Com os operários da Polônia”, assinado pelo membro do Partido Comunista Colombiano, Raul Valbuena, junto a G. Kwiatowski e outros colaboradores da Revista Internacional, registra as atividades, entre os demais na resistência polonesa ao Solidariedade, do jornal “Trybuna rabotnicza”.
26 Um militante deste jornal confidenciou aos articulistas que sua publicação estava sendo exitosa em manter a assiduidade dos leitores: “... para grande raiva de L. Walesa, que se encontrava então em Katowice, o jornal seguia aparecendo inclusive nos chamados 'dias sem imprensa' convocados pela cúpula do 'Solidariedade'“ (Revista propbleas, op. cit, ps. 129 e segs.) O militante considerou que o motivo do êxito estava em que, por um viés correto da temática, estavam expressando o que interessava ao momento. A saber, denunciando os mitos consumistas, anti-sociais e ocidentalistas que o Solidariedade estava usando como propaganda, para vender a ideia de que a Polonia poderia vir a ser brevemente um novo Japão, ao tornar -se atrativa para a ajuda ocidental.
27 É importante considerar esses testemunhos do comunismo sovieticista polonês. Como vemos, eles não acreditavam numa alternativa ao sovieticismo que fosse ao mesmo tempo comunista, o que é algo parecido com o argumento de Aron, porém destoando dele na medida que considerava a distensão uma proposta de mudança do regime. Há de fato várias alusões críticas, em artigos de “Problemas”, ao que havia resultado na rubrica do “eurocomunismo”. Uma opção pelo operariado porém não sovieticista, que em História costuma ser exemplificada pelo Solidariedade.
28 Protagonizando a dessovietização, o regime polonês realmente mudou devido ao Solidariedade, sendo o primeiro país do Leste europeu a ter a maioria do governo não-comunista, e Walesa foi eleito presidente na segunda eleição livre. Porém para Vicentino, algo contraditoriamente, o prestígio nacional e internacional do Solidariedade “acirrava as dificuldades nas relações leste-oeste”. (“História Geral”, op, cit, p. 417)
29 Após 1945, a articulação imperialista dos Estados Unidos, como superpotência rivalizada pela União Soviética, passou a operar no terceiro mundo, pretextando o objetivo de ampliar sua zona de influência, e neutralizar a expansão do comunismo soviético em países que emergiam da descolonização. A arma do anticomunismo tornou-se utilizada, como vimos, para na verdade obter domínio imperialista do capitalismo central sobre as nações emergentes do antigo pacto colonial, impedindo assim a verdadeira libertação.
30 Franz Fanon testemunhou o aliciamento africano do imperialismo, mesmo após as libertações nacionais. Já reportamos suas considerações sobre o dependentismo econômico. Também reconstituiu ele um verdadeiro esquema: o líder do partido burguês em prol da libertação no passado, cauciona agora a empresa da “casta” consolidada pelos interesses da potências imperialistas que assinaram a paz mas apenas para melhor dominar a economia depois da guerra. Assim o paradoxo da casta que porém ocupa a posição estrutural da burguesia, e do líder que “é tão mais necessário quando já não há o partido”, desagregado pelo novo estado de coisas: “não subsistem senão o partido formal, o nome, o emblema e a divisa”. (in “Subdesenvolvimento e desenvolvimento”, op. cit. p. 123)
31 Como vemos, o conflito Leste Oeste só se consolida pela inserção do componente da descolonização que é porém a gênese do conflito Norte Sul. O importante à perspectiva que se cingia ainda à beligerância Leste Oeste, é a questão da substância da acusação norte-americana, da expansão comunista no terceiro mundo. Se ela evidentemente não se coaduna com a opção stalinista contra a revolução permanente trotskista, mas se a própria configuração bipolar da geopolítica pós-stalinista importava na substância da acusação, não há só por isso a prova do - assim atribuído - crime.
32 Por outro lado, o que a História registra é que ele foi, sim, perpetrado, porém pela “globalização” capitalista, ocorrendo paralelamente à dessovietização. Assim o pivô do expansionismo pode por si só definir tanto a beligerância leste oeste, como a gênese do conflito norte sul. Torna-se interessante observar o modo como desenvolveu-se o que poderíamos assim definir como a política da acusação, de um modo interessado em tudo o que poderia deslindar o mistério da convergência dessa política ao resultado imprevisto de um mundo dessovietizado.
c) Os enigmas do expansionismo
1 Na verdade, como vimos a história local testemunha que a opção do comunismo de um só país não foi sempre seguida pela União Soviética, mas após 1945, repetindo, o conflito leste oeste determinava-se como a mudança da composição mesma do problema. Pois definia-se grosso modo justamente como o enfrentamento das duas potências, capitalista estadunidense a Oeste e comunista soviética a Leste, pela influência mundial. Mesmo assim na América Latina não se pode considerar que houve um levante sovieticista. Antes de 1945, já vimos que o Komintern de Moscou, em plena era stalinista do socialismo de um só país, entretanto apoiou com agentes e patrocínio, a Intentona Comunista local - como se designa o “putsch” do Partido Comunista Brasileiro liderado por Prestes, em 1935.
2 Acima vimos que a malograda “intentona” foi deflagrada como única alternativa em prol da manutenção da Aliança Nacional Libertadora, agremiação dos políticos independentes, devido à ditadura varguista que suspendeu a legalidade partidária. O Komintern é até mesmo definido em Vicentino-Dorigo como instituição projetada em Moscou “para coordenar e patrocinar movimentos revolucionários e anticolonialistas” em todo o mundo. (op. cit. 361). Constatamos acima que a Intentona não obteve o necessário apoio das massas, resultando apenas num recrudescimento do aparelho repressivo do fascista Estado Novo varguista que atuava o DIP (departamento de imprensa e propaganda, com atribuição de censura federal), e o DASP, (departamento administrativo do serviço público) que seria um modo de dominar os funcionários públicos a partir de um aparelho burocrático dirigista da economia.
3 Aqui é importante lembrar que a repressão varguista aos comunistas fez o mesmo que os ditadores militares de 1964. Prestes foi preso, mas sobreviveu a dez anos de “solitária”, ao contrário dos vitimados por tortura, morrendo Victor Baron, tendo enlouquecido Arthur Ewert. Além da conhecida saga de Olga, mulher de Prestes, agente soviética que Vargas entregou aos nazistas, a qual morreu no campo de concentração de Ravensbrück.
4 Em plenos anos oitenta, em seu artigo do número já citado de “Problemas”(“Notas para um debate sobre a organização”), Salomão Malina deplora a defecção de Prestes pelo Partido Comunista. Considerada por Molina a defecção como nada além de motivo de perplexidade na compreensão histórica dos integrantes, se não o que poderiam aproveitar os críticos do comunismo.
5 Porém ele não registra que durante os anos oitenta estava havendo um grande interesse pela figura de Olga, mulher de Prestes. Como se sabe, não obstante Vargas tê-la entregue aos nazistas para ser assassinada, após a ditadura Prestes não recusou abraçar-se com Vargas nos palanques, almejando obter cargos eleitorais. Vimos também que na década de setenta o teórico leninista Sodré ainda pensava em Vargas como representante legítimo da sua tão pretendida “revolução brasileira” burguesa .
6 Vicentino-Dorigo registram a opinião de Sergio Pinheiro a propósito das relações Prestes/Moscou: “As informações enviadas a Moscou pelos partidos comunistas eram recicladas a um alto grau de generalização e devolvidas nos próprios partidos sob a forma de diretrizes. Mas a realidade constituída nessas avaliações muitas vezes somente existia na cabeça dos comunistas”, e, quanto ao caso de Prestes, as informações provavelmente enviada por ele a Moscou apenas “reproduziam os mesmos esquemas interpretativos da II internacional comunista. O centro do movimento comunista mundial se ensusiasmava com uma versão de segunda mão de suas próprias concepções”. Mas quanto à terceira internacional, a seu ver restringia-se a “um discurso que analisa a conjuntura política sob a perspectiva do desejo de que venham ocorrer condições favoráveis à revolução”. (op. cit. p. 361)
7 Ora, assim vemos que a subsunção total das questões históricas nacionais ao esquema “comunista” eurocêntrico já estava criticada nos anos noventa, mas o que ocorria na conjuntura da descolonização é um paradoxo.
8 Por um lado, não se tem ainda indícios de um ultrapassamento histórico do eurocentrismo, não se seguindo qualquer ruptura profunda, assim nem mesmo as opções teóricas humanistas do marxismo, como de Lukács ou Gramsci, foram aprovadas pelos soviéticos pós-stalinistas. Por outro lado, Claude Julien e Daniel Ellsberg se confirmam mutuamente a propósito da independência da questão nacionalista ao Sul. Julien salienta que Fidel não fez a princípio uma revolução comunista, mas sim nacionalista, e que a intransigência posterior dos Estados Unidos é que precipitaram a opção cubana comunista, e vimos que Ellsberg publicou papeis que apuravam a intenção principal nacionalista na questão do Vietnã.
9 Não obstante o envolvimento nas guerras de descolonização afro-asiática ter se tornado trilateral, com disputa de influência pelos Estados Unidos, China e União Soviética, a propaganda imperialista do “anticomunismo” neonazista organizado pelo imperialismo ocidental, não tinha um discurso ostensivo local contra o comunismo chinês, não obstante ter sido o maoísmo e não o sovieticismo a influência conspícua ligada à esquerda na época do Maio de 68 na França. Sobre isso, “La Chinoise” de Godard é filme excelente, se bem que algo excessivamente sarcástico relativamente ao impulso do movimento, tratado por ele como pueril, que em geral porém foi exitoso, se não atingindo o nível revolucionário, realmente mudando a ordem na educação e em vários ramos da sociedade. Em todo caso, o alvo das acusações imperialistas ao expansionismo comunista, como pretexto para intervenções no terceiro mundo, eram Moscou e Cuba.
10 O cubano Raúl Vivo , informou a propósito: “A revolução cubana, não importada de nenhum lugar, oposta, ao contrário, por princípio, à exportação de revoluções - é e será partidária de que cada povo do nosso continente, cada povo do mundo, possa decidir livremente seu destino. Esta é a ideia central ... que une a União Soviética e a comunidade socialista ao movimento de libertação nacional e a todos que lutam pela paz no mundo”. (p. 227).
11 Mas a liberdade quanto ao destino se coaduna com a omissão da defesa? Como podemos aquilatar. A União Soviética já não traía os movimentos revolucionários dos outros países, ao contrário do que fizera em Xangai, mas a ofensiva norte-americana sobre a América Latina e terceiro mundo não contou com meios de defesa soviéticos. E às intervenções imperialistas de caráter secreto típicas, entre as décadas de cinquenta e setenta, somaram-se as intervenções bélicas dos anos oitenta.
12 Hoje, que Estados Unidos e Cuba já não se confrontam como inimigos, vemos porém pelos registros de Vivo a propósito da escalada da violência do imperialismo que continuava em curso na América Central dos anos oitenta, que este saneamento das relações destes dois países não era um resultado então antecipável.
13 Granada havia caído pela ofensiva norte-americana. Reagan reativava, pelo que os comunistas designam o “Documento de Santa Fé”, que lhe atribuía Vivo como “essa espécie de Mein Kampf do partido republicano”, a ofensiva anti-comunista na América hispânica, porém agora na forma de guerra aberta. Assim preocupava-se Vivo em ressaltar, contra a propaganda corrente: “O imperialismo pretende condenar à morte a Nicarágua de Sandino, não por ser uma nova Cuba, mas - como disse Fidel Castro - por ser uma nova Nicarágua”. Isto é, sem as deformações espantosas da pobreza e opressão estruturais características dos países dominados pelo imperialismo.
14 O colonialismo continuava em Porto Rico, e a guerra imperialista contra o nacionalismo prosseguia na Nicarágua e El Salvador, Oriente Médio e Turquia, além da tomada militar de Granada, na ofensiva Reagan contra o “comunismo” durante os anos oitenta. A esse recenseamento de Raul Vivo, podemos acrescentar o incremento dos dois presidentes Bush, pai e filho, na ofensiva imperialista que nem mesmo visou diretamente a questão comunista, mas as questões internas ao Oriente Médio, devido ao interesse na questão petrolífera.
15 Algo que não tem o mesmo sentido da atual guerra na Síria, em que Estados Unidos de Trump e a Russia de Putin voltaram a se enfrentar, por estar havendo um levante contra o governo, os dois países apoiando cada um dos lados do conflito. Mesmo que, pelo que pude averiguar, as agências de notícias negam qualquer relação do governo com o regime comunista, a tensão conserva fatores remanescentes do conflito leste/oeste que foram expressos na época de Obama pelas antipatias dos USA à Coreia por ocasião de um filme que estigmatizava o presidente deste país. E continua havendo tensão entre o ocidente e a Coreia do Norte. Assim torna-se bastante inexplicável a asserção de Hobsbaum, de que “na década de 1980”, a confrontação bipolar já “tinha tão pouca relevância para a política internacional quanto as cruzadas”. (Cf, Vicentino, História Geral, p. 371)
16 A apuração da verdadeira penetração da URSS nos partidos comunistas que foram atuantes em movimentos de libertação nacional ou por emancipação econômica no terceiro mundo, independente do pretexto da repressão ociental ao “anticomunismo,” resta por ser feita em estudos bem informados e especialmente voltados, Mas certamente os articulistas de “Problemas” não testemunham nada nesse sentido, nem abrangem o assunto da ajuda para defesa nacional. Tampouco há qualquer menção à KGB, a polícia secreta soviética, entre os membros dos partidos comunistas que colaboraram na redação de “Problemas”.
17 Assim podemos considerar que na prática, o expansionismo que havia era bem americano. Enquanto os Estados Unidos batalhavam por tornar a ideologia da consumação atraente, revesti-la de aparência saudável e natural, em todo o mundo cristalizava-se entre os comunistas uma atitude de indiscutível superioridade da URSS como o mesmo que revolução científica, cuja verdade era saber como privilégio de iniciados, os que compreendiam a existência dela como corolário de um determinismo científico da história, porém sendo também o destino manifesto de cada ser humano na terra. URSS e USA pretenderam estar significando a evolução psicossocial tecnológica ocidental, porém os Estados Unidos a enunciavam ao alcance de todos como sociedade de consumação, enquanto a URSS exigia um ascetismo quase-religioso das massas e submissão à elite do partido.
18 Enquanto o capital-imperialismo entrava na guerra fria, paz armada, guerra psicológica, etc., contra a URSS, os Estados Unidos eram os protagonistas do belicismo agressivo, mas os triunfos econômicos de cada nação do primeiro mundo que emergia da catástrofe após 1945 fazia com que cada uma delas erguesse a cabeça e proclamasse a sua autonomia e sua independência, cultural e histórica, inclusive cultivando seu próprio lote de críticos contra o “império” belicista norte-americano. Mas se movimentos comunistas não fossem exitosos, o risco era por conta deles, e se fossem, estando além da cortina de ferro, eles apenas cumpriam o destino enunciado pela mera existência da URSS. Como terceiro mundo “atrasado”, não tinham história própria além das circunstâncias em que vinha engastá-la, como a entrada na razão, o partido comunista.
19 Mas podemos observar que além das circunstâncias favoráveis a quaisquer forças de organização das massas depauperadas, em seu ímpeto conjunto por melhoria de vida típico do pós-guerras, há contradições notáveis no discurso dos comunistas, os de “Problemas” e os outros, com relação à sua participação social.
20 Anseios pela melhoria social não são restritos a pessoas carentes, mas é uma questão de bom senso que a carência de grupos afeta toda a sociedade e impede que se possa caracterizar o estado de liberdade decorrente da prosperidade, mesmo que esta seja atribuível a grupos coexistentes àqueles. Uma vez que a carência, além de abuso de direitos humanos, é contaminação de saúde ambiente, de mentalidade na convivência pública, da segurança, etc.
21 O saneamento dos problemas sociais, até o ponto em que se mostra exequível, uma vez que conflitos de pessoas sempre existem, é uma meta desejada por todas as nacionalidades, mas assim também, aquilo que resulta daí, a saber, a liberdade de consciência, a pluralidade de convicções e costumes.
22 Mas assim, por um lado, pode-se afirmar que o comunismo em geral e o sovieticismo em particular, contribuíram para manter o objetivo da organização social contra a dominação predatória capitalista. É até uma questão de justiça histórica considerar que o comunismo, uma vez que nunca foi um único preceito mas como “teoria” abrigou a contribuição e a ramificação interdisciplinar de inúmeros pensadores, tem sido um fator de peso na conscientização das questões sociais, uma vez que as “ideologias” - como ele ensinou a dizer - milenares contribuem para torná-las insensíveis, mera questão de destino pessoal para uma raça humana que não tem opção alguma além da luta pela vida.
23 Porém o comunismo exibe uma ortodoxia intransigente contra as variantes e contra o que extrapola o seu contexto teórico. A ortodoxia desmerece considervelmente o objetivo da organização social, devido ao determinismo da base econômica, tornando-se discurso particularista, pelo qual não há uma sociedade composta legitimamente por todos aqueles a quem a nacionalidade é atribuída. Há apenas o operariado moderno-ocidental como sujeito do progresso histórico. Ao lado do proletariado há espaço unicamente para o vago termo “juventude”, que porém deve estar subordinável a ele. Esse particularismo é expresso porém sob a pretensão do comunismo ser “científico” - expressão muito repetida na soma dos artigos considerados de “Problemas” - não obstante na ciência social haver muito mais teorias que não se restringem ao “comunismo”. Não se trata de negar que seja científico, mas sim de que só ele o seja.
24 Porém a pretensão de ser a única teoria com autoridade sobre toda a ciência é um enunciado comunista mesmo após o stalinismo, e já convivendo com a crítica humanística de Lukács ao positivismo. A teoria única autoritária sobre toda produção científica e expressão privada de valores, pretendeu Althusser em Pour Marx, e no Seminário de Hyppolite sobre Hegel, para negar qualquer vínculo marxista com o hegelianismo, Althusser fala até mesmo na economia política como um continente que ao mesmo tempo Marx descobriu, porém estando já ocupado como vulgar colônia pelos intelectuais, devendo ser objetivo dos marxistas reconhecer e explorar este continente para o libertar de seus antigos ocupantes. [Nota 28 ]
25 Mas assim também procedeu Fredric Jameson já em pleno pós-modernismo, visando censurar os resultados recentes em ciências humanas, contrários a métodos homogeneizantes classificatórios, assim como contra toda predeterminação das nacionalidades por grandes relatos sócio progressistas. Jameson pretendeu o marxismo como teoria única em ciências humanas, para censurar essa via de reforço ao nacionalismo no terceiro mundo, assim como taxar de atrasada – agora significando não simplesmente pré-industrial, mas sem “split” público-privado - a sua mentalidade.
26 Assim consolidou-se na ambientação do eurocomunismo paralela à dessovietização, ao contrário do que se poderia deduzir, um dirigismo da consciência, que não podendo se provar nada além de opções teóricas discerníveis, contudo não capazes de provarem a refutação das demais, apenas se pretende detentora da verdade para seccionar a sociedade entre legítimos e ilegítimos integrantes. Na trajetória dessa consolidação há dois fatores importantes a considerar. Primeiro, como ela se relaciona com a própria dessovietização, ou o que esta significou na União Soviética. Mas também, como ela decorre na década de oitenta, num ambiente em que a redemocratização em vários países após as ditaduras militares capitalistas estava solicitando redefinições aos partidos comunistas nacionais.
27 Os testemunhos dos dirigentes comunistas que colaboraram em “Problemas” são eloquentes, na proximidade da redemocratização. Continuava-se a afirmar que a revolução é previsível como um fato científico da história ocidental e eurocentricamente determinada. O artigo de um destacado comunista, com muitos pontos louváveis na defesa da melhoria social, mostra contudo nitidamente a contradição quanto à temática da democracia.
28 O objetivo de obter a “hegemonia” da “classe proletária” no marco de amplas alianças e dirigida por um partido revolucionário forte”, definida a hegemonia como “força diretiva do povo nos planos políticos, ideológico e moral”, é expresso por Ernest Wimmer (“O anticomunismo teórico”) , membro do birô político do Comitê Central do partido comunista da Áustria. Registrando como o “anticomunismo” agia também na Europa, julga Wimmer contudo que não é antidemocrático defender que a democracia é legítima apenas como meio de impor o socialismo, e este sendo o oposto único a ser seriamente considerado como contrário ao ao ponto de vista do “capitalismo, de seus sócios e beneficiários”. (p.97)
29 A “via da democracia de massas como caminho para o socialisto”, é também a proposta de Salomão Malina, como suporte da campanha pela legalidade, então em trânsito por parte do PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Malina permite ver bem a contradição expressa na frase: “Segundo se depreende das proposições da nossa Alternativa, ela deve instaurar-se para construir e viabilizar a hegemonia política do proletariado num amplo bloco de forças democrático e nacional”. (op. cit. p. 72, 73)
30 A clivagem óbvia entre estatuto proletário e sociedade generalizada, dado que nem é uma questão de classificação econômica por ser a concepção pessoal variada mesmo entre pessoas com a mesma faixa de renda, não só é abstraída assim, mas decididamente explorada como se fosse o contrário.
31 O objetivo de Malina, sendo ao mesmo tempo que livrar-se da penetração recente do “eurocomunismo” não sovieticista nas fileiras do movimento operário, também extrapolar o “arco que solde exclusivamente a aliança operário-camponesa”, ele visa algo bastante incongruente, a meu ver. Ao mesmo tempo que o partido comunista já não esteja “aferrado à centralidade da classe operária no processo global da transformação econômica, social, política e cultural”, ainda que ela “desenvolva do ponto de vista do proletariado, soluções que contemplem aspirações de todas as classes e camadas antiimperialistas, antimonopolistas, e antilatifundiárias”. (o grifo é meu)
32 Como poderiam as soluções serem ao mesmo tempo democráticas, abrangentes da variedade de camadas sociais, mas não resultado de um consenso produzido pela negociação das partes interessadas, e sim predeterminado como a solução de uma só dentre elas, auto-designada o proletariado? Na atualidade o PCB tem vigência legal entre os demais partidos, porém como eles não foi coerente no episódio de comprovação da corrupção do pt, mantendo solidariedade, como os outros líderes da esquerda histórica, aos defraudadores da confiança pública - conforme posição expressa de Jandira Feghali, famosa líder comunista brasileira.
33 A posição injustificável da esquerda privou assim a população de referencial organizado na luta contra o banditismo que está roubando salários públicos para desvia-los aos bolsos dos banqueiros, com as pessoas se endividando e pagando juros escandalosos para meramente se alimentar e pagar contas de serviço básicos, muitas vezes superfaturadas fraudulentamente, impostos, condomínios ou aluguéis.
34 Além disso, não haveria nada pior do que sermos confundidos com pessoas que, como os Bolsonaro, partidários expressos do neonazismo racista local, declaravam estar a favor do impeachment como uma forma de homenagear aqueles que torturaram Dilma, sendo anunciado que ela foi encarcerada na época da ditadura por acusação de comunista participante da “luta armada”. O erro crasso das esquerdas convergentes ao “petismo” é facilmente definido, pois se não podem revesar lideranças corrompidas, já não tem como provar que existem factualmente além de mera fachada para a ambição aventureira de algum caudilho. Porém torna-se importante a posição dos comunistas nessa convergência, e à frente voltaremos a essa questão.
35 Pode ser que muitos, especialmente os formados por orientações modernistas que recusam examinar a efetividade pós-moderna avessa a qualquer ocidentalismo psicossocial evolutivo, se considere na posse da verdade, sem atenção para o fato de que suas soluções são relativas aos seus problemas, e nem todos os problemas são comuns à inteira nacionalidade. A meu ver, a concepção gramsciana de “hegemonia” é estranha à de sociedade plural e heterogênia, sobretudo incompatível com o objetivo da sociedade democrática. Considero pois que a democracia é o objetivo, não apenas meio de algo diferente. Se a “democracia” fosse apenas uma palavra necessariamente não a defenderíamos, obviamente, mas sim bem definida, “democracia” significando o regime da liberdade subjetiva, as garantias individuais sendo dever do Estado, porém o capitalismo definido Imperialismo e monopolismo de mercado, o contrário, a ditadura, assim como o monopolismo é contrário à livre empresa e isso já está prescrito por leis, de modo que se não ocorre na prática se deve denunciar ditadura imperialista imposta por canais informais, corruptos.
36 Se a noção gramsciana de hegemonia fosse útil para denunciar que uma democracia que se apregoa estar atuante, na verdade está corrompida, não é porém a essência da sociedade. Construir ou obter hegemonia não é objetivo politicamente válido, a meu ver, em todo caso não é coerente com o objetivo de manter uma democracia não corrompida.
37 Que o partido comunista pretenda seduzir corações e mentes, isso não é obviamente apenas objetivo dele, mas de praticamente todos os que operam com uma base discutível de obtenção hegemônica. Entretanto não seria razoável esperar que cada uma das ideologias em confronto fossem contempladas com o epíteto da única verdade da ciência ou que a subjetividade pudesse ser reduzida a “tipos” ou ideologias grupais. O comunismo se permite assim condensar um velho procedimento de círculo: para saber o que é proletário é preciso ser comunista, mas para ser comunista é necessário ser proletário - ou estar na faixa etária dos jovenzinhos, aliás duas condições que não se explicam porque seriam a priori conciliáveis.
38 Também seria oportuno lembrar que nem sempre proletário e camponês foram conciliados, e que a conciliação respondeu a situação do terceiro mundo. Na teoria original, o camponês é o atrasado, o comunista é o operário da indústria. Assim ocorria na URSS. Os “mujiques” camponeses russos foram reprimidos pela modernização ditatorial, por não quererem mudar seu modo de vida.
39 Em Lukács a definição da classe social é restrita à burguesia e proletariado, com crítica explícita às veleidades de camponeses e pequeno burgueses. Na posição mais recente de Jameson, que alijou os acréscimos oriundos do terceiro mundo, camponês voltou a ser “ex-cêntrico”, assim como a pequeno-burguesia, ou seja, não classe.
40 Quanto à questão da extinção da URSS, que ocorreu em princípios dos anos noventa originando-se assim a CEI (não comunista), pode ser que a existência de um “Vietnã da União Soviética”, como na era Reagan se designou o Afeganistão, devido à importância da resistência dos guerilheiros no interior em detrimento do que ocorria nas capitais, tenha sido um fator de peso na extinção do Pacto de Varsóvia que unia os integrantes da União Soviética à liderança Russa.
41 Os comunistas no governo afegão consumiram imensos recursos da ajuda soviética a fim de sustentarem a guerra contra as inúmeras facções nacionais que pretenderam a mudança do regime, afinal retirando-se em 1988, quando os Estados Unidos venceram pela ofensiva via Paquistão.
42 Porém os próprios Estados Unidos haviam fracassado no Vietnã, sem que isso representasse alteração substancial da sua situação geopolítica. Onde reside a irredutibilidade? Seja como for que se possa responder à pergunta, a dessovietização demarca o limite da era histórica definida pela beligerância leste oeste. Se o pivô expansionista se esgotava assim, nem só por isso decorria a definição do conflito norte sul. A interrogação deve pois prosseguir, agora na prospecção desse limite.
d) Reunificação alemã, eurocomunismo, Perestroika : o neogolpismo e o limite ocidentalista
1 Antes mesmo da dessovietização oficializada, provara-se ao mundo que havia mais oposição ao regime comunista no Leste europeu do que apenas a singularidade na Polônia. A Alemanha, que se encontrava dividida entre os regimes ocidental e comunista desde 1945, por injunção das potências vencedoras, protagonizou a demonstração do descontentamento do lado oriental, praticamente invadindo em massa a região ocidental quando celebrava-se o encontro simbólico anual dos dois governos. A queda do muro de Berlim, que separava as duas nações alemãs, ocorreu logo depois, demarcando o acontecimento histórico da reunificação alemã sob regime ocidental.
2 Geralmente há um consenso sobre que o grande problema da União Soviética foi econômico. Vemos que havia mais proeminente um problema político. Não se esclarece bem onde residiu o fracasso da superpotência quanto à economia. Não era antecipável pela geografia do conflito leste oeste, que ensinava o sistema soviético ao mesmo tempo como singular e próspero, com relevo especial para o belo planejamento dos kolkozes e solvkozes no campo e a grande extensão da indústria pesada.
3 Aron, inversamente, definia a situação econômica soviética tanto por uma dificuldade política, já considerando o descontentamento um problema dedutível do conflito afegão, como por uma fragilidade econômica, com nível de vida deficitário. (op. cit. p. 319) Porém a seu ver esses problemas não resultariam em qualquer mudança previsível a curto prazo, inversamente ao que ocorreu.
4 Entre as décadas de setenta e oitenta, portanto, constatamos que mudou a opinião internacional sobre a correlação de forças e ímpeto bélico. A princípio, mesmo havendo controvérsia, era comum atribuir-se superioridade da tecnologia armamentista à União Soviética, porém não se considerava haver iniciativa bélica factual por parte dela, logo, tampouco por parte dos inferiorizados norte-americanos. Na década de oitenta, vimos que os articulistas de “Problemas” consideravam inversamente, que os Estados Unidos haviam extrapolado os acordos internacionais e a iniciativa Reagan tendia ao enfrentamento.
5 Porém não se alterou o que tenho designado o “consenso do corporate state”, como a atribuição praticamente unívoca de que a Leste e Oeste havia se estabilizado um regime de cooptação social único e idêntico quanto aos propósitos de cooptação total do cidadão ao sistema, por via de integração empregatícia e sistema de assistência social, de modo que vedava-se pela própria funcionalidade cotidiana toda crítica ou alternativa ao modo de vida. [ Nota 30 ]
6 Essa era a maneira pelo qual a esquerda ocidental expressava sua rejeição da social-democracia e do Welfare State, que entretanto realmente estava eliminando muito das consequências nefastas da pobreza. Assim também expressavam-se as críticas ao que seria o totalitarismo burocrático a Leste, reduzido a um mesmo corporate state burocrático. O que se fazia por esse meio do “consenso do corporate state”, por vezes deisgnado “establishment”, a meu ver, era apenas um tampão que impedia assimilar como um dado sistêmico a violência do banditismo capitalístico no terceiro mundo, de modo nenhum ignorado pela intelectualidade do primeiro. O tampão funcionou também, como podemos hoje considerar, para qualquer conscientização quanto a iminentes mudanças do Leste europeu.
7 Além do que designei o “consenso do corporate state”, devemos reportar, como uma constante de época que desde o neoliberalismo econômico verifica-se equivocada, a convicção de que se adentrava uma realidade “pós-industrial”. Seria pois um novo momento em que a economia estaria centrada no terciário, o setor de serviços. Cano já o denegava, em inícios dos anos noventa. E de fato a globalização vem sendo conceituada como novo estágio da revolução industrial, que teria ultrapassado o “capitalismo financeiro” e atingido o status de um “capitalismo tecnológico”
8 Mas para efeitos de um atual juízo sobre os motivos da dessovietização, além de desvendar-se esse mistério da súbita insolvência, porém, não restaria à História nada além de se ocupar com o difícil problema psicológico de porque as massas do Leste europeu e na China mostraram-se repentinamente tão loucas para atulhar as lojas Macdonald's e beber Coca-Cola, a ponto de num piscar de olhos abandonarem toda a acalentada ciência anti-ideológica apenas porque essas duas coisas estavam ali ao alcance, como de fato ocorreu.
9 Pessoalmente não logro identificar em que reside o segredo atrativo de tão prosaicos sanduíches, porém o Macdonalds ilustra hoje em dia as páginas dos manuais de história, que devem mostrar de fato aos alunos secundaristas como os russos inundaram as suas lojas, em que se concentravam agora tão passionalmente as multidões, desde que se permitiu que elas fossem instaladas.
10 A meu ver, o que Aron tangenciou como a necessidade unilateralmente declarada pela Europa, do controle das matérias-primas e fontes energéticas desde o golfo pérsico ao inteiro terceiro mundo, deveria ser mais enfatizado nessa transformação. Uma vez que a União Soviética não acompanhou o açambarcamento total dessas fontes e matérias na América Latina e demais regiões do terceiro mundo, que ficaram assim sob hegemonia capitalista.
11 Podemos por esse viés compreender o que pareceria a princípio a incongruência de Aron, ao mesmo tempo asseverando que além de um contingente relativamente pequeno de franceses lá residentes, a Argélia não era economicamente importante para a França, mas por outro lado insistindo na aboluta necessidade europeia da posse das fontes energéticas do mundo.
12 Quero crer que há aí mais do que apenas um excesso ideológico, o secular desprezo pelo não-ocidental, sobre a razão de coisas da economia. Encontramos o limite que impedia o conceito histórico de um conflito norte sul. A razão de coisas não se desdobra na apreensão do que ela é, de fato a questão geopolítica que definia a problemática do tempo.
13 Se fosse apenas algo “superestrutural” como a ideologia, não se entenderia bem a singularidade da posição aroniana na direita, uma vez que quanto a esta projetara-se em peso contra a Frente de Libertação Nacional argelina. Por que Aron posicionava-se a favor da libertação, se não queria, por outro lado, ir ao ponto de solidarizar-se com o manifesto dos intelectuais de esquerda que na época incitavam os soldados franceses à deserção? A meu ver, a resposta é que ele tinha plena consciência dos fatos, da irredutibilidade do conflito norte sul e iminência de sua expressão manifesta, porém não queria romper com o princípio eurocêntrico determinístico do sentido da história como da civilização.
14 Aron não desmente o conhecimento da tortura utilizada pelo império colonial contra os militantes argelinos pró-libertação, nem deixa de considerar que realmente havia muitos franceses a defender na Argélia, nem por um momento solidarizando-se humanamente com o terceiro mundo. Lembrou-me “o estrangeiro” de Camus, que não sei porque designam libelo contra a pena de morte, sendo porém a estória do estupro de uma jovem árabe argelina, por um marginal amigo do personagem narrador, que colabora com a armadilha de atração da argelina, depois assassina o irmão dela, ficando porém muito espantado porque o tribunal o condena por homicídio, o grosso do conto sendo as cogitações da perplexidade do assassino sobre o que considera incompreensível condenação, uma vez que para ele nem por um momento a argelina chega a ser referenciada como pessoa humana, senão como nada além de “boneca mecânica”, nem mesmo havendo menção ao irmão assassinado. Similarmente Aron chega até mesmo a declarar que sendo judeu, preferia ter que conversar com um anti-semita europeu do que com um judeu do Sul do Marrocos. O limite neurótico da mentalidade segregacionista europeia, encontra-se pois naquilo que posiciona o judeu do Sul: com ele o judeu do Norte aroniano não teria “em comum nem a língua, nem a experiência, nem a crença”. (p.283, 4)
15 Que as relações geopolíticas encontravam-se longamente estabelecidas de modo que a história econômica da França está intrinsecamente integrada à do Marrocos, e que por geopolítica o que entendemos são precisamente relações entre proveniências nacionais irredutíveis, não penetra na mentalidade eurocentrada. Para ela os habitantes do terceiro mundo não são apenas um conjunto de estrangeiros. Aron considerava que a descolonização extrapolava o conflito leste oeste, mas por isso mesmo não configurava uma razão de coisas de per se, a qual só tinha um sentido, o do conflito leste oeste que concentava um motivo subjacente definível como a oposição ideológica entre capitalismo e comunismo. (p. 329)
16 Porém quanto à questão política propriamente, é algo irônico que na trajetória que examinamos, do eurocomunismo a uma nova ortodoxia das esquerdas contra o nacionalismo do terceiro mundo, tenham sido os partidos comunistas que mal ou bem tomaram ao seu encargo a defesa das democracias nacionais.
16’ Ao contrário, ulteriormente às novas ortodoxias como a de Althusser e Jameson, até posições de esquerda que tencionavam extrapolar o limite comunista, estava havendo um anti-estatismo conspícuo, como o de Habermas e Foucault, que já não acreditava na democracia por reduzi-la a opção de Estado, tendendo assim a um eticismo da “vida” expressamente conceituada como contrária à instituição política. Nessa deriva, fez-se coro ao neoliberalismo econômico que reservava ao Estado papel de mero ofice boy do capitalismo.
17 A recusa era aprofundar as melhorias sociais do Welfare State, ao que parece porque não havia sido iniciativa de dirigentes esquerdistas. É fato que assim como o direitista Aron, que ao menos argumentava explicitamente em prol da desestatização das grandes empresas, as esquerdas foram todas contra a social-democracia como alguma inflação do estatismo. Aron quanto a isso é exemplar. Por um lado, não havia ainda visibilidade para qualquer alternativa. Ele defendia a França de qualquer pecha de “atraso” relativamente à social-democracia da Suécia, de fato a capital da social-democracia deste mundo. Porém defendendo ao mesmo tempo Aron o que designava mais liberalismo à empresa privada, uma política positivamente desestatizante.
18 Na União Soviética entretanto, o que se pode constatar é que estava havendo uma radicalização relativamente à opção democrática dos partidos comunistas nacionais. A mudança do regime econômico no interior do mundo comunista já havia ocorrido na China. Na transição aos anos oitenta, o governo pós-maoísta de Den Xiaoping, um antigo oponente do maoísmo, alterou substancialmente a doutrina interna, eliminando a mulher de Mao, até permitir um tipo de capitalismo econômico sem alterar o comunismo como regime político. A conservação do regime foi traumática quando se levantaram movimentos em prol da democracia, violentamente reprimidos na Praça da Paz. Seria preciso enfatizar que a confusão de democracia, que é um regime político, e capitalismo, que é apenas prática econômica contrária à livre empresa, foi a obra do socialismo “dialético” oitoscentista, incorporada depois por uma direita que se aproveitou desse absurdo como propaganda capitalística. Mas seria esperável que na decorrência de evidente nexo de capitalismo e ditadura de mercado ou mesmo política como na América Latina, tal discurso já não tivesse muito crédito. Na Russia as mudanças não foram porém como na China, mas inversamente, anunciaram-se relativamente ao regime político. Gorbatchev pronuncia-se desse modo em seu livro intitulado “Outubro e a Perestroika, a revolução continua”.(cf. Ricardo, Adhemar e Flávio, op. cit. p. 207)
19 Conforme algumas fontes, o pós-stalinismo anunciara a superação da ditadura do proletariado que teria caracterizado o período de Stalin, pela assunção de que já se havia agora atingido o “comunismo” pleno da sociedade sem classes, verdadeiro objetivo. Assim devemos considerar o pronunciamento de Gorbatchev como o terceiro momento do Estado Soviético.
20 Gorbatchev esclarece a perestroika como reestruturação do sistema político e econômico soviético. Ele a define como opção comunista pela democracia, que seria ao mesmo tempo o desenvolvimento do leninismo e a interpretação humanista dos conceitos revolucionários. Ao conservar o ponto de vista dos trabalhadores, devia-se porém reestruturar a causa tecno-científica do proletariado como mais amplamente a do homem e da cultura.
21 Ao que parece, a democracia tornava-se na concepção de Gorbatchev, mais que um meio, como ainda para os articulistas de “Problemas”, a solução do socialismo na plenitude. Se houve porém a expectativa de que o regime comunista se manteria na imanência pluripartidária como preferência da população, não foi o que ocorreu a seguir.
22 O pluripartidarismo democrático de Gorbatchev resultou na solvência da direção partidária comunista na URSS, do que se seguiu a dessovietização e criação da CEI. A CEI mantem agregados os Estados satélites da antiga União Soviética, porém em regime não-comunista.
23 Ora, na atualidade, como vimos antes, a beligerância de Estados Unidos e Coreia do Norte expressa algo inteiramente anômalo ao consenso da superação total do comunismo do Leste europeu com a criação da CEI.
24 Torna-se importante a referência ao incidente do golpe de Estado que se seguiu às propostas reformistas de Gorbatchev na Russia. O golpe foi protagonizado pelo que se pode designar a “linha dura” do partido comunista soviético, que tentava por esse meio impedir a democratização do regime. Porém o golpe não representou nada além de tentativa fracassada, aparentemente sem relevância a partir daí. Agora que se repete a intervenção russa no conflito interno de um país por envolver ofensiva contra o governo, já não parece tão certo que a história devesse abstrair, pelo prosseguimento regular do governo Gorbatchev na época da perestroika, o remanescente de uma linha dura sovieticista mesmo no interior da CEI, com evidente influência internacional. Paralelamente ao que tem sido explícito como a ofensiva nazista sobre os partidos políticos europeus desde os anos noventa.
25 E nessa altura, torna-se oportuno retornar à questão pendente da atual situação brasileira. A convergência do partido comunista com as principais lideranças do “petismo” condenadas por corrupção, expressou-se por uma truculência contra o “povo”, que vem se intensificando enquanto vai se revelando a estratégia petista na proximidade das eleições de 2018. O primeiro argumento contra os processos fôra espantosamente de que “todo governo rouba”, enquanto o povo era acusado de “traição” por ter havido manifestações em prol do impeachment, não obstante uma fidelidade eleitoral por quatrom mandatos consecutivos. Mas na atualidade, ao inverso, trata-se de protestar inocência, acusando o tribunal de ter forjado as provas. O “povo” não está sendo inocentado, pelo contrário. Atribui-se a ele agora culpa por ter apoiado o tribuna encarregado do processo de corrupção de Lula.
26 Mas isso apenas para reforçar uma ação que consiste no afunilamento de todas as tendências e opções partidárias à dicotomia pró ou contra o “petismo”, sendo os contra indiscriminadamente acusados de “direitistas”. Assim o “povo” são os outros, não os clientes peleguistas ou os currais eleitorais paternalizados pelo populismo.
27 Uma vez que o impeachment não cassou os direitos políticos de Dilma, e que o curral eleitoral engrossa no interior do país, contra a consciência esclarecida das capitais, é possível que apenas esteja ocorrendo um golpe no sentido de reeleição após o segundo mandato de Dilma, que por sua vez já era o quarto mandato consecutivo do “pt”, devido aos dois governos Lula.
28 Em todo caso, não há dúvida de que o discurso do comunismo atual, na convergência ao “petismo” é espantosamente de retrocesso em relação à posição democrática dos anos oitenta, que constatamos professada por todos os articulistas de “Problemas”. Tipifica-se a posição atual como desrespeito flagrante ao povo e ao pluripartidarismo. Estaria o Brasil na rota de uma linha dura do sovieticismo, por outro lado se expressando na posição belicista de Putnin?
29 A política econômica do “petismo”, não obstante a tradição e a retórica do operariado esquerdista, mostrou-se alinhada, como vimos, ao capitalismo, principalmente o nacional, mas num âmbito de investimentos pessoais das lideranças também à multinacional espanhola “Oi”, de quem Lula é associado – firma da qual a defasagem ilegalista do antendimento posso testemunhar pessoalmente, só menor que o da espanhola Claro. Há algumas semanas, houve a denúncia de que Aécio Neves, tendo sido o oponente de Dilma na eleição de 2014, quase havendo empate técnico, associou-se por ação corrupta ao capital ligado ao petismo, na “friboi”. A identidade Lula- “friboi” liga-se, pois, agora também a Aécio.
30 Possivelmente configura-se uma convergência de interesses internacional e nacionais que já não se oporiam a um golpe da linha dura esquerdista desde que ao mesmo tempo possuindo controle sobre os sindicatos peleguistas que organizaram nesses quinze anos passados de governo, e capazes de obter uma frente ampla de políticos associados, garantissem a negação das reformas que vem sendo exigidas pela população.
31 Já uma posição realmente de direita nas eleições, poderia estar representando o que viemos configurando como opção do capital multinacional contrária a qualquer composição como o nacioanal. Estando porém a direita ostensivamente prejudicada no potencial de voto, por comprometimento com a ofensiva radical de medidas anti-populares que demarcaram tradicionalmente a retórica oligárquica e concretamente as opções tomadas após o impeachment.
32 Além de ser absurdo atribuir-nos posição de direita alinhada aos interesses do capital multinacional que temos, inversamente, denunciado sem cessar pelos descalabros ao nível de escravismo a que no entanto o pt no planalto nunca se opôs e que pelo contrário articulou na forma de concessões de todo tipo, pode-se devolver a acusação de “traição” feita ao povo pelos comunistas de Feghali.
33 O pt é que traiu o povo, não só por não ter feito reformas básicas e urgentes nos praticamente quinze anos passados de governo, durante os quais articulou legalmente o modus operandi brutal das multinacionais, mas também porque, não obstante o povo garantir o quarto mandato em 2014, recuou a uma posição francamente elitista, desprezando as promessas que havia feito aos manifestantes do ano anterior, que deixara porém ser espancados nas ruas, de modo escandaloso, como foi amplamente noticiado.
34 Na educação, não apenas tendo permitido as contínuas defasagens de verbas, enquanto apoiava obras elitisas como a “transcarioca”, mas também atuando repressão institucional flagrante contra a consciência docente, que objetivou dominar por meio de manipulação de cargos e favorecimento de curriculuns, de modo a limitar opções no sentido do populismo de um esquerdismo já há muito contestado na pós-modernidade.
35 Houve retrocesso e alijamento das conquistas que já haviam sido feitas, por um limite imposto do cartilhismo mais simplista, ao nível do boçal, acoplado a inúmeros meios de avassalamento da privacidade e barbárie segregacionista facultada às claras aos oriundos de peleguismos piegas, a quem do mesmo modo se facultou e incentivou todo tipo de ilegalismo arbitrário, cujo corolário direto foi o incremento da prostituição e a defasagem na segurança pública.
36 Assim também não seria incompreensível que um tipo de “esquerda” norte-americana e eurocêntrica, com intensa colaboração de artistas famosos da mídia e do partido democrata, tipo que vimos como retrocesso ortodoxo contra a heterogeneidade do terceiro mundo expressa nos conhecimentos recentes de humanities, estivesse colaborando com o estado de coisas de um domínio partidário já somado de décadas. Pois ele vem atuando com brutalidade suficiente para servir de tampão contra a consciência da pós-modernidade. Não houve nada que excedesse o estatuto de alvo da violência retórica desses anti-pós-modernistas como Eagleton e Jameson, que a asserção de política necessária nacionalista do terceiro mundo. Eagleton defendia, contra a própria teoria política inglesa que já sabia desde James Mill o limite da compostura inglesa - o mesmo homem que na Inglaterra é o gentleman, revela-se o déspota brutal na colônia (cf. Friedrich. C. Introdução à teoria política, Rio de Janeiro, Zahar, 1970, p. 31) - que o colonialismo inglês havia civilizado os crueis costumes primitivos na China, Índia e alhures. Ele nunca equacionou o dito de Lord Acton a propósito de que o poder absoluto corrompe absolutamente (p. 143). Sugere o argumento sócio-progressista eagletoniano e do freudo marxismo recente, ao invés, que um ocidental moderno é a legalidade personificada. Mas não cremos na ingenuidade desses críticos senão, quando muito, a nível de sintoma – já que ela rende ascendência intelectiva sobre a consciência alienada local. Assim é igualmente estranho que sobre o período da plena ditadura militar, quando as atrocidades supostas “anticomunistas” eram tão conhecidas quanto multiplicadas, M. Berman publicasse “adventures on marxism”, onde taxava de grosseria histérica os ativistas do primeiro mundo que estavam chamando os capitalistas de porcos. Para Berman, o próprio Marx é um ardoroso apaixonado pelos burgueses da história.
37 Jameson reduzia a nada além de diagnóstico de retardamento mental, a plataforma política em prol da organização social nacional que atribuía em trânsito em países do terceiro mundo, isto é, aquilo que ao contrário da acusação anticomunista, justamente não se confundia com a solvência da nacionalidade na luta de classes, sendo objetivo de Jameson limitar ao status de normalidade psíquica a mesma confusão sócio- “progressista”. Na inserção local, que tem sido um misto incoerente de eticismos narrativos e marxismo progressista, retórica do bloco partidário comunista-petista está, como acentuei, radicalizando-se numa virtual posição ditatorial de antagonismo aberto a todos os que de foro íntimo não contestam a legitimidade da condenação de Lula e do impeachment de Dilma. As composições políticas relacionáveis a posições legalistas e de defesa das reformas necessárias à obtenção de níveis ao menos sofríveis da qualidade de vida, estão assim gravemente perseguidas. Porém o fato é que a nenhum dos processos jurídicos seguiu-se até agora confirmação declarada de que não poderá haver candidatura de Dilma ou Lula à reeleição em 2018. Informou-se que não foram suspensos os direitos de ocupar cargos públicos. Tem havido propaganda aberta na internet. O que configuraria terceiro mandato consecutivo da mesma pessoa, e/ou quinto mandato consecutivo do mesmo partido.
38 A suspeita de um golpe de linha dura da “esquerda” representando uma frente de partidos até o centro histórico representado na posição de Aécio, ainda que golpe nesse sentido de manipulação da sucessão eleitoral, não é infundada. Mesmo se na trajetória que viemos acompanhando até aqui desde o golpe militar de 1964, parecesse um resultado de perfeita inversão das perspectivas. Porém não inversão que alterasse o rumo dos mesmos abusos. Acrescento em 28/0702017, que o Rio de Janeiro está sendo palco de intervenção armada federal, com objetivo de sanear o descalabro na segurança que antes mencionei. As tropas militares ocuparam hoje a cidade, que estava ameaçada de ter o abastecimento cortado pela recusa de camioneiros entregarem mercadorias, verificando-se assaltos com vítimas na proporção de um por hora, assim como outros modos de violência disseminada. Os produtos roubados, especialmente alimentícios, sendo ostensivamente comercializados no mercado negro a preço compatível com o depauperamento geral, ao contrário das lojas. Não é esse quadro do ilegalismo conspícuo algo que se integre no cômputo da política normal, restando por ser estudado e conceituado como fenômeno histórico, porém não deixa de ser um ângulo na questão partidária, restando por se compreender justamente a relação do descalabro ilegal com as forças políticas posicionadas na cisão expressa pelos acontecimentos de impeachment e oposicionismo. E uma vez que o termo “populismo” teria agora sentido mudado, além do incremento das manifestações e participação popular, mais pela inscrição do avassalamento ilegal da privacidade que vem caracterizando o estado de coisas na “globalização”, radicalizado porém nos passados anos do “petismo”.
39 A pergunta sobre o nexo da situação atual com a trajetória da esquerda, desde a democratização de Gorbatchev até o presente, teria que interceptar a estimativa contrária ao resultado verificado. Aquela estimativa estabilizada como o consenso do fim do sovieticismo ou mesmo do comunismo desde os anos noventa e a globalização.
40 Na altura dos anos oitenta, permanecia manifesta porém a vigência do conflito leste oeste. Algumas das mais agudas dificuldades da época, enunciáveis desde os anos oitenta, continuavam pendentes, não contempladas na reestruturação. Não obstante os gastos no Afeganistão, a URSS não teve participação em qualquer estratégia de defesa global quando a ofensiva capitalística foi retomada na era Reagan. A URSS positivamente recuou não só como país, na ação geopolítica, como também em questões de opinião no cenário internacional, independente da atuação dos partidos nacionais.
41 Na era Reagan, a ação e sentimentos estadunidenses foram coerentes ao seu objetivo manifesto, ainda que quanto a este devesse ter pensado melhor nas consequências e sobretudo não ter desprezado os direitos humanos. Ao contrário, o paradoxo da superpotência de um só país parecia ser o que estava ocorrendo na assim designada “guerra fria” pelo lado soviético, enquanto o significado da superpotência estadunidense era a expansão acelerada da sua influência internacional.
42 A URSS com certeza não estava disposta a abrir mão de territórios importantes agregados, e guerras de impedimento da autonomia estão até hoje sendo noticiadas na região da CEI. Mas numa conotação verdadeiramente internacional parece-me que um recuo do lado comunista na batalha ideológica é reportável.
43 O discurso dos articulistas do número de “Problemas” que estamos examinando, é unanimemente pacifista, quando o momento era da exaltação bélica da ofensiva Reagan sobre o terceiro mundo. A unanimidade em torno da recusa de confronto bélico, no qual obviamente a URSS não estava minimamente interessada, é algo manifestamente contraditório com o acúmulo de denúncias comunistas contra a ofensiva intervencionista armamentista dos Estados Unidos em todo o mundo - a pretexto de ação contra o sovieticismo local - assim como da desumanidade do tratamento ou da depauperação progressiva a que estavam expondo os cativos.
44 Fez-se em pleno cenário bélico do capital-imperialismo sobre o terceiro mundo, ressoando dos partidos comunistas dos países que não estavam sob bombardeio, ao longo dos anos oitenta, o coro pela paz. Como se fosse um elogio da abstinência do apoio soviético aos que enfrentavam exércitos e marines. Coro em nome da sobrevivência da humanidade, devido à ameaça do confronto nuclear, de que ninguém duvidava que Reagan lançaria mão e até há registros de ameaças nesse sentido. Além da ameaça expressa, houve o incremento da corrida armamentista por Reagan, e os registros das irregularidades que os USA praticavam então, contra os tratados internacionais que proibiam uso de guerra bacteriológica, impunham proibição de uso de determinados tipos de mísseis, etc.
45 Porém todos sabemos que se havia ativismo comunista em todo o mundo, era por estar-se na contingência da bipolaridade nuclear, a paridade do potencial ofensivo sendo a realpolitik óbvia como único freio à dominação mundial pela chantagem do holocausto planetário. Se a URSS não havia sido pacifista na Hungria e Tchecoslováquia, quando estas pretenderam ter seu próprio destino independente dos soviéticos, agora parecia estar acontecendo o impossível, a vitória de um dos lados numa guerra nuclear, uma vez que a URSS não respondia ao desafio da nova ofensiva armamentista no plano internacional.
46 Não havia ocorrido retração da influência mundial do comunismo nas militâncias partidárias nacionais, independente dos problemas por trás da “cortina de ferro”, que então cresciam. Pelo contrário, parece que o anticomunismo atuou a contrario, como alguma espécie de propaganda, pois houve expressivo aumento de comunistos desde os golpes militares até a ofensiva Reagan. Angelo Veloso, membro da Comissão Política do CC do Partido Comunista Português, em seu artigo “Defendendo as conquistas de Abril”, constante do volume de “Problemas” citado, informou que em 1975/76 o Partido na cidade do Porto, a segunda cidade de Portugal após Lisboa, contava com 5.000 militantes comunistas, mas em 1983, contava com mais de 25.000 (op. cit. p. 81).
47 Veloso justificava assim o porque da cidade ter sido escolhida para o X Congresso do PCP, justificativa pertinente uma vez que, situada ao Norte, integrava uma região “dominada politicamente pela direita mais reacionária” sendo ligada “a numerosos acontecimentos do terrorismo contra-revolucionário”.
48 Os anos oitenta são, pois, o momento em que se assinala o recuo soviético na corrida armamentista. Porém tudo o que vimos até aqui não explica de fato esse recuo, uma vez que o próprio enunciado dos articulistas de “Problemas” a propósito do estado de coisas - pacifismo soviético, avanço bélico mundial dos Estados Unidos, resistência comunista e nacionalista - é o contrário total daquilo que se afirmava nos anos setenta a propósito da correlação de forças.
49 O que parece atribuível, na conjuntura de uma tão obstinada recusa eurocêntrica de assimilar uma verdadeira ruptura conceitual norte sul, é que, na evidenciação da ruptura factual, algo diverso da opção capitalista do mero açambarcamento imperialista só poderia resultar numa mudança profunda da doutrina comunista. Ela teria que deslocar a premissa da luta de classes para a premissa da dominação geopolítica na definição do obstáculo capitalista na história do desenvolvimento humano.
50 Era o que se estava vendo. A dominação de classes revelava-se, agora que a revolução industrial alcançava a plenitude planetária, coerente apenas num plano interno que já não se explicava a si mesmo. Inversamente, tornava-se óbvio que ela se sustenta unicamente pelo imperialismo no plano externo, do contrário as forças produtivas nacionais seriam suficientes para resistir nesse plano interno.
51 Já não bastaria assim a tese da “sobredeterminação” althusseriana e maoísta, de modo que a contradição principal continuaria sendo a luta de classes, agregando-se porém uma contradição secundária como situação nacional. O conceito mesmo de contradição implicaria o capitalismo como um estágio dialético daquilo que em si, como razão na História, seria a industrialização. Porém assim tendo-se que abstrair o efetivo componente histórico em que ela se fez como geopolítica imperialista, além de revolução científica relacionada à ruptura da mentalidade fechada de um cosmos metafísico na constatação da realidade empírica das Américas, em vez de resultar da mera continuidade da cultura platônica.
52 Uma vez que a doutrina “comunista” histórica, a soviética, recusou fazer o movimento ao Sul, tanto o eurocomunismo como o que designei o recuo eticista do político se seguiram. Aí as questões que poderiam se enfeixar como candidatas a uma equivalência razoável à ruptura norte sul tornaram-se expressas, porém o limite não foi franqueado, ao contrário tendo havido um recuo.
53 Ou seja, as questões além do determinismo economicista do proletariado ganharam expressão porém justamente apenas por evitar serem tratadas como efetivamente políticas, inversamente sendo delimitadas estritamente em nível de costumes privados, como um embasamento existencial que comprometia o modo de ser dos sujeitos. Bem inversamente pois, a explicitar a linha de demarcação do necessário em nível público, além do qual estaria apenas a liberdade ao mesmo tempo anônima e pessoal.
54 Pode-se considerar que o lugar teórico do proletário como razão da história tornou-se cobiçado por muitos “outros”, as mulheres, as etnias oprimidas, o simples “mundo da vida” a desfascistizar. Porém não creio que se pudesse evitar o destino soviético também para estes novos avatares da consciência universal, contraditoriamente pregando a concretude inalienável, não generalizável, das situações vitais. Apenas um novo tipo de aristocracia auto-referenciada, que não teria apenas prerrogativas sobre os diferentes, mas também sobre aqueles iguais que continuassem teimando a supor-se diferentes da cartilha prescrita a propósito do que eles eram.
55 Mas como toda aristocracia na era industrial, não a que se poderia manter encastelada e longe dos plebeus, ao contrário, aquela que forçosamente iria se converter num populismo idólatra, complacente com a ideologia por supor que a verdade é estranha aos cuidados da ciência, é apenas a imediatez da existência. Não seria possível evitar o fascismo se a militância devesse invadir a privacidade, apenas porque se imprimiu os dizeres que dispunham o clichê do fascismo em sinonímia com os poderes públicos e o véu da ignorância sobre o alheio, como o atribuído rawlsiano pelo habermasianismo feminista.
56 Ao contrário do que supunha a estranha argumentação habermasiana ao mesmo tempo universal e interessada, creio que se poderia recusar haver um a priori de pretensão de validez em todo discurso professado, uma vez que não tenho a menor pretensão de valer para aqueles que não concordam comigo. Creio firmemente que eles estão negando cada palavra do que digo, mas minha questão se limita a quem interessar possa, supondo eu que não são os muito poucos. A tautologia dos termos, se há, pertence à semântica ao invés de definir a pragmática, que deveria começar pela liberdade e duplicidade subjetiva inexaurível dos planos de enunciação irredutíveis ao do enunciado. A propósito, o desprezo pela cisão de semântica e pragmática como níveis da língua inerentes ao significado e ao uso subjetivo, é o mesmo que se verifica no dito de Husserl, nos inícios do século passado, sobre que se o relativismo fosse verdadeiro ele se anularia. O que Husserl não apreende com seu formalismo puramente semântico, é que “relativismo” não estava já limitado à antiga deriva de opiniões redutíveis ao significado tautológico, mas solidamente amparado na antropologia social como pragmática em curso na pluralidade histórico-cultural. Não apreende pois que a cisão de semântica e pragmática, antes ignorada, altera a substância do seu argumento, assim não crendo eu que frente a ele se possa apenas, como o próprio conservador Gadamer, redarguir tratar-se de mero formalismo. Eis porque, ao que parece, Heidegger, que era o discípulo predileto de Husserl, multiplicava confidências epistolares aos amigos sobre que Husserl ficava cada vez mais ridículo, nunca tendo sido de fato um filósofo. (cf. Martin Kusch, “Linguagem como cálculo versus linguagem co mo meio universal”, Rio Grande do Sul, Unisinos, 2001, p. 171 ) Não havia realmente nada que sobrepujasse a importância do relativismo na descoberta da pragmática da linguagem naquele momento, em pleno rise do culturalismo, não obstante os erros a que conduziram as tentativas de reduzir a heterogeneidade à cisão de primitivo ou originário “narrativo-mítico”e moderno ocidental ou civilizado “histórico-científico”. A propósito, permito-me a inclusão aqui da anedota que formulei contra o autoritarismo de ar nazista que tem tipificado a anacrônica atitude do reducionismo semântico: se a semântica provocativamente perguntasse à pragmática o que significa “pragmática”, esta devolveria a indagação, respondendo : “quem pergunta? - de fato informação necessária a quem precisa responder com pertinência sobre o significado qualquer, já que isso depende de quem é o interlocutor, não respondendo em nossa cultura alguém do mesmo modo a uma criança ou quando expõe aula a especialistas universitários, não obstante não sabermos se em alguma outra cultura, pelo contrário, a resposta seria a mesma, e ser preciso também saber algo a propósito de qual é o caso relativamente ao interlocutor. Escusado lembrar que o autoritarismo nazista midiaticamente patrocinado – isto é, aquele que procede como se fosse deus na posse da verdade da consciência alheia de que porém o alheio ele mesmo estaria ignorante - odeia a História, a pós-modernidade e o “terceiro mundo”.
57 Seria esperável que até mesmo um Foucault revelasse suas simpatias monarquistas, como ele de fato fez por argumentos supostos históricos a propósito de complacências imperiais de uma falsidade espantosa contrastados ao que vimos em Dobb. Assim também a atribuição foucauultiana do proletariado como criminoso, apenas com um verniz de honestidade por enganação da burguesia, e sua recusa, comum a Cooper, de atribuir criminalidade ao estupro como violência sexual por ser necessário definir o sexo.
58 Essas posições foucaultianas, a meu ver aberrantes, foram publicadas aqui algo recentemente, na coleção “ditos e escritos”, editada por Manoel de Barros, especialmente os volumes intitulados “Repensar a política” (2006) e “Estratégia poder-saber” (2010) (Rio de Janeiro, Forense Universitária). Quanto à posição foucaultiana da criminalidade, está frontalmente refutada pela constatação da sociologia a propósito da taxa de crimes, protagonizada não por proletários ou grupos alvo de preconceito, mas por firmas capitalistas, restando o atribuído a pessoas de tão vária procedência que não singularizam estatisticamente qualquer condição determinada.
59 É um paradoxo repugnante à mente, que precisa ser enfrentando contudo assim que caem as escamas dos olhos, o fato da Europa ter forjado sua mais cara concepção, a de sociedade tradicional, pelo concurso da antropologia social que se lançou pela pesquisa in loco das tribos africanas pré-coloniais e antigas sociedades asiáticas. Desse modo rompendo com o liberalismo originário de Locke e Rousseau que haviam olhado só para as Américas. Pois, assim procedendo, a Europa logo se esqueceu da origem terminológica para fazer da essência de sua própria sociedade, a “tradição” aquem do “contrato”, que atribuíra porém aos estágios ante-modernos da cultura. E ela inverteu em seguida os termos. Um dos componentes da neurose ocidentalista eurocentrada típicos do discurso aroniano, é o preconceito de que os Estados Unidos se limitam a “contrato”. Não tem história, apenas capitalismo e modernidade emulada dos europeus.
60 “Patriotismo” à Aron é o que vem em lugar do que consideramos efetivamente a nacionalidade, a saber, o respeito à constituição, pois apenas “patriotismo” é o que a seu ver define a verdadeira cidadania. Aron é certamente polido com os Estados Unidos, mas não considera que se trate de uma verdadeira “tradição”. E o terceiro mundo inteiro, como o que apenas não é a modernidade eurocêntrica, o contrário exato da mesma “tradição”, é agora o que tampouco o terceiro mundo comparte com esta. A pecha aroniana tanto vale num caso como no outro. Tradição cada um tem a sua e somos imiscíveis, se é que se tem. Não se sabe o que é pior, ter a arcaica ou não ter de modo algum.
61 O eurocomunismo ao que parece pode ser considerado o limite da modernidade como “ciência humana” eurocentrada. A propósito, creio que a carta do eurocentrismo devia ser considerado o texto de Merleau Ponty a propósito do pós-guerras.
62 Aqui desistindo de obter a coerência do pensamento pontyniano constituído de anticientificismo e dialética marxista, um ponto de ruptura relativamente ao comunismo sovieticista assim designado científico, é a sua recusa de que a desejada revolução seja lei histórica. Ela é só fruto da desejável “ação”, se esta houver. Mas a partir daí, pronunciando-se a propósito do pós-guerra, Ponty e a intelectualidade francesa se defrontam positivamente com a “ação”. Era a guerra da Coreia que se iniciava. Imediatamente se colocaram contra a Coreia do Norte, porque poderia ser um suporte de Moscou e/ou porque poderia vir a dominar toda a nação coreana, extinguindo assim a autonomia do lado inimigo, o capitalista.
63 Eis o argumento de Ponty: “A URSS não invadiu a Europa, mas a guerra da Coréia colocou esta 'outra questão' que não se punha em 1947. E é com ela que temos que nos defrontar. Sabemos tudo que se pode dizer sobre o regime da Coreia do Sul, não pretendemos que a URSS tenha querido ou provocado a guerra da Coreia, mas, visto que lhe pôs um fim, poderia sem dúvida tê-la impedido, e a partir do momento em que não o fez, passando à ação militar, nossa atitude de simpatia estava eliminada”. (“As aventuras da dialética”, in: Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultura, 1975, p. 256)
64 Ou, em outros termos, “a guerra da Coreia não nos obrigava a desejar a conquista do país todo por um dos dois exércitos...”. Ainda, e sintomático da confusão abstrusa da posição europeia: “Mas, justamente numa situação de força a crítica do anticomunismo só é distinta da adesão ao comunismo se se colocar sem equívoco fora dele. Nem sempre a escolha se pusera entre ser comunista ou ser antocomunista, mas, em contrapartida, era preciso saber se se era ou não comunista. A polêmica contra o anticomunismo só permaneceria independente se também atacasse o criptocomunismo.” (grifo dele)
65 Podemos notar a gradual perda de coerência da opção comunista europeia, na evolução dos fatos. A princípio, a simpatia irrestrita europeia pelo movimento operário russo conduziu à crise da arte, de que Breton é exemplar, seccionando o surrealismo dos colaboradores que insistiam, como Artaud, no primitivismo, assim que tendeu Breton ao partido comunista. Para, apenas, ver-se perante a ordem inaceitável de abjurar do surrealismo, e ser encarregado do exame de estatísticas como seu emprego pelo partido, ocupação impossível para um artista que como Breton, não tinha o menor jeito com números.
66 O modernismo brasileiro tem um capítulo traumático a propósito, com o partido local atacando artistas como Pagu e Oswald. Especialmente Pagu evoluiu à ofensiva jornalística. Restam artigos históricos seus, em que tratava o Partico Comunista de “Dip internacional” - lembrando ser esta a sigla do “departamento de imprensa e propaganda”, a instituição de censura federal na ditadura fascista de Vargas – e clamava contra atribuir o status de artista a todos os que aceitavam o que justamente designou a “focinheira de partido”.
67 Depois, logo após 1945, sem dúvida a posição de Ponty ilustra uma defasagem política dos europeus, vendo suas posições colonialistas ameaçadas no terceiro mundo, se lembrarmos que o imediato pós-guerra foi a imediata antecedência do conflito bélico da descolonização africana e assiática, nas áreas de domínio europeu. Mas essa defasagem é tal que, por outro lado, não ameçava as posições imperialistas da própria Russia soviética. Assim se expressava Ponty sobre Xangai: “Ainda hoje, se a URSS não concluísse um acordo com Chiang Kai Chek e sustentasse abertamente os comunistas chineses, a terceira guerra mundial estaria próxima”. (op. cit. p. 215)
68 Constatamos o absurdo do dito de Ponty, até porque a revolução maoísta efetivou-se mas não provocou nenhuma guerra mundial. A propósito, é interessante citar Julien, quando revela que o veredito do juiz norte-americano Kauffman, que em 1951, no pleno mcCarthysmo, condenou à morte os Rosemberg, atribuía ao casal a culpa “pelos mortos da terceira guerra mundial”. Julien considera expressamente que na França isso resultaria na cassação do tribunal. (“L’empire americaine”, op. cit. p. 450) Já não parece tão certo que assim fosse.
69 Ora, a posição confusa de Ponty pode ser considerada a carta do eurocomunismo na era do confronto bipolar, como uma instrução sobre nada menos do que a meu ver é a ruptura da modernidade, a precipitação do pós-modernismo:
“Entretanto, isto implica reconhecer que a política da URSS não pode ser mais uma política universalista com a qual os marxistas de todos os países estariam imediatamente de acordo e que para um comunista francês, agora, as vias para a revolução são bem diferentes daquelas que haviam sido previstas pela doutrina... Enquanto para o marxismo tradicional não poderia haver contradição, nem mesmo diferença, entre a revolução e a política cotidiana, entre a doutrina e a tática, entre a energia revolucionária e a eficácia, entre a moral e a política, agora, porque a URSS estava sozinha e porque este fato imprevisível quebrou a racionalidade da história, recai-se na política da astúcia, sem estarmos seguros de que sempre se trate de uma 'astúcia da razão'“.
70 Já vimos que é o terceiro mundo que emerge após 1945 como essa quebra da racionalidade da história. Assim seria coerente a ruptura teórica em prol do terceiro mundo como fator intrínseco ao capitalismo, redefinido imperialismo. Pelo contrário, radicalizou-se a perspectiva eurocêntrica do capitalismo como evolução social e apenas secundariamente relacionado ao imperialismo ou colonialismo.
71 Não obstante Ponty não vir a ter definido a estes, uma vez que aquela racionalidade havia sido apenas a fórmula da abstração do imperialismo como o verdadeiro componente do capitalismo, algo a que ele não renunciou de fato.
e ) a questão atual
e. 1) redefinição da esquerda
1 O que designei eticismo configurou-se obstáculo real na redemocratização, como o que contaminou as esquerdas até agora. O ilegalismo tornou-se opção de governos. Aquilo que tem origem na tendência à defesa dos civil rights desdobra-se desse modo, não havendo porém necessidade de que assim fosse. O civil rights movement e o equacionamento dos índices da qualidade de vida como objetivo das democracias, é um parâmetro político, que intercepta como obstáculo o imperialismo.
2 O abandono do industrialismo como noção sinônima do que teria sido um progresso intrínseco europeu, tem hoje o reforço da integração dos ativismos ecológicos na reorientação pela qualidade de vida. A indústria é patrimônio da humanidade, devendo servir aos seres vivos, não o contrário. Assim já fica algo ridículo taxar de “atrasado” aqueles que recusam um progressismo que não tem consistência conceitual, nem aquilata as consequências do que, se continuar permitido atuar irresponsavelmente, apenas pode ser razoavelmente designado um violento banditismo com potencial de destruição planetária.
3 Nem poderíamos considerar progresso numa temporalidade linear, um desenvolvimento reduzido a uma industrialização microinformática que, com a ajuda da engenharia genética, apenas está celebrando o projeto de reduzir o ser humano ao antigo escravo egípcio. Aquele que há milênios atrás, pelas artes da ideologia, tinha a vida e a consciência prostradas diante do fascínio do faraó, este agora designado o “progresso”, reduzindo assim o ser humano por via da mecanização interna, eliminando de fato a consciência que define a humanidade.
4 Mas como viemos constatando, o limite eurocêntrico da modernidade recua perante a necessidade da redefinição da história, em termos do conflito norte sul, que conceituaria a própria modernidade. Assim o civil rights movement e o parâmetro do “desenvolvimento humano” estão confrontados por um limite sério, especialmente onde a infiltração eticista das esquerdas, que substancializam a “diferença” como identidade do jovem, do trabalhador, da mulher ou da etnia, tal que o verdadeiramente heterogêneo é o que passa a ser perseguido, interessou à frabricação de logomarcas neoditatoriais ideológico- midiáticas.
5 Hoje o que precisamos é o retorno do político como nível público da exigência das leis e seu cumprimento, sem dúvida. O que se viabilizará pela compreensão do conflito norte sul como a autoconsciência da organização social e do obstáculo a ela traduzindo-se como o preconceito progressista da modernidade, cegando a teoria para a evidência do imperialismo como funcionamento intrínseco do capitalismo, em vez do que seria estranho a todo contexto ocidental, isto é, político. Porém tornando ao que vimos como a opção democrática da esquerda que se manteve comunista, não obstante a infiltração mencionada, vemos que também não convergiu com a ruptura de que tanto temos necessidade em todo o mundo atualmente.
6 O “anticomunismo” poderia parecer um tema já nada atual, porém desde o contexto McCarthysta americano explica muito também na evolução das esquerdas.
7 Se os termos “comunismo” ou “esquerda”, são de emprego algo obscuro, certamente o termo “anti-comunismo” não é. Histórica e efetivamente, no contexto do terceiro mundo recente, significa a repetição dos métodos persecutórios do nazi-fascismo, dirigidos como foram tanto contra os comunistas como contra minorias raciais ou culturais nos países totalitários da Segunda Guerra. Na recente ditadura militar, a perseguição estava restrita à perseguição de pessoas ditas comunistas, que, porém, enquanto propriamente tais foram minoria - o que é óbvio até pelo fato de que os comunistas estavam contra as tendências de liberação, comportamental, teórica e estética, mais conspícuas da época, às quais viam como alienação ou sintomas “burgueses”.
8 A repressão genocida do imperialismo da CIA na América Latina e alhures, a qual agiu no interesse do capitalismo “ocidental” atingiu geralmente pessoas que não eram comunistas, mas apenas nacionalistas, profissionais liberais, intelectuais e artistas, que expunham teorias e práticas visando a independência do país, política e econômica. Há farto material a propósito do genocídio desumano perpetrado na América Latina dos anos recentes, e creio que não seria preciso reportar aqui o que já ficou tão denunciado, não obstante hoje em dia até mesmo se ouvir dizer que “não foi tanto assim”.
9 Na própria circunscrição dos USA o anticomunismo foi traumático na era do “macartysmo”, com a mesma característica de atingir pessoas por mera calúnia. Examinamos já a montagem midiática do macarthismo, aqui sendo oportuno observar que apenas indignou a maioria dos norte-americanos, como a genial película intitulada “Um rei em Nova York”, de Charlie Chaplin, documenta – tendo sido de fato o próprio Chaplin acusado.
10 Como tal a paranoia anticomunista nos Estados Unidos foi apenas um meio de expressar a atuação dos grupos oligárquicos mais rebeldes à democracia, como forma de apropriação de cargos e desrespeito de pessoas. Obviamente não abrangendo lá o aparelhamento da repressão nazista que caracterizou a ação local. A propósito, há fontes que atribuem a Reagan colaboração no gabinete do senador McCarthy, o que explicaria a retomada da ofensiva nos anos oitenta. Assim podemos considerar quanto ao mcCarthysmo, que não se tratou de um fenômeno passageiro. Como propaganda expressou algo intrínseco ao aparelho imperialista na política norte-americana.
11 O comunismo era tão extremamente minoritário nos Estados Unidos na época da perseguição macartysta, como se pode comprovar pelo testemunho do dewyano Richard Rorty a propósito do curso da esquerda americana após os anos trinta. Por ocasião da invasão do apartamento de um membro da família La Follete, com roubo dos arquivos da Comissão de Inquérito sobre os Processos de Moscou, que Dewey lhes havia confiado, a suspeita não foi de que teria sido ordenada contra suas atividades anti-carteis ou esquerdistas. Mas sim que teria sido a mando de Stalin. Rorty também anota nesse trecho, que Whittaker Chambers, que acabara de romper com o Partido Comunista, estava morrendo de medo de “ser liquidado pelos capangas de Stalin”. (op.. cit. p. 99) [ ver nota 31]
12 Aí o pragmatismo é defendido por Rorty como majoritário na esquerda após os anos trinta, porém frontalmente opositor do comunismo. Inclusive Rorty jactando-se de ter sido essa esquerda quem se dirigiu ao governo norte-americano solicitando intervenção nos demais países a fim de evitar o perigo de uma mundialização stalinista.
13 Assim Rorty defende seu ponto de vista: “Alguns dos meus contemporâneos como Fredric Jameson [comunista americano eurocêntrico radical], ainda concordam com Jean-Paul Sartre. Sartre disse que sempre tinha acreditado, e sempre acreditaria, que anticomunistas são escória. Tais pessoas vêem a Guerra Fria como nada mais que um avanço americano rumo à dominação do mundo. Eles zombam da ideia de que a América poderia ter prosseguido aquela guerra sem sustentar os ditadores direitistas. Meu lado anticomunista do debate obtem muito apoio de militantes de esquerda na Europa central e oriental.” (op. cit. p. 94).
14 Contra Wright Mills, argumentando que os Estados Unidos poderiam, ao invés da Guerra Fria, tentar uma paz separada com seus simpatizantes mesmo no interior dos países comunistas, Rorty retruca que essas alas simpatizantes “russas e polacas não quiseram uma paz separada. Elas quiseram a libertação de uma tirania assassina, cruel e aparentemente invencível”, conforme Rorty qualifica o comunismo soviético, sem lembrar que os mesmos epítetos poderiam servir para as ditaduras da Cia local – assim como, principalmente, ao império “globalizado” e info-midiático do capitalismo atual.
15 Ele também não equaciona que os interesses que os Estados Unidos estavam defendendo não eram propriamente a dos simpatizantes do liberalismo americano, mas os do capital-imperialismo mundial. Assim os Estados Unidos uniram-se à China comunista, assim que se tornou economicamente poderosa, de modo que atendendo à exigência chinesa expulsou da Onu a Taiwan, a cidadela capitalista que havia restado após a Revolução Maoísta, a fim de que a China pudesse ingressar nas nações unidas (cf. de Sene e Moreira, “Geografia Geral e do Brasil, São Paulo, Scipione, 1998, p. 191)
16 Reiterando o que viemos constando neste estudo, o “anticomunismo” no contexto do terceiro mundo foi um regime de terrorismo de Estado - o que se designa “regime de exceção”. O regime foi geralmente instituído pela CIA estadunidense atuando cooperativamente ao capitalismo internacional europeu e japonês, coordenada aos serviços de informação e às ditaduras militares localizadas como regimes de Estado nacionais.
17 Os métodos do regime, cujos dirigentes foram várias vezes denunciados como nazistas, repetiram as práticas do nazismo nacional alemão, japonês e italiano, que na época da segunda guerra se veiculavam pela retórica da superioridade racial como direito de domínio sobre as assim designadas raças inferiores: direito ao extermínio puro e simples, direito de dispor da pessoa, como de sua consciência para efeitos de extorsão de revelações exigidas ou de censura à expressão, direito de torturar, impor crenças ou asserções, encarcerar, humilhar, de escraviza-la obrigando-a a obedecer ordens pela força bruta ou por outros meios coercitivos fora de contexto contratual regido pelos princípios constitucionais democráticos, ou de utiliza-la para quaisquer fins aversivos aos direitos da humanidade internacionalmente reconhecidos.
18 Ao contrário da perseguição à etnia dos judeus na Segunda Guerra, não houve nas ditaduras anticomunistas da Cia, necessariamente ruptura declarada em nível internacional ao consenso dos direitos reconhecido pela “Onu” (organização das nações unidas) e demais instituições internacionais. Essas instituições internacionais permaneceram respeitando as ditaduras como se nada estivesse acontecendo de anormal ao nível do genocídio e terrorismo de Estado. Não houve nenhuma iniciativa impeditiva da atuação persecutória, infratora de todos os tratados internacionais, por parte dessas instituições.
19 Porém na prática o “regime de exceção” utilizava-se do recurso da “doutrina de segurança nacional” para impetrar os mesmos atos de abuso dos totalitarismos nazi-fascistas, contra o que passou a ser designado “o inimigo interno” comunista.
20 O cinema mostrou algo recentemente, em O pianista, um judeu na clandestinidade durante a Segunda Guerra. Porém não menciona o cinema internacional, que milhares de latino-americanos estavam incógnitas em apartamentos não vazios, como o do filme, mas sim de pessoas que concordavam em escondê-los, isso já nos anos setenta. O status do clandestino atingia assim a dezenas de milhares de pessoas em cada país do continente latino americano, número bem superior ao de um contingente étnico no interior dos poucos países sob o “eixo”.
21 Quanto à guerrilha, em território brasileiro, ao contrário do que se verificou em outros países da América Latina, estava restrita a alguns motins esparsos de núcleos pequeníssimos isolados, perdidos num território nacional gigantesco. Não teve repercussão além de servir de desculpa para continuar o regime de excessão após o primeiro prazo previsto de sua duração. Não houve herois conhecidos. Não obstante ser atribuída como guerrilheira, não era conhecida Dilma antes de participar do governo Lula, desde 2004. Em todo caso, o pretexto da necessidade de mais repressão anticomunista resultou numa espécie de segundo golpe, continuísta, em 1968.
22 Até o ex-governo do pt não havia menção notável à guerrilha. Dreifuss é mais generoso com os companheiros da luta armada, tendo seus fac-similes registro de atentados, e mais referências que comprovam uma resistência menos folclórica do que mesmo membros da esquerda referenciam. Pode ser que esses documentos tenham agradado ao próprio regime, porque comprovam motivo para a repressão além de controle dos fatos por parte dos responsáveis pelo regime. Não documenta a ação realmente organizada, que Gabeira testemunha em seu famoso “O que é isso companheiro?”, do sequestro ao embaixador americano em troca de libertação e exílio de alguns presos políticos, entre os quais ele mesmo. Em geral, porém, os articulistas da esquerda “bem pensante”, como Sodré ou Ferreira Gullar, estavam contra a opção da luta armada.
23 Não ignoramos que ninguém é obrigado a concordar com o direcionamento comunista - seja como for que se expresse, excetuando discursos de abuso dos direitos humanos - mas como opção política numa democracia, deve estar alinhada a qualquer das demais na organização pluripartidária, se existe localmente como grupo organizado pleiteando este estatuto. Se não obtem penetração política junto ao eleitorado, por si mesmo demonstra ineficácia da doutrina que se supõe proletária, como é o caso de opção característica do sectarismo. Pelo contrário, a atividade sádica e antidemocrática do “anti-comunismo” como senha do imperialismo, inicia-se pela cassação violenta da legalidade do partido comunista, assim como de todos aqueles a que atribui ideologia afim ao comunismo.
24 É manifesto que na fuga da Europa nazista da Segunda Guerra, primeiro os intelectuais mais dotados, especialmente judeus, perseguidos pelo totalitarismo racista, alcançaram os Estados Unidos, originando ali muitos movimentos de renovação estética e teórica. Mas, depois da guerra, quando os ex-chefes nazistas foram presos por judeus e pessoas conscientes do horror totalitário e interessadas na pena capital, expressivo número de nazistas escapou do tribunal de Nuremberg refugiando-se em países da América Latina, especialmente o Brasil.
25 Tornando-se interessantes à ideologia intervencionista do imperialismo de liderança norte-americana, por causa de sua cumplicidade a métodos persecutórios e de guerra social, os nazistas do terceiro mundo foram alçados a chefes de Estado ou articuladores políticos reais pela CIA, enquanto no cenário das guerras de descolonização afro-asiática os Estados Unidos estavam amparando as potências europeias que perseguiam tão ferozmente os movimentos de libertação quanto a repressão antocomunista local.
26 Conforme a orientação eurocentrada da história, todo o período pós-1945 é expressivamente designado de modo usual como “pós-guerras”, referindo-se a expressão às duas guerras mundias precedentes, porém de fato servindo para anular a preponderância histórica do que se seguiu. Um quadro belicista traumático, desencadeado pelos movimentos de libertação nacional nas ex-colônias europeias, em que as potências europeias colonialistas e os Estados Unidos tiveram envolvimento abrangendo a reutilização do nazismo.
27 Uma vez que a ideologia do capitalismo como progresso psicossocial foi o básico das concepções da modernidade até revelar-se a globalização como impossibilidade do desenvolvimento na “margem” também não surpreende que desde a redemocratização tantos líderes da esquerda tradicional na época da ditadura, como Fernando Henrique Cardoso, o “FHC” que iniciou a privatização das estatais, e o próprio “pt” ou o “pdt” brizolista assim como os que dele saíram para fazerem partidos de tendência igual, tenham se revelado cúmplices dos aparelhos de corrupção e imperialismo.
28 Eles sempre puderam apregoar estarem atendendo à necessidade da modernização. Por mais que pudesse parecer incrível antes, a cumplicidade de todas as esquerdas ao capitalismo multinacional na globalização que se revelou depois, na verdade nada disso surpreende, se lembrarmos que “comunismo”, descontando a multiplicidade de interpretações, é partidariamente identificado com a opção mais eurocêntrica da história.
29 Uma opção “eurocêntrica” ou “ocidentalista” implica que além do capitalismo ocidental estão apenas contingentes étnicos e/ou ideológicos “atrasados” ou “primitivos” - as próprias “raças inferiores” segundo o nazismo - excetuando, é claro, o próprio “comunismo” ocidental.
30 Como já acentuei, o sintoma da neurose eurocêntrica na época recente foi a radicalização dos discursos sócio-progressistas na evidência mesma do conflito norte sul. Althusser é importante considerar aqui, posto que ele inverteu a noção de ideologia oriunda do humanismo lukacsiano, de modo a alterar a atribuição do “tradicionalismo”.
31 Enquanto Lukacs definiu a ideologia em Marx como “coisificação”, alienação da subjetividade, no pós-stalinismo, quando o humanismo lukacsiano tornou-se importante ao lado da revalorização de Gramsci, Althusser protestou contra o que seria a seu ver apenas um anti-cientificismo ideológico. Ele modulou a versão contrária, de que as ideologias seriam aparelhos da vida cotidiana estatizados, como a escola ou a família, tal que aquilo que impingem é a subjetividade como identidade funcionalmente adaptada à desigualdade de classe.
32 Ora, assim, tornando a “tradição” expressão da ideologia mesma, Althusser apenas reduzia toda sociedade a ela enquanto limite ante-conceitual do marxismo. É interessante que Aron tenha declarado não entender Althusser. Pois agora, desse modo, apenas a tradição como ideologia voltava a ser a essência dos modos de produção ante-capitalistas. Mas de fato talvez fosse estranho ao pensamento aroniano o preceito estruturalista e freudo-marxista de que atrasado não é quem não sabe, é quem sabe demais, idealiza o saber além da mera utilidade da ciência.
33 Essa opção althusseriana é mais coerente com o eticismo do que poderia parecer inicialmente, uma vez que por outro lado considera o Estado apenas aparelho de classe, não concedendo visibilidade à organização social. Por outro lado, na radicalização recente até mesmo esse princípio lacaniano foi revertido por freudo-lacanianos como Zizeck, que tanto queriam demarcar a linha do progresso que até erraram grosseiramente. Zizeck, desconhecendo o texto de Lacan sobre o conhecimento como desrealização – isto é, sistema independente da coisa em si – intitulado “ A agressividade em psicanálise”, acreditou estar provando Lacan ao afirmar contra o relativismo sociológico que a ciência é o único enunciado que porta sobre o real. [ Nota 32]
34 A crítica althusseriana aos aparelhos ideológicos de Estado resultaram naquilo que poderia parecer interessante a um momento em que a dominação ideológica se faz por estereótipos identitários num corredor único que conjuga o letramento às mídias.
35 Ou seja, a um tipo de crítica que visa os discursos construtores de oposições identitárias à base de “nós” e “eles”, de modo que provaria a perspectiva pela qual a ideologia é subjetivante ao invés de objetivista. Porém de fato a identidade criticada é suporte das relações de mercatorização (capitalista) ou de estereótipos de dominação (pré-capitalista) – já que tudo na mente humana desde os milênios tende à moderna revelação economicista da inteligência. Assim Althusser parece singularmente repor Lukacs.
36 Os governos de esquerda tenderiam pois, na era da informática, a cooptarem o capitalismo multinacional conforme a balela que acalentam desde sempre, de que com a “modernização” industrial local se forma a mentalidade do “operário” organizado. 1964 pôs fim a tal fantasia. É bastante consequente que haja uma nostalgia cultivada nas esquerdas a propósito do período imediatamente anterior a essa data.
37 Como iremos ver mais à frente, seria simplista apenas considerar a questão ideológica na explicação dos fatos históricos. O fim da modernidade política só tem sentido num processo da própria modernidade política. Entretanto, para quem se recusa ainda a se colocar na temporalidade do presente pós-moderno, a ditadura não existiu - como a prova de que a modernização capitalista não significa qualquer desenvolvimento psicossocial, econômico ou humano, e, pelo contrário, o coíbe, sendo pois expressão tão paradoxal como círculo quadrado, já que capital-imperialismo é apenas ditadura formal ou disfarçada. Expressa, pois, apenas o imperativo capitalístico da contra-revolução industrial nas “colônias” como territórios anexados pelos monopólios revolucionário-industriais do “centro”. Imperativo tão óbvio quanto impossível de ser equacionado por esquerdas ocidentalistas cegas, que não tem parâmetro além da sua fantasia de “progresso” contínuo.
38 Isso é testemunhado até mesmo por Raymond Aron, cuja posição conservadora e pouco simpática ao terceiro mundo é expressa, como examinamos. Ele nega frontalmente que a Argelia teria o que ensinar à Europa, sem lembrar que o colonialismo é a história europeia.
39 É preciso acentuar que o epíteto “conservador”, quando se trata da intelectualidade europeia do pós-guerra, não significa ser pró-americano. Pelo contrário, a posição de Aron quanto aos Estados Unidos como simples contrato social é apenas atenuada por sua consideração de que lá também possa haver patriotismo. Assim a democracia, que a seu ver só existe nesse sentido entretanto tradicional e que por isso convem ao aristocratismo, também poderia ser atribuída aos norte-americanos.
40 A posição dos Estados Unidos como mero contrato é aliás, muito comum na mentalidade culta europeia, não obstante bastante defasada com relação à história efetiva. Por exemplo, sendo a posição de Aron algo parecida com a de Hannah Arendt, no entanto exilada nos USA devido à perseguição nazista aos judeus, lá muito paparicada como cabeça filosófica, conforme a chamavam respeitosamente na televisão - epíteto que ela odiava por exigir o de politóloga.
41 Para Arendt (“Entre o passado e o futuro”, São Paulo, Perspectiva, 2003), a América era genealogicamente o “ermo sem história” e “terra de imigrantes” como o berço ideal da filistina “sociedade de massas” ocidental contemporânea, de modo que os níveis escolares seriam esperáveis tão “atrasados em relação aos padrões médios na totalidade dos países da Europa” (p.226, p. 257, p. 227).
42 Ao que parece, o argumento de Arendt é que na Europa a sociedade de massas surgira como um problema, nos Estados Unidos havia sido a solução. E assim, na América, a cultura letrada ou “educação” não merecia esse nome, por ser redutível a meios de comunicação em massa como a um ideal inscritível “em nota de dólar” - Novus Ordo Seclorum”, ao mesmo tempo um gigantesco rousseauísmo, ser nivelamento por baixo (p. 228, p. 229, p. 224), indistinção de público e privado (p. 238), etc.
43 Como politóloga, a meu ver, Arendt era bastante ingênua, considerando por exemplo, que Platão era realmente um crítico da tirania, não apenas um artificioso construtor da tirania com outro nome, o déspota divino; e que a tirania é uma espécie na classe do regime igualitário, porque nela todos seriam iguais perante o tirano (p. 136). A propósito, Hume era mais sutil, mostrando que nenhum poder supremo subsiste sem uma aristocracia das armas que a legitime factualmente.
44 Mas quando se fala do imperialismo dos USA, seja como o sujeito das operações que se sucederam desde 1945 ou como os campeões do capitalismo planetário, deveríamos perguntar: “os USA”, quem? A sociedade norte-americana, com a lei de Sherman Act e as comissões de inquétito do seu legislativo contra a dominação “capital-imperialista” - leia-se nazi-fascista, tradicionalista, de cartel ou totalitarismo brutal - assim como suas leis de proteção à liberdade de expressão e privacidade contra os mesmos, expressa a sua organização democrática e humanitária. Se há um “complexo militar-industrial”, isso não expressa a sua estrutura historicamente organizada, mas uma contingência que não podendo não ser histórica, não é explicável apenas pelo cenário interno, mas teve produção relacionada ao imperialismo internacional europeu e japonês.
45 Seja em países em processo de independência econômica, ou na descolonização política propriamente, o “neonazismo” explícito desde os anos noventa, está assim explicado quanto às origens. Elas se definem pela reintegração dos grupos e métodos oriundos do nazismo, derrotado na Segunda Guerra, porém após 1945 integrados pela CIA à operação “anticomunismo”, caracterizada como de genocídio e dominação brutal sobre o terceiro mundo, ou mais simplesmente, recolonização.
e. II) os “novos” problemas
1 Mais importante que considerar apenas o período de atividade ostensiva como passado, é hoje a assunção de que o”anticomunismo” nem mesmo teve apenas o neonazismo atual como consequência. Originou também os dois maiores problemas com que na atualidade temos nos defrontado: o poder paralelo oriundo da ilegalidade conservada como status do tráfico de drogas, que o agrega ao crime organizado; e o terrorismo pós-comunista relacionado aos fundamentalismos religiosos do Oriente muçulmano.
2 Quanto ao poder do crime organizado já vimos os testemunhos que o relacionam aos nazistas ditatoriais. Seria importante registrar que na sucessão dos projetos sensacionalistas de combate à dominação do poder gangsterista, houve a mudança da linguagem de mídia, no final dos anos noventa, para um código fascista conspícuo, que está para ser estudado. Alardeou-se concomitantemente a intervenção internacional contra o tráfico, que teria repercussão saneadora local, porém o que ocorreu, além do referido código que perdura a nível de lavagem cerebral, foi nova mentira do regime, assim como na ditadura a propósito da modernização. Esta preservou o latifúndio, aquela apenas fez aumentar escandalosamente o alcance do tráfico, que já em inícios da década de dois mil ostentou poder para parar a cidade por dias seguidos, como já referenciei.
3 Quanto aos neofundamentalismos religiosos, tiveram expressão internacional a partir da tomada da embaixada norte-americana pelos Aiatolás de Khomeíni, o que acabou com as chances de reeleição do partido democrata de Jimmy Carter. A propósito, é mero preconceito a opinião registrada por Vicentino, sobre que a eleição de Reagan deveu-se ao incremento de população mais velha entre os votantes na América, devido ao aumento da longevidade ligada ao desenvolvimento na época recente. Na verdade o episódio da embaixada iraniana foi decisivo, como sinal de que os democratas haviam perdido o pulso na política internacional. [ Nota 33 ] Em todo caso, o Irã de fato se libertou da ditadura implementada nos anos cinquenta pelo nazista patrocinado pela CIA. Porém sinalizando vermelho desse modo quanto às possibilidades de domínio ocidental em demais países árabes, deflagrando o conflito duradouro com o Iraque, resultou na propagação do novo cenário de guerras na região do golfo. E não sendo de modo algum agregável o comunismo aos regimes de Estado islâmicos, pelo contrário, tendo o governo dos aiatolás mantido o partido comunista na ilegalidade e proibido veiculação de obras intelectuais comunistas.
4 Quanto ao aspecto bélico do novo conflito Leste/Oeste, já não de URSS e USA, mas de Ocidente e Estados Islâmicos, pode-se considerar o fim da modernidade, se não se o quiser atribuir às guerras de descolonização afro-asiática, ao enforcamento de Sadhan Hussein em território norte-americano pelo presidente Bush. Uma vez que nenhuma definição da modernidade como a priori mental de aversão a penalidades bárbaras poderá se manter intocado, mas tal definição é a que se poderia reduzir todas as demais em termos de evolução psicossocial “ocidentalista”.
5 Na verdade um outro acontecimento protagonizado pelo Ocidente definiria o fim da modernidade, de modo até a explicar o fato da aplicação espetacular de penalidade bárbara - espécie de pleonasmo, porque é assente que o “tipo” de penalidade bárbara ante-moderna é um gozo de sadismo coletivo envolvendo pois necessariamente o elemento do espetacular. Esse acontecimento é o fim do desenvolvimentismo como modelo reprodutível, decretado pelo próprio Ocidente, na forma de sua associação de megaempresários reunidos no “Clube de Roma”, na década de setenta, e que, face à denúncia do limite ecológico do industrialismo, decretaram unilateralmente que o terceiro mundo é que deveria parar imediatamente de se desenvolver. Porém para justificar assim a dominação industrial do primeiro mundo, que só tem feito proliferar indústrias suas em todo o planeta, contrariando os limites ecológicos previstos. [ Nota 34]
6 Quanto à face terrorista do conflito USA/ Islã, chegou às proporções do Onze de Setembro, que todos conhecem como atentado a bomba no próprio território norte-americano por Bin Laden, com sérias consequências. Atualmente está sendo protagonizado pelo “Estado Islâmico” assim designado, o qual tem realizado vários ataques de graves proporções na Europa.
7 O neonazismo tem sido fenômeno predominantemente europeu, onde chega a afetar a composição partidária, relativamente aos Estados Unidos e América Latina, onde se limitaram a tendência de “gangs” como a dos “skin-heads”. Porém na atualidade já tive notícia de partido fascista organizado na cidade do Rio de Janeiro, não obstante nazi-fascismo ser crime. Como dominação contra a liberdade da pessoa física, o sujeito privado e individual, assim como contra a consciência, tem se mostrado mais comum procedimentos de dominação por meios oblíquos de discriminação social e censura ideológica.
8 Enquanto a televisão e a propaganda veiculam mensagens sempre mais ideologicamente comprometidas por um método de manipulação identitária que visa diretamente a imagem pessoal e tendências de comportamento tipológicas, estigmatizando uns e promovendo outros conforme interesses patrocinadores e políticas de elite, e enquanto os mass midia respeitam cada vez menos a privacidade dos seres humanos, surgem formas de impedir a veiculação de estudos sérios pelo mercado editorial ou de impedir a circulação de pessoas em lugares públicos - estas duas liberdades básicas de toda constituição democrática ou civilizada.
9 Está havendo por exemplo tentativa de domínio sobre livros que veiculam estudos históricos, sociológicos e teórico-literários, primeiro por parte de artistas que pretendem impingir seus produtos de música ou poesia, etc., por mass midia, assim como fazerem-se passar por modelos midiáticos de comportamento e de consciência, mas depois não querem que as pessoas possam refletir sobre o que viram e ouviram, na forma desses estudos analíticos ou biográficos.
10 Agora também disseminando-se a tentativa de retirada de circulação de publicações letradas, por meio de grupos que pretendem antagonizar veiculação de pesquisa científica, a pretexto de que algum detalhe do texto lhes é antipático - tive notícia de que grupos de negros pretenderam tirar de circulação um livro porque mostrava a imagem de um negro antes da abolição, sorrindo. Porém nenhum grupo de tais ridículos assim designados “leitores sensíveis” jamais se mete com o que é escrito para ser transmitido pela televisão, rádio ou jornal. Ora, o principal aqui é que não há nem pode haver qualquer vínculo legalizável de representação desses “leitores sensíveis” relativamente ao grupo do qual pretendem estar sendo porta-vozes.
11 Pelo contrário, tais grupos estão agindo ilegitimamente porque não tem vínculo algum de representação legal, agindo ainda contra os interesses de muitos daqueles que dizem estar representando, que porém não foram obviamente indagados, mas que se fossem poderiam se colocar frontalmente contra a opinião tendenciosa dos que estão se arrogando o direito de falar por eles.
12 Não há qualquer razão para pressupor homogeneidade de opinião de pessoas caracterizadas apenas por atributos arbitrários relativamente ao que pensam de si mesmas - como afirmava o haitiano René Depreste, a mera designação “negro” é uma artificiosa criação colonialista para estereotipar o que na realidade é uma multidão de qualidades de miscigenação e de etnias, do mesmo modo que “branco”. A mera pretensão de alguém ou um grupo decidir pelos outros como se fossem eles mesmos já é abusiva a qualquer cidadão, configurando-se fora do contexto dos cargos constitucionais do Estado, que porém não preveem representação de condições privadas. [ Nota 35]
13 Não se sabe porque, seguindo-se a premissa de supostos direitos de leitores sensíveis, não vai ser perigoso escrever que papai noel não existe, se isso pode melindrar pais que não querem que suas crianças sejam a propósito precocemente informadas.
14 De fato esses “leitore sensíveis” como as editoras estão designando, seriam apenas pretexto para todo tipo de medíocre oportunista obter auto-promoção às custas de quem tem o talento e o mérito de estar refletindo sobre o que é verdade e documentado, referenciando o que circula efetivamente, mas sem ter o próprio medíocre o trabalho de argumentar sobre o que lhe convem na sua própria publicação de estudo ou de crítica, como seria honesto. O que é bastante notável, o fato de que os grupos nazistas de censura da consciência estejam atuando desse modo quando se multiplicam enormemente os meios de publicação de textos pela Internet, como os espaços de blogs, etc. Faz sentido, pois, suspeitar que são apenas testas de ferro de interesses censores ligados a poderes que seria bom investigar quais são.
15 O que é bastante coeerente, porque tais grupos são apenas interessantes a poderes como os de business e outros que como todo déspota odeia ciência - se não puderem dela fazer uma caricatura despótica à exemplo de Sokal e outros que nos USA pretendem impedir as pessoas de se expressarem conceitualmente - e dependem muito de que não se conheça a verdade, ou de que não se reflita de modo nenhum sobre a própria experiência, devendo-se apenas e passivamente obedecer ordens deglutindo tudo o que é imposto goela abaixo, se é que se tem dinheiro para comprar.
16 Tais pessoas, que se negam como tais na fantasia de que são o próprio grupo de que fazem parte, tipicamente exibem o sintoma psicopatológico pelo qual não suportam a evidência de que o pensamento não pode ser seccionado de sua expressão. Supõe como antigamente, que há alguma mensagem ideal sobrevoando o gênero semiótico em que se constroi, de modo que pode ser transposto de um gênero de linguagem para outro, como da letra de música para revista em quadrinhos, sem prejuízo algum de idealidade, de modo que a mensagem e o que ela opera está assim ingenuamente reduzida ao ideal.
17 Assim como, porque não podem suportar que a pessoa deles não é ao mesmo tempo todas as demais, não suportam a evidência de que quem se expressa é somente a subjetividade. Também tendem a reduzir o ser humano à condição infantil, além de ignorância maníaca acerca da irredutibilidade entre a economia de textos escritos e a oralidade.
18 Tais inconsequentes negam frontalmente a realidade - o que é a única definição para censura de publicações, uma vez que sendo mentira ou verdade, independente de calúnia criminalmente acusatória a alguém, que não pode ser proferida sem provas, isso é o que está em questão como matéria de estudos a serem publicados, porém sendo em todo caso o que alguém pensa e diz. Não vêem que se as ideias não puderem circular para serem questionadas conforme argumentação e demonstração coerente a propósito da realidade, a heterogeneidade não poderá ser tolerada pelo desfazimento das fantasias preconceituosas sobre o odiado como “diferente”. E se as questões reais não puderem ser conhecidas, o que vai acontecer não será a redução da realidade à fantasia psicótica de minorias supostas poderosas, ao cotrário do que elas almejam, mas sim o crescimento do ódio que irá devorá-las.
19 Editoras ligadas ao mercado do poder econômico também tem métodos censórios até mesmo da forma de se expressar - pelo que sei, algumas tem secretárias que reescrevem conforme catálogos de palavras e receitas simplistas iletradas de mass midia, o que é publicado depois com o nome dos autores. Garanto que não permito nem nunca permiti que seja alterada uma vírgula daquilo que escrevo para publicação assinada em meu nome. [ Nota 36]
20 Aliás eu gostaria de registrar aqui minha denúncia contra um projeto de que tive informação indubitável. Era dito de origem canadense, no qual pedagogas, que não tinham nada a ver com a matéria para a qual convidavam professores brasileiros especializados para escreverem livros a serem utilizados em curso universitário, eram pagas pela atribuição de “mexer” no texto, censurando partes que considerassem pouco atrativas sabe-se lá segundo quais critérios. Sendo notável que seriam coerentes apenas com veiculação de matérias de ciências exatas, porém tratando-se de material de faculdade de letras. O resultado almejado era positivamente veicular erro de apresentação das matérias, pois desfiguravam totalmente o escopo. Impediam também recursos pedagógicos próprios das especializações. Por exemplo, na apostila de teoria literária, ao colocar que o romantismo estava relacionado à descoberta de Kant sobre o tempo como inerente ao intelecto subjetivo em vez de algo em si, a pedagoga exigiu que houvesse um poema romântico e que se pedisse ao aluno que identificasse nele o tempo kantiano [ Nota 36 b ] Havia listas de palavras proibidas como por exemplo “compreensão”, ou “versus” para apresentar teorias opostas uma teoria à outra e mesmo a ideia oposição era proibida – o que é absurdo na apresentação de correntes críticas em literatura, pois são expressamente opostas umas às outras. O valor a ser pago por livro era singularmente alto, trinta mil reais.
22 As pedagogas submetiam cada vírgula a interrogatório demorado, porém obviamente não visando informar-se, mas apenas de que modo poderiam reduzir o referencial a algo sem valor informativo algum. Conheci livro produzido na área de pedagogia por pessoas ligadas ao projeto. Era racista violento, constando flagrantes erros na matéria de psicologia, não obstante elogiar Paulo Freire por ser avesso ao letramento como assimilação de informação real. Além disso, pessoas que se utilizavam desse material - que os professores na maioria abominaram - costumavam proferir mentiras escandalosas na sala de aula, como que Collor havia pago a dívida externa com o roubo da poupança privada, ou que nos Estados Unidos os gastos das pessoas eram controlados pelo governo como uma forma de controlar o valor dos salários impedindo que esbanjassem.
23 Após a notícia desse projeto, em 2008, soube que há faculdades que estão impondo o limite da paráfrase para qualquer trabalho universitário dos alunos brasileiros, que assim estão proibidos de raciocinar conclusivamente sobre o que referenciam, ou escrever qualquer coisa não referenciada por autores estrangeiros, preferencialmente em livros lançados no máximo há dois anos.
24 Os Estados Unidos, pelo que li num jornal, tiveram em inícios deste século pastores protestantes tentando impedir que a teoria da Evolução fosse ensinada na Biologia das escolas, e, como não obtiveram aprovação do legislativo, puderam entretanto obrigar à ridícula injunção de que constasse na capa a expressão “este livro contem a teoria da Evolução” . O que apenas mostra o sintoma neurótico de fuga da realidade como contrário da inteligência, pois não existe Biologia que não “contenha” teoria da Evolução, e se alguém é intolerante com ela, não deveria ir ao médico, pois toda a medicina atual é apenas resultado da pesquisa biológica genética e “evolutiva” ou a esta relacionada. O que tem produzido tais pastores, como tenho visto, são mentes neuróticas na escola, profundamente hipócritas, com um “gap” entre o assunto “evolução”, que rejeitam por causa da igreja, e tudo o mais que alegremente aprendem sem ver que é apenas o corolário do que rejeitaram. Escusado registrar que o transformismo biológico não cauciona o que tenho criticado como “evolução psicossocial', que são teorias humanísticas e filosóficas já ultrapassadas, porém tendo sido veículos ideológicos da dominação ocidentalista - elas são estudadas com minúcia e criticadas à frente (“livro 3”).
25 Na Argentina, pelo que contaram por aqui, há um edifício que proibe a moradia de pessoas divorciadas, comportamento obviamente snob de preconceituosos que assim se fazem de aristocratas sobre a cidadania constituída pelos impostos de quem vota. Tudo isso deveria ser simplesmente rechaçado como crime, já que a constituição democrática protege o cidadão contra discriminação, assim como proíbe a censura da expressão e da consciência subjetivas.
26 Contra o neo-nazi-fascismo, a meu ver o que deve ser feito é reforçar as leis democráticas que como tais são aquelas que protegem a privacidade dos sujeitos individuais, de modo que só há leis regulando condutas intersubjetivas definidas de modo a proteger os interesses das partes, nenhuma legislação podendo haver sobre costumes subjetivos, que são livre opção pessoal.
27 Além disso, deve-se reforçar juridicamente, criticando da forma mais acerba pareceres jurídicos fascistas, a legislação de proteção constitucional democrática que considera crime a discriminação de pessoas, assim como garante a privacidade e a liberdade de circulação, consciência e expressão.
28 Por reforço das leis democráticas entendo tanto a circulação ampliada do esclarecimento acerca delas, como a repressão efetivada sem demora, sem recurso de fiança, contra o abuso dos direitos da cidadania. A propósito da repressão legítima, feita segundo as leis e conforme o interesse da cidadania, é necessário acrescentar o quanto é negligenciada. O abuso de poder econômico, por exemplo, é entre nós função do “Cade” reprimir, porém de todos os verdadeiramente absurdos de desmandos que tem sido verificados por parte de multinacionais ou demais firmas privadas, nenhuma notícia veiculando ação do “Cade” tem sido jamais conhecida.
29 O que devemos considerar patologia social do neonazismo está sintomaticamente configurado como a contradição mais acerba entre a atualidade dos estudos humano-científicos, que não cauciona qualquer redução do sujeito a “tipos” grupais, posto que nem mesmo cauciona metodologias classificatórias de tipos (como raça, gênero sexual, classe social, etc.) que, além do uso pessoal livre e da biologia, só se podem conceituar mediante abstração da heterogeneidade subjetiva, constatável entretanto na pesquisa não tendenciosa; e a paranoia do discurso de fundo neofascista, inflacionado pela linguagem de mass midia, que ao contrário do que vinha ocorrendo, ostenta defasagem psíquica na capacidade de lidar com a subjetividade não reduzida a grupos fantasiosamente homogeneizados.
30 Porém quando se trata da homogeneidade desejável, a do “idh” (índice de desenvolvimento humano, que é agora o referencial do “desenvolvimento” sustentável, e que mede a qualidade de vida (saúde, habitação, letramento, liberdade de expressão e consciência, longevidade, etc.), calculado de modo a não permitir distorções como a estatística de distribuição média per capita, mas sim realmente informar sobre o nível desses itens enquanto atribuíveis às pessoas, então o que ocorre é uma paranoia inversa. Ao contrário do que já se havia obtido, inaceitação doentia da lei de cidadania que impede a discriminação e garante o acesso de todos.
31 A grande paranoia neonazista, que pode ser designada síndrome histérica de desrespeito à privacidade tanto mais se radicaliza o imperialismo sobre todos os serviços pelo capital privado e a mercatorização de tudo que é humano ou natural, assim como de desrespeito à cultura letrada não populista-midiática, incapacitada à compreensão de relações e que substancializa patologicamente a “identidade”, não nos preocupa como algum defeito congênito da humanidade, senão faria rir a qualquer um que soubesse muito bem a razão de haver leis, pelo fato da cura ser tão obviamente apenas a aplicação delas a rebeldes snobs que no entanto não agem por si mesmos, apenas aparelhados por hordas reduzidas a “instintos” de brutalidade “bestial” - leia-se a ganância intoxicante consequente das injeções contínuas de ideologia, já que de fato o ser humano não pode reduzir-se a qualquer outro animal.
32 Combater a censura ideológica destrutiva da liberdade de expressão, é o mais básico avanço contra uma psicose votada a ignorar tudo o que é realidade, asim como primariamente o fato de que a indústria desordenada está destruindo o planeta devido à falta de consciência ecológica, antes possibilitando a redução dos seres humanos a coisas sem consciência movidas a mecanismos de engenharia genética e eletrônica coerentes aos princípios da ideologia da dominação do banditismo capital-imperialista e info-midiático, de cuja cooptação nem mesmo as esquerdas de hoje em dia se salvaram.
33 Na atualidade como um cenário pós-moderno, não obstante o terrorismo info-midiático e o limite eurocêntrico da modernidade, estamos superando o obstáculo da dominação cultural que limitou, como ao “comunismo”, a luta local anti-imperialista a um objetivo de “modernização” ocidentalista, como ao conceito eurocêntrico de cultura. Mas se tal obstáculo já está sendo superado, devemos observar que se trata de um momento posterior ao anarquismo característico dos movimentos de massa dos sixties e anos setenta do primeiro mundo, onde o móvel era a recusa do político, posto que o interesse do terceiro mundo é pelo contrário, a organização social das nações tornadas realmente independentes.
34 E creio que assim que estiver totalmente removido o obstáculo do sócio progressismo - a redução da história humana ao percurso industrial europeu - não haverá qualquer apoio ao imperialismo, sem que isso acarrete menor consciência da organização social necessária ao objetivo de atingirmos bons níveis da qualidade de vida e de garantias à liberdade subjetiva.
35 O imperialismo, por sinal, socorre-se cada vez mais no business de mídias, supondo que assim assegurará o domínio ideológico quando já não há teorias sócio progressivas de um “sujeito da história” possíveis de elaboração atual. Mas o fascínio de mídias se restringe a funcionar na sociedade economicamente afluente, o que a rapina imperialista permite sempre menos que seja o caso no terceiro mundo. De nada adiantará a arrogância nazista da microsoft sobre o letramento e escrita quando estiver sendo recusado radicalmente tudo que não significar destruição imediata do inimigo.
36 Como ocorre com as palavras da língua, “nacionalismo” tem seu significado dependente do contexto. O oportunismo político e o golpismo tem sido espantosamente perversos na sua neurose de distorção da língua, de modo que pode obviamente significar as piores coisas mesmo num contexto como o terceiro mundo, onde se trata obviamente de independência política. Não obstante os usos propagandísticos do oportunismo, em âmbito de histórico recente, tem relevo de utilização em dois referenciais inequivocamente irredutíveis.
37 O referencial da Segunda Guerra mundial, é aquele em que os países nazistas totalitários, devido à sua ideologia da raça superior e da total subordinação do indivíduo ao Estado racialmente definido, prativavam um “nacionalismo” xenófobo. Nesses países as classes identificadas com a ideologia racista foram pois, “nacionalistas” num sentido específico cujo sinononímia é o próprio termo “nazismo” e/ou “fascismo”. Significando não só etnocentrismo ideológico, mas também violentamente belicista, visando dominar raças (nações) supostas inferiores, e praticando violento segregacionismo dos elementos heterogêneos ao padrão étnico e ideológico dominante no plano interno.
38 O referencial do “terceiro mundo” utiliza o termo “nacionalismo” num sentido totalmente oposto à xenofobia totalitária nazista. Aqui “nacionalismo” significa apenas a afirmação da independência da nação formalizada na promulgação de sua constituição, a ser internacionalmente reconhecida como dotada de autonomia estatal. Visando ser reconhecido como nação independente, é forçoso que o “nacionalismo” nesse contexto do terceiro mundo seja um movimento cuja ideologia é de reconhecimento das outras nações do mesmo modo independentes.
39 Não utilizo a expressão “terceiro mundo” por deferência a Balandier e Sauvy, a quem Pierre George atribui a expressão que vem sendo amiúde utilizada, ou mesmo como o que deveria a todo custo ser conservado. Apenas significando o conjunto dos países que foram colonizados e dominados pelo imperialismo ao longo da “modernidade”. O livro 3 que integra este estudo, vindo a seguir, desenvolve o que produzi como “geoegologia”, nome da teoria que considero adequada à caracterização da problemática conceitual e humano-científica a propósito da reconfiguração pós-moderna.
40 Na provisória simplicidade da utilização terminológica, podemos afirmar a meu ver que para cada nação do designado terceiro mundo, a promulgação da constituição é instrumento histórico de sua autonomia, posto que se consolida rompendo com um estado de coisas de dominação por uma potência colonialista.
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À guisa de posfácio: a contribuição deste estudo às reformas necessárias = 1 O motivo pelo qual estou numerando os parágrafos é a constatação de sabotagens contra a armazenagem de texto em programas microsoft que as permitem. Os textos estão expostos a alteração ou tornarem-se irrecuperáveis, por ostensivo monitoramento do computador por gangs de desconhecidos, que inclusive alternam páginas à vista da tela, alteram textos em conta de blog., total absurdo de um “progresso” tecnológico que apenas está obrigando ao retorno à caneta, se o objetivo da escrita se destina a conservar-se, ou meramente não ser impedido de escrever e refletir por idiotas perversos que não são presos, por que não há polícia para defender os direitos da cidadania. [ acrescento na ocasião da revisão, que os números de parágrafos meramente a tornaram possível, uma vez que o uso do recurso de localização de palavras mostrou-se sabotado, o computador negando que houvesse qualquer das palavras pesquisadas no texto, mesmo que estivesse a mesma palavra bem legível na tela].
2 O monopólio da microsoft no Brasil é indecente, computadores vindo das lojas todos com programas microsoft, exceto lojas exclusivas da “apple” (mais caro), e havendo marcas de aparelhos que não permitem troca do software pelo usuário. O desrespeito à opções de usuário é flagrante, a coação despudorada, por óbvio monitoramento de bandidos desconhecidos, a usos aversivos aos propósitos pessoais, é constante. Aparelhos “android” tipo “tablet” para leitura de textos apresentam pouco depois da compra inúmeros defeitos, como por exemplo, de cinco em cinco minutos solicitação para desligar, alterações inexplicadas na ordem dos arquivos de livros armazenados, ou seja, todo tipo de meio de sabotagem da atividade intelectual dos usuários. Configura-se lavagam cerebral, com intromissão constante de redes de prostitutas que ostentam fotografias de oferecimento de si como mercadoria, além da própria linguagem de mídia estar reduzida a impingir ninfetas como a única coisa na qual se pudesse “pensar vinte e quatro horas por dia”, e quanto às mulheres, ou são as ninfetas ou estão sendo predadas pelo business da bandidagem microinformática. O texto que está sendo publicado tive que revisar várias vezes, pois nem sempre se conserva a versão corrigiga, além disso, desaparecimento de arquivos são constantes.
3 Há páginas na internet reportando que o FBI investiga crime de hakerismo, porém a cyberdelegacia brasileira não investiga denúncia de intrusão odiosa dos aparelhos. Eu mesma fiz, pessoalmente, a denúncia, há quatro anos atrás, e obtive como resposta, após três horas de espera, apenas que o problema não tem nada a ver com polícia. Na internet há extensos artigos mentirosos sobre como as cyberdelegacias atendem denúncias de “malware”. [Ver Nota 37]
4 Mas não se tem notícia de organizações paramilitares contra bandidos de computador, só “milícias'' contra marginalizados pobres, bandidos ou não. Pode-se até suspeitar de que são incentivados os intrusos como algum tipo de propaganda industrial, o “ocidente” da juventude, ou ligados a lobbings de gangs, políticos, plagiadores oriundos de mídias, CIA, sindicatos pelegos, “bandidos” propriamente ditos, camarilhas de técnicos, etc., tudo que se utiliza do procedimento microinformático definidor do fim da legalidade.
5 Eu consideraria que o presente estudo contribuiu para mudanças relevantes se ao menos houvesse reunido evidência suficiente ao abandono de hábitos que me parecem os mais prejudiciais localmente.
6 Primeiro, precisaria haver campanhas contra referências a “search” de internet como fonte de pesquisa nas escolas, e campanhas de alerta contra um recurso de deseducação, desinformação, mentira, apartheid social, que são tais “search” de internet. Também são necessários estudos reportando e analisando os dispositivos de sucessivos “windows” programados para tornar irritante a escrita, sabotando por vários modos conhecidos na psicologia como de lavagem cerebral, de impedir a atenção, de modo que sejam proibidos circular neste país.
7 Além disso, se não se tem pulso suficiente para uma decisiva política de redução da natalidade nas áreas de pobreza, favelas, etc., devido ao cinismo de políticos de curral eleitoral, compra de votos por litros de leite, seitas religiosas, etc., ao menos se devia suspender o incentivo à natalidade que são “bolsas famílias” típicas do “petismo”. O que por outro lado não qualificava mão de obra nem coibia todo tipo de dispositivo de impedimento da mobilidade social que se multiplicou espantosamente nas duas décadas recentes.
8 As “bolsas” de incentivo a natalidade, pensões mensais a crianças, concedidas paralelamente a incrementos a apartheid nazi-fascista contra pessoas de meia idade e terceira idade, apenas complementam tudo o que temos visto da pior política, aquela que ao em vez de lidar com a pobreza como aquilo de que os pobres e toda a sociedade nacional querem livrar-se, pretende que a pobreza é o modo de vida de que os pobres deveriam se orgulhar como algum tipo de “identidade” ou “natureza” coletiva de uníssonos votantes. A repressão ao crime de abuso de poder econômico, à discriminação de pessoas, o aumento dos salários a níveis compatíveis com os preços, todas as providências necessárias à melhoria da qualidade de vida, são reformas que estão sendo requeridas. Nas escolas, seria importante que a mentalidade da “educação” fosse criticada, uma vez que “educação” é função dos meios familiares e sociais heterogêneos, para efeitos de tornarem-se as escolas estabelecimentos de respeito à privacidade, e exclusiva função de “escolarização”.Ou seja, o que se designa “letramento” como ensino dos gêneros de linguagem cultos e profissões com excelência do desempenho.
9 Quanto a hábitos independentes da dominação odiosa do business de microinformática, chamo atenção para a necessidade de superar totalmente o procedimento disseminado que se designa “estudo de caso” porém sendo o caso inteiramente fictício, nas faculdades de ciências humanas. Nada além de delírio preconceituoso na forma de “personagens” e comportamentos supostos típicos de situações, mas que só neuróticos ou gente totalmente à parte da realidade concordariam que o são, em todo caso sem que sejam referenciadas as pesquisas sociológicas ou históricas como referencial da veracidade do fato, inversamente sendo ostensivamente fictívio. Ao contrário desse procedimento ideológico ridículo, é urgente restringir o “estudo de caso” apenas a informação haurida em pesquisa sociológica operacional, de modo que o esclarecimento da procedência e metodologia da pesquisa permite avaliação crítica e coerente da informação.
10 E também o hábito de ausência de informação de pesquisa operacional para efeitos de qualquer embasamento a ser considerado válido de asserções de política pública relativas a programas propostos. Inversamente, é preciso ter consciência de que soluções pertinentes só são coerentes a problemas localizados, que precisam pois ser conhecidos e demonstrados quanto à pertinência da informação. Isso,contrariamente às cópias sensacionalistas de supostas soluções de outros países, que só o são relativamente às efetividades das sociedades estrangeiras. Assim devendo-se criar a pesquisa operacional local com objetivo de conhecer as questões efetivas.
11 Considero relevante registrar que os propósitos deste estudo não foram de pesquisa especializada na ciência da Economia, e assim não precisei apreciar a discussão dos lados envolvidos na controvérsia atual sobre a vigência do neoliberalismo desde a transição à década presente. Espero porém ter ficado nítido o que na verdade é óbvio corolário do que apresentei como a orientação da minha leitura geopolítica, isto é, que nem mesmo acredito eu na consistência do conceito de neoliberalismo econômico.
12 Como repeti algumas vezes, não se trata do que poderia ser ratificado à luz dos fatos, pois o que estes revelaram, conforme os estudos especializados que reportei, é que a vigência do neoliberalismo econômico é um tipo de fascismo de mercado que domina por meio do açambarcamento do Estado, visando solapar a legitimidade constitucional que seria de responsabilidade do Estado garantir aos cidadãos.
13 O abuso à cidadania, o uso sistemático das instituições de Estado para fins de obtenção de prerrogativas e facilidades na “economia”, o monopolismo ilegal de cartel e a recolonização “globalizada” é o que se deveria considerar como prática efetiva quando se trata de regime estatuído assim designado “neoliberalismo econômico”.
14 Não creio pois em qualquer “sociedade de controle” na era presente. A corrupção da lei, tanto para impingir abusos como se fosse a regra, como para inviabilizar a vigência dos direitos civis e a repressão ao que os fere é o que se pratica, bem inversamente a qualquer fórmula de imperativo categórico sobre “legalidade”. Assim vemos que não se trata de ter aumentado o domínio estatal quando o que o capitalismo almeja é o “Estado mínimo”. O que ocorre é a patologia social do descontrole da sociedade pela predação contra o Estado de direitos civis, conforme os objetivos da ganância destrutiva dos capital-imperialismos, fora da realidade devido à obsessão de ignorar sistematicamente todas as ameaças que representa à humanidade.
15 Nada de novo, certamente, além de aborrecida e cansativa repetição do preconceito do assim suposto mais apto, conforme antigo progressismo spenceriano pré-mendeliano, como tantas posições do jovem e novidadeiro que apenas são solenes indiferenças ao que já se descobriu e se sabe sobejamente de contrário a supostas certezas de amparo ao preconceito e assim à rapina escravista. Tudo aquilo de que precisamos ser livres.
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Livro 3 = escrito em 2017
Geoegologia e Alteregologia: A integração Norte e Sul
1) Modernidade desenvolvimentista: o modelo Norte / Sul (Centro / Margem)
1 A constante histórica na modernidade, tem sido a assunção de que o Estado Constitucional Contemporâneo, ECC, é o epifenômeno do capitalismo europeu. Vamos examinar esse conceito, assim como vem sendo instituído, antes de qualquer questionamento que possa parecer pertinente.
2 A condição do ECC se define pela emergência do Sujeito pensável da psicologia científica (séc. XIX), que é aquele que se tornou individualmente o referencial dos direitos e deveres iguais, legalmente constituídos. Esse é o fundamento da legalidade das constituições civis das nações contemporâneas consideradas civilizadas. A consciência de alguém, e tudo o que dela se segue, seus atos, pensamentos, comunicações orais ou escritas, direitos e deveres, dívidas e propriedades, é unicamente dessa pessoa, não pode ser confundido com o de outra nem atribuído a outra. Além disso, todos esses itens atribuídos a uma pessoa, tem que ser atribuídos conjuntamente a ela, não apenas alguns em vez de outros, como aquilo que ela pode ter. Por exemplo, a pessoa pode não ter dívidas, porém mesmo que não tenha, poderia ter, e nesse caso seria atribuída somente a ela, se foi contraída somente em nome dela. Aqui estamos usando pessoa na acepção de “pessoa física”, um sujeito humano como exemplar da espécie, assim como um certo animal é exemplar de sua espécie.
3 Na Europa antes do século XIX, o direito era designado “estamental”, as leis eram desiguais, pois não tinham por referencial os sujeitos da nação formalizada por sua constituição, e sim apenas os grupos tradicionais daquela sociedade: nobreza, clero e plebeus. As pessoas não eram julgadas por si, mas conforme a lei referente ao seu “estamento”, isto é, grupo tradicional. Um plebeu não poderia apelar para o rei, num processo, mas um nobre hereditário poderia. O rei ele mesmo só provinha de alguma família nobre. Cada “estamento” era designado um “Estado”. Havia pois tradicionalmente, na França, o primeiro estado (nobres), o segundo (clero) e o terceiro estado (plebeus). A “revolução francesa” (1789) não foi a primeira ruptura europeia para com a monarquia de poderes totais que concedia privilégios à sua nobreza, e sim a “revolução gloriosa” na Inglaterra (1689). Mas como a revolução na França não apenas instituiu a constituição nacional, como também aboliu o status simbólico da nobreza, que continuou existindo na Inglaterra enquanto monarquia parlamentar, a revolução francesa é habitualmente o marco da contemporaneidade política.
4 Assim se compreende porque se atribui o “terceiro estado” como agente da revolução francesa. Porém na efetividade ela não transformou as coisas assim como as vemos hoje, de um momento para outro, tendo havido longo percurso histórico até a estabilização internacional do Estado único, o constitucional, na França. Paralelamente as demais nações europeias desenvolviam seus processos próprios de modernização. Podemos estabelecer de um modo muito geral o século XIX como o limiar da modernidade constitucional e emergência do Sujeito pensável. O século XX foi o auge da modernidade, o referencial típico do Estado constitucional em todas as nações civilizadas.
5 A transformação da modernidade, em que se criou o ECC, tem sido definida em todas as ciências com origem na modernidade, como evolução psicossocial da humanidade ou “Desenvolvimento”. O critério do Sujeito pensável (individual) serve tanto para o diagnóstico médico da normalidade psíquica da pessoa adulta, como da atribuição legal de direitos e deveres em quaisquer das três instâncias do ECC (Executivo, Legislativo e Judiciário). Este critério define, pois, a legalidade enquanto parâmetro da racionalidade. Fora do critério, pelo qual se concebe que a pessoa tem plena capacidade de reconhecimento das leis vigentes, estão as condições de patologia psíquica ou delinquência deliberada contra a lei.
6 A definição da evolução psicossocial pela qual a legalidade veio a se enquadrar nesse parâmetro estrito da racionalidade, é assumida como evolução da humanidade, não obstante ter sido restrita revolucionariamente à Europa do século XIX. Nessa definição, portanto, todas as sociedades além da Europa revolucionária, são pré revolucionárias, e por isso “primitivas” enquanto o contrário de “desenvolvidas” ou “civilizadas”. As sociedades primitivas se definem todas como “subdesenvolvidas”, ainda que possam ser muito diversificadas quanto ao grau de proximidade à autoconsciência do Sujeito.
7 A Índia e a China imperiais antigas estariam mais próximas da revolução constitucional da modernidade europeia, do que as sociedades tribais africanas antes do século XX, porque naquelas há um direito formalizado, ainda que não subjetivo. Mas certamente todas seriam de algum modo “estamentais”, mesmo havendo extratificação social própria a cada uma. O feudalismo europeu é a extratificação social estamental típica, não significando que, por exemplo a “casta” hindu fosse uma organização cujo funcionamento devesse ser igual à do “aristocracia” medieval. Mas apenas que na sociedade estamental não há o Sujeito individual dos direitos e deveres constitucionais, o cidadão representado pela constituição.
8 Mas assim o feudalismo enquanto europeu estaria dentro da trajetória da evolução, já as outras sociedades, não. O tipo de proximidade do feudalismo europeu ao Estado constitucional não seria o mesmo do que se poderia estabelecer relativamente às outras sociedades. Por exemplo, o feudalismo, sendo cristão, já tinha uma concepção de salvação pessoal que outras religiões do mundo não conheceram. Mas sua atribuição da consciência pessoal era incompleta. Os servos plebeus o exemplificam, pois eles podiam ter dívidas - obrigações de trabalho aos senhores nobres - mas não propriedade. [ nota 1 ]
9 A trajetória europeia desde a Grécia e Roma antigas e o feudalismo, seria exemplar do desenvolvimento psicossocial possibilitado na modernidade. As demais sociedades, ao desenvolverem-se, teriam que aportar ao mesmo resultado da revolução constitucional europeia. Uma vez que as nações europeias cujas culturas integram conjuntamente a trajetória histórica do desenvolvimento e protagonizam a Revolução Industrial do século XX, ocupam a porção ocidental do continente, e também porque a Europa ela mesma é considerada desde há muito o “ocidente” em relação à Ásia, convenciona-se tratar o correlato das nações desenvolvidas e sua cultura histórica como “ocidente”.
10 Na atualidade a cisão das sociedades subdesenvolvidas e desenvolvidas define o planisfério geopolítico. Isto é, o mapa oficialmente utilizado como convenção internacional quanto aos status das nações. O mapa não prescreve como as nações devem ser, mas sim informa como está funcionando o sistema de sua inter-relação recíproca - aquilo que se designa “geopolítica”.
11 Convenciona-se que as nações subdesenvolvidas são as que tem economias deficitárias, problemas políticos específicos, e que não atingiram ainda totalmente a ordem da legalidade - mesmo se exibem constituições, elas apenas encobrem distorções definidas da legalidade. E que as nações desenvolvidas são aquelas que estão plenamente modernizadas, enquanto Estados constitucionais de direitos civis.
12 As nações desenvolvidas estão localizadas no hemisfério Norte, as subdesenvolvidas estão localizadas no hemisfério Sul. Há agora, portanto, uma linha vermelha que demarca a fronteira dos dois grupos de nações, mais ou menos na altura do Trópico de Câncer, porém mais acima quando se trata de seccionar a Europa da África. E de modo que China, Índia, e considerável parte do continente asiático acima delas, até a fronteira com a ex-União Soviética, ficam ao Sul, como a África e a América ibérica, desde o México. Porém essa linha se inflete do lado mais à direita do mapa, de modo a abranger ao “Norte” desenvolvido também a Austrália.
13 O agrupamento ao Norte desenvolvido é expressamente econômico, assim tipicamente o Norte é composto pela Europa e seus associados capitalistas, o Japão e os Estados Unidos, como os países que concentram a maior riqueza. Vemos que mesmo sendo o Japão não integrante da cultura histórica comum ao “ocidente”, de fato ele está totalmente “ocidentalizado” como país desenvolvido. Assim não obstante o planisfério geopolítico tratar agora os países desenvolvidos como um bloco do Norte, na realidade o que está assim cartografado é o domínio do “ocidente”, cultural e econômico. Mas assim de fato enuncia-se mais uma cisão cultural, pois mesmo que vários países ao Norte estejam pior situados economicamente que os três referenciais característicos, eles não foram tipicamente colonizados pela Europa pós-feudal, e, pelo contrário, a integram, ou porque são ela mesma ou por motivos históricos. Se bem que os Estados Unidos tenham sido colônia inglesa, por exemplo, eram então colônia de ocupação, com um destino irredutível ao das colônias ibéricas ao Sul, estas de simples exploração. O Japão e a Austrália integram o Norte desenvolvido economicamente por motivos históricos mais recentes.
14 A consecução de um mapa definindo explicitamente a cisão “norte/sul” é recente, vindo do final dos anos noventa, e pode ser considerada “pós-moderna” . Quanto à designação da pós-modernidade, examinaremos mais à frente. Agora devemos ver as mudanças relativas ao planisfério que vigorava antes do atual. O planisfério que se usava antes abrangia a União Soviética ou bloco de países comunistas. Também abrangia o conceito de países “em desenvolvimento”, aqueles que eram capitalistas e economicamente não desenvolvidos, porém não tão pobres quanto alguns outros que se deixavam arrolar como simplesmente subdesenvolvidos.
15 Em vez da linha entre duas regiões, o contraste era entre os quatro tipos de países, marcado pelo uso de quatro cores. Uma cor para os países desenvolvidos capitalistas, uma para os países subdesenvolvidos capitalistas, uma para os países em desenvolvimento e uma para os países comunistas. Havia-se convencionado que os países capitalistas desenvolvidos eram o “primeiro mundo”, o “segundo mundo” eram os comunistas e o “terceiro mundo”, os não-desenvolvidos quaisquer.
16 Com a dessovietização dos anos noventa, a criação da CEI em lugar da antiga URSS, continuamos a falar de “terceiro” e “primeiro” mundos, mas os países do “segundo mundo” que restaram, como comunistas, mesmo tendo a importância da China atual, não configuram característica na cartografia, por já não representarem um bloco politicamente coordenado. Quanto ao “terceiro mundo”, também já não comporta característica diferenciadora de países “em desenvolvimento”, sendo todo igualmente “subdesenvolvido”.
17 A cartografia atual, pois, só tem entrada para países “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, respectivamente hemisférios Norte e Sul, embora tenha permanecido o costume da referência textual desses dois tipos como “primeiro mundo” e “terceiro mundo”. Vemos como o critério do desenvolvimento é menos estritamente econômico do que se pretende impor, uma vez que entre CEI e China, a segunda é a economicamente poderosa, porém está ao Sul.
18 Enquanto o mapa anterior expressava um compromisso de solidariedade entre os países, sendo uma questão de consciência que todos deviam se desenvolver, o atual expressa a supremacia do Norte sobre o Sul, a linha se perpetua como a da desigualdade do Poder. Há desigualdades entre países do mesmo hemisfério, mas o que conta é a pertença a um horizonte definido entre a supremacia e a dependência. Essa pertença é pois mais histórica, expressando o passado colonizador ou colonizado. Ela sugere que esse passado é coerente com a qualidade de vida, mais do que apenas um quantum em posses de minorias ou poder bélico.
19 A atualidade inova, portanto, e mesmo assim parece apenas expressar com mais vividez o que era um imperativo de desigualdade que parecia já superado ao longo do século XX, entre o pós-guerras e os anos oitenta, em termos de consciência das nações expressa pelo status social “em desenvolvimento”. O planisfério que se designa “do conflito Norte/Sul”, na verdade limita-se a endereçar a mensagem da dominação do Norte sem contestação possível, desvinculado portanto da responsabilidade para com os países ex-coloniais.
20 Importa nesse momento lembrar que não obstante estar tão proeminente a cisão Norte/Sul, uma teoria da história cujo cerne explicativo é essa mesma cisão, não existiu até agora. A intenção do presente estudo é expor a “teoria norte e sul” que tenho desenvolvido como fator crítico da modernidade. Que eu saiba, é a primeira teoria da história cujo cerne é a integração em termos da construção opositiva dessas categorias - até agora, as teorias disponíveis só conceituavam a característica unívoca do desenvolvimento. Nesse sentido, pode-se considerar a teoria que o presente estudo apresenta como na verdade metateoria, isto é, uma crítica abrangente das teorias preexistentes, restritas ao conceito do desenvolvimento do Norte.
21 A teoria norte e sul que elaboro desde 2009, produzida ao cabo de estudos que foram suficientes à sua inspiração, e que tenho desde então aplicado com proveito em vários estudos sobre temas específicos da modernidade, designa-se “Geoegologia” enquanto o processo histórico do desenvolvimento ao Norte, tendo um complemento conceituado “Alteregologia” que cobre os acontecimentos ao Sul. A seguir vem a exposição do significado desses dois termos que formulei, adequados aos conceitos da Teoria Norte/Sul que venho propondo; do escopo metateórico; e do esclarecimento sobre a pertinência de reunir aqui os assuntos apresentados nos livros 2 e 3.
2) A Integração Colonizadora : Geopolítica Histórica como Geoegologia e Alteregologia
I)
1 Expressando-se como a possibilidade evolutiva da mente do Homem, a revolução constitucional europeia do século XIX devia ser explicada em termos de algo que este povo fez singularmente. A explicação tem sido o objetivo das ciências e da filosofia, desde a mencionada revolução. Esse objetivo tem sido portanto o de definir universalmente o significado de “Modernidade”. A trajetória histórica europeia conduziu a algum feito específico, que possibilitou o “desenvolvimento” revolucionário, a “Modernidade” ou “evolução psicossocial”. Que feito será este?
2 Aqui ocorre porém algo complexo. Primeiro, devemos ver como a resposta tem sido habitualmente definida pelas ciências contemporâneas, com origem na modernidade. Mas a intenção do presente estudo, em seguida, é mostrar como a condição da modernidade implica uma distorção nessa resposta habitual, que vem importando à pós-moderna teoria das ciências explicitar. Assim o presente estudo é ao mesmo tempo um modo de atender a esse interesse pós-moderno, e expõe a solução que propõe, em termos sistemáticos, à aporia da distorção já definida.
3 A resposta habitualmente fornecida pelas ciências que se estabilizaram ao longo dos séculos XIX e XX, como História, Sociologia, Economia Política, Antropologia social, Psicopatologia, Psicologia, Psicanálise, e outras, está relacionada à descoberta das Américas e colonização europeia do continente americano, ocorrendo entre os séculos XVI e XVIII. Podemos definir este interregno temporal como “período colonial escravista”, uma vez que os europeus colonizadores utilizaram escravos na exploração das colônias americanas apossadas pelas armas, sendo os escravos aborígines localmente capturados ou trazidos raptados da África e vendidos como mercadoria aos colonos.
4 Porém a distorção é que a explicação não se desdobra como tal do fato ele mesmo que a explicação enuncia como fundador, em suas consequências efetivas. A colonização, o fato fundador, é apenas um fator a mais entre aqueles que implicam um desenvolvimento econômico europeu, que por si mesmo não é definido em função da exploração colonial.
5 A definição do desenvolvimento econômico torna-se correlato da pergunta sobre porque ou como acontece, mas desde essa dobra sutil, pela qual ele já não é pensável nos termos daquilo mesmo que o produz enquanto grande comércio colonial. E sim pensável em termos de progresso exclusivamente europeu: social, político e científico. É a definição desse progresso que podemos designar geoegologia, de que decorre o complemento alteregológico. Agora podemos definir o significado destes termos.
6 Geo-ego-logia é um conceito formado por três palavras: geopolítica, ego e logos. O que expressa a junção dessas palavras é o fato, como vimos acima, de que a evolução psicossocial ou modernidade, como legalidade racional, se define por três fatores, que examinaremos como um resumo do que acima ficou exposto:
a) = 1 o fator “geopolítico”, por ser modernidade a revolução localizada europeia e definir o desenvolvimento como critério de status para todas as nações.
b) = 1 o fator “egóico,” por que a modernidade é a emergência do Sujeito (ego) pensável, nas ciências, na conduta pessoal, nos costumes sociais e na organização do Estado. As crianças, os primitivos em maior ou menor grau, e os deficientes mentais adultos, não tem o “ego” formado, e assim, não podem entender relações “objetivas”, vivem na fantasia ou no “inconsciente”. Um caráter pré-egoico nessas condições, confunde-se a si mesmo com as coisas como o fazem frequentemente com os nomes próprios a que atribuem uso mágico ou com animais, vegetais e entidades geográficas como rios ou montanhas, convertidos em totens como é frequente em sociedades tribais. Ou confunde-se com outras pessoas, atribuindo a elas o que fazem ou vice-versa, o que é muito comum entre as crianças. Não agem desse modo assim como age um delinquente adulto normal, pois ainda que o delinquente não respeite os direitos constituídos, podemos imputar a ele a culpa por não fazê-lo, uma vez que sua ação é deliberada, objetiva.
2 Uma pessoa normal, adulta, na sociedade “desenvolvida”, pode exibir traços de imaturidade psíquica, mas isso não a impede de entender as relações legalmente constituídas. A menos que seja positivamente doente, não considera que os outros, ou um certo tipo de outros, tem o dever sagrado de ajoelhar-se aos seus pés. Para efeitos das definições oficialmente instituídas, uma pessoa normal desenvolvida teria repugnância disso ou de presenciar isso ocorrendo ao seu redor. Poderia compreender, se fosse o caso de estar presenciando a cena de uma tribo estranha, porém não a consideraria diversa de atraso mental, deplorável ato de abuso dos direitos humanos do que deve se ajoelhar.
3 Assim um traço típico do subdesenvolvimento considerado atualmente ao Sul, é a presença de intensa desigualdade social quanto a itens da qualidade de vida como acesso ao letramento, à medicina, a boa moradia, a bens culturais, liberdade de expressão, circulação, costume e consciência, etc. O mundo desenvolvido pode ter fortunas colossais pertencentes a pessoas e/ou famílias, mas o nível habitual da qualidade de vida é homogêneo ou se considera que assim deve ser.
c) 1 = o fator “lógico” (de “logos” ou razão) por dois motivos. Primeiro, porque o diagnóstico da normalidade psíquica do ego desenvolvido atribui a este, somente, as capacidades de compreensão das relações lógicas, assim como da produção científica. Antes da Modernidade, com efeito, não houve as ciências como hoje se definem em exercício, as quais votam as anteriores a um caráter pré-científico: eram pré-laboratorial-observacionais e ainda atreladas a autoridade supracientífica, “metafísica” ou “teologia”- conforme se atribui a partir da visão da ciência “moderna”. Por outro lado, o pré-científico como mais propriamente pré-lógico é atribuído às condições que já consideramos pré-egoicas.
2 Segundo, porque o critério da modernidade e a questão de sua definição é o que ocupa todas as teorias - isto é, as “logoi” ou “ciências’ - em algum ramo de sua pesquisa, entre ciências humanas e biológicas.
7 A união dos três termos que acima estudamos, permite entender que “geoegologia’ é a definição da modernidade ocidental como vir a ser do Sujeito na História a partir do ocidente europeu, de modo a estabelecer eurocentricamente todo padrão de desenvolvimento possível. A “Alteregologia” é a assimilação das ciências naqueles países que foram colonizados pelos europeus desde o século XVI, e, assim, deviam aprender o que é desenvolvimento e como obtê-lo. Elas não desenvolvem um ego próprio em termos de uma trajetória do que se pode considerar o Sujeito da História, a cultura europeia em trânsito até a Revolução da modernidade. Mas elas podem refazer esse desenvolvimento como alter-egos do “Centro” ou Sujeito da História, integrando-se naquilo que a história se torna em termos da modernização global. É esse o significado de se formar numa universidade, ou de integrar os trâmites políticos estatais em países que se modernizaram, mesmo considerados sub-desenvolvidos, porém tendo feito um processo social de nacionalidade constitucional. Eles esperam superar seu subdesenvolvimento, na medida em que não apenas a minoria, e sim toda a população, vier algum dia ao status de possivelmente participante das instituições modernizadas.
8 Reunindo o sentido dos três termos que integram a palavra Geoegologia, e já entendendo o complemento alteregológico, resta voltarmos à questão científica da definição da ação desencadeadora do desenvolvimento. Vemos que aqui há uma confusão notável. Pois, por um lado, a Europa somente foi capaz dessa ação de ruptura para com a sociedade tradicional “estamental”, que em seu caso tipificou-se como a do medievo, entre os séculos V e XV. Por outro lado, todas as nações estão engajadas no processo de obter a mesma ruptura na consecução do desenvolvimento. Mas como poderiam as demais sociedades repetir uma ação que só na história europeia foi possível? Que ação seria essa?
Já respondemos parcialmente. O problema com que estamos nos defrontando é esse, a contradição pelo qual a ação está relacionada à colonização mas não se confunde com ela. É preciso, pois, examinar a contradição a partir do conteúdo suposto positivo da ação desenvolvimentista.
II
1 Abstraindo a contradição própria, o enunciado ocidentalista do desenvolvimento define a ação europeia por aquele desenvolvimento social e econômico que desencadeia a revolução política e epistemológica, isto é, científica. Se é desse modo, vemos que já há dois elementos identificáveis.
2 Primeiro, que a revolução da modernidade em si - como sociedade constitucional - é definida em torno do que acontece na Europa após a independência das colônias americanas. As revoluções gloriosa e francesa antecedem a independência, porém as consequências da mudança epocal, histórica, porque de conjunto, só são efetivas a partir do início do século XIX. Segundo, que a partir desse momento, em que há Modernidade nesse sentido estrito, podemos constatar a existência de ciências humanas, como regiões de pesquisa em que se produzem teorias conhecidas e que exibem teorias explicativas da Modernidade em termos de evolução psicossocial. Ou seja, o que aqui estamos designando a Geoegologia.
3 Assim, podemos considerar a Geoegologia, a construção, na forma de teorias e enunciados explicativos, da oposição de primitivo e civilizado, como de subdesenvolvido e desenvolvido, que expressa a inteligibilidade de duas referências geopolíticas: o Centro e a Periferia (margem) relativamente ao processo evolutivo ou Modernidade.
4 Desde já podemos considerar a distorção que constatamos, pois as teorias definem um Centro evolutivo independente, com um processo fechado, isto é, intrínseco, porém ele só é possibilitado pela disponibilização efetiva, na colonização, de uma margem anexada, econômica e conceitualmente, ao status de suplemento, ao mesmo tempo antecedência e alteridade.
5 Ora, ao longo do século XIX, o que a História reporta é a transformação da independência das colônias americanas, inicialmente efetivada como superação do colonialismo escravista, naquilo que hoje é tão conhecido pelo nome de “imperialismo”. Após a consolidação da independência em todo o continente americano, desde a década de vinte daquele século, a Europa estava engajada na definição do novo contexto econômico que se tornou designado como “capitalismo” ou “revolução industrial”, universalizando-se o trabalho assalariado e a produção fabril.
6 As revoluções políticas, no processo de conversão constitucional das nações europeias, tiveram aí sua trajetória interceptada pela transformação da produção econômica. Nas décadas que se seguiram, foram consolidadas as originárias teorias do desenvolvimento na ciência europeia, e elas exibem então a característica de um dever que consideraram legítimo do ponto de vista lógico, coordenar a evolução política do Estado constitucional e a revolução econômica do capitalismo, ambas mediadas pela transformação inaugural das ciências contemporâneas, na teoria da Evolução, após a física de Newton e o método experimental de Galileu, de modo que agora, porém, as ciências dos objetos efetivos eram emancipadas de toda tutela sobrenatural, e eram consideradas pela primeira vez a fonte da verdade fenomênica.
7 É então que constatamos a consequência da distorção paralógica inicial. Essas teorias da Modernidade ou evolução psicossocial são na sua base, um “biologismo” evidente, isto é, a transposição injustificada além da mera analogia, para as ciências humanas, do que era apenas observável como transformismo biológico. Não obstante, todas as formas dessa transposição, vem desde o início sendo definidas pelas ciências correlatas como verdadeira homologia, não mera analogia. As teorias da evolução psicossocial começam a ser elaboradas no momento mesmo em que o fenômeno da Revolução Industrial europeia se manifestava num retorno das antigas metrópoles colonizadoras aos recém-fundados países que haviam sido antes colônias, com o objetivo de comprometer a independência política pela dependência econômica.
8 Quanto a esse fenômeno, vemos que a Revolução Industrial europeia factualmente não aconteceu sem que as nações nela engajadas - nessa época pioneira, a Inglaterra - se lançassem ao objetivo de garantir a Contra-Revolução industrial nas ex-colônias, com a finalidade precípua de monopolizar os seus mercados para serem apenas compradores de produtos industrializados fabricados na Europa. As ex-colônias pagariam a partir de produção limitada a exportação de matérias primas agrícolas para a potência industrial europeia, assim as elites exportadoras das ex-colônias, deviam localmente explorar o povo para que pagasse a diferença entre produto barato exportado e produto caro importado. Dessa distorção ou “imperialismo” decorrem as deformações típicas das sociedades ditas subdesenvolvidas do terceiro mundo: esquemas de perpetuação da desigualdade social, em vez de sistemas de mobilidade social; capacidade de exploração forçadamente ociosa, de que decorre subemprego crônico e marginalização da população; ausência de investimento e gasto internos que socializariam os proventos obtidos pela consumação de mercadorias, já que os que as fabricam e vendem são companhias estrangeiras que gastam o que haurem aqui em seus países de origem. Todos os itens anulados pelos esquemas distorcidos são porém o correlato de um Estado constitucional. A contradição do sub-desenvolvimento mostra pois, que há Estado constitucional mas não o resultado que dele se segue, portanto subsistindo meios de desvio. Sendo o meio de desvio os procedimenos imperialistas - em termos sistêmicos, não apenas circunstanciais - não há tipicamente investimento progressivo do letramento escolar e qualificação de mão de obra, saúde, habitação, investimento em pesquisa, em sociologia localizada para conhecimento e solução dos problemas, etc.
9 E, logo depois, como as demais nações europeias seguiram o percurso inglês na produção fabril, mas as Américas estavam tomadas pela Inglaterra, ocorreu o “neocolonialismo”. Ou seja, uma nova tomada de territórios pelas nações europeias, inclusive a Inglaterra, agora na Ásia e na África, cujos povos foram reduzidos a protetorados de países europeus, conforme mapa estabelecido, no final do século XIX, dos “direitos” neocoloniais - isto é, mapa dos domínios europeus forçados pelas armas aos nativos, com total ilegalidade do direito internacional, mas este ignorado quando se trata do colonialismo.
10 O imperialismo se define pois, classicamente, pela dominação econômica inglesa sobre a América, com exceção dos Estados Unidos, ou seja, dominação que já não necessita ser política, como anteriormente. Assim, a designação usual de neocolonialismo, também é considerado imperialismo, quer porque o “protetorado” que caracterizou o novo meio de dominação europeia, não é bem como a posse do período colonial escravista, ainda que seja um domínio efetivo; ou porque está incorporando um sistema produtivo que já é capitalista, industrial.
11 As teorias científicas, que estavam a braços com a tarefa de coordenar num conceito único de Modernidade, a Revolução Industrial e Política, não tiveram qualquer consciência de que se lançavam assim a um mero biologismo. Elas construíram a oposição Centro/Margem (periferia) como de desenvolvido e subdesenvolvido, civilizado e primitivo, apenas com base na diferença da posse ou carência da ciência empírica, que assim ao mesmo tempo era o que explicava e o que estava sendo explicado como a Modernidade. O modo pelo qual obtiveram o disfarce dessa paralogia gritante, além das limitações da biologia pré-mendeliana da época, foi tipicamente a consecução de teorias sobre o Capitalismo, que abstraíam deliberada e completamente a ação de Contra-Revolução industrial na margem anexada pela Revolução Industrial feita assim exclusiva do centro.
12 Entre Marx e o capitalismo como transição racional ao comunismo científico, Spencer e o capitalismo emancipatório ilimitado, ou Weber e o capitalismo como controle burocrático social ilimitado, exemplificam-se as três principais teorias do capitalismo clássico, que expressamente endereçam críticas a qualquer pretensão de inclusão do colonialismo e/ou imperialismo na definição do que ele seja, além de meras circunstâncias inessenciais. [ nota 2 ] Elas podem ser designadas “grandes teorias” porque coordenam o aspecto da evolução psicossocial na sua definição universal do capitalismo. São também designadas “grandes relatos” porque atuam como fator narrativizante da História, reduzindo-a a uma certeza sobre o desenrolar futuro dos fatos a partir do que enunciam como suposta objetividade do fenômenos sociais. O que chamamos hoje “grandes teorias”, são portanto, teorias de abrangência total relativamente a quaisquer indagações possíveis em ciências humanas. Elas são modelos de pesquisa, aos quais toda averiguação que vise responder a uma pergunta já está metodologicamente subordinado, isto é, não há pergunta que não tenha seu sentido previamente autorizado pelo modelo.
13 Para assim se constituírem, as grandes teorias utilizam informações de todos os campos das ciências humanas. Estes campos são, recursivamente, fontes de grandes teorias em seus próprios domínios, que, desse modo, estão coordenadas por sua vez, às do capitalismo. A Geoegologia é o modo pelo qual as ciências manifestam, invariável e sistematicamente, pressupostos comuns, de modo que nunca uma ciência, naquilo que ela precisa ser servida por noções prévias, vai solicitá-las a alguma fonte que não seja ela mesma científica.
14 Se por “epistemologia” entendemos a “teoria das ciências”, que investiga pressupostos de inteligibilidade utilizados nas ciências, ela tem aqui um horizonte de investigação notável. Porém com a ressalva de que pela primeira vez aquilo que ela investiga é conscientemente não a inteligibilidade lógica, mas a torção paralógica de um discurso da ciência, enquanto Geoegologia em ato.
15 Por esse motivo, designamos a Geoegologia enquanto o projeto de leitura epistemológica da modernidade, leitura que desvenda o que está ocorrendo em ato como neurose social do imperialismo na forma da dominação cultural do discurso paralógico desenvolvimentista, uma teoria apenas como um modo introdutório de falar a propósito. Na verdade não se trata de uma teoria positiva, mas de uma metacrítica, como já especifiquei a partir de um posicionamento metateórico. Ou seja, um posicionamento que atravessa a oposição de método e de conceito que define a diferença entre as teorias positivamente existentes. A geoegologia como leitura da modernidade, é uma metateoria ou metacrítica como ciência do “desenvolvimento” que em ato constitui a própria modernidade.
16 A Geoegologia em ato como ciência do Centro, se concretizou, pois, no enunciado de teorias do desenvolvimento que tem por objeto um processo ou sistema fechado, intrinsecamente europeu, definindo porém as condições de possibilidade da evolução psicossocial universal.
17 Na margem anexada teoricamente como a oposição do status desenvolvido, a Alteregologia tem sido o processo de dominação cultural em função de que todo conhecimento local deve ser subsumido à assimilação do conceito desenvolvimentista produzido pela definição teórica central. Não obstante a teoria central definir a natureza do primitivo local, o que é locamente observável não tem valor de pesquisa como campo de prova do status previsto, ao menos não para pesquisa local autônoma. A tarefa do Saber institucionalmente reconhecida se limita a cópia da teoria central resumida para efeitos de utilização aplicada à política desenvolvimentista local.
18 A produção teórica da Modernidade, entre os séculos XIX e XX, pode ser inteiramente coberta pela leitura geoegológica, isto é, pela utilização dos seus instrumentos analíticos. O trecho seguinte é exclusivamente voltado à definição destes instrumentos e também à demonstração de sua aplicabilidade.
3) Os paradigmas científicos do desenvolvimento
I)
1 Em síntese, o que vimos acima estipula a Geoegologia como o meio da atuação cultural do capitalismo, e a este redefinimos como Imperialismo. Em vez do que as “grandes teorias” há muito conhecidas preconizam em termos de processo intrínseco da racionalidade “ocidental”, o capitalismo é aqui redefinido como assimetria internacional do capital, interligação colonizadora e contra-revolução industrial como imperialismo na margem, ordenada a partir do centro gepolítico da dominação econômica funcionando como Revolução industrial restrita a essse centro. A assimetria internacional do capital é pois um funcionamento marginalizante, de anexação geopolítica do que se torna assim dependente, e por meios de dominação variados, sempre com um escopo manifesto de exploração econômica, e um escopo latente de comprovação da natureza exclusiva do colonizador ocidental como Sujeito da História da racionalidade/ desenvolvimento da humanidade/ autoconsciência psicossocial da subjetividade.
2 O instrumento analítico de redefinição da assimetria internacional do capital já permite localizar um sintoma geoegológico, isto é, da neurose social do imperialismo. O estudo da industrialização em ciência social, assim como na geografia humana, tem um capítulo consagrado ao tema da localização da indústria, visando explicar porque ela é espacialmente circunscrita assim como se apresenta, concentrada em países centrais. Mas as circunstâncias explicativas omitem o principal, a saber, a Contra-Revolução pela força na margem, de modo que as nações centrais impedem, pelo “imperialismo”, que estas se industrializem de modo independente. Impedem que existam indústrias não apenas na Europa, ou, desde o século XX, não apenas de capital “imperialista”, europeu, japonês ou estadunidense.
3 A complementaridade de Revolução (centro) e Contra-Revolução (margem) Industrial, enquanto complementaridade definidora da Modernidade, é portanto o escopo da demonstração da Geoegologia em estudos históricos a propósio dos passados dois séculos. Por outro lado, como ressaltamos, a paralogia geoegológica consiste em princípio gerativo de teorias em ciências quaisquer que definem a Modernidade por oclusão do fator contra-revolucionário ativo do imperialismo, conforme o pressuposto de o que o capitalismo seria essencialmente diferente deste último, um processo de desenvolvimento racional intrinsecamente europeu definido como Revolução científico-industrial e política-constitucional.
4 Como a geoegologia tem um desdobramento alteregológico, resta que mesmo a oposição ao capitalismo na margem permanece sintomaticamente condicionado pela oclusão. Para efeitos de organização modernizante, com expresso objetivo pós-estamental, o enfrentamento das forças contra-revolucionárias-industriais dos partidos e movimentos de libertação nacional na margem só tem sido feito pela utilização do “saber” teórico-político importado do Centro. Mas este não tem conceito para a situação efetiva da Margem, posto que nenhuma teoria do capitalismo disponível na ciência ocidental pode abranger a visibilidade do imperialismo, o investimento contra-revolucionário industrial na margem.
5 Assim a Esquerda modernizante na margem está clivada pela contradição oriunda do sintoma geoegológico do Sujeito centrado. O imperialismo atua na prática como os sistemas de integração das economias não industriais ao sistema de compras de produtos industrializados, na base ficctícia de que assim aquelas economias se modernizarão, via assimilação cultural.
6 As esquerdas vão pugnar para que essa modernização, assim causalmente condicionada, ocorra, supondo que aquilo contra que se batem são meios de impedir que o efeito se siga da causa. E meios apenas localmente sedimentados, o latifúndio de exportação agrícola ( primária ), mesmo que se saiba que por aliança com os interesses exportadores industrializados ( secundários ), internacionais. Porém, o que ocorre na efetividade é que não existe industrialização na escala revolucionária prevista, que não seja imperialismo. Como o terceiro mundo é o próprio objeto do imperialismo, não há para ele um outro mundo a explorar.
7 Além disso, as esquerdas que jamais confrontam essa realidade, atuarão sintomaticamente contra a evidência dela, porque sua própria consciência é condicionada pelas teorias da modernização centrais, que se opõe, pelos motivos e modos que vimos, à autonomia do processo econômico nacional. E uma vez que as teorias centrais dispõem a cultura ocidental como o fiat do desenvolvimento psicossocial, as esquerdas estarão interessadas em impor o modelo dessa cultura, recalcando a heterogeneidade local, seja “antropológica”, seja a interlocução histórica atual questionadora dos pressupostos da “modernidade” capitalística, como fator de atraso.
8 Os instrumentos analíticos da leitura geoegológica da modernidade permitem desvendar os sintomas da neurose social do imperialismo, como contradições discursivas intematizadas, oriundas da oclusão deliberada dos fatos que evidenciam o contrário do a priori ocidentalista. As contradições inconscientes porém a quem as enuncia de modo gritante, são portanto a perversão analisável.
9 E o complemento analítica da leitura alteregológica, demonstra o sintoma masoquista, a negação explícita, como cultura, do que é entretanto expresso como produção cultural existente, se não pre-ordenada como cópia da teoria central.
10 Não obstante resultar assim na igualdade tão obrigatória quanto fantasiosa da cópia ao modelo, proibitiva da heterogeneidade da criação local, trata-se sintomaticamente da constante de fórmulas enunciativas de auto-inferiorização da consciência “subdesenvolvida”, sendo de bom tom estar sabendo e expressar esse saber de ser impossível igualar-se com a inteligência do centro. Nessa contradição do igual porém inferior, a alteregologia se constroi.
11 O que se furta ao imperativo alteregológico é pois votado ao achincalhe brutal, quando registrado, disseminando-se inversamente mais amiúde estratégias de silêncio sobre os lançamentos. E isso tanto mais quanto a produção cultural estiver institucionalizada - portanto, não como postura expressa de anti-nacionalismo, ao contrário. Ao longo do século XIX, como não havia faculdade de ciências humanas ou filosofia, houve produção local importante de pensadores nacionais. Apresentavam conceitos originais em interlocução situada com a teoria internacional, como Antonio Pedro de Figueiredo e a Escola de Recife, de Tobias Barreto, este com vários seguidores de obras expressivas, até o modernismo pioneiro, que liberou com Oswald de Andrade mudanças importantes na teoria do inconsciente freudiano, que hoje seriam consideradas aproximáveis ao pós-estruturalismo - porém com vantagem de crítica ao fator preconceituoso das teorias europeias, não obstante as limitações da antropologia da época. A faculdade de filosofia de São Paulo, criada nas décadas iniciais do século XX, de modo nenhum os canonizou como conteúdo do seu curriculum.
Pelo contrário, até hoje publicam-se livros jactando-se de que a criação da faculdade de filosofia no início do século XX, produziu a limpeza desse assim considerado lixo. Tendo a recém-fundada USP (universidade de São Paulo) o orçamento todo comprometido com a importação de professores franceses, que deviam ser aqui residentes por períodos, monopolizando o curriculum. [nota 3]
12 A posterior profissionalização do docente brasileiro de filosofia e ciências humanas, após o início reservado aos professores franceses, não alterou até hoje o fato do curriculum continuar sendo de exclusivo conteúdo das teorias europeias, principalmente francesas, inglesas e alemãs, e mais recentemente também norte-americanas.
13 Os pensadores brasileiros do século XIX eram de extração popular, Tobias Barreto tendo morrido na miséria, mendigando a caridade pública, Pedro de Figueiredo alcunhado o “Cousin fusco”, por ser mulato e também tradutor. O mencionado livro que os achicalha, de publicação algo recente, para comemorar a importação dos franceses, trata as produções de brasileiros que se fizeram importantes ao longo do século XX como apenas epifenômenos da docência na USP, isto é, por serem cópias dos estrangeiros. Tendo assim produções restritas a comentário dos temas europeus. Colocando o mencionado livro, como um inquietante problema, o porque de se assinalar, porém, a produção escrita de um que tendo mestrado uspiano, não tinha carreira docente. A hipótese explicativa de tamanha suposta aberração foi de que ele estava assim perpetuando sua ascendência senhorial.
14 A posição alteregológica do intelectual, seja de esquerda ou direita, não é portanto, de alguém que precisa saber o que há, enquanto alguém que pesquisa a história e a cultura existentes, mas apenas de alguém que vai impor o que deve ser, enquanto aquele que vai iniciar a História ao revelar aqui a teoria sancionada do momento copiada do “Centro”. Repetindo, isso tanto mais nacionalista se considera. E, assim, seu juízo não é sobre o bom e o mau, como pretexto de sua exposição de motivos, crítica e/ou tética, em todo caso entretecida do próprio intertexto. Mas sobre o que existe ou não, independente da efetividade conhecida. Reitera-se desse modo a carência da pesquisa da situação e mentalidade nacionais, e a fantasia de que o produzido autenticamente nacional não vale a não ser que fosse a verdade absoluta. Não há o trabalho do negativo, a compreeensão, intencionalmente superadora, dos erros, assim como a compreensão do sentido histórico deles enquanto expressões da realidade local, que se quereria compreender qual era na época. É pelo contrário o que não se quer admitir sequer que exista. Por outro lado, a importação cultural do alterego do centro é contraditória, pois ao mesmo tempo que subsumida a cursos no exterior e total submissão ao teórico central de sua eleição, de modo a conhecer exaustivamente a obra do “ego”, seleciona para efeitos de influência local apenas o que pode interessar a uma receita aplicada de política desenvolvimentista, a fórmula de monopólio departamental e/ou partidário que serve também como crivo na modelização da personalidade aproveitável.
15 Houve um interregno heterogêneo algo significativo decorrente da ideologia do país “em desenvolvimento”, e com origem no modernismo pioneiro. Porém a “globalização” tem sido um retrocesso radical, com descompasso programado da interlocução local à pós-modernidade.
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II)
1 Neste trecho iremos examinar as teorias da modernidade sob o ângulo de sua coordenação a modos determinados da atuação capitalística. Assim o básico aqui é a asserção de que as teorias que evoluem na trajetória do Saber moderno-ocidental não mudam de modo fortuito. Elas exibem padrão de mudança tão estabilizado que permitem ser conceituados verdadeiros a prioris ou paradigmas históricos. Por a priori ou paradigma (modelo) entendemos o conjunto de enunciados que, ao modo de crenças básicas, ordena as formações expressivas de sentido. Eles são qualificados históricos porque são mutáveis, ao contrário do uso kantiano do termo, referente aos esquemas básicos da razão universal.
2 Ao contrário de Foucault e outros, não obstante a expressão “a priori histórico epistemológico” ser introduzida na “Arqueologia do Saber”, não considero que há um a priori histórico designativo da Modernidade, esta como a única mutação definível por oposição a idades anteriores. Mas sim que há, ao longo da Modernidade, vários a prioris histórico epistemológicos, em número e natureza definíveis. Não obstante serem todos coordenados à condição da Modernidade enquanto Geoegologia.
3 Portanto, não lido com o a priori nos termos da alternativa entre ser puramente fortuito, um arranjo da razão que ajustou as coisas, ou corresponder a uma ordem de sucessão determinada desde o passado ante-moderno. Os a prioris sucessivos da modernidade que a geoegologia permite reconstituir são culturalmente coordenados, formando um sistema desejante do domínio da “periferia”, um discurso de legitimação da dominação imperialista. Assim eles tem um sentido histórico nessa acepção mais própria. Respondem pois como um desejo situado, colonial-imperialista, como a modulação moderna da antiga neurose de superioridade aristocrática, a partir da situação desencadeada pela ruptura da tradição do saber conhecido, na coação reordenadora da geografia e antropologia, desde a descoberta do continente americano. A descoberta ultramarina nunca foi um mero fato de saber, mas correspondeu à transformação econômica e social da colonização capitalística que não foi ordenada apenas por necessidade empírica ou organização racional. A situação da descoberta expressou um desejo de domínio interrelacionado ao desamparo do Saber conhecido, na ruptura das certezas anteriores sobre o homem e o mundo. Esse desejo manifesta-se pois como de um saber sobre si, de reafirmação da identidade. Desejo neurótico, pois, oriundo da fantasia de que as mudanças necessariamente assumidas a propósito dos outros e do mundo não precisam corresponder a mudanças do próprio auto-conceito até então pressuposto.
4 Os a prioris que estabelecem o sentido da modernidade como fato identitário do Ocidente colonizador, condicionam sucessivamente todas as teorias de ciências humanas conhecidas. A pergunta pela sua relação com a cultura ante-moderna só pode ter resposta intra-teórica. Qualquer pesquisa do assim considerado passado temporal, seja histórica ou antropológica, seja de referenciais considerados ocidentalmente incorporáveis ou não, está orientada por alguma teoria coberta pelas premissas básicas de um a priori histórico da modernidade. E uma vez que o campo teórico não se reduz jamais a uma só teoria ou premissa, o que temos é a subsunção de qualquer proferimento com sentido acerca de qualquer cenário do passado histórico-antropológico, à mesma variação, como produto teórico localizado em algum específico paradigma presente. A pós-modernidade é o momento em que os modelos paralógicos foram exauridos, mas as rupturas para com tão vasta abrangência do saber devem pois resultar de críticas que estão começando a ser feitas recentemente.
5 A leitura geoegológica não se reduz a paráfrase das teorias - epistemológicas e estéticas - existentes, forçando-as a caberem em estilos de época. Ela visa unicamente o elo de ligação dos conceitos de alguma teoria, com o que a mesma teoria produz em termos de estereótipo da margem, sua definição da condição do não moderno ocidental, isto é, do “primitivo” ou “subdesenvolvido”. As teorias são sempre enunciados que definem o que é a modernidade ocidental, e, consequentemente, constroem um discurso geopolítico sobre o que não é. Esse discurso é geopolítico por instituir aos outros povos a definição do que eles são, como sua diferença relativamente ao Ocidente, conforme o que a teoria especifica que seja o definiendum do progresso exemplarmente concretizado neste.
6 A leitura geoegológica analisa o discurso como tecido de contradições, na medida que as informações efetivas - históricas, psicológicas, antropológicas - com que uma teoria precisa se nutrir em sua própria área, vindo de outras áreas, são distorcidas para caberem no estereótipo pré-compreensivo e desejante, de imposição definidora do “outro” como “anterior”.
7 A distorção sistêmica tem vários meios de se fazer. Ora os dados são assimilados num ponto mas esquecidos em outro, de modo que dados diferentes servem ao mesmo argumento uma vez que a constância do dado impediria a construção dele (ex: Hegel constata que os primitivos tem cultura, porém, a seguir, que eles não tem autoconsciência, assim, não tem cultura na acepção do Estado) . Ora a área de que o dado se originou já o considera obsoleto, porém continua a ser referenciado como válido naquela em que serviu como base, abstraindo pois o que se conhece atualmente na área de origem, e que não confirmaria a construção (ex: a reutilização da antropologia de Morgan pelo pós-estruturalismo, no “Anti-Édipo” de Deleuze-Guattari). Ora elementos os mais conspícuos da realidade política atual são espantosamente obliterados para construção do estereótipo da atualidade que num certo ponto seria o oposto do arcaico - porém esse ponto integrando plenamente o obliterado (ex; a definição foucaultiana da modernidade como abrandamento das penalidades, esquecendo o nazismo e na época das ditaduras militares na América Latina).
8 A integração discursiva geo-alter-egológica é produzida assim, com o estereótipo do “outro” subdesenvolvido sendo assimilado na margem como sua mais nova condição - enquanto nova definição dela - por recalcar, conforme o conteúdo positivo do “desenvolvimento”. Este a se implementar na gênese alteregológica da História que, na “margem”, não é o conceito do passado informado pelo interesse historiador do presente, mas como gênese do presente é o enunciado do futuro. Paralelamente está ocorrendo o que já vimos em termos de integração imperialista Norte/Sul, o processo de marginalização /anexação das economias dependentes ao capitalismo central que repete por outros meios a integração colonialista.
9 Há pois total coordenação entre um enunciado paradigmático-opositivo de desenvolvimento e subdesenvolvimento, e a forma que assume a integração imperialista Norte-Sul num momento do tempo. A sucessão dos paradigmas constroi-se como discurso do (sobre o) primitivo, enquanto informa a prática de dominação imperialista que está se exercendo sobre ele.
10 Os paradigmas da Modernidade foram: Romanticismo, Positivismo, Funcionalismo, e Estruturalismos (ortodoxo e pós-estrutural). Eles podem ser considerados formas de inteligibilidade sujeito/objeto. O Sujeito da História dispõe o objeto-margem na oposição construtora da ideologia do desenvolvimento como auto-conceito da subjetividade.
11 As teorias do sujeito que vem evoluindo desde o primeiro paradigma, mudam, portanto, isomorficamente à mudança na prática imperialista que dispõe, a cada vez, visibilidade ampliada do objeto “margem”, assim como a alteração do sentido do objeto relativamente às novas possibilidade do sujeito dominá-lo. Todos os paradigmas e teorias que condicionam a oposição centro e margem enunciam pois, a priori, a oposição do primitivo e civilizado subjetivado. Mas só na altura do Funcionalismo, em inícios do século XX, a psicopatologia nascente sistematizou a oposição de primitivo e civilizado em termos de um sub-consciente pré-egológico, com as escolas de psicologia formando-se em torno de hipósteses de sua constituição. Ou seja, hipostasiando a existência do inconsciente ou condição pré-egológica, a ele subordinando todo o visto e visível para efeitos de parâmetro explicativo do “desenvolvimento”.
12 Formou-se o dogma comum a todas as escolas de psicologia, de que uma doença mental é uma fixação numa fase da formação pré-egológica, definida esta como a trajetória do pré-egológico até a formação do ego - isto é, o “desenvolvimento”. Assim também um tipo de sociedade primitiva corresponderia a uma fase pré-egológica, porém comunitariamente integrada, a condição de atraso é homóloga à da patologia sem confundir-se totalmene com ela - na ambiguidade característica do enunciado paralógico ocidentalista. [nota 4]
12’ A psicanálise surge entre essas escolas, com uma hipótese própria, pela qual redesignou o sub-consciente em termos de inconsciente. Aqui as fases da formação egológica foram interpretadas como regimes de objetualidade, visando porém teleologicamente a objetividade, o ego formado sendo o sujeito epistêmico, aquele produtor possível da ciência. A objetividade é ela mesma um pressuposto historicamente situado, porém. Hoje consideramos o objeto epistêmico de um modo mais relacional, contextualizado, do que na época de Freud, porém o que ocorre é que pela objetividade como era então visável, as fases da egologia foram conceituadas de um modo que minha concepção da geoegologia discerniu podermos coordenar aos paradigmas da modernidade. Uma vez que o telos objetivo é uma objetividade exaustivamente opositiva, e não relacional, de modo que o discurso de um “primitivo” oposto a “civilizado” fosse justificado.
13 É impressionante a força de preensão do a priori, uma vez que a psicanálise de Lacan explora o fato de que a enformação psicanalítica justamente deve lidar com um estado de ser em que a oposição enquanto tal está para ser construída, não sendo definida na sua natureza. Assim podendo fazer a crítica da paralogia do fundamento-suplemento - como o fundamento segrega um suplemento que porém não poderia ser pensado por si, fora da segregação de si - e efetivamente tendo-a feito, não avança Lacan à evidência de que essa paralogia é a do seu próprio discurso enquanto constituído inteiramente conforme a oposição do primitivo e civilizado. Aqui o conhecimento prévio da psicanálise, de Totem e Tabu (Freud) aos conceitos lacanianos, seria importante, porém não indispensáveis, mantendo-se o presente texto legível a partir do que expomos. O discurso tipicamente freudiano sendo a primeira fase do desenvolvimento, o animismo anárquico tribal (narcisismo primário/oralidade); a segunda o totemismo religioso imperial (sadismo-anal); e depois a maturação constitucional da sociedade científica (objetividade genital). O fator do progresso é a passagem da promiscuidade sexual e poliandria ao patriarcado, onde o sujeito já não tem dúvida sobre quem é o seu pai.
14 Assim vemos um exemplo da distorção pela qual o dado conhecido (a oposição originária, do gênero sexual, é a paralogia “inconsciente” fundamento-suplemento, o que a objetividade compreende criticamente como tal) torna-se depois esquecido (as sociedades não-moderno-ocidentais são pré-genitais, opositivamente ao ocidente moderno). Vemos também que é por homologia, não mera analogia, que a ciência ocidental opera a sobreposição entre fases de maturação egológica do sujeito particular e da sociedade. Justifica-se o uso da expressão evolução psicossocial.
15 A leitura geoegológica dos paradigmas da modernidade, definindo as contradições deles e o modo como eles situam o objeto margem, constata poder interpretá-los como fases do inconsciente psicanalítico, objetualidades - linguagens típicas dessas fases. Isso é coerente, se o telos dessa trajetória é uma oposição simples inteiramente objetiva, e os estágios imaturos sendo considerados defasagens justamente com relação à capacidade de definição não ambígua do objeto - não havendo o relacional independente da dicotomia de ambíguo e opositivo. Porém mostrando nós que, ao contrário do previsto por Freud, após a maturação “genital” ocorre uma regressão “neoanal”. A seguir vamos examinar os paradigmas geoegológicos e definir esses termos, assim mostrando em que podemos conceitua-los em termos de fases psicanalíticas.
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III
a) o pre-texto classicista (sécs. XVII e XVIII)
1 Se as fases da formação egológica psicanalítica podem ser interpretadas conforme Lacan, como fases da integração langue-parole (regras da língua-pragmática da fala) até a performance ótima do falante que pode inclusive burlar o cânon para fazer piada ou poema modernista sem perder o fio só por isso, o ego seria a consciência da movência entre o “eu” e o “tu” da linguagem. Mas assim poderíamos ressignificar a homologia. Essa hiância se prefigura pelo mar dos navegantes, entre Europa e América. Os paradigmas sucessivos da Modernidade foram pois, pre-ordenados pelo discurso desse grande susto - a descoberta de um continente indedutível, e de um aborígine nú, sem hierarquia, à margem do grande mar.
2 Empirismo. A metafísica idealista, nessa época protagonizando pelo aparelho silogístico do tomismo cristão a tradição greco-romana do Saber, já não dá conta. As Américas, é ver para crer. Descartes, um século depois, fará o remendo racionalista, e estará instaurado o período classicista, após a loucura erasminana dos Renascimentos. Porém, quanto ao racionalismo, só tendo linha para consertar o estrago no saber. Restou por relegitimar o poder. Aí só o empirismo se sentiria à vontade.
3 Mais uma demonstração de que a psicanálise não diz tudo, é essa evidência de que se houve - só então, depois de mil e quinhentos anos - progresso político, ele não pode ser explicado apenas pelo avançar do significante operatório no saber. E isso, mesmo que esse seja efetivamente um progresso, na medida em que inegável o fator da autoconsciência, o que diferencia totalmente o surto democrático grego e a transformação constitucional da civilização moderna. O empirismo do saber é o mesmo de Hobbes a Locke, porém não é Hobbes, e sim Locke, quem enuncia a ruptura liberal do poder.
4 A soldagem geoegológica de feitio recente, tem se obstinado em reconduzir ao mesmo essa insanável ruptura - como no feminismo habermasiano de Seyla Benhabib, considerando tudo por igual, um imenso acordo do “sujeito generalizado”, como se Rawls devesse saber essa duvidosa injunção de que nem todas as pessoas deveriam obedecer às mesmas leis. As contradições geoegológicas são feitas de retrocessos. Porém, ao contrário do que Benhabib pressupõe, entre Hobbes e Locke não se trata do mesmo sujeito da soberania, o pater familis.
5 Entre ambos se tipifica uma região teórica nova, pós-feudal, que se designa a “teoria política” do classicismo, porém de fato podemos especificar a “teoria política”, enquanto pensamento introdutor do liberalismo contemporâneo, apenas desde Locke.
6 Hobbes, teórico da monarquia tradicional, utiliza-se do pai de família como origem natural da monarquia, o pai da família antiga seria o prototípico rei. Mas a ruptura liberal de Locke, teórico da constituição parlamentar, se introduz justamente pela negação de que na origem natural existisse qualquer função hierárquica desse gênero. A regressão benhabiana exibe o sintoma desse cegamento: qual questão poderia ser mais importante do ponto de vista analítico do discurso do liberalismo pioneiro, do que esse elemento conceitual que nunca se viu antes - a origem natural? Contudo, ela jamais atenta para isso. [nota 5]
7 É interessante como Hobbes é ambíguo, uma vez que ele já utiliza o elemento novo, e a origem legitimadora é natural, não sagrada, metafísica, etc.; eis porque ele já integra uma forma de “teoria política”. Porém esse elemento é nele reconduzido à tradição pré-teórica, assim ele considera exemplar o que distorce como a função de soberania da organização social grega, em todo caso, supondo-a como testemunho suficiente de como devem ter sido as coisas na origem da organização civil. Elas seriam sempre coerentes ao conceito da autoridade necessária, encarnado exemplarmente na monarquia absoluta.
8 A ambiguidade é o recuo hobbesiano da origem, entre a organização e a efetividade do que a origem precisa agora não deixar de ser - o selvagem nu americano - mas ele a distorce ao conceitua-lo como estado de guerra de todos contra todos, a desorganização impossível de manter-se, autonegadora, que implica a ordem antípoda.
9 Em Locke, pelo contrário, a origem natural não recua, é agora como efetivamente se descobriu - ou já ideologicamente nomeou - o aborígine americano. Não, pois, uma origem pré-teórica, a tradição, mas o que empiricamente se constatou realidade. Estes aborígines que ao contrário do que diz Hobbes, é constatável vivendo em livre harmonia consigo mesmo na natureza, nutrindo-se do seu trabalho, sem qualquer laço de dependência autoritária a outros.
10 Pode ser que entre Hobbes e Locke, tenha havido mudança substancial na qualidade da informação dos viajantes europeus sobre a América - uma mudança que se constata no interior da obra de Montaigne, primeiro considerando o aborígine um animal bruto, mas depois já consciente de que são pessoas humanas sendo oprimidas pela rapina colonizadora. O teatro europeu nessa época começa a se povoar de temas da violência sobre o pobre selvagem indefeso, quando antes a Europa estava cheia de narrativas fantásticas sobre os monstros aborígines achados nas Américas. Em todo caso, por causa do incremento do teor informativo ou por uma diferença intencional, Locke faz a origem natural, a pessoa do aborígine americano, fundamento aquilo que individualmente somos, e que qualquer organização social tem por dever garantir. Se a caracterização dele como origem - antecedência, “outro” suplementar - é injustificada, e a justificação mesma intematizada, na verdade o aborígine já é apenas a prova por evidência da origem absolutamente inaugural. Assim o estágio tribal do aborígine testemunha dela, mas já se estabilizou numa comparação possível com o regime dos Juízes bíblicos.
11 A pergunta sobre porque se precisaria da organização social, se na origem ou na primeira estabilização a espontaneidade é a liberdade da pessoa, é o lugar da reenunciação aporética do progresso. Se em Locke a organização social plenamente racional não é o que já existe, mas o que deverá existir por uma ação consciente, cientificamente embasada, o estado de guerra é reintroduzido como o conceito degenerativo, o que aconteceu entre o estado originário natural e o que deverá ser instituído pelas justificativas desse seu “Segundo Tratado do Governo”, que é o documento de identidade da Revolução Gloriosa na Inglaterra.
12 O Estado de guerra em Locke é pois a violência originária de degenerados que solapam o trabalho individual do homem livre na origem. Mas o estado de guerra, como de abuso do homem pelo homem, sendo capaz de se radicalizar nas formas da monarquia absoluta e do escravismo. Ambos não tendo para Locke qualquer diferença classificatória relativamente à violência da guerra propriamente dita. Como conceito geral de violência, trata-se daquele estado de coisas em que só se pode apelar para Deus num litígio, ou seja, em que a decisão entre os homens se faz pela força bruta. Conforme Locke não havendo qualquer justificativa intrínseca de escravismo ou monarquia não constitucional. Se há magistrado julgando acima dos litigantes, por leis referendadas conforme os direitos de ambos e que ambos consideram nesse status, então já se está na civilização. A constituição parlamentar como regime legítimo repõe o elemento da legalidade que o magistrado, formal e originalmente, personifica. [nota 6] A crítica de Locke aos “privilégios” injustificáveis é verdadeiramente corrosiva. A aparência da lei não é lei, se não há nela qualquer “legitimidade”, o importante aqui sendo o fundamento da legalidade como do que respeita a natureza dos seres humanos, não havendo função de lei ulterior a esta.
13 Rousseau transformará o conceito degenerativo, na própria tessitura da sociedade pré-teórica, isto é, da tradição europeia conhecida. O aborígine livre das Américas continua, como em Locke, o protótipo da origem sem sociedade, pré-social, a natureza de cada um, etc., porém para Rousseau houve fatores naturais, como intempéries, que o obrigaram a agrupar-se, e desde os primeiros ciúmes, as primeiras competições, até a estabilização dos domínios de grupos sobre grupos, a cultura teve essa função degenerativa de ser a fonte dos mitos de soberania, a fundamentação ideológica do crime, como nos grandes aparatos do idealismo aristocrático. Até a ciência moderna do “pacto social” - aqui, do mesmo modo que o liberalismo de Locke - em que a descoberta da verdadeira origem, o primitivo ultramarino, secunda o homem verdadeiramente civilizado, na autoconsciência do pacto social que deve resgatar as garantias da pessoa. Se Roussseau não pensava o parlamentarismo, mas a constituição outorgada, ele não é menos liberal se o que a constituição deve outorgar são essas garantias individuais.
14 Entre Locke e Rousseau, vemos sedimentar-se a articulação discursiva do primitivo ou origem natural, construída por si a oposição ao estado de sociedade ocidental. A identidade “social”, “autoconsciente”, “científico-racional”, “civilizada”, blindada contra a degeneração, do colonizador, se torna afirmada, pioneiramente, nessa oposição. A articulação pre-textual da Geoegologia ou Modernidade coloca três fatores estruturantes:
= O primitivo é a origem natural, em vez de ser apenas um povo estrangeiro até então desconhecido, e “natural” significa “pré-social” nesse contexto , não o oposto de “humano” em geral; a origem natural é atribuída como o estado mais simples possível do viver humano, observável.
Bem ao contrário do que pretendeu sintomaticamente Levi-Strauss no discurso do Japão, (“A antropologia diante dos problemas do mundo moderno”, São Paulo, Cia. das Letras, 2012), a recepção pioneira da América na consciência europeia, como algo apto a suscitar em seguida a teoria política, não podia se reduzir a assimilação indiferente do índio com seres dos mitos conhecidos, e já Américo Vespúcio havia desfeito a confusão do contiente americano com a Ásia. A consciência europeia institui a paralogia de seres originários (carnais, como “nós”), porém inferiores, não desenvolvidos (pré-sociais, diferentes de “nós”), enquanto o mito enuncia seres ideais, superiores a nós. Ninguém que participe da recepção do mito iria deixar de ter a fantasia de ser como o ser perfeito dele, mas nenhum ocidental quer ser aborígine. Afinal o mito não muda o conhecimento existente, é feito para ratificá-lo: não somos ideais mas é como devemos ser, segundo o ideal (Por que o ideal é esse, e como podemos ser o que não somos? - a ideologia não explica); a consciência europeia acerca do aborígine deriva da ruptura da crença, suscitada pela descoberta, não obstante a paralogia desejante do domínio.
É realmente um absurdo o estereótipo straussiano japonês de redução do papel do aborígine no ocidente ao mito dos seres perfeitos a meio oceano da antiga literatura oriental ou do relato bíblico do gênesis, proferido com a finalidade de negar qualquer mudança na consciência europeia pelo aborígine na aurora da ciência. Ele nega que os relatos dos primeiros viajantes sobre a descoberta ultramarina tenham sequer “causado surpresa” na Europa Renascentista (p. 15), quando na verdade poderia-se afirmar o oposto, que somente depois de algum tempo é que a surpresa se aquietou e os relatos fantasiosos do desconhecido tornaram-se convicção de homens práticos sobre povos determinados. Assim com relação à América podemos afirmar que a consciência europeia transitou da surpresa à ciência. Assim nem houve total acomodação ao mito conhecido, nem previsão ajustável, mas recurso de imaginação num meio de consternação geral. Esquece Strauss nada menos que, bem antes de Rousseau, a criação do jesuitismo e a movimentação missionária na América, do mesmo modo que Derrida na Gramatologia os esquece ao postular que só com o século XIX é que se introduziu a ideia de decifrar e compor gramática de línguas não-europeias na Europa. A propósito, o interessante estudo de Estuardo Núñez, intitulado ‘O latino-americano em outras literaturas”, integrando o volume “América Latina em sua literatura” com artigos de outros autores (São paulo, Perspectiva, 1979)
Também Foucault afirma, em “As palavras e as coisas”, que a antropologia é derivação de regras de análise de textos, não da constatação mesma de sociedades antes desconhecidas dos europeus - isso, sabendo-se o quanto os governos do neocolonialismo dependeram de empregar antropólogos, fazendo nascer a pesquisa de campo em inícios do século XX, dado que Foucault simplesmente omite. [nota 7]
= O conflito ou “estado de guerra” que precipita a necessidade da sociedade não altera o estado primitivo, é o oposto comum dos dois estados humanos possíveis, o primitivo pré-social e o civilizado social;
= A solução do conflito só poderá ser científica, decorrendo do progresso pelo qual o estado original natural se tornou conhecido (como o do primitivo) pelo europeu (civilizado), porém a solução do conflito não é a reinstauração simples do estado original enquanto pré-social, e sim a evolução da civilização científica, a leis cientificamente definidas. Isto é, leis que são ao memo tempo coerentes à natureza do Homem e expressam a sua possibilidade de evoluir ao estado civilizado da ciência. A restauração do estado aborígine seria ademais impossível, porque o homem evolui mentalmente, enquanto enfrenta as vicissitudes da dominação ao longo dos séculos, progressivmente conquistando instituições autoconscientes. O aborígine não tem cultura, álgebra, etc.
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15 Os três componentes estruturais do Ocidente auto-conceituado, primeiro estabeleceram-se durante o “classicismo”, sendo este a designação, na teoria ocidental, daquilo que efetivamente foi o período colonial- escravista, iniciando-se no século XVI, mas estabilizando-se como reacomodação social e intelectual na Europa desde o século XVII até a Revolução Francesa.
16 O classicismo é o horizonte da descoberta ultramarina, pelo que todas as concepções de mundo tradicionais europeias tiveram que ser transformadas. É também o horizonte de um sistema monárquico inteiramente dependente da exploração colonial escravista - o que examinaremos à frente (livro 2). Essa transformação, quanto ao saber, não produz ainda as “ciências humanas”, nem mesmo a História como ciência social, permanecendo ainda “erudita”, um exercício moralizante de composição literária sobre os fatos. Porém o classicismo está para as ciências humanas, assim como o colonialismo escravista para a Revolução Industrial capitalista. Ou seja, aquilo que ainda está por se definir quanto a ser o mesmo ou que tipo de irredutibilidade pode caracterizar como antecedência, e de cuja definição dependem as teorias da modernidade das ciências humanas, porém sabendo-se que é uma condição de possibilidade do progresso ulterior.
17 Se as interpretações divergem em muitos pontos, num pelo menos são convergentes. A “teoria política” não é ainda “ciências humanas”, e o colonialismo escravista não é ainda capitalismo. Quanto à primeira negação, é compreensível, já que a teoria política decende da filosofia, e não desdobra regiões de pesquisa autônomas. Porém a ambiguidade da segunda negação persiste, tal que dela é que se seguem as premissas do capitalismo como não sendo intrinsecamente imperialismo - já que não é factualmente colonialismo extrativo escravista, mas produção fabril assalariada. Por exemplo, Marx trata esse período como da “acumulação primitiva” de capitais, é exímio na caracterização da desumanidade brutal, genocida, da colonização escravista, porém assim que sobrevem o exame sobre o capitalismo propriamente dito se estanca a indignação do historiador. O capitalismo pode ser exploração factual dos trabalhadores, mas ele é a economia da autoconsciência possível do assalariado, é o progresso encarnado, transporte do otimismo marxista quanto à liberdade futura e do seu desprezo pela inferioridade da consciência no passado.
18 Em todo caso, cumpre a ressalva da terminologia. Usamos “classicismo” para um período longo que inclui, outrossim, o “barroco”. O motivo é bem mais do que apenas para simplificar a oposição dessa época à “modernidade” ou “período contemporâneo” que se inicia com o século XIX. Sobretudo, não se deve a um francesismo. Considerando o “barroco” do século XVII, vemos que não obstante ser o contrário do estilo “clássico” em estética que vigorou na Europa do século XVIII ainda que a França de Racine nunca tenha sido outra coisa, ele explora as consequências da premissa da “teoria política”.
Se o classicismo é um estilo universal, a teoria política não admite historicidade da condição primitiva. Entre natureza e cultura, o hiato é total, o primitivo nunca evolui, ele é “outro”. O barroco, ao contrário do classicismo, é um estilo que integra elementos dessa alteridade, e hoje se sabe que para estudá-lo é mister não descurar das heterogeneidades nacionais europeias e coloniais - na medida que os colonizadores na América expressaram seus versos de “pioneiros” conforme as regras desse estilo. Por essa integração o barroco tem sido hoje revalorizado, porém não por boas intenções, a meu ver, mas para reinstauração da oposição absoluta. Ora, o barroco é classicista nesse sentido pelo que ele não integra de fato uma alteridade, ele a utiliza como o exemplo do mal deste mundo - a proliferação dos caminhos do engano, dos reflexos, das aparências, como do fascínio do signo.
19 Mas o que impera na regra do estilo barroco é a antítese do bem e do mal, pelo que, após a proliferação das fantasias, como dos caminhos do erro ou as peripécias do signo, vem a decisão entre os dois únicos caminhos realmente dados - a antitese como a figura totalizante do estilo. Nem Shakespeare escapa dessa regra. Podemos designá-la o limite classicista da anamorfose. Lacan recuou para ele, reduzindo assim os efeitos de duplicidade na estética contemporânea. Porém é apenas classicista, uma vez que na anamorfose há dois modos de ver possíveis, mas eles nunca se confundem ou emparelham um com o outro. Não são como o duplo da literatura romanticista, que pode ser visto junto com o seu duplicado. [nota 8]
20 Eis a paralogia estrutural geoegológica, o traço instrutivo desde o trauma do nascimento “ocidental”. Há dois caminhos de um só Deus substância, pensamento e extensão, espírito e matéria, natureza pré-social primitiva e cultura social civilizada, Europa cristã e todas as Américas possíveis. O platonismo não pode já reduzir a matéria ao que não existe, as Américas são a natureza material que se dota assim de realidade fenomênica, esta vem a estatuto epistêmico. Porém de fato a realização consciente do classicismo só permite um definiendum racional, o pensamento. Só uma realidade, do pensante, como do pensável. Só um objeto, o compreensível pela ciência. Só uma ciência ontológica, a da substância ou do fundamento de sociedade. Só uma civilização ou sociedade,a Europa cristã, o conhecimento de Deus-Razão.
21 A loucura pós-erasmiana torna-se definível como o estado puramente natural do homem não-racional, se esse estado persiste quando destacado da origem. Na geografia pré-social, o homem não-racional pode ser a paixão rousseauísta, numa progressão relativamente a Locke, mas o mundo socializado é o de sujeitos que podem se responsabilizar - as excessões são loucos ou delinquentes, estatutos confundidos num só para efeitos de detenção criminal, conforme Foucault ressaltou na História da Locura, de modo sintomático - por espantoso - sem nunca relacionar essa questão da lei do internamento clássico com a “teoria política” então vigente. Mas o curioso é que de fato a lei imperial do absolutismo não tem um parâmetro não ambíguo para diferenciar essa alternativa. O que é inteiramente compreensível, segundo o “classicismo”. [nota 9]
22 A propósito do que está sedimentado como mito do progresso pós-feudal na Europa, é importante consider o estudo de Maurice Dobb em “A Evolução do Capitalismo”. Ao contrário da ingenuidade de Foucault em “As palavras e as coisas”, Dobb documentou não ter havido um corte abrupto do proto-capitalismo a partir do século XVII que poderia configurar uma filosofia mercantilista ordenadora de alguma prática nova. Mas uma ação predadora de capitalistas, desde o Renascimento, implementando, pela apropriação progressiva de cargos públicos, a fraude legal de que decorreram exercícios de transferência de propriedade e desapossamento da mão de obra.
23 Onde a predação capitalista intra-europeia não ocorreu, mesmo o colonialismo de potência não resultou na revolução industrial, caso exemplar na Espanha em contraste com a Inglaterra. Dobb salienta porém, que mesmo se a predação intra-europeia desempenhou o papel importante na evolução do capitalismo, ela não poderia ter alcançado o montante necessário para subjugar a sociedade sem o porte dos negócios proporcionado pelo colonialismo.
24 O papel do monopolismo, a aliança dos capitalistas com o rei que a eles concede monopólios de exploração comercial e colonial, foi de substância na apropriação dos cargos administrativos. O monopolismo transformou, portanto, a livre empresa pós-feudal na atividade sistemática de uma classe predadora, a escravista colonial.
25 A propósito da “teoria política” classicista, que também Foucault ignora totalmente na cobertura histórico epistemológica do período em “As palavras e as coisas”, devemos observar que a articulação classicista do estado originário natural ou “primitivo” foi o pioneiro liberalismo político europeu. Afonso Arinos e Oswald consideraram assim o papel essencial do índio americano na Revolução Francesa rousseauísta. Porém de fato a doutrina do pacto social e o discurso do primitivo é um produto coerente com a vigência do monopolismo colonizador. É oposição a ele, não apenas o reflexo dos interesses dele, e, assim, podemos afirmar que o “encontro de culturas” promoveu a assimilação do progresso político liberal, que nasce da reflexão do estado de coisas americano, não do tradicional europeu. Mas, mesmo assim, expressa contraditória e inconscientemente algo da mentalidade tradicional, com o primeiro autoconceito ocidental reproduzindo a oposição idealista-aristocrática conservada num pseudo-saber escolástico eclesiástico que na verdade estava torturando, perseguindo ferozmente e assassinando os insurgentes que configuravam a revolução científica empírica nessa época. Se o protestantismo não era escolástico, também foi persecutório, ainda que não necessariamente contra a ciência livre, que não confundia de hábito com “feitiçaria” ou “heresia”. [nota 10]
26 Resta hoje reconstituir as raízes pré-feudais ou não-ocidentais dessa revolução científica empírica, algo a que a geoegologia em ato dos estruturalismos se opõe frontalmente, reduzindo como Foucault e Lacan toda a Grécia a Platão, ignorando Heráclito, a sofística e o ceticismo empirista pirrônico. A propósito, contra os vulgarismos que se propagam sobre o ceticismo, a escola de Pirro conforme o texto de Sexto Empírico defendeu a ciência obervacional, numa base convencional falibilista, lembrando que “empírico” na Antiguidade significava “médico”, a profissão de Sexto. Ele defende pois o profissionalismo das técnicas e ciências fenomênicas, e por aí o professor de que depende a sua formação, mas ataca o pseudo-saber de falsos mestres que apenas perpetuam os próprios princípios indemonstráveis quanto ao objeto.
Também seria importante lembrar, como Ernst Bloch documentou, que a Leste, na filosofia árabe, uma interpretação de Aristóteles não idealista e mais empírica estava sendo produzida, com importante influência em pensadores europeus, desde o Renascimento. Porém Aristóteles é sempre idealista, e assim a oposição de primitivo e civilizado como de natural e desenvolvido, é uma mistura de novo e antigo, ruptura conservadora, atendendo a um desejo de identidade que não é de fato personalidade, sujeito em devir.
27 A ruptura do primitivo na Europa não permite que se postule um simples resgate continuísta, como do empirismo antigo pelo moderno. Nunca houve método experimental na Antiguidade, conceito de leis fenomênicas acima dos puros fatos fenomênicos, ou conceito de representação constitucional. Porém é importante observar que aquilo que vem se designando no século XX a crítica do saber, já está presente na Grécia antiga pós-aristocrática, não devendo contudo soar como expressão vaga. O “saber” criticado não é empiricamente situado, é o idealismo metafísico que reproduz os estereótipos do poder mítico-imperiais. Assim crítica do saber é na verdade crítica da idealização sem demonstração, portando tanto sobre pretensões metafísicas como sobre sensos-comuns autoritários e irrefletidos. A questão aqui não é caucionar a oposição entre ciência e tudo mais como superstição, uma vez que após o classicismo do século XVIII cientificista, já temos visibilidade para o fato da cultura, o campo que abrange artes, religião, folclore, costumes, etc., como o conjunto de atribuições de sentido pessoal e socialmente estabilizado, que não se reduz porém à ciência. Mas sim demarcar a irredutibilidade de pretensões de demonstrabilidade, validáveis ou não, de modo a enfatizar a vocação anti-autoritária da própria ciência, que já estava de certo modo embutida na viragem do empirismo classicista.
28 Tendo sido desencadeado o empirismo moderno por fatores historicamente irredutíveis, sem referência aos gregos anti-metafísicos, não obstante operou com base na mesma crítica que já os antigos fizeram do idealismo. Hoje operamos com uma visibilidade maior a propósito da dependência textual (“linguística”) do fenomenismo. Porém nossa metacrítica da geoegologia, como crítica do saber, não é anti-científica, primitivista ou de qualquer natureza afim de jactanciosa ignorância. Pelo contrário, ela enseja mostrar como a ciência é autocrítica, uma vez que é anti-idealista, e se há um “discurso” do poder como inconsciente da ciência, não podemos esperar que seja desconstruído fora da abrangência conceitual. Todos os projetos governamentais utilizam enunciados científicos - com suposta abrangência universal- que precisam ser conhecidos quanto aos seus desdobramentos políticos pela população, sendo estes o referencial da formação escolar.
O pre-texto classicista está hoje paradoxalmente relançado em discursos que pretendem-se políticas de autenticidade e identidade como da negritude, da mulher, etc., tanto mais que suponham criticar o “ocidente” - como vemos no caso de Seyla Benhabib, supondo como Carol Gilligan a mulher como alguma identidade originária, sem visibilidade para a heterogeneidade entre as pessoas. O que ocorre é apenas a colocação desse status ali onde se dispunha o primitivo, com o mesmo idealismo de captura. Na decorrência dos modelos ulteriores, veremos a que se deve essa reutilização classicista, mas por ora devemos ressaltar que a pós-modernidade tem mostrado como se limita a discursos pré-ordenados por uma diferença fantasiosa, de fato autoritária, que não atende aos interesses de emancipação.
b) Romantismo (aproximadamente 1800 a 1850)
I)
1 O nascimento da modernidade coincide com o das Ciências Humanas. A primeira foi a História, cientificizando-se como fazer conceitual historiador a partir do conceito separado do todo, um processo determinado coberto documentalmente, proposto por Herder como processo culturalmente formativo de determinada nacionalidade. É irônico que hoje se confunda tanto historicismo romanticismo e mera narrativa, quando na verdade ele está na antecedência da narrativização pre-conceitual da História pelos “grandes relatos” dogmáticos que se seguem a ele.
2 As ciências humanas nascem da exaustão da “teoria política” classicista, no momento em que o primitivo originário pré-social se mostra, pelo contrário, engajado em movimentos de libertação nacional pró-independência. Porém elas estão mais integradas, enquanto revolução, à episteme, ao contrário da clivagem do saber e do poder que originou a ruptura classicista. Elas nascem da assimilação do evolucionismo - o transformismo das espécies - como biologia nascente, e, assim, operam o equacionamento da evolução biológica com a evidência da mudança histórico-social inerente mesmo ao primitivo americano.
3 Minha descoberta pessoal nesse domínio do romantismo, ocorreu em dois níveis. Primeiro constatei a importância do tema negligenciado geralmente do homem duplo, que costuma ser reduzido a uma questão literária, quando é na verdade muito mais um princípio epistemológico do historicismo romanticista, que orientou a descoberta pós-classicista da cultura assim como a emergência do Sujeito pensável. A duplicidade romanticista é o primeiro enunciado do inconsciente - assim o Sujeito torna-se pensável quando ele deve formar “para si” a cultura. Quando a cultura se torna conceitualmente variável, o correlato das línguas e costumes dos povos como sistemas autônomos, não apenas a razão clássica. Assim o sujeito é pensável como a personalidade que dota de sentido, a partir de sua formação subjetiva, não o intelecto universal que reproduz sempre o mesmo a priori.
4 Mais recentemente, constatei, paradoxalmente, a descoberta da importância do aristotelismo árabe - justamente quando se tratava da superação do fixismo. Ernst Bloch, como assinalei, em seu “A esquerda aristotélica”, soube conceituar muito bem a interpretação do aristotelismo pelo viés da potência imanente, que os árabes implementaram especialmente desde Avicena. Ele documentou a influência dessa vertente antípoda do tomismo no Ocidente, como fermento do imanentismo de Bruno até o cientificismo setescentista. Porém assim deteve-se ali onde seria mais importante continuar a pesquisa, o influxo romanticista.
5 Examinando os textos de Schelling a Hegel, constatei, pois, que a filosofia da potência foi o elemento com que eles construíram a ponte de evolucionismo e historicismo, por um lado. E a inteligibilidade filosófica do evolucionismo biológico, por outro, mudando a concepção ontológica do Homem. Não obstante o lamarckismo dessa época ter sido depois constrastado pelo darwinismo, um estudo das concepções filosóficas da Evolução mostra que o princípio romanticista-aristotélico da potência permaneceu. Até mesmo o termo “enteléquia” foi utilizado para a evolução biológica interpretada como processo qualitativo - ver a propósito os verbetes “evolução” e “evolucionismo” em Abbagnano.
6 As inversões de Hegel por Marx e Nietzsche conservam o princípio conceitual, apenas mudando o sentido da valoração. Heidegger, em seu estudo sobre Nietzsche, enunciou o aristotelismo romanticista como se fosse sua própria descoberta “anti-metafísica”, esperando assim contrapor-se ao fisicalismo da potência nietzschiana. Mas de fato o que Heidegger apresenta de original é já o romanticismo evolutivo, como assinalei, e por isso ele falhou na sua crítica a Nietzsche - entretanto merecida - como apenas subsequência da metafísica e não um pensamento verdadeiramente isento de idealismo.
7 O romantismo operou, contudo, na base da subjetividade como um princípio humano de formação universal. Todo ser humano é sujeito de sua cultura. O eu é “fato primitivo”. Porém a saga da autoconsciência romanticista, que em Hegel se faz melhor do que qualquer outro referencial, é a transposição humanística da teoria política, para uma origem que do homem natural se fez a do homo storia. Assim a condição de primitivo não-moderno-ocidental se aprofundou, radicalizando a concepção de Modernidade, que se tornou o avatar do Romantismo como pós-classicismo culturalista. A oralidade romântica estabelece pois o objeto margem pluralizado - assim como o narcisismo antes da formação de objeto, só cede a esta na forma dessa pluralidade de solicitações pulsionais. Todos os povos são igualmente o princípio subjetivo, criadores de valor e sentido culturais expressos na sua língua, mas a autoconsciência do princípio é transformadora da própria condição. Ela é pois, realização exclusiva do Sujeito ocidental. Antes da Históría, esse Saber transformador, só há o mito que atua a potência, mas sem o saber. E a História ela mesma enquanto a posse desse saber, é a efetividade da mudança sócio-histórica, o Estado de direitos constitucional, que de modo diverso do pacto social, é a carta da nacionalidade.
8 Ao mesmo tempo expressando a singularidade da cultura, a constituição nacional atribui direitos e deveres por igual a todo cidadão individual da nacionalidade, compreende pois o Sujeito, não a classe ou estamento, como o referencial deles. O Romantismo sendo a prestação de contas da consciência “ocidental” após a Revolução Francesa, a Independência das ex-colônias americanas e a abolição da escravatura.
9 Adam Smith faz a Economia Política da Revolução Francesa, expressando o interesse inglês no fim do “pacto colonial”, de modo que a sua circulação de mercadorias pudesse anexar os mercados já inteiramente ocidentalizados nas Américas. É ele o teórico da pequeno burguesia, que fez a Revolução aproveitando-se da revolta do proletariado, essa pequeno burguesia que não integrava o rol dos privilégios do monopolismo colonial.
10 O Romantismo, estabelecendo-se como cenário de emergência das Ciências Humanas na emancipação da cultura relativamente ao intelecto classicista, das Constituições nacionais, do direito da pessoa física e do Sujeito pensável, assinalou também a forma pioneira da oposição ocidentalista de primitivo e civilizado, na forma da historicidade. Isto é, que enuncia a História como ao mesmo tempo o locus da cisão e de sua enunciação. Na oralidade romanticista, pois, o primitivo é sem Estado, porém conserva algo da bondade do selvagem rousseauísta, ainda que não como ele, pois de modo nenhum conserva-se a noção de Homem natural, tendo-se universalizado a concepção culturalista do homo storia. A Modernidade como identidade Ocidental, é a agência do saber emancipado, que compreendendo as ciências humanas além da autonomia agora conquistada das ciências naturais frente a qualquer princípio supra-científico, ao mesmo tempo autoconscientizou-se da essência histórica e a encarnou pela revolução constitucional, o Estado dos direitos civis.
II)
1 O que reportei como descobertas que julguei importantes em minha leitura do Romantismo, devemos agora visar naquilo que implica mudanças na consciência histórica. Podemos enfeixa-las na designação mais geral da antecipação do Inconsciente, em torno da cisão de cultura e intelecto, sociedade e sujeito, história e personalidade.
2 A transformação deveria começar pela interpretação mesma da Revolução Francesa, como por exemplo o estudo do “Pré-Romantismo” na “História da Filosofia” de Bréhier permite ensejar. Bem inversamente ao senso comum sedimentado do cientificismo como o fiat do movimento revolucionário, é o misticismo novo, que relacionou os novos fatos conhecidos como força elétrica e transformismo biológico, o que atuou como propaganda e elan impulsionando a ação. O que é coerente, já que o cientificismo não era popular, o que esse misticismo, não estranho aos círculos maçônicos e católicos, visava intensamente ser. E de fato o símbolo idolatrado dos revolucinários não foi o universo mecanicista de Voltaire, mas sim o sentimento e a compaixão natural de Rousseau.
3 Assim torna-se mais compreensível a transição periodológica do pré-romantismo, o cenário da Revolução, à época romântica da Santa Aliança, a reação monarquista europeia contra a liberação dos plebeus na França. Já desde o pré-romantismo, na segunda metade do setescentos, está havendo reação contra o cientificismo puro, que se coloca como o contrário da cultura reduzindo-a a superstição. Inversamente aos divulgados vulgarismos, não foi o Romantismo o primeiro que se lançou como reação culturalista à “Aufklaerung”.
4 Além disso, a própria reação aristocrática conservadora não foi também pioneiramente romanticista. O conceito de “populismo’, que trato aqui como sinônimo de “fascismo’, subordinação do indivíduo à sociedade, tem na verdade raiz na Revolução Francesa. Primeiro, ele não teria sentido numa sociedade aristocrática como era o “antigo regime”, porque aí a subordinação não é ao “povo”, mas à hierarquia estamental à qual a sociedade está reduzida. Assim devemos observar que o governo se torna legalidade na consciência contemporânea, porque não administra a população, mas apenas os interesses da população, sendo parte dela.
5 Ao contrário, a nobreza tinha monopólio de decisão sobre a população, pressupondo-se que detinha o saber da manutenção da nacionalidade enquanto classe das armas, detentora do poder de defesa e ataque relativamente a outras nações, como o castelo mesmo, fortificação militar central do território. Lembrando que um dos possíveis significados de “feudal” não é derivado de “feudo”, a unidade de produção agrícola senhorial, mas sim de “feude”, a guerra permanente num período convulsionado pelo perigo constante de invasões e rupturas de alianças táticas.
6 O feudalismo, escusado o registro trivial, como um regime onde o senhor de um castelo territorialmente localizado tem poder igual aos dos o outros senhores, o atributo de um rei acima de todos sendo mais convencional do que decorrente de um exército nacional regular, nessa época débil, ocorre num momento de fechamento do Atlântico devido a invasão moura, e já numa Europa interiorizada pela destruição do império antigo pelos bárbaros.
7 Essas condições são parecidas com as da época pré-democrática na Grécia, posto que o regime da nobreza lá decorreu da interiorização devido à destruição de Micenas pelas invasões Dórias. O Renascimento, entre os séculos XVI e XVI, foi, como na época grega antiga de transição à democracia, quando emergiu o jurídico estabilizado, o fim da interiorização. Reestabelecendo-se o comércio, na Grécia voltou a haver escrita, e na Europa renascentista a cultura “letrada” - isto é, filosofia e ciências, todas as práticas leigas ligadas ao letramento, que estavam sob severo domínio do clero católico, durante o feudalismo.
8 Ora, se o século XVIII é o clímax desse movimento de laicização, quando o empirismo de Locke e o triunfo da física de Newton foram interpretados como a superação definitiva das fantasias idealistas e dominação religiosa ligada ao poder monárquico-aristocrático, vemos que na França a recusa das concessões necessárias ao novo ambiente de liberdade comercial e circulação da inteligência levou a um confronto radical, que não precisou haver na Inglaterra. Mas é precipitada a ilação de que, assim, a aposta revolucionária no fim do “antigo regime” como de privilégio estamental, foi a assunção racional da igualdade existencial dos sujeitos.
9 O fascismo não é igualdade, como “populismo” ele afirma a supremacia dos valores “nobres” - a beleza dos bem dotados, o poder do “forte” - como aquilo mesmo que o povo admira, que todos os costumes folclóricos consagram, do amor sagrado da princesa mais bela à lenda do heroi mais valoroso. O povo mesmo é suposto desprezar a igualdade nesse sentido, por outro lado é doutrinado por meios de atração concentradora de vários tipos de demagogia, a considerá-la desprezível, esses tipos sendo não raro diretamente formulados em competição contra grupos de esclarecimento que visam liberar a consciência que o povo tem das injustiças de modo a mudar preconceios arraigados pelas próprias formas da dominação social. Assim um dos esteios do fascismo é o cristianismo tradicionalista, aquele que se opõe tanto aos cristianismos que trata como heréticos como ao cientificismo e a outros modos de esclarecimento político. Bem antes, o próprio Lutero não acompanhou a heresia igualitarista de Thomas Muntzer.
10 O misticismo populista pré-romântico, visão de mundo em que todos os seres estariam ligados como numa série por uma cadeia espiritual, assim não de todo independentes, porém nexo hierárquico quanto ao grau de perfeição de cada ser, era repressivo do cientista puro. O comunismo populista do padre Boneville, por exemplo, o taxava de orangotango - piada compreensível, já que os animais não tem religião. Nas lojas maçônicas já haviam decretos contra os cientistas, assim como prédicas nas igrejas católicas, e houve exílios decretados por príncipes nessa época.
11 Assim o populismo revolucionário pré-romântico foi repressivo do ideal político Aufklaerung, este inspirado na racionalidade do regime parlamentar inglês. É irônico que a Revolução tenha sido feita contra uma nobreza francesa que podia em boa medida ser considerada ela mesma “voltairiana”. Seria importante lembrar, contra os simplismos, que Montesquieu, tão admirador da Inglaterra como Voltaire, pertencia efetivamente à nobreza.
12 Os plebeus enriquecidos pelo comércio haviam extinto na prática o “feudalismo” já desde o século XVII, financiando o exército nacional do rei, que assim subordinou a nobreza, tornando-a dependente da corte. Mas, agora, as forças produtivas já não estavam contidas pelo limite monopolista da exploração comercial, e a realeza devia contentar-se com uma posição simbólica ou associada ao parlamento, do contrário não seria exequível preservar a ordem social conhecida. De fato a explicação pelo amadurecimento das forças produtivas tende a ignorar a necessidade dos países capitalizados, como a Inglaterra, superarem a posse colonial de mercados promissores, americanos e asiáticos, por parte de países não capitalizados como Portugal e Espanha.
13 Assim o motivo econômico de impulsão não era tanto liberar as atividades pequeno burguesas no interior da Europa, como mudar as condições vigentes do monopólio do grande comércio ultramarino, por estarem relacionadas ao pacto colonial ibérico. Em todo caso, o que ocorria era a urgência da mudança social, e a incapacidade de fazer frente à exigência do tempo foi punida do modo o mais severo por ele.
14 Em Bréhier porém só vislumbramos o bom caminho. O trilhar requer mais investimentos de pesquisa, que ultrapassariam o limite de Schelling. Bréhier com efeito não teve bastante atenção para as diferenças internas, não sendo minha intenção perpetuar essa defasagem aqui. Porém se o gênero “história das ideias” requer uma capacidade de síntese, não creio que ela devesse resultar quanto ao Romantismo, num tipo de homogeneidade como a que manteria Hegel na corrente de impulsão schellingniana, para efeitos de um tracejamento em nível de paradigma histórico espistemológico.
15 A expressão “Inconsciente Carus / Hegel” seria a meu ver adequada para a síntese que necessitamos. Ela cobre com efeito não apenas, nocionalmente, a constância de premissas, mas o caminho de uma evolução.
16 Desde o ambiente em que as descobertas, por sua natureza tão profunda como podem ser as rupturas de limite do visível, pelo microscópio, da irredutibilidade dos corpos, pela efetividade das forças eletromagnéticas, e da quididade lógica, pelo parentesco entre as espécies de ser, convinham à coalescência de um continuun entre misticismo, pesquisa científica positiva desdobrando-se agora entre naturais e humanas, literatura, poesia e filosofia, até o ambiente em que se fez sentir a exigência de fronteiras adequadas ao novo. Ou seja, da referencialidade epocal de Schelling àquela de Hegel.
17 A multiplicidade de transformações histórico epistemologicamente capitais aí é avassaladora, devendo cobrir, inclusive, nada menos que a revolução do Romantismo em estética. Porém considero adequado enfeixar pela expressão “Inconsciente Carus / Hegel’ o que evoluiu nesse contexto.
18 Primeiro a cisão formativa da consciência, pelo conceito de inconsciente como memória virtual, enunciado em Carus, conforme Bréhier. É uma teoria explicativa, visando responder problemática coerente à universalidade do conceito de “duplo”, que não é o dualismo barroco, mas supera a paralogia pela interveniência da verdadeira duplicidade de organismo e psicologia, a qual coloca como questão científica porém as interdependências constatáveis. Geralmente se conhece o conceito de Inconsciente romanticista como a imaginação criadora das culturas, um tema relacionado na era romanticista ao pensador Schubert, mas também o cerne da revolução romanticista em estética - não o “sentimento”, este o viés da ruptura pré-romântica.
19 A imaginação como conceito do inconsciente cultural era então articulado à concepção de infinito - algo muito atuante hoje nas correntes hermenêuticas. Imaginação e infinito eram, pois, as raízes da humanidade criadora da cultura, e o que especificava porém cada povo como um léxico (língua) própria - um “romanço” como os proto-idiomas europeus que na era feudal se perfaziam como um amálgama local de língua germânica e latim. Especificamente moderno, isto é, “romântico”, seria a auto-descoberta do Eu.
20 Mas, relativamente ao contexto da descoberta, o conceito carusiano de memória tem um valor explicativo da formação singular, da personalidade própria. Assim ele assinala um certo limite relativamente ao continuun estético-epistêmico permitido pela “imaginação”.
21 Quanto a Hegel, trata-se da duplicidade da Entausserung (extrusão), a cisão da presença entre o ser situado e a interioridade autoconsciente. A duplicidade, sendo o denominador comum de todo Romanticismo paradigmático, temos a importante psicologia de Maine de Biran, sistematizadora da emergência onipresente do “Eu” como referencial do pensável no romanticismo. Em Schelling por exemplo, tratou-se do Eu como o que se deveria colocar em lugar da Substância Spinozista. Em Fichte, precedentemente, assinala-se o início da corrente “pós-kantiana”, como filosofia do Eu ou da consciência.
22 A duplicidade em Hegel vem a ser porém recoberta pela irredutibilidade da “representação” e do ‘reconhecimento”, respectivamente, a intelecção da consciência de objetos e de outros sujeitos. Assim Hegel se coloca como o mais importante pensador na linha sucessória do pós-kantismo.
23 Ora, conforme Hegel, a autoconsciência (Selbstbewusstsein) realizada, que é a do reconhecimento intersubjetivo, não decorre como capacidade imediatamente atribuível, posto que na História não ocorre senão a proliferação de estados de dominação do homem pelo homem. Esses estados podem assim ser subsumidos à mesma definição de uma defasagem do “reconhecimento” como capacidade plena de atribuição da igualdade de status, logo, reciprocidade de direitos, entre os sujeitos em presença.
24 O conceito de “desenvolvimento” é então pioneiramente introduzido na Modernidade - e como “a” Modernidade - por Hegel, naquilo que ele designou “a dialética do senhor e do escravo”. Não obstante a influência da interpretação imanentista e naturalista de Aristóteles, a dialética de que se trata é a convergência dos opostos, de Heráclito, inaceitável no aristotelismo. Hegel sistematizou-a na forma da sua tríade lógica: ser, não ser, devir.
25 Na formação da consciência assim como na História e na própria existência, primeiro há a ideia ou Ser que é “em si”, que depois nega-se, saindo de si, tornando-se natureza ou “para si”. Primeiro postulamos objetos como se fossem independentes da nossa postulação, depois compreendemos que somos nós que os conceituamos assim. Então ocorre a síntese dos contrários, o em si e para si, que é a consciência humana da natureza como espírito, ou seja, cientificizável, dotada de sentido imanente. Assim também superamos o solipsismo, do mesmo modo que a dominação na história, e ascendemos ao Estado de direitos civis da Modernidade.
26 Conforme o princípio da lógica dialética hegeliana, cuja inteligibilidade é da “Aufhebung” ou “suprassunção”, como traduzimos o termo alemão que significa ultrapassar ao mesmo tempo conservando, devemos notar que Hegel ultrapassa a “teoria política”, porém de certo modo conservando a premissa da liberdade originária. Ele primeiro a inverte, pois já não crê no relato de tribos igualitárias ab origine, mas, na carência de provas a favor ou contra, considera ser lícito ao menos observar que esse estado de coisas, se existiu, não foi duradouro. A guerra hobbesiana de todos contra todos, na prática se torna a condição originária, ao contrário do princípio da igualdade pacífica.
27 Porém Hegel conserva a concepção da mudança aperfeiçoadora como a realização da modernidade, ligada à “teoria política” clássica pela concepção do contrato social como realização racional - ainda que não para caucionar à fórmula deste, que Hegel desloca pela de constituição nacional. Ele assim fez da mudança uma verdadeira causalidade histórica. Vemos que esse fator da conservação é o cerne da dialética, cujo princípio é que a “ideia”, aquilo que se realiza na prática por fim, era aquilo mesmo que se definia como o início, apenas aí em germe, por realizar materialmente. A liberdade dos sujeitos é portanto, a origem ideal, se bem que não factualmente realizada de modo formal, como acontecimento histórico, até a Modernidade.
28 Enquanto efeito do cegamento geoegológico, Hegel é o pensador da abolição da escravatura, que estava acontecendo concomitantemente nas Américas, porém ele nunca se enuncia como tal. Ele pensa a emancipação do escravo como o inconsciente da História, a causalidade oculta por trás dos acontecimentos e realizações dos povos díspares, que não tem assim anulada sua diferença. Pelo contrário, da classificação dos povos por escalonamento, em função do que seria o grau de seu desenvolvimento como de proximidade ao Estado constitucional que na Europa estava em trânsito obter-se, é ele a pioneira sistematização.
29 A emancipação do escravo nunca se conceitua em Hegel como a abolição da escravatura na independência das ex-colônias americanas, mas só e apenas como a superveniência do Estado germânico. Aquele que, oriundo da miscigenação dos povos bárbaros com o cristianismo europeu, originou não apenas as nacionalidades europeias modernas, mas entre elas as que não são subsumíveis culturalmente ao antigo império latino. Ou seja, as nações autenticamente bárbaras seriam as protestantes, que coincidentemente eram as que protagonizavam o nascimento da economia assalariada assim como Estado constitucional de direitos civis, subjetivos. A emancipação do escravo em Hegel é a atribuição a ele de subjetividade, o correlato do “reconhecimento”, o que dota a inteligência do Homem de um sentido intersubjetivo e político, isto é, cultural e exclusivamente humanístico, superior ao da simples “representação” objetiva.
30 O inconsciente da história seria pois o processo pelo qual todos viriam a ser livres - isto é, reconhecidos como sujeitos e autoconscientes como tais. Nesse processo a ciência experimental positiva seria, assim como a subjetividade reconhecida referencial dos direitos políticos, o telos.
31 A modernidade seria pois, conforme Hegel, a realização da história como teleologia do “espírito”, isto é, da inteligência subjetivada, e nela as sociedades vieram a ser, em si mesmas, históricas.
32 Na oralidade romântica, a ideia é polissêmica, como o estilo. Ela se realiza de muitas maneiras, conforme os povos e sua missão histórica própria, e conforme a poesia romanesca, em que, como na assim designada “pintura histórica”, importa centralizar aquele acontecimento em que um sujeito é envolvido em sua circunstância histórica, de modo que todo o seu interior reflete a eclosão emotiva da formação do “sentido”.
c) Positivismo (1850 a 1870)
1 Na altura de meados do século XIX, já não se fazia possível manter a confiança antes depositada no Estado como realização da igualdade civil independente das hierarquias consagradas do costume. A consolidação da economia assalariada não foi totalmente concentrada na evolução do sistema fabril, espallhando-se pela trama das trocas comerciais.
2 Onde quer que se verificasse a economia assim designada de livre iniciativa, porém, suscitava a constatação da injustiça, sendo praticamente automático o acoplamento da desigualdade social pelo desajuste entre salário, preço e lucro. Quanto mais todo o sistema tinha sua razão de ser exclusivamente nos lucros, tanto mais salários e preços, como pesos e medidas e cálculo de qualidade pelo valor antecipável, eram desviados por modos sistemáticos.
3 Fourier sintetizou a crítica social do sistema assim designado de livre iniciativa, em sua crítica dos bons costumes que na verdade eram apenas hipocrisia da exploração, mas vários movimentos críticos coordenados se organizaram nessa época. Eles não tinham intenção saudosista, pois já estava assente que o antigo regime era apenas de um outro tipo de exploração. Tinham sim, intenção modernizante, de impulsionar “utopias” da produção nova, produzindo fórmulas totalizantes de como garantir a revolução social concretizada integralmente, sem resquícios da desigualdade secular. Ao ser transportado da Alemanha para a França, o Romantismo se tingiu da coloração “socialista” que mudou o seu sentido.
4 As utopias socialistas francesas repetiam algo do misticismo pré-romântico, não sendo historicistas no sentido de Hegel. A justiça pela economia revolucionária era frequentemente proposta como bem mais do que apenas da condição social. Assim como em Hegel, devia abarcar o sentido da história e do próprio ser do Homem, porém não conservando o sentido racional e humanístico da realização, e, pelo contrário, ligando-se a vislumbres fantasistas de transformação da própria natureza, como exemplarmente os de Fourrier.
5 O que estava ocorrendo porém escapava a todas, na medida em que consistia, enquanto transformação capital, na penetração “imperialista” dos países europeus como Inglaterra e França, nas Américas independentes e visando o colonialismo em outros lugares - a França estava na África desde 1830, época em que a Inglaterra avançava a um domínio vertical do continente. O império dinástico luso no Brasil “independente” de Portugal, desde 1822, foi patrocinado pela Inglaterra, que assim obteve o monopólio local da consumação de produtos industrializados. A Inglaterra se apossava do mesmo modo de praticamente todas as economias latino-americanas, e a que resistiu, o Paraguai, tendo alcançado expressivo desenvolvimento interno e industrialização autônoma, foi liquidada pela guerra diplomaticamente manipulada pelo governo inglês, a pedido dos industriais exportadores ingleses associados.
6 Essa transformação, que podemos definir como dos “países” constitucionais em “potências” imperialistas -neocoloniais, não foi do mesmo modo conceituada por Marx. Porém, é verdade que o marxismo produz uma ruptura de paradigma relativamente ao socialismo romântico, não obstante como ele próprio relata, ter aprendido os rudimentos da crítica econômica com eles. É certo considerar que a explicação da desigualdade social pela “luta de classes” não é utópica no sentido dos socialistas franceses, conforme Marx os rotulou.
7 Entretanto é justo atribuir a Marx estudos de bem maior envergadura do que apenas leituras dos socialistas franceses de que se socorreu de momento, impulsionado pela necessidade de se informar em matéria econômica por estar empregado num jornal. Assim que uma crítica “materialista” de Hegel está em curso, de Feuerbach e os “Jovens Hegelianos” como Karl Marx, podemos considerar introduzido o “Positivismo”, um paradigma inteiramente contrário ao Romantismo. Mas assim podemos considerar o Positivismo como uma “inversão” de Hegel. O que Marx fez empreendimento seu, ter colocado a produção “material”, o progresso técnico produtor de bens ali onde Hegel posicionara a ideia, na verdade é o que podemos definir como o parâmetro de todo o Positivismo.
8 Podemos considerar que o Positivismo radicaliza a recondução à natureza como um todo, que os socialistas operaram relativamente às transformações induzidas no mundo humano em função da Modernidade, porém já não numa base mística e idealista, e sim de aplicação dos princípios das ciências naturais. E do mesmo modo que eles, inequivocamente postergando a Modernidade como uma tarefa visando ao futuro, apenas possibilitada presentemente, não o estado de coisas atual. Uma revolução permanente, com alcance transformador dos limites da natureza pela indústria humana.
9 A “inversão” materialista de Hegel já estava sendo praticada , com vários objetivos e por vários proponentes, pelos “jovens hegelianos” na Alemanha, desde a década de quarenta. Na França, Comte começa a ministrar seu “curso de filosofia positiva” para plateias de sábios em 1826. Porém é só na altura da década de 1850 que podemos considerar o Positivismo estabilizado em termos de mentalidade epocal típica, o que se torna oficializado na prática pela disseminação do darwinismo. O termo Positivismo foi criado por August Comte, para designar o que ele concebeu como ciência nova, a “sociologia”, porém o termo se tornou de uso muito corrente e mais lato, significando cientificismo por um lado, e redução “objetiva” ou das ciências à metodologia determinista das ciências naturais, descartando-se toda veleidade de ciências humanas autônomas.
10 A sociologia nasce portanto, nesse século XIX, com um escopo bem irredutível ao que será atribuído a ela ao longo do século XX. Até aí, as ciências humanas do Romantismo só abrangiam a História e estudos setorizados como folclorismo, medievalismo, estética, hermenêutica (interpretação de textos), etc.
11 Em geral, contudo, podemos observar que a sociologia desloca a cientificidade da História não subsumida à sua coordenação. O que o romantismo considerava a cientificidade possível da História, atribuição de valores humanísticos, isto é, culturais, imanentes, de modo a dotar de sentido os acontecimentos humanos, deixava assim de ter sentido. Pois o cientificismo postivista só o atribui a fatos que considera objetivos, não subjetivos. Passou-se a designar “historicismo” a visão contrária à “ciência da história” enquanto redução dos fenômenos observáveis a alguma causalidade determinista somente discernível pela ciência positiva. O determinismo como causalidade objetiva por trás dos fenômenos aparentes, como dogma universal do “positivismo”, se concebe como “leis de ferro”, invariáveis e absolutas, em todos os domínios científicos ajustados ao paradigma.
12 A sociologia de Comte, que logo depois foi bastante melhorada por Spencer, compete com o marxismo pela preferência quanto ao verdadeiro “determinismo” científico-sociológico da História, embora a sociologia do marxismo seja na verdade um subproduto da sua Economia Política. É porém uma questão de terminologia, que repercute na coisa mesma enquanto decisão do pivô causal objetivo.
13 Para Comte, a sucessão de fases da inteligência funcionando como ethos grupal, a “lei” dos três estágios: mágico-religioso primitivo; metafísico; e, na modernidade da sociedade industrial, científico positivo, isto é, experimental e/ou metodologicamente fisicalista.
14 Marx estabeleceu o determinismo histórico-científico na “luta de classes”. Se os outros correlatos epistêmicos do positivismo não foram tão explicitamente relacionados a Hegel, a inversão que Marx afirmou ter feito, é a meu ver justificada, não apenas um modo de falar. Porém de fato não se trata do mesmo paradigma científico. O importante é notar que as duas coisas não são excludentes, inversamente à perspectiva althusseriana.
15 A inversão de Hegel por Marx consiste em ter colocado a produção técnica, adaptação evolutiva do homem ao meio que não é apenas de recursos como também de relações sociais, ali onde Hegel pensava a “ideia” ou espírito se desenvolvendo, como afirmamos antes. É preciso insistir porém, que essa é uma ruptura de paradigma, cientificismo objetivo em vez de humanismo historicista.
16 Aquilo que Marx e Engels produziram com seu conceito de “ideologia”, é um princípio epistêmico do positivismo, como tal norteador de toda literatura assim designada “realista” - nesse sentido estrito do movimento literário do século XIX, que teve em Taine e o segundo Saint-Beuve os teóricos principais. Isto é, movimento de literatos que se consideravam ao par da verdade científica sobre a realidade, conforme estava sendo admitida na época.
17 A ideologia é pois a crença humanística ou romanticista, de que os fatos são produzidos pela ação consciente e atribuição de valores espontânea dos sujeitos. O romance realista mostra pois o sujeito enganado sobre si mesmo, porque ignorante do determinismo que espreita suas ações, e as explica cabalmente, como só o narrador oniciente dublê do cientista pode fazer. Esse determinismo pode ser a tara hereditária como em Zola, ou a luta de classes do “realismo socialista”.
18 Fundamentalmente a ideologia é a crença numa subjetividade autônoma, independente da objetividade natural e social. Nessa época a psicologia romanticista estava inteiramente abandonada, e um novo tipo de dualismo de corpo e espírito havia se instaurado, porém como determinação do organismo sobre a mente. A psicologia positivista é designada associacionismo, reduzindo a formação de ideias à associação dos dados sensíveis. Stuart Mill filho é um dos sistematizadores do associacionismo em psicologia, epistemologia e lógica. Nessa época as pesquisas fisiológicas avançam mas sempre nesse rumo determinista dos sentidos, como exemplarmente em Helmholtz, pesquisador da fisiologia dos sentidos, ou na lei de Fechner a propósito da variação da percepção de peso a partir do que seriam séries logarítmicas da diferença do peso real dos objetos (não há percepção de diferença de pesos correspondentes aos intervalos entre uma e outra quantidade determinada na série).
19 O darwinismo, a transformação do modelo evolucionista em biologia, da ação voluntária do organismo à seleção cega pelo meio ambiente, forneceu ao positivismo a moldura científica que ele precisava. Marx não aceitou a concepção generalizante da luta pela vida, porém ele concebe a luta de classes como um tipo de redução do homem ao meio, e esta é que se torna o princípio “darwinista” onipresente. A luta de classes em Marx é socialmente instauradora, coordena as relações sociais vigentes, mas factualmente o produto da adaptação biológica e fisicamente orientada - assim a primeira divisão do trabalho seria a do homem e da mulher enquanto esta, criadora de filhos, seria escrava do homem. A libertação possível ao longo da história seria causalmente condicionada pelo progresso na produção, que provocaria progresso na inteligência das relações sociais, a autoconsciência de classe.
20 O darwinismo transformou profundamente o discurso do primitivo. A partir dele, já não havia um ser individual na origem, socialmente integrável ou não. Havia hordas progredindo quase que insensivelmente, desde os bandos de primatas aos primeiros grupamentos humanos primitivos. O darwinismo gerou assim a concepção coerente com a descoberta de fósseis, o popular “homem das cavernas” não sendo porém a expressão exata para o que se imaginava de fato, o “bando das cavernas”.
21 Ora, a progressão de conhecimentos técnicos de bando a bando até as primeiras sociedades dotadas de simbolismo humanístico seriam rigorosamente raciais, assim como o progresso assinalado de uma sociedade àquela com maior grau evolutivo na soma dos conhecimentos técnicos adaptativos. O conceito darwinista de raça formou, como biologia pré-mendeliana, um conceito que não se usa atualmetne, porém que impregnou fortemente a “imaginação sociológica” como diriam Gerth e Mills.
22 A “raça” positivista é não apenas o fenótipo (aparência física) constante, mas um amálgama dele com um tipo de temperamento, religião, regra de parentesco (forma de casamento). Concebia-se pois, que cada raça ou amálgama “cultural” assim designado, corresponderia deterministicamente a um grau de conhecimento técnico. Em Marx, a raça em função do conhecimento técnico produz um “modo de produção” ou forma de exploração econômica traduzido em relações de subordinação social de um grupo dominado por um grupo dominante.
23 O famoso livro de Engels sobre a origem da família e da propriedade privada expõe minuciosamente a sistematização de Morgan, o exemplo mais conspícuo da antropologia positivista, que seria a moldura ideal do marxismo. Em Marx, especialmente muda a concepção do Estado, que a seu ver é apenas modo de dominação dos grupos (classes) superiores ao longo da história.
24 Assim, a Modernidade como realização futura da racionalidade total, não poderá ser qualquer forma de Estado, mas o “comunismo” científico, quando não só a classe dominada, alcançando a autoconsciência como proletariado, tomará o poder, rompendo os limites da “ideologia”, como também a produção mesma terá progredido a um grau de liberação máxima, contrária à sujeição do homem ao trabalho funcionalmente especializado.
25 O capitalismo é o capítulo inicial da Modernidade, porque só nele houve a evolução psicossocial que ao mesmo tempo criou o sujeito consciente de sua iniciativa, o capitalista ou integrante da classse “burguesa”, e criou também o operário. Este pode organizar-se na fábrica para obter democracia social e assim, conscientizando-se integrante da “classe proletária”, chegar à revolução (ditadura do proletariado) que irá, assim que puder, realizar o comunismo (sociedade sem classes). A dialética de Hegel é utilizada aqui por Marx, como a praxis política da modernidade: a tese (burguesia) origina a antítese (proletariado) visando a síntese (comunismo, sociedade sem classes).
26 Spencer lançou as bases do que hoje em “Economia” é o neoliberalismo econômico, porém quanto ao primitivo, ele estabeleceu o senso comum positivista de que na proximidade do símio, era um ser cruel e puramente passional. O civilizado, bem inversamente a Rousseau, só ele tem compaixão nesse sentido de abominar a violência do homem pelo homem. O marxismo não é menos psicossocialmente determinista evolucionista. Os modos de produção que diferenciam as sociedades, são escalonados conforme mais ou menos subjugados pela “ideologia” - no limite, só o capitalismo permite dialeticamente a crítica da ideologia, e a ciência correlata a essa crítica, a economia conforme a obra principal de Marx, “O Capital”.
27 Portanto, o capitalismo em Marx é mais do que “luta de classes” ou modo de produção “burguês”, a racionalidade consubstanciada na história, somente a partir do qual poderá haver depuração dos resquícios da tradição no rumo da racionalidade total. Não há qualquer relação do imperialismo com o cômputo sistêmico do capitalismo conforme Marx.
28 Assim como em Marx, Spencer coloca o futuro da produção industrial liberada como a realização do homem inteiramente livre - também sem traço conceitual de relação com o fato do imperialismo. Comte, do mesmo modo que Marx, pensava que a cientificização total da sociedade requeriria um ditador capaz de subjugar as resistências “primitivas”. Porém inversamente ao comunismo, Comte e Spencer não pensavam a abolição da propriedade privada. Em Marx e Comte a ditadura saneadora é pois concebida como científica. A sociologia em Comte é a ciência coordenadora das demais, porque a ciência da ordem social, prescritiva quanto ao lugar de cada coisa no todo. Em Marx, trata-se da ciência da economia como da luta de classes, posto que nessa ciência se forma a consciência de classe do “proletariado”, o operariado do sistema ocidentalista-capitalista, como referencial da ditadura necessária.
29 De um modo geral, concebia-se o primitivo, racialmente definido, ou seja, o negro e o índio, como adaptando-se pela força bruta a um meio tropical mais ou menos hostil, enquanto o branco teria se adaptado pela inteligência a um meio de clima temperado e assim convidativo ao trabalho. O oriental também não era adaptado a um meio beneficamente seletivo como o branco, e em Marx o modo de produção escravista antigo se designa “modo de produção asiático”. Não havia, compreensivelmente, cultura relacionável a comunidades de miscigenados, que eram considerados degenerações doentias relativamente às raças puras, estas sendo funções de adaptações próprias, originais e geograficamente definidas. Gobineau e Haeckel são os referenciais mais importantes do racismo científico positivista. Há também um equacionamento bem definido em Os Sertões, de Euclides da Cunha, uma obra expressiva do positivismo local.
30 Como consequência de uma ciência biológica e física que já na transição ao século XX estaria superada, o positivismo foi do mesmo modo repudiado nessa altura da história. Hoje há um consenso generalizado na ciência social de que o positivismo, a que se tem designado “darwinismo social”, foi um modo de legitimação ou exaltação do imperialismo. Não obstante, o cientificismo como correlato da “modernidade” foi a fórmula irresistível do eurocentrismo “geoegológico”, e preservou-se o “positivismo” como uma corrente renovada em princípios do século XX.
31 Esta corrente designada em geral “neopositivismo”, “neoempirismo” ou “empirismo lógico” resultou de uma comunidade de sábios que desejavam preservar o cientificismo ocidental como única fórmula do conhecimento - e do desenvolvimento - possível. Foi o chamado “Círculo de Viena”, que contou com muitos nomes de cientistas e teóricos ilustres, devedor especialmente das formulações em lógica e epistemologia, do jovem Wittgenstein e Russel.
32 Seu princípio é que não há sentido fora de proposições científicas, e sua trajetória obedeceu até há algum tempo, ao imperativo complicado de definir o que é a cientificidade de proposições, assim como, formalmente, a função algébrica de verdade. O Círculo evolui, desde a época de Schlick e Carnap e o “naturalismo” de Hempel e Nagel, a uma atualidade em que se designa “filosofia analítica” e em que se trata mais de comprender regras supostas objetivamente subjacentes aos atos humanos.
33 O mais geral atributo da filosofia analítica é a convicção de que todos os problemas humanos são suscetíveis de serem resolvidos pela ciência, além do parâmetro da ciência unificada, isto é, não havendo metodologia autônoma das ciências humanas. Assim também, mesmo que convenha com o termo “filosofia” para si, é apenas como “epistemologia”, isto é, teoria da ciência. De fato considera toda filosofia com veleidade mais abrangente apenas algo sem sentido.
34 Muitos membros e descendentes do “círculo de Viena” migraram aos USA na altura da segunda guerra. Entrementes o marxismo também se adaptava aos novos tempos. Mas de um modo muito mais complexo do que o “positivismo”, porque esse modo é o da pluralidade de interpretações das quais só uma vertente se conservou como na doutrina original, positivista - isto é, continuando a acatar a antropologia de Morgan, não obstante as mudanças na ciência social que se verificaram depois de 1870.
35 Não obstante, o preceito da ditadura do proletariado como único meio do comunismo futuro permanece em todos os referenciais marxistas. Que a democracia - ou seja, regime constitucional de países industrializados - é por sua vez o meio para a ditadura do proletariado, ficou sendo princípio restrito à interpretação positivista. Compreensivelmente, uma vez que na prática o imperialismo tornou-se tão evidente após aquela década que a Revolução marxista, ocorrendo efetivamente na Russia, em 1817, não obedeceu ao princípio, sendo o país um império agrário. Porém não se segue que a interpretação “marxista-leninista” tenha sido uma das mais inovadoras relativamente ao positivismo clássico. Transigindo quase que apenas nisso, pelo contrário, a União Soviética foi um dos referenciais mais conservadores da “ortodoxia”. Quanto ao caráter ditatorial da própria ciência da história marxista, isto é, a Economia Política de “O Capital” como ciência do “modo de produção” e luta de classes, devendo ter ela autoridade metodológica sobre qualquer ciência, podendo pois definir o que é científico ou não, também é um dogma inabalável em todas as interpretações, tendo vindo a ser postulado com mais ênfase na fase mais recente do marxismo althusseriano.
Na história local creio que se deve atribuir ao racismo positivista o fator que esclareceria o que me parece um grande mistério. Por que não há referência ao fato de que assim que houve a abolição da escravatura, praticamente nenhum historiador - exceto Sodré, dentre os que conheço - se preocupa sequer em registrar que o ex-escravo não foi integrado no trabalho assalariado. Pelo contrário, a historiografia local passa a expor a realidade das políticas governamentais de subvenção de imigrantes europeus para preencherem os postos de trabalho assalriado. Leandro Konder (“A derrota da dialética”) chegou a registrar que os marxistas imigrantes, especialmente italianos, nutria grande desprezo pelo pobre nacional, considerando-o irracional, sem condições de integrar as fileiras do partido.
Sodré mencionou que o negro era tradicionalmente desprezado, nexo entre o animal e o homem para os racistas latifundiários,e o clero católico foi o elemento mais tenaz contra a abolição, porém ele não menciona que a República imbuída de ideais progressistas não devia perpetuar os hábitos tradicionais do latifúndio. Porém se lembrarmos que o positivismo só cultiva o progresso como divórcio irreversível da mente civilizada racional à primitivo irracional, a política racial de inícios do século XX torna-se compreensível. Quanto ao tradicionalismo, Sodré reporta como é mentalidade não só dos “coronéis” do sertão nordestino, mas principalmente dos seus “peões”, que por um conhecido efeito psicológico, são fascinados pelo elemento que os mantem na mais extrema dependência econômica, de modo que servem de massa de manobra de golpes contra a população esclarecida, como especialmente na repressão ao tenentismo, movimento de raízes florianistas, do qual se origina o comunismo de Prestes e na doutrina do Clube Três de Outubro que antecipa muito das reformas de base de Goulart - a propósito dessas informações de Sodré, constam em “A história da burguesia brasileira”. (Petrópolis/R.J., Vozes, 1983)
36 O caráter sádico-anal, superegoico, do positivismo, pode-se observar pela sua relação de objeto agressiva e autoritária. Assim como pela inteligibilidade da “ordem”, a subsunção total ao meio como a autoridade ilimitada, a lei férrea determinista de subsunção de todo “ego”. Quanto a este, é totalmente identificado com a própria ordem - assim como com a “produção” tecno-social, ou o ethos científico grupal.
37 A Ordem positivista é pois objetiva-objetivante. Ela distribui os lugares estritamente dicotômicos do Poder, conforme a identificação à lei de uma instância que é ela mesma esse Poder inquestionável. Enquanto identificação objetiva, ela permite ao homem produto do meio inverter os polos como ele próprio produtor relativamente à margem que não produz, e, assim como enquanto epifenômeno do meio ele é a atualidade da ordem inquestionável, o primitivo é epifenômeno dele, inteiramente subjugável por um lado, eliminável por que a evolução torna a não comportar a mudança de um estado a outro, e significa apenas a substituição no tempo evolutivo, de um pelo outro.
38 Em meados do século, com efeito, houve um deslocamento da visibilidade do primitivo, desde as Américas do classicismo e romantismo, para o mito indo-europeu, cujo estudo se intensificou paralelamente aos avanços da linguística como dos “jovens gramáticos” interessados nas leis férreas das flexões. O que é coerente, também, com o “centramento” europeu radicalizado.
39 O consenso positivista é o das raças superiores destinadas ao domínio. Qualquer contemporalização com a fraqueza é nocivo à espécie. O estilo positivista é “livre”, não ambíguo, agressivo somente contra o romantismo da ideologia, porém imperativamente “claro e conciso”, podendo abordar qualquer assunto de comezinha condição porém não de um modo ideologicamente identificado, sobretudo censório de qualquer veleidade “retórica”. O literato realista é o mesmo homem do salão. O divórcio das personalidades criativa e social, ambas integrantes da mesma pessoa civil, só iria ser exigido pelo subsequente modernismo das vanguardas estéticas, não obstante o realismo ter sido uma ruptura profunda do parâmetro estético, por visar a realidade tal qual é. [nota 11]
d) Metodologia funcionalista (1870 a 1950)
I)
1 O Tratado de Tordesilhas, acordo europeu de partilha da América por Espanha e Portugal no século XV, mesmo já não tendo vigência na época colonial pela reorganização do território conforme os interesses colonialistas mesmos, é na história porém ainda um símbolo do domínio abusivo, do genocídio e da escravidão que caracterizaram o colonialismo. O Tratado de Tordesilhas é tradicionalmente o símbolo do colonialismo, cujo contrário absoluto é a independência nacional, os ventos libertários do início do século XIX, quando também na Europa romanticista as nacionalidades pugnavam por terminar com o jugo dos impérios, como a alemã relativamente à Áustria. No fim do mesmo século, em meios da década de oitenta, a Conferência de Berlim oficializou-se como um segundo tratado colonialista, desta vez sobre o território africano, e logo a mesma consolidação dominadora alcançava a Ásia.
2 Não eram já duas nações, e sim sete - França, Portugal, Inglaterra, Espanha, Bélgica, Alemanha, Itália - as proprietárias unilaterais sobre povo e território alheios na África, de modo que o mapa do continente assinalou a pertença oficialmente na Conferência de Berlim, em 1885. Na Ásia os mesmos países avançavam para um estado de coisas neocolonial que iria estar consolidado em 1914, quando Holanda e Estados Unidos se incluíram entre os dominadores. O Japão e o império Otomano eram também potências de dominação aí influentes.
3 O neocolonialismo inovou na forma da posse, instituindo regimes de “protetorados” quando antes na América se reduzia o território a “colônia” do país dominador. Porém os métodos de conquista e exploração eram os mesmos. Segundo Falcon e Moura, “As técnicas das campanhas militares na África, por exemplo, incluíram: estímulo às rivalidades entre nações ou entre líderes de determinado povo, requisições forçadas de alimento, gado e carregadores; alistamento de africanos nas forças europeias sob promessa de pilhagens; repressão a rebeliões inexistentes para obtenção de promoções; saque e destruição de aldeias, seguidas de escravização da população, etc.” - sendo a destruição o mesmo que genocídio violento de toda a população: “Em quase todas as aldeias por onde passamos os poços estavam fechados ou contaminados por montões de cadáveres que apenas se podia distinguir se pertenciam a animais ou homens” - conforme o relato de Meynier Gal a propósito da conquista do Chade. (“A formação do mundo contemporâneo, Rio de Janeiro, Campus, 1986, p. 88) Cenário por demais conhecido nas Américas da época colonial escravista. Meio mais brando do neocolonialismo obrigar aldeias africanas a pagarem impostos sobre suas próprias terras, aquelas onde se localizava sua própria tribo, era típico dos franceses, conforme Leo Huberman. Consistia em raptar as mulheres e crianças, queimar as palhoças, informando só devolvê-las mediante o pagamento, e, uma vez que os nativos não dispunham de dinheiro, este era cobrado na forma do trabalho escravo. (“A história da riqueza do homem, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986, p. 251)
4 Na Índia, conforme Vicentino, a localização de fábricas têxteis inglesas, mecanizadas, acabou com a produção artesanal da população do país, cujas exportações eram 70% de tecidos de algodão, levando às fomes, com 1,4 milhões de mortos na primeira, que durou de 1800 a 1825, nas duas subsequentes, ao longo do século XIX, somando-se 31 milhões. (“História Geral”, São Paulo, Scipione, 1997, p. 337)
5 Na China, o fracasso do movimento nacionalista dos “boxers”, os “punhos fechados”, que foram rechaçados tanto pela força militar do imperialismo neocolonialista internacional composta por ingleses, franceses, alemães, russos, japoneses e norte-americanos, como pelo imperador Manchu que com ela colaborou, expressa o sentimento neocolonista. Conforme registro histórico, citado em Vicentino, o Kaiser alemão “chegou a ordenar a seus soldados: ‘Nenhuma misericórdia! Nenhum prosioneiro! Imponham o nome da Alemanha de tal forma que os chineses nunca mais ousem olhar um alemão, mesmo de lado”. Após a repressão dos boxers, em “vários jardins e parques públicos chineses, a opressão internacional se sintetizava nos cartazes: É proibida a entrada de cães e chineses...”. ( p. 397)
6 Concomitantemente o imperialismo europeu, na forma de domínio puramente econômico, grassava na América Latina, mas nessa época começou a penetração dos Estados Unidos. As memórias do general Smedley Butler, citadas por Leo Huberman, registram que ele serviu, conforme suas próprias palavras, “de guarda costas de alta classe para os homens de negócios, para Wall Street e os banqueiros”. Auto-designando-se, um “quadrilheiro para o capitalismo”, reporta que ajudou “a transformar o México, especialmente Tampico, em lugar seguro para os interesses petrolíferos americanos, em 1914”, a fazer de Cuba e Haiti “lugares decentes para os rapazes do National City Bank”, a limpar a Nicarágua de modo a torná-la aproveitável pela “casa bancária internacional dos irmãos Brown”, em 1909, a República Dominicana para “os interesses açucareiros americanos, em 1916” , Honduras para “as companhias frutíferas” americanas, em 1903, atuando também na China, em 1927, para que a Standard Oil “continuasse a agir sem ser molestada”. (op. cit. p. 253) Os interesses neocolonialistas e imperialistas se definiam tanto pela exploração local, como pela reserva de mercado importador e controle sobre as fontes de matérias primas.
7 Junto ao neocolonialismo oficializado internacionalmente, na transição ao século XX ocorre a transformação “monopolista” do capitalismo. Pela palavra “monopólio” agora entendemos não a concessão de licenças, por parte de um poder de Estado, para exploração econômica. Mas sim a formação de carteis e conglomerados pela reunião de empresas antes rivais, que porém desse modo fecham o seu setor de mercado para quaisquer outras livremente instituídas. Com o tempo, o domínio ilegal de um setor de mercado vai integrando outros setores, de modo que o próprio mercado deixou inteiramente de ser coextensivo à sociedade civil como espaço de livre iniciativa. Também se designa “financeiro” a essa forma de capitalismo, devido à importância das operações bancárias e creditícias.
8 Marx havia interpretado o instrumeno de ações da bolsa de valores como algo arcaico, resquício da aristocracia, uma vez que para ele o capitalista individual era a essência do capitalismo. Até hoje os teóricos marxistas não integraram de um modo sistemático as operações empresariais “financeiras” - cujo equacionamento origina definição muito irredutível de qualquer coisa que possa se assemelhar à livre empresa Marx-smithiana, de circulação de mercadorias produzidas pelo trabalho, e da qual se seguiria a continuidade do modelo sócio-evolucionista do modo de produção.
10 A propósito de quesitos como controle acionário e por via de “papéis”, assim como “integração” ou domínio de mercado, Berle e Means completavam uma apreciação coerente já na década de quarenta - a propósito, Berle foi embaixador dos Estados Unidos no Brasil, sendo a sua participação em campanhas pró redemocratização considerada um fator de catalização do fim da ditadura varguista. Quanto ao fator administrativo como preponderante, ao invés do critério anterior da propriedade, foram importantes os trabalhos de Gerth e Mills sobre “a elite do poder”.
11 O período de orientação coerente, mas paradigmaticamente pós-positivista, que pode ter seu início assinalável na obra de Nietzsche, poderia também ser considerado, um tanto ousadamente, do cumprimento da profecia de Marx. A “unfair competition”, competição suicida entre firmas, utilizando-se de procedimentos desonrosos como vender abaixo dos custos, foi um dos fatores que resultaram no fim do capitalismo até aí conhecido. Como previu Marx, o acirramento da concorrência era uma espécie de lei contrária ao acúmulo ilimitado de proventos.
12 Porém o capitalismo se transformou, originando-se um sistema de empresas integradas que poderia perfeitamente ter sido previsto, não fosse a livre iniciativa, um dado apenas aparente, servir admiravelmente ao desejo de redefinição determinista do que havia sido postulado como a evolução psicossocial europeia do Sujeito. Um desejo cujo sintoma é a omissão deliberada da conexão assimétrica internacional na composição do capitalismo.
13 O capitalismo transformado não conservara qualquer individualismo, senão folcloricamente, na pequena empresa cuja sobrevivência era uma questão de conveniência para o conglomerado, se ela representava possibilidades de aumentar o preço quando isso era oportuno. Quanto às relações entre sociedade civil e capitalismo monopolista, devemos examiná-la em sua coordenação às mudanças impostas à consciência europeia, até aí estabilizada em torno da premissa do colonialismo como algo de todo superado e sem vinculação com a Revolução industrial definidora do “capitalismo” sócio-evolutivo.
14 O capitalismo monopolista foi assimilado na sociedade civil ocidental por dois meios diversos, não por um único. A clivagem torna-se evidente na altura da década de trinta, conforme a estabilização dos dois blocos que se enfrentaram na Segunda Guerra mundial, o democrático e o totalitário.
15 Mas os inícios da consolidação neocolonial imperialista da consciência europeia ainda são bem irredutíveis a esse cenário. A clivagem pode porém ser rastreada em suas origens a partir da evidência de que, na transição ao século XX, de fato as nações protagonistas do capitalismo na Europa não eram democráticas, e sim impérios neocoloniais como a Inglaterra e, logo a seguir, a Prussia alemã. Elas são as duas rivais que protagonizam as duas guerras mundiais.
16 A Inglaterra porém, sendo o símbolo do parlamentarismo, conservou-se na liderança histórica das nações ligadas ao que havia sido o liberalismo constitucional, e, em seguida, a democracia estadunidense tomou o lugar. Ora, na visão de Marx, em A ideologia Alemã, na Alemanha não havia história ocorrendo concomitante ao expansionismo industrial inglês. Porém sabemos bem o motivo do juízo. Ela não participara do processo histórico liberal à inglesa, e havia instaurado com o “biedermeyer” uma perseguição ostensiva do regime contra o “realismo”, num meio de romantismo oficial – obviamente de pacotilha, para agradar ao regime. Hoje vemos, ao invés, que na Prussia estavam se tipificando os requisitos do capitalismo monopolista, que não requer necessariamente democracia ou liberalismo político algum. Ao contrário da Inglaterra, que apenas continuava um processo, ainda que ajustando-se oportunisticamente às novas condições, na Alemanha é que a história estava acontecendo, em termos de mudança conspícua.
17 O império alemão acalentava os ideias de um romantismo requentado, com desconto dos ideais de liberdade subjetiva e puramente tradicionalista, porém revestido de um nacionalismo novo, agressivamente competitivo, onde a tecnização dos curriculuns escolares significou a exaustão dos canais de interlocução entre a sociedade e a produção espiritual da pequena burguesia esteticista.
18 Este último foi porém um processo que atingiu a Europa como um todo. Gradualmente se extinguiam os intermediários, e a sociologia de Marx, com visibilidade apenas para duas classes antagônicas, burguesia e proletariado, tornava-se a verdade imposta pelo imperialismo. Assim, porém, não resultou esse processo redutor num reflexo da realidade social “para si”. Ao contrário, mostrou apenas a irredutibilidade entre o capitalismo e a sociedade civil. Uma irredutibilidade que não era apenas traduzida pela superexploração do operariado que nessa época acontecia na própria Europa.
19 Entre a Inglaterra e a Alemanha, portanto, é compreensível que a reação social ao achatamento das perspectivas culturais e ao avassalamento das liberdades pelo poder econômico, não tenha sido a mesma.
20 Na Alemanha, a reação cultural enfrentava um poder de Estado. Uma vez que o crescimento ali estava diretamente relacionado à competição internacional, e o capitalismo personificava-se sem antagonismo por todas as classes altas do “tradicionalismo”, a burguesia assim como a aristocracia. Após a primeira guerra, quando a reorganização alemã se fez por um revanchismo traumatizado, mais que compreensível, o totalitarismo nazista que oportunisticamente colhera os frutos da derrota, vemos que o regime totalitário estava plenamente harmonizado com a economia de carteis. A trajetória evolui, pois, do ambiente wagneriano do nacionalismo agressivo alemão, até o populismo oligárquico, ligados ambos pelo fio vermelho do “tradicionalismo”, fórmula aperfeiçoada do que já conhecemos desde os pré-românticos.
21 A social democracia que florescera nesse ínterim como o ramo do liberalismo político adequado ao tempo, naufragou entre as duas guerras, enquanto os intelectuais judeus eram desterrados ou destinados a uma perseguição hedionda assim como toda a etnia judia, logo tendo sido decretado a condição de apátridas. Os antagonistas da social democracia, entre o anarquismo e o comunismo, sofreram o mesmo destino na decorrência da coalizão do nazi-fascismo internacional. A sociedade de economia cartelizada que simbolizava porém o ideal acalentado das oligarquias, de serem expressivas dos valores tradicionais do povo. A propaganda xenófoba e internamente racista proveu a unidade do povo aos líderes da assim propagandeada expansão.
22 O “eixo”, como se designou a aliança dos países totalitários, foi composto pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão tradicionalista. O “populismo” assumiu uma forma especificamente distinta, da qual o termo pode ser o correlato definitivo em sinononímia às três mencionadas particularidades de regime. O populismo como a fórmula geral deles, envolvendo a estetização concertada da cooptação das massas pelo simbolismo do poder agigantado, um líder carismático simbolizando a identidade única da raça nacional suposta superior, e atuando por meio da nova tecnologia dos “mass midia”. A atuação direta do povo em prol das diretrizes do regime devia ser garantida “total” pelos aparatos utilizados, daí o nome “totalitarismo”.
23 Na Inglaterra o parlamento mediou os interesses da burguesia capitalista, tanto a superexploração do proletariado como a penetração do imperialismo, porém a sociologia reformista teve aí melhor sorte. Uma vez que expressava a longa continuidade do liberalismo nacional, de Locke até os Webb e outros expoentes da pesquisa social empírica. O entre-guerras é um cenário em que os países politicamente liberais estão utilizando intensivamente os mecanismos estatais de proteção da sociedade contra o abuso econômico, tendo porém já os Estados Unidos como símbolo.
24 A prática do cartel nesses países ficou sendo antitética à imagem do regime. Porém na verdade não de todo impossibilitada. Além disso, o controle acionário e por outros meios, como instrumento legal de integração empresarial, facultou às empresas monopólios nacionais. Conforme Falcon e Moura, “... também na área bancária se processou um idêntico fenômeno de concentração e integração, pela absorção ou eliminação dos pequenos bancos e constituição de grandes sociedades financeiras que, em número reduzido, detinham praticamente em suas mãos as finanças do país (veja-se, por exemplo, o caso do grupo Morgan nos Estados Unidos)”. (op. cit. p. 78)
25 Mas o que não se sublinha frequentemente é como isso seria esperável a partir do imperialismo enquanto a forma da política externa escolhida mesmo pelos países de opção liberal. O monopolismo e o imperialismo não são duas coisas diversas, mas uma interligação necessária. Se a sociedade civil não está disposta a ceder ao primeiro, só por meio dos ganhos do segundo é que podem ser haurida a soma de recursos necessários para obter aquele domínio. Quanto à conversão imperialista dos Estados Unidos, enquanto país “americano” que não tinha tradição colonialista, pelo contrário, o livro 1 mostrou o vínculo do business da comunicação em massa, enquanto um protagonista do monopolismo que de um modo geral o pensamento historiador ainda não equacionou.
II
1 Não obstante a clivagem dos regimes totalitário e liberal, desde a época de Nietzsche o tradicionalismo foi uma constante europeia de redirecionamento das ciências, que passaram da homogeneidade do positivismo a uma aguerrida cisão interna. Por um lado, os que se conservaram cientificistas, por outro lado, o tradicionalismo emergia como revolta contra o domínio objetivo da verdade, em nome dos significados puramente culturais da humanidade.
2 A crítica marxista ao Estado, que na era positivista significava a crença numa lei científica da história, acima dele, como o capitalismo evolutivo, aprofundava-se agora, porém na defesa do que havia abaixo dele enquanto expressão da ordem social capitalística. Não hove, portanto, uma redefinição do capitalismo - por incrível que possa parecer - em termos exclusivos de racionalidade psicossocialmente evolutiva, processo intrinsecamente europeu. O imperialismo era, como Lenin colocou, uma “fase” nova do capitalismo, porém não a essência. E despontava, com os novos tempos das ciências humanas culturalistas, anti-positivistas, anti-fisicalistas, almejando validar a metodologia “compreensiva” própria, a nova definição, por Weber, do capitalismo como “racionalidade empresarial”, porém igualmente às definições anteriores, evolução psicossocial europeia do Sujeito.
3 Na época de Nietzsche ainda não havia o termo “funcionalista” para designar algo como uma metodologia que considerava a realidade por campos circunscritos de totalidades, que se consolida como metodologia desde o círculo de Max Weber em diante, classificando tipicamente a este na Alemanha, assim como o sociólogo Durkheim e seu sobrinho, o antropólogo Marcel Mauss, na França. A propósito, escusado ressalvar expressamente que o “funcionalismo metodológico é termo que não tem qualquer relação com o “funcionalismo” na acepção de classe dos servidores públicos.
4 Quanto a estes expoentes primordiais do funcionalismo, devemos salientar a qualidade inigualável dos textos antropológicos de Mauss, que permanecem como exemplos de pesquisador isento de preconceito e factualmente envolvido com o objeto humanístico de sua pesquisa. Mesmo que sua perspectiva estivesse pre-concebida pela clivagem, que havia tornado a ser absoluta, entre os estados de natureza e de sociedade. O estado originário, de modo diverso do positivismo, voltava a ser pré-social com o funcionalismo. Não obstante, não havia agora estado natural isento de cultura, mas sim uma nova e irredutível oposição de “cultura” e “sociedade”, na medida em que esta última se reservava como sinônimo da evolução moderna ocidental.
5 Assim vemos que mesmo o funcionalismo só estando definido desde os inícios do século XX, já no ambiente intelectual coerente ao nietzscheísmo a oposição ao realismo existia, e assim podemos designar o período como um funcionalismo latente. Na altura de inícios do século podemos configurar a organização da “Antropologia Social”, como uma nova ciência enquanto agregando a “pesquisa de campo” que não havia antes, assim o correlato anterior podendo ser designado apenas “Antropologia Cultural” - embora não tendo a ver com o sentido de “culturalismo”. Ao mesmo tempo estava sendo transformado o parâmetro na Sociologia, pelo culturalismo. Não há consenso a propósito de qual das duas introduziu o termo “funcionalismo” como proposta metodológica, que, entretanto, logo expandiu-se como um paradigma epistemológico de época.
6 O neocolonialismo requisitou métodos de pesquisa in loco, na África e Ásia, de modo a obter informações factuais. Malinowski e Radliffe-Brown são os referenciais emblemáticos dos pioneiros célebres na pesquisa de campo. Porém o interesse específico do pesquisador não se reduziu de ordinário ao imperialismo dos governos de seus países. O culturalismo que impregnava as mentalidades, foi um violento repúdio à deterioração da sociedade pelo “progresso”, ainda que, assim, o que ocorria era a conservação da identidade do capitalismo com o individualismo. Houve pois uma mistura do velho e do novo. Por um lado, manutenção do estereótipo evolutivo do capitalismo individualista, e, ao mesmo tempo, rejeição do capitalismo pelo conhecimento novo do seu caráter antitético à verdadeira realização social. Logicamente, seguiu-se a rejeição do “progresso” deletério como do individualismo “civilizado”.
7 Essa é a fórmula explicativa da propaganda dos regimes totalitários contra os judeus. Uma vez que se revestiam esses regimes do epíteto de verdadeiras socializações da produção, pelo tradicionalismo que englobaria o povo na nacionalidade da “raça”, e aos judeus se reservava agora a posição de progagonistas do “aventureirismo”, a fase “comercial” de exploração capitalista, antes da Revolução industrial. Assim vemos como foi importante a sociologia weberiana, uma vez que ela é a sistematização mais proeminente dessa oposição entre “aventureirismo” judeu familiarista e verdadeiro “capitalismo” da Revolução Industrial, individualista. O judeu “usurário”, racialmente destinado a esse caráter, foi o viés da propaganda racista totalitária.
8 Porém de um modo geral, o funcionalismo mesmo latente praticou o racismo, numa nova base, já não biologista. Havia sido refutada a antropologia positivista, pelo trabalho de campo. Não se verificou a subsunção das formas culturais a estágios de conhecimento técnico. Em compensação, os primeiros contatos especializados confirmaram o que o culturalismo “simbolista” de Nietzshe em diante já antecipavam, a redução culturalista das sociedades como todos fechados, irredutíveis uns aos outros, de costumes e valores significativos.
9 A meu ver é impróprio considerar que isso é o mesmo que o Romantismo já fizera. Na oralidade romântica, havia uma convergência que seria difícil entender hoje, de sistema e devir. Os sistemas culturais eram já pensados como totalidades, porém não eram antagônicos à História, a referência competente ao seu estudo. O positivismo eliminou a independência da cultura, reduzindo-a a ideologia, como vimos, mas na retomada funcionalista não há a convergência. A cultura está reduzida ao sistema, não tendo havido restituição à História da competência do seu estudo, pelo contrário, tendo-se reformulado a Ciência Social para isso - a nova sociologia pós-comteana e humanística, e a criação da Antropologia Social de campo.
10 O funcionalismo metodológico pode ser definido por dois elementos. O método de “Verstehen”ou “compreensão”, definindo-se como oposto ao Erklaren ou “explicação” das ciências naturais, assim como o entendimento adequado ao sistema cultural deve ser oposto àquele da causalidade objetiva. Compreender é pois, primeiro, renunciar a ter domínio sobre o objeto, uma vez que sistemas culturais diferentes não podem ser atualizados como mentalidades coexistentes pela mesma pessoa, nesse caso, o pesquisador de formação ocidental. Mas o segundo elemento é a concepção da totalidade, como sistema cultural, composto por “funções” que cada sistema criou como os seus, assim como em biologia o organismo está relacionado como o todo relativamente às funções orgânicas especializadas.Assim “Compreender” é criar categorias supostas adequadas ao objeto, como a de “ideal-tipo” weberiana, ajustada a cada forma de atuação de sistemas diferentes, como a ação ritual das “comunidades” (gemeinschaften) primitivas e a ação racional da sociedade (geselschaft) moderna.
11 Podemos situar o nietzscheísmo, como um primeiro funcionalismo sistemático em termos conceituais, embora não metodológicos, na especificidade de uma segunda inversão de Hegel. Se Marx operou a inversão da emancipação do escravo na história, desde o elemento da idealidade ao da materialidade do modo de produção, Nietzsche inverteu a dialética hegeliana do senhor e do escravo a partir da recusa da emancipação como possivelmente a do escravo. O inconsciente do Senhor seria o elemento adequado ao imperativo exclusivo do sistema cultural como linguagem oriunda do espontaneísmo da “vontade de potência”. Na psicanálise, onde o inconsciente da potência foi diferenciado em função de instintos específicos coerentes ao novo contexto da psicologia, envolvendo a observação dos bebês e a interpretação de suas primeiras aquisições em termos equiparáveis ao conhecimento do primitivo antropológico, essa inversão é exemplar - assim Lacan a expressou verbalmente em seus Escritos.
12 A duplicidade de inconsciente e consciente explicou os desdobramentos da personalidade, como histeria, ação sob hipnose, dupla personalidade, razão profunda dos sonhos. O artista da vanguarda voltou-se à expressão do inconsciente, a arte profundamente divorciada do espifenômeno “burguês”.
13 Na psicologia associacionista dos positivistas, não havia a sobreposição originária de fenomenologia da consciência e teleologia da história, já que a consciência era epifenômeno do determinismo objetivo, material ou orgânico. A sobreposição que inicialmente foi proposta do romantismo, é retomada porém numa base científica por um lado, como na adoção de um parâmetro central na fisiologia do cérebro, como na concepção de Sherington, ao contrário do sensismo de Helmholtz. E também nas ciências humanas.
14 A psicopatologia nascente, de que várias escolas de psicologia e a psicanálise se originaram, operou a convergência de um modo sistemático, assumindo porém que o “eu” é formado apenas aos tres anos de idade, na criança da sociedade civilizada, e que o período formativo até aí é composto de fases homólogas tanto a um escalonamento possível de costumes comunitários primitivos, como de doenças mentais especificamente diagnosticáveis como fixação respectiva.
15 Sem dúvida houve na psicologia científica um apoio aos govenos progressistas, assim como na sociologia empírica, visando o reformismo. Porém o culturalismo de um modo geral estava imbuído de um tradicionalismo primitivista não restrito aos regimes totalitários. O esquema do super-homem nietzschiano, sendo a integração de conhecimento da origem, repúdio da evolução degenerativa capitalista, mas assim nova evolução reorientada como realização saudável coerente à natureza original, é reencontrada na Vanguarda estética e política do século XX. Apenas não necessariamente conceituando a reorientação em termos de “super-homem”, sendo Nietzsche ainda demasiado ignorante em ciências humanas, de modo a não ter obtido da origem o que as informações da magia e tribalismo, da África e Ásia, representaram. O marxismo de Lukacs, principalmente, expressa a reorientação culturalista.
16 O tradicionalismo culturalista é portanto uma perspectiva do todo social, cada todo segregado dos demais, ressignificando a raça pelo componente da unidade da cultura. Assim a propaganda totalitária da raça superior não refletia apenas a convição nazi-fascista, mas sim a ordenação funcional da cultura, que admitia portanto uma identidade “ariana” da etnia branca, indo-europeia, entre Europa, a Persia e a Índia de castas. O mito indo-europeu era agora, porém, apenas parelalo às descobertas de campo nas ciências humanas, mas politicamente tornava-se a fórmula da sociedade “ocidental” como um primitivismo do “Norte” indo-germânico, unido pelo culto do sol, por exemplo tendo de singular a poética do “lied”, a canção popular consagrando o romance dos jovens por tipos funcionais específicos, como o camponês, o caçador, o soldado e o viajante (a propósito, o estudo tendencioso de E. Schuré, “a história do lied”, como documento de época).
Um referencial desse fechamento europeu como radicalidade do auto-conceito segregacionista de toda heterogeneidade, característico do funcionalismo, é a mudança que se opera nessa época, na concepção da origem da moderna ciência europeia. Enquanto um sistema de inteligibilidade própria, ao lado de qualquer outro culturalmente estabilizado, a ciência moderna deixa de ser considerada essencialmente “experimental”, com origem em Galileu. Ela tem início na metafísica grega, reinterpretada como origem da atribuição conceitual do universal, o que em Heidegger ecoa a crítica à geselschaft, como à sua raiz própria. Mas essa crítica é ambígua. Por um lado, se responsabiliza pela exclusão de todo fator destoante de uma história linear da “tradição” metafísica “ocidental”, de Platão a Santo Agostinho e Descartes até o positivismo. Por outro lado, culpando a ciência metafísica ou ocidente pela dominação imperialista, não concebe porém qualquer alternativa ao “saber” autonomizado, visando apenas o retorno ao que originou a metafísica como por um desvio, a saber, o pensamento grego pré-socrático.
17 Vemos que já não se trata do sádico-anal positivismo. Porém a ambiguidade insanável do culturalismo funcionalista, seria como a fase fálica psicanalítica, em que a criança se interessa pela pesquisa da sexualidade, quer saber como os bebês nascem, porém cultiva já uma certeza antitética à realidade. Sendo dogma psicanalítico que a criança não sabe a princípio que o sexo da mãe é peculiar, relativamente ao falo do pai. Mas ela é pressionada a duvidar da sua pretensa certeza. Entre um e outro veredito, a “consciência” se faz sumamente ambígua.
18 O funcionalismo, uma vez que a verdade se pluralizou, enquanto cultural, está em toda parte, como o segredo da linguagem de cada raça diferente das outras, porém esse segredo em si, como a fórmula da diferença insanável, é o conhecimento científico humanístico ocidental, assim como o do progresso inexorável. Também o funcionalismo faz o retorno do sujeito, que o positivismo havia reduzido a epifenômeno do meio objetivo, porém a subjetividade funcionalista é a própria sociedade, o sistema cultural em que o sujeito “é” o que ele pode ser “para si”, como significado situado na sociedade.
19 A “comunidade” primitiva é a de sujeitos situados, não disponibilizados pela “coisificação” burocrática, porém essa condição tão sedutora é apenas a de uma defasagem histórica, votada à extinção, do cândido infantilismo. O estilo culturalista “humanista” nunca deixa de exibir a ambiguidade, as deliberadas afirmações de uma coisa e o contrário, como sua “consciência” característica. O parâmetro da centralidade também é comum entre psicologia e ciência social, com um modelo na física do campo e quântica.
Assim por exemplo, Durkheim estabeleceu a cisão de desenvolvido e sub-desenvolvido pelo critério de divisão do trabalho. As sociedades primitivas não a teriam, confundindo função e papel social, sendo “segmentadas”. O critério da integração das funções pela divisão do trabalho, com liberação do papel social, permitiu a Durkheim associar as sociedades primitivas com as espécies verminóides, e as desenvolvidas com animais superiores, dotados de sistema nervoso central. Algo semelhante, pardoxalmente, ao que Marx na Ideologia Alemã sugeriu do primitivo, como “consciência de carneiro, tribal”. (ver os artigos de Marx e Durkheim em “Teorias de estratificação social : leituras de sociologia”, seleção de textos de Otavio Ianni, São Paulo, Ed. Nacional, 1978).
A propósito desse conceito de “sociedades primitivas segmentares”, Willems (“Antropologia Social”) mostrou como está refutado, posto que se a sociedade originária fosse segmentar, de que ela teria se segmentado? Com efeito, como um paradigma de época, o culturalismo funcional está exaurido após 1945, quando um conceito de “sociedades em desenvolvimento” se fez historicamente necessário. Mesmo assim o conceito durkheimniano de “coesão” social tem sido utilizado em parâmetros de sociologia, como na psiquiatria sociológica de Roger Bastide (“El sueño, el trance y la locura”), especialmente visando condições sociais relativas a países “subdesenvolvidos” ou coloniais.
e) Os estruturalismos (de 1945 em diante) e o Pós-modernismo (de 1985 em diante);
1 1945, quando se torna superado o cenário das duas guerras mundiais, assinala a vitória dos “aliados”, os países liberais, contra o nazi-fascismo. Seria coerente uma profunda reacomodação da consciência ocidental. Não obstante a vitória dos aliados parecer apenas a confirmação das expectativas da evolução psicossocial, a perspectiva integracionista, totalizante, da metodologia funcional devia agora ser questionada quanto à sua proximidade com os próprio fenômeno do nazi-fascismo, assim como o que o poderia explicar.
2 O rise estruturalista anti-humanista, ocorre em torno dos trabalhos de Levi-Strauss, e, já por isso, podemos ressaltar a importância das mudanças relativas à concepção do terceiro mundo nessa mudança histórica. Ironicamente, a mudança em si introduz um novo cenário da afirmação ocidentalista. O anti-humanismo estrutural tem aí um seu motivo conspícuo, como um cenário de princípio avesso a todo “primitivismo”.
3 Na perspectiva epistêmica, seria importante observar que o Verstehen funcionalista se opôs oportunamente ao cientificismo objetivo, num momento em que a unidade da Razão estava sendo fragmentada por este mesmo. O progresso das ciências ao longo do século XIX aportou a um divórcio de senso comum e pesquisa científica, sendo habitualmente reportado pela emergência da física quântica, que apresentou aspectos desconcertantes à razão comum, porém de fato a cisão já vinha de bem antes. Até porque um rumo privilegiado das ciências naturais patenteou-se pela interdisciplinaridade, como na físico-química, o que repugnava imensamente a Comte, desejoso de proibi-la em nome da “Ordem Social positivista”.
4 O funcionalismo confrontara uma sociedade dilacerada pela competição dos impérios capitalísticos neocoloniais, assim como por uma objetividade inconciliável com a visão de mundo. O estruturalismo é um momento em que, pelo contrário, o pós-guerras representa um novo otimismo pela superação do pesadelo totalitário - que teve assim um papel de bode expiatório, agregando tudo o que de ruim se poderia atribuir ao progresso. Que a própria Inglaterra havia iniciado a posição beligerante, antes mesmo de 1914, não vinha a propósito, uma vez que ela havia vencido como o liberalismo político ao totalitarismo odioso, dos campos de extermínio racial.
5 Assim também é um momento de conciliação dos saberes, não porque se tenha suscitado alguma nova metafísica, mas, pelo contrário, porque a totalidade do sistema se parcializara em fenômenos independentes. Em vez do todo, como significação única, subsumir as partes, estas, como relações opositivas de partículas formadoras, destilavam um funcionamento sistemicamente articulado.
6 A ambiguidade funcionalista já havia sido agudamente sentida como obstáculo no interior da própria tendência, como por Talcot Parsons em The Structure of Social Action. Houve um interregno designado “estrutural-funcionalismo”, bem influente nos Estados Unidos, havendo uma certa polêmica sobre se o precedente pragmatismo de Peirce e Dewey ou o novo estrutural-funcionalismo de Parsons e Merton, é o típico pensamento coerente à sociedade norte-americana. Mas o estruturalismo tout court não é funcionalmente redutível por isso que afirma a independência das partes e a natureza meramente projetada - digamos, ideológica - do todo.
7 O termo ideologia havia sido ressignificado pelo funcionalismo como sinônimo de cultura, a subjetividade dos significados puramente culturais. O marxismo humanista havia considerado a crítica da ideologia como crítica de um tipo de processo cultural, inerente à sociedade capitalista e não totalizante dos demais. O estruturalismo, inversamente, restaurou a noção de ideologia como distorção da verdade objetivamente validável, porém agora designando a essa distorção como um efeito da própria estrutura, enquanto atuação inconsciente do sistema. Ou seja, a impressão de ser significativo por si, daquele todo que era, inversamente, agora suposto como efeito das relações diferenciais das partes.
8 Durante as duas guerras, a Europa, os Estados Unidos e o Japão, como potências industrais haviam estado neutralizadas, com sua produção canalizada à fabricação de armamentos. Assim países da América Latina e Oriente Médio, que já vinham como independentes, tiveram uma folga do aperto imperialista, e puderam - ou tiveram que - se tornar produtoras numa política de “substituição de importações” referente a mercadorias que as potências não estavam podendo agora fabricar. Logo após 1945, especialmente os Estados Unidos exploraram o potencial produtivo dessas nações, estimulando a sua propaganda para o “progresso”, porém com objetivo planejado de não permitir que continuasse coordenado de um modo autônomo.
9 Assim surgiu a designação de “sociedades” em desenvolvimento, para países do terceiro mundo com industrialização insipiente, e uma série de coordenadas visando cooptar esse processo em benefício das nações centrais. Ao mesmo tempo, o processo em si era alçado a signo da ocidentalização saudável, testemunhando o compromisso das nações desenvolvidas, isto é, industrializadas, com as “atrasadas”, que não haviam alcançado o mesmo patamar. A mentalidade desenvolvimentista alcançou assim a prória ressignificação do Ocidente como Sujeito da História, formalizando o que havia estado subjacente até então, como o conceito de história ou desenvolvimento repetível, virtualmente modelar.
10 A característica da agricultura ou extração mineral nos países antes colonizados, era toda canalizada pela contra-revolução industrial ativa, que até aí as nações centrais haviam feito no terceiro mundo, de modo que a exportação de matéria primas baratas e importação de industrializados “ocidentais” havia sido a essência do capitalismo. Mas nesse novo momento, a agricultura do terceiro mundo era apenas signo de atraso, o oposto do país desenvolvido, a conservação do arcaico feudalismo contrariamente à superveniência do capitalismo. E a obrigação das nações desenvolvidas, interessadas no progresso da inteligência, devia ser com o desenvolvimento internacional.
11 O papel relevante dos Estados Unidos nessa época, como condutor da política ocidentalista para o terceiro mundo, devemos compreender pelo fato de que assim que acabaram as guerras mundiais, começou a guerra da descolonização afro-asiática, que comprometeu sobremaneira a Europa. Os Estados Unidos estavam, por um lado, livres da beligerância direta, porém por outro lado, vantajosamente podendo representar os interesses ocidentais como a superpotência capitalista em qualquer frente, e cujo oponente direto era agora apenas a outra superpotência comunista, a União Soviética. (URSS) Nessa época consolida-se a oposição dos países desenvolvidos como “ocidente” capitalista, mais porque a tensão bipolar das superpotências foi colocada em termos de conflito Leste/Oeste, com a URSS do lado oriental da Europa.
12 Assim, agora, pode-se simbolicamente postular uma “diferença” dicotômica, superando a dúvida fálica, entre dois lados equilibrados num só conflito - assim como a fase genital ou amadurecimento psíquico decorre da descoberta pela criança da diferença do gênero sexual dos pais. Ou seja, podendo ela estabelecer uma clivagem entre o sujeito e o objeto, o eu e o interlocutor (“outro”), como referenciais de relacionamento recíproco. Não obstante, o caráter neurótico do processo imperialista não permitiu que se desfizesse o signo sem relação de um Sujeito unilateral da História, redobrando-se, ao invés, os procedimentos do imperialismo.
13 O capitalismo “ocidental” norte-americano revolucionou em muitos aspectos a produção europeia, de modo que a esta pode-se agora designar o capitalismo clássico. A americanizaçaõ do mercado veio aplainando as diferenças e atualizando o cenário de um “neocapitalismo”, como se designou, até a “globalização” como um novo momento.
14 Em sua relação com o terceiro mundo quanto à “ajuda” para o desenvolvimento, desenvolveu estratágias também de um novo imperialismo, como a exportação de capitais que condicionou o problema gigantesco da dívida externa, e a penetração das empresas multinacionais concomitante.
15 Essa contradição entre penetração do empresariado estrangeiro e ajuda para o desenvolvimento autônomo resultou no estado de coisas traumático que já estudamos em nosso “livro 2”, porém a Globalização como cenário pós-moderno, atual, mostra que ao contrário do que se pudesse crer localmente nas décadas anteriores ao neoliberalismo econômico dos anos oitenta, o que se estava articulando era apenas o domínio das “multinacionais” sobre todo o terceiro mundo. A dívida externa, após a imposição ao longo de décadas, resultou na venda do que havia sido possível produzir em termos de indústria “estatal”, e assim resultou na “globalização”.
16 Ao longo das guerras de descolonização, a intervenção estratégica norte-americana correspondeu ao enfrentamento da hegemonia soviética do Leste Europeu, visando coibir que atingisse os países do terceiro mundo.
17 Nessa decorrência, o estrutalismo ortodoxo anti-humanista, de Strauss, Lacan e Althusser, foi questionado por uma renovação designada pós-estrutual, que visou tornar autônomos os processos culturais ao invés de atrelar todos a uma trajetória da autoconsciência estrutural única. Trata-se do pós-estruturalismo, como chamamos hoje, porém após um período polêmico, que concentrou esperanças do terceiro mundo por uma verdadeira teoria interessante à sua heterogeneidade, constatou-se um recuo ao ocidentalismo. Isso não devia ser de todo surpreendente, se bem que confrontado ao caráter fortemente agressivo dos inícios, pudesse parecer.
18 O fato essencial é a premissa estrutural de que, pela própria natureza da estrutura enquanto possibilidades combinatórias inúmeras a partir de um número de elementos finito, a combinatória que permite maior variação seria a evolução histórica relativamente àquelas restritas a menor variação, porém formalmente a origem dessas de menor variação, uma vez que a maior variação reflete a natureza de n variações da própria estrutura, e assim permite a consciência científica dela.
19 Levi-Strauss reduziu assim todas as culturas, enquanto elas mesmas reduzidas ao sistema de parentesco local, a variações de elementos como de parentemas, mostrando pois que o sistema ocidental, em que há variação máxima das possibilidades de casamento, é a proximidade máxima da estrutura de n combinatórias sistêmicas. O estudo etnográfico das relações de parentesco tipificando sociedades diversas no tempo e no espaço, pode escalonar o desenvolvimento dessas sociedades conforme o crescendo das possibilidades de escolha do casamento, relativamente a esquemas muito estreitos em que a escolha se reduz a um só clã. O limite da variação máxima ocidental preside pois desde a origem a natureza combinatória dos sistemas, mas assim que é atualizado na modernidade, desbloqueia a capacidade mental da ciência correspondente. A “ideologia” mítica das culturas é portanto o bloqueio, porém não como simples desconhecimento factual ou interesse determinado, e sim como um efeito da própria estrutura enquanto certo tipo de combinação limitada. A ciência continua a ser interpretada como sistema, não fundamentalmente “experiência” fenomênica, e, assim, com origem no conceito platônico e na lógica aristotélica. Mas agora o sistema está liberado como possibilidade pós-metafísica devido à descoberta da unidade operatória da inteligibilidade, a materialidade do significante, que se comporta conforme a combinatória de pares diferenciais.
20 O pós-estruturalismo pretendeu liberar a heterogeneidade cultural do constrangimento dessa premissa da “ideologia” como anterioridade da combinatória ocidental, porém não o conseguiu, porque sua própria enunciação de ser conhecimento exaustivo e objetivo do funcionamento semiótico de qualquer linguagem ou mito correspondia a ela. A origem metafísica da ciência sistêmica voltou a ser criticada, como era em Heidegger, porém apenas para uma mesma convicção de se ter atingido o estágio pós-metafísico da inteligibilidade, a partir porém não do significado contextual pré-socrático, mas da materialidade do significante estruturalista, em todo caso, do mesmo modo esse feito só sendo possível pela crítica e evolução da ciência ocidental desde a metafísica grega - nunca tendo havido “saber” autônomo fora daí, nem, consequentemente, possibilidade de crítica do idealismo. O pós-estruturalismo teve porém uma consequência desvantajosa relativamente à liberação do progressismo pela ortodoxia estrutural.
21 O estruturalismo operou um novo conceito de inteligência, com os importantes trabalhos de Piaget na psicologia, não obstante o desdobramento sócio-progressista ocidentalista da sua teoria do “inconsciente cognitivo”, evoluindo por fases definidas. Já os pós-estruturalistas, assim como o neofuncionalismo de Habermas, Apel e outros, procederam por vezes em amálgamas com formulações humanísticas pretéritas. Especialmente isso ocorre pela influência da “psicologia humanista”, bastante importante após os anos cinquenta, como de Jaspers, Binswanger, Laing e Cooper, Carl Rodgers, Rollo May e A. Maslow. Porém só os pós-estruturalistas a tangenciaram por vezes, vindo de uma comum revalorização de Nietzsche, mestre de todos os assim designados, como Foucault, Deleuze, Derrida, Lyotard e outros. Enquanto o resultado neofuncionalista foi um novo ocidentalismo da razão argumentativa, como porém fuga do político e do Estado para simples interlocução de pessoas privadas, no pós-estruturalismo tendeu a promover ilegalismos deploráveis como procedeu Foucault, radicalizando a crítica ao Estado, agora como dominação sobre as consciências.
22 Em geral uma característica do pós-estruturalismo foi a preservação do conceito de sociedades sem Estado como primitivas, e um novo tipo de valorização demagógica das origens, contudo praticando uma reserva de ocidentalismo progressista pela via da vocação do capitalismo ao conhecimento estrutural. Nessa contradição, que contrasta muito com a coerência do estruturalismo, o pós-estruturalismo demarcou porém a sua convergência com o neoliberalismo econômico, na altura dos anos oitenta.
23 Até aí, o Estado de Bem Estar Social do keynesianismo, que prevê investimentos estatais na assistência social com o objetivo de aquecer a economia, havia sido coerente à ideologia da responsabilidade para com o desenvolvimento. Mas após ter o mundo capitalista obtido uma vantagem demarcável na descolonização, e estar novamente assegurado o dependentismo no terceiro mundo, sobreveio o neoliberalismo econômico de Friedman e Haekel nas nações centrais, como previsão contrária a Keynes, de total dominação do capitalismo e neutralização consequente dos poderes do Estado.
24 Os estrututalismos conservaram portanto, a totalidade da cultura como dogma inquestionável, e, assim, a cisão do primitivo e do civilizado. A cisão voltou a ser entre sociedades (“geselschaften”), já não restando a terminologia da “gemeinschaft”, nem sua “significação”.
25 Paralelamente, a visibilidade do primitivo tornou-se multifacetada, com um salto de nível em volume e alcance das ciências humanas. A pesquisa em ciências humanas tornou-se importante no desfazimento de crenças recorrentes que denegavam a heterogeneidade cultural. Também porque a pesquisa e produção estética internacionalmente relevantes passaram a ter origem no próprio terceiro mundo, não somente nas nações centrais. Nessa decorrência, os estruturalismos foram uma espécie de reação contra as mudanças necessárias dos pressupostos, e a ruptura das dicotomias, assim como dos parâmetros totalizantes. O pós-modernismo começou a ser atribuído como uma realidade de época desde os anos oitenta, de um modo algo confuso a princípio, mas tornando-se mais coerente em torno do fato dessa ultrapassagem necessária, assim creio que um referencial dos mais importantes nessa estabilização recente seria, entre várias mudanças importantes na produção estética, em teoria pós-colonial a obra de Eduardo Said (“Orientalism”).
26 Enquanto isso os estruturalismos se obstinavam em condenar as ciências humanas como técnicas de controle e/ou ideologia dos fatos, ignorante da “estrutura”. Nessa altura porém os fatos se faziam sentir como já não epifenomenicamente redutíveis, a partir da evidência do limite ecológico da exploração industrial do planeta. Por outro lado vários investimentos que podemos considerar pós-modernos, como de Jane Flex na teoria feminista pós-identitária, começaram com inspiração pós-estruturalista, mas revelam resultados inconciliáveis com ela.
27 Os estruturalismos poderiam ser considerados uma objetividade genital, porque situada, consciente da operosidade do signo (“significante”). Tendeu à pluralidade dos sistemas e a um uso renovado da vanguarda estética, já como não passionalidade primitivista, e sim jogo livre na linguagem, assunção do desejo - algo em convergência com o segundo Wittgenstein.
28 Porém não previa a possibilidade de um retrocesso na mentalidade suposta progredida, ocidental, uma vez que a própria normalidade genital é um conceito psicanalítico dependente do pressuposto evolutivo do patriarcado indo-europeu.
29 Esse retrocesso decorreu na “globalização” que é por um lado uma “neoanalidade”, com a consciência reduzida ao objeto técnico info-midiático, produzido unilateralmente pelas nações centrais a partir de sua reserva de saber, de modo que o objeto mesmo é portador de dispositivos de dominação e violência sobre os indivíduos, com o fim da legalidade pelos dispositivos de intrusão da produção cultural individual. É veiculado como linguagem obsessiva de perseguição neonazista à subjetividade independente. Essa linguagem “sádico-anal” relança pois muito do mito da raça superior positivista, porém agora pluralizada para quaisquer estereótipos localmente oportuno à propaganda, e, assim, eivada dos motivos demagógicos primitivistas do “populismo” capitalista info-midiaticamente programado.
30 Por outro lado, surge o deslocamento da dominação cultural, da antiga “teoria” letrada, científica, para a indústria info-midiática. Algo coerente, porque na teoria o “eurocentrismo” já não obteria qualquer validação sócio-progressista, e, além disso, o investimento no desenvolvimento das nações periféricas foi estancado. Não significa que a teoria não seja utilizada, mas sim que está reduzida, para efeitos de investimento institucional, a utilizações de fontes obsoletas ou reducionismos. Em todo caso, não há produção escrita independente da dominação do business informático, acoplado como é ao business de mídia, nem instituição de letramento totalmente independente da ingerência deste, como do capitalismo neoliberal.
31 O estancamento de toda ideologia desenvolvimentista na margem ocorreu, ora porque já se obteve o domínio multinacional das economias, não restando o conto do vigário da industrialização autônoma, ora por que a ecologia representou um pretexto de veto ao desenvolvimento do terceiro mundo, tendo resultado o planisfério que já definimos, do conflito norte-sul.
32 Naquilo que teria de bom, contudo, esse estancamento expressa também o fim da modernidade como geoegologia eurocêntrica, e a coalescência de um novo conceito de desenvolvimento humano, expresso por índices de homogeneidade local quanto a qualidade de vida, como nível de liberdade dos costumes, da consciência, da expressão e da subjetividade, longevidade, alimentação, acesso a produção, à cultura letrada, higiene, moradia, saúde, etc. A globalização como regime de dominação econômica, tem produzido porém apenas a radicalização das desigualdades. Por outro lado, o deslocamento cartográfico e geopolítico do conflito leste/oeste para o norte/sul também é algo benéfico, por já tematizar explicitamente os dois agentes na verdade historicamente relacionados.
33 Por outro lado, a “neoanalidade” globalizada, como na verdade um novo cenário com motivos próprios, aparece mesclada a estereótipos a que se reduzem antigas motivações do tradicionalismo culturalista. O que embora altamente contraditório também é compreensível, uma vez que, como devemos lembrar, a dominação midiática é o meio do “populismo”, fascismo de massas, redução do sujeito a imperativos do regime, a que todo o terceiro mundo está reduzido pelo efeito da dominação das multinacionais. Ora, algo inesperado na modernidade, mas compreensível pela pós-modernidade, ocorreu nesse interim. A utilização dos modelos de esquerda modernistas, para efetivar o transporte populista do próprio capitalismo globalizado na linguagem de mass mídia. A corrupção das esquerdas, esperável da neutralização do Estado constitucional pelo abuso capitalístico, ao contrário do suposto pelo pós-estruturalismo e culturalismo, foi o que decorreu na época mais recente. Assim essas esquerdas estavam e estão ainda impregnadas de influência de teorias modernistas e pós-estruturalistas.
34 O estudo do capitalismo em sua coordenação histórica ao business de mídia é urgente e necessário, e os livros 1 e 1 o procede. Nestes utilizo informação de origem múltipla e não “novidadeira”, porém que ainda não havia sido, que eu saiba, até agora coordenada entre si numa visão histórica coerente e apta a mudar parâmetros estabelecidos, cujas defasagens tornam-se explicáveis por essa lacuna dos fatos explicativos, que articulam o business e a mídia em nível estrutural profundo - não, portanto, como apenas fenômeno extrínseco ao imperialismo (capitalismo). Assim oportunamente visamos aspectos da história que se fazem mais compreensíveis à luz dessas informações.
35 Um aspecto importante da globalização é que após 1945, enquanto ocorria oficialmente a desmontagem, pela polícia dos países liberais, de carteis do regime totalitário, na prática eram reativados as conexões deles com multinacionais ocidentais. Essas conexões dão a chave da contra-revolução industrial efetivada pelas nações centrais no terceiro mundo, assim como da “globalização”. O neonazismo decorreu daí, nesse incremento imperialista dos carteis ou “multinacionais” sobre o terceiro mundo.
36 Enquanto o pós-modernismo é um ex-centramento estético e teórico, a globalização é um recentramento geoegológico, um imperialismo sobre o terceiro mundo, de radicalidade e violência sem precedentes. Se o período colonial escravista na América foi o primeiro saque das nações, e o neocolonialismo afro-asiático o segundo, estamos sofrendo, na globalização, o terceiro.
37 O excentramento pós-moderno pode ser definido em torno de muitas mudanças que seria demasiado aqui listar, ou que tangenciei na oportunidade dos livros 1 e 2, porém sendo necessário ressaltar duas. Primeiro que já não há qualquer atribuição unívoca para “primitivo”. Na posição corrente, de que dissidências são raras, rejeita-se de todo o conceito de “raça” além de simples característica genética do fenótipo (aparência física). Isso devido ao incremento da pesquisa genética. Houve também descobertas de sítios arqueológicos antes desconhecidos, como da Índia pré-ariana e especialmente na decifração do Sumeriano. Localizado na Mesopotâmia, o Sumer é a civilização mais antiga conhecida, e hoje se interpreta com bastante probabilidade que, ao contrário do sistema escravista imperial, era democrática ou parlamentar, com lugar importante para desempenho de cargos por mulheres. Também não se considera já que o saber teve origem e desenvolvimento únicos a partir da Grécia, havendo filosofia leiga na China antiga, assim como o taoísmo de Lao e especialmente Chuang Tze expressa uma vívida crítica dos sistemas de suposto saber mítico pseudo-legitimadores apenas do império, criticado como fonte de desigualdade social.
Segundo, houve mudança do parâmetro da linguagem. Vem se conceituando desde os anos oitenta, a textolinguística como fim do imperialismo do significante, assim como da unidade do significado, com a base mínima da langue sendo conceitada agora como já texto, constituído por um nível de coerência macroestrutural (tema e endereçamento) e um nível de coesão microestrutural (estruturas sintáticas e semânticas escolhidas). A coesão é pois soma de operações de conjunto, não redutíveis ao um signicante, assim como o texto não é redutível a palavra ou conjunto de frases independentes.
38 Quanto à questão da langue como sistema, resta por investigar as integrações possíveis, assim como da textolinguística com a teoria do inconsciente. Além disso, a textolinguística vem conexa a uma concepção da linguagem como múltiplos gêneros situados, com alguns tipos de endereçamento fixo ao modo de injunção, narrativa, descrição, explicação e argumentação. Um gênero, por exemplo uma tese universitária ou um romance, ostenta sempre todos os tipos mas com o predomínio provável de algum como o explicativo para a tese e o narrativo do romance.
39 Ora, podemos notar que as teorias modernistas praticavam reduções da linguagem a um só tipo: a injunção (“imperativo”) estruturalista; a narrativa mítica funcionalista e a argumentação do neofuncionalista comunicativo de Habermas e Apel; o explicativo positivista. A oralidade romântica talvez não tenha sido reducionista nesse sentido, porém praticou um tipo de redução poética, de gênero, portanto.
40 A conexão geoegológica com a necessidade reducionista da langue era tão nítida, porque assim seria possível postular um estado originário oposto a um desenvolvlido, que até mesmo houve a redução descritiva da literatura, com o Nouveau Roman. Porém hoje devemos considerar a heterogeneidade como o autêntico meio histórico, social, linguístico e político. Não significa que as culturas não são singulares, mas sim que elas estão numa interlocução situada, em vez de serem a prioristicamente determinantes de mentalidades estanques, e muito de sua especificidade é contextual a circunstâncias históricas ao invés de possivelmente totalizante de qualquer “tipo” de condição identitária.
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LIVRO 3 : VOLUME 2
1) Os primórdios do pós-modernismo e o sintoma do recentramento
1.a) A primeira teoria em torno do pós-modernismo
1 A introdução do pós-modernismo no Brasil, na altura dos anos noventa, esteve ligada à recepção, na ambientação dos estudos literários, dos teóricos que designo da “primeira teoria em torno do pós-moderno”. São principalmente citáveis Eduardo Subirats, Linda Hutcheon, Fredric Jameson e Terry Eagleton. Tenho realizado estudos dessa geração de teóricos, geração muito desigual entre os defensores e os inimigos do pós-modernismo, que porém eram notavelmente inconscientes das ambiguidades notáveis de suas bases comuns. [nota 1 ]
2 Apesar de estarem envolvidos numa polêmica recíproca, conforme se posicionavam contra ou a favor, nominalmente uns contra os outros, de fato não caracterizavam do mesmo modo o fenômeno, isto é, não tinham o mesmo refererencial concreto do que designavam “pós-moderno”, seja em produções estéticas e teóricas, seja da geografia e histórico de sua incidência. Nem esse desacordo era apenas entre os que defendiam e os que atacavam.
3 Quanto à geografia, por exemplo, geralmente concordavam que se tratava de fenômeno do primeiro mundo (desenvolvido). Porém para Hutcheon significando o continente americano na totalidade e a Europa, para Jameson apenas os Estados Unidos e Europa, para Subirats Estados Unidos e apenas a parte da Europa protagonista das Revoluções industriais – assim excluindo-se a península ibérica.
4 Subirats e Jameson, ambos atacando o pós-moderno como a forma extremada da alienação, pretenderam que o pós-moderno em arquitetura era, respectivamente, a assunção radical do racionalismo da técnica em arte, e a revolução da irracionalidade que passava a ser intrusiva da própria realização do percepto.
5 Nas palavras de Subirats: “A redução lógico-matemática do processo criativo subjacente a essa nova estética não supõe, na realidade, um momento de ruptura em relação ao racionalismo estético que cobre a ampla evolução estilística do cubismo e do neoplasticismo até a arquitetura do 'international style'. O realmente inovador nessa perspectiva técnica e prática é o alcance quantitativo das suas capacidades técnicas"”. (A flor e o cristal, op . cit. 25/26).
6 Inversamente, para Jameson a “lógica cultural do capitalismo tardio” como a fórmula da pós-modernidade, é ruptura tão manifesta com relação ao modernismo, que se trata mesmo de uma impossibilidade da lógica qualquer. Posto que a ciência da história era até aí a complementaridade marxista da base e superestrutura, porém quanto a esta, sendo um construto do imaginário, estava agora impossibilitada porque a linguagem da arte havia sido deslocada pela dos mass midia. A linguagem da mídia nem mereceria esse nome, sendo apenas uma codificação esquizofrênica, não representativa de um modo qualquer, sem objeto significado, pura mecânica do significante nos primórdios narcísicos da vida psíquica, antes do significante poder vir a significar. Repetição de “logos” como marcas-signos sem significação ulterior além de estarem sendo passados na mídia como lógica cultural da mercadoria do capitalismo tardio. Isto é, nova forma de dominação, agora sobre a própria razão possível.
7 Um outro prosélito da época como “lógica cultural” é Baudrillard, que supõe o mesmo limite psíquico que Jameson, mas conceituando-o em termos de impossibilidade da subjetividade, que passa a ser função direta da mercadoria no capitalismo tardio. Este se define pelo fato de nele a mercadoria se dotou de alma como um sistema secundário de objetos, sistema de signos (cores, estilos, propaganda) ao contrário do sistema primário da mercadoria como coisa necessária. Ela se torna agora o suporte dos valores subjetivantes, pela estetização do objeto e o discurso da propaganda. Exemplifica com a ausência de pactos com o diabo na cultura da atualidade – a burguesia já não dotada de alma própria para barganhar.
8 Ou seja, ao contrário do que pudesse parecer, a lógica cultural dessubjetivada cumpre um rito dessexualizante, redutor dos valores à função de utilidade. Assim vemos que Baudrillard, de fato um precursor como teórico de um momento atual do capitalismo, tinha já algo de Jameson (lógica cultural, disfunção psíquica) e de Subirats (utopia geométrica-funcional, Bau Hauss planetária).
9 Para Jameson, o assim designável pós-modernismo se restringe a um fenômeno do mundo desenvolvido, pois – não atingindo o “terceiro mundo” - implica a superação até mesmo do anti-historicismo de Althusser, para quem os modos de produção eram fórmulas autônomas que não se encadeavam num continuum causal. Pois havia agora um modo de produção como o “late capitalism”, subsumindo sua lógica cultural própria, que não exibia os componentes invariáveis das fórmulas que variavam segundo as combinatórias deles. Não exibia “ideologia”.
10 Pretendendo-se baseado explicitamente na mesma extensão de Marx e o Freud lacaniano que Althusser, Jameson negava pois que na esquizofrenia atuasse o imaginário, a representação das coisas em nossa mente que, mesmo não científica, mas mítica e meramente opinativa, é porém um primeiro modo de concedermos significado, este o ato próprio da mente madura expressando-se na ciência. Assim o mesmo na pós-modernidade, impossibilidade de representar o objeto na mente.
11 Caracteristicamente, Subirats exemplifica como arquitetura pós-moderna a Aldo Rossi, em termos de " repertório estilístico" que "somente sublinha retoricamente os elementos cartesianos da estética neoplasticista, esvaziados no entanto de seus conteúdos utópicos e de sua consciência social". (Da vanguarda ao pós-moderno, op. cit. p. 74).
12 Enquanto o exemplo jamesoniano de arquitetura pós-moderna em The cultural logic of late capitalism” é Wells Fargo Court (Skidmore, Owings e Merrill), em termos de uma superfície que não parece suportar qualquer volume, como um estereótipo de autoposição independente de sua inserção num espaço concreto, resultando num efeito visual parecido com o monólito do filme "2001", de Kubrick.
13 Sobretudo, trata-se de uma figura ao mesmo tempo geométrica, mas oticamente não-decidível ("oculary quite undecidable", op. cit. p.13 ) entre ser retangular ou trapezoidal. A intrusão perturbadora do percepto representativo da coisa, ele exemplifica com o Westin Bonaventura Hotel de Los Angeles. O fato de ser um edifício popular, é apenas aparente. Na verdade, há um jogo de entradas e de funções de recepção interconectados que desorientam decisivamente a inserção espacial, uma vez que implicam acesso a andares diferentes mas por entradas aparentemente de mesmo nível. A disposição dos quartos também manifesta características desorientadoras, ao ver de Jameson, enquanto o uso do vidro implica, pelo jogo da reflexão, distorção do que seria aparentemente a vizinhança reinserida, tudo isso impedindo a configuração para si do sujeito num espaço objetivo coerente. A reflexão apenas coloca fora de si aquilo que reflete. O uso do vidro é universal na arquitetura pós-moderna.
14 Eagleton comunga com Jameson a negação de qualquer normalidade psíquica ao pós-moderno, e aquilo que a meu ver é idealização anacrônica do modernismo como consciente e semantizado. Porém ao contrário de Jameson, não crê tratar-se de “pastiche” como repetição iconoclasta, sem conservação do repetido, mas sim de “paródia” que, entretanto, só conserva um repetido, o modernismo, resumindo-se a uma forma de repetição, a destruição concertada dele.
15 Para Subirats, a "estrita vontade de pastiche" ("Da Vanguarda ao pós-moderno”, op, cit., 66) é algo próprio ao modernismo catalão e ao que designa o pós-moderno norte-americano. Todos os dois seriam contrafacções a uma posição reflexiva de onde a obra deveria ter partido se conservasse o que afinal se revela como a boa utopia. Em Hutcheon, a paródia é o meio de circulação do pós-moderno, mas como modo corrosivo de crítica a partir da própria condição de construção discursiva. Algo que encontramos no neobarroco, de Severo Sarduy, que define o barroco em termos de origem da paródia sistemática a um estilo. O neobarroco de Sarduy é comum aos concretistas de São Paulo, irmãos Campos e Pignatari, inspirados no “Le Pli” de Deleuze sobre Leibniz, logo, assim, considerando-o na verdade algo que vem do século XVII. Evidentemente, intenção radicalmente formalista, bem oposta ao textualismo e historicismo de Hutcheon, o neobarroco é investimento do signo, inversamente ao retorno do texto que caracteriza o pós-moderno – ainda que para os detratores como Jameson e Eagleton, apenas simulacro de texto.
16 Para Hutcheon e Sarduy, a paródia é conservação “em filigrana” (Sarduy, op. cit. p. 172) do parodiado, assim um tipo de elogio, a intenção de conservar como monumento, que no entanto só se veicula por meio da derrisão. Mas o pós-modernismo segundo Hutcheon faz um uso específico da paródia, recriando condições de marginalização daquele mesmo que as está desconstruindo enquanto marginalizado pelo parodiado. A recriação é o modo de construção do texto pós-moderno, jogando com os textos que existiram antes e com os que podem ter sido descoberto como refutando-os. O texto não tem pressupostos canônicos além da recriação a partir do intertexto estrategicamente contraditório. Hutcheon designa o texto pós-moderno, portanto, como “paródia” em termos de “metaficção historiográfica”.
17 Ao contrário do modernismo, conforme Hutcheon, o pós-moderno não começa por destruir, e sim por recriar, porém o que perfaz por esse meio é uma refutação cabal. Ainda que não pretendendo colocar outro preconceito totalizante por substituição, e sim demonstrar que seja o que for na ideologia, é produto da sobreposição irrefletida de textos prévios, mas nada existe na cultura além da ideologia. Hutcheon afirmando assim o contrário radical da tese jamesoniana do pós-moderno como esquizofrênico por nem ser científico, nem propriamente ideológico, o “logo” midiático não representando nada além de si.
18 Quanto à dotação de significado na Vanguarda, em vez do que a meu ver é nítido como o investimento do então descoberto signo inconsciente, Subirats também a pratica. Em "A flor e o cristal", a Vanguarda, sempre utópica como engajamento ao futuro, estava clivada entre uma boa, a de Klee, primitivista, e a má que iniciara o investimento da geometria racional ecoando o capitalismo, como em Mondrian. Já o volume sobre "Da vanguarda ao pós-moderno" não se posiciona quanto ao bom ou ruim do passado, mas sugere nova ambivalência, agora entre as perspectivas artísticas e arquitetônicas pós-modernas que nada acrescentam ao que meramente repetem da vanguarda, e uma teoria positiva do pós-moderno como código autônomo reconstituível, ainda que isso seja considerado banal. O novo é apenas cronológico, mas por outro ângulo a teoria que lhe seria adequada como a algo consistente em si reza que se trata de um "código dessemantizado" que é, contudo, "um elemento significativo do vazio cultural do nosso momento histórico." (“A vanguarda e o pós-moderno, op. cit., 100, 101).
19 Assim Subirats, como também faz Eagleton em Against the grain, utiliza o próprio Dadá como exemplo de arte semantizada de vanguarda, porque subsistiria nele uma "tensão interior" na "justaposição de elementos semânticos incongruentes entre si". Para todos estes autores que o atacam, ao menos, parece haver um consenso de que o pós-modernismo é radicalmente a-histórico e alienado. Linda Hutcheon, inversamente, o celebra como o retorno do texto semantizado e com temática histórica, contra o investimento modernista do signo puro, e o exemplo hutcheano arquitetônico é a inserção ambiental do edifício praticada por Paolo Portoguesi, mais do que Las Vegas de Venturi.
20 A semântica da “metaficção historiográfica” paródica pós-moderna, como vimos, segundo Hutcheon, começa pela repetição dos estereótipos que cercam uma minoria, a mulher, o imigrante, os black panthers, o indiano como em Salmon Rushdie, etc. Ou uma rubrica consagrada sobre o passado, como a guerra de Troia revista por Crista Wolf em Cassandra, de um ponto de vista troiano e feminista, ao contrário do texto canônico de Homero que a relata por um viés machista e grego. Em Christa Wolf a estória é narrada por Cassandra, a troiana que no mito homérico era uma sacerdotiza enfeitiçada pelo deus da profecia, Apolo, por não te se deixado seduzir sexualmente por ele. A estratégia textual resulta na dupla negação da historicidade da mulher, pois o feitiço implicava que a profetiza exemplar só diria a verdade mas nunca acreditariam nela. A história das mulheres não poderia, pois, como a dos derrotados troianos, ultrapassar o limite do oral, da memória e do provisório.
21 Os estereótipos reproduzindo assim a perspectiva machista e capitalista ocidental sobre o “outro”, mas apenas para, como numa desconstrução, depois construir nesse espaço aberto o outro centro, aquele em que a minoria fala a partir dos processos internos de sua significação. Não começa pois, inversamente ao modernismo, destruindo o significado opressivo. Porém desse modo, restaurando a história para descortinar nela como foi feito o disfarce do preconceito criminoso num qualquer juízo de bom senso necessário, o seu modo de operar é repetir sobrepostos os textos que construíram o disfarce assim como a ideologia travestida de ciência ocidentalista.
22 Nesse sentido há a meu ver certa incongruência na ênfase histórica de Hutcheon. O que é exemplificável com Portoghesi, já que ele integra o edifício na proximidade – ao contrário do isolamento que vimos Jameson predicar – não porém do mero ponto de vista do uso ou mesmo da continuidade ao entorno histórico, posto que na Itália a vizinhança está eivada de monumentos milenares. Ele, se bem que pretendendo essa continuidade pela consciência dessa circunstância, na verdade seleciona elementos arbitrariamente, conforme os considera pelo efeito semiótico, e os estiliza tornando-os incongruentes ao contexto pelo destacamento estilístico. A história seria pois, redutível ao signo, o que era a acusação jamesoniana ao texto pós-moderno, e a crítica de Jameson a Hutcheon enquanto alguém que acreditava na quimera de uma história reduzida voluntariamente a simulacro. Contudo, seria a meu ver difícil considerar que esse não era o escopo do modernismo in toto, como no surrealismo sui generis de Raymond Russel analisado por Foucault. Ao inverso de caracterizar assim algo especificamente pós-moderno.
23 Além disso, a utilização universal tanto desses críticos como dos cultores pós-modernos, do pós-estruturalismo como referencial do pós-modernismo teórico, foi inteiramente falaciosa. A maioria dos teóricos pós-estruturalistas expressamente citados, como Deleuze, Foucault e Derrida, negava estar havendo qualquer pós-modernidade, mas sim aprofundamento das consequências, o modernismo em sua plenitude. E não analisavam a estética de qualquer referencial descoberto como pós-moderno, mas sim os já muito conhecidos modernistas. Realmente, creio eu, se o pós-moderno fosse o que Lyotard considerou em seu título homônimo, Foucault poderia retrucar que se tratava apenas dessa maturidade das premissas modernistas que ele cobrira desde As palavras e as coisas. Ou seja, um estruturalismo que havia agora se livrado do obstáculo que surgira de permeio, o humanismo hermenêutico disfarçado de “ciências humanas” - que para Foucault eram, como ele diz naquele livro, enquanto pretensamente específicas, nem mesmo pseudo-ciências, mas não ciências de modo algum.
24 O paroxismo da ambiguidade da primeira teoria em torno do pós-modernismo pode ser exemplificado justamente quando se trata das espécimes. Não obstante a diversidade dos escolhidos para exemplificação pelos vários críticos, Hutcheon considera, após hesitar, que deve ser o mesmo aquilo de que ela e eles estão falando. Mas logo descobrimos que não, porque para Jameson e Eagleton, a Factory de Andy Warhol é a epítome do fenômeno pós-modernista, tanto que eles podem comodamente utilizar só a ele para discorrer acidamente sobre o todo. Mas para Hutcheon, a “pop art” não é ainda o pós-modernismo, limitando-se ao último moderno, e mesmo que trate do que poderia ser apenas uma ressonância longínqua, ela não referencia Warhol. Ela não retrocede, porém, daquele ponto inicial em que afirmava ser o mesmo o que ela e especificamente Eagleton estão referenciando como fenômeno pós-modernista, e explicitamente constroi seus argumentos para refutar, no principal, certo número de teses sobre o pós-modernismo que anotou de Eagleton.
25 As contradições internas ao discurso dos teóricos também foram por mim consideradas naqueles estudos – de que resultaram alguns blogs. Meu escopo aqui não se limita porém a essa primeira teoria em torno do pós-moderno, que se afigura, na apreciação de um continuum histórico do século passado, na verdade algo incompreensível como irrupção de um contexto ambivalente, frágil do ponto de vista da autoconsciência discursiva. Mas nem por isso sendo o resíduo suscitando o diagnóstico de Vatimo da pós-modernidade como “pensiero debole” (pensamento fraco), pois definido por ele apenas pela ausência dos “grandes relatos”, como já definimos as teorias da modernidade como fenômeno do progresso ocidental explicativo de tudo o mais da humanidade.
26 A concepção do pensiero debole tem vantagens para o que seria uma nova sensibilidade, uma ruptura factual para com a paranóia do saber, mas apenas como uma condição restritiva parece-me mais um meio de reduzir o pós-moderno ao que pretendera os estruturalismos. Não tanto o descrédito dos grandes relatos pelas descobertas efetivas da heterogeneidade, mas a redução deles a modelos matemáticos, mais fortes ainda na perspectiva explicativa universalista. E mais uma contradição, posto que neles a redução do significado à construção significante era em si um Saber, a desideologização única possível, a Modernidade (revolução paradigmática “ocidental”), etc.
27 Se por esse meio ficou exposto a fragilidade do próprio “estruturalismo”, vemos porém que a contradição nele era mais encoberta do que naquilo que atacava, o previamente dominante “existencialismo”. A crítica estruturalista da “representação” como apenas imaginário, o que era inversamente a alma do existencialismo, não repunha o que vemos em Jameson, a explícita aceitação da necessidade dele, mas ao mesmo tempo, para uma radicalização do ocidentalismo. De fato Jameson critica Althusser pela independência formalista dos modos de produção em Marx, que ele quer de novo encadear num relato de progresso ocidentalista contínuo como no marxismo ortodoxo, sem já qualquer contemporização com o terceiro mundo.
28 Meu interesse agora prende-se mais a mostrar como o pós-modernismo não se resume à rubrica daquela primeira teoria, por isso não sendo oportuno repetir aqui todos os componentes do meu estudo anterior a propósito dela.
29 Um aspecto indubitável da concepção de Hutcheon, é a temática principal do que designei intertexto, e se há algo principal pode ser que tenha algum sentido uma proposta tão ousada quanto a de se vislumbrar uma “poética” num meio de tão intenso polimorfismo e inconstância como o pós-moderno. Porém sendo uma “poética”, teria que explicar também esse polimorfismo e caráter controverso do objeto.
30 Ora, a materialidade do significante realmente está deslocada se o essencial se torna a materialidade do intertexto, porém só isso não autoriza tratar-se de meta-“ficção”, abstraindo aqui a controvérsia sobre um “historiográfico” literário. E vemos que há investimentos bem relacionáveis a algo posterior ao modernismo do significante, cobertos no excelente catálogo reunido na “Poética” de Hutcheon, que problematizam categorias textuais, porém não a partir de sobreposição de outros textos = como em Berger e Pynchon, que problematizam o uso dos pronomes pessoais pela falsidade com que eles ao mesmo tempo interiorizam algo privado (eu, tu), mas por generalização do intercambiável (tu, eu).
31 O rótulo hutcheano de meta-ficção preserva uma oposição que segundo me parece é o que precisamente está sendo ultrapassado na operação intertextual, e sempre se pode 32 considerar que o cânon pronominal é um texto (“gramática”). Não pensamos já, bem inversamente a Kant, que o pensável é como uma consciência judicativa, que está decidindo por si mesma, como instância superior, sobre a matéria, se é falsa ou verdadeira. Assim podendo suspender a descrença, na presença da rotulada ficção, bastante hipocritamente porque só pelo fato de já tê-a aceito toda como a realidade. Inversamente, quem pensa está descodificando textos, eles mesmos constituídos por gêneros, organizações regulares de signos que não são redutíveis ao significante mas produzem-se como operantes de relações. A oposição de ficção e realidade é ela mesma construída por outros textos. Não há transcendental judicativo, ou ele seria uma regressão ao infinito.
33 Não se faz, por exemplo, a classificação das narrativas de milagres da bíblia na categoria de “ficção”. Em meios socialmente muito respeitáveis, integrados por líderes religiosos que também podem ser políticos, etc., nem mesmo se pode negar que sejam (ou possam ser) verdade (não-ficção), além de meramente apologéticos. Não haverá o cristianismo das igrejas se forem totalmente negadas como fantástica as teses da ressurreição, da “remissão” dos “pecados”, etc.
34 Uma contradição ulterior do texto hutcheano – contradição num sentido não-dialético, não possivelmente metodológico - reside na afirmação do outro centro, como o que estaria sendo construído após ter-se desconstruído a centralidade marginalizante, o ocidente branco, o machismo, a classe, etc. Ao mesmo tempo, a centralidade por desconstruir não é apenas alternativa - de cor, de gênero ou de classe social - mas encerra um modo de opressão propriamente discursivo, como estereótipo da razão, do universal e da ciência. Do contrário não haveria um conflito determinado na desconstrução, mas a guerra de todos contra todos, porque é evidente não haver apenas “uma” “outra” cor, “uma” “outra” mentalidade do gênero, “uma” “outra” condição de trabalho. Ora, o estereótipo assim construído qua marginalizante é justamente de haver centralidade, “o” Sujeito da História como “o” enunciante da Razão, sua desdoberta qua “modernidade” no tempo, o que só seria coerente se o transcendental judicativo fosse o modus operandi da consciência ela mesma assim necessariamente universal.
35 O pós-moderno contesta o modelo do significante no bojo de questionamentos permitidos pelas ciências humanas, que descobriram nesse ínterim a impossibilidade do transcendental determinante dos “grandes relatos”. Ele contesta portanto, do mesmo modo, o “existencialismo” culturalista totalizante.
36 As humanities desaguaram, na altura dos anos oitenta, em cenários de cultura múltiplos, embora nacionalmente constituídos, pelo incremento da pesquisa independente de parâmetro central no terceiro mundo. Já localmente não se copia o grande relato da modernização eurocêntrica, ou qualquer “centro”, aplicando-o como critério dos estudos da cultura local. Ou fazê-lo não implica estar investindo o mesmo que podemos detectar na rubrica do pós-modernismo como iniciativas de época não redutíveis à prática anterior.
37 Mas se está reconstituindo a história local com instrumentos teóricos não restritos ao importado, os quais, inversamente, são originados como adequados nas linguagens do entorno local que está assim se tornando autoconsciente, sem que por isso a interlocução internacional seja impossibilitada, ao contrário. Não pensamos já numa totalidade conceitual e científica , o “centro” como percurso autônomo do imperialismo, sem geopolítica, etc., e, também, não cremos que sem a multiplicidade auto-descoberta e auto-enunciável das “margens” será possível constituir compreensões mais agrangentes da heterogeneidade como qualquer referencial “antropológico” válido.
38 Entre “centro” e “margens” escavamos pois uma arqueologia da Integração Norte Sul ou planetária da espécie, que desde o quinhentos até a atualidade da Globalização se articulou de modo predatório, como dominação colonial, capitalística e cultural, até chegar à condição de hecatombe possível pelos limites bélico e ecológico da atualidade. Não há dúvida de que a integração predatória enfeixa a “Modernidade” (científica-industrial) como tal, e que a pós-modernidade é ao mesmo tempo que a compreensão de que não houve ciência moderna que não resultassse da integração como progresso desta, mas também de que se a integração não abandonar o caráter predatório o planeta não se poderá conservar habitável.
39 Não há aí, entre as categorias que usamos enquanto históricas, “centro” e “margem”, uma oposição subalternizante de direito, por um lado, mas tampouco uma disseminação de fato. Ao contrário de Linda Hutcheon, que restringiu o pós-moderno ao que considerou o mundo ocidental mas tematizando a autoconscientização de inúmeros referenciais culturais, e como vimos concebeu cada um deles tentando constituir-se como um centro autônomo, poderíamos citar aqui o artigo de Mario Benedetti, “Temas e Problemas”.
40 Ao ver de Benedetti, na situação do terceiro mundo não se trata daquele situamento marginal que se auto-refere já como captado pelo olhar do centro – “the wrong man in the wrong place”. Mas sim daquele em que se sabe, de modo oposto ao que supõe o centro, que não se está no centro: “para um escritor francês ou inglês o mundo costuma chamar-se França ou Grã-Bretanha”, mas “o escritor latino-americano sabe que sua comarca não é o mundo.” (op. cit. p. 376)
1. b) O sintoma do “corporate state”
1 O patamar do heterogêneo e ex-centrado, já se pode considerar no âmbito epistêmico pós-moderno que vem se designando como “estudos culturais”, “feministas”, étnicos, etc. O caráter utópico que visava impor objetivos teleológicos a partir de um conhecimento das origens, que seria pois a definição de um ideal-tipo ou discurso totalizante, e a delimitação desse conhecimento como a razão de ser da oposição ao arcaico, deixa de ter sentido. Os estudos culturais visam a heterogeneidade do fenômeno com que lidam, mais a crítica do discurso/ideologia que tencionava submetê-la a um conceito modelar como “mulher”, “raça”, “gay”, etc. [ nota 2]
2 Também poderíamos citar Flax como a deriva pós-moderna do feminismo, já contra a posição de Seyla Benhabib. [ nota 2’ ] Não se trata agora, como tampouco nos estudos culturais, de supor estar fornecendo instrumentos para o ativismo representar a minoria, nesse caso, a mulher. Assim como o obstáculo de como formalizar a junção das frases no estruturalismo está superado na atual linguística do texto, o obstáculo de como se transita da “Mulher” às “mulheres” numa teoria feminista qualquer, está superado na perspectiva teórica que mais propriamente se limita ao autoquestionamento do conceito de gênero onde quer que se encontre, pressupondo assim a heterogeneidade da manifestação do gênero enquanto realidade efetiva, a do ativismo político e/ou das personalidades reais. A “teoria” se torna uma “epistemologia”, um modo de pensar sobre como estamos pensando algo como “gênero”.
3 Tenho sempre mais constatado que a contradição principal dela, verdadeira dupla-ligação (double-bind), é apenas repetição da que vimos praticada desde há algumas décadas pelo estruturalismo.
4 Assim é uma contradição geoegológica, como venho designando, que se aprofunda entre os dois cenários que começam respectivamente nos anos cinquenta e nos anos oitenta, como de estruturalismo e pós-modernidade. Uma vez que quanto a esta, como tenho considerado, é tanto um “pós-modernismo” (excentramento) como um cenário histórico do conflito Norte/Sul (recentramento) que se expressa pela ganância de paranoicos recolonizadores cegos para as provas de que são apenas agentes do suicídio da espécie, que se consumará se não lograrmos deter a sua insânia.
5 Concordo que o recentramento pós-moderno não se faz já por alguma nova teoria possível geoegológica, isto é, algum enunciado do Ocidente como evolução psicossocial relativa a um outro “primitivo” - não há novos primitivos para descobrir após a sucessão de aborígines americanos (classicismo, romantismo), mito indo-europeu (positivismo) e tribos afro-asiáticas (funcionalismo e estruturalismo). O caráter originário de cada uma dessas categorias também já está desconstruído, uma vez que concebemos agora as sociedades como portanto heterogeneidade, mudança e conflito, além de que o estágio da integração norte/sul e disesminação tecnológica já está avançado demais para haver costumes totalmente isolados. Assim o recentramento está sendo feito como neoanalidade, retrocedendo ao que tratei como o sádico-anal positivismo, porém tendo como meio de dominação info-midiática. O meio teórico epistemológico não se faz dobrável pelo imperativo do recentramento, enquanto as instituições pedagógicas vão sendo desmanteladas ou mantidas por investimentos do capital na propaganda de discursos obsoletos, reduzidos porém eles mesmos para caber num continuun com os estereótipos da mídia.
6 Uma contradição da neurose geoegológica notável, como vimos, é o enunciado do “pós-guerra” como era histórica, quando na verdade o que se iniciava em 1945 eram as guerras de descolonização afro-asiática e movimentos de libertação econômica latino-americanas, médio-orientais, etc., que coordenaram de fato o que estava sendo camuflado como apenas “conflito leste-oeste” entre URSS e USA.
7 Mas já na época de emergência da primeira teoria em torno do pós-moderno, a contradição se desdobrara naquilo que tenho designado o consenso do corporate state, onde a guerra de dominação do terceiro mundo, ditaduras, etc., era simplesmente apagado como factualidade presente, para fantasia-la como a personificação da profecia de Weber sobre uma pan-burocracia que dominaria tudo melhor que qualquer poder anterior, porém de forma branda e imperceptível – alijando-se somente os “intelectuais” sensíveis.
8 O consenso do Corporate State dominava nos anos oitenta de um modo bem mais espantoso do que antes, quando ainda não estavam patentes estudos como de Julien, Halberstam, as próprias ditaduras, etc. A constância sem crítica desse consenso é o que estou tratando em caráter sintomático, porém uma razão histórica que se poderia propor, é o fato de estar vigente o Welfare State keynesiano. Ora, eis o sintoma, posto que o Welfare State deveria ser considerado a presentificação mínima da social-democracia numa época em que os parâmetros da violência do proletariado já não tinham sustentação na ordem mesma do capitalismo, inteiramente redefinido como imperialismo. Assim ele teria que ter sido protegido, e intensificado. Ao contrário, assistiu-se um recentramento em torno da oposição ao Welfare, como a de Habermas e Foucault, como se fosse o mesmo que o “Estado” ainda definido nos parâmetros oitoscentistas ou weberianos.
9 Quanto mais a pós-modernidade era a ruptura insanável com o grande relato ocidentalista, com a unidade mesma formulável de qualquer referencial em devir na cultura, mais se perpetuavam meios para conceituá-lo como o discurso da novidade tecnológica, e quanto mais a realidade era a transição conceitual do conflito leste oeste ao norte sul, mais ela se apegava à centralidade do Ocidente sem alteridade pensável, pela redução do pensamento explícito da margem a um contexto e uma lógica situada no Centro.
10 E quanto mais a violência do imperialismo se mostrava, mais a crítica ao Welfare State - que era porém a conquista do liberalismo político que viera militando na época da guerra contra o nazismo, assim tipicamente o Welfare State definindo o compromisso do Estado com a assistência social e a defesa contra os carteis, com um motivo econômico de aquecimento da economia presente - tentava acomodar a sua novidade ao antigo preceito esquerdista do capitalismo como o Estado mesmo.
c) O Édipo e o problema do terceiro mundo
1 O exemplo jamesoniano é paroxístico quanto à neurose geoegológica. Predicando o pós-modernismo midiático esquizofrênico no primeiro mundo, mas um ante-modernismo sistemático nos países subdesenvolvidos, que não teriam ainda feito Revolução Burguesa, e, assim, não tinham atingido o nível da subjetividade. Além ou aquém do sujeito, pois, estaria o mundo atual. E o sujeito era tanto a normalidade psíquica, quanto o projeto impossível da burguesia que, como atuante do capitalismo, promovia o desenvolvimento psíquico do indivíduo, porém o freava a longo prazo, pela ideologia da iniciativa privada além do sistema social da produção. Jameson queria assim, como Eagleton, restaurar o grande relato da burguesia ocidental e sua dialética comunista, agressivamente contra os que pretenderam autonomia das culturas não-ocidentais. Mas estava, como podemos ver, apenas testemunhando que a burguesia , enquanto a estrada real da ideologia, levava ao contrário do que pretendiam os marxistas até então, à supressão esquizofrênica de toda ideologia como de todo “Si”. Mas assim, em vez da renovação teórica, era preciso radicalizar o marxismo ao ver jamesoniano.
2 A essa contradição Jameson era levado por sua recusa a ver no nacionalismo, que então era obviedade como a questão política na margem, gerada pela resistência à ditadura imperialista e nas áreas da guerra de descolonização, nada além de atraso num mundo do capitalismo transnacional, e, assim, algo que devia ser explicado como anomalia mental. Não há uma análise ou definição jamesoniana sobre como funciona o capitalismo “transnacional” - que é nada além da recolonização atual. Além disso, nele não há sinal de conhecimento seja dos modernismos na margem, como descoberta conceitual e antropológica de sistemas culturais independentes, seja da ação midiática global na atualidade, posto que parece restringir-se para ele aos países desenvolvidos. Nem há, no conceito de mídia como esquizofrenia, assunção jamesoniana do que para mim é evidente, a ideologia atuante do imperialismo, como vimos em Halberstam, além de que é nela que a dissolução do split público-privado se faz como o mais explícito modus operandi.
3 Como uma tomada de consciência do novo na produção e tecnologia, vimos já que a primeira teoria em torno do pós-moderno fracassou consideravelmente na tentativa de Daniel Bell sugerir uma era pós-industrial – quando o que estava havendo era a revolução da indústria podendo agora exportar a fábrica mesma, a toyotização, novo estágio do imperialismo, etc.
4 Em tudo isso, vemos que o fator espantoso da ambiguidade e negação do presente histórico que se praticava naquele momento podem ser ligados ao desejo de não reconhecer a realidade da margem. O que era explícito especialmente pelos alter-egos do Centro que nela mesma tomaram parte na controvérsia em que emergia o tema do terceiro mundo.
5 Aljaz Ahmad, do Paquistão, criticando a tese de Jameson sobre o terceiro mundo, ambos os textos integrantes de números da revista Social Text, primeiro expressou sua alter-egologia a meu ver de modo explícito, se bem que não utilizando o termo. Começando o texto pela ressalva de que até então Jameson havia sido o filtro pelo qual assimilava o Ocidente – ou seja, admitindo-se alter-ego dele, fascínio que não chegava à contraposição das teses de Jameson com outros ao que parece, mas tomava a palavra dele como das alturas de um ego absoluto. Alcança sem dúvida Ahmad efeito expressivo ao ripostar, porém, ao texto de Jameson que lhe causou tanto amargor. Por este, “politically we are Calibans”. E, em seguida, sendo sua resposta apenas que vários países subdesenvolvidos já haviam feito a sua Revolução Burguesa, exibe a história do Urdu – a sua língua “indiano”-paquistanesa – em termos de processo cultural limitado à ocidentalização – aquilo mesmo que os modernistas brasileiros como Oswald e Pagu abominavam que se fizesse como diretriz do partido comunista, a redução da heterogeneidade cultural à cópia eurocentrica.
6 E de fato o objetivo de Ahmad era culminar a redução ocidentalista da alteridade cultural na existência do partido comunista paquistanês, junto com a negação de algo como terceiro mundo, com uma temática própria da colonização e imperialismo.
7 A negação comunista pós-moderna do “terceiro mundo” tinha um elemento formalista – como pode haver mais que um “Mundo”? Porém não vendo Ahmad assim que o termo “Mundo”, é na verdade um paradoxo, pois heteróclito de tudo, pretende-se natureza e ordem total. Como muitos já fizeram ver porém, o termo “Mundo” ganha sentido justamente se o restringirmos a um contexto definido (mundo do Renascimento, mundo da modernidade, etc.), e, assim, “terceiro mundo” como conjunto de países economicamente dependentes oriundos da colonização é mais e não menos formalmente definido que mundo único em geral.
8 Não obstante, a posição de Jameson sobre o terceiro mundo de Callibans, de corrupção política como podemos depreender em consequência do princípio de ausência de subjetividade, era a mesma de Deleuze em Cinema 2 – o que Jameson desconhece, ao criticar a este por ter pretendido no Centro, ultrapassar o inconsciente edipiano. Nem uma coisa nem outra, porque Deleuze no Anti-Édipo não considera que o Ocidente seja não-edipiano, porém assim como o próprio Jameson, vendo na individualização enquanto efeito da burguesia apenas uma contradição em termos, nova definição da “tendência contrariada” de Marx. Por ultrapassar por um marxismo consequente que realizaria eficazmente a evolução.
9 Em Cinema 2 qualquer valorização do terceiro mundo como o oposto dessa neurose se desfaz, com Deleuze ignorando por sua vez as teorias dos nossos cineastas, pretendendo ser “o” teórico do cinema do terceiro mundo, como lugar da arte reduzida ao social. De fato mesmo em Anti-Édipo o desejo é definido como em compatibilidade ao capitalismo, fluxos livres de códigos, apenas este não chegando ao fim da própria tendência, que é a esquizofrenia saudável a seu ver. O capitalismo é explicado moderno ocidental devido ao belo instinto de fazer-se aos mares, dos navegantes do quinhentos, etc. Não se fala de escravismo.
10 O terceiro mundo fazia porém sua irônica entrada triunfal, numa cena que desbordava os quadros bélicos da descolonização, como novo cenário do imperialismo. Ao mesmo tempo o Ocidente mudava de modo surpreendente para muitos, tornando-se agressivo na era Reagan, de modo a garantir o novo cenário contra as possibilidades remanescentes da descolonização assumir-se como efetiva independência política das nações cujas economias podiam ainda ser mantidas na dependência. Contra o que se poderia supor, o que ocorreu na produção de ideias não foi a construção de conceitos novos para apreender-se criticamente a realidade vigente, mas, ao contrário, a reificação dos conceitos forjados num contexto incompativel com o que os fatos demonstravam agora. A ofensiva Reagan para o capitalismo na década de oitenta foi refletida pelos intelectuais de esquerda de modo inusitado, produzindo eles uma igual ofensiva classificatória contra o terceiro mundo. A terminologia da reificação é aí oportuna. Os conceitos que se utilizaram para reestabelecer classificações opositivas foram os mesmos que desde duas décadas antes vinham sendo manejados de modo a serem relativizados e tornarem-se flexíveis o bastante para poderem acomodar o mundo em mutação que a produção cultural do terceiro mundo revelara como incompatível com as dicotomias ultrapassadas na antropologia.
11 Mas assim, inversamente ao que Sorel havia suposto quase cem anos antes, não se tratava agora da combinação da direita e social democracia contra a violência justiceira do proletariado. Tratava-se da convergência da esquerda e da direita contra o Welfare State enquanto a forma mínima da social democracia, que porém estava oficialmente vigente em países europeus. E se a convergência era “casual”, posto que aqueles intelectuais não estavam factualmente apoiando Reagan, também não se tratava de estar pregando a greve geral proletária, mas de radicalizar a contradição não dialética do discurso ocidentalista. Por um lado, eticismo calcado na versão da origem sem Estado, por outro lado o eticismo já sendo o progresso ocidentalista pós-estatal, pela consequência de ser refletido argumentativamente à Habermas ou pós-socius à Deleuze, etc. A propósito, mostra-se oportuno a quem quiser utilizar os instrumentos analíticos da geoegologia que ficaram conceituados no livro 3, seria interessante como tema o levantamento do discurso do primitivo de Habermas – o enunciado da presuposição dele sobre uma evolução psicossocial – de modo a localizar as contradições não dialéticas e irrefletidas decorrentes.
d) A questão do Objeto
1 Tratando-se da questão tecnológica, alguns foram clarividentes mesmo à época do consenso do corporate state como suposto pós-industrial, e conservam atualidade. O livro de Jair Santos intitulado “O que é Pós-moderno” – na coleção “Primeiros passos” nº 165(São Paulo, Brasiliense, 1986) pude utilizar como apoio, em meu estudo anterior intitulado “O devir das ciências humanas”( 2006/2008), ao meu conceito de mudança de regime de objeto. Atualmente seria referenciável também o meu blog “modelos científicos”, pois a mudança que considerei relacionada à pós-modernidade, ganharia ilustração suficiente na mudança do modelo quântico para o do Caos, na física, que ao contrário do que muitos pensaram, é na verdade um paradigma formalista platônico, assim o trajeto deleuziano do Mille Plateaux, onde o paradigma do caos é citado, até o platonismo de O que é a filosofia, seria coerente, porém minha intenção sendo crítica ao platonismo, ao contra´rio da trajetória do recentramento. Ver o antológico livro de James Gleik, “Caos”.
2 Naquele estudo proponho a mudança, desde o que designei o objeto quântico do modernismo, que se atualizava em cascata, como polo de junção de n realidades virtuais, ao que seria agora o objeto sedutor movido ao bit binário digital. O início do texto de Santos já se movimenta no contexto dos dois eixos de captação do pós-moderno pelo viés do esvaziamento do problema do sentido, a desrealização e a desreferencialização. Ou seja, por um lado lidando com questões que hoje nos parecem apenas modernas, mas por outro lado aparentemente na linha dos atacantes do “pós”, à Eagleton e Jameson. Assim permanece porém o problema, pois não se pode de fato discernir enquanto apenas isso não seria já modernismo. A questão do objeto porém é inovadora em Santos. A partir daqui reproduzo o que coloquei em meu citado estudo:
3 /// Santos encena o cotidiano de um jovem plenamente integrado ao mundo da tecnologia e da consumação da atualidade, mostrando que sua "realização" social - ele cumpre os ritos, por assim expressar, do que se espera de um jovem saciado de vitaminas, informação e contato - envolve uma desrealização mais profunda.Pois tudo o que ele faz está intermediado pelo signo, das máquinas que funcionam na base digital da informática até as escolhas acerca das atividades.
4 Mostra-se assim que esses signos não são exatamente os de uma linguagem que modela um mundo, mas o correlato de uma escolha binária, isto é, a linguagem de que se trata é o regime do bit, dígito binário que só "computa" o 0/1, o Sim/Não. Não se trata da linguagem que manipula signos analógicos, mas tão somente signos digitais. Jair Santos procede agora uma partição do signo analógico como o que conhece e compreende, o digital como apenas o que escolhe entre duas alternativas. Ele supõe que atualmente – escrevendo nos anos oitenta - o bit, base lógica do computador, está constituindo o "gargalo binário" por onde todo o social " está sendo forçado" a transitar.
5 Até mesmo a imagem, que é analógica por definição, está funcionando digitalizada. É então que ele coloca o exemplo do objeto. Nas vitrines, cada produto é um signo analógico dos modelos à venda, mas está projetado com traços que funcionam digitalmente para diferenciá-lo das outras marcas. Nenhum produto deixa de ser mercatorizado por esse processo de binarização (este-sim, outro-não). Ora, desde que digitalizados, todo o processo de decodificação dos signos se resume a uma escolha que não tem nada a ver com "uma decisão profunda, existencial", mas somente atua como "uma resposta rápida, impulsiva", isto é, boa para a consumação.
6 Teríamos assim, a meu ver, a invasão do cotidiano pelo tipo do objeto de segundo nível, conforme Bachelard, aquele que seria exemplificado pelo elemento químico totalmente produzido em laboratório. Não há possibilidade da interrogação pelo noumeno, nem pelo sentido, dessa existência. Ela obedece tão somente às coordenadas de sua manifestação, sem ser, contudo, propriamente "fenomenológica", pois não devém de nenhuma espontaneidade transcendental, é uma realidade puramente artificial que se define como o que é inteiramente criado pela mente do homem, sem incognoscível. Ou seja, é uma realidade sui generis, pois nela o homem está como Deus, o intelecto arquétipo, onde coincidem intuição e coisa em si. A regra dessa produção, desde que feita para a consumação de massa, porém, é exclusivamente o prazer, ou a consumação pura que tende a aparecer como divorciada da produção, transcendental em relação a ela.
7 O que se produz não é o correlato da matéria prima, da natureza, do Ontos on, do Ser ou do Ente, mas somente da consumação a que se destina. A produção e a modernidade, a fábrica e a matéria, a Natureza e o trabalho, conforme notou argutamente Jair Santos, se tornam os fantasmas da pós-modernidade. Creio que se poderia ajuntar que isso é assim, na medida em que performatizam os correlatos inconscientes, o imaginário do regime real que é o da consumação, o simbólico tendo sido achatado à escolha binária do signo digital.
8 O objeto perde a aura da espessura quântica tanto quanto a dimensão da profundidade temporal, deixou de ser até mesmo o correlato de um processo social, da produção, revela-se como objeto formatado de uma escolha não-Subjetiva, caso de um consumidor parcial. O próprio objeto perdeu, igualmente, a parcialidade, ele é sempre inteiro, "objeto a", Signo, totalmente sem qualquer ambigüidade, não seria o correlato de uma pulsão, de um desejo, mas dessa escolha sem carne, mesmo sem "objeto", se por objeto se pretender o correlato de um Sujeito. Ora, a consumação é fluxiva, sua physis é o fluxo monetário intenso que percorre o corpo expressivo do Socius, o que se desdobra na recepção energética de qualquer emissão de Bits, conjugando as expectativas de uma margem de escolhas a uma margem de oferta eletrônica, a cabo.
10 Os velhos valores são então reinvestidos, pois para garantir o regime da consumação - só não pode ser permitido não consumir - entra em cena o que penso poder designar-se como o Signo desse Signo, o objeto cultural, o Valor tornado mercadoria. Família, religião, ética, história, democracia, tornam-se simulacros cuja missão consiste na legitimação da consumação, como também notou Jair Santos. Como não seria possível verdadeira participação quando se trata de simulacros, tudo ao inverso do período das guerras e das revoluções do século XX, a paisagem social pós-moderna é habitada por atitudes pontuais, pragmáticas, flexíveis, apáticas, sem projetos lastreados por qualquer meta-narrativa, modelo de qualquer dessas rubricas.
11 O papel da comunicação se torna óbvio como indústria desses simulacros de Valor, simulacros de narrativa, sendo esses, manifestamente, porém, os seus produtos, tão manifestamente, aliás, como os limites da legitimidade dessas "instituições". Não basta mais acusar um governo de corrupção, desde que as coisas continuem funcionando, não se espera que ele proceda de outro modo.
11 A constituição do objeto perde, portanto, o sentido, a fenomenologia indo investir a comunicação como o lugar de onde poderia relançar-se a posição da Subjetividade, pois parece não haver melhor front para a sugestão de que há um continuun referencial-pragmático desde que se está no âmbito dos atos de fala. Mas trata-se de uma ilusão, a meu ver, pois "quem fala", ainda não se perguntou, preconcebeu-se que seja o Sujeito da inteligibilidade universal do regime lógico-significante, mas o regime real é o da consumação, nele o ato só subsiste na parcialidade da escolha que rejeita ou acolhe um produto. É claro que não se espera que seja algo como um mesmo Sujeito o que atua na escolha do sabonete ou do presidente, mas o regime é o mesmo. A subjetividade pós-moderna responde ao questionário de sua consumação (qual é a marca do seu sabonete, desodorante, perfume, xampoo, etiqueta de roupa...) mas ao parecer assim se reunir numa entrevista, o que faz é se totalizar como uma imagem-produto da comunicação.
12 O que ressalta, contudo, é a necessidade de um nível de problematização onde as questões possam ser enunciados sem a truncagem de uma pressuposição que só faz corpo com aquilo mesmo que iria estar confrontando. Ao mesmo tempo, não se pode deixar de notar que as coisas não se ultrapassam à toa, que não seria de modo algum o caso de tentar produzir simulacros mais potentes de contra-Valores, a produção como luta de classes, a dialética em vez da religião, a história em vez do desejo...
13 Em todo caso, dados os limites do contexto, seria preciso notar como esses regimes podem ser visualizados mesmo ao focalizar os outros temas propostos como constantes na hiância moderno/pós-moderno que me parece tão característica do século XX. Mas como, quanto ao approach social, o que se poderia, dentro desses limites, propor, já se vê nas entrelinhas do que examinamos precedentemente, o âmbito do que se enunciou como Sentimento de Mundo se mostrará especialmente adequado a esse propósito. Em que também se poderá ver por que aquela tentativa só produziria agora "simulacros". ///
14 Como se pode constatar pelo texto acima, que destaquei do meu citado estudo anterior, naquela época eu ainda não conhecia Halberstam, e continuava influenciada pelo pós-estruturalismo em geral e Deleuze em particular. Hoje muito seria possível acrescentar, porém, à intuição original. O digital como regime está até sendo imposto por lei, neste momento em que escrevo – os aparelhos de televisão de tela analógica foram proibidos, cortando-se o sinal, de modo que todos estão obrigados à tela digital (já tela “plana”) ou a comprar um conversor. Além disso, o caráter intrusivo da representação objetiva psíquica tornou-se, desde a revolução micro-informática, um tópico permanente, que muda em muitos aspectos as impressões iniciais e anula o consenso do corporate state como alguma espécie de narcose narcisística radical.
15 Como já assinalei, a resolução da objetividade como processo psíquico em termos de “representação” era o criticado como idealidade ignorante do funcionamento material do significante no pós-estruturalismo. Para Foucault de “As palavras e as coisas”, “representação” era o retorno arcaico do classicismo fixista, que lidando com formas genéricas imutáveis, projetava um todo da natureza pré-estabelecido – uma imagem de época que Deleuze já não partilhava a partir de sua leitura de Leibniz como estruturalismo avant la lettre.
16 Assim o que Foucault chamava a “época clássica”, Deleuze designava o “mundo barroco” – de fato era o “período colonial-escravista”, como nós poderíamos antepor. Em todo caso, a idealização da totalidade era o criticado estrutural contra a hermenêutica do significado funcional, e por aí a ambiguidade que vimos em Jameson e em geral na primeira teoria em torno do pós-moderno – quanto a isso, é paroxístico em Linda Hutcheon. Estava havendo uma tentativa de unir os opostos existenciais e estruturais, enquanto por outro lado a oposição se radicalizava na produção dos pós-estruturalistas contemporâneos. Mas todos concordavam com o corporate state como narcose narcisista pela mercadoria digital, que tornaria o homem um autômato material, toda feita para uma dopagem total do consumidor com seu aparelho.
18 O Estado, coordenado racionalmente ao capitalismo, iria realizar o pleno emprego, a integração de todos à festa consumista. Menos os críticos intelectuais, bem entendido, que seriam alijados porém apenas por não haver integração possível da ocupação deles no rol das profissões existentes. Festejar isso ou condená-lo era então a opção que havia, mas hoje sabemos que a opção em si era falsa.
19 Primeiro, não havia corporate state, a coordenação racional do Estado ao capital, mas como o neoliberalismo provou, a realização máxima do divórcio do capitalismo e sociedade civil politicamente liberal. Ao contrário também do que se pensava em termos de Estado como mera dominação de classe. Porém, contra especificamente a tese do corporate state atual, o que estava havendo era o imperialismo belicista, internamente corrupto, o capitalismo ilegalista ou para-legal, fortemente excludente atuando reiteradamente contra as exigências constitucionais de respeito à pessoa e integração, etc.
20 Além disso, a dominação micro-informática é o imperialismo dentro dos corpos e de qualquer funcionamento da mente, porque os aparelhos informáticos são intrusados, coletivamente identificados aos interesses fascistas de grupos que fragmentam a sociedade civil impedindo-a de representação na acepção da legalidade que justamente assim garantiria a autonomia da pessoa, que, ao contrário, está em seu prazer mesmo destinada pelo que o imperialismo capitalístico ordena – uniões sexuais, programas restritos, prostituição, etc.- conforme a armação da propaganda que está obviamente dominando a vida privada.
21 A tese de panopticun – que Foucault registrou como projeto benthaniano de prisão com visibilidade total dos presos pelos guardas, porém utilizando-o como metáfora do que seria o controle brando da sociedade moderna (“disciplinar”) em geral - , porém não do Estado mas do aparato info-midiático-globalizado a que se reduziu, não é agora pouco séria. Contudo vemos como Foucualt jamais pôde antecipar que se realizaria pelo capital privado, ainda que sendo formalmente ilegal pela constituição pública. (o panóptico é o conceito de Foucault em Vigiar e Punir, para o que seria a visibilidade total do controle disciplinar moderno.
22 Os grupos fascistas da era das multinacionais não são senão a face onipotente do imperialismo tecnológico. A restrição da oferta da tecnologia ao intrusável é um novo aspecto do monopolismo de mercado, já a um nível intolerável. Tudo ao contrário da narcose narcisista individualista naquela época predicada como o summun ens do corporate state. Escolhia-se um disco numa loja por um ato de imersão na concepção da capa, isolados do mundo por um momento, nós e ele. Agora uma música se “baixa” na página da Internet povoada por propagandas de sapatos, de roupa íntima ou de carros, outras músicas, a própria página ostentando-se como representativa de algo que sabemos não ser como ela mostra, etc.
23 Na atualidade não se trata de participação, contudo, mas a regressão a um narcisismo cujo sujeito absoluto é a multinacional com seus ícones e funcionamento sistematicamente sabotador do usuário, marcado pelos estereótipos, etc. A integração desses motivos numa informação coerente do vandalismo da pessoa a que estamos expostos, só tem sido possível por agora, uma vez que o descalabro dos “componentes” só foram reunidos muito recentemente – ver a propósito o livro 2, o rol dos absurdos criminosos contra os consumidores na Globalização.
2) Modernidade, Pós-modernismo e o TerceiroMundo
2. a) “Mulher” e o Modernismo of-center
1 No contexto da recepção local do pós-modernismo, além do que se processava na área dos estudos literários, estava havendo uma produção original, mais ligada à área de filosofia e ciências políticas, onde Oswald de Andrade foi revisitado à luz de conceitos deleuzianos esquizoanalíticos, com importantes produções, como a de Luis Carlos de Morais Junior (“O olho do ciclope”) e Suely Rollnick. Aqui seria importante reconstituir algo da tese de Morais, mas mesmo em Rollnick tratou-se da “antropofagia” cultural como interlocução ilimitada do Centro na Margem, assimilação e não mera importação, o cerne da tese de Oswald, como uma base em comum com o que seria a esquizofrenia da cultura deleuziana, e, assim, vocação democrática autêntica, não apenas estereótipo, da heterogeneidade. [Nota 3 ]
2 A meu ver, desde já referenciando o que tenho desenvolvido mais recentemente, à luz da minha metacrítica geoegológica, sobre Oswald, de fato esses estudos abriram caminho para a percepção da sua tese do inconsciente, mas não exploraram a originalidade dela, devido à ênfase na recepção deleuziana. Contudo, os desenvolvimentos filosóficos de Morais aí encontraram oportunidade para contribuições substanciais como veremos em seguida, após um panorama que julgo necessário, da inserção histórica do nosso modernismo pioneiro.
3 Em geral tratava-se de valorizar o que no positivismo à exemplo de Euclides da Cunha era o anátema, o miscignado em geral e o mulato em particular, tanto como, ao contrário da sinonímia positivista de raça e cultura, de definir como riqueza cultural a convivência de inúmeros contingentes de imigrados de várias regiões do mundo, além dos nossos próprios três elementos, o europeu latino, o negro e o aborígine (“indio”). E as miscigenações estáveis de mamelucos, filhos de branco e aborígine; mulatos, filhos de branco e negro; e cafuzo, filho de índio e negro.
4 Em Oswald de Andrade, contudo, a miscigenação é realmente “tese”, como um princípio que serviria à construção de sólida e original teoria antropológica. Repetindo, até hoje não se fez a verdadeira conceituação dessa tese, porquanto não se tocou na sua explicitada base, a teoria do inconsciente. Assim a “antropofagia”, de que a miscigenação é uma sublimação, não é o verdadeiro cerne da tese, mas sim o seu corolário importante.
5 Como um pensador freudiano, Oswald estabelece uma crítica do inconsciente monocentrado europeu, de modo a mudar o conceito da relação entre as fases evolutivas supostas por Freud. O que Oswald conceituou, como o cerne de sua tese inspirando-se nos trabalhos de campo que já estavam muito mais desenvolvidos que a antropologia utilizada por Freud, foi a retomada da fase designada por este anterior à captura monogâmica do desejo feminino. Como a poliandria era o fato descoberto nos trabalhos de campo de então, Oswald a ligou à informação dos viajantes da literatura colonial, reportavam outros traços conspícuos da originalidade aborígine como gentileza e consciência da alteridade, para inversamente a Freud dotá-la como função do inconsciente verdadeiramente igualitarista, isto é, democrático.
6 O inconsciente poliândrico não teria a alteridade fora de si, somente na consciência formada após o Édipo, mas em si, como “inconsciente da alteridade” - pois não há o pai edipiano único na poliandria. A antropofagia antiga (ritual alimentar) ou modernista, apenas assimilação da heterogeneidade cultural ilimitada (sem ingestão física), seriam ambas expressões do inconsciente poliândrico, e eis por que essa temática é importante em Oswald.
7 Não o contrário – assim ele não seria apenas continuador da inspiração do Abapuru de Tarsila, nem tampouco sua “antropofagia” modernista é o mesmo que a injunção do africanista Aimé Cesaire de retorno à antropofagia alimentar tribal antiga. A assimilação é aqui o conceito chave oswaldiano, pois, como em Piaget, implica a assunção de que não somos aquilo que “comemos”, ao contrário, o que comemos é que se transforma naquilo que somos. Além disso, o conceito de “colonização” em Oswald é dialético, ao contrário da “coisificação” de Cesaire. Contudo, pratica este uma crítica do Caliban de Shakeaspeare, em nome de um engraçado Caliban reescrito como crítico da colonização.
8 Oswald começa pois, como um precursor da geoegologia, ao tematizar o que designa o ciclo das utopias. Assim o saber europeu que criou o liberalismo, desde o Renascimento até Locke e Rousseau, foi por ele estudado rastreando o intertexto fundador como a informação dos viajantes a propósito do Novo Mundo. Ao contrário da tese de Backtin sobre Rabelais, por exemplo, como a subida renascentista da idade média popular, até aí desconhecida nos meios cultos, Oswald mostrou como estava Rabelais eivado da informação dos utopistas, especialmente de Morus, inclusive com um personagem do Pantagruel inspirado em Thomas Morus, o Thaumaste (ver “A marcha das utopias”, em Do Pau-Brasil a antropofagia e às utopias, op. cit. p. 170).
9 Porém para Oswald, o cliclo das utopias, que demarcam o caráter não intrínseco do saber ocidental, se encerra na emergência da Ciência, com Marx (op. cit. p. 147). A interpretação oswaldiana de Marx, contudo, não reproduz a ortodoxia. Nisso podemos aqui tangenciar algo da necessidade, sempre censurada pela alter-egologia local, de inter-relacionarmos as produções americanas, de modo não subsumível ao que seria o modelo europeu. De fato, na interpretação de Oswald a propósito de Marx, havendo forte ênfase do hegelianismo, vemos sua reconceituação da dialética para culminar o processo histórico não no capitalismo oitoscentista burguês, mas numa revolução dos gerentes que por integrar os componentes da liberação, apenas cumpre pelo maquinismo o ócio poliândrico das origens. Cuja vocação da heterogeneidade não repõe o signo único, mas a pluralidade no inconsciente mesmo.
10 O capitalismo desembocaria dialeticamente pois, não na racionalidade repressiva vindo da burocracia calvinista, mas num comunismo pan-cultural onde a repressão da sexualidade estaria ausente. A tríade oswaldiana é então: tese, homem natural poliândrico (ócio dos trópicos, natureza exuberante que dispensa o trabalho nórdico, matriarcado poliândrico, liberação sexual); antítese, homem tecnizado (negócio como negação do ócio, trabalho nórdico necessário, calvinismo, patriarcado monogâmico, repressão da mulher e sexual, propriedade privada ilimitada); síntese, homem natural tecnicizado (liberação do ócio pela máquina, retorno da liberação sexual, democracia, propriedade com justiça social).
11 Ora, a revisão da tríade histórica hegeliana à luz da novidade americana, eis o que estava sendo feito nos Estados Unidos, pelo mesmo influxo de Hegel, como um primeiro surto pós-positivista. Vemos que o pós-positivismo não foi um recuo do objetivo de tornar a evolução biológica a regra de construção em Ciências Humanas. Pelo contrário, foi a exacerbação desse objetivo, que agora já não se limitava ao mundo humano, mas tencionava integrá-lo a uma realidade evolutiva totalizante, metafísica nesse sentido, ainda que crítica da metafísica do saber ideal fixista, vista agora como propedêutica da ciência positiva. [Nota 4]
12 Com Le Conte parece-me introduzir-se um elemento novo no padrão explicativo evolutivo-criacionista. Até aqui trata-se de transcendência e ideal, preservando-se, como no exemplo de Agassiz, o criacionismo, porque se poderia depreender do aspecto da natureza algo do clássico "plano" de uma mathesis, apenas por natureza limitando-se agora a ordenação do mundo orgânico. Assim, se não no detalhe, pelo menos no todo, conforme notava Gray, a ciência tinha o privilégio de relacionar os fenômenos a algo como uma vontade superior ao material, que se atribuía então a Deus.
13 Algo dessa perspectiva ainda se mantém, no ambiente europeu, no que Bréhier considerará o positivismo espiritualista, inspirado nas ideias da religião da humanidade, de Comte, como em Ravaisson, Vacherot e Paul Janet, se bem que o elemento em que se espera enraizar o fundamento de uma ordem moral e hierárquica, evidentemente não de todo material, seja aí apenas a auto-reflexão do ser humano , uma vez que este forçosamente encontra-se como natureza visando à perfeição.
14 Ora, com Le Conte, assim como na Europa é o caso de Eduard von Hartmann, trata-se de algo de todo imanente. Em Le Conte, inicialmente há constatação de que o desenvolvimento evolutivo se manifesta como um processo de criação, ou seja, revela a surgência permanente do novo. Haverá assim uma força motriz ideal desse desenvolvimento, que ele encontra ordenado conforme uma estrutura hierárquica.
15 O novo surge como algo acrescentado a um grupo especial de fenômenos, de modo a resultar uma fase mais elevada em relação ao nível onde se instalavam. Le Conte pensava a evolução por saltos, de modo que um novo grupo surge descontinuamente, mas, num movimento inesperado, ele estabelece justamente nesse fator da descontinuidade a necessidade da intervenção de Deus como autor do plano da evolução - tratando-se apenas da materialidade, tudo restaria necessariamente limitado a um plano de causalidade, isto é, a estrita continuidade. Mas essa projeção da vontade de Deus cujo resultado é a evolução, tudo o que comanda é um processo universal, de modo que a natureza poderia ser pensada como emanação da energia de Deus. Voltada para baixo, a energia deriva-se na natureza, mas espiralando novamente para cima, torna a unificar-se com a Fonte.
16 Em Hartmann a noção que sintetiza a percepção da ordem natural reinante no mundo orgânico é o Inconsciente, não enraizado de forma psicológica, mas como que para-psíquica. Ao lado da noção de consciência, que normalmente se atribui ao homem, existe a atividade super-ordenada instintiva dos animais, plantas, e até das moléculas, assim como na inspiração artística e nas categorias do entendimento kantianas, algo como uma quase-consciência por vezes até mais precisa e funcional que a consciência humana.
17 O Inconsciente se delimita assim como Deus, isto é, criador do mundo, agindo desde a irracionalidade da simples posição dos seres, pela cegueira da vontade, à manifestação de racionalidade que se estende ao plano da natureza em termos de uma finalidade que não se esgota nas estruturas reveladas como das criaturas, mas abrange o curso do mundo que deverá compensar toda a parte deixada ao irracionalismo pela condução ao aniquilamento final, como na filosofia de Shopenhauer que Hartmann aparentemente relaciona a influências várias, de Hegel à ciências naturais. No escrito sobre a história, Nietzche ironiza bastante essa construção de Hartmann. Porém o caráter supra-humano da evolução imanente, que compreende na humanidade um salto ao super-homem, é o que Nietzsche mesmo preconiza, ainda que ele não pense o devir finito.
18 Nos Estados Unidos a influência de Le Conte é notável. Ela subsiste após a voga pragmática quando se ergue paralelamente no país a corrente duradoura do “personalismo” – que antecede o movimento homônimo francês – como de Mary Calkins, Hocking, Flewelling e Brightman, citados em Bogomólov. Ora, entre esses extremos se instaura o que Bogomolov considera como fenômeno em continuidade com o antigo transcendentalismo romanticista à Emerson, a saber, a entrada da filosofia clássica alemã, assim como estava ocorrendo no Brasil na mesma época, com a Escola do Recife, de Tobias Barreto.
19 Nos EUA a influência mais importante será de Hegel, já desde os anos sessenta do século XIX, na chamada Escola de Saint Louis, de W.T. Harris, D. Snider e Henry Brokmeyer. A força dessa corrente está na sua capacidade de oferecer elementos para a reconstrução da sociedade após a Guerra Civil, de modo que a unidade nacional que não fôra fundamentalmente contestada, pudesse ser solidamente reordenada. O sul teria sido o "direito abstrato", o norte a "moral abstrata", enquanto que a União figurava o "Estado ético" conforme o devir preconizado pelo Espírito na filosofia de Hegel.
20 A dialética econômica da sociedade americana deveria assim instituir a "democracia monocrática" como síntese das contraditórias "propriedade individual" e "riqueza comunitária" - nesse conceito Bogomólov vê a antecipação do capitalismo monopolista de Estado, enquanto H. Schneider via um socialismo estatal.
21 Fala-se nesse meio do "monstro de três cabeças" que o hegelianismo norte-americano garantia abater: da anarquia política, do tradicionalismo religioso e do naturalismo científico positivista. Sua influência parece ter sido maior no sentido da expansão das ideias filosóficas europeias no país, tendo atuado na formação de Josiah Royce.
22 Aplicando aqui os conceitos geoegológicos que já defini, e lembrando que enquanto freudianos eles são adequados apenas ao inconsciente do imperialismo, cuja objetividade é não-relacional na medida que teleológica, a escalada dos totalitarismos na Europa poderia ser lida na decorrência da culpabilidade geralmente associada, desde a síndrome do período anal positivista que se expressou na violência do imperialismo pioneiro, aos acontecimentos que culminam na castração, ou seja, na revelação da total inviabilidade da história sugerida pelo ego ocidental como auto-formadora e justificadora do Ser. Trata-se das ambiguidades expressivas da fase fálica, em que a castração da mãe ainda não foi descoberta, mas a explicação anal já está sendo questionada pela evidência da genitalidade da criança.
23 O desenvolvimento das explicações neo-metafísicas, que se apresentam na subsequência da analidade do positivismo como puro cientificismo objetivista, testemunham, como notamos, a boa vontade em atribuir a lei não apenas à onipotência do ego sobre o outro reduzido ao estado de objeto seu.
24 Essa boa intenção é na verdade coagida pela premência da atribuição "correta" do falo, na linguagem da tópica egológica tratando-se da lei como atributo da autoridade da posição do pai na sua irredutibilidade, no entanto relativa, à posição da mãe não-mais-fálica. Em termos geopolíticos temos a encruzilhada dos caminhos pelos quais ou o capitalismo envereda pelo compromisso igualitário respeitando também a auto-determinação dos povos, ou persistia na viragem imperialista, para a inviabilização da visibilidade da heterogeneidade ao ego, ou seja, a evidência do problema social como algo não apenas acessório, mas constitutivo de sua ordenação.
25 Contudo, se de algo como em que insiste essa premência não é ainda capaz o ego, pois a introjeção da heterogeneidade absoluta o fragmentaria irremissivelmente, ele contorna a coação pela igualação das posições do pai e da mãe, distribuindo por sua complacência e magnanimidade, o recém-descoberto falo a ambos. A escalada imperialista se torna paralela a todos os esforços no sentido de manter a justificativa da razão contra um fundo de analidade cada vez menos conjurável.
26 Ora, o Split que se enuncia na Europa desde a modernidade de certas obras simbolistas ou daquela de Baudelaire, bem como na emergência da própria psicanálise, nos Estados Unidos com Herbert Mead, e no plano geral pela eclosão da cisão das revoluções proletárias, testemunha que algo se impossibilitou no trânsito para o que seria o genital, em termos da trajetória do ego no Centro.
27 A meu ver esse obstáculo se põe pela impossibilidade da hiância, afinal, vir a estabelecer o trânsito da heterogeneidade como previa a estipulação ética da psicanálise, ou seja, seria impossível para o inconsciente geopolítico egológico pôr a Alteridade, uma vez tendo dis-posto a fase fálica sobre a radicalidade anal que comprometeu a via democrática no Centro conforme as duas guerras deixam supor. Além disso, o marxismo é a duplicação do ego no Centro, como bifurcação dos Sujeitos da História, burguês e ploretário, uma vez que a Ciência teleológica é uma contradição em si mesma. Assim o percurso até a genitalidade é problemático em vez de ser a normalidade.
28 Na alter-egologia da Margem, o Modernismo ocorre como a ruptura que no Centro a fase fálica permitiu ser suturada. Ao contrário do que ocorre na Historia do Centro, ao menos localmente podemos afirmar que a ruptura não foi suturada, mas sim instaurou uma outra cisão, de modo que o golpe “anta” da Cia – como vimos no livro 2 , pelo integralismo anacrônico - é a decorrência.
29 Minha produção teórica da geoegologia decorreu, justamente, do estudo intitulado “Conceito e expressão, dois séculos de pensamento e arte”, em 2009, onde, após o Devir das Ciências Humanas em cinco volumes, em que tratei em cada um deles de um período da história das ideias, desde a Grécia, de modo a obter um mapa dos conceitos e disciplinas humanísticos particular a cada época, concentrei-me nos dois séculos passados, a modernidade. Assim, quando se tratou do Modernismo, porém, a continuidade conceitual se rompeu. Descobri que era impossível um percurso nocional único da Europa às histórias localizadas, pois, especialmente pelo influxo do modernismo na América Latina, o que se estava desdobrindo era a irredutibilidade das raízes. Isso é algo generalizado na Europa mesma, porém não se tratando exatamente do mesmo. Na Europa, a transversalidade do virtual que então emergia, permitiu como em Josiah Royce e Bergson, pensar em termos de subconjuntos infinitos de um infinito único, assim como os subtextos de um só texto, o que o estruturalismo explorou ao máximo. Porém ainda que assim pareça estar sendo pensado a irredutibilidade, na verdade era o oposto, a teleologia – ou teleonomia, como Piaget colocou em termos do que estaria para a teleologia assim como a astronomia para o astrólogo.
30 Na margem, o esforço para recompô-la foi apenas um salto sobre o abismo. A segunda geração do modernismo, regionalista, onde entre esforços mais ou menos sinceros penetra porém o fascismo no nosso modernismo, ignora solenemente a problemática. Conforme a sociologia de Buarque de Holanda ou Gilberto Freire, apenas aplica a metodologia funcional de modo a restaurar a depreciação masoquista da cópia frente ao modelo. Em outros países da América Latina também houve um designado “pós-modernismo”, que não é similar do termo atual, mas designava – com mais propriedade do que a terminologia da “geração” - na teoria da época, um retorno aos cânones anteriores à vanguarda.
31 Com relação ao momento brasileiro inicial, a peculiaridade do modernismo local, como uma retomada do nacionalismo romanticista não racialmente segregativo, são suas bases teóricas realmente possibilitadoras dessa intenção, que o romantismo propriamente não tivera. Porém a junção da teoria do inconsciente poliândrico na tese de Oswald resulta num aporte até aqui não reconhecido do nosso pioneiro modernismo. O qual não poderia assim ser reduzido à ausência de split público-privado que Jameson e Deleuze utilizaram para caracterizar a defasagem do desenvolvimento no terceiro mundo. Inversamente a eles porém, está sendo a imbricação do Poder, desde os anos oitenta, sempre mais interpretada como conexão do modus operandi do ocidentalismo imperialista e sexismo.
b) A Travessia do Gênero
1 O modernismo pioneiro, na tese oswaldiana do inconsciente poliândrico, imbricou as questões sexual e política de um modo que na Europa só se tornou contextualizado desde o estruturalismo lacaniano em diante. Porém ao contrário de Oswald, Lacan reiterando o sócio-progressismo de Freud. O gênero sexual vem sendo na pós-modernidade da nossa era, de fato, tematicamente entretecido ao emaranhado do poder que uns e outros querem manipular.
2 Os anos oitenta construíram uma centralidade da teoria feminista na controvérsia característica daquele momento, mas as consequências duradouras em termos do que hoje continua pertinente é justamente a imbricação do gênero naquilo que está sendo designado “teoria pós-colonial”, onde o capitalismo não pode ser considerado à parte do Imperialismo.
3 A “teoria pós-colonial” precede a Globalização e a reordenação do mapa planisférico já estritamente do conflito Norte Sul, mas pode-se aquilatar a importância dela nesse atual contexto. A designação da teoria relaciona-se a que o foco dos conceitos vieram muito da cena afro-asiática emergente do final das guerras de descolonização propriamente ditas. Porém onde apenas estava sendo visível, num intervalo de uma ou duas décadas, o que na América Latina foi o processo secular da conversão da “independência política” na “dependência econômica” que caracteriza o Imperialismo das potências antes “metropolitanas”.
4 Assim, hoje que a Globalização atinge a todas as porções ex-coloniais com o status desvantajoso do subdesenvolvimento (“Sul”), a teoria pós-colonial deveria encontrar um surplus do seu alento incluindo a América Latina.
5 Um exemplo da teoria pós-colonial como estava se fazendo na altura dos anos oitenta, quando seus poderes retóricos se revelavam pelo potencial da imbricação das questões do gênero sexual, é fornecido por Eduardo Said ao observar que “o orientalismo [como discurso do Saber ocidental dominador do que designa “oriente”] é uma práxis do mesmo tipo, apesar de em territórios diversos, que a dominação sexual masculina ou patriarcalismo em sociedades metropolitanas [imperialistas]: o Oriente foi rotineiramente descrito como feminino, suas riquezas como férteis, seus principais símbolos a mulher sensual, o harém e o governante despótico- mas curiosamente atraente.” (op. cit. p. 268, ver a Nota 1). E os orientais assim como “as dona de casa”, votados ao silêncio e produção de “enriquecimento ilimitado”.
6 Aí Eduardo Said referencia a proveniência histórica da dona de casa, o período vitoriano inglês. Na teoria feminista realmente isso é um dogma. Naquele momento ocorre a consolidação da oposição construtora dos papeis de gênero contemporâneos, assim como a auto-imagem do Self, em torno da configuração da família “nuclear”, burguesa ou moderna. Restrito ao casal e seus filhos, tornou-se a residência matrimonial o “lar das emoções”, feminino, oposto exemplarmente ao “mundo do trabalho” racional, masculino e onde estaria a esfera do poder como do político.
7 Mas na superação do limite do estereótipo do dominado e da dominação, visando o modo como a diferença difere dela mesma, sendo na verdade heterogeneidade ao invés de identidade única alternativa, e como o poder contamina os pretensamente binarizáveis dois lados, a teoria feminista, que devia ser o referencial das informações pertinentes ao gênero, revela-se a quem estuda hoje os registros da época, ter estado então num grande impasse. Parece-me que o mais relevante à situação, uma vez que dela tanto se esperava como uma nova estrutura do político a partir da qual as relações de trabalho obedeceriam a premissas endógenas do inconsciente, foi o impasse em torno justamente dessa possível universalidade, sua elevação ao status de fonte numa área de questionamentos tão extensa que deveria abarcar nada menos que todo o político e cultural.
8 Além dos limites contextuais da teoria pós-colonial, Jane Flax observou que era ainda raro que os intelectuais pesquisassem “os aspectos difusos das relações de gênero em todos os aspectos de uma cultura, do mesmo modo que eles se sentem obrigados a investigar o impacto das relações de poder ou a organização da produção”. (nota, citar). Não obstante, um modo de introduzir o impasse da teoria feminista de então é observar que a teoria do inconsciente havia se matizado incontornavelmente, rompendo a disponibilidade unívoca da psicanálise, mas o inconsciente sendo o locus a partir do qual todas as questões imbricariam a do gênero.
9 A recém-conquistada primazia do inconsciente, na imanência da descoberta desse potencial de aglutinação, vem principalmente pela importância de que se revestiu Marcuse, desde os anos cinquenta, e, em seguida, o pós-estruturalismo, tendo sido neste que a Vanguarda dos inícios do século estava sendo assimilada em sua própria teoria como interpretação do inconsciente, à exemplo de Artaud. Assim o ônus de um comprometimento unilateral com a psicanálise podia ser descartado sem prejuízo para a convergência de que se necessitava.
10 Mas a questão que hoje nos parece relevante, porque não parece ter ocorrido consciência dela na controvérsia feminista aporética dos oitenta, é como os teóricos sociais deveriam fazer o levantamento do gênero, requerido por Flax. Pois ela não define se como um dos aspectos relevantes da cultura em apreço, ou o seu determinante, do qual os demais se tornariam pesquisados como epifenômenos.
11 Por um lado, não havia “teoria feminista” unívoca, que pudesse abstrair a diversidade das correntes mais opostas que vicejam em torno da questão do gênero – e primeiramente o que é ele - de modo a responder a esse dilema.
12 Por outro lado, a convergência da teoria do Inconsciente repôs a aporia por si mesma, já que se trata então de interpretar a significação dos fatos do gênero enquanto fundamentos do inconsciente, entre as vertentes pós-psicanalíticas que referenciei. E que disputavam ainda com a própria psicanálise, poderosa aquela altura devido ao obtido na confluência de Lacan e Althusser, da qual se desdobra o semioticismo da Tel Quel, como em Julia Kristeva que contribuiu decisivamente na “teoria feminista”.
13 Mesmo que se pudesse ripostar que uma vez a decisão pela convergência do Inconsciente sido feita, em todo caso o significado fundamental seria o gênero, o impasse na “teoria feminista” era grande, como se pode ver por ela ter sido como que um front onde se acantonaram os adversários da concepção de Inconsciente, entre a Teoria Crítica, da qual a ênfase feminista se bifurcava entre as influências de Adorno e Habermas, até o existencialismo mais ou menos parente de Beauvoir. Para eles era um ponto comum atacar o “feminismo” de Kristeva.
14 O fator de complicação aí, porém o que realmente impulsiona a travessia epocal até agora, é que na teoria feminista revelou-se um outro aspecto da problemática do gênero relativamente ao tradicional sexismo como dominação sobre a mulher, a saber, as questões da homossexualidade. Rorty notou que uma diferença básica entre os ativismos da época de Park, em princípios do século XX e confluindo com a emergência da vanguarda, e aqueles dos sixties, era justamente que antes destes não havia tal tipo de questão.
15 Judith Butler, cuja “queer theory” amplia justamente a teoria feminista a uma problematização do gênero como cooptação da cultura sobre aquilo que a princípio não está estabelecido pelo gargalo binário, falha ironicamente justo na apreensão dessa amplitude. A base da “queer theory” é a anteposição a um conceito que veria do lado de cá relativamente à cooptação, isto é, do lado da contestação e do sujeito, algo que não é por sua vez também cultura enquanto geração de valores, ainda que na fricção com os existentes e recalcadores. Ela recusa pois o recuo aos instintos, como sugere ser o caso da teoria lésbica de Monique Wittig, mas também de Foucault, aos quais considera afins da posição existencial de Beauvoior.
16 Crê assim que a contestação do gargalo binário do gênero, como de algo que é cultural mas se pretende natural, ficaria contraditória desse modo. Porque pretendendo uma variação proliferante de opções sexuais ela mesma natural – enredando-se portanto nas impossibilidades argumentativas que cercam o próprio gargalo binário do gênero enquanto suposto natural.
17 Butler considera que Wittig, como Foucault, podem ser reduzidos tanto a Beauvoir como a Marcuse. Aqui devemos ressaltar que Marcuse preconiza o “perverso polimorfo”, a reativação em nós da criança freudiana (pré-genital) como o antídoto instintivo ao mal estar da civilização guiada apenas pelo instinto destrutivo. [Nota 5] Apenas fica em suspenso como obteríamos a mudança social nesse sentido, uma vez que na criança freudiana não existe a instância da lei (genital). Mas a lei sendo, como a compreendemos, a instância da alteridade, o respeito possível ao “outro”.
18 Pode ser que a categoria do “desreprimido” em Marcuse seja irredutível à simples repetição do estágio infantil, e sim a realização da modernidade como evolução alternativa ao genital, na qual os instintos seriam revalorizados, porém não se define explicitamente desse modo na elaboração do texto. O diagnóstico marcusiano do mal estar da civilização é portanto o oposto do lacaniano, para o qual o problema político traduz justamente a fixação pré-genital dos adultos.
19 Mas a aporia histórica consiste em lançar Marcuse um conceito revolucionário que inclui a consciência do imperialismo, enquanto Lacan só pode ater-se ao Ocidente como Sujeito (genital/objetivo) da História. Uma posição que, como a existência da teoria pós-colonial em particular e do pós-moderno em geral demonstra, tem se tornado progressivamente insustentável como pretensão de ser politicamente libertária.
20 Quanto a Wittig, creio ser necessário ressaltar, ao contrário do que parece supor Butler, que a negação pura e simples do sexo – logo, da “mulher” - como categoria de sentido, de modo que a lésbica demonstraria que o sexo (oposição restrita a masculinio e feminino) não existe - nada tem de novo no sentido de algo que viria apenas desde o existencialismo sartriano. O estudo de Benjamin sobre Baudelaire tematizou o quanto essa negação estava radicalizada nos grupos do século XIX que se engajavam na “Modernidade” como Revolução total, anatemizando assim a feminilidade como determinante do gênero, a maternidade, etc.
21 A propósito, em meu “O Pós-moderno, poder, linguagem e história”, realizo a cobertura desse estudo de Benjamin, ressaltando porém não principalmente a questão poética baudelairiana, que tangencio entretanto, mas haurindo o que me pareceu relevante para apreender como a chave dessas tendências e de Baudelaire, é na verdade a Modernidade enquanto evolutivamente interpretada, como foi no século XIX. Assim de modo a suscitar a arte e a teoria como um tipo de autoritarismo futurista que só era limitado pela dobra interna da própria subjetivação – aquilo que o futurismo queria antecipar – pela Modernidade enquanto revolução industrial, a disponibilização total dos indivíduos, o que designei o algoritmo da subjetivação meta-institucional.
22 Ou seja, o contrário do que a Modernidade diz de si como liberação única dos indivíduos. Como o de Demar, o anátema baudelairiano, de saint-simonistas e outros, contra a “mulher” personificada, a mãe, etc., compactava projetos cem por cento autoritários de mudança social obrigatória, assim cooptação do Estado para fins de grupos particulares – conforme Benjamin, Demar pretendia que as crianças deveriam ser separadas de suas mães na maternidade para serem criadas por instituições estatais. Arbitrariedade futurista que, como os radicalismos de hoje em dia, não reflete na hipocrisia de negar a maternidade e o sexo definido como se isso pudesse erradicar o fato da geração – proveniente obviamente do intercurso sexual dos dois fatores sexualmente designáveis como masculino e feminino.
23 Por outro lado, a deificação igualmente futurista, não apenas restrita aos fatos mas como valor de exemplaridade, da mulher como mãe também existia em alguns grupos, como na retórica de Enfantine. Assim a ala da teoria feminista dos anos oitenta que, como a apregoada “segunda onda” relativamente à anterior centrada na conquista do mercado de trabalho, pensava a mulher “mãe” embaraçada em seus afazeres domésticos e procriativos, também não é a novidade que sugeria estar sendo.
24 Um outro engano de Butler é sobre Foucault, enquanto possivelmente marcusiano, tematizando o que seria a liberdade instintiva que pelo influxo de Freud trata-se como “perversão” do pré-genital. De fato Foucault não pensa a variação sexual como qualquer tipo de categoria que ele mesmo tivesse utilizado ou criado, mas apenas como categorizável no discurso da Modernidade enquanto meio “científico” – na terminologia foucaultiana, o mesmo que “burguês” - de atribuir identidade aos sujeitos. Independente do que eles pensam sobre si por um lado, mas valendo como a ciência, portanto a verdade universal que eles mesmos devem estar incorporando, por outro lado.
25 Atribuição que não é o caso universalmente, a seu ver, mas o que distingue a modernidade ocidental (burguesia) como uma cooptação branda e discursiva , que suscita portanto uma cooptação orgânica, institucional, automática (medicalização, planejamento urbano, etc.), independente de ser ou não “consentida” à Gramsci.
26 Conforme o volume 1 da “História da Sexualidade”, intitulado “A vontade de Saber”, cooptação não violenta dos corpos, que não procede mais por imposição de crenças ou valores, mas pela figura da verdade – até mesmo o confessionário católico moderno prescreve o interesse naquilo que o confessante quis ou pensou em vez do que efetivamente fez. Ora, a atribuição científica da identidade a partir do sexo não seria para Foucault um derivativo do binarismo do senso comum, pois a moderna ciência atributiva da identidade começa por descartá-lo para fazer sua proficiência do “caso”, assim o objeto dela, ao contrário do casal e do normal, são prefencialmente as “perversões” (como ela designa identitariamente). Se há uma contradição performativa, é do discurso criticado e não de Foucault enquanto o crítico.
27 Já o que Butler criticava então, com razão a meu ver, eram as posições que como a de Simone de Beauvoir, instituíam ao mesmo tempo o patamar cultural do sexo (“não se nasce mulher”), mas o limite interiorizado dele (“torna-se mulher”). O questionamento pertinente de Butler – se não se “é”, por que o tornar-se é o desse mesmo “ser”? – atingiria frontalmente a premissa de Seyla Benhabib, que já criticamos antes. Mas creio haver um problema na consideração bluteriana de que a negação da “mulher” por Wittig seja decorrente da mesma matriz contraditória que inspira a limitação do devir à afirmação da “Mulher” por Beauvoir.
28 Considero que o que une esses investimentos variados é sua base na Modernidade intepretada desde o positivismo em diante, de um modo ou de outro, como enunciado determinista da evolução psicossocial que pode assim ser moldada pelo saber, escarnecendo da representação constitucional que apenas refletiria a facticidade negociada dos sujeitos eles mesmos em sua pretensa heterogeneidade. Mas como na teoria pós-colonial iria se reconhecer, a Modernidade ou Capitalismo, não podendo já ser abstraído como diverso do Imperialismo, o próprio discurso não é autônomo, um logocentrismo intrínseco a um percurso cultural fechado desde a Metafísica. Pois na Metafísica não havia qualquer “outro”, o primitivo da infância arcaica, o domínio mítico pré-Histórico, na Metafísica ante-moderna. Ela não era “identitária” na acepção de qualquer possibilidade do Sujeito pensável.
29 O que podemos criticar em Foucault, repetindo o que já assinalei antes, é que, mesmo se ele já não pratica o determinismo como o que ele próprio teria que identificar positivamente para obter o ativismo são, ainda pensa nos termos da modernidade intrínseca e unívoca. Assim sua suposição de um poder brando é sintomática, abstraindo espantosamente o imperialismo e o nazismo, assim como as ditaduras militares vigentes na sua própria época.
30 Além disso, ele parece tender a certo posicionamento da própria Butler, ainda que ela o criticasse, pois o que preconiza, se não um determinismo positivo na análise do discurso, é a negação do sexo como via da negação do Poder – desfazendo as impressões do sujeito concreto benhabibiano, de modo que para Foucault dizer sim ao sexo não é dizer não ao Poder.
31 O artigo de Butler é complexo e requer cuidadosa interpretação. A princípio, considerei que poderia ser lido de modo a suscitar um patamar na teoria do gênero, pelo qual teriam que ser em cada caso analisado, discernidas três instâncias, a do sexo biológico, a da sexualidade subjetiva e a do gênero na cultura histórica. Porém numa segunda leitura do texto de Butler ficou dubitável o papel que ela concede ao sexo biológico, se é que o faz.
32 Ao criticar Foucault, utiliza-se Butler de um texto que ele fez circular, as memórias de uma hermafrodita, e o modo como Butler o analisa parece sugerir que não o faz. Porém o hermafroditismo, como possibilidades orgânicas relativas à formação de vários fatores envolvidos na atribuição do sexo biológico, já está bem caracterizado na ciência do cérebro.
33 Na minha interpretação dos três fatores analíticos que deveria compreender a teoria do gênero, não haveria uma totalidade prévia, mas uma imbricação em cada caso, das instâncias cultural, biológica e subjetiva. Assim, como pensei inicialmente que Butler estivesse visando a isso mesmo, ela estaria já ao corrente das inovações oriundas da biologia e ciência do cérebro, uma démarche que não se reduz de pronto à ciência identitária de Foucault, uma vez que lida com variáveis físicas não visíveis além das visíveis, e conforme uma noção de variação interna, não dicotomias de sujeitos ou proliferação de identidades, externa.
34 Assim por exemplo, os seres cujo padrão de cromatina sexual é XY é masculino, e o XX é feminino. Somente o padrão feminino inclui a presença de uma estrutura designada “corpo de Barr”, localizado perto do núcleo de cada célula do seu corpo. (ver nota 5 do livro 3, volume 1) Mas as características hormonais são importantes, de modo que em tese é possível fabricar variações sexuais, literalmente “fabricar um macho”, pela alteração das substâncias químicas do corpo da mãe, que são necessárias à composição do padrão comum.
35 Pacientes com vários distúrbios glandulares apresentam ocasionalmente casos ambíguos de definição sexual. Esse tipo de alteração de substâncias orgânicas explica fenômenos insólitos, o que se acreditava menino na infância descobre na puberdade que mestrua, ou a que se pensava menina não apresenta o desenvolvimento dos seios além de características genitais ambíguas quando aporta a essa idade. Ao contrário do que Foucault pretendeu por ignorar a segmentação de períodos na história da ciência interna à modernidade, fazendo obscuramente da mentalidade oitoscentista um modelo invariável, a biologia atual não atribui a identificação do sexo nesses casos.
36 A negligência de Foucault não se deve apenas à metodologia estrutural, mas à intenção de transferir a importância do processo “burguês”, do capitalismo para a ciência. Resultou numa situação política deplorável, posto que a medicina tornou-se inalcançável para a população necessitada devido ao neonazismo neoliberal empresarial. Não viu Foucault que a firma capitalista é o pólo paranóico de dominação das subjetividades, em vez da ciência ou Estado, sendo o pólo paranoico o oposto agressivo da legalidade, fascínio do “poder”, conforme a orquestração nauseabunda da propaganda, aparência física, juventude consumidora, etc.
37 Ao contrário, a indefinição ou normalidade do sexo em termos de espécie animal, é o que a ciência mesma está constatando a partir de fatores definíveis. Assim informa Daniel Kimble, que reproduz a lista do pesquisador em medicina, John Hampson, sobre as sete variáveis do sexo: morfologia genital externa; padrão de cromatina sexual; sexo gonádico determinado pela morfologia; sexo hormonal correlacionado com as características sexuais secundárias como a textura da pele, qualidade da voz, estrutura muscular mais ou menos delgada, presença de seios ou barba; estruturas reprodutivas necessárias internas; e incluindo especificidades da espécie humana: fator sociedade (sexo de atribuição e educação); sexo piscológico ou papel de “gênero” (op. cit. p. 118 a 121).
38 Experiências de alteração hormonal nos animais são já algo comezinhas, e influem na farmacologia. A ingestão de extrato de tireóide estimula o crescimento normal de pequenos “cretinos”, assim caracterizados por definidos padrões deficintes do metabolismo os nascituros com deficiência acentuada de iodo, e ela também restabelece adultos mixedermatosos, adultos que apresentam alterações aparentes por deficiência de iodo, as quais abrangem perturbação das funções sexuais. Assim nas regiões onde o iodo é escasso pode-se compensar pelo acréscimo dele ao sal iodado. Alterações nas glândulas genitais ou gônadas, produzem mudanças dos caracteres sexuais secundários animais como a agressividade, pescoço espesso e voz mais profunda do touro; os chifres dos veados machos; a crista, o canto, barbilhões e esporões maiores, do galo. Indivíduos dessas espécies castrados tem comportamento alterado relativamente ao critério desses padrões. O boi fica com pescoço mais fino, voz mais parecida com a da vaca, o galo capão não canta, tem crista e esporões menores, o veado castrado não apresenta chifres. Nesses indivíduos o comportamento sexual mostra-se débil ou ausente, tendendo a acumular gordura. O galo macho castrado que recebe posteriormente enxerto de ovário apresentra tamanho maior, crista e barbilhões maiores, penas mais longas no pescoço. [Nota 6]
39 Em todo caso, naquilo que considerei tendencialmente pós-moderno na teoria feminista, como a imbricação singular do sexo biológico, sexualidade subjetiva e gênero na cultura, não se trata da pretensão criticada por Butler e Flax, da “concretude” na política, de fato mera fantasia do eticismo radicalizado, como desejo de trazer o sexo ou “corpo” para o espaço da negociação política ou ativismo.
40 Mas sim lembrar que aquilo pelo qual é feita a elaboração do político na linguagem também não é possivelmente o termo de uma oposição simples entre natureza e cultura, mas a complexidade situada da relação entre ambos. Como quando se trata de exigir leis de “licença maternidade” para funcionárias que engravidam, o que é de modo evidente algo que envolve o sexo biológico, mas, depois, também, de exigir polícia para fazê-la cumprir, precisando cobrir a pesquisa sociológica operacional a informação sobre o costume do patronato, que é de despedir a mulher, mas por meio de pequena indenização obter a cumplicidade dela, para que minta um pedido de demissão.
41 A imbricação das instâncias conota especialmente uma tendência ao singular, em vez do geral, e traduziria o que me parece o escopo de Butler e Flax, entre vários referenciais, de desfazer a desagradável confusão do sujeito e sociedade, característica do que é chamado “sujeito” nos horizontes da metodologia funcional que caracterizei anterior ao rise estruturalista, como teoria crítica, fenomenologia e hermenêutica.
42 Mas também assim sem precisar liquidar a realidade pessoal, ao contrário da reação estrutural àquela confusão. De fato confusão algo cínica – assim Robert Gorman designou Sartre esquizofrênico, pelo paroxismo da sua ambiguidade entre sujeito e sociedade. [nota 7]
43 Vimos que na biologia do sexo não são ignorados os fatores psicológicos e sociais quando se trata da humanidade. A mudança em nível de costumes pode alterar a atribuição de características, a voz fina dos meninos educados não é sinônimo de desvio em meios igualmente educados, etc. - o contrário ainda nos meios interioranos. Kimble observou que naqueles casos de hermafroditismo que podem ser decididos pelo sujeito como “mulher”, os hermafroditas costumam ser boas modelos de modas, porque estas tendem ao aspecto de magras, altas, tem seios pequenos ou quase inexistentes. Mas a questão dos significados subjetivo e cultural é complexa, até porque o “gênero” na cultura já está sendo visto como relacional, o padrão feminino depende do masculino e vice-versa, não algo caracterizável univocamente.
44 Aparentemente, as diversas variáveis orgânicas do sexo poderiam favorecer o binarismo subjetivo da premissa psicanalítica dicotômica do “perverso” e “genital”, porém a significação dele na teoria é controvertida. Não está bem definido se a binareidade do sexo biológico reprodutivo (mulher e homem, mãe e pai, passivo e ativo, penetrado e penetrante, etc. ) explica a objetividade, ou, inversamente, é a objetividade que explica o modo como o inconsciente potencializa o sexo biológico.
45 Isso é tanto mais complexo quando o que está sendo imbricado à teoria feminista a partir da possível convergência da teoria do inconsciente, não é apenas o poder ou a produção, mas o imperialismo como um horizonte de discriminação em sentido próprio. Uma vez que os anos oitenta são o momento da assunção do “signo” inconsciente, eles formam o contexto em que o viés da explicação por funções adaptativas deixou de servir, contexto pois em que a hierarquia já não se justifica por qualquer causa externa a ela mesma, e enquanto “atribuição arbitrária, diferencial e sistêmica dos signos sociais e culturais” conforme Homi Bhabha, se imbrica como parâmetro do que devemos analisar. A propósito, estarei usando o termo “signo” até a oportuna explicitação dos motivos pelos quais a sua polissemia aqui deve ser contornada pela restrição ao sentido de “significante”.
c) O lugar do gênero : a margem pós-colonial
1 O “lugar da alteridade” como “o que necessita ser questionado” já não se oferece por si, mas se tornou o da inscrição construtiva da “diferença” como “discriminação”. Assim podemos usar oportunamente as expressões citadas de Homi Bhabha, situando seu texto num locus já estabilizado da imbricação do gênero à crítica política, desde os anos oitenta.
2 Ao criticar o escritor S. Heath como alguém que lida com a articulação do sexo e da nacionalizada colonizada baseando-se na concepção de “mistura”, ou seja, uma concepção polissêmica que reúne os dois sentidos, tanto da mixagem do gênero e da “raça”, como da miscigenação enquanto a problemática desta a partir do seu contexto discriminado-colonizado, Bhabha parece estar considerando de modo justo, a limitação da oposição das condições a uma dicotomia. De modo que do lado oposto da inscrição do domínio, como da fronteira americana e do machismo cultural americano, Heath não explora o devir da alteridade como o devir da cultura alienada pela dominação, em espiral, mas sim em ciclo, isto é, como alternativa binária ao dominador. O que é resultado porém, da visão da dominação, que só assim pode marginalizar, tendo um resíduo identificável como tal (“outro”) num tipo (“mexicano”).
3 O personagem mexicano, de Heath, é nomeado Vargas, duplicado em dois, com dois nomes diferentes: “o do desejo é mexicano, Miguel (...) o da Lei, americano, Mipe” (op. cit. p.182, ver nota 1). Os dois caracteres do mesmo personagem se movem na economia da mistura dos dois fatores étnico-politicamente conflitantes, são seres misturados - numa acepção determinada da miscigenação - que vivenciam a ambiguidade herdada por eles nesse pathos da mistura, entre os dois valores cardeais a cada um dos fatores, a lei (americano/ dominante/ branco) e o desejo (mexicano/ dominado/ não branco).
4 Nenhum dos dois, ao ver de Bhabha, tangencia a realidade inantecipada pelo modo de ser do conflito, e que iria porém fazer transbordar a contenção da diferença nesse estreito parâmetro opositivo pretensamente totalizante. O problema da crítica é bem colocado por Bhabha. Se o que existe na e como a diferença é o devir inantecipável, a crítica, mesmo desconstrutiva do discurso repressivo de uma sobre outra, não pode ela mesma representar a alteridade reprimida, o que seria o contrário do que pretende como liberação.
5 A crítica precisaria limitar-se à análise dos textos específicos e históricos em que foram construídos os aparatos do poder colonizador a partir do recorte da alteridade neles definida. Esses textos produziram pois, o conhecimento do colonizador, construindo a identidade suposta como tal do colonizado, tal que o empreendimento da colonização e o papel do seu agente ficassem do mesmo modo definidos, estabelecidos.
6 A minha ênfase aqui é nesse papel cognoscitivo do discurso do colonizado como primitivo, na medida em que a colonização não é um acidente histórico entre outros, mas o suporte da “modernidade” enquanto processo do abandono do – assim definido – arcaico, sendo a auto-atribuição desse processo o definiendum do Ocidente enquanto locus e agência dele.
7 Bhabha não imbrica a construção textual da diferença discriminada como do “outro”, com a auto-posição do “mesmo” enquanto porém não um dado, e sim agência evolutiva no discurso ocidentalista. A contradição discursiva sendo, pois, que tanto o Sujeito (ocidente) da História é o “mesmo” que tem o saber sobre o outro (primitivo/oriente), como a sua mesmidade é a da diferença que traz enquanto Evolução, porém se, quanto a esta, é ela a teleonomia da mente, já não “um” frente ao “outro”, e sim o “todo” como agência do Homem, Ciência da História, Objetividade, etc.
8 O que Bhabha concede é que existe um saber do Ocidente discriminatório e imperialista, cujo correlato não existe além do estereótipo construído para um fim que é desejo de domínio em vez de um objeto constituído por uma intencionalidade científica-racional. Porém não que todo saber (humanístico) do Ocidente o auto- constitui na condição de sujeito da enunciação do Saber enquanto tal, em que, inversamente a Bhabha, creio eu. Se a auto-atribuição do processo da modernidade é o definiendum do Ocidente enquanto locus e agência dele, a colonização é um significado transcendental da História, assim não solipsista. Eurocêntrico em vez de apenas europeu. Processo antropológico cultural (significação do Homem) em vez de antropológico social (etnografias).
9 Não há assim, inteiramente, congruência necessária a meu ver entre o discurso colonial enquanto ciência do desenvolvimento ou teoria da modernidade, que se estabelece pela dicotomia ao que define como arcaico (passado/colonizado), e o aparato colonialista factual, a violência repressiva/exploradora local. Mas a lacuna não assinala apenas um gap, um vazio, e sim um traço, uma seriação. Pois o definido arcaico não está fora, no colonizado como outro da raça, e sim internalizado como o passado, arcaico, infantil, o superado da história.
10 A raça é a identidade da trajetória, a essência do desenvolvimento, não é ou já não é um gênero de ser. O passado colonizado é a infância arcaica do colonizador, segundo a ordem do seu conhecimento mutável sobre ele como o que é imutável “para si”. O colonizado é o oposto da modernidade/ ciência/ colonização.
11 Assim, Bhabha não localiza no próprio discurso psicanalítico a construção do situamento arcaico da alteridade do outro. Não ultrapassa por esse situamento, o conceito da alteridade como degenerescência, em termos do que é construído pelo texto colonizador. Além disso, ele também ficou preso no impasse do gênero. Na concepção de Bhabha a propósito do Poder enquanto ele mesmo o efeito do Ocidente planetarizado, vemos a contradição a que o gênero ficou exposto na teoria, como objeto clivado entre o individual e o coletivo, a pluralidade e a unidade.
12 Ele inicia seu texto afirmando a singularidade da questão ocidentalista em relação à “diferenciação de classe e gênero”, de modo que afirma não dever a esta abordar diretamente. Mas a seguir informa que “o objeto” da sua “conferência de hoje é sugerir que a construção do sujeito colonial em discurso do poder colonial pelo discurso implica uma articulação de formas de diferença - racial e sexual”.
13 Reduz, com efeito, em seguida, o imperialismo a racismo, e este último ao fetichismo como um procedimento de figuração da diferença sexual inferiorizante do “outro”. Se o inferiorizado transcendental, pela lei da libido inconsciente à Freud, é o referencial da privação, a mulher “castrada”, só o homem possui pênis- como a criança tem que descobrir para se realizar sua fase “genital” - a cor branca figura uma posse de que o “outro” discriminado não goza.
14 Porém Bhabha não explica assim o imperialismo ocidentalista, não obstante estar se referindo a essa situação específica. E sim o que designa o racismo, que é muito mais generalizado, sem restringir-se ao fenômeno do Ocidente colonial. Seria ingenuidade definir o imperialismo pelo fato da diferenciação de cor. Além disso, ele utiliza-se de modo a-crítico da teoria psicanalítica, a fim de conceituar o fetichismo e sua figuração pelo eixo metafórico-metonímico da “diferenciação”. Isto é, como reza a psicanálise, pelo eixo dos recursos disponíveis à ambiguidade enganosa com que nosso inconsciente dribla qualquer evidência de que algo como diferença exista. Seja essa negação o status infantil, seja ela o status do propriamente não-consciente, desde a fase genital realizada como a clivagem da consciência que vem desde agora e por esse meio a existir.
15 Por aí, a seu ver, a ambiguidade característica do racismo, entre a utilização crescente do explorado e o veto dele a total degenerescência inútil (símio mas erótico, canibal e empregado cozinheiro, burro mas finório, feio mas exótico, etc.). A diferença (universal como limite inconsciente: castração, a vagina) dá angústia quando descoberta, mas dá prazer vermos sendo ocultada, isto é, circunscrita a lugar do prazer do pênis (logo, retorno à consciência). Aqui é importante observar que no inconsciente a diferença, assim como também a “Mulher”, não penetra, aí ela é apenas angústia caso suspeita. A não existência é a fronteira que mantem o inconsciente, o arcaico infantil, anterior à fase genital. E se o consciente vem a ser nessa fase, é porque a diferença foi traduzida pela referenciada circunscrição. A tendência irrefletida é sempre vermos uma oposição como uma hierarquia.
16 Bhabha não referencia as questões do gênero colonial como estavam sendo conotadas na América Latina, como na interessante abrangência de Otavio Paz, a qual voltaremos oportunamente.
17 Pode ser que Bhabha tenha apreendido algo a propósito do racismo, porém a questão imperialista-ocidentalista em si, e enquanto imbricada ao gênero, não foi tangenciado pelo seu viés. Sua tangência do fenômeno na efetividade, o “aparato” da colonização como regime de força e imperialismo apartheidista, começa por uma crítica ao pós-estruturalismo como pretensão de dar conta disso porém não sendo o caso. Na verdade Bhabha é crítico apenas de Derrida, utilizando-se de Foucault, associando-o a Franz Fanon. Mas assim Bhabha se mostra duplamente cegado pelo discurso ocidental, que, com exceção de Fanon, tanto é ínsito a Foucault como à psicanálise de que está se utilizando na caracterização do fetichismo.
18 Já vimos como Foucault é insuficiente como teórico do poder, suposto por ele “disciplinar” (brando) na modernidade, porém muito mais se mostraria assim como um teórico do poder que tivesse que ser aplicado à situação mesma da margem no imperialismo. Eis o que faz Bhabha, ao sugerir que essa é a diferença que traduz a mudança da situação do terceiro mundo colonial para a de dependência econômica no imperialismo. Mas seria absurdo a meu ver considerar branda a ditadura militar.
19 Quanto ao mérito mesmo do “fetichismo” como interpretação do racismo, vemos que é uma espécie de redundância. Na psicanálise o fetichismo é definido como fixação naquilo que foi visto imediatamente antes da criança constatar a singularidade vaginal do corpo da mãe (“castração”), assim é comum que o fetiche seja o sapato (ela olhou de baixo para cima). Algo ocorreu antes, de modo que a criança não faz a tradução da vagina como lugar do prazer do pênis, ficando na angústia mas retrocedendo à fase anal (quandoa acreditava na mãe fálica, com os bebês nascendo pelo ânus).
20 Seja como for que essa explicação psicanalítica do fetichismo pudesse se coadunar ao objetivo de Bhabha quanto à diferença de cor ser desde o inconsciente decodificada como carência, de Lacan até o pós-estruturalismo, toda e qualquer assimetria política que se observe numa sociedade – não só a de classe econômica no capitalismo, portanto – reflete a aporia interna ao inconsciente, da “castração” como a inferioridade feminina do “não ter”. Assim nem Bhabha sugere algo que não estivesse ultra-cogitado na teoria sócio-progressista, nem a explicação serve a um contexto definido como racial e/ou colonial. Ela serve a qualquer contexto ante-psicanalítico, ou por ser arcaico e a hierarquia do prestígio ser efetiva, ou por ser democrático de mentirinha, na verdade sobrando preconceitos hierárquicos por todos os lados, convenientes à índole afetiva (inconsciente) do homem.
21 Lembrando que a psicanálise emerge na época da Vanguarda funcional, que tratei ela mesma como uma espécie de fase fálica na progressão do atributo da “margem” como diferença pelo “centro” autoconceituando-se assim sujeito da história, nessa época com efeito a palavra que poderia resumir a “cultura”, que então usufruiu do sentido mais forte desse termo, era a “ação”. Tanto em Weber como em Freud, ou seja, por toda parte, a “ação” social diferenciava-se em dois tipos, a mitificada e a objetiva. Nosso inconsciente arcaico lidaria, pois, na concepção de Freud, forçosamente, com um mito do poder com que nos identificaríamos profundamente, porque nele a libido é o ativo, o polo atuante na ação, cuja natureza é primariamente impulsiva ou libidinal.
22 Objetivamente, na ciência e em nossa consciência madura, podemos compreender que o polo atuante depende ele mesmo daquilo sobre que ele atua. Porém mesmo assim nossa compreensão é freada pela tradição que vem dos tempos míticos anteriores.
23 O inconsciente, arcaico e mítico, puro “signo” sem relação, gozo instintual sem consequência intersubjetiva, não representa de forma alguma o instrumento passivo da ação. O que penetra é pois, como o masculino, mitificado como “poder”, o único “atuante”, etc. Não existe “mulher” no inconsciente. Podemos questionar como poderia a menina não ter consciência da singularidade do corpo feminino, porém na explicação psicanalítica de fato ela considera o clitóris o mesmo que o pênis, e a castração para ela decorre de sua constatação de que o pênis do menino é bem maior, por isso assim é designado “pênis”.
24 Enquanto o menino se envolve com seu complexo de Édipo (quer possuir a mãe em lugar do pai, tornando-se rival dele), a menina está às voltas com seu penisneid (inveja do pênis), sua decepção com a mãe é por ela a ter gerado uma menina, mesmo se a menina é também apaixonada pelo pai. Há possibilidades, ainda, do Édipo invertido, com a fixação erótica infantil no genitor do mesmo sexo, sem resultar necessariamente na homossexualidade. Na consciência, após a sublimação do complexo, resolvendo a criança a sua atribuição sexual como menino ou menina, nada disso transparece na consciência, ninguém seria capaz por introspecção, de relembrar o que se passou, independente da análise.
25 Como vimos, o inconsciente ou a criança (e o primitivo) não poderia representar aquilo em relação a que o “ato”, como o penetrar, resulta em “ação”, a relação sexual. Mas assim também, pelo mesmo mecanismo, não existe o escravo, o terceiro mundo, o subalterno, o “outro” da raça, etc., no discurso da legitimação do poder. Eles são, como a mulher, anulados na sua condição de “outros” autônomos, depois reintrojetados numa condição de outro derivado, inferior disponível por direito ao Sujeito. O que não existe no inconsciente é a mulher uma vez que nele não existe relação, apenas o signo puro.
26 O que vem sendo sempre mais investido na pós-modernidade é portanto a autoconsciência enquanto da relação – como vimos para a definição do gênero.
27 De fato isso poderia até retroagir a um questionamento do signo puro inconsciente, na medida que ele depende da concepção da formação de capacidades que iria conservar a divisão aristotélica da substância como o básico, a quididade ou essência, e das demais categorias de relação como secundárias. Mas de fato a observação dos bebês não o constata. O bebê progressivamente consegue fixar a resposta perceptiva de um objeto, mas construindo-a numa relação intrínseca com o lugar em que o vê – a princípio, se o retiram da frente, não acompanha com o olhar o lado para onde vai, mas volta-se para o lado em que estava. [ Nota 8 ]
28 Já o que seriam propriedades como qualidades de positivo ou negativo, na eletricidade, não é de fato discernível como mera contingência, dela mesma enquanto essência, visto que a eletricidade é a configuração atômica de protons positivos e elétrons negativos. O átomo mesmo, o “elemento” básico, é apenas a sua quantidade de protons, neutros e elétrons.
29 Se hoje consideramos um pensamento por relações como não meramente derivado, também podemos conceber que ele é questionante-questionado, ao invés de somente estruturante-estruturado como antes se dizia. Função de sua historiografia, seu intertexto e modos de construção, inversamente à determinação narrativizante de sua “História”. Heidegger abominava a historiografia, se ela pretendesse ser o fundamento histórico.
30 Mas a psicanálise foi construída na época da metodologia funcional, onde o signo puro – como significado mítico da ação – era a noção central. A adaptação do “imaginário” lacaniano ao signo pulsional freudiano tem papel relevante no transporte da psicanálise ao cenário após 1945. Sobre a inovação lacaniana relativamente à interpretação funcional, ver os Escritos, “À memória de Ernst Jones”. Porém hoje ela teria que colocar a textolinguística, cujas bases são os processos múltiplos de coesão microtextual e coerência macrotextual, assim deslocando o uno significante como base elementar, ali onde Lacan havia colocado Saussure como parâmetro do inconsciente-linguagem.
31 Seja como for, na psicanalítica assim como pôde ser imbricada à teoria política, Se a mulher arcaica pode ter sido investida de poder, é na qualidade de objeto do desejo, não de Sujeito. Ela é a mãe fálica, o objeto do desejo enquanto o que está no inconsciente, o indiferenciado, o único, o falo. É a “dama” do grande guerreiro, a “mãe” dos bravos da raça. Ela é a celebração da natureza mítica do Poder em si mesmo. O mehrlust (mais de gozar, não apenas a diferença, mas a hierarquia de prestígio) lacaniano tornou possível explicar desde a subjetividade a mehrwert (mais valia, não apenas a produção social mas o lucro de classe) marxista.
32 Por outro lado, essa generalização lacaniana, que deve muito a Levi-Strauss, para quem o que ocorre na cultura já não é “ação” mas a “troca” - de bens, palavras e mulheres - inspirou o althusserianismo da cultura, que consiste num novo tipo de concepção da Modernidade como evolução psicossocial. “Novo”, porém de fato enunciando-se como redescoberta do verdadeiro Marx do Capital.
33 Agora, a ideologia é todo modo de produção ante-capitalista, não como o que exibe uma falta do saber, como da ciência, e, primariamente, da Economia Política. Mas sim como o que tem um excesso de saber mítico, porquanto o próprio Saber seria aí veiculado por um mito de si enquanto o discurso do Poder. Um discurso não dialético, não apreensível do passivo, etc. Todas as sociedades seriam assimétricas, e quanto ao Ocidente, o capitalismo (ciência da Economia Política) permite concientizar-se de que é assim, porém ainda conserva a tradição que interdita o futurismo científico (determinista) realizar a Evolução total.
34 É interessante observar que em Ser e Tempo, Heidegger, na sua ambiguidade funcional típica, mantem uma relação dúbia com a “tradição” - ao mesmo tempo a totalidade da cultura como o “pre-” que precede a pre-sença (Dasein), e a ideologia. Como ideologia, podemos lê-la com efeito no início de Ser e Tempo, ali onde Heidegger observa que a tradição se apresenta a nós como cultura, mas ao mesmo tempo como o que não tem história.
35 Essa desistorização implícita aos valores enquanto vigentes, é o cegamento que permite a coisificação deles na metafísica e no positivismo, conforme a crítica existencial de Heidegger, porém é o correlato do seu caráter ativo, determinante. Não há signo que não seja “vigor imperante”, o imperativo, aquilo que é o correlato de um império.
36 Assim porém, não obstante a mesma base ocidentalista, decorre a oposição metodológica que se tornou exemplar, entre Lukács convergente com Heidegger, e o estruturalismo de Althusser. Repetindo o que já observamos, para Lukács, a ideologia é a coisificação dos sujeitos, que tornam-se equivalentes de mercadorias, mas ela só existe na cultura, que é a totalidade dos valores humanos em cada sociedade. É como a penetração do capitalismo na cultura, que precisa apenas ser depurada para tornar à pureza original da geração de valores humanos. Para Althusser, inversamente, ideologia é a subjetivação identitária das relações objetivas. Assim o que ele almeja é a destruição progressiva da cultura que abrange a própria ciência burguesa, pela cientificização ou conscientização do caráter objetivo das relações e solução dos problemas na ciência unificada (marxista).
d) O horizonte do desenvolvimento : a crítica (pós)-edipiana
1 O modernismo brasileiro pioneiro foi decorrente de muito do que Oswald e outros artistas, voltando de sua viagem de praxe à Europa, trouxeram da Vanguarda europeia então já algo adiantada. Porém o golpe de gênio de Mario de Andrade, contra a compactação generalizante do movimento local como “futurismo” é manifesto. Pois resultou na guinada nacionalista da pesquisa cultural dos artistas que assim se uniram num movimento organizado.
2 Mas a verdadeira criação surge do reprovado Oswald. Este que foi alvo da crítica de Mario, por ter sido quem havia saudado Mario como “poeta futurista”. A crítica de Mario parece indevida, pois de fato na época o epíteto designava localmente não o sentido estrito do movimento italiano, mas sim qualquer expressão de renovação estética, como o contrário de “passadismo”, a conservação dos parâmetros realistas e neoclássicos. Mas de fato assim a bandeira do grupo unido ficou em torno do nacionalismo. Oswald transcendeu porém as diretrizes do grupo, ampliando a problemática na teoria do inconsciente.
3 Não só o inconsciente poliândrico que ele tematiza vota-se a uma reconceituação do pré-genital, tendo sido Oswald crítico de Levi-Strauss; como, em relação ao que vem se praticando desde Marcuse e os pós-estruturalistas nesse mesmo sentido, exibe o seguinte fator. Enquanto “matriarcado”, o regime de filiação pelo nome da mãe, o inconsciente poliândrico teria seu limite na emergência do “patriarcado”, a filiação patrilinear, mas que se traduziria como trânsito da possibilidade antropofágica à escravista. Desse modo, vemos que o Inconsciente poliândrico explica a colonização, enquanto todos os que derivam de Freud como este mesmo, colocam o Inconsciente como o fato mesmo dela, o reflexo na história do progresso ao genital, que passa pela interiorização da lei do pai e sua unicidade objetiva.
4 Assim, para Freud a poliandria pré-patriarcal era um estado de impossibilidade da objetividade na mente, porque os sujeitos restavam presos na angústia da dúvida quanto a quem era seu pai. Em Lacan, o “matriarcado” foi primeiro conceituado como um regime onde o pai é fraco, assim o correlato são sociedades simples cuja cultura é estereotipada, não passível de progresso e complexidade. Depois, Lacan utilizou-se do quadrado das proposições classificadas por Aristóteles, como as que expressam, afirmando ou negando o sujeito, seja ele universal (“todo” x) ou particular (“algum”), para colocar que num matriarcado não seria possível atingir o universal. A mulher não é generalizável como é o Homem.
5 A questão para Oswald não foi ter suscitado um poder feminino, tal que a poliandria não seria suscetível de igual liberdade sexual dos homens ou que a mulher devesse ordenar. Ele pensou o inconsciente poliândrico em termos de ausência de “poder”, mas não de atribuição constante na cultura, generalização nesse sentido. O tio, irmão da mãe, é em geral o correlato do parentesco estável, entre os “pais” que a criança tem. O objeto é então, na mente, não o correlato do signo puro, ainda que na consciência. Não é pois a dicotomia que rege o discurso. Seria o objeto relacional, contextualizado, como numa concepção à Heráclito.
6 Luis Carlos de Morais Junior tematizou de certo modo a necessidade de apreender o conceito de objeto em Oswald, por ser de fato crítico do que designei o objeto dicotômico da epistemologia tradicional.
7 Na leitura de Luis Morais Jr, em Oswald a questão da transição para a crítica do poder envolve uma ampliação desse raciocínio. A religião e a moral do patriarcado aparecem como “representantes hipócritas desses poderes” da dominação ocidental, seu estofo não indo “além do político”, cujo programa se restringe a essas dominação e exploração. O matriarcado é identificado como o Fora, o impensado ou irrealizado do patriarcado, citando-se Blanchot , a propósito do artista como aquele para quem “só existe o lado de fora, o fluxo do eterno exterior”. Mas desde que o Fora se coloca pela ancoragem da arte ela mesma.
8 Luis propõe, para ancorar a problemática da exterioridade na obra de OA, o conceito de “Excência”. No fora estariam os traços diferenciais, essências não metafísicas, nem naturalistas. As “máquinas” de OA, nessa designação incluindo-se de modo aparentemente paradoxal entidades naturais como rios e platôs, denotam sem dúvida um intenso investimento da natureza, o que costuma ser associado às literaturas do exotismo tropical, como valorização colonialista estereotípica da paisagem. Porém, essa natureza de OA não impõe a forma, é o lugar das transformações.
9 As “águas do rio” e o “fogo eterno e vivente”, na exemplificação de Luis, estão ao mesmo tempo opostos e complementares, como imagens de um mesmo fluxo físico, material, o que nos induz a associar o uso dessas imagens em Heráclito.
10 Excência seria a “essência máquina”, e Luis conceitua a natureza, tema e tropo recorrente na obra de Oswald, “uma máquina artificializada” cujo correlato é a excência como as linhas de deriva e transformação expressiva das coisas.
11 Essa temática em Oswald, se torna contrapontual à tradição poética brasileira-ocidental, do barroco ao naturalismo stricto sensu. Seria assim, na colocação de O olho do cíclope, um “naturalismo lato sensu”.
12 O naturalismo tradicional pratica a linguagem da essência, que trata a natureza como lugar das formas fixas, a figuração de entidades naturais produzindo imagens da eternidade como atemporalidade do idêntico, em vez da eternidade como infinitude do devir. Ou então a natureza desdobra a identidade do homem, seus universais individualizantes. O que varia, até o modernismo, são formas estilísticas à serviço desse propósito metafísico. A arte mesma expõe mas não é o determinante. Só expressa o que pre-existe independente dela mesma.
13 O patriarcado necessita da dicotomia por ser o pólo do poder oriundo da escravidão, que assim diferencia sem relação intrínseca aos termos de um mesmo par. Poderíamos a meu ver reconstituir uma epistemologia em Oswald, uma vez que não há, a partir do matriarcado, um “centro” puro como o polo, mesmo que fosse dialético, da progressão histórica até a autoconsciência anti-escravista e democrática, pós-colonial, da atualidade. Em que a possibilidade escravista paralela à antropofagia já está num momento de síntese pela conscientização do que estava recalcado na ideologia (patriarcal-colonizadora-capitalista), isto é, a utopia (matriarcal-colonizada-comunista). Assim na ideologia católica, a adoração da mãe de Jesus é uma utopia remanescente do matriarcado, o mesmo nas heresias da era feudal, enquanto que na ideologia “calvinista” (protestante) moderna, onde não há adoração da Virgem, o patriarcado sutura o discurso lacerado, reunificando a oposição das inúmeras heresias ao poder eclesiástico numa nova religião.
14 A colonização e o progresso (repressão sexual) estão imbricados conceitualmente àquilo em relação a que eles são predicados como tais, a saber, o colonizado e o “ócio” (gozo sexual). Aqui vejo a epistemologia relacional de um pensamento da “margem” ilimitada, em que o “epicentro” de um processo também seria ele mesmo uma margem, em devir. Epistemologia relacional assim oposta à epistemologia dicotômica do “centro” unitário, ambas porém objetivas.
15 Essa equação de repressão sexual e trabalho, quanto a ela, é bem aproximável de Marcuse em Eros e Civilização, porém nele subsiste a dicotomia do corpo e da mente, como dos instintos pulsionais e da consciência “genital” da lei como repressão. A guerra do Vietnã e da descolonização em geral foi assim considerada por Marcuse como a revolta instintiva do corpo contra a possibilidade de alienação do gozo pelo desfrute da mercadoria imposta, o trabalho oriundo da repressão, gerando o que designo a bugigangosfera, em Marcuse designada a multidão de coisas sem sentido que são vendidas apenas para serem depreciadas a seguir, de modo a manter a dicotomia do pobre e do rico. Ou, no limite, se a ordem da produção se transforma no consumo de massa, a ostentação do status conforme estereótipos ilimitados de diferenciação do acesso. O alvo sendo a seu ver a repressão das possibilidades de espontaneidade do corpo, pela obrigatoriedade de consumismo da mercadoria tecnizada que mantem o corpo disciplinado a ordens extrínsicas, generalizadas.
16 O trabalho como equivalente da repressão é a organização social para a morte, guerra e destruição, aquilo que Freud racionalizou ao postular o instinto de morte. Isso, ao invés do que seria a ocupação desreprimida, inversamente ao dever ser da “labuta”, o produto do desejo erótico com a produção voltada a abolir o sofrimento e a destruição. Também Marcuse considera que essa autoconsciência pós-freudiana já é fruto de um estágio técnico em que o trabalho como latuta está sendo superado na prática, desnecessário na era da máquina. O caráter pós-freudiano da psicanálise exclusivamente do Eros, sem o instinto de morte que se reduz assim à fase ultrapassada da produção (capitalismo), é ressaltado como uma teoria que não acompanha o revisionismo da psicologia, como de Horney, Fromm e outros, a quem Marcuse critica por terem abstraído a base pulsional do desejo.
17 Marcuse conserva o que havia sido descoberto por Freud, mas já pensando coerentemente ao novo estágio social. Sem abrir mão de sua defesa dos instintos eróticos, realiza Marcuse boa incursão a propósito das ambiguidades e lacunas da teoria freudiana, visando mostrar que não bastava por si só, reproduzindo muito das contradições neuróticas da sociedade.
18 Porém o que pude haurir da positividade da sua categoria do “desreprimido”, conduz uma programática de estetização do social, com valorização do conceito de exibição pré-romântico schileriano, que não considera a realidade da dominação como, justamente, midiática, pela estetização, já que a consumação não atende a necessidades, mas distribui o aparato do poder pelo fascínio desviante do desejo. Aqui reconceituamos o capitalismo, à luz do que vimos nos livros precedentes, como o contrário exato da fórmula weberiana. Portanto, passional ilegista, em vez de racional-legal, intervencionista imperialista em vez de burocrático.
19 Em Oswald não poderia obviamente haver uma redução do enfrentamento do capitalismo na margem a algo como revolta instintiva, o pré-teórico mítico e incapaz de conceito. Porém o limite oswaldiano estava também na crença da possibilidade do capitalismo como revolução dos gerentes, isto é, no limite uma espécie de ócio, pelo trabalho reservado à máquina, e consumação igualitarista, de massas, ilimitado, o desreprimido poliândrico realizado na legalidade do divórcio, de modo que o mito do “don juan” já seria risível.
20 Como Hans Albert poderia caracterizar a meu ver, com seu “trilema de Munchhausen”, em que a postulação de um transcendental ora implica numa petição de princípio (aquilo que explica é o explicado), na interrupção do raciocínio pelo meio, ou na regressão ao infinito (“a” vem de “b” que vem de “c” que vem de “d” que vem de “e”, etc.), há aqui a interrupção do raciocínio oswaldiano pela metade. Pois o colonialismo, que era o efeito do patriarcado na história, é interrompido na subsequência do capitalismo, o patriarcado “calvinista” personificado, sem a continuidade entre ambos, ainda que seja ela o que num outro plano do discurso está sendo atacado nos termos do imperialismo, atraso latifundiário exportador, etc. Acrescentei por minha conta um quarto elemento ao trilema, em resposta à objeção de Apel a Albert, da contradição performativa (o trilema é ele mesmo transcendental): em todo caso seria preciso escolher - entre a sucessão de conceitos de transcendental propostos até hoje, a qual não parece nem mesmo ter-se estancado, pois contribuiu o próprio Apel com um novo (“comunidade de comunicação”) contra os anteriores, etc. - qual transcendental é transcendental. O que não parece formalmente possível, justamente no caso de cada um deles ser, como Apel afirmou, formalmente transcendental.
21 Pode-se considerar que até a forma radicalizada do imperialismo na Globalização, de fato era difícil esperarmos romper a fixação geoegológica do discurso ocidentalista. Nesse ínterim também aconteceu a relativização da ciência como sinônimo de bem estar e racionalidade, pela canalização capitalística da pesquisa, da qual decorre a negatividade da tecnologia como potência de hecatombe ambiental. Além da possibilidade do planeta ir pelos ares devido ao confronto nuclear na “guerra fria”, de fato estavam ocorrendo desde inícios dos anos setenta, os encontros internacionais para discutir a questão então descoberta, da inviabilidade planetária do crescimento industrial ilimitado devido à questão ecológica. Já vimos que na Globalização, o paroxismo capitalístico implica a psicose como negação da realidade, pelo incremento industrial em escala planetária, com domínio ilegalista do capital privado “multinacional”, os antigos carteis de procedência nazista, recolonização, etc. (ver os livros 1 e 2).
22 Contra a psicose como negação da realidade do fim do mito do “progresso” ocidentalista justificado por qualquer meio, os processos de autoconscientização que vem se organizando patenteiam o excentramento temático da cultura. Já não se trata do funil pelo qual teria que passar somente o que se coaduna com a “ocidentalização”, mas da compreensão dela como dominação cultural, meio do capitalismo.
5) o processo cultural brasileiro
a) As Ideias e a Independência
1 Em meu estudo “pensamento brasileiro” tematizei o processo cultural local até o presente. Retirei-o da Internet como ato de protesto contra a horrível traição que sofremos após o impeachment (2016), pela operação contra os salários, por trás da qual, que multinacionais, igrejas, partidos, etc., estão, continua por se revelar. Seja como for, o que configura óbvia ditadura, não só como roubo de bens por classes da rapina, mas como sempre, congeminado à operação contra a produção intelectual brasileira e avassalamento da independência do país, para psicótica propaganda pervasiva de que está se tratando na globalização da inteligência pura afinal atuante na realização de toda história humana, o capitalismo em ato, etc. Quanto mais a privacidade dos cidadãos é avassalada de modos vis, cínicos, contínuos, quanto mais a violência impera, quanto mais a resposta para qualquer pergunta é uma foto de adolescente exibindo-se prostituída porém como se a visão do dever ser em si, quanto mais a economia está depredada ao nível de caos pelo monopólio da captação da moeda à compra de digitais importados caríssimos, mais se eleva o “haker” a modelo de inteligência, quem “sabe” computador é contratado como professor de escolas de qualquer matéria – como se soubesse tudo o mais – enquanto os professores com mestrado e doutorado ficam à cata de emprego, etc.
2 O escravismo recolonizador conspícuo, cujas investidas para fazer lavagem cerebral inferiorizante da inteligência e da pessoa são notáveis pela nojenta persistência. Até agora o “décimo terceiro” de 2016 não foi pago e estamos esperando o salário de setembro, este registro sendo feito em 7 de novembro de 2017. É algo óbvio que a Cia do Brasil não deve estar descontente com o rumo dos fatos.
3 O “pensamento brasileiro” é parte integrante do meu “Conceito e Expressão, dois séculos de pensamento e arte”, de 2009, em que ocorreu minha criação da “geoegologia”. Agora mesmo, enquanto elaboro esse trecho, o estudo está sendo alvo de sabotagem dos bandidos que intrusam este computador, pois não se permite ser copiado do pen drive em word, inutilizando-se as cópias, sem vergonhice a mais no meio de tantos descalabros como os que já reportei – ver livro 2 nota 37. Não sei se estão alterando o texto do pen drive (na verdade, constatei entaõ que fiz bem em retirar o texto da internet, por que estava substancialmente alterado). Estamos à espera de terrorismo que desfaça hackerismo assim como qualquer tipo de intrusão, já que as autoridades constituídas não o reprimem, e, pelo contrário, a cada vez que se consulta o “search” da internet, se constatam artigos de “autoridades” elogiando o hakerismo, sempre mais respeitosos da desfaçatez do personal computer, etc. Além de qualquer assunto estar cada vez pior informado pelo teor dos artigos selecionados para as dez primeiras páginas – geralmente o primeiro artigo é o pior de todos de tão cinicamente desinformante. Repetindo, as escolas estão sendo invadidas por hakers empregados como professores, cujo material didático é o search na internet.
4 Pior ainda, com os computadores intrusados, funcionando se e como o bandido deixar, mas exclusivamente para os interesses dele, amanhã só quem poderá escrever são os simulacros do sistema com suficiente ignorância para ser exibido na mídia – e dizer-se que o bandido intrusado era um caçador de talentos, um benfeitor dos pobres. Pelo sim pelo não, também há os que em meio às sabotagens, paranoia e brutalidade de todo tipo, podem escrever anonimamente, apenas para servirem como fontes de ideias aos plagiadores midiáticos, cuja produção de imagem é a zombaria propagandística assassina contra nomes, costumes e tudo o que é visto ilegalmente pelo panóptico, dessas fontes. Quem, senão viciados ao ponto do estupor, ou acólitos pagos para tanto, iriam considerar sequer coerente à legalidade a “invenção” de Bil Gates?
5 A propósito, “Imperialismo” não é sinônimo do “neocolonialismo” dos inícios do século XX, ao contrário do que diz o “search” da internet. Imperialismo sendo prática atual como de qualquer meios de obter dependência econômica de alguns países utilizados por outros, ou seja, “Imperialismo” é paroxístico na fórmula da “Globalização”, que inova apenas quanto ao alcance da dependência, sobre as formas pretéritas que estudamos até aqui desde o “colonialismo” do quinhentos.
6 Estou referenciando o meu “Pensamento Brasileiro”, como estudo elaborado como uma crítica intertextual, ou seja, dentro do parâmetro que acima delineei coerente ao excentramento pós-moderno. A dominação cultural que sabota desde a colonização toda produção cultural local, começando pela destruição das línguas e religiões aborígines pelos jesuítas, além do genocídio perpetrado pela ganância colonizadora, é expressa nas fontes que porém são as que temos para efeitos de “história das ideias”, como Antonio Paim, Cruz Costa e outros. Assim ao mesmo tempo em que neles podemos coletar as espécimes do nosso cultivo, as referências dos autores históricos, também podemos obter o corpus discursivo do recalcamento da expressão cultural local, analisando a construção de suas depreciações sistemáticas, que se acumulam de período a período, como nível de enunciação estruturado entre as fontes. O discurso construído nas fontes da memória nacional é a prática da revisão constante das prévias construções – ou tentativas de construir – algum auto-conceito da nacionalidade em trânsito na produção intelectual recalcada.
7 A origem do termo “zoilo” com o significado de crítico tendenciosamente dirigido contra a pessoa – isto é, não “crítico” de fato, mas propagandista negativo, com um objetivo ulterior à simples análise inversamente ao que apregoa – vem de um epônimo grego, que Aristóteles teria referenciado na Retórica. Assim pretensamente ensinando esta como rechaçar tal tipo de ataque tendencioso. Ora, o zoilismo e a redução da pessoa à instituição sendo a regra na construção do discurso sócio-apartheidista do colonialismo imperialista local, eis o expresso por exemplo no modo como Cruz Costa chama aos pensadores brasileiros "filosofantes", isto é, meros tecedores de comentários das doutrinas estrangeiras, em vez de filósofos. [ Nota 9 ] Todo o discurso construtivo de história das ideias brasileiras, porém, tem no zoilismo anti-patriótico a regra de construção. Na primeira história da literatura, de José Veríssimo, a mesma coisa é nítida, porém ainda mais acentuada. A concomitância de Veríssimo a um momento de afirmação da nacionalidade pelo republicanismo positivista aguerrido, não tem nada de contraditório. O positivismo, como nas histórias de Silvio Romero e Capistrano de Abreu, atuou em total contrariedade ao nacionalismo romântico, e, assim, ainda que fosse o antípoda da mentalidade imperial portuguesa, repetiu no final do século XIX o que ela fazia no início, o zoilismo português contra a cultura local.
9 A exaltação de sentimentos, que teve lugar entre as elites colonialistas na época das tentativas de independência por movimentos de libertação genuinamente nacionais, foi o suporte da usurpação do processo da independência pela continuidade genealógica com a Metrópole - mais uma vez não há contradição nisso, sem que se mostre o nexo da consequência. Uma vez que para essa elite o principal era evitar aquilo que não podia suportar ver, ou seja, a ação ajustada e perfeitamente coerente dos elementos mestiços, de extratos populares, ou nacionais com pensamento autônomo, que conduziam paralelamente as ações autenticamente libertárias.
9 Estes extratos populares são o alvo do apartheid social conforme a ideologia que desde a condenação jesuítica às culturas aborígines, se potencializou pelo ódio à miscigenação. Formou-se o estereótipo do mestiço preguiçoso, mentalmente incapaz porém astucioso, de malícia abusiva, invejoso, etc., cujo status de colonizado era pois, merecido e lógico.
10 E, uma vez o reinado tendo se efetivado, seria natural esperar que as elites colonialistas abandonassem os laivos de radicalismo e se aproximassem dos representantes luso-brasileiros do governo, opção que não parece ter sido facultada a alguém como José de Alencar, o maior dos românticos literatos, cujo horizonte de expectativas de expressão social parece superar esse limite, enquanto que, paralelamente, ele jamais poderia se aproximar da realidade dos extratos verdadeiramente populares. As críticas ao seu uso linguístico parecem ter sido procedentes principalmente de escritores que Alfredo Bosi trata como os "zoilos portugueses", Pinheiro Chagas, Antonio Leal e Antonio de Castillo (Ver Bosi, “História Concisa da Literatura Brasileira, São Paulo, Cultrix, 1987. p.149). Alencar é conduzido, por aí, a teorizar uma linguagem nacional. Mas o problema da ruptura com o padrão português em prol da efetividade da fala brasileira retorna no início do século XX.
11 No período que antecede a eclosão do modernismo, Rui Barbosa será representante da opção do purismo, do cultivo clássico da língua que não poderia deixar de manter o referencial português - a questão é portanto polêmica, devida à evolução do quadro interno das nações independentes na América-Latina.
12 Mário de Andrade, ao propor uma Gramática do Brasileiro, já se filia ao caudal de intervenções no sentido do resgate da especificidade da linguagem nacional. Mas assim já transpondo os períodos positivista, simbolista e pré-modernista, em plena vanguarda nacional. Nesse interregno, porém, a crítica dos positivistas voltou-se aos românticos não tanto por questões literárias, e mais pelo viés da conexão do romantismo com um primeiro projeto de nacionalidade, que na subsequência de Alencar ao momento condoreiro de Castro Alves, envolveu movimentos ativistas e correntes de ideias anti-imperiais e anti-imperialistas. O que os positivistas criticavam era a índole heterogênea desse projeto de nacionalidade, uma vez que, como vimos, o positivismo era sócio-apartheidista por premissas na época científicas do racismo.
13 Assim o estereótipo positivista, crítico do romantismo nacional, foi construído por extensão do juízo negativo ao miscigenado e primitivo – sensual, vadio, preguiçoso, irracional. Na terminologia utilizada desde Veríssimo, tratou-se todo laivo de heterogeneidade na literatura, esta que nunca era atribuída como prática senão à elite colonizada, de “mestiçagem moral”.
14 Como já assinalei, o marxismo dos imigrantes pioneiros repetiu o estereótipo segregando o miscigenado como não potencialmente proletariado racional. Inclusive utilizando a terminologia da “mestiçagem moral”. Com a naturalização concedida a todos os imigrantes europeus e a política racial de atração de imigração europeia, logo organizou-se a faculdade de filosofia em São Paulo, regida por professores europeus e cuja relação com os produtores de ideias nacionais era de concertado escárnio. Vem daí as histórias das ideias mais sistematizadas, pós-positivistas, como de Cruz Costa e Antonio Paim, porém apenas para construção do estereótipo.
15 As contradições sintomáticas na tangência do estereotipado só podem revelar, quanto a ele, as entrelinhas do que uma história palimpsesto não preconceituosa precisaria reconstituir. Quanto à análise do sintoma, um exemplo que poderia ser reproduzido do meu “pensamento brasileiro”, por ser gritante, é o tratamento de Paim a Frei Caneca.
16 A repressão à Confederação do Equador, que condenou frei Caneca à pena capital, foi feita às custas do empréstimo feito por Pedro I, de um milhão de libras, aos ingleses – muito interessados como estavam esses no desfecho elitista da situação na América Latina, único modo de tornar realizável o programa de Adam Smith, e bem inversamente a deixar agir qualquer mão invisível no que se relaciona às margens.
17 Ao examinar a teorização de Frei Caneca, Paim supõe, da consideração pela qual escrevia Caneca nas Cartas de Pítia a Damião que "não se deve deduzir que Deus haja determinado que se faça esta ou aquela sociedade debaixo desta ou daquela forma de governo, tirando dos povos e nações a escolha do seu governo e o poder de que são investidos os governantes e a faculdade de mudarem quando julgarem de razão para seu melhoramento e feliz existência", o seguinte: "dessa forma, persiste a ingerência da divindade - e, por essa via, dos que se proclamam seus representantes - no poder temporal, precisamente o que o pensamento moderno desejava evitar". citar
18 Parece-me não ser absolutamente esse o caso, mas, sim, que Caneca retoma um argumento usualmente manejado no registro de Locke enquanto carta do liberalismo, pelo que viver em sociedade é o que Deus prescreveu à natureza dos homens, mas não predeterminando as formas pelo que isso se viabiliza, o que compete a estes deliberarem conforme sua conveniência - que, inclusive, varia conforme o tempo e o lugar.
19 A assimilação do liberalismo por Frei Caneca assim citada ipse literis por Paim ao mesmo tempo que – sintomaticamente – negada, contrasta nitidamente com o que é registrado a propósito do ambiente português de recepção do liberalismo.
20 Retardado por uma segunda escolástica, onde a depreciação do homem “vil bicho da terra” ia de par com a brutalidade censória contra os direitos de expressão subjetiva, o liberalismo afinal penetra em Portugal. Introduz-se o liberalismo de Locke no pensamento português, tema cujo fator importante é o tópico da representação. É assim, mais do que nos acontecimentos ligados ao governo esclarecido de Pombal, que se encontra a penetração da modernidade em Portugal com Silvestre Ferreira, e somente na transição ao século XIX.
21 Acede-se afinal ao estudo de Locke e a questão da renovação política deixa de ser pedagógica e econômica para abranger a natureza das instituições. Verney, o famoso reformador iluminista, taxava de "ímpias" ou "nocivas" as ideias de Maquiavel, Spinoza e Locke. Utilizou as ideias deste último na sua reforma, porém sem citar-lhe o nome, além do correlato da condenação. À época de Pombal, ministro à serviço do absolutismo, o Ensaio sobre o entendimento humano, no original ou traduzido, estava proibido pela censura no território português, como notou Paim.
22 Porém, por incrível que pareça, ele não considera que essas foram condições totalmente negativas. A seu ver, ( p.19) se “a teologia protestante, ao resolver o famoso problema teocidéico e indicar com clareza qual a missão do homem no mundo, situava em seu lugar próprio uma inquirição de caráter político, como a de Locke, prescindindo da retomada de quaisquer laços com o humanismo renascentistas”, já “as circunstâncias da cultura luso-brasileira eram entretanto completamente diversas. Exigiam, segundo as evidências de seu curso real, a análise do problema metafísico da liberdade, sem o que o liberalismo assumia ares de gratuidade”.
23 Não considera Paim que a ruptura com o Renascimento foi feita sem laço necessário à “teologia protestante”, pois inicia-se no classicismo cartesiano. E que o liberalismo de Locke é construído discursivamente não por apelo a qualquer ideia religiosas. Mas justamente pela substituição do intertexto de senso comum ou metafísici europeus, pelo considerado científico, isto é, de informação empírica, assim sendo ele a literatura dos viajantes que estariam reportando sobre o estado natural e primitivo da humanidade nas Américas aborígines, por mais que repugnasse às ideias míticas do paraíso edênico.
24 O fundamento metafísico não foi simplesmente descurado, mas desconstruído, na medida em que a análise propriamente gnoseológica de Locke era empirista enquanto se considerava capaz de reduzir qualquer ideia admitida como universal à experiência. Além disso, Paim reporta a trajetória do liberalismo português num ascenço depurativo que iria, do início deturpado de Verney, à declarada substituição de Aristóteles por Locke através da assimilação de Antonio Genovesi, conhecido no Brasil como Guenuense. Nesse interim, criação da Faculdade de Filosofia em Coimbra (1772) e assimilação da física de Newton. A seguir, floresce a obra de Silvesre Pinheiro Ferreira, que começando seu ensino filosófico na seguda metade do setescentos, em Portugal, vem com a família real ao Brasil, completando aqui o percurso de ideias.
25 Ferreira ministra o primeiro curso de filosofia entre nós. Mas como empirista, que continuaria a trajetória consolidando-a, de fato é apresentado por Paim tendo interpretado Locke em termos de um aristotélico consequente. Assim, “a filosofia empirista, que lograra conquistar um lugar ao sol, na Universidade Portuguesa, às custas da abdicação de quaisquer vínculo com seu grande artífice, chegando até a omissão de seu nome, em suas mãos passa a integrar o que de mais sólido havia na cultura tradicional, isto é, o aristotelismo”. (p. 26).
26 Para assegurar coerência, uma vez que resume todo o romantismo brasileiro ao ecletismo, mas Silvestre Pinheiro Ferreira como o iniciador das ideias nacionais – e de modo que sendo incontornável lembrar que havia mais do que ecletismo, referencia apenas um rol de “opções recusadas” - considera "a distância" que vai de "uma interpretação empirista de Aristóteles" para Cousin, como "bem menor do que parece".
27 Vimos que algo bem menos forçado é considerar que uma assimilação não deturpada do liberalismo estava em trânsito no Brasil, como demonstra Frei Caneca, cujo nacionalismo não se limitava a tributário das lições do paço imperial – bem inversamente. Já a interlocução com o romantismo não teve necessidade da mediação portuguesa, lembrando que a obra canonicamente pioneira, de Domingos Gonçalvez de Magalhaes, tanto a poética como a filosófica, foram lançadas concomitantemente em Paris e Brasil (1836) .
28 Para um reforço da tese da conversão de Silvestre Ferreira ao ecletismo, Paim invoca o contato pessoal dele com Cousin, em Paris, e a influência do intelectual português na composição do Compêndio de Filosofia de Francisco de Montalverne, publicado aqui para logo tornar-se um referencial na propagação das ideias filosóficas no país.
29 Cruz Crosta não assinala qualquer dívida de Montalverne para com predecessores, preferindo acentuar o seu papel na transição da mentalidade colonial para a imperial.
30 Sem dúvida, porém, a importância de Ferreira na formação intelectual local é expressiva, especialmente sendo pensador na área do Direito, e destacando-se pela influência filosófica leiga nas elites letradas, mescladas então da corte portuguesa vinda pela estratégia dos ingleses contra Napoleão. A Ilustração já estava bem introduzida ulteriormente ao barroco, ambos expressões de projetos separatistas ou de crítica dos costumes coloniais, expressos em obras definidas e bem estudadas do cânon local, entre Gregório de Matos e os árcades “inconfidentes”. Porém nesse novo ambiente mesclado, que precede e explica a independência à lusa, o desenvolvimento de instituições e mudanças sociais profundas tiveram lugar.
31 Paim destaca na introdução ao romantismo brasileiro, a renovação do tomismo, tendo como representantes José Soriano de Sousa, professor de filosofia no Recife, e o Bispo do Pará, José Afonso Torres, que também publica um Compêndio de Filosofia, se bem que não muito ortodoxo e apresentando algo das contaminações espiritualistas do século. Paim o posiciona como testemunha involuntária da importância do ecletismo, uma vez que pretendeu na publicação de 1852, sua "doutrina pura e expurgada dos princípios do sistema eclético de que se acham iscados todos os compêndios de filosofia racional, admitidos hoje na maior parte das escolas públicas".
32 Costa demonstra, inversamente, um certo influxo que chama materialista e que tem a ver na realidade com a pesquisa médica. Guedes Cabral (Funções do Cérebro) é autor proeminente, quanto a isso, sendo o Visconde do Rio Grande, José Araújo Ribeiro, também representativo.
33 Nessa estipulação do fundamento da nacionalidade, a interpretação de Cabanis por Eduardo França - que estudou em Paris - é francamente hostil ao elemento interiorano que nem pode ser idealizado, como o índio justamente devido ao pathos da distância que o fosso pedagógico da reforma de Pombal, extirpando a catequese, havia deixado em relação a esse elemento branco; nem pode ser reduzido ao que aquela idealização formula, o ideal do homem europeu, do colonizador metropolitano "civilizado". Esse homem de regiões pantanosas que é de caráter apático e indolente, é ignorante e supersticioso, tanto quanto indiferente e brutal, etc. - pode-se ver o bastante dessa caracterização no tão conhecido Facundo, do importante argentino Sarmiento.
34 Porém não parece sonhar França, considerando o interiorano brasileiro, com a possibilidade que a obra de Sarmiento destinava-se a conjurar, dos Facundos de governo pela revolução ou pela demagogia. Também não chega a enaltecer as qualidades animais do interiorano, suas prerrogativas tradicionais como a habilidade incrível do seguidor de pistas na imensa região dos Pampas. Uma vez que a intenção de Sarmiento é a de ser o heroi europeizante civilizador, explica-se essa meticulosidade já por um trato sociológico do referencial, posterior ao momento de introdução do romantismo na América do Sul.
35 A postulação de França parece um tanto ambígua, porém. Preconizando ele o determinismo do ambiente e da alimentação sobre o caráter humano, seria sua dedução que a inserção no ambiente pantanoso torna-se fator incontornável dessa índole, ou que uma reforma alimentar poderia mudar constituições e congregar o elemento bárbaro? Qualquer que tenha sido o grau em que seu otimismo médico tenha estipulado o poder do alimento sobre o organismo e da capacidade humana sobre a salubridade ambiental, no que tange à ambientação desse homem interiorano, ao ingressar no Partido Liberal e aí alcançar uma posição de destaque, Eduardo França muda a tônica determinista, marcada pela influência dos ideólogos Aufklaerung. Ele se aproxima das intuições de Maine de Biran, interpondo o problema do sujeito e a temática da liberdade na reflexão sobre os direitos do homem e seu papel na Constituição.
36 O estudo intitulado Investigações de Psicologia de Eduardo Ferreira França demonstra cabalmente como o espiritualismo, aqui, foi tratado como resultado do aprofundamento da perspectiva naturalista-cientificista. Assim, os aspectos em que se mostra numa autêntica ruptura para com este, em sua acepção iluminista, são relacionados com o novo estatuto da pessoa humana, em vez de implementar-se na vertente da interpretação histórica.
37 Por essa via, tanto mais oportuna a um médico e fisiologista como o autor baiano, aquilo que Biran havia tomado como um simples dado, na observação de Paim, a captação do corpo próprio no seu caráter de resistência material à vontade, agora exige-se ser estabelecido na possibilidade de seu acesso, tanto quanto a natureza artificial, no sentido de conceitualmente construída, das faculdades, deve conduzir a um aprofundamento da sua relação com os dados de conhecimento fisiológico.
38 Quanto à formação da apreensão do corpo próprio, a crítica de Silvio Romero a Ferreira França parece bem injusta, pois hoje sabemos que o estudo das condições proprioceptivas e enteroceptivas é um dos requisitos fundamentais da psicologia, como da fisiologia. Ainda numa referência em que esse estudo não estava franqueado como o temos hoje, França formulou avant la lettre o conceito de locabilidade como objeto da investigação, nesse sentido: como apreendemos o corpo como nosso, como localizamos pontos definidos em nosso corpo? Hoje sabemos que a pele é constituída de corpúsculos que funcionam como receptores da localização, mas na época de França podemos aquilatar pelos motejos de Romero que nem mesmo se conhecia a colocação do problema.
39 O conceito de França define a hipótese de uma localização interna dessa apreensão que é vaga e indeterminada , "instintiva e primitiva", na sua independência da localização externa das sensações, mas que lhe serve de suporte e sem a qual esta não seria possível. É então que se pode explicar, pela interveniência dessa dependência e dessa dualidade contudo, estritamente psicofísica, a eficiência da vontade ao exercer-se como ato concatenado, ao mesmo tempo, sobre o corpo e sobre o mundo, assim como descrito por Biran. Lembrando que este inicia a psicologia do Eu pela teoria do esforço, segundo a qual o autoconceito é fato primitivo num sentido porém universal, dado que deduziríammos a nossa egoidade ao confrontar o sentimento de esforço que sobrevem na utilização do músculo sobre a matéria, que assim se torna deduzida como objeto externo a nós.
40 Piaget comenta a crítica atual a Biran, uma vez que, como se desdobriu, não há sensação de “inervação”, porém creio que o importante em Biran conserva-se como o equacionamento do organismo e do psiquismo como dois aspectos ao mesmo tempo independentes mas em certo nível interligados, assim como a proeminência da egoidade enquanto particular, em fenômenos psicológicos. A ultrapassagem do classicismo é nítida. Pois, de que adianta a vontade estoica, se a pessoa tiver seus sucos gástricos muito excitados? A relação de corpo e mente, conforme Biran segundo Bréhier já não deve ser como em Descartes, a do relógio com seu mostrador.
41 Se bem que o sentido da dependência de externo e interno, pelo que sabemos hoje da fisiologia proprioceptiva, não seja simples assim como França postulou, como apenas dependência do externo ao interno, e haja mais um interdependência entre ambos, é bem o caso de uma duplicidade na origem da “sensação” o que se mantém importante observar. Ela parece homóloga ao que encontramos na linguística de Benveniste, a dupulicidade entre o enunciado (o expressado) e a enunciação (ato de expressão do eu).
42 Costa ironiza alguns aspectos do aprofundamento conceitual de Eduardo França. Ele multiplica as faculdades do espírito humano, chegando a descrever 12, entre as quais as que Costa registra como as faculdades “do futuro” e “da fé” - e que lhe pareceram as mais extravagantes. França descreve também instintos, como a “habitatividade”, e a “aquisitividade” dos frenologistas no tocante ao "instinto de secretividade".
43 Contudo, essa ironia de Costa pareceria menos óbvia na sua aparente atualidade, na verdade um julgamento a-histórico como não se pratica hoje, não só devido a que a frenologia não destoava do conjunto de orientações geralmente observadas na época de França, como também por ser a influência de Jouffroy, que Costa não ironizaria do mesmo modo, o que induz França à ênfase na tipologia e ordem de encadeamento de faculdades.
44 Conforme Romney-Mayer (Manual de sociologia) seria somente após a publicação de An introduction in social psychology, de W. McDougal, que a interpretação de todo comportamento em termos de instintos pressupostos ad hoc,como o belicoso, o religioso, da liderança, etc., torna-se uma tendência em psicologia social, ainda que hoje já não se o pratica. Podemos notar como em Eduardo França isso já havia sido proposto. Quanto à reformulação da teoria da trieb, por vezes traduzido por instinto mas geralmente por pulsão, central à psicologia e psicanálise desde Freud, vemos que já se faz sem tal projeção fantasiosa de unidades do senso comum.
45 Na realidade o problema é demasiado complexo, pois a postulação do instinto depende do seu contexto - antes ou depois da revolução genética, de modo que avaliar a conceituação num contexto teórico preciso depende dessa inserção. À época de França, especialmente na referência espiritualista e eclética, sua observância como tema significa incursão naquilo que se considerava o aspecto "científico" do humano, isto é, fisiológico, em contraposição ao filosófico, onde se localizava o que hoje se compreendem como os conteúdos referentes ao social e cultural para serem reservados à sociologia e antropologia.
46 Como explícito em Jouffroy, tratava-se de supor uma psicologia científica, portanto não filosófica e sim com mesmos método e certeza das ciências físicas, mas que ampliava a fisiologia para abarcar os dados do comportamento humano e as realizações “superiores”do espírito.
47 Essa problemática que converge o pensamento político, subjetividade e liberdade, como tônica do pensamento brasileiro na época romântica com predominância do liberalismo, porém, logo ganhará o contorno nítido de uma filosofia eclética tendo em Gonçalvez de Magalhães um dos maiores representantes. Aqui a reflexão está voltada ao problema - não inicialmente tendo um caráter tético - da relação entre verdade e opinião, de modo que já alcançando o momento da mudança do objeto na efetividade do evolucionismo e da ciência empírica autônoma, o pensamento encontra a opacidade da representação pela impossibilidade de estabelecer diretamente um nexo entre representante e representados, o que só se garantiria pela concepção de uma sociedade unívoca - que antes não estava sequer em questão.
48 Em todo caso, Costa parece também reservar uma certa preminência ao ecletismo, ainda que não de um modo tão marcado como Paim. Já Alfredo Bosi, ao tratar "a consciência histórica e crítica" do Romantismo, considera que o referencial dessa época é o problema da nacionalidade, e em torno deste vários posicionamentos são articulados. Assim, a rubrica "nacionalidade" não atua na sua exposição como um índice da unidade do pensamento no país, mas como um sintoma da multiplicidade de opções que a homonímia poderia recobrir.
49 Não há assim, a seu ver, "uma linha simples" na evolução da expressão de ideias no país fragmentado pela sua estrutura "em arquipélago" que demarca as desigualdades regionais. Nesse tratamento, que procura recuperar a matriz de grupos por regiões que expressam localmente a especificidade de seus interesses sociais e intelectuais, o ecletismo parece mais típico do "grupo fluminense". Este torna-se geralmente referencial do Romantismo e da historiografia, tendo por "padroeiro" Monte Alverne, e sendo integrado por Magalhães, Varnhagen, Porto Alegre. Ou seja, aqui a influência maior é a cultura francesa. Não obstante a proximidade do imperador e a proteção a Magalhães que ele sempre cultivou, o romanticismo não foi a opção dele, que como cultivador das letras e filosofia era voltairiano e cético, assim como geralmente os integrantes de sua corte.
50 A questão da nacionalidade nesse grupo, no tratamento de Bosi, parece apenas prolongar a posição de José de Alencar. Sintomático da precariedade intelectual dessa posição, que não atinge por outro lado a sua penetração como hegemonia de classe, é a polêmica de Santiago Nunes contra os portugueses que pretendiam negar a literatura brasileira devido à continuidade linguística lusa - ao que argumentou demonstrando a especificidade dos referenciais que dependeriam, como critério de sua fonte, da identificação do povo, sendo sua índole, caráter e "inteligência social" o que a literatura expressa, não a língua na qual se veicula. Ou seja, como vimos, essa versão, pondo-se numa oposição ao luso, apela para o povo do país, mas o limita numa continuidade com os padrões culturais que apenas estendem os referenciais internacionais de uma classe que modela suas intenções.
51 Na classificação de Alfredo Bosi, o "grupo paulista" que reuniu José da Rocha, Salomé Queiroga, Francisco Ribeiro, entre outros, parece mais influenciado por Garret, que se considera habitualmente o renovador das letras em Portugal e cuja obra é algo enciclopédica, conforme Carpeaux, comportando extrações de vários matizes, mas geralmente suavizando pela expressão as inflexões mais marcadas de byronismo, medievalismo e sentimentalismo. Bosi destaca-o como autor de teses americanistas ao lado de Denis. O "grupo maranhense" de Odorico Mendes e Francisco Lisboa, assim como o "grupo pernambucano" de Abreu e Lima e Pedro de Figueiredo, tipificam opções de tratamento da nacionalidade menos assimiladas ao protótipo de classe internacional.
52 No Maranhão conservam-se os padrões ilustrados e o tratamento clássico da linguagem, mas observa-se uma opção mais liberada. O destaque é para a verve maliciosa de João Francisco, que iguala Cangambás, Morossocas, Jaburus, Bacuraus, que seriam os partidos maranhenses, todos numa mesma opção a favor do governo central que lhes garante as prerrogativas de classe. No Jornal de Timon, critica "a corrupção do sistema eleitoral, manejado pelos senhores de terra e por bacharéis ignorantes", conforme Bosi. Escusado lembrar que que ao longo do segundo reinado o predomínio da aristocracia rural implicava "a manutenção da estrutura escravista e a alienação das massas populares do processo político". A repressão à Confederação do Equador conforme o regime instituído de Pedro I, foi o típico modus opeerandi do regime de Pedro II.
53 Um estudo da contestação liberal dos portugueses oitoscentistas ao rigorismo de Verney poderia lançar luzes à questão da formação das ideias de frei Caneca. Como vimos, não há referências oportunas a propósito de qualquer tendência à esquerda na cobertura de Paim ou Costa. Porém Saraiva e Lopes na “História da literatura portuguesa” (p. 565) mostram um ambiente algo multifacetado, sublinhando que, se as Luzes em Portugal foram praticamente subvencionadas por d.João V, a liberdade de opinião é constatável. Não obstante o meio os tratar como “estrangeirados”, essa liberdade ousada é patente sobretudo na obra dos irmãos Gusmão e de Don Luis Cunha, que, mesmo protegido do rei, critica o regime absolutista, o privilégio da nobreza, a instituição inquisitorial, a casuística jesuítica e o tratado de Methuem – pelo qual de fato até hoje se culpa a estagnação econômica do país.
54 Por esse tratado, Portugal tinha sua exportação de vinhos garantida exportada à Inglaterra, que porém se tornava monopolista exportadora de manufaturados ao país, causando logo imensa defasagem da balança comercial. Contudo há quem conteste essa ilação, visto que se Portugal se obrigava a não desenvolver economia além da agricultura, também a Inglaterra não ficava livre para comprar a melhor preço com outros fornecedores. A causa também não é univocamente atribuída ao catolicismo avesso à “usura” - pois de fato demonstrou-se que a igreja se ajustou aos novos tempos e canonizou práticas mercantis.
55 O problema da emergência do capitalismo em países protestantes é mais complicado que parece, porém creio ser incontestável que a repressão à ciência e não apenas a cultos religiosos não ortodoxos deve ter sido um fator essencial, conforme a opinião de Talcott Parsons em “A estrutura da ação social” ( Petrópoli RJ, Vozes, 2010, V. 2,p., p. 669), referenciando o estudo de Merton intitulado “Science, Technology and Society in Seventeenth Century” (quanto ao estudo pioneiro de Weber, “ A ética protestante e o espírito do capitalismo”, consta em Os Pensadores, volume “Weber”). Já vimos porém a cobertura de Dobb a propósito dos métodos do capitalismo emergente. Se os métodos repressivos do império brasileiro da dinastia lusa foram brutais, quanto à dominação cultural, porém, não se deteve na proclamação da República, como tenho acentuado. A conservação da visão passiva da história que é típica desde Paim e Costa tem um continuun até radicalizar-se aos absurdos que se veem recomendados como primeiros sites na Internet – com exceção da curva ascendente dos modernistas pioneiros ao nacionalismo até Goulart e o intercurso da resistência à ditadura.
56 Enquanto houve, como reação à curva ascendente da autoconsciência da cultura, a necessidade de um discurso da boa vontade bonachona para com os pobres filosofantes seculares da nacionalidade – que não sabemos por que teriam tão menos neurônios que o resto do mundo, nem qualquer explicação para o estranho fato é ensejada - é ele entretecido de modo que se for absolutamente necessário constatar que as ideias no país não são meras projeções dos modelos europeus, isso se arranja, porque são adaptadas a propósitos práticos e obviamente redutores de seu alcance propriamente filosófico.
57 O discurso detem-se porém, com a maior compreensão e compassividade sobre a tentativa de Feijó, "por mais imperfeita que nos possa parecer" para resgatar qualquer laivo de oportunidade no seu magistério, e ao mesmo tempo desconsiderar até mesmo o sentido textual de Caneca, como vimos, para mostrar como ele não chega a compreender de modo algum o que tematiza, como se contradiz, e como indevidamente aproveita o modelo para propósitos práticos, politicamente polarizadores, cujo mérito, espantosamente, é apenas "ter servido de referência à formação do consenso da maioria", por rejeição à sua solução armada que nada havia suposto da necessidade do conceito de Representação política.
58 Quando se sabe muito bem que os liberais tão munidos desse conceito, tão logo imbuídos da hegemonia ministerial na proclamação do segundo reinado, resolvem o problema da confrontação parlamentar com o recurso à "fraude e à violência" para derrubar os adversários, de modo que as eleições legislativas que se convocaram após a solvência dessa câmara de maioria conservadora, ficaram conhecidas como "a eleição do cacete" - o governo central, para garantir a maioria liberal, assaltava os estabelecimentos eleitorais, espancava e eliminava opositores, porém cometia a mesma violência contra os liberais quando os conservadores lhe eram mais convenientes.
59 É em Pernambuco – retornando ao mapa regional romanticista de Bosi - que o liberalismo se transforma no sentido do interesse mais autenticamente nacionalista, como exemplifica o Bosquejo Histórico, Político e Literário do Brasil, de Abreu e Lima, o amigo de Bolívar, onde aceita-se francamente a realidade da luta de classes. No seu Compêndio de História do Brasil, o destaque é para as insurreições pernambucanas de 1817 - de que seu pai havia participado - e 1824, criticando-se ainda a educação universitária cujo padrão era avesso aos interesses brasileiros.
60 Vem dessa época o problema do bacharelismo, não equacionado pela simples afluência aos níveis superiores do ensino, mas sim, inversamente, pela sua restrição ao interesse de classe tanto pelos conteúdos quanto pelas formas excludentes do ingresso. A ponto de Costa deplorar não que se tivessem poucas vagas, mas, inversamente, que já se houvessem multiplicado de modo que um contingente algo considerável dos populares pudesse agora estar se formando.
61 O contraste desse tratamento do assunto histórico brasileiro com a versão da nacionalidade habitualmente praticada pelo grupo fluminense é, aliás, notável pela irritação de Varnhagen, que chegou à acusação de plágio. Em O Socialismo realiza o autor do Bosquejo uma síntese, que à Bosi lembra Lammenais, "de progressismo e espírito religioso".
62 As polarizações que se verificam ao longo dessa história, entre Alencar e Magalhães, Tobias Barreto e Castro Alves - aqui, mais emulação do que controvérsia - se são geralmente esclarecedoras, tanto mais nesse caso da desavença de João Francisco e Varnhagen. A visão deste acerca do problema escravista é efetivamente revoltante para os que não comungam do cegamento exigido pela adesão aos interesses do "racismo colonialista" - na expressão de Bosi. Varnhagen foi defensor extremado dos interesses escravistas na sua História geral do Brasil e João Francisco, em A escravidão e Varnhagen, "verbera a iniquidade com que os portugueses trataram os nativos", conforme Bosi.
63 Francisco também desenvolveu uma reflexão atenta e crítica a propósito do pensamento social aqui existente na época, como na sua ênfase à tolerância e condenação das atrocidades que se cometeram na repressão à "praieira". Bosi pensa que "Lisboa não partilharia da imagem do brasileiro como 'homem cordial' ", mas a questão é quem seria o "brasileiro": Francisco, o tolerante, ou os luso-brasileiros com que ele se defrontou?
64 Espiritualismo, ecletismo e romantismo não parecem assim desconhecidos no país, mesmo onde sua influência ou não é total, como entre os maranhenses, ou é modulada por um interesse mais revolucionário. Convém registrar a importância da palavra "revolução" nessa época. Ela é manejada como aglutinação de vários matizes: da simples mudança na tonalidade do poder absoluto para algo mais representativo das instituições nacionais, à franca inclusão do conflito de classes, revolução parecia o centro do planejamento político - ora para afastar completamente a sua possibilidade, como entre a elite rural, ora para incitar à sua conclamação, como nos movimentos populares de insurreição. Enquanto José Veríssimo, na transição ao século XX, seguindo a tradição (luso)-brasileira, considerava errado supor a descendência da nacionalidade inclusiva do elemento aborígine, frei Caneca, no início do século XIX, não supõe uma idealização do pré-colonial, mas sim que os brasileiros tem por progenitores os indígenas e os portugueses.
65 Os traços que se conservam dos aborígines na índole dos brasileiros, conforme frei Caneca, são o espírito de independência e de liberdade que naqueles inviabilizava terem se tornados "assaz loucos" para quererem obedecer aos homens "assaz audaciosos" que quiseram alguma vez comandar aos outros, o que só ocorreu, argumenta, na história europeia. A essa versão do encontro das raças, Paim considera sem qualquer "empenho de coerência", não só pelo "caráter fragmentário" da obra, mas devido à "generalizada falta de clareza reinante acerca do objeto em debate".
66 Não me parece preciso glosar a evidência desse rigorismo, e sim que há um contraste notável nessa real inclusão do elemento aborígine em relação ao modo como Alencar só o representa para deslocar sua origem na representação da cultura exclusivamente europeia. O aborígine é a natureza, só o europeu é o cultivo, o trabalho e a civilização culta, mesmo que, demagogicamente, sejam as lendas aborígines que as famílias colonizadoras assimilam tornando-se assim brasileiras. Uma questão importante, porém, é a que tem a ver com o problema da unidade territorial.
67 Ora, frei Caneca não postula como um dogma a fragmentação regional. Ele supõe, sim, a autonomia regional como decorrente da soberania nacional, isto é, da independência - algo que prolonga o cenário polêmico nos EUA quanto à mesma questão da opção do governo entre regionalismo e centralismo. Mas a fragmentação, a seu ver, seria consequência decorrente no caso de uma impossibilidade do regional se manter infenso a uma distorção imposta à usurpação do governo central, que de representativo da multiplicidade seria manipulado por um grupo ou setor de interesse - na verdade, onde não há representatividade é no governo do segundo império, senão para as elites que o sustentaram e de cujos interesses exclusivos foi o porta-voz.
68 Quanto à aportação afro, é notório que os movimentos revolucionários foram muito informados pela participação desse extrato populacional, portanto, se bem que nesse local não se faça alusão à questão, estudos mais pormenorizados tornam possível resgatar seu componente numa versão da nacionalidade mais popular e assim constituída pela conservação da heterogeneidade na sua formulação.
69 Temos assim o estudo de Cafeeiro-Gadelha, reportando as organizações ativistas negras, como a sociedade secreta iorubá Ogboni, atuando em princípios do século XIX, recrutando e conscientizando negros contra a servidão. As sociedades secretas foram atuantes como prática na organização dos movimentos de libertação nacional, como a histórica de Cipriano Barata, dos Cavalheiros da Luz.
70 Também reconstituem Cafeeiro-Gadelha personagens reais, desconhecidos da história oficial, como Argoim, Henrique Dias e Cazuza, cujo resgate faz mesclar os gêneros teatro e história, tanto quanto as matrizes portuguesa e brasileira. Pelo que consta, já havia inclusive negros nas expedições colonizadoras ao território brasileiro, assim como participação desse elemento étnico no teatro português dos séculos quinze e no quinhentos.
71 Argoim, negro enriquecido pela mineração, ao menos, mantém-se no gênero história, mas sua Revolta do Fanado, ou das Lavras (1821), é também chamada Constitucionalista, devido a inspirar-se na Revolta Constitucionalista do Porto, instituindo-se ainda por uma proclamação que exigia que valesse aqui a igualdade entre brancos e negros estipulada pela constituição portuguesa assim proclamada. O levante de Argoim foi extremamente organizado, com ornamentos de roupas e bandeiras. Reprimia ferozmente negros que não aderiam à sua armada. Os registros do alcance da penetração dessas ideias é surpreendente: aderiram vinte mil pessoas, mais dois regimentos de cavalaria, na zona mineira.
72 Henrique Dias e Cazuza (ou Cazumba) são figuras registradas pelo teatro brasileiro como históricas, participantes das lutas em Pernambuco contra os invasores da colônia. Há um surto de motins e rebeliões étnicas na metade inicial do século, não registrado pela história oficial desse período, mas que atesta a extensão das atividades organizadas. Festas e rituais do folclore brasileiro parecem registros de eventos relacionados aos quilombos, porém há controvérsias a propósito de serem remanescentes das mouriscadas do folclore português.
73 Estudos mais atualizados estão relacionando o engajamento dos contingentes da negritude na abolição, além dos movimentos sociais brancos. Ivana Stolzer Lima reconstituiu a atividade panfletária na iimprensa, destes contingentes, em seu artigo “Com a palavra a cidade mestiça, Imprnesa, política e identidade no Rio de Janeiro, 1831-1833”, integrando a coleção de artigos intitulada “Ler e Escrever para contar, doc umentação, historiografia e formação do historiador” (Mattos Rohloff, org, Rio de Janeiro, Acess, 1998), onde há aportes a meu ver proveitosos para a crítica da história como narrativa, quando o gênero científico só pode se limitar ao expositivo, do contrário o narrador seria Deus – algo que porém parece ser ainda polêmico entre os articulistas, ver a propósito especialmente o artigo de R. Benzaquen de Araújo, “História e Narrativa” [ A propósito da referência a este artigo de Stolzer Lima, que estava em meu Conceito e expressão (pen drive), constatei sabotagem no meu computador, pois a referência não está no texto, que assim encontra-se alterado. Não há dúvida de que estava, pois eu havia revisto o texto e localizado a referência que planejei remover para aqui, na vez anterior que acessei o arquivo, constatando agora a sabotagem. Estou pois utilizando novamente o livro citado para referencia-lo. Um entre inúmeros exemplos da depredação da consciência a que estamos expostos, pela ausência total de garantias de privacidade e conservação dos documentos cuja produção não manuscrita está monopolizada criminosamente neste país por multinacional. ]
74 Referenciei estes movimentos anotados em Cafeeiro e Gadelha mais pelo seu curioso étnico, não obstante a pesquisa dos autores ser importante quanto à heterogeneidade documentada. Pois de fato movimentos contra maus tratos ou mesmo separatistas foram abundantes entre os coloniais já assentados, o que seria demasiado abordar aqui. Estudos voltados a esse aspecto da história, assim como aos movimentos anti-imperiais, são geralmente típicos do interesse nacionalista, não muito afim ao que se costuma selecionar em histórias mais conhecidas.
75 A questão historiadora se mescla ao tipo do agente, tendendo a focalizar apenas acontecimentos que reproduzem o perfil e o interesse ocidental, de esquerda ou direita. Por exemplo, o modernismo como de Jorge Amado, assimilando raízes culturais da negritude que são muito presentes na Bahia, foi em Portugal criticado pelo que seria a “comprazimento” do escritor com a sensualidade dos seus personagens, tratando-se do Capitães de Areia, cujo tema são menores carentes. O neorealismo português, não obstante ser modernista, revelando assim ignorância dos extratos heterogêneos da cultura local.
b) Romantismo e Nacionalidade
exceção no tratamento de Paim aos referenciados na História das Ideias é Antonio de Figueiredo, o único que obtem relevo, porém não por que Paim realmente o resgate como pensador, uma vez que mantem relativamente a ele o mesmo tom crítico, entre acusativo e paternalista. Mas por ter produzido uma cobertura competente, que mostra boa interlocução do nosso romântico socialista, tradutor de Cousin, à filosofia de Schelling. Figueiredo também é referenciado em P. D. Nogare, “Humanismos e Anti-Humanismos” (Petrópolis RJ, Vozes, 1977; ver o capítulo intitulado “Humanismo no Brasil”), onde também há comentário não zoilista sobre oswald de Andrade e mais pensadores brasileiros.
2 Como socialista, segundo Paim, Figueiredo desenvolveu ideias próprias em economia, e considerou o socialismo como um movimento in progress, inversamente a algo que pudesse ser defendido ou atacado por qualquer definição unívoca, independente da variação dos autores e seu devir. Mais como engajamento, portanto, do que agremiação. Na filosofia, Figueiredo destaca-se pela atualidade do seu pensamento relacional.
3 Figueiredo formulou assim uma teoria das polaridades cujo termo terceiro seria a resolução da antítese em devir. Os dois termos não são superados na síntese, inversamente a Hegel eles coexistem numa tensão que em devir produziria o progresso, seguindo ainda a problemática da finalidade em Jouffroy.
4 Pensador tendente ao existencialismo, Antonio Pedro compreende e tematiza a existência como o fundamental. Mas a conceituação desta só se compreende por meio do desejo.
5 Ora, uma vez tendo ele assegurado o nexo entre essas duas noções, existência e desejo, pode lidar com o que antes seriam antinomias à Kant, por um lado proliferando-as e mostrando que subsumem não apenas as questões metafísicas axiais sobre o Eu, o Mundo e Deus, mas praticamente norteiam todo movimento de pensamento, conforme a distribuição do que hoje chamaríamos os seus planos de imanência: há assim o que ele nomeia como a oposição social/individual, em ciência política; teoria/fato, na teoria da ciência; interpretação/ cronologia, em história; ordem/liberdade, em ciência social; até o que seria a arqui-questão filosófica, onde, a despeito da aparente estabilidade de seu encaminhamento, de fato parece se colocar como oposição entre as noções de finalidade (destino) e progresso.
6 Logo após ter relacionado as oposições, localiza-as Antonio Pedro naquilo que fornece o sentido da hiância entre os termos, enquanto oposições de pensamento, ou seja, seu situamento na existência e sua natureza não autônoma em relação ao desejo, uma vez que humano. Como acentuei, a teorização se prolonga no rumo, não de uma síntese, mas do sentido da polaridade que, uma vez encontrado por sua relação à existência, permite compreender o movimento da dualidade e de certo modo contornar o que seria, de outro modo, apenas um insuportável antagonismo no real.
7 Mas a problematização de que parece depender a recepção atual do seu pensamento está relacionada ao complexo de fatores que se costuma desenvolver na proximidade de temas que serão posteriormente os da obra de Marx, centrando-se Figueiredo sobre as relações a estabelecer entre trabalho e sociedade.
8 A arqui-questão filosófica que concede à noção de "progresso" lugar tão proeminente na obra de Antonio Pedro já o demonstra, pois trata-se de algo que para ele integra todos os setores da investigação, o social, o político, o histórico. Ora, não se pode interpretar uma noção assim, numa sociedade como a capitalista, na exterioridade de uma conceituação do trabalho.
9 Ao ver de Figueiredo, que já insere o trabalho no âmbito da produção, o desejo produz o desejado, mas deve também apossar-se dele, garantindo o seu acesso (circulação), antes que possa efetivamente usufruir do que se libera por essa posse (consumação).
10 O deslocamento em relação ao senso comum, aqui, é notável. Se fosse o caso do desejo como instância de produção ser diretamente das coisas, seria preciso supor que as coisas já estavam aí, desejáveis, antes do desejo. Como nota Paim, na argumentação de Antonio Pedro de Figueiredo, se as riquezas existissem na proporção de sua requisição pelo desejo, tudo na economia se resumiria à consumação. Mas, como há "insuficiência das riquezas naturais, surge o fenômeno da produção" - a originalidade conceitual aqui sendo esse particular pelo qual não se compreenderia a produção tornando a subsumi-la a um simples acesso da consumação. Ela é uma relação com a natureza, porém permeada pelo desejo que dota de significado o que vem a ser produzido.
11 E já um pouco ao modo de Comte, Figueiredo supõe que o vínculo pelo desejo, algo que une inevitavelmente a conceituação de sujeito e sociedade, não subsume uma economia sem que esta se estenda como exigência de organização social, ou seja, pra Figueiredo ciência política, o que Comte tratava inversamente como ciência da ordem social (“sociologia”).
12 Nesse encaminhamento de Figueiredo, a ciência política está sendo suposta como aquela atribuição do pensar cujo correlato é nada menos do que o conjunto das elaborações humanas, algo como uma ciência do progresso - supondo que as organizações sociais históricas são formas dessa busca da felicidade que se espera alcançar pela política, e que o progresso é tudo o que se mostra relevante nesse caminho.
13 Algo acumulável, portanto, os preceitos da ciência política se tornam enfeixáveis nessa noção de progresso. Ora, existe aí uma constante que é a polaridade, no sentido de que os momentos históricos em que se poderia supor um progresso são aqueles em que se encontra, inicialmente a postulação lado a lado de ambos os termos, mas, e um tanto por isso mesmo, o seu equilíbrio enquanto fatores igualmente pressuponíveis dentro do processo existencial que se descobre como aquele onde a dupla exigência de sua ambivalência torna porém a polaridade compreensível.
14 Figueiredo critica Cousin por ter declinado o par oposto de sensualismo e racionalismo, mas não ter atingido o equilíbrio que corresponde de modo autêntico ao pensamento. Pois concebeu o aporte dual pela cisão de ideias relativas ou contingentes e necessárias ou absolutas, ambas epistemologicamente declináveis, e as absolutas por essa noção a seu ver insustentável, das apercepções puras.
15 O quanto isso possa parecer semelhante ao esquema de Hegel, parece-me que se a ideia de conjunto da obra humana é efetivamente presente em ambos, a solução dialética não corresponde bem ao que Figueiredo concebe em termos de "equilíbrio". Repetindo, os opostos não são negados, suprassumidos ou ultrapassados. Isso, uma vez que é a sua entre-destinação que responde como fundamento ou lei do processo considerado, o que corresponderia mais ao não-decidível derrideano, ou ao diferencial como critério epistemológico enunciável no século XX, e que nomeio mais geralmente o relacional. Assim, a "verdade humana " não pode ser absoluta, no momento mesmo, na citação de Paim, em que Figueiredo supõe que "nem por isso" deixa de ser veiculadora "de toda a certeza possível".
16 É enquanto algo relativo à humanidade que Figueiredo não postula nessa verdade o que Hegel pensava em termos de absoluto. Mas enquanto elemento da criação das ideias, ela corresponde no homem à ideia geral da certeza - um argumento que poderia remontar a Vico, pois o que o ser humano postula como certo para si, ele empreende como o que será verdadeiro, e absoluto nesse sentido, na sua ação. Havendo aqui produção de sentido, não correspondência a um significado transcendente inferível de sua marcha histórica.
17 A “existência” torna-se então a noção mais ampla, fundante do traçado conceitual da filosofia de Antonio Pedro. Ela corresponde à ideia que resulta da tensão entre interior (homem, subjetivação) e exterior (mundo, objetividade). Mas não se poderia aplicá-la a qualquer dos termos isoladamente. O que funda o pensamento, enquanto apto a captar a variedade histórica e a relatividade social, é uma noção inteiramente relacional. As ideias gerais do ser humano não são, conforme Antonio Pedro, do mesmo feitio que a ideia de existência, permanecendo sempre, de algum modo abstratas. A obtenção do conceito que corresponde ao equilíbrio na polaridade, num processo dado, será como o enunciado de um ideal, mas a realização deste só pode ser relativa e histórica.
18 Por exemplo, em ciências o equilíbrio é o que se estabelece entre a busca dos fatos e as sínteses arquitetônicas, a teoria ou interpretação. Mas é claro que isso por si não é o equilíbrio mesmo que se atinge em cada realização teórica, dependendo, por sua vez, de certo acesso aos fatos, mas também circunscrevendo previamente certos caminhos nesse acesso, etc. Enquanto relacional, a noção de existência coloca a preminência da ideia de progresso, mas muito inversamente a Comte, quanto a isso, o que não se postula é um estado ideal abstrato como termo sintético que iria anular a constante da variação no devir. A Ordem, esse termo que funciona como absoluto na doutrina de Comte, em Antonio Pedro de Figueiredo só se coloca como um polo frente à Liberdade - ambos não podendo, historicamente, ser isoladamente localizados.
19 Amaro Quintas em “O sentido social da revolução praieira”, reporta a recepção por Antonio Pedro, e mais geralmente pelos personagens importantes da paisagem intelectual da época, das obras socialistas que circulam naquele momento revolucionário em Pernambuco. A “Praieira” (1850) aglutinou as forças da nacionalidade contra o império, com a maior pujança na sua vocação comum romanticista. Foi o movimento mais potente na acepção de um referencial intercomunicativo local, como se pode aquilatar pela influência na poesia de Álvares de Azevedo a propósito não só do romantismo em geral enquanto influência local, muito informado como se pode verificar, como pela ode a Pedro Ivo.
20 As obras socialistas influentes, na seleção de Quintas, expressam o fino da teorização internacional, concentrando-se na contribuição de Fourier e na sugestão do “Falanstério”, conceito mais complexa do que geralmente se supõe, integrando uma noção do trabalho em conexão a uma teoria das paixões que são aproximáveis na forma à teoria dos instintos de França. Conforme Bréhier na “História da Filosofia”, Fourier define a paixão compósita (composite), de contribuir à perfeição do todo para o qual se trabalha; a cabalista (cabaliste), que responde por essa emulação decorrente da vontade de mais contribuir, não a qualquer ódio ou dialética de dominação à Hegel, que depende da posição de si como dado primeiro; e a borboleteante (papillonne) que consiste na mutabilidade dos gostos, tanto quanto no desejo de mudar decorrente da multiplicação dos gostos ser sempre efetiva.
21 A constante das paixões como aspiração ao bem, ao prazer ou à felicidade, deve propiciar algum meio termo que expresse, ora o elo entre as várias paixões, de modo a termos a compreensão do desenvolvimento da nossa natureza; ora o elo entre esta e a vida social histórica, regida como é por constrangimentos de todo tipo como a lei moral, as obrigações civis, as convenções religiosas, etc. Mas dentre todos esses constrangimentos, o fator comum seria o trabalho. E o que une as paixões ao desejo do bem é igualmente o trabalho, seja porque é por ele que alcançamos os objetos de que necessitamos, o que situaria Fourier num aporte ainda iluminista, seja porque ele expressa a lei natural de nossas paixões, o que o localiza, inversamente, bem no cerne do questionamento da produção.
22 Essa forma de organização do trabalho, que se organiza em função do conhecimento das paixões em vez de ser apenas e efeito irrefletido delas, Fourier a designa “falange”. O falanstério como “fazenda coletiva” é o que definem os manuais do segundo grau, porém não sendo bem o correlato do que Bréhier apresenta nos termos do conteúdo do conceito. Trata-se da falange como célula social, da sociedade como células justapostas, da unidade de composição de cada célula como o trabalho no sentido de certo gênero de atividade produtiva.
23 Atendendo à paixão que seria uma tendência a mudar, Fourier tentava evitar o que o século XIX, como também Marx, considerava o ônus da especialização, e, assim, agregava à organização dos falanstérios a premissa do rodízio, para que todos pudessem exercer as atividades variadas. Cada falange organiza o conjunto de trabalhos necessários à sua subsistência, depois divide as tarefas conforme o gosto dos membros e por aí serializa-se internamente em função da especialização. Uma série, por exemplo de agricultores, é composta por vários grupos, nesse exemplo, dos que semeiam, dos que colhem, etc. Reserva-se a opção do rodízio de tarefas para atender à paixão "borboleteante".
24 Cada grupo organizado em torno da atividade de trabalho que lhe é comum, forma um “falanstério” onde vive comunalmente, mas com alojamentos pessoais. Aqui vemos que qualquer nexo etmológico que possa haver entre a “falange” de Fourier e o “fascismo” - que alguns traduzem por “falangismo” - não revela comunidade de intenções, pois a índole do socialismo de Fourier parece ser de independência dos sujeitos, não de subsunção deles à hierarquia puramente valorativa e idealizada como “sociedade” - o que supõe a interveniência do signo, pós-positivista, como veremos à frente.
25 É interessante notar como Bréhier registra a enorme influência de Fourier, ao contrário do que geralmente se comenta sobre ele: papel relevante na revolução de 1848 na França; nessa mesma época nada menos do que 200.000 fourieristas na América; e uma instituição ainda vigente no momento de lançamento de sua "História da Filosofia", nos anos trinta do nosso século, o "familistério" em Guise.
26 O nexo surpreendente que Figueiredo propõe entre a noção de desejo e as categorias que, conforme ele, informam a economia política, a produção, circulação e consumação - algo que só se empreende na atualidade com Deleuze e Guattari no “Anti-Édipo”, e dependendo de um extenso desenvolvimento da teorização do inconsciente - parece refletir criticamente, mas de modo extremamente original, essa influência fourierista.
27 Na vertente historiadora elitista, são todos os movimentos revolucionários de adesão popular, inclusive a Praieira, cujas repercussões socialistas são expressas no Manifesto ao Mundo que instituiu o voto livre, a autonomia dos poderes, nacionalização do comércio, liberdade de trabalho e federalismo, o que detém algo de "caráter puramente exterior, epidérmico" a mostrar o quanto era difícil ultrapassar limites traçados pelas "condições específicas geradas pela colonização portuguesa", como na colocação de Sergio Buarque. De fato não tinham nada de epidérmico, como vimos pelo registro da participação do capital inglês na repressão dos movimentos de independência realmente nacionalistas.
28 Sodré, numa perspectiva mais contemporânea, chama a atenção para o erro – mas a meu ver desvio neurótico (geoegologia estrutural) - de considerar a independência como uma transição pacífica. O que obviamente implica apagamento da memória, mentirinha sobre os fatos, como se não houvessem existido os movimentos que foram violentamente reprimidos pelo interesse colonizador anglo lusitano, mistificado ridiculamente nas vestes do “império nacional”. Nunca será demais repetir essa definição, que corta o pior ridículo ainda, o do “Raízes do Brasil” de S. Buarque de Hollanda, que considera inferior a nacionalidade devido a ser apenas dominação portuguesa, ao contrário do que seria se fosse inglesa ou holandesa (“capitalista”).
29 O estudo de Amaro Quintas sobre a Praieira faz ressaltar a atuação de Valthier, engenheiro socialista contratado pelo governo provincial, que circulou inúmeros títulos, de Fourier a Saint-Simon, então correntes na França, tanto quanto o livre comércio de livros de economia política, inclusive de Say e Louis Blanqui.
30 Coloquei nesse trecho alguns aportes que tratei em meu já citado Conceito e Expressão (2009), assim desculpando se resultou a seleção algo fragmentário, sendo o estudo, como requerido pelo tema, consideravelmente minucioso e extenso. O importante como o que pude deduzir na pesquisa dos fatos, é que podemos segmentar os projetos de nacionalidade, por um lado: romanticista heterogêneo, positivista etnocentrado classe-média urbanizante, modernistas nacionalistas. Por outro lado, rastreei entre as fontes e o “palimpsesto”, mais que um só horizonte da “nacionalidade” que os projetos aglutinavam, várias proveniências nocionais conforme as forças em presença. Assim as versões de nacionalidade constantes no cenário da metade inicial do século XIX sendo: luso-(brasileira) como no “partido português”, (luso)-brasileira como no “partido brasileiro” mas de expressão imperial dinástica lusa e subvencionado pelos ingleses; "brasileira" como de Alencar a Machado, e brasileira.
31 Os extremos são significativos. A luso-(brasileira) deixa de ter consolidação prática na vigência do país independente, mas sua persistência ideológica se recupera nas duas outras. Contudo, esse vínculo é mantido pelo etnocentrismo e pelo elitismo que este faculta, nem sempre algo diretamente assimilado. A nacionalidade “brasileira”, bem oposta à brasileira, por seu etnocentrismo, o haure da mentalidade colonial lusa e em todo caso o prolonga, mas pode apresentar-se como crítica da subserviência cultural a Portugal, e alinhada ao contexto mais modernizante europeu ou norte-americano.
32 Quanto à brasileira sem aspas, resta o enigma, resta o silêncio ou as versões conflitantes, se bem que na atualidade a concepção do fazer historiador envolva uma compreensão maior do que a compõe. Aquilo de que se carecia até despontar com o modernismo era uma informação da “cultura”, a consciência de ser esta o objeto formal da pesquisa humanística. Essa consciência inicia-se na Europa com o Simbolismo, que como vimos assinala o contexto da segunda revolução industrial como designa-se a expansão do capitalismo como economia oficial de mais países europeus além da Inglaterra.
33 Inversamente ao que constatamos ocorrer na Europa, a imbricação do gênero sexual na cultura só coalesce com o modernismo pioneiro, no século XX. Já referenciei o estudo de Benjamin a propósito do radicalismo do gênero na Europa oitoscentista, como recusa da feminilidade ensejada pelos movimentos que se consideravam revolução da modernidade. Ele o trata apenas pelo viés destes últimos, de modo a neles entender a participação de Baudelaire – que não destoou daquela recusa que hoje nos parece tão “revolucionária” como unilateral e arbitrária. Numa perspectiva interessada exclusivamente pelo tema, vemos que o feminismo, na Europa, independente dos radicalismos, evolui como luta prática pela educação escolar das meninas, participação no mercado de trabalho e no mundo político. Ver-se-á Stuart Mill apoiar essa causa. Nos países do Norte, como na Inglaterra de Elizabeth Browning, Elizabeth Gaskell e George Elliot, que dão o exemplo de mulheres cultas e independentes, cultiva-se a prosa corajosa como da sueca Frederika Bremer e da norueguesa Camila Collet. Essa literatura opõe aos clichês de George Sand a mensagem de crítica ao mito da pertença original da mulher ao amor “romântico”, para esboçar sua imagem como pessoa emancipada, tão socialmente responsável como o homem.
34 Carpeaux (referenciar) pensa que isso não deixou de favorecer o processo de desintegração de valores que remanejou o antigo camponês, arraigado às convenções do campo, como serviçal da indústria na cidade. Não obstante, o feminismo nascente está numa linha de transição entre o utopismo romântico e o realismo. A mudança de um a outro estilo poderia se demarcar pela redação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels.
35 A influência de Engels sobre Oswald de Andrade é bem sublinhada por este. Temos assim um empreendimento curioso, pois na polêmica com Levi-Strauss, porque a tese deste é a do androcentrismo como universal etnográfico, Oswald não se pronunciou a partir das referências do trabalho de campo e sociologia que realmente nortearam sua pesquisa, notadamente o The Mothers, de Briffault. Mas sim defendendo a linha evolutiva de Engels, por nela haurir tanto uma ênfase da sexualidade não reprimida originária, como a fórmula da repressão sexual, a dominação das mulheres pelos homens, como fórmula da propriedade, monopólio do himem, o meio de viabilizar o patrimônio patriarcal eliminando a dúvida sobre a paternidade. Algo portanto histórico e não “primitivo”.
36 O matriarcado é de fato tratado de forma um tanto irredutível, de Baschoffen a Briffault. Rumney-Maier, por exemplo, vão recusar a estipulação do primeiro, que vimos subscrita por Engels, com base em que "a teoria da promiscuidade sexual [originária] está pouco de acordo com os fatos conhecidos da história", mas consideram The Mothers, do segundo, que lastrea a teorização de Oswald de Andrade, como algo cuja postulação é "provavelmente certa" - a saber, que "o papel desempenhado pela mulher nos tempos primitivos, quer na agricultura, indústria, religião ou nas artes, foi bem maior do que se tem geralmente imaginado". (citar)
36 Ora, o que intercede pela aceitação parece ser, com Briffault, estipular-se um mais, não um menos, de sentido, na cultura pré ou não-ocidental. A crítica de Rumney-Maier à tese que unifica o matriarcado à promiscuidade originária inclui a observação ácida pelo que o século XIX deve tê-la aceito "por se adequar tão bem à história bíblica e à era vitoriana", que esses autores consideram, assim como o positivismo, expedientes de pseudo-legitimação do imperialismo, conforme acentuam: “O termo 'raça' começou a ser empregado nos séculos XVII e XVIII, quando teve início a luta em grande escala pelos mercados e colônias”. Assim a exploração dos nativos era desculpada “alegando-se que as raças brancas eram superiores às de cor e que lhes competia civilizá-las”. Citam Wallace como exemplo do moderno observador assinalando “o fato de que 'os homens brancos de nossas Colônias eram comumente os verdadeiros selvagens e de que precisavam tanto quanto os nativos de ser ensinados e cristianizados' é posto de lado”. (p. 68)
37 Hoje até sorriríamos dessa ingenuidade – ou ironia – pois nunca houve meio mais tenaz, desculpa menos autoconscientizada como tal, do colonialismo predatório, do que a catequese religiosa cristã, base do jesuitismo europeu, mas, especialmente na era capitalística, do expansionismo protestante. Assim, se na época do Romantismo, quando estava havendo a independência das ex-colônias, o protestantismo se apresenta liberalíssimo em política, e o arauto da compreensão da missão hsitórica dos povos contra o autoritarismo católico, assim como à Hegel o meio de sentido da emergência do Estado Constitucional de direitos da pessoa subjetiva, como da própria evolução da subjetividade, hoje em dia, quando a Globalização é uma neoanalidade ainda mais grotesca que o positivismo, já sem qualquer vínculo com a objetividade além do tecnicismo comercial info-midiático, o protestantismo compreensivelmente se radicaliza nas posições mais retrógradas, que negam até mesmo modernismos já professados como o dos seminários americanos do início do século XX, para negar a teoria da evolução, arrojar-se com violência contra o ensino leigo nas escolas, etc.. Mas Rumney e Maier salientaram com bastante competência o nexo da pseudo-ciência da raça e montagem de aparelhos totalitários cmprovado na história recente, assim como os erros do biologismo – isto é, da redução dos fenômenos sociais a fenômenos biológicos.
38 Em todo caso, o que se provara com o trabalho de campo desde inícios daquele século, habia sido a inexistência da promiscuidade primitiva, dado principal do positivista de Morgan, que Engels utilizou como referencial. A poliandria ou não haver de controle sobre a sexualidade feminina não implica promiscuidade como ausência de lei, mas sempre há leis de parentesco que regulam casamentos e filiações. O fato dessas leis não acarretar conflito com a liberdade da ação pessoal, especialmente das mulheres, não deveria causar estranheza já que é aquilo mesmo que hoje nós almejamos e presume-se que seja o caso, já não havendo sentido algum no Direito, para punição legal ao adultério, legítima defesa “da honra”, etc.
39 Não obstante a incongruência argumentativa de Oswald – teorizando à luz das descobertas do funcionalismo, que atribui regras de parentesco definidas em todas as sociedades inclusive na possibilidade do matriarcado, mas defendendo-o por utilização da tese positivista da ausência de lei e promiscuidade primitivas – ao que me parece podemos entender a posição de Oswald à luz de Marcuse. Se este se insurge contra qualquer revisionismo na psicologia, que implique abstrair o papel da sexualidade como determinante na formação da personalidade.
40 A questão para Oswald na polêmica com Strauss seria pois que em todo caso a sexualidade originariamente não era reprimida, com a possibilidade da repressão sendo o sine qua non do androcentrismo, mas a ausência de repressão implicando a linhagem matrilinear consequente com a poliandria. Nesse sentido, Oswald é mais um pensador freudiano do que preocupado com as cisão do positivismo e funcionalismo. E na verdade Strauss é a ponte entre a psicanálise e o estruturalismo como metodologia oriunda das interpretações de Saussure, desde o Círculo de Praga a Hjelmslev, mas ele mesmo é um acerbo crítico das interpretações freudianas das origens antropológicas.
41 Entre os modernistas pioneiros houve também um tema local da “dama”, sui generis. Ao invés da princesa do castelo medieval, que Lacan tão extensamente investe como tema do seminário 7 (“A ética da psicanálise”), o imaginário colonial da dama seria o da mulher que ficou esperando o navegante conquistador nas terras da origem europeia. O ágape, por oposição ao eros da(s) concubina(s) colonial.
42 O futuro do gênero na teoria social entre nós desde Oswald ficou porém suspenso até bem recentemente, e mesmo assim o que se torna incontornável referenciar é o investimento de Otavio Paz (“labirinto da solidão”), em torno de um curioso uso linguístico mexicano. O xingamento de uma mulher no México não é preferencialmente como na Europa ou aqui seguindo o uso europeu. O mexicano não xinga a mulher de “prostituta”, mas de “violada” (propriamente designando-a “xingada”).
43 Otavio Paz considera aí uma alusão à colonização, pois se trata da “abertura não consentida”, e há paralelamente um desdém pelos “xingões”, aqueles que xingam – como os~ colonizadores, aqueles que violam. Há uma série de oposições entre lugares comuns europeus e íbero americanos, como por exemplo, os lugares da esposa e da concubina (estudei as oposições em meu já citado “O pós-moderno, poder, linguagem e história”).
44 A meu ver deveríamos desenvolver estudos sobre o que se poderia designar nosso “complexo de Malinche”, ela a “índia” que foi pioneiramente tomada pelo conquistador (Cortêz), e por isso odiada dos dois povos. Malinche é a mãe da miscigenação como da nossa proveniência ética “universal”. É curioso que se ela não repete o locus de Helena, que é inversamente a mulher da “raça”, e assim ninguém se lembra da beleza de Malinche, contudo como Helena ela é ao mesmo tempo odiada e amada, forasteira e mãe, etc. Mas se há uma possibilidade de crítica ao mito “nobre” de Helena, como pela Electra de Eurípides, entre nós não há um referencial positivo para ser posteriormente criticado. Não há sequer o “locus”.
45 Por outro lado, houve na geração modernista após Oswald, a regionalista na qual originou-se compreensivelmente o “anta” fascista, um referencial da “nega fulô” (“nega”, corruptela de “negra”) como pior tipo de demagogia à Gilberto Freire, utilizando-se a mucama (escrava doméstica) negra, como tipo que seria a prostituta virgem desvirginadora do escravocrata, como a rival da mulher branca que, assim, era a única inimiga escravista. Ao contrário da mulher branca, segundo essa “história” para lá de duvidosa, que se imbrica ao limite do tratamento temático nas novelas e seriados de televisão, o senhor branco era então o amigo do escravo, o cúmplice do negro porque amante da “nega”, etc.
46 Escusado acrescentar que o “negro” valorizado de Gilberto Freire só o é porque suposto totalizável, ideal-tipo, mas, assim como em Ellie Faurie, ele é o mais infantil, o mais primitivo nessa acepção de o mais avesso à inteligência, o mais puramente emotivo dentre todos os povos.
47 Paralelamente, a rivalidade mortal de mulheres é o único núcleo da novela de televisão há décadas – lembrando que a novela (“soup opera”) aqui funciona como único referencial cultural para millhões, verdadeira mania nacional, com a esperável função de identificação de tipos factualmente visíveis na sociedade. A preterida-tipo sempre morre, o juízo da existência cabe ao galã, a preferida dele é mais que a amada, é a que tem todas as qualidades, sem qualquer defeito. Se ela parece errar, logo se esclarece que era um logro, uma aparência, de fato nunca sequer titubeia, ou então o erro era necessário para que se revelasse algo mais importante, etc. “Suspeita-se” (para não dizer que se sabe muito bem) que pessoas reais são copiadas, por espionagem, para reprodução dos tipos rivais e de outros na economia moral punitiva do destino social-novelesco.
48 Achei muito engraçado uma carta à redação de um jornal, que li na época em que a Globo estava usando uma só atriz para todas as personagens, em novelas sucessivas, que tinham o mesmo destino, exceto a protagonista.
49 Data dessa época, o início da Globalização e neoliberalismo econômico (final dos anos noventa), a humilhação de pessas nas ruas por gangs que as seguiam às claras, todas as vezes que iam a algum lugar, para assim que estivessemcom público à volta, ostentar injunção de que morressem. Obviamente pantomina orquestrada por salafrários cuja tara é obviamente se passar por artista, porém cuja mediocridade é tão flagrante, pois quem não consideraria esse tipo de fascismo ostensivo nada além de repugnante, e em todo caso seria como cena mais interessante ver o que assim abrisse a boca para achincalhar a legalidade abatido a tiro.
50 Além de intromissão info-midiática que só tem se agravado – tornando o uso do personal computer imprestável para o que seria o mais necessário, como instrumento de estudo e escrita, pois que a gang destrói o que é arquivado no computador, além de tornar evidente que não há privacidade na feitura do texto – agora o governo federal, que nega ter dinheiro para pagamento dos salários dos servidores públicos, está pagando ostensiva propaganda da morte na cidade, instando o display festivamente colorido nos pontos de ônibus, dirigidos à “família” que doe os órgãos da pessoa a quem amem. Absurdo nojento que apenas traduz o desprezo pela população local.
51 Porém não tão incompreensível, além disso, pois, ao que parece, uma vez que não conseguiram nesses vinte anos, apesar do inferno, isolamento, etc., provar que não são amadas certas mulheres casadas, a quem arrojavam levas sucessivas de outras “mocinhas” produzidas como rivais – o baixo nível não só de modos mas de inventiva sendo ostensivo, posto que a essa altura ninguém teria medo, com vinte anos de “morra”, ou a metáfora jornalística do “sair”, de uso nada sutil – e quem esperaria investigação à altura, a ver quem é a origem do capital e do interesse de tal obviamente fascista “campanha”?
52 Quanto à carta ao jornal, a pessoa criticava a morte da rival da estrela da época na novela, personagem de menina que realmente assoberbava paranoicamente qualquer normalidade da vida do casal, observando que ao invés de morrer ela podia ter feito um tratamento médico – de fato, por que as preteridas nunca arranjam um outro namorado ou ao menos viajam à Europa é bastante misterioso. Mas o engraçado é que a carta procede na total abstração do fato de ser a mesma coisa em qualquer novela.
53 O brasileiro sem aspas, é pois, o “outro” da misoginia inconsciente, que na margem, porém, é misoginia ostensiva como vimos. Os filmes dos anos trinta, de produção comercial tipo exportação, já o provam, pois até hoje nunca vi em proveniência norte-americana ou europeia cenas de menosprezo direto contra mulheres. Mas nesses filmes a mulher feia – usualmente a atriz Zezé Macedo - era ostensivamente maltratada por garçons e outros tipos que representavam os populares amigos do galã, como se fosse isso uma espécie de dever ético do popular.
54 No retorno ridículo dos modos dos anos trinta na indústria cultural e pela assim designada esquerda atual – porém antro de corrupção populista de igrejas, peleguismo, etc., que conta agora com o aparato midiático para vender a mensagem de vanglória do abuso do alheio – é o que estão fazendo caixas de supermercado e motoristas de ônibus que, aliás, não param de falar, os motoristas especialmente com elemento que fica na porta do ônibus a viagem inteira, uma espécie de fala não linear (gritos, ênfases), incongruente, agressiva, geralmente contra passageiras que não são ninfetas.
55 Por vezes não deixam senhoras subirem em ônibus, geralmente não param nos pontos quando apenas uma senhora solicita, fecham a porta criminosamente enquanto senhoras estão saltando, obviamente acidentando-as, etc. O governo que idolatra a tecnologia importada que paga com nossos salários, gastou rios de dinheiro com obras abrindo estradas apenas para atender a veleidade de linhas de ônibus sofisticadas. Não atende ao dever de garantia dos direitos humanos. Como já registrei, a própria polícia tem sido o alvo dos abusos do banditismo paternalizado no governo, além dos que se identificam com ele.
56 O brasileiro sem aspas, na heterogeneidade da cidadania, é pois o “outro”, definido pelo “mesmo”, porém não auto-consciente em geral e da definição de si em particular. Sem discurso, e por isso sem ideologia definível, da condição de total alienação política por parte do regime se alça por vezes a uma possível ligação direta com o verdadeiro saber revolucionário, mas para aqueles que o poderiam utilizar por supor estarem já de posse desse saber, desse futuro, como “ciência da história” - ou seja, arbitrariamente. O “outro” nesse status de “massa de manobra”, só serve ser for acomodável a uma unificação, e para tanto a moeda é a idealização mais tendenciosa, a abstração crescente do pudor frente à verdade, até a aberração radicalizada nas sucessivas falácias da “outra” colonização, a boa, que não seria como a histórica, a que existiu, a ruim.
57 A boa é assim a propaganda dos outros colonizadores possíveis, esperando roubar o monopólio dos portugueses, e, mais recentemente, dos norte-americanos. Lembrando que houve na colônia invasões de holandeses, ingleses e franceses, que resultaram em guerra com os portugueses, desde o século XIX recrudesceu a ideologia da “outra colonização”, no bojo do fenômeno que já estudamos, e que poderíamos designar as “Grandes Imigrações” resultantes da política racial do Império à República.
58 A idealização abjeta da colonização, abstraindo qualquer valor humano do contingente nativo ou local, faz o elogio de Italianos e espanhois, que na colonização teriam tido mais saber náutico que os portugueses – não se sabe por que - mas sobretudo o que já vimos do exemplar a meu ver ridículo, Raízes do Brasil, de S. Buarque de Holanda, que ignorando a identidade do capital inglês no Império, culpa racialmente a origem portuguesa por não termos capitalismo. O português conforme ele é o preguiçoso, sentimentalóide, prepotente, não capaz de racionalidade “calvinista”. Assim ele inverteu o homem cordial que Oswald caracterizou como tendo o sentimento da alteridade. No Raízes do Brasil, o homem cordial é portanto o avesso da inteligência. Porém no português do Raízes do Brasil nada há que se coadune com o meu workahoolic pai, “seu” David Ferreira Colchete, homem do povo de Aveiro, migrado aqui na altura dos anos quarenta após dez anos nos Estados Unidos, comerciante pequeno burguês, inveterado raciocinador e poupador (reagateava comigo até um chocolatinho), admirador dos sapateados à Fred Astaire, mas, também, de Stalin.
58 E o preconceito elogioso da outra colonização mesmo - portanto - onde o que se vende tem rótulo de nacionalista. Como na canção de Caetano, na qual inexplicavelmente, já que a Alemanha só entrou na cena da filosofia desde Mestre Eckart, no Renascimento, e que a história das ideias e o letramento brasileiros tenha sido praticamente in toto de interlocução francesa, até a recente invasão planetária do inglês, estaria porém “provado que só é possível filosofar em alemão”, e, assim, se alguém “tem uma ideia incrível” exorta a música que apenas “faça uma canção”.
59 Uma história dos movimentos de libertação nacional à coté dos colonizadores e impérios, já existe como área de pesquisa desde há algum tempo, mas seus cultores são em geral negligenciados. O brasileiro na sua heterogeneidade, tendências políticas, histórias, etc., não é que não se expresse, mas sim que é o objeto daquilo que além da repressão e discriminação, pode ser designado o voto da inexistência. Sodré o reportou na imprensa, que por exemplo votava à inexistência a Oswald. Sem ligar o relato a essa crítica, narra ele mesmo, Sodré, que ao deparar-se na Russia com um volume antológico de contos brasileiros indignou-se por não conhecer os autores – uma cultura existente na sua autonomia é o que o alter-ego do Centro não atribui, além da que ele mesmo teria o papel de fabricar.
60 O recalque de qualquer tese coerente atribuível a Oswald é contínuo, não obstante ser ele poeta antológico nas escolas, e como vimos, expositor coerente de ideias. Sodré não queria assim que se o votasse à inexistência como pessoa da sociedade, porém quanto à obra, Sodré considerava de qualidade nula, ou seja, inexistente. Seu horizonte de boa escrita era ainda o jornalístico classicista “claro e conciso”, o que designam realismo. Não há comunicação de conceitos de intelectuais nacionais, crítica consciente, análise discursiva, ou em muitos casos, nem mesmo edição dos originais guardados em blibliotecas do Estado. A prática limita-se ao “puxar”: se não o “tapete” (suspender os direitos do condenável), o “saco” (elogio inconsequente, interesseiro).
61 O que estou afirmando é que ela é marginalizada em geral e particularmente – eis o sintoma que destaco – nas instituições cuja função financiada com os impostos é unicamente a propagação dela, as quais ao contrário, subsistem financiadas apenas para propagar, contra ela, a macaquice do estrangeiro. Não se trata aqui de contradição performativa, como se também eu estivesse afirmando que não existe a cultura brasileira.
62 Mas sobretudo estou sublinhando que o enfrentamento da oposição “interna”, e a curva ascendente da autoconsciência da cultura local, não só foi reprimido violentamente – por meios da tortura física e eliminação genocida – na ditadura recente, como sobretudo acentuou-se não só por meio de coação institucional, mas por aparato info-midiático fascista na Globalização que é um neonazismo recolonizador misógino ilegalista, que deve ser destruído pela legalidade, para garantir-se o futuro da humanidade vivente e pensante. A guerra e o uso da força em geral contra o abuso ilegalista são necessários e urgentes, não creio que a violência abjeta vá cessar por si mesma.
63 O brasileiro sem aspas, resumindo, é o ser sem discurso do “outro” paralógico, sendo “outro” mas definido pelo gesto apropriador-distanciador, nesse menos igual a zero é contudo mais que alguma outra “coisa” realmente definida.
64 É uma função na linguagem, o outro como o é sempre outro, um grupo outrado acha incontinente um outro grupo para ele mesmo outrar como já a sociologia observou – o epíteto “caboclo”, atribuído aos habitantes do interior pelos da cidade, lá se atribui por sua vez aos ribeirinhos pobres, que o passam aos índios, que se reclassificam pelo mesmo meio, etc.
c) O Positivismo e A República
1 Já vimos que entre os movimentos de contestação anti-imperial romanticista, e o positivismo, que efetivamente logrou a revolução anti-imperial, o projeto da nacionalidade mudou. Paradoxalmente sendo menos alter-egológico nos meios de contestação anti-imperial e nacionalista antes da República. Porém há certa peculiaridade do positivismo local quanto à assunção dos direitos humanos
2 Vemos então Alberto Sales, conforme Paim na “História das Ideias Filosóficas no Brasil”, ser citado quanto ao opúsculo O ensino público (1901). Apresenta finalmente a educação como meio da inserção na sociedade, inversamente ao ter ou não ter do requisito a priorístico tradicional como proveniência colonizadora. Porém restringindo-se o conceito de educação ao que requer a sociedade industrial, assim como o fortalecimento muscular por meio do atletismo teria sido o meio das sociedades militantes – a oposição entre militar e industrial sendo de Spencer como se sabe.
3 A educação é agora localmente conceituada, portanto, não como cultivo espontâneo dos conhecimentos na sociedade, mas para formar "o operário e o artífice, o profissional e o artista", estes elementos "do comércio e da indústria".
4 É singular como ao mesmo tempo essa concepção conserva a noção de Paidéia e dela se distancia, uma vez que o alcance ético que se poderia esperar de uma formação por meio educativo não se torna diretamente visado, assim como a diferença de educação e letramento, a heterogeneidade da cultura e a homogeneidade da ciência. Comentário que seria válido igualmente para a tecnicização dos currículos como algo que estava sendo importante na Europa. Mas que em meio brasileiro ele permanece modulado no sentido de uma conexão entre profissionalização e cidadania, parece claro pela recusa de Alberto Sales da parte política da doutrina de Comte, preferindo, inversamente à ditadura, a defesa da soberania popular.
5 Assim encontramos, inversamente a uma reserva de Alberto Sales por sua recusa da premissa ditatorial, em relação ao “positivismo ilustrado” como se designa o brasileiro como um todo, a continuidade desse viés de utilização apenas estratégica de Comte em Pedro Lessa. A soberania popular parece ser também conservada nesse pensador da Filosofia do Direito, como algo imediatamente conexo à mudança social com vistas ao exercício da cidadania, por meio da educação e da mudança de mentalidade - jamais pela força.
6 A reflexão sobre o meio de introduzir o pensamento científico na sociedade local remonta ao romântico Magalhães, de que Paim zomba como algo sem relação com a nossa realidade provinciana. Porém sem recordar-se que a ciência estava sendo conceituada na filosofia ocidental in toto, evolutivamente como o meio da modernidade universal.
7 Também a recusa do uso da força mesmo antes de Comte abraçar a causa de usá-la, assim como Marx, para instituir a sociedade científica, já estava expresso em Magalhães. O que implica lembrar que pelo meio do oitoscentos, após o Romantismo, o capitalismo já havia avançado o bastante sobre a sociedade civil para que, mesmo não sendo ainda redesignado imperialismo, já não permitisse pensar a atualidade como o cumprimento da ideia constitucional democrática na História. Bem inversamente enunciava-se a atualidade como novo tipo de dominação, ainda que nesse novo coubesse a dialética opositiva dos insurgentes explorados que agora podiam pensar que a história como lei científica estava com eles, no rumo da Revolução social. A transição temporal de Hegel a Marx foi do conceito de modernidade científica ao conceito de modernidade industrial.
8 Assim desde agora, como na argumentação de Pedro Lessa, o positivismo nacional pensa o meio pacífico de política científica de um modo dirigista, mesmo que não ditatorial. Não apenas a ciência em geral, como vimos, mas a destinação tecnizada.
9 A tendência de Lessa se inclina, ainda mais, pelo socialismo. Assim, o que em Sales se designa a soberania popular, Lessa concebe, em termos de cidadania, como algo fundamentalmente dependente da mediação jurídica. Por aí, a originalidade de sua participação no cenário primeiro-republicano. Após a batalha civilista pela autonomia do Supremo Tribunal Federal, que teve como pivô a consolidação do habeas corpus, ele se torna líder de uma movimentação de defesa das garantias constitucionais através desse instrumento, modulando-o com incrível flexibilidade, para ajustar-se às exigências práticas, quando as arbitrariedades do governo recrudescem depois de 1911.
10 Aproximando-se a transição desse período primeiro-republicano ao Estado Novo, ao longo dos anos vinte tendo curso a série de acontecimentos e abusos do governo oligárquico que precipitam reativamente a ascensão de Vargas, Paim localiza a obra de Ivan Lins como testemunha da persistência do comtismo e, ao que lhe parece, como demonstração da influência deste na ambiência intelectual do Estado Novo. A tese de Paim sendo que o positivismo é traço indelével no pensamento brasileiro, o que a seu ver é algo deplorável, como o que impede a penetração do neokantismo, este metonímico do pós-postivismo culturalista. Não sendo porém coerente com a existência do modernismo, à frente examinamos os limites dessa tese.
11 O que ocorre na verdade, é que no exame de Paim acerca da obra de Lins constam elementos bastante representativos da superação do papel que o comtismo exerceu no momento primeiro-republicano, os quais favorecem também a interpretação do projeto positivista como algo não representativo dos objetivos oligárquicos. É bastante aproveitável a expressão de Roque Spencer Maciel de Barros, conforme registrado por Paim, pelo que designa-se "ilustração brasileira ao movimento de ideias iniciado nos dois decênios imediatamente anteriores à República", as quais afirmam "que a modernização do Brasil dependia da adesão sem reservas ao pensamento científico e do abandono das disputas teológicas e metafísicas". A dedução, portanto, seria que "a reforma dos espíritos era entendida como condição essencial das mudanças tornadas imprescindíveis no plano material".
12 Torna-se interessante o exame aí desenvolvido a propósito dos nomes mais representativos desse "positivismo ilustrado" - não ortodoxo: o carioca Pereira Barreto, o paulista Alberto Sales, também Pedro Lessa e Ivan Lins. O que Paim chamou o positivismo marxista de Leônidas de Rezende, ele apresenta no bojo de certa consideração interessante sobre o desenvolvimento histórico das correntes marxistas.Ressaltando que o marxismo na União Soviética, inversamente à versão comum, não deve ser considerada a substância do pensamento de Marx, visto por Paim que “ambos situam-se em momentos bem diversos”, aduz assim que “... enquanto para Marx a própria ideia de sistema não adquire nenhum sentido, a sua principal interpretação contemporânea consiste num sistema fechado” (p. 342)
13 Ora, a referência sistêmica de Paim é o próprio Stalin, nisso o autor de “História das Ideias...” seguindo Henri Lefebvre. Porém de fato Paim atribuindo sua interpretação à mesma de Mondolfo e Labriola, de modo que resulta algo confuso o situamento dos “momentos”.
14 Segundo o situamento de Paim que apenas opõe momentos sem de fato defini-los nesse trecho, só podemos considerar Marx no positivismo, e aporte subsequente, o caráter anti-sistêmico atribuído por Paim só se explicaria como o humanismo radical de Marx interpretado o mais fervoroso historicista hegeliano.
15 Paim de fato está definindo a segmentação regular do positivismo ao funcionalismo. Em seus termos, abandono da metafísica do “ser”, matéria ou espírito, desde Kant, exploração do filão kantiano a partir de múltiplos meios de derivar o “ser” do Homem, e a descoberta de Marx correspondendo a mais um deles, a atividade dos seres humanos. Com Hegel de permeio como introdutor da ordenação da História na corrente da ação multissecular da espécie, e Feuerbach restringindo a atividade ao haver de necessidades. Marx teria feito a união consequente de Hegel e Feuerbach.
16 Mas a intenção de Paim não é a de um revisionismo doutrinário e humanista. Revela-se antes um crítico acerbo, pelo que Marx teria transformado o indivíduo de necessidades feuerbachiano numa abstração, a classe, que apresenta apenas “todas as características das famosas entidades [ideais] hegelianas contra a qual se voltava sua rebeldia.” (p. 346, 7)
17 É curioso como Paim, que antes reclamava de Locke a carência de metafísica, saudando o retorno aristotélico sobre ele efetivado em Portugal, agora procede tão bizarra inversão da famosa inversão marxista de Hegel. Ao contrário da versão comum, para Paim Marx não inverte Hegel por materializar a sociedade na classe econômica – mas por assim idealizar a sociedade civil. O que agora Paim considera entretanto crítica e não valorosamente .
18 Em todo caso, o problema aqui, conforme ele, resvala ao da existência, que teria assim, reduzida a “relações de produção”, sido impossibilitada de eplicar a consciência. Mais uma vez, Paim utiliza-se da autocrítica marxista, desta vez a sartriana, mas para estancar a consequência da renovação, e apenas ater-se ao conteúdo criticado, sem a dialética como trânsito metodológico à consequência.
19 E sua crítica não deixa de abranger o próprio revisionismo, na medida em que este deriva da transposição histórica, entre Hegel e os jovens hegelianos como Feuerbach, da atividade teórica limitada às ideias para o plano da intervenção prática, o ativismo político e revolucionário. Ora, como pensador da praxis, pode-se situar uma filosofia de Marx, segundo Paim, até por que a práxis deverá ascender à supressão das classes.
20 Mas o que Paim considera criticamente aí é que a práxis é definida como “a organização racional da sociedade”, quando na verdade ela é apenas “a elucidação do ser do homem através da sua criação (atividade cognoscitiva e prática)” (p. 348). Novamente a questão é como, desde a existência, explicar a consciência. Porém a meu ver esse é o equívoco na interpretação do existencialismo, ao menos como Heidegger teria prevenido na intenção de o evitar.
21 Um existencialismo autêntico só vem a ser desde que o conceito de “existência” tenha deixado de ser inteiramente positivo, e, assim, podemos notar que não há grande diferença entre as bases positivas de “organização” e “criação”. Se é o homem quem cria em vez do Ser, e em que se pode considerar com coerência algo como “ser”, é o que o existencialismo começaria por colocar em questão, fazendo dessa interrogação, que derroga um mundo de preconceitos anteeriores assim como o modus operandi da ideologia ou metafísica, o seu verdadeiro interesse – evitamos dizer “conteúdo” já que não predica a priori qualquer substância.
22 Que a existência, o mesmo que consciência por oposição ao abstrato objeto sem atribuição como tal, possa ser “explicada”, é já uma assunção efetuada em sua imanência, porém não sendo de modo algum comprovado se por “explicar” se está significando o prover da causa ou a definição total do fenômeno. Uma vez que ninguém pode totalizar a existência, pondo-se fora dela como definidor, não há critério metafísico válido de per se – além de sua história, que se poderia compreender como um sistema remanejável de concepções a partir de certos traços fundadores.
23 A impossibilidade da causa é o que assinalaria bem o pós-positivismo, em sua oposição radical ao positivismo – por exemplo, quando se considera que de fato, de que modo as necessidades declinam um indivíduo, se precisamente elas são pré-individuais, da espécie, como tal, do contrário limitando-se a falsa consciência como a ideologia? Em Sorel, a luta de classes já está na categoria do mito, mas o mito já é a base da ação.
24 Na consideração da corrente marxista no Brasil, Paim expressa a pérola do zoilismo, com a incoerência sintomática e característica. Não existe a seu ver qualquer “movimento teórico marxista” localmente desenvolvido, porém, sim, grande “popularidade das ideias marxista”. Logo, “a dificuldade reside em precisar exatamente em que consistem tais ideias desde que inexiste o movimento teórico” (p. 353). Impossível contar com qualquer fonte a propósito da penetração e interlocução das correntes internacionais do marxismo na sua ambientação nacional, de modo a aquilatarmos até que ponto a intelectualidade local refletiu a história social ou vice-versa, foi ela o reflexo das ideias correntes regionalmente. Também não há referência aos referenciais propagadores da popularidade das ideias de Marx.
25 A impossibilidade é portanto estrutural. Assim, mesmo quando a corrente inexistente é contraditoriamente constatada, vota-se novamente à nulidade: “não se pode fugir ao registro de que, tanto na década de trinta como nas seguintes... correntes políticas de inspiração marxista ou afins cresceram como uma espécie de onda ou moda para chegar inevitavelmente ao fracasso.” Não há, mas se houvesse, a corrente teórica teria que ser “suficientemente estruturada a ponto de explicar a eclosão dos novos surtos”. Ou existe a verdade absoluta ou não existe pensamento qualquer, não obstante tecer-se uma história das ideias... E até uma “versão brasileira do marxismo” - que já nessa altura do texto, como vemos, há.
26 Paim obtem nesse trecho a prova de sua hipótese do nosso positivismo congênito. O marxismo tem sua versão nacional porque é especialmente adequado ao positivismo, e, assim, eis o que explica o haver das modas não obstante nunca alcançarem o sucesso político – o que Paim não se lembra não ter ocorrido em qualquer parte além da União Soviética, sem que tenha cessado a produção da teoria marxista, pelo contrário, exibindo curva ascendente de Lukács a Althusser, inclusive a pós-modernidade dessovietizada, entre Jameson, Laclau, Eagleton e outros.
27 O positivista Leônidas de Rezende é então escolhido por Paim como a principal figura do marxismo brasileiro. Aluno de Silvio Romero na faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, em inícios do século XX, mais tarde mestre na Faculdade Nacional de Direito desde a década de trinta, oponente de Alceu Amoroso Lima e San Tiago Dantas. Relata Paim que a oposição local de direita e esquerda assim se configurou, com intensa participação de arquibancadas.
28 Essa figura principal do marxismo, Leônidas nunca pertenceu porém ao partido ou a correntes ativistas (“era de espírito demasiado livre para aceitar a disciplina de uma seita...”). A tese de Rezende é o determinismo economicista que, conforme o termo citado em Paim, “condiciona” todas as demais disciplinas como vasta cartografia da realidade: “a Filosofia, a História, a Genética (a formação das famílias), a Estética ou Arte, a Religião, a Moral, o Direito, a Política”. (p. 355)
29 Com Pereira Barreto temos na pregnância do positivismo, segundo Paim, a leitura da história do Brasil à luz da doutrina comteana dos três estados (religioso, filosófico e científico), que resumiriam como evolução do ethos grupal as idades da história até o presente – e de que se pretende deduzir um programa de ação política cientificista, tipicamente assim com Spencer.
30 Leônidas utilizou o esquema das idades comteano, ao que parece modulado por leituras de Hegel, num sentido marxista, e aplicado à filosofia, em que contribuiu com a nomenclatura de segunda e terceira, além da conhecida primeira. A filosofia primeira sendo a dos universais, a segunda seriam as seis ciências de Comte, e a terceira essas ciências aplicadas a técnica. A filosofia antiga teria sido transformista, a medieval e pós-feudal (“moderna”) não transformista, e a contemporânea transformista porém dialética e materialista. (p. 356) No esquema comteano de Barareto, o Brasil Colônia teria manifesto o espírito teológico, seja na forma do fetichismo, seja do politeísmo - aqui parece-me importante que o sujeito da análise seja o povo, em vez do catolicismo dos colonizadores, ainda - e sobretudo - que a atribuição não esteja como algo meritório. Somente no período imperial implementa-se a metafísica, coexistindo com o monoteísmo e o politeísmo.
31 Barreto vê a "questão religiosa" que precipitou a transição do Império à República - pois a radicalização católica nessa época exigia a superação do "regime do padroado" do imperador sobre cargos eclesiásticos - como o divisor de águas entre os estados teológico e metafísico.
32 O momento metafísico brasileiro teria sido pontuado por mesclas - crendices populares e religião católica, mais a penetração de conceitos filosóficos como o deus impessoal da metafísica. Não obstante a estreia desabonadora do povo na história do Brasil, ele permanece atuante no relato de Pereira Barreto. Ocorre que o papel decisivo cabe ao intelectual. Pois na década de setenta do século XIX brasileiro, parece-lhe que só os intelectuais poderiam desfechar o golpe cientificista, de superação da teologia e da metafísica a um só tempo.
33 Ora, nessas circunstâncias, seria preciso, conforme Pereira Barreto, abdicar da pureza doutrinária e firmar aliança com os metafísicos - republicanos, liberais, bacharéis, etc. - contra os teólogos. A questão seria implantar o objetivo do progresso no espírito nacional, e por aí o programa da sociedade racional, a constituir como o estado “positivo” (científico), encontra sua orientação básica. O cerne da reforma seria o ensino, que deveria desenvolver-se no sentido científico e técnico, eminentemente envolvendo o nível secundarista. No plano geral trata-se de instituir um caráter enciclopédico ao currículo pela inclusão das ciências positivas, mais especificamente tratado conforme a orientação dos especialistas para cada disciplina. Exige-se também a desvinculação de ensino universitário e privilégios de castas.
34 Pereira Barreto tornou-se prosélito da imigração como solução do povoamento territorial nas condições de superação da utilização do braço escravo. O essencial de sua orientação parece ser a integração da população em termos racionais, isto é, voluntários, ao processo de modernização que iria reverter na autonomia da nação ao mesmo tempo em que numa consciência de nacionalidade autêntica por participação em termos de cidadania.
35 Ao contrário do intelectualismo positivisa de Barreto, Leônidas de Rezende reprovou Comte pela perspectiva de Marx: “Respondem-lhe os marxistas: não. Sua filosofia é positiva, é determinista e sua Política e sua síntese metafísicas”. (p. 361) Por um lado o comtismo é ciência, por outro, na Síntese, é religião. Conforme Paim, ao ver de Leônidas Rezende, “Comte é reformista, Marx, revolucionário”. (P. 362).
36 Porém critica Paim a Leônidas por ter pretendido um Marx positivista, de modo que sistematizou a série de coincidências nucleares entre o comtismo e o marxismo, até o ponto em que Marx instrui o trânsito à propriedade coletiva por meio da insurreição armada, consequência esperável da concentração crescente da renda nas mãos de poucos. Enquanto Comte pensava a mesma mudança social em termos de educação e conversão à “religião da humanidade”, sua síntese suposta sociológica das religiões conhecidas.
37 Paim considera que o objetivo pedagógico de Rezende nesse paralelismo de Comte e Marx é algo só explicável pela inserção no cenário local, onde o positivismo teria se apresentado como conquista autêntica. Na verdade, além do quadro característico da movimentação armada em prol da República, não se vê bem porque seria assim, já que o positivismo era o contrário de qualquer reconstituição de singularidade cultural, visando a redução da cultura à ciência europeia industrializada. Bem inversamente, são o Romantismo, e, mais tarde, o modernismo, que tematizam explicitamente a questão da singularidade cultural e nesse sentido, que é o pertinente às ideias, do nacionalismo.
38 Também não se compreende bem, assim, como Paim concebe o “momento” da produção marxista, uma vez registrando ser oposto ao do humanismo pós-positivista em que também decorre a revolução soviética – se Paim não concede que aquele momento é o positivismo.
39 Eu mesma estou aqui apresentando os motivos pelos quais não considero separáveis a produção de Marx e a epistemologia positivista, objetivista-determinista, desprezando a cultura como ideologia frente à ciência isentável dela, porém salientando eu que, pela dialética assimilada de Hegel, Marx antecipa a viragem humanista na história das ideias – se o proletariado é mais que o efeito científico da história, é o ser humano explorado, que não aceita e se revolta.
40 Na concepção de Leônidas, Comte e Marx são por igual inversos a Spencer por ser este o único individualista, e aqueles coletivistas. Não sendo isso o que Paim critica, mas sim que Leônidas tenha considerado que a provisão da ditadura é conceito científico-social do progresso tanto em Comte como em Marx. Pois, ao ver de Paim, se bem que um tanto confuso nesse trecho, Marx não propugna “a ditadura do proletariado como antípoda da democracia”, o que não seria possível por ser Marx um adepto da esquerda hegeliana. Portanto, o que ocorre na União Soviética não poderia ser considerado autenticamente o pensamento de Marx.
41 A meu ver uma consideração histórica desse tipo teria que remontar ao próprio Hegel, como à relação do seu constitucionalismo cum príncipe e a democracia real. O que é muito contestável, e Marx mesmo o contestou. Como eu considero que Marx pensou na ditadura não por causa de Hegel, de modo que seria uma ditadura democrática ao ver de Paim – seja lá o que isso pudesse expressar - e sim para atender ao determinismo objetivista na ciência, que não era epistemológico sem ser a neurose sádico-anal positivista, da Ordem personificada no Saber Científico, e, assim, havendo “um” Sujeito da história, a questão é importante ser aqui suscitada.
41 Envolve porém a individualidade, uma vez que o dogma positivista em geral e marxiano em particular é que ela só é autoconsciente desde a ciência na sociedade moderno-ocidental- industrial. Não já, portanto, devido ao constitucionalismo da sociedade civil como no Romanticismo – mas ao determinismo objetivo do regime capitalista assalariado. O desacordo a propósito, entre Marx, Comte e Spencer, só poderia relacionar-se à compreensão de pormenor da Economia. Não poderia relacionar-se à autoconsciência subjetiva como fator do progresso, mas o sujeito sendo o reflexo do conhecimento material, este o dogma comum a todos na era positivista.
42 Vemos porém que Marx tem muito de independente em relação à episteme positivista na qual raciocina, pelo fato de não ser apenas a ditadura do proletariado o que ele considera o meio do progresso futuro, mas também outros meios propostos. Como as trasnformações da técnica suprimindo a servidão do trabalhador a uma função única, ou a concorrência exacerbada dos capitalistas, que conduziria a um caos bastante anti-spenceriano.
43 Após muitas páginas dedicadas a exemplificar o enraizamento radical, aparentemente insanável, ainda atual, do positivismo no Brasil, Paim retorna ao pensamento pós-comteano, com Otto de Alencar, cuja crítica a “Alguns erros de matemática na Síntese Subjetiva de Augusto Comte” - de 1898- forma "um pequeno núcleo de pensadores que acabaria logrando derrotar o comtismo como filosofia das ciências e fazer com que o país acompanhasse a evolução do pensamento científico". (p. 372)
44 Mas o pós-comtismo aí tratado não é ainda o pós-positivismo enquanto repúdio humanista ao autoritarismo científico sobre a cultura. É apenas o movimento de renovação do positivismo, que a partir desse artigo de Otto de Alencar, depois com Pontes de Miranda, Amoroso Costa e Leonidas Hegenberg, expressa a interlocução nacional do Círculo de Viena. O neopositivismo nacional tem um ponto alto em Benjamin Constant e R. Trompowsky, culminando na visita de Einstein ao Brasil, em 1925. (p. 371)
45 O neopositivismo de Viena, por mais oposto às ingenuidades de Comte, deveria ter motivos para conservar o rótulo “positivista” mesmo acrescido do sufixo esclarecedor como algo “novo”. De fato, do mesmo modo que o dogma determinista que havia sido o de Comte, porém geralmente observado nos meios do século XIX, não se limitava à reserva da atribuição de toda verdade possível à ciência moderna. Mas também a uma prescrição suposta necessária, prévia às disciplinas efetivas, do que pode ou não ser objeto de ciência, assim como o que tem ou não sentido. Razão pela qual Piaget nega ser neopositivista, uma vez que ele não concebe uma partição prévia do que pode ser científico – aquilo que parecia não ter sentido como mera crença na cultura, pode revelar-se passível de cientificizar-se. Assim Piaget é menos positivista por ser mais cientificista, afirmando pois que toda questão humana pode ter tratamento científico. Já o que o pós-positivismo humanista nega é precisamente que as questões humanas possam ser cientificamente reduzidas, mas não por alguma defasagem de sentido, pelo contrário.
46 Com o simbolismo que inicia a reação humanista, porém, a “cultura” se torna o elo na sociedade, cuja formação se torna pensada numa correspondência aos valores subjetivos. Vemos que a percepção de Leônidas Rezende a propósito da ciência da sociedade como o que na era positivista se havia acrescentado à ciência natural, não é de todo anacrônica, ainda que assim ele tenha abstraído o verdadeiro início das ciências humanas, com o Romanticismo. O fato é que a sociologia suplantou a história, que deixou de ser independente, pelo dogma da objetividade determinista enquanto o que dota de sentido ou cientificidade a uma proposição. Ora, o simbolismo já compreende a sociedade ulteriormente ao haver de uma ciência objetiva dela. Assim pôde ripostar que a sociologia da Ordem criticava o historicismo romântico em nome da objetividade mas não tinha de fato um objeto estritamente social (humanístico).
47 A meu ver, Foucault em “As palavras e as coisas” falha crucialmente na apreensão desse trânsito histórico, supondo que as ciências humanas não tem objeto próprio – por isso não seriam ciências de fato, mas um retorno da arcaica “representação” classicista. Não apreende assim a segmentação interna à modernidade, atribuindo o que veio a ser descoberto apenas desde o simbolismo e na inserção das ciências humanas, ao positivismo como ideal-típico da ciência em geral, ou seja, a “estrutura”, o objeto epistemologicamente produzido por uma delimitação sistêmica do signo. Mas como Foucault não define realmente onde, nas ciências naturais, teria emergido o conceito do signo, quanto à linguística vai tratá-la algo ridiculamente como... ciência natural – ainda sem ruptura assinalável entre o século XIX e Saussure.
48 Não obstante, se o positivismo, como exemplarmente Marx e Engels, havia subordinado a subjetividade romântica à ideologia – ao contrário do que seria o verdadeiro indivíduo auto-consciente, objetivista - o nexo de cultura e sociedade, que na era romanticista havia permitido a emergência das ciências do espírito, havia se reduzido à objetividade, e eis a função epistemologicamente revolucionária da “economia”. Vemos que realmente pode ser atribuída, uma vez que o argumento subjacente é a materialidade do objeto como sine qua non da pretensão científica. Porém a ironia é que o positivismo mesmo pretendera-se a ciência menos a filosofia. A controvérsia entre Althusser e Foucault, a propósito de se é Marx o revolucionário da episteme como afirmou aquele, ou a modernidade como o positivismo emblemático do materialismo, conforme o objetor, não nota assim o anacronismo próprio. Pelo contrário, quis Althusser que a revolução fosse ao mesmo tempo a materialidade e o conceito.
49 O “simbolismo” não foi um recuo ao idealismo. Apenas a descoberta da nova objetividade, o signo. Paralelamente podemos demarcar a transição tríplice. À carne que se prestava à encarnação da ideia polissêmica dos românticos, sucede a matéria positivista que, como o átomo de Thompson, conteria em si, sem hiato algum, o positivo e o negativo, ideia de uma objetividade que porém a nada se relaciona enquanto correlato do pensamento. Mas com o simbolismo já só se trata da matéria como suporte das forças, como se o átomo se houvesse nucleado na descoberta de Rutheford.
50 O sintoma geoegológico é que assim não se acedeu ao pensamento por relações sem, no mesmo ímpeto, produzir um equivalente determinista, um elemento da determinação simples, objeto final da análise – o signo. Estranha materialidade. Como o poema de Pessoa a propósito da lenda de Ulisses fundador de Lisboa. Inversamente à interpretação de Jakobson, jogo progressivo de oposições numa superfície expressiva que não teria assim qualquer reflexividade, creio que o poema reflete, sim, mas a ausência radical do fundamento, o significado, que seria a ação positiva na história. Ulisses, puro signo, lenda de um mito, porém o verdadeiro operante do acontecimento histórico da fundação de Lisboa, enquanto o sentido que reúne os agentes que nela tomaram efetivamente parte.
51 A crítica de Lacan à noção de signo é aqui relevante. O significante não é um signo na acepção de um sinal semanticamente decodificável, mas um signo especial porque o que ele apresenta é um sujeito para outro sujeito. O significante é o signo desde o imaginário investido, aquele que só compreendemos situando a nós mesmos. Lacan considera assim que o “estruturalismo” não é o mesmo que “simbolismo”, e, de fato, não é ideação convencionada, mas o funcionamento algébrico num sistema operável. Mas o “simbolismo” como a era inicial da semiotização da cultura não foi totalmente ingênuo a esse respeito.
d) Simbolismo e Modernismo : A Revolução Cultural
1 A transmutação nietzchiana pode ser assim interpretada. Trata-se de sutilizar a matéria, de modo a tornar as forças pesadas em forças leves, aquilo que parece necessário em correlato de alguma atribuição de valores – sendo a atribuição de valores já nada gratuito, e sim o resultado de um sistema culturalmente integrável.
2 Como vimos, o positivismo já implicava uma reforma espiritual como condição da mudança social, porém a reforma pós-positivista foi a que antepôs o termo “cultura” como quaisquer artefatos, materiais ou espirituais, produzidos pelo homem, ao termo “ciência” como disciplina moderna de pesquisa positiva.
3 A cultura do simbolismo era portanto o contrário da universalidade objetiva do positivismo, mas como totalidade de cada sociedade, o culturalismo simbolista foi o meio da idealização de colonialismo alternativo ao histórico, que já examinamos acima.
4 O cenário fim de século é muito complexo e aqui não seria oportuno desenvolver as aporias relacionadas. Já o início exato do século XX é algo nebuloso, assim para alguns só convem estabelecê-lo desde 1914. Há ao menos ruptura assinalável do Simbolismo ao Modernismo do século XX, ainda que movimentos como o dos impressionistas não sejam facilmente definidos pertencentes ao primeiro ou ao segundo.
5 Um fenômeno como o da Vanguarda, de agressividade ao público, não era possível no simbolismo, porém o anarquismo é atribuível tanto a Stirner como a Bakhunin. E algumas atitudes do Nietzsche tardio contra o meio wagneriano podem ser vistas semelhantes ao assalto das expectativas quanto à arte como divertimento de classe, que praticou tipicamente a Vanguarda.
6 Porém Artaud não foi nietzcheano, e sim um neoromântico, devedor de Hoffman e Edgar Allan Poe. O que só tornaria as coisas mais complicadas. Max Stirner parece uma exceção naquilo que Baudelaire condenou como o reducionismo sociológico, que de fato não foi sustado no pós-positivismo, de modo que a metodologia da Verstehen (compreensão), dos neokantianos à Dilthey até Weber, restaurando a autonomia das ciências humanas contra o fisicalismo dos (neo)-positivistas, apenas permitiu um novo tipo de totalização sociológica do ideal-tipo, não obstante pretender estar retomando a grande tradição do idealismo subjetivista alemão. A propósito, Talcott Parsons em The Structure of social action, mostra-se bom na reconstituição histórica tanto como na crítica a essa ambiguidade. Já o “eu” stirneriano é absoluto, porém nitidamente não romântico, pois avesso à síntese histórico-cultural e estatal. Ora, podemos indagar em que Artaud a teria retomado. O que ocorre só podemos compreender de um outro modo, tal que a síntese tornara-se ela mesma decomponível pelo signo, e, assim, do Simbolismo à Vanguarda, o que há é avanço nesse rumo da dessubjetivação pós-ideológica.
7 Mas o simbolismo ainda não se utiliza da pesquisa de campo inaugural da antropologia social em inícios do século XX. Ela serviu à Vanguarda – que em alguns casos até mesmo a fez de algum modo, como Artaud e já antes Gauguin – para ultrapassar o limite romântico assim como bem postulado em Carpeaux a propósito da história da música, no cromatismo. Tornara-se o cromatismo wagneriano a opção disponível da arte redutível à cultura europeia, na via da proliferação do signo. Mas teríamos també que acrescentar, redutível à concepção retórica, oral, da língua. A linguística de Saussure e a teoria do inconsciene são o foco da ruptura.
8 O modernismo teria sido a ultrapassagem do limite wagneriano, a recriação dos sistemas de signos não ocidentais na própria arte ocidental. A cultura do “desreprimido”, como na terminologia de Marcuse, com a questão de base vindo a ser, obsessivamente, como o signo um dia se tornou o suporte de sua própria repressão, sendo esse dia a origem do Estado e do logocentrismo europeus. Vemos em que Artaud não é nietzchiano, ainda que a questão fosse a mesma. Nietzsche nunca pensou nessa recriação do além do Ocidente como a via do super-homem, o ser semiótico integralmente assumido. Pelo contrário, ele pensava na Ásia como a reprodução do platonismo, apenas suavizada pelo tempo. Não tendo registros assinaláveis além dela como horizonte da alteridade cultural, a Ásia de Nietzsche nem mesmo é a dos antropólogos de campo, é a idealização de Schopenhauer invertida.
9 Sendo desse modo, poderíamos entretanto supor que o simbolismo finalmente liberou um ambiente de pesquisa cultural, e ele, por causa do interesse na baudelairiana “floresta de signos”, teria algo original para encontrar em países como o Brasil, podendo assim antecipar o Modernismo. Limitou-se porém a uma interpretação espiritualista radicalmente ocidental da transmutação, como na obsessão com a brancura em Cruz e Souza – suas namoradas negras sendo cantadas em versos como o símbolo da alvura, o branco virginal em essência; e à oralidade das “veludosas vozes”, onde o poeta parece ressoar algo dos “sanglots longs des violons”, de Verlaine. Mas assim não se pode atribuir-lhe indiferença à questão do dia.
10 Na verdade o simbolismo dos anos noventa do século XIX, é entre nós o equivalente da complexidade histórica da transição secular. Contemporâneo da poesia parnasiana que foi ainda correlato da prosa realista, mas prolongando-se até a vigência do Modernismo, de modo que o ramo pensante do movimento simbolista está à testa do “renouveau” católico dos anos vinte, que congrega de Carlos de Laert a Jackson Figueiredo, forma o ambiente da geração regionalista e do nazi-fascismo “anta” (“integralismo”) - lembrando o que constatamos no estudo do Livro 2, a saber, que o “anta” não se esgotou no fim do movimento após 1945, ao contrário do que se sabe comumente, mas tornou-se o protagonista da CIA local responsável pelo golpe de 1964.
11 Com efeito, Jackson Figueiredo foi o fundador do Centro Don Vital, aquele que como vimos antes se tornou um pivô da movimentação golpista da CIA/UDN/ESG (Ipes/Ibad) em 1964, liderada pelo “anta” (“integralista”) Ivan Hasslocher. O estudo do simbolismo nacional revela conexões importantes na formação do “anta” de Plinio Salgado, ainda que tenha sido um movimento modernista da segunda geração.
12 Conforme Bosi, de fato, na altura da transição ao século XX, “No campo das ideias políticas, a verificação da impotência do liberalismo para resolver os problemas sociais empurrou quase todos os neocatólicos para doutrinas pré-burguesas e, no contexto, reacionárias: o monarquismo, o corporativismo, e, após a I Guerra, o fascismo (no Brasil, a forma mitigada deste, o integralismo).” ( p. 337).
13 O mistério aí seria como, porém, a resolução dos problemas sociais, que deveriam forçosamente enfeixar as providências para a modernização industrializante e crescimento do mercado interno, puderam chegar à fórmula golpista que congregava os representantes proeminentes do latifúndio com a propaganda da modernização radical, ainda que de cunho imperialista, como integração ao mercado multinacional, em todo caso industrialismo urbanizante e via União. Portanto, o que estava havendo na época da trajetória simbolista não parece a impotência do liberalismo, mas sim a exacerbação crescente do conflito das forças urbanizantes nacionais que o representavam localmente, contra a opção integracionista que só beneficiava a agro-exportação.
14 Ou seja, o significado local de “liberal” e “conservador” tem sum sentido específico, e já estudamos o quanto a ignorância a propósito conduz a erros que se tornaram legendas na historiografia local, principalmente sendo oriunda da aplicação do esquema leninista. Uma vez que, como vimos, a classe média “udenista” definiu-se do lado da agro-exportação, e não o contrário, impedindo a caracterização dicotômica de campo e cidade.
15 Estudamos minuciosamente esse problema em nosso cotejo do livro 2 entre os historiadores divergentes. Agora, visando a perpsectiva de bosi, mesmo se constatamos que ele não procede a mudança conceitual necessári, creio ser difícil conceber maior integração do pensamento à ambientação política local do que o reportado na citação acima. Uma vez que Bosi, cuja tarefa é a história literária, preenche assim uma lacuna na história das ideias que repercute na reconstituição da história política.
16 A meu ver, contudo, a recepção crítica do nosso simbolismo apenas parte da ruptura para com a subsunção ao imediato, que caracterizou o positivismo na pressão da revolução republicana. Ou seja, em termos de solvência do definido na ambientação de ideias, enquanto a versão de José Veríssimo a propósito do simbolismo local como mero “produto de importação” não parece seriamente desafiada por Bosi.
17 Ele coloca o mistério em torno da questão: “... na verdade, não é fácil indicar homologias enre a vida brasileira do último decênio do século e a nova poesia, considerada também como visão da existência”. Que, porém, seria um puro decadentismo, limitando-se a um movimento esteticista, já que aquilo pelo qual puderam ter lutado era o que os unira na mocidade aos realistas positivistas, a abolição e o republicanismo, mas agora tudo isso já estava conquistado e não havia solo na ação: “Visto desse ângulo, é apenas de grau a diferença entre o parnasiano e o decadentista brasileiro: naquele, o culto da forma; neste, a religião do Verbo. Em outros termos: alarga-se de um para o outro o hiato entre a práxis e a atividade artística”. (p. 300; 302).
18 Na história das ideias, podemos construir uma trajetória menos medíocre, se lembrarmos que o futuro do Simbolismo entre nós não foi restrito ao neocatolicismo e ao fascismo. Estes que porém é Bosi que informa, e quanto aquele futuro, somos nós quem precisamos reconstituir pela inclusão do Modernismo. Se assim for feito, bem inversamente à queda na ideologia, ocorre aí a curva que os Modernistas infletiram como da autoconscientização, o ascenso nacionalista, resultando positivamente na era Goulart.
19 Como constatamos antes, o acontecimento do golpe não reflete o processo histórico enquanto o resultado desse ascenso, mas a ruptura dele na base da força bruta, com o fascismo, o integracionismo agrário-exportador, e a psicose importadora da classe média tendo sido suplantados a ponto de mostrarem-se totalmente minoritários na política, na qualidade de representante do pacto integracionista, na era Goulart. Porém ainda assim repentinamente foram alçados a lobbyng preferencial dos governos do terror, e ao governo pelo golpe militar protagonizado pela articulação CIA/ESG/UdN, cuja base material (financiamento) como documentou Dreifuss provinha das maiores multinacionais do mundo.
20 Ruptura de um processo histórico cuja ideologia está bem inscrita na ordem do conflito Leste/Oeste, que assim, contudo, pode ser delineado em sua lógica como apenas a fachada do que hoje conhecemos mais propriamente em termos do conflito Norte/Sul. O que explica a perpetuação do terror pelo poder econômico contra a legalidade do Estado constitucional democrático, mesmo desde a assim designada “redemocratização” dos anos oitenta – ou seja, acentuando-se progressivamente num quadro pro forma constitucional democrático, assumindo-se a contradição na retórica do “neoliberalismo econômico” anti-estatal.
21 Logo, inversamente ao que os ideólogos do conflito Leste/Oeste conjecturavam em uníssono, nesse uníssono não havendo portanto divergência dos adeptos de Marx a Nietzsche – e eis o que poderia tornar “coerente” um empreendimento como a esquizoanálise, unindo a ambos - não por ter havido qualquer resultado de super-investimento estatal. Bem inversamente.
22 A trajetória, pois. Ela se constrói por um ciclo de influências que foram estratégicas a um nítido crescimento da consciência da nacionalidade em termos de questões articuladas, de “temas e situações” como no título de Bosi em coleção de artigos. Na trajetória das ideias temos algo nítido como a progressão dos influenciados por Hegel (Tobias Barreto), Bergson (Farias Brito), Nietzsche (Nestor Vitor). Já o que deveríamos considerar o marco do Modernismo, é o que menos se costuma associar a ele, a saber, a interlocução à teoria do inconsciente, como real assimilação da problemática do significante. A trajetória se completaria com Freud (Oswald de Andrade).
23 Nela delineamos o que designei o ascenso da curva da autoconscientização da nacionalidade, até a assunção de um governo realmente representativo da população como em Goulart. Porém do mesmo modo divisamos a linha que inflete a oposição que protagonizou o golpe, instaurando o estado de recolonização pela força bruta, que o atual “conflito norte/sul” define. Nessa linha ocorre a perpetuação do que estudamos até aqui como o zoilismo, dominação cultural e política racial, psicoticamente alienados da inserção local, os quais pela proximidade ao quadro colonial e perpetuação do imperialismo, monopolizavam porém a vida pública antes das duas guerras.
24 Incursionando pela delineada trajetória, vemos que o hegelianismo de Tobias Barreto limitou-se à mudança na concepção antropológica. A espécie tornava-se uma abstração, o existente sendo os grupos humanos culturalmente heterogêneos, as sociedades. A filosofia de Tobias, referência principal da nossa “Escola do Recife”, introduziu o germanismo, (“alemanismo”), produzindo-se porém como um prolongamento do positivismo, adaptado como pensamento radicalmente monista de Haeckel. A característica de renovação, porém vindo do positivismo e a ele relacionada, é o que define em geral os participantes da “Escola”, até Silvio Romero.
25 Onde o monismo de Tobias se colocava pela unidade atômica compositiva do mundo, que nele suporta as qualidades de movimento e sentimento, o interesse da temática da natureza consistia apenas em manter a unidade para acentuar o estado originário das forças que preexistem ao homem. E com isso realçar o hiato desse estado de natureza àquele do mundo produzido pela ação do homem.
26 As críticas a essa solução de Tobias me parecem não ter atingido o cerne do que ela sustenta, a saber, a imanência da natureza, o que vem a posicionar a ação do homem, não mecanicamente prescrita por qualquer finalidade natural, de um ponto de vista também não idealista. Bem alinhado à época, Tobias justamente não poderia ser acusado do arcaísmo da “representação” unívoca de um universo fixista de harmonia pré-estabelecida. A “imanência” é já como se considera desde o estruturalismo. É natural, mas como a inserção singular, autônoma, dos processos e das ciências, o contrário de um todo extrínseco de “razão” que ordenaria homogeneamente a tudo.
27 A liberdade do humano, que consiste na luta pelo auto-limitar-se visando certa finalidade inexistente na natureza, na sua expressão, é uma "seleção artística". Por aí mostrando-se, a meu ver, que não seria muito adequado tentar reduzir seu conceito de liberdade e finalidade a Kant, este que depende de um esquematismo, enquanto Tobias endereça-se a um valor formal.
28 Em todo caso, seria absurdo considerar idiossincrática ou “admiração exclusivista” a interlocução da filosofia alemã a essa altura do século XIX. É porém o que faz Costa, ao designar a atribuição a Tobias, o “moço pobre”, como introdutor “das ideias filosóficas alemãs na história intelectual do Brasil”, meras “ingenuidade”, “embasbacamento”, e nem mesmo “apenas mania, mas voluntária alienação em face dos problemas brasileiros.” (p. 52) Como vimos, nem mesmo se pode considerar que a filosofia alemã era desconhecida até então, não só pela nítida coincidência dos conceitos de Antonio Figueiredo e Schelling, mas pela influência de Hoffman na literatura – sendo o caso especialmente do romance “A luneta mágica”, de Macedo. O que nada tem de singular, uma vez que o romantismo nasceu na Alemanha, e a filosofia do século XIX inaugurou-se pelo pós-kantismo.
29 Farias Brito traduziu a influência de Bergson. Aí a continuidade característica da Escola do Recife ao positivismo, como faixa de questionamentos que porém não o ultrapassavam de todo, se limita por uma guinada neometafísica decisiva. Por “neometafísica” costuma-se referenciar, em história da filosofia, o retorno do espiritualismo – corrente efetivamente bergsoniana, na fileira que remonta a Maine de Biran – e o pós-positivismo que, seja qual for a corrente, vem a considerar a cultura como ontologia existencial. É verdade que a designação é algo questionável, já que se tratava como em Nietzsche e Heidegger, de reduzir o positivismo à “metafísica” considerada, ao invés, como redução objetivista, unilateral, do sentido como generalidade “universal”. Porém o existencialismo que assim resultou tem sua influência sobremodo marcante na teologia, com Gabriel Marcel e Paul Tillich. E envolveu neoidealismos como de Bradley e Bosanquet, ou movimenos em prol do “absoluto” além dos fatos e dos indivíduos, como de Edward Hartman, Spir e Lotze – não obstante Spir contrapor explicitamente os conhecimentos “metafísico” e este do “Absoluto”. O termo “neometafísica”, em todo caso, é o preferido dos historiadores de filosofia, demarcando a contraposição do novo ambiente ao cientificismo positivista.
30 Mas a transição de Tobias Barreto a Farias de Brito é emblemática daquilo que distingue esse novo ambiente. Em Tobias, a proximidade do positivismo permitia que a ênfase na pluralidade das regiões do saber objetivo não fosse obstáculo à legitimação do saber científico, bem inversamente. O culturalismo não era assim visto como um limite, mas como a autonomia das partes num processo universal.
31 Ora, é um substrato bem oposto quando, com Bergson, se retroage a inspirações como as de Schelling, quando a unidade da natureza ainda não era pensável nas suas articulações materiais, para propor que se a realidade não corresponde ao fenômeno como o real ao aparente, mas sim como o todo está para a parte, de modo que na percepção o espírito está em contato imediato com as coisas, por outro lado, o conhecimento pode desenvolver-se em sentido inverso ao da construção intelectual, voltando-se do objeto ao sujeito puro. A unidade da duração na consciência com um ponto ancorado na percepção do presente, guarda alguma semelhança com a physis pré-socrática à qual Heidegger insistia em voltar-se como ao horizonte da inteligibilidade relativa ao seu tempo e lugar.
32 Pode ser que assim Heidegger tenha evitado muito do platonismo do método de divisão dualista bergoniano. O platonismo dessa concepção reside, portanto, na orientação que veta ao pensamento o sentido da imanência, uma extensão aos dados das ciências, para propor, aí sim, um dualismo originário do pensamento como da própria natureza: uma direção para a objetivação, cujo reflexo no pensamento é o produto das ciências, e uma direção para a subjetividade pura, cujo conceito, porém, se restringe a uma potência de objetivação de ideias igualmente puras.
33 Se há contradição, a meu ver instala-se entre a postulada unidade da Natureza, que seria da evolução como uma vontade atuante ou criadora, por onde Berson pensa evitar a ingenuidade de Platão acerca do céu das ideias, mas conservando sua intuição mais genuína da premissa intelecto-idealista, e a dualidade que nenhum platônico jamais pode conjurar entre intelecto puro e objetividade natural.
34 Assim, a ciência real seria apenas o conhecimento do fundamento esquemático ideal, enquanto as ciências que se praticam sob esse título se limitam a postulações parciais do dado, quando, conforme o primeiro Natorp, este, por mais primitivo que se apresente, é sempre construído, no sentido de ser re-construível por um formalismo sintomático do verdadeiro conhecimento cujo objeto é o ser dessa construção. Por aí a mística da "ação" pura, isto é, o ato dessas construções cujo reflexo "material" são os dados do mundo, os quais revertem como puros correlatos do sentido, as relações lógicas, portanto, meta-físicas - nesse sentido do termo que não reproduz o tradicional, a proveniência do objetivismo universalista.
35 Coincidem desse modo, conforme o neokantismo de Natorp, o verdadeiro conhecimento, a verdadeira ação, e a verdadeira Natureza - tudo idealmente postulado, de modo que a dualidade se propõe resolvida por uma unidade mais fundamental que se revela como a via da subjetividade pura, mas assim “sujeito sendo apenas a ação, e esta determinando-se unicamente como atuação de relações inteligíveis.
36 Não se trata portanto do “sujeito” na acepção romanticista, mas do decomponível pelo formalismo. Na psicologia, como em P. Janet, a antítese de Fichte entre o Eu e o Não-Eu já se reennunciava como efeito da sociedade civilizada, não universal. Por um lado, abstração como a consciência em si, daquilo que é apenas parte dela, como o pensamento reflexivo. Por outro lado, o eu só se auto-apreende na oposição a outro que é o “socius”. Conforme Wallon apresentando a posição da psicologia nova em geral e de Janet em particular. Ao contrário da antiga fantasia “de que não há consciência possível sem um sujeito que se percebe a si mesmo primeiro e sempre, ao mesmo tempo que ao conteúdo móvel de sua consciência”, pensava-se agora que “o sentimento de identidade pessoal, a noção do eu, bem inversamente a ser primitiva, é ausente em muitos estágios da evolução psíquica, e depois de sua tardia aparição, guarda uma manifesta facilidade para alterar-se e desvanecer-se”. (La consciência y la vida subconsciente, op. cit. p. 37)
37 Na redução formalista ao inteligível – definido este em função do sistema imanente - a oposição radical entre o matematicismo formalista dos neokantianos de Marburgo como Cohen, Natorp e Cassirer, e a intuição pura do bergsonismo, não deixa de viabilizar um terreno comum.
38 A Relatividade, com Einstein, mesmo tendo restaurado a preminência do intelectualismo matemático sobre o empirismo positivista, de fato é o limite dessa tendência simbolista. Uma vez que Einstein reserva à matemática o papel esquematizador, mas não todo o papel ativo, pois o dado restringe - na sua independência real que nenhum platônico ou bergsoniano afirmaria - o inesgotável das possibilidades teóricas. É algo irônico que o matematicismo tenha se afirmado aí pelo triunfo da física atomística, e não o contrário. O átomo da modernidade é um construto matemático, e uma realidade assim contraria frontalmente a premissa puramente positivista.
39 No momento de Farias Brito e da vigência "clássica" da Escola de Marburgo, o modelo da época é certamente Bergson. Após o êxito da Relatividade, o momento será dominado pelo influxo da fenomenologia.
40 Einstein, e, depois, a física quântica, alteram o quadro que vimos, ao longo do período neo-metafísico desde aproximadamente os anos oitenta do século XIX, ter exibido uma nítida guinada à direita de que é exemplo o deísmo de Farias Brito. Conforme Costa, este nem totalmente desligado da “paisagem natural” ou da “paisagem humana”, ao contrário do que supôs Silvio Rabello, nem considerável o “verdadeiro despertar da nossa consciência” pela introdução da metafísica, discordando assim também Costa de Tasso da Silveira. Porém não para valorizar Farias Brito, alçado a ideólogo do integralismo pelos adeptos do movimento de Plinio Salgado, como “sustentáculo da vaga ideologia dos camisas – verdes do Brasil”. (p. 63)
41 Ao ver de Costa, concordando com Gilberto Freire, Farias Brito foi “filosofante” apenas por ter sido um frustrado na carreira política, mas, assim, pensa Costa que no terreno das ideias voltado a realizar o que lá pretendia, a reforma das coisas segundo apenas seu arbítrio íntimo. Oswald, inversamente, poetizou o percurso de Brito: Farias Brito e os modernistas sob o "céu deísta". Ou seja, como podemos conjecturar, o deísmo suscitado pela visão da beleza exuberante dos trópicos seria de fato a reformulação intelectualista do animismo.
42 Vemos em todo caso, que o reformismo comum a Farias Brito e o integralismo depõe contra a tese bosiana de total desvinculação dos pensadores simbolistas ao político. (bosi, p. 335) Além disso, o próprio Bosi considera que o claro espelho do simbolismo na produção de ideias foi Nestor Vitor, interlocutor de Nietzsche, que depois, idoso, tornou-se simpatizante dos modernistas. Porém a interpretação de Nietzsche por Nestor Vitor faz de Nietzsche um crítico impiedoso da condição humana, de cuja leitura só se haveria de haurir a depreciação de si mesmo. (p. 333, 334)
43 Como se coaduna essa tendência com a exaltação do intelectual pelo Macunaíma de Mario de Andrade? É que a depreciação soa à cumplicidade, entre os fortes, porém aos “seres falsos”, como “as falsas inteligências e os falsos corações”, a “ironia corrosiva” e o “sacarmo dissolvente” de Nietzsche seriam um veneno fatal. Ainda assim há certa ambiguidade, pois Nestor Vítor foi cultor de Novalis e Emerson, que Bosi designa “escritores estrangeiros mal conhecidos entre nós”, porém, como sabemos, romantíssimos – o contrário do que valorizava o pensador da “Vontade de Potência”. Bosi considera Nestor Vitor um “semeador eclético de idéias”, nisso semelhante a Araripe Junior. A meu ver a sua atividade de crítico, além de poeta, faz lembrar o Mario Faustino de “Poesia Experiência”.
44 Não obstante ter sido monopolizada a memória de Farias Brito pelos integralistas, como vimos também Oswald de Andrade valorizou o seu “deísmo” como um momento importante na nossa história das ideias, o tipo de um pensador afirmando-se nacionalmente. Quanto a isso, o pronunciamento de Costa sobre o pós-positivismo como floração de ideias com maior repercussão e potencial devido à geração da República e ao crescimento interno que então se verificava, ou seja, colhendo frutos que não plantaram, é sumamente ambíguo. Já podendo-se constatar o estado confuso dele pela adesão irrefletida ao dito de Mario de Andrade a propósito do mundo contemporâneo impondo “a criação e mesmo a remodelação da inteligência nacional” (p. 72) – de fato, Inversamente a Oswald de Andrade e ao seu próprio dom poético, Mario limitou-se na consideração da ciência social. Não foi feliz nas tentativas de caracterização, como se aí expressasse algum obstáculo sintomático, algo neurótico. Como se pode ver pela proposta de uma condição da “mulataria” que poderia caracterizar até personagens portugueses como Carlota Joaquina, tendo por correlato a indefinição de traços, cada “mulato” sendo – como se isso fosse algo singular da raça – diferente dos demais. Não obstante essa proposta constar num estudo de boa cepa a propósito do Aleijadinho.
45 Mas a contradição entre criação e remodelação é efetiva em Costa. Por um lado, considera que o momento atual era propício à liquidação do “bovarismo” - que, portanto, persistia, como fantasias sobre si mesmo. A maior autoconsciência, porém, era apenas um critério melhorado sobre a nossa “Alfândega intelectual”, ao que ele reduzia a interlocução internacional de idéias. Ora, o critério da autoconsciência era para ele a inserção da filosofia na situação social ou “concreta”, de modo que tanto elogia Euclides da Cunha como o verdadeiro marco da autoconsciência pensante, como o desconsidera como filósofo - “Ocupa, no entanto, na história de nossa ideias, um lugar que nenhum dos nossos filósofos pode pretender, porque em sua obra encontra-se toda uma visão da nossa terra e da situação do homem brasileiro”. (p. 72)
46 O grifo dele explica-se – filósofos apenas enquanto o pretendem ser. Mas o que podemos notar é a confusão na divisão de tarefas, já que aquilo pelo que Costa congratula Euclides é sua obra de cientista social. Além disso, porém, as citações que faz do que Euclides considera no terreno das ideias é depreciativo de um modo injusto, pois se ele deprecia como incompreensível à sua inteligência as obras de “filosofia”, como de Kant e outros, até mesmo o Comte do apostolado, se bem que atraído pelo Comte cientificista, na verdade se confessa reconciliado com a filosofia a partir das contribuições de George Dumas, Durkheim, Poincaré e o austríaco Ernesto Mach. Pensadores que exaltam a pesquisa de fatos, neoempiristas ou, como Durkheim, ao menos pesquisadores de campo.
47 Contudo, o que Euclides professa em Os Sertões é a antropologia positivista, sem dúvida. O que se mostra assim é que ele estava bem ao corrente do que na Europa se estava encaminhando como pioneiramente como o neoempirismo, adaptação positivista ao novo cenário, como da “linguistic turn”. Para Costa, que apenas se interessa por mantê-lo homogêneo ao cômputo geral negativo da nacionalidade, a reconciliação de que Euclides fala era apenas “confissão simplória” de quem havia confundido as ideias recebidas, “o que geralmente acontece aos autodidatas”. A contradição é nítida. O momento da maturidade, que enseja a eclosão de alguma verdadeira filosofia nacional, só se faz pela desconsideração do que até então existiu limitado à “franja da cultura europeia” (p. 83).
48 Mas o que de nacional persistiria, nesse novo tão esperado, se a rigor não havia portanto nação, num sentido próprio, cultural, da palavra? Costa não considera o movimento modernista de 22 senão pelo viés das “intenções puramente artísticas e literárias”, mas apostava em que houvese delineado um ambiente de afirmação local. Não observava assim que esse ambiente só tinha de novo a inclusão dos traços culturais já existentes mas até aí estruturalmente reprimidos, o modernismo apenas ampliando a condição de existência a mais raízes que apenas europeias.
49 Paim considera algo menos contraditoriamente a ambientação do século XX como um apogeu cujos traços formativos teriam começado na fermentação da Escola do Recife, de fato muito notada na história, como na expressão consagrada de Silvio Romero: "um bando de ideias novas esvoaçou sobre nós de todos os pontos do horizonte."
50 Aporta Paim, na altura de meados do século XX, a uma dicotomia das nossas ideias clivadas entre por um lado o neotomismo, especialmente do Padre Leonel Franca e a influência de Jacques Maritain como em Alceu Amoroso Lima; e por outro lado o culturalismo que limita à contribuição de Djacir Menezes e Miguel Reale.
51 Acusa porém a lacuna de um verdadeiro diálogo com o existencialismo. Esse culturalismo já é uma consciência da expressão nacional do pensamento, como se costuma expressar na terminologia das filosofias nacionais, como a francesa, inglesa ou alemã.
52 A obra do cearense Djacir Menezes, ao ver de Paim, assinala um momento importante desde o apogeu da Escola do Recife. Isso, porque o apogeu resultou numa clivagem entre três vertentes. A prática política, onde teriam se acantonado os positivistas, abandonando o terreno das ideias que no campo do conhecimento era agora tomado pelo neoempirismo; o espiritualismo e sua ala radical neotomista. Djacir Menezes introduziria porém, como se numa continuidade possível do positivismo, a esquerda hegeliana, especialmente de Ingenieros e Feuerbach. (p. 408). Contudo o seu interesse pelos problemas do conhecimento e da cultura, desenvolvendo-se em polômica com Pontes de Miranda, tenciona preservar a unidade do espírito, a instauração no plano das significações, ulterior ao do sigo, a essência do homem, ulterior à do animal.
53 Porém para Paim, os títulos de Menezes nesse intuito, como “A filosofia no Brasil do século XX” e 'Evolucionismo e Positivismo na crítica de Farias Brito”, revelam acertadamente o caráter conservantista que teve o comtismo localmente, sem na verdade observar que isso se deve à interpretação monolítica do positivismo brasileiro, quando de fato exibe variadas facetas. O que é o cerne da tese de Paim, para quem o positivismo é traço fundamental “das expressões do totalitarismo existentes na atualidade”, inclusive o Estado Novo, via Julio de Castilhos, e o marxismo.
54 Já a vertente de Miguel Reale, a perspectiva da consciência transcendental, conforme Paim, inclina-se pela revisitação do kantismo, apoiada pela organização do Instituto Brasileiro de Filosofia, fundado em 1949, ainda atuante em 1972. Nessa consideração do positivismo como traço das correntes totalitárias, Paim inclui o próprio Cruz Costa. Considera-o a maturidade do marxismo, já “livre dos arroubos juvenis presentes à meditação de Leônidas de Rezende”. Porém assim Costa teria sido o esgotamento, além do qual não restaria nada além da ação, e, de fato, para Paim “a complexidade crescente dos temas que se apresentam à ação... conflita abertamente com a tendência simplificatória que é a sua [do positivismo marxista] característica mais geral”. (p. 367)
55 Assinala Paim uma corrente liberal que se espraia, desde a Filosofia do Direito à pedagogia, e que teria um referencial universitário em Vicente Barreto e Roque Spencer Maciel de Barros. (p. 387) Paim considera ser o transcendentalismo de Miguel Reale o ápice da reflexão filosófica brasileira. Por outro lado, assinala que o neoempirismo local não teve segmento porque aqueles que por ele se interessariam foram logo cooptados pelo grupo dos “mestres estrangeiros como Gleb Wathagin”, que orientava para o hábito da ciência ela mesma.
56 Conforme Paim, resultando estes mestres estrangeiros “formadores do notável grupo de cientistas nacionais que chegou a granjear reconhecimento internacional.” (p. 408) Sem citar nomes, contudo, também não registrando o fato de já haver elenco de notáveis cientistas brasileiros precedendo-os, como Emilio Ribas, descobridor do transmissor da febre amarela e consequentemente inventor da vacina (1908), Santos Dumont, Oswaldo Cruz.
57 Um estudo intitulado "Literatura de Ideias", atribuído a Prudente de Morais Neto, areja bastante o quadro desse período, mostrando porém o "sentimento de inferioridade" que, conforme ele, marcava a atitude dos intelectuais pré-modernistas.
58 Havia gênios, como Santos Dumont e Rui Barbosa, mas por isso mesmo mantendo-se como exceções, não como extratos representativos da nacionalidade. Eram "razões" para "amar ao nosso país" que Alceu Amoroso Lima reclamava numa carta a Afonso Arinos, algo complicado de se fornecer numa época em que a referência de excelência étnica e a concepção de civilização eram as que encontramos em Euclides da Cunha.
59 Mas há um rol de cientistas menos famosos ou de fato censurados, com destaque para Landel de Moura, como os que Luis Carlos de Morais Junior tem recenseado em seus títulos. “O olho do cíclope” especialmente, e poemas como o que consta em blog da Internet, “Casamento com Química” (poema de 14/07). A propósito da questão cultural, precedendo o modernismo mas como os movimentos populares na cultura e sua problemática sócio-política, os títulos relevantes de Luís são “O sol nasceu para todos, história secreta do samba”, e “o estudante do coração”, sobre Noel Rosa; desde o modernismo em diante, “Proteu” e “Crisólogo”. Na produção literária vemos também a ação política censória, como o caso de Qorpo Santo, que Luís destaca nestas produções.
60 O cenário da literatura em inícios do século XX era de fato bem mais matizado e consciente do que permite ver a seleção de cromos dos livros escolares, pautados sob modelo luso. Na internet há alguns anos estavam circulando obras de escritores até então não muito conhecidos.
61 Na altura dos anos setenta, a resistência cultural à ditadura era muito vívida e pluralizada, o que Paim parece ter querido evitar como temática. Pode ser que a centralidade do positivismo no Brasil, postulada por Paim, tenha relação com o militarismo então vigente, mas essa condição seria do mesmo modo relacionável, inversamente, à continuidade do pensamento católico desde o pós-positivismo.
62 O estudo do positivismo é sem dúvida importante na história política porque tudo o que se fez relativamente ao “positivismo” refletiu nos planejamentos do Estado. Assim Bréhier também registrou sobre Spencer: “O evolucionismo de Herbert Spencer é uma das doutrinas que, no período de 1860 a 1890, teve grande influência, não somente na Inglaterra, mas no mundo inteiro”, e sobre Littré, “ a escola positivista, no sentido estrito da palavra, não deixa de defender o culto da humanidade. Ela expandiu-se em certos países estrangeiros, e, notadamente, no Brasil.” (História da Filosofia, livro quarto, São Paulo, Mestre Jou, 1977-1981, p. 24, 30) O lema da nossa bandeira, Ordem e Progresso, é efetivamente expressão citada de Comte.
63 Mas cingindo a matéria à emergência do Modernismo, vemos que, ao contrário da homogeneidade da corrente cultural ao planejamento de Estado, nele decorre total oposição da cultura ao governo.
64 Espero ter ficado bem acentuado que seria um erro considerar que esse novo hiato é apenas a perpetuação do contraste leninista de feudalismo e capitalismo, forças do atraso “agrário” e forças do progresso “industrial”. Como já estudamos no livro 2, o governo da República oligárquica após Floriano está representando oficialmente o ideário spenceriano, que como constatamos é estritamente a fórmula do neoliberalismo econômico, e não mero tradicionalismo. O positivismo estava pois não apenas cindido entre tendências do “apostolado” e outras, mas entre interpretações políticas localmente inseridas: o progressismo urbano de Floriano, expandido à Monteiro Lobato; o progressismo interiorano de Euclides; a integração oligárquica de Murtinho ou Rangel Pestana, que representam a “República Velha”, anterior ao varguismo. Os dois primeiros são planejamentos de política racial em sentido estrito, o terceiro o é em sentido generalizado. Ou seja, continham premissas raciais de exclusão e de favoritismo.
65 Como já consideramos, o planejamento progressista urbano nacionalizava o imigrante europeu e esperava captá-lo por decretos de programas de imigração, suposta necerssária para “melhorar” a “raça”, de modo a extinguir elementos não brancos não considerados adaptáveis ao progresso, com o tempo, pelo predomínio numérico oriundo da imigração, ou imediatamente como no “arraial' de Canudos. Euclides pensava, como defensor dos pobres de Canudos, ao contrário, que o mal era a miscigenação, e que uma sub-raça interiorana deveria ser o referencial da política racial mesmo não branca. Se aqueles pobres foram eliminados por um programa que almejava fazer entrar na civilização “a pranchadas”, educá-los era contudo possível por serem eles racialmente algo puros, intocados pela miscigenação pelo fato do isolamento regional – e já a mistura de brancos e índios era mais pura do que de brancos e negros conquanto de elementos demasiado contrastantes.
66 Essa é uma lição valiosa no presente. O positivismo da “raça superior” é o correlato da homogeneidade definível de “raça” e cultura. Portanto, não restrita ao ter da brancura quanto à raça, ou mesmo à raça quanto ao fator de pureza originária, e hoje em dia os fascismos da superioridade são de todos os supostos puros e originários – negros e outros, até a mentalidade narrativa da mulher, em Seyla Benhabib e Carol Gilligan.
67 Na República Velha o progresso implicava adequar-se ao plano internacional da raça dominante, o industrialismo europeu. Em todo caso, não havia concepção de igualdade e cooperação entre nações. A necessidade paraguais do acesso a portos de mar, como reza uma crônica de Euclides, só era solúvel por guerra de anexação territorial com o Brasil. Em vez do que hoje conhecemos como a cooperação de nações, exemplificada justamente na construção da hidrovia Tietê – Paraná, com 2.400 km de extensão, unindo os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul), Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil. Na antiga mentalidade positivista, inversamente, todos os elementos estavam na luta pela existência num mundo de evolução pré-mendeliana em que o homem é o produto do meio.
68 Na atualidade, Luis Carlos de Morais Junior empreende um certo resgate da posição de Lobato porque, como progressista, Lobato apostava num nacionalismo industrial oposto ao das oligarquias da República Velha, considerando também que aspectos da obra dele desmentem a versão de que era racista. Assim ele teria refletido condições deficitárias da performance étnica dos interioranos não decorrendo da genética, mas das deformidades do regime de carência alimentar, ignorância de higiene, etc., justamente aquilo que pretendia ser preciso erradicar em prol do desenvolvimento humano.
69 Porém, Luís argumenta assim, sem desconhecer as cartas reveladas recentemente na imprensa, nas quais pratica Lobato um alarmismo sensacionalista, deplorando que sem Ku-klux-klan não se pode contar com qualquer ordem num país de miscigenados. Solicitei uma resposta a propósito e ele se pronunciou com o texto que aqui reproduzo:
70
“Estou escrevendo um livro intitulado Agora Emília come legal: mulheres, homens e livros, no qual intento mostrar que Monteiro Lobato foi um genuíno pensador original brasileiro, e que sua produção literária se casa com seu empreendedorismo em vários campos, como editorial, exploração de petróleo e ferro, na proposta de fazer um país radicalmente novo, não seguindo o modelo norte-americano, mas sendo tão ou mais forte que ele. Lobato vê na educação criativa e libertadora das crianças, como no acesso a todos ao máximo de conhecimento, na derrubada de totens e tabus antiquados e no aproveitamento de todas nossas riquezas étnicas, culturais e naturais o caminho para a construção de um país rico e democrático. Em vários momentos, na obra adulta e infantil, investiu Lobato nessa proposta, e a declarou: Ah, vovó, se o país fosse assim como o sítio, onde todos são iguais e todo mundo pode falar o que quiser...”.
71 Lobato é célebre como antagonista feroz dos modernistas, o responsável pela defecção de Anita Malfatti do país, porém mais tarde – após o reconhecimento da obra do escultor Brecheret - reconciliado com eles.
72 Quanto à questão propriamente econômica e regional, já estudamos a situação complexa de São Paulo, onde o Modernismo emerge em estreita conexão, e, por aí, também a complexidade da oposição representada pelo varguismo dos anos trinta. Paradoxalmente podemos afirmar que essa oposição, em termos de planejamento de Estado, é a que assimilou as bases do Modernismo, radicalizando à direita a guinada “regional” da segunda geração modernista. Como tenho insistido, isso também se observa na Europa, onde o erro consiste na suposição à Husserl, de que os totalitarismos nazi-fascistas eram tecnicismo positivista. Quando foram, bem inversamente, culturalismos radicalizados pela xenofobia gerada na corrida neocolonial, e, quanto a esta, pode-se dizer o contrário do que Husserl pretendia. Os clãs oligárquicos dos impérios europeus e japoneses neocoloniais barraram qualquer conexão de invenção tecnológica e mudança social “progressiva” no sentido da legalidade, restringindo a indústria à reedição das guerras por império territorial total que foram o estofo da história das Antiguidades “Oriental “e “Ocidental” - assim como até hoje barram a heterogeidade inventiva, restringindo o que é produzido e comercializado aos interesses ideológicos e políticos medíocres dos clãs.
73 Assim podemos resumir o ímpeto modernista em todo o mundo pelo que entre nós significou o primeiro impulso de integração “nacional” real. A relação de liberalismo e culturalismo – este que deslocou o racismo biologista apenas pela totalização dos “tipos ideiais” - é complexa e cindida. Nela vemos porém que as situações geopolíticas diferenciadas tem uma importância maior do que se poderia pensar pela restrição dos estudos ao modelo europeu.
74 O Modernismo pioneiro, especialmente na produção pensante de Oswald de Andrade, interpretou a integração da nacionalidade no sentido da miscigenação, heterogeneidade e democracia. Ao contrário, o varguismo o interpretou na acepção fascistizante totalitária de uma identidade ideal-típica, forjada pelos ideólogos do Estado Novo, a partir do estereótipo do trabalhador pai-de-família em coerente harmonia da posição subalterna com as elites tradicionais que agora já estariam convergindo num plano econômico nacional. Oswald era acerbo crítico de Vargas. Entre ambos podemos caracterizar as duas gerações românticas sucessivas.
75 Após Vargas, em São Paulo a influência de Oswald foi um dos lemas do “concretismo” paulista, dos irmãos Campos e Pignatari, assinalando a terceira geração. Paralelamente havia a prosa e poesia que se tem designado metafísica, na verdade neocatólica, entre Cecilia Meirelles, Cornelio Pena, Augusto Frederico Schmdt, Lucio Cardoso, Jorde de Lima e outros.
76 Quanto ao concretismo, movimento que repudiou o regionalismo prosaico, e integrou aspectos da vanguarda que mesmo os pioneiros modernistas não haviam investido, como a quebra da sintaxe. Na atualidade, Luis Carlos de Morais Junior tem promovido a concepção da prosa “cinematótica” de Oswald como já revelando aspectos nesse sentido, porém conservando o verso, o que os concretistas só teriam radicalizado ao decompor a frase em signos visuais, jogando com o branco do papel.
77 Mas o concretismo, onde a quebra da sintaxe sintetiza o programa do grupo, sendo um movimento com bastante afinidade ao estilo de Juscelino Kubitchek, vemos não integrar uma reflexão da realidade local, e sim um ufanismo paradoxalmente internacionalista. O que é valorizável local, o é por ter antecipado ou igualar soluções estéticas afins ao formalismo cibernético internacional. Mario Chamie, que inovou após o concretismo assimilando algo dele mas com menos radicalismo, se notabilizou pela tendência da “poesia práxis”.
78 É algo jocosa a crítica de Sergio Milliet, em seu “Diário Crítico”, ao manifesto do “Ruptura”, ramo carioca do concretismo em artes plásticas, de Waldemar Cordeiro, Geraldo Alves e outros, que nessa época defendiam seu programa em estética por valores cujo sentido vinha só emprestado da física contemporânea. Pois além da definição dos “valores essenciais da arte visual” limitados a”espaço-tempo, movimento e matéria”, nada havia que explicasse que “novos princípios artísticos” estavam sendo de fato apresentados, e o grave a seu ver sendo que “se empregam uma linguagem de físicos, espaço-tempo já significa movimento e matétia e nada elucida”. (p. 296) Milliet portanto não via qualquer nexo dos quadros mostrados e da ciência designada. O que me parece algo que se possa aplicar a quase tudo do “manifesto da poesia concreta”.
79 Mas Milliet, existencialista e provocador algo genial, tem certas peculiaridades. Considera que, ser poeta em Maceió e, como ele próprio, crítico de poesia em São Paulo, é praticamente a mesma coisa, porém “ser crítico de arte na Bahia, em que pese a tradição cultural da boa terra, deve ultrapassar o imaginável”. Para assim elogiar o crítico José Valladares, que na Bahia criou o Museu Histórico e lançou o escultor Mario Cravo, que Milliet qualifica “revolucionário”. Aí Milliet reflete historicamente sobre o andamento da escultura e da crítica de arte local.(p. 64)
80 Batalhando na crítica literária, egistra com senso crítico muito do nosso acervo hoje ignorado, como a peça “Raquel”, de Lourival Gomes. Considero interessante observar aí um realismo problematizado, na altura dos anos cinquenta, pela temática neocatólica. Gomes inverte a história pessoal do personagem bíblico, Jacó, para mostrar que na realidade o sentido dela estava na assunção do casamento com Lia, a vida real, e, assim, a obra seria aparentemente realista.
81 Inversamente à leitura ideológica pela qual somente o amor idealizado de Raquel é o significado do relato, o texto ensinaria que “o gênio 'é uma longa paciência'”, assim “a obra perene não se alcança através de Raquel, ela se modela dentro de Lia”.
82 Mas como Milliet sublinha, não é mera sociologia o que aí se representa, pois o que se assume com Lia, como o que se conquista só como “sublimação”, pela renúncia, etc., não se resume na aceitação social, mas sim alcança a realização da obra de arte. Não é a obra, como a experiência de Jacó, assim diminuída, mas, pelo contrário, elevada ao patamar da reflexão sobre sua possibilidade mesma, que implica algo mais que realismo, auto-posição estética. (p. 11)
83 Faz Milliet também uma crítica rápida, a meu ver muito oportuna, de Augusto de Campos, que a meu ver vale para o concretismo em geral: repetindo-se o poeta simplesmente, “o que hoje nos impressiona há de cansar-nos”. (p. 112)
84 Porém Milliet, bem inversamente a Oswald, apoiava a importação de professores estrangeiros pela Usp, o desprezo dos intelectuais nacionais, e sugeria que os alunos assim formados estariam futuramente governando o país. (p. 116)
85 A meu ver, ao menos salvou-se nessa geração de estrangeiros, que não se costuma estudar em que foram em alguma medida influenciadas suas obras pela inserção na ambiência local, a Roger Bastide, que tem de fato aportes interessantes a uma pesquisa desse gênero, especialmente em “O sonho, o transe e a loucura”, de sociologia psiquiátrica.
e) cultura nacional e pós-modernismo
e. 1) O Terceiro Mundo e as Linguagens da Vida
1 A transição da Vanguarda encontramos não limitada pelo realismo socialista que, não tendo de fato representantes de importância na prosa, além do filtrado na poesia como em Ferreira Goulart, ou na prosa modernista, entre Pagu e Jorge Amado, foi porém crítico acerbo da renovação cultural que tem luga desde o modernismo ao cenário da resistência à ditadura militar. Nesta é que vamos encontrar aqueles aspectos reflexivos que estão ainda hoje por ser considerados na abrangência histórica da cultura nacional.
2 Vemos contudo, a importância de que essa crítica realista socialista se revestiu – desmentindo a limitação extrema a que Paim reduzia o socialismo local, inclusive dos sixties – em Roberto Schwarz, cujo artigo publicado em 1978, “Cultura e Política, ” é um balanço da trajetória desde a cena antecedente ao golpe até a resistência como vinha sendo feita até então. O artigo tendo sido escrito quase dez anos antes da publicação.
3 A análise marxista de Schwarz é uma crítica da própria esquerda não partidária, centrando-se na sua expressão, que se alçou a modus operandi da resistência anti-ditatorial, na arte. Tornou-se uma referência de importância história internacional, como se pode ver pela citação de Schwarz em Deleuze (“Cinema 2”). Aí ele é visado em função do tema ao qual converge o texto de “Cultura e Política”, a saber, o tropicalismo como o ponto de incidência do presente no tempo histórico da arte de vanguarda. Schwarz assim procede, por certo não por algum tipo de carência de informação a propósito da pluralidade dos movimentos estéticos internacionais e mesmo aqui situados, uma vez que o artigo recenseia criticamente ainda a renovação teatral como veículo da resistência.
4 Pode-se considerar as lacunas desse artigo, quanto a esse aspecto de resenha histórica. A “transvanguarda”, como se designa em teoria literária a tendência em poesia na época, como os antológicos Ana Cristina Cesar, Chacal, Paulo Leminskim entre outros, não se reduz ao tropicalismo, e estava havendo uma verdadeira eclosão, as artes plásticas, como de Helio Oiticica a Ligia Pape e Ligia Clark, Waltercio Caldas e vários artistas que pontuavam então movimentos importantes. A meu ver, um dos aspectos interessantes na eclosão pós-concreta das artes plásticas abrange o uso artístico e não utilitário da câmera, tornando-se de importância capital, o que não havia antes, independente da importante experiência precursora de Mario Peixoto, o cineasta de “Limite” e autor de “A alma segundo Salustre”. O cinema de autoconsciência “nacional” despontava paralelamente, havendo na sua emergência a proeminência de Glauber Rocha.
5 O interesse deleuziano nos fundamentos do artigo de Schwarz seria tangencial, como podemos observar, uma vez que este não está focado na arte do cinema. Deleuze, porém, referencia na nota 42 do capítulo 8, a “noção de 'tropicalismo'” schwarziana - sem no entanto tematizar o movimento tropicalista em si. O que Deleuze reflete sobre Schwarz, em parágrafo a propósito, é o seguinte: “Mas justamente o que conta [ no moderno cinema político ] é que não há 'linha geral', quer dizer, evolução do velho ao novo, ou revolução que salte de um a outro. Há antes, como no cinema da América do Sul, uma justaposição ou uma compenetração do velho e do novo que 'compõe um absurdo', toma a 'forma da aberração'. O que substitui a correlação do político e do privado é a coexistência até o absurdo, de etapas sociais bem diferentes””. (p. 260, 261) E as aspas deleuzianas são referência a expressões de Schwarz em Les Temps Moderns nº 288, de julho de 1970.
6 O artigo “Cultura e Política”, que estou tratando aqui, foi publicado sem alteração além de um balanço introdutório em que se justifica manter-se tudo como foi feito, sem tentar atualizações: É que, conforme o prefácio de Schwarz, “elas por elas, o equívoco dos contemporâneos é sempre mais vivo”. Sendo assim, “para que substituir os equívocos daquela época pelas opiniões de hoje, que podem não estar menos equivocadas”? O essencial da tese schwarziana sobre o tropicalismo já estava assim estabelecido.
7 A referência em Deleuze parece ter selecionado o motivo pelo qual o tropicalismo aparece em Schwarz como esse ponto de incidência do novo momento da arte. Ironicamente, a ausência do novo, ou melhor, a sua mistura com o velho, sem a qual ele já não surge. Schwarz não considera portanto que estava havendo algo significativo por si na recuperação das raízes culturais heterogêneas como então se tornava a praticar na resistência cultural, num momento em que estavam vedadas as opções da ação política. Ou que o tropicalismo praticava transformando assim radicalmente a noção da “pop music” comercializada na mídia fonográfica consagrada ao modelo da música de rádio norte-americana.
8 Ele equaciona o excentramento cultural mas apenas como a sobreposição do passado ao novo, este que o devia ser porém duplamente, como um estilo que não havia antes e por sua utilização da tecnologia. Utilização que selaria, se houvesse realmente existido um progresso, uma nova mensagem, correlato da maior conscientização. Inversamente, ela existia no tropicalismo, na opinião crítica do marxista, como que à serviço de um passado sendo reevocado sem remissão lógica ao seu futuro, ao modo de fetiche em vez de história.
9 Por esse motivo a posição de Schwarz pode não precisar definir-se como uma recusa da vanguarda em geral, esta que já havia sido canonizada na ala humanista do marxismo desde os anos cinquenta e o congresso na Tchecoslováquia, quando se fez também a inclusão de padres católicos. Mas assim uma vanguarda classificada como uma espécie melhor de realismo, entre Proust, Joyce e Kafka, culminando no nouveau roman, continuando a excluir-se, na continuidade desse princípio, a “pop art” dos sixties e tudo que pudesse reduzir-se a um jogo com o próprio meio estilístico-semiótico. Até então era toda a vanguarda, não apenas a redutível ao jogo semiótico, o que cabia nesse rótulo da “decadência”, por parte da inteligentzia ortodoxa comunista, que na União Soviética tinha poderes de Estado absolutos, praticando a censura ostensiva de tudo o que não fosse arte “realista” (“socialista”).
10 Para Deleuze a sobreposição do velho e do novo é um ponto nodal na assunção de um novo “cinema político”, designado “moderno” por oposição ao “cinema político clássico”. A ironia se aprofunda. Enquanto Schwarz considera que, com o tempo, o equívoco só iria aumentar, uma vez que o contrário do erro seria a permanência do olhar do proletariado voltado ao futuro, Deleuze está celebrando a mudança como o que estaria de acordo com a realidade da margem - termo pelo qual podemos aqui reunir o que ele tratou num continuum, a noção de “minorias” como judeus na Europa ou negros na América do Norte, e o “terceiro mundo”. (p.259) Em todo caso, uma condição na qual inexiste o sujeito da história, o povo identificado com o proletariado, com que contava o cinema político clássico exemplificado por Deleuze em Eiseinstein ou Pudovkim. (p. 258)
11 O que Schwarz como comunista condena, Deleuze celebra, o paradoxo de um “moderno” que não é nem pode ser propriamente o novo, mas equivale ao reconhecimento da necessidade de auto-descoberta como do seu próprio passado alienado pela dominação. O que se torna inusitado na tese de Deleuze é pois, não tanto o que tem a ver com o tropicalismo, mas sim o papel que ele aí concede ao cinema. Essa auto-descoberta não poderia ser tarefa do intelectual do terceiro mundo (p. 261, 264) , nem a realização do próprio povo enquanto a população existente apenas enquanto carecendo de “identidade coletiva” (p. 259), mas somente do autor do moderno cinema político do terceiro mundo, que estaria ao mesmo tempo que descobrindo, inventando um “povo” local. Ou seja, o moderno cinema político sendo o do terceiro mundo, trata-se de certa rubrica marginal à modernidade do cinema em si, do primeiro mundo, mas a marginalidade consistindo numa condição de provisória inexistência, um vazio do por vir que o cinema deveria preencher.
12 A contradição deleuziana a propósito da modernidade do cinema é manifesta, mas muito mais radical se torna quando se trata do terceiro mundo. Entre o povo que não existe e que deve existir, aquele que o cinema estaria contribuindo para inventar (p. 259), cujos germes do porvir são o que o cinema político moderno estaria tornando possível existir (p. 264 ) porém como a “memória”, produto da fabulação do cineasta sobre os signos da tradição popular local, que assim não obstante cria o “povo” (p.265); um povo já existente, duplamente colonizado, política e culturalmente, frente ao qual o autor do cinema se vê (p. 264); e um povo que não deve existir nunca, o moderno cinema político estando a conjurar a paranoia totalizante do que é múltiplo e heterogêneo (p.262), pois se o povo não existe no terceiro mundo e nas minorias é porque neles “o povo só existe enquanto minoria” (p. 262).
13 É verdade que Deleuze não inventa a questão da ausência de povo, desenvolvendo-a a partir de insights colhidos em Kafka, Klee e Carmelo Bene (p. 259), porém suas reflexões não sendo sobre cinema, Deleuze faz o transporte temático agregando tópicos exclusivos a este. Como o problema do intertexto da indústria cinematográfica de massas no terceiro mundo, que o cineasta de arte precisaria utilizar porque o seu se restringe a um “público muitas vezes analfabeto”.
14 Em todo caso, entre Deleuze e Schwarz notamos uma concordância capital a propósito da mudança conceituável. Inclusive porque para Deleuze o novo puro que não há, não seria, se houvesse, qualquer acréscimo de novidade ao que já havia sido feito até agora numa trajetória unívoca como da arte ocidental europeia. Mas o que o Ocidente esperava há muito que devesse ser, como a Revolução comunista ou a tomada de consciência a propósito dela. Assim ele começa por negar explicitamente que se trate de “tomada de consciência” no cinema político moderno, isto é, o que não dispõe de povo e é por isso caracteristicamente o do terceiro mundo.
15 Um terceiro aspecto da mesma concepção se encontra em Otavio Paz, que assim qualificou o fim da modernidade e da arte moderna, em “Os filhos do barro” (p. 200): ruptura da tradição do novo que moveu como um a priori toda a modernidade na arte, leia-se obviamente ocidental. Na tese de Paz, negação criadora era sinônimo de ideal do progresso que regia a modernidade, isso no que a seu ver não podemos hoje acreditar. A arte do presente deixa de ser negação do passado porque se faz como uma crítica do ideal capitalista do "futuro". As nações centrais mostraram afinal não ter qualquer projeto que possa definir a sociedade futura.
16 Assim também, conforme ele, “Os poetas da idade moderna procuraram o início da mudança: poetas da idade que se inicia, procuramos esse princípio invariável que é o fundamento das mudanças”. Nesse sentido, contudo, “não se trata de renunciar ao socialismo como livre eleição ética e política, mas à ideia do socialismo como um produto necessário do proceso histórico”. (p. 193) Pois, sem dúvida, o componente do excentramento cultural é importante na exposição da tese de Otavio Paz, o elemento que impede a concepção da história como um processo linear progressivo. Contestações que não tem necessariamente na questão econômica o pivô, como “rebeliões de minorias éticas e culturais... movimentos de liberação das mulheres... das minorias sexuais...” ou “movimentos nacionalistas e antiimperialistas, as guerras de libertação e outros transtornos do Terceiro Mundo” que “tampouco se ajustam à noção de Revolução elaborada pela concepção linear e progressiva da história” E se o marxismo previa a condição universal do ser humano com o fim do capitalismo, pelo contrário o que se tem atualmente são contestações que visam a afirmar a particularidade dos grupos e a heterogeneidade sexual. (p. 195)
17 Repito essas fórmulas que são já tão conhecidas, devido ao modo como Paz as encaminha. Primeiro, como fato consumado, mas protestando contra a falsa ideia de que a crítica ao “comunismo” dialético fosse renúncia da questão social, quando na verdade é a pluralização dela. Porém Paz parece praticar ainda a subsunção do fim da modernidade à descoberta da estrutura como de um “tempo puro” (p. 203, 4), onde já não se teria a obra como objeto, mas como presença em relação com sua contemplação pelos receptores, portanto presença problematizada, relativizada pela condição de ser recebida, não obstante como estrutura ser atemporal, subsumir a história à sua repetição material. (p. 200) Independente disto, que poderia ser algo em convergência com o que Deleuze pretende em Cinema 2, Paz recusa nominalmente a terminologia da aberração. Só haveria aberração no caso da degeneração soviética – do socialismo numa casta burocrática – isto é, se fosse mantida a regra, como desvio. Inversamente “A aberração cessa, se renunciamos à concepção da história como um proceso linear progressivo, dotado de uma racionalidade imanente.”
18 Mas aberrante ou não, o paradoxo desse novo que é sua mistura com o antigo tanto para Schwarz como para Deleuze ou Otavio Paz, podemos conceituar a partir do seu caráter negativo postulado com relação a um horizonte de pureza que, ele, não tem nada de novo, se vem do século XIX realista-positivista. Ou mesmo, como em Paz, de antes, do romantismo como primeira fórmula da arte enquanto ruptura com o passado e negação dialética do que precede.
19 A negatividade, pois, continua como o motor da história. A oposição de velho e novo não foi de fato contestada. Além disso, porém, a construção da oposição está singularmente deslocada, se lembrarmos que ela é o cerne da geo-ego-logia ocidental. Ou seja, estruturalmente ao discurso teórico, o novo é sempre a atualidade do capitalismo ocidental, e o velho é sempre o não-ocidental em geral e não-moderno em particular. Mas ao contrário da modernidade, a construção estrutural (a partir de um modo de ser em si arcaico) não aparece, apenas o construído como uma decorrência da mudança social instituída pelo exibicionismo imperialista do capitalismo tardio, e a degeneração do sovieticismo, que teria provocado a expressão de questões sociais antes reprimidas pela unidade da contestação da exploração econômica.
20 Surpreendemos aqui, em nossa análise do discurso geo-ego-lógico (neurótico-ocidentalista), portanto, o caráter sintomático desse discurso, uma vez que ele, mesmo na sua fase mais autocrítica e depurada na atualidade, não é de fato lógico, entre o correlato da mudança social (novo) e o conteúdo liberado nela (arcaico/ fuga do novo). Vemos que a fixação neurótica é o resíduo estrutural conservado, em que a oposição é construída como de velho (coletivo arcaico) não “moderno-ocidental”, e novo (sujeito privado) “ocidental”.
21 Na medida que o referencial da arte está excentrado, o foco naquilo que até aqui era o “velho” não mudou enquanto tal. O que não é ocidental não pode instaurar o novo, não obstante seja a atualidade da (sua) arte e dela é que se esteja tratando. Fredric Jameson expressou o mesmo axioma, porém pelo ângulo da construção em vez do construído. Em seu famoso artigo “Third World Literature in the era of Multinacional Capitalism”, não repete a oposição-sobreposição do velho e do novo, mas o que a define como condição do não-novo ou arcaico classificatório da condição do terceiro mundo. A saber, o não haver da oposição de público e privado.
22 Assim mostra-se bem o que instrui a partição, a teoria do inconsciente, mas como já enfatizei, não somente de Freud e sim de todas as teorias de psicologia que tratam da formação do ego a partir da condição infantil.
23 Para Jameson, com efeito, como vimos antes, na atualidade a invasão do mercado internacional pelo gênero da literatura do terceiro mundo, algo que a nós interessa particularmente porque autores como Otavio Paz, Garcia Marquez e outros da América Latina muito aí se distinguiram praticando uma prosa nova de forma muito controvertida, não é ingrediente do pós-moderno. Este é fenômeno restrito ao primeiro mundo. Mas sim, inversamente, a documentação de um estágio pré-moderno, como ato expressivo de um inconsciente cuja estrutura precede a modernidade ocidental caracterizada pelo split de público e privado que interiorizou-se na família burguesa edipiana. Um estágio pois definível como Édipo incompleto, na fase oral.
24 É importante a nossos propósitos ver agora a crítica de Jameson ao Anti-Édipo, de Deleuze-Guattari, inscrita nessa tese. Como vemos, de fato ela concorda com o deleuziano Cinema 2 (p. 260, 261), quanto ao essencial, que é a postulação de certa fórmula unificante de toda arte do terceiro mundo a partir da carência verificável do split de público e privado. Inclusive podemos observar o parentesco ostensivo do cinema glauberiano e a prosa nova americano-latina, como de Garcia Marques, Otavio Paz, Guimarães Rosa e outros, que contribuiu em muito para a viragem a uma concepção de pós-modernidade.
25 O tratamento da questão literária conduziu Jameson, cujo objetivo portanto é negar que essa prosa seja realmente nova, a um julgamento do gênero, considerando que se trataria no terceiro mundo de um pan-realismo. Por mais que pareça absurdo, na decorrência já de décadas do concretismo e da extensão do referencial geográfico assim pretensamente uniforme, de fato Jameson poderia se defender utilizando a própria teoria latino-americana, como em Ramon Xirau e Jorge Enrique.
26 É importante notar que Jameson não se detem na quesão da penetração da prosa nova americano-latina como recente fenômeno literário de mercado internacional, algo que Otavio Paz considerou apenas efeito do interesse dos editores, inversamente a alguma qualidade que só a América Latina possuiria. Sem negar a qualidade, porque efetivamente é fenômeno de vendas mas também “literatura” na acepção que a teoria autoriza do termo, não haveria porque não constar em todos os demais continentes do terceiro mundo. Julgar de outro modo seria cair na esparrela de confundir produções espirituais com a terminologia cabível ao esporte e aos negócios, tal como de “êxito” e “sucesso”. Ocorreu pois, na opinião de Otavio Paz, apenas que a literatura local se tornou atrativa para os caçadores de novidades. E o próprio juízo de qualidade, o status de “literatura”, já foi ironizado por Roger Callois, conforme Retamar observa. O juízo só é atribuído a um escritor daqui, se antes foi atribuído por um crítico nos Estados Unidos, Havana ou Europa (p. 333).
27 Para Retamar, a razão é o atingimento de certa qualidade exclusiva da prosa americano-latina, sim, mas de um estilo que define exclusivamente a prosa nova local. Assim sem desdouro a literaturas dos demais contextos do terceiro mundo. A sua “intercomunicação” conceitua o fato de ser um estilo homogêneo, e com citações recíprocas.
28 Mas Retamar considera que a conquista de um estilo é produto de integração cultural e a esta é preciso explicar historicamente, o que ele pensa ser atribuível ao marxismo, que insere localmente uma longa trajetória de lutas comuns. Assim a prosa nova deveria tudo a Mariátegui, o grande escritor comunista da América Latina, em vez de ser algo como ruptura histórica. (p.337)
29 A meu ver a explicação de Retamar é interessante, ressaltando a modulação nacionalista do marxismo, com a citação de Mariátegui considerando que o nacionalismo em literatura é um fenômeno político estranho à “concepção estética da arte”. Conforme a condenação geral do esteticismo pelo marxismo. Porém é algo contraditória, porque o estilo genuinamente americano-latino, voltado de modo pioneiro à reconstituição da consciência local, estaria sendo atribuído a uma conscientização essencialmente não local.
30 Quanto a Jameson, o que faz é primeiro a omissão do caráter novo da prosa americano-latina que invade o mercado, e, em seguida, a concatenação do fenômeno recente apenas em termos de uma expansão mercadológica voltada a multiplicidade de gêneros e proveniências. Assim o que ele isola como relacionado ao terceiro mundo nesse multimorfismo que envolve a pulp fiction por exemplo, é portanto algo bem limitado, menos que um estilo em que se desenvolvem problematizações formais que redimensionam os temas humanos e sociais, mas sim um gênero nesse sentido de mercado, uma fórmula que se repete de modo mais ou menos reificado. O que é algo espantoso, pela omissão das diferenças internas, o caráter realmente antes desconhecido da nossa prosa nova, ainda que não por ter-se inventado uma nova linguagem, e sim por se estar criando a partir do arcaico, porém até aí desconhecido como cultura viva.
31 A fórmula jamesoniana do terceiro mundo, porém, envolve algo mais do que apenas a reificação do realismo por um gênero, se o terceiro mundo em si é um referencial geopolítico. O realismo se torna, portanto, um misto estranho, entre o gênero de mercado atual e o que ele foi um dia, o estilo do século XIX europeu, com as consequências históricas dessa época deslocadas para a atualidade.
32 Ora, o equacionamento pela crítica latino-americana, de índole predominantemente marxista, do fantástico da prosa atual, repetindo, expressou com certa constância o recurso ao realismo, mas como algo em transformação. Assim o constatamos em Xirau e Enrique, ao inverso da reificação jamesoniana do gênero.
33 Para o que seria uma consciência formada por traços culturais não ocidentais, como aquela que os novos escritores estavam tencionando expressar e reconstituir em sua prosa, rompendo assim com um limite que o Brasil poderia exemplificar com o regionalismo de José Lins do Rego e outros, o homem pretendido da cultura heterogênea refletindo porém apenas o cânon da consciência europeia, os novos escritores não estariam apenas recriando o fantástico como a fantasia ilimitada. Pelo contrário, Xirau e Enrique cunharam a expressão “outra realidade”, que seria adequada à arte atual.
34 Como salientou Enrique, contrastando a prosa nova com o que já teriam feito Miguel Angel Asturias, Alejo Carpentier e Arturo Roas. Ao descobrir a mentalidade de indígenas ou negros, seus compatriotas, eles constataram que “se baseava em mitologias”, cujos personagens esdrúxulos para o conhecimento ocidental, logo se transformaram numa “sucessão de fatos insólitos para a pobre lógica consuetudinária e realista...” (América Latina em sua... 210).
35 Ora, desse modo, como em Borges ou Vargas Lhosa – este que reescreveu pós-modernamente “Os Sertões” de Euclides da Cunha - não se estaria de fato senão em total afinidade com o surrealismo, e Enrique cita Breton afirmando que antes dele ser “uma doutrina estética na Europa, já era uma realidade de todos os dias no México”. Porém como ressaltei, o próprio título do artigo de Enrique sendo “O realismo de outra realidade”, e, de fato, ele assim interpreta o estilo atual, tão aparentemente decantado surrealista: “O sorriso de Machado de Assis reapareceu quase 70 anos depois, com Guimarães Rosa; Arreola e Elizondo mostraram a mediocridade pitoresca de certos círculos mexicanos; Manuel Puig, a pequena alienação de pequena burguesia provinciana argentina. E já sabemos que Marcondo [ de Garcia Marques ] está em cada país da América Latina e cada um de nós conehce cada uma das personagens e as reencontramos todos os dias, e basta seu nome para fazer-nos sorrir”. (p. 211)
36 Quanto ao uso do surrealismo na crítica de Enrique, a ironia histórica é sem dúvida radical, se lembrarmos que não só o surrealismo, mas todos os movimentos de vanguarda, como o dadá e o teatro artaudiano, estavam encenando na Europa o vodu africano, copiando as estatuetas africanas vendidas como quinquilharia no Velho Continente, recriando o espetáculo altamente formalizado da Bali asiática. E, mais geralmente, aventurando-se numa interpretação não-freudiana do inconsciente por inclusiva, não como aberração ou perversão, da luz da Ásia, mas também das Áfricas e Américas Tarahumaras, em termos do que revelaria a natureza do inconsciente (ver meu blog “A Trajetória da Vanguarda”).
37 Aquilo que em Deleuze e Guattari sem dúvida foi continuado na teoria, como se veririca amplamente pela informação antropológica de que faz uso o Anti-Édipo independente da classificação obsoleta de Morgan, e especialmente pela sua utilização de Artaud na fórmula do “inconsciente maquínico”. Mas assim privilegiando, especialmente em Mille Plateaux, a sua condição de esquizofrênico, visada como geradora do seu teatro e da sua interpretação do inconsciente, quando a meu ver torna-se bem mais compreensível a sua inserção histórica pelo tratamento de Virmaux, que inversamente segue a formação e desenvolvimento de Artaud como homem de teatro no bojo dos movimentos de vanguarda da época.
38 Quanto à prosa nova latino-americana, podemos convir que bem antes, essa reutilização do originário esteve no fantástico romanticista que porém não atravessava as fronteiras da nação que nos casos mais típicos ainda não existia, sendo o movimento romântico ligado aos ativismos anti-imperiais como na Alemanha, e indo buscar o seu folclore esdrúxulo no próprio popular da nacionalidade apenas culturalmente definida, assim como na música o lied é a reinvenção eurudita da canção popular.
39 Porém a novidade dos prêmios nobel americano-latino do século XX está bem ressaltada por Enrique. Não apenas que aí não há transposição, eufemismo da apropriação pura e simples da arte alheia, sem conceder-lhe os créditos. São os próprios nacionais que se voltam às suas raízes. Mas o que Enrique observou é que já não se trata do adágio realista tradicional de que “aquilo que está mal está bem se for compatriota”, mas sim da arte “para mostrar-nos as vergonhas, para indicar onde estão não somente o pus histórico, mas também a ridicularia, a sensaboria, a mediocridade do ser humano... Era necessário que começássemos a ver-nos sem comiseração mas também sem complacência; a própria realidade já havia destruído os arquétipos do patriotismo”, destruição patente nas pinturas de Walfredo Lam ou Antonio Seguí. (p. 210 e segs.)
40 A propósito, parece-me que a tomada de consciência não poderia ser melhor localizada, inversamente ao que supôs Deleuze. E de fato o movimento inclui a transformação da língua, como em Guimarães Rosa escrevendo na “sintaxe insólita dos camponeses de Minas Gerais”, Manuel Puig, Francisco Urondo e outros escrevendo em “argentino” (em vez de “espanhol” na mesma proporção que estaria o “brasileiro” para o “português”), e no cinema o boliviano Jorge Sanjinés, “autor da senha “passar do testemunho à acusação'”, realiza o Ukamau, filme todo na língua aimará.
41 É importante assim o estudo de Luis Carlos de Morais Junior, “A Fresta entre os mundos”, tematizando o aimará como língua marginalizada na Antiguidade aborígine pelo império Inca. Assim, como ele expressa, atualmente o remanescente falado aimará nos Andes é uma margem relativa ao quíchua inca também remanescente falado.Termos aimará integram de fato a língua nacional – esta oriunda da colonização espanhola como em todos os países da América do Sul, excetuando o Brasil cuja colonização e fala são portuguesas. Na informação de Houaiss (1975), o aimará, o quíchua e o guarani, são as três línguas faladas atualmente por mais de um milhão de pessoas na América, respectivamente os números de falantes sendo 1 150 000, 5 700, 1 700 000.
42 Ao ver de Luís, a cultura aimará é um foco expressivo de um conhecimento generalizado e sofisticado, constatável em várias culturas pré-históricas da América, como espiritualismo que na designação da cultura “tolteca”, antes da dominação imperial asteca e incaica que produziram dela um estereótipo distorcido, encontra sua expressão mais concentrada e genuína. Luis apresenta já uma vasta obra poética e literária, com alguns títulos em parceria comigo, porém cada um de nós mantendo em seus títulos próprios investimentos autônomos. Atualmente sua produção poética vem se concentrando como veículo de conscientização e crítica da problemática situação histórica atual, e sobretudo intensificando as suas propostas de elaboração da linguagem poética especialmente em páginas de poesia na Internet. Na prosa, Luís tem expresso sua interlocução do que pesquisa da antropologia tolteca, desenvolvendo um fantástico intromisturado ao cotidiano, como em “Gigante”. Aqui seria interessante ressaltar que seu interesse pela obra de Carlos Castaneda está assim relacionado.
43 Porém é nítido que em suas análises de Castaneda, Luis Carlos de Morais Junior focaliza apenas o aspecto “filosófico” da obra, não referenciando o desdobramento que Castaneda constitui após os primeiros livros, na temática da “linhagem” do “grupo”, a sociedade secreta ocultista, de fato a perpetuação de tipos ideais em posições mais ou menos hierarquizadas, com uma ênfase na noção de centralidade. Sendo os tipos, entretanto, repositórios dos segredos místicos que a linhagem conserva e que os torna aptos a feitos miraculosos, fantásticos.
44 É notável que Castaneda, um enigma da crítica literária sob vários aspectos, não tenha cultivado um referencial antropológico tolteca não ficcionalizado, por exemplo misturando a referência do “naual” para designar um mito da centralidade. Quanto à hierarquia das posições naturalizada em pontos cardeais, e a síntese ou natureza dupla na posição central, de fato é algo bem conhecido em vários referenciais folclóricos, não restritos à América aborígine nem à explicação mística do “naualismo” castanedista. Assim a duplicidade é comumente explicada na antropologia pela concentração, nas mãos do rei, cujas núpcias são essenciais, da soberania sobre mais de um segmento social, por exemplo a agricultor e o guerreiro, ou a mitologia do tarô, com o mago/imperador e os quatro naipes do baralho que se tornou comum.
45 Ora, o realismo do outro real, de que tratam Xirau e Enrique, é o que sem dúvida os best sellers de Castaneda exploram, porém com um intuito mais sincrético e um estilo de prosa cuja origem expressa é a observação do antropólogo universitário, que entretanto – na economia da obra - converte-se à cultura observada e se torna ele mesmo o novo “naual”. Bem ao estilo dos sixties, quando lançou-se, é interessante que Castaneda não seja considerado “literatura” na acepção da crítica literária tradicional, mas gênero de senso comum, ainda que Deleuze e Guattari, e mais referenciais de filosofia e ciência como Capra e Heinz Von Forsters, o referenciem, sempre independente da temática mais tardia do “grupo”, e apenas pelos livros iniciais sobre as revelações do mestre Juan, o aborígine yaqui. [Nota 11]
46 Por outro lado, é também notável o destino da obra, desde os anos oitenta. Os livros subsequentes transformam o enredo. Castaneda, o novo naual, não terá a sua mulher naual no México, mas na universidade americana, e desde os anos noventa escritoras ligadas pessoalmente a ele e ela publicaram obras tematizando os novos rumos, como integrantes do mesmo “grupo”, assim Taisha Abelar e Florinda Donner. Este novo grupo, universitário americano, originou uma companhia comercial da família Castaneda, a milionária “Cleargreen”, relacionada a workshops místicos e publicações na internet. A obra provou desse modo continuar best-seller, com ainda intensa polêmica na Internet sobre se o “naual” Juan era ficção ou realidade, e se Castaneda é ou não aceitável como informação de antropologia.
47 Enquanto isso, os humildes personagens mexicanos que haviam integrado o grupo de “don” Juan nos livros de Castaneda, deixavam de ter qualquer proeminência, eram mesmo ultrapassados como “La gorda”, a pobre mãe de filhos oprimida e complexada Helena, que nos livros havia se elevado a magra, bem sucedida e sábia, grã sacerdotiza do grupo. Para na internet a bela, burguesa e pura mulher “naual” americana, Carol Tiggs, reportar que Helena posteriormente suicidou-se como consequência de ter errado na interpretação dos ensinamentos.
48 Assim também se transformava o encinamento, obnublando completamente o que havia sido o cerne dos livros, o desprendimento e a vida oculta. Agora, o “conhecimento” místico revelado pela pertença ao grupo se tornando sempre mais restrito ao feito de inserção capitalística, à adequação ao status da riqueza e afluência na sociedade ocidental, já sem qualquer restrição à fama e evidência social pessoais.
Entretanto, escritores mexicanos que permanecem atuais como Domingos Solozano e Victor Sanchez exploram a temática do Castaneda “don” juânico, mesmo sem terem relação com o grupo mencionado na obra dele, tematizando personagens similares aborígenes mexicanos e a temática da inserção do “naualismo” de “don” juan na cultura mexicana, ou projetando ligações com ele por sonhos ou telepatia. Uma obra semelhante à de Castaneda, mas na ótica feminina, é a de Lyn Andrews, que narra o que seria o seu aprendizado místico com mulheres aborígines de reservas canadenses.
49 A crítica literária, entre Xirau e Enrique, revela, bem inversamente a esses exemplos de realismo que seriam de senso comum, ainda que com possibilidades de ações fantásticas, expressa uma fórmula da prosa latina atual inclusiva daquilo que, de fato, seriam todos os estilos destoantes do realismo europeu, como o barroco e a vanguarda. Aí vemos Enrique considerar neobarroca a linguagem de Glauber Rocha, adequado como seria esse “fenômeno do barroco literário latino-americano contemporâneo” a uma realidade ela mesma barroca “desde o estilo de suas selvas- churrigueresco vegetal – até um modo de comportamento humano, sobretudo nas cidades”, ao seu “artesanato” e “templos mestiços”, ao contrário do antigo hábito do distanciamento castiço, de se fazer “amplas listas dos temas populares” a serem contudo utilizados “na linguagem da classe ledora.” (212 e segs.). Tropo humorístico da crítica, já que o estilo churrigueresco é radicalização do barroco – na internet, como se poderia esperar, muitas referências e belas imagens a propósito. Porém permanece inexplicado a meu ver a necessidade de reduzir ao realismo tudo o que não quis ser assim designado, e contra o que o realismo sempre se coloca.
50 Porém assim a necessidade nessa crítica literária de Jorge Enriques que é também o que pratica Ramon Xirau, de alguma fórmula unitária para o que na verdade está sendo conotado por eles mesmos como a variação máxima, se torna questionável, a meu ver. Como podemos apreender, se o que o neobarroco iria estar servindo é contraditoriamente a um ideal de autenticidade homogeneizante, desde a cultura até a natureza geográfica.
51 Pelo contrário, Noé Jítrik, a meu ver mais corretamente mesmo não antecipando um pós-modernismo, considera o fenômeno da arte contemporânea americano-latina como um novo tipo de vanguarda, que aproveita tudo do experimentalismo histórico, porém por uma atitude que já não seria a de um ciclo fechado e irrefletido – como poderíamos dizer, a vanguarda copia o “primitivo” que depois, “desenvolvendo-se”, copia a vanguarda. Fenômeno que nem seria novo, mas o que alguns consideram que ocorria no helenismo românico, as culturas nacionais eram conceptualizadas em formulações gregas mas o que havia informado a filosofia grega era a conceptualização por ela feita, das influências dessas mesmas culturas orientais, egípicias e mesopotâmicas.
52 Mas sim, conforme Jítrik, por uma atitude de “autoquestionamento” que importa a uma nova condição do escritor. O autoquestionamento não se desvanece na forma que produz. Na forma produzida como objeto estético, o autoquestionamento é recuperado “e em todos os momentos em que aparece nos introduz numa dupla perspectiva, a de um mundo cujo conhecimento se torna duvidoso e, por outro lado, a de um autor que transmite correlativamente dúvidas similares acerca de sua própria capacidade de conhecer”. (p. 220)
53 Nessa interpretação de Jítrik torna-se inviável qualquer solvência do escritor na coletividade, assim como dos deslocamentos do estilo na homogeneidade de um só que iria ser dela a alegoria perfeita. Já o que de fato se torna verificável em Xirau e Enriques, é que sua necessidade de unidade convem ao seu marxismo, que neles é suposto como a base da auto-afirmação que permitiu o novo momento, do mesmo modo que Roberto Retamar, ao sugerir que se neste há “intercomunicação” dos temas e personagens como traço estilístico dos autores, a explicação estaria na autoconsciência da autonomia da cultura que o marxismo teria permitido coalescer.
54 Inversamente, o uso do realismo como fórmula homogênea da literatura do terceiro mundo por Jameson, serve tanto à classificação da psique local como pré-genital, e conforme Deleuze diria não havendo a “ficção” do autor, mas apenas a “alegoria nacional” conforme Jameson, como à sua condenação de tudo o que se faz como pré-marxista. De modo que os intelectuais marxistas deviam ser os diretores de consciência da produção cultural. Assim como é, a arte produzida no terceiro mundo nunca refletiria uma realidade individual, criada pelo autor, mas somente a realidade social, a situação do país, com que o autor se identifica ainda que por suas carências. Vemos portanto a constância do diagnóstico, não obstante a discordância a propósito do status da modernidade dessa arte – para Jameson, ante-moderna, para Deleuze moderna. E a propósito do marxismo, que para Jameson é o de que carecemos, para Deleuze é o que nossa condição inviabiliza pelo fato de que a solvência na realidade coletiva é apenas a constatação de que carecemos dela enquanto unidade.
55 Porém assim Deleuze não podendo escapar da consequência que ele parece querer evitar, qual seja, de que se o autor de cinema do terceiro mundo um dia realizar aquilo que é sua missão, o realizado seria a autoconsciência, o que na linguagem psicanalítica jamesoniana é o “genital” e em ambos é a presença do split de público e privado supondo eles não possuírmos. Ambos parecem pretender que aqui uma trajetória do primitivo ao desenvolvido poderia produzir um resultado não “burguês”, cortando a distopia do “ocidente” capitalista, porém de fato tudo o que conceituam da causa eficiente nesse desejado, é a condição deficiente do seu realismo, pré marxismo (Jameson) ou analfabetismo (Deleuze). Eles mesmos, enquanto intelectuais do primeiro mundo, sendo, inversamente, a nossa única ponte para esse outro super-homem.
56 Não concordo com Aljaz Ahmad, cuja tese já criticamos, sobre sua “ackward position” logo que leu a tese de Jameson sobre o terceiro mundo, por utilizá-lo até aí como seu ego central – isto é, em seus termos, como o seu guia para o ocidente cultural, leia-se para tudo, ou seja, o marxismo. Uma vez que Jameson apenas reafirmou ser isso mesmo, invalidando qualquer alternativa menos alteregológica, de modo a afirmar o marxista local como único caminho existencialmente válido. Ainda que se tratasse localmente de um marxismo já informado da nossa realidade.
57 Em todo caso, não repetindo a classificação jamesoniana de pré-moderno quanto à arte do terceiro mundo, também para Deleuze ela não é pós-moderna, inversamente ao que posicionaria Linda Hutcheon ao menos para a América Latina, ou ao limite do moderno como na concepção de Otavio Paz.
58 Mas podemos considerar que a posição de Jameson parece menos contraditória do que a de Deleuze, se o que pretende como o realizado não é a esquizofrenia. Porém algo notável é que Jameson, não tendo conhecimento aparente de Cinema 2, critica Deleuze referenciando apenas o Anti-Édipo, onde, de um modo aparentemente contraditório ao Cinema 2, “Deleuze e Guattari defendem (“argue for”) uma concepção do desejo que é ao mesmo tempo social e individual”, como colocou Jameson. Tratando-se contudo também da arte cinematográfica, pois exemplificam a concepção com a cena de um filme não do terceiro mundo, e sim de Nicholas Rey onde o personagem, que está sendo tratado por stress e problemas cardíacos, tem um delírio com cortisona. (p. 79)
59 Efetivamente o Anti-Édipo é muito crítico de Freud e Lacan mas repete e até radicaliza a classificação do não-moderno-ocidental como o arcaico, “selvagem” (tribal) e “despótico” (ditatorial /imperial), ambos opostos ao “civilizado” capitalista edipiano ocidental. A tese do Anti-Édipo não nega, pois, o caráter edipiano, mas considera-o uma determinada formulação do desejo, moderno-ocidental, inversamente ao universal do inconsciente. Porém ainda assim, negando a condição de anterioridade pré-edipiana aos outros dois casos de formação social conhecida na história, para postular sua autonomia, para fazer da classificação apenas uma tipologia, é obviamente implícita a sucessão cronológica. Uma vez que o capitalismo não havia antes, e que o despótico só ocorre reprimindo o selvagem, logo posteriormente a ele. Assim também o capitalismo reprime qualquer fixação de “códigos” sociais (selvagem ou despótico).
60 A classificação é retomada de Morgan, como a mesma de Engels. A tese da esquizoanálise que o Anti-Édipo defende é pois que o desejo é sempre o investimento de um campo social, logo, não havendo no desejo inconsciente enquanto tal, a cisão público-privado que a teleologia edipiana tornaria a priorística por conservar a libido inconsciente unicamente relacionada a “objetos” que são as pessoas da família nuclear (mãe, irmão e pai). De modo porém que a ausência da cisão é incompletude, anterioridade da infância ao adulto ocidental, e classificação antropológica das sociedades que permite o auto-conceito do Ocidente psicossocialmente evolutivo – o novo não apenas como a novidade de uma vez, mas como função da única sociedade histórica, já não mítica, sempre em progresso.
61 É algo evidente que Deleuze e Guattari defendem a autonomia dos outros sistemas, porém o que estão postulando não é que eles são mais autênticos, e sim que eles são variações esperáveis a partir de uma natureza do desejo em geral, que é processo a partir dos investimentos no entorno social efetivo, por isso que o desejo é “esquizofrênico” e não apenas edipiano. Vemos portanto reverter-se a propalada autonomia, posto que é o capitalismo como desterritorializador dos códigos míticos antigos que encarna essa natureza infixada do desejo, ainda que o capitalismo mesmo não a possa levar ao fim e prolifere reterritorializações como modas sempre mutantes. Mas o inconsciente desejante em sua natureza – que não é portanto a dos códigos arcaicos, tribais ou despóticos, mas mutação contínua de códigos inventados - se expressa sem tais limitações na arte moderna, como no sonho, sendo o desejo como vimos investimento expressivo ilimitado do campo social. Não cerceado pelo que seria a lei do significante, a clivagem da castração.
62 Como lacaniano, Jameson está criticando pois que no primeiro mundo possa haver uma arte que não fosse o produto do inconsciente edipiano. Cita a análise do sonho do personagem de Nicholas Rey efetivada no Anti-Édipo, um pai que tem ganas de assassinar o filho e é fixado na história de Abraão, onde os autores assim concluem, após a pergunta sobre o que é um delírio e a exposição da cena: “O que o filme mostra lindamente, para vergonha dos psiquiatras, é que qualquer delírio é em primeiro lugar investimento de um campo social, econômico, político, cultural, racial e racista, pedagógico, religioso. O delirante [do filme] aplica à sua família, e ao seu filho um delírio que os ultrapassa por todos os lados” (p. 219). Em seu artigo (p. 79), após a citação Jameson expressa não estar “certo de que as consequências objetivas desse hiato (“gap”) essencialmente social e concreto, na experiência do primeiro mundo, entre o público e o privado, possa ser abolida por um diagnóstico intelectual (“by intellectual diagnosis”) ou por alguma teoria mais adequada a propósito de sua inter-relação”.
63 Uma vez que o artigo de Jameson em Social Text apareceu no outono de 1986, e o copyright do Cinema 2 é de 1985, não se trata de julgar que Deleuze tenha mudado pela assimilação da crítica. De fato a teoria subjacente, da função inconsciente do investimento da memória social é a mesma, porém o que parece mudar desde o Anti-Édipo lançado em 1972, é a reserva ao terceiro mundo e à condição étnica minoritária do investimento do campo social por uma memória do autor de cinema que por sua “fabulação” assim o constitui.
64 Ou seja, se no Anti-Édipo deveríamos esperar que todo o modernismo, como de Artaud e tantos citados por Deleuze, no primeiro mundo, expressasse a natureza do desejo, excetuando as obras de mera cumplicidade com a falsidade quanto ao universal edipiano e a arte que se conservasse classicista, de modo que o modernismo seria a revelação da natureza política do desejo, no Cinema 2 a modernidade política é reservada ao terceiro mundo como uma condição de carência essencial relativa à sociedade enquanto correlato do “povo”. Com o agravante de que no Anti-Édipo a fabulação da memória não resume todo o inconsciente, mas é parte dele, ao lado das outras duas funções, a libido como produção e a volúpia que é a subjetivação, contudo não individual, e sim, enquanto autêntica, a encarnação de um povo ou status coletivo que desfazem o sujeito individual.
65 Nessa via, o Anti-Édipo desemboca no Mille Plateaux, onde as subjetivações são desmembradas em vários “regimes de signos” que seriam fórmulas de povos históricos efetivos.
66 Já o Cinema 2 de Deleuze nega que o cinema do terceiro mundo encene os mitos do folclore e das religiões pré-cristãs atuantes como culturas, digamos, minoritárias no terceiro mundo. E como poderíamos colocar, ainda que o tropicalismo estivesse tematizando na poesia musical precisamente seus temas. Mas a seu ver a recusa precisamente disso decorre do cinema do terceiro mundo, como especificamente Glauber Rocha, não “analisar o mito para descobrir seu sentido ou estrutura arcaica, mas sim referir o mito arcaico ao estado das pulsões numa sociedade perfeitamente atual”, como pulsões de fome ou sede, de morte, sexualidade ou adoração.
67 Ora, repetindo algo exaustivamente, a presença ou ausência da cisão de público e privado é precisamente a definição de estados diferenciados enquanto podendo ou não deixar passar a pulsão enquanto tal – o desejo não sublimado, inconsciente – no comportamento. Mas o que torna a construção deleuziana incoerente é que, quando se trata da fabulação da memória “esquizofrênica”, como também da arte modernista ocidental, os materiais semióticos são os povos do terceiro mundo, mas quando se trata deste, não há “povo”, é preciso inventá-lo e a função dessa invenção se delega, não é a história efetiva que a encarna.
68 A chave dessa aporia continua a ser uma tese de diferenciação evolutiva, na medida em que se trata, nos dois lados, de fórmula tipológica em vez de história. E além disso, a realização da memória fabula de fato duas condições diversas, na qual só uma é a originalidade esquizo-analítica do tipo como devir.
69 Ou seja, quando se trata da realização do tipo na fabulação da memória ocidental modernista e esquizofrênica, o resultado não é a solvência do individual no coletivo apenas porque não se trata do sujeito mas dos povos, e sim um neonomadismo que não se fixa numa cultura ou tipo de “heceidade” único. O “devir” é a encarnação do tipo, mas porque enquanto a de um inconsciente maquínico, é apenas um momento na sucessão de tipos que ele encarna, a infixação dos tipos sendo a riqueza dos conteúdos do conhecimento corrente dada numa síndrome mutante, o “processo” em devir do desejo. Assim cada um seriam seus próprios outros, inversamente ao “fascismo” identitário de “um” tipo tradicionalista. Ao contrário, se a realização do cinema do terceiro mundo é a de “um” povo, não se compreende como não seria esse fascismo, ainda que fosse a realização “política” do povo. Nem, tampouco, como isso seria político e não apenas ético, justamente apenas a fabulação privada do cineasta.
70 Mas esse problema já espreitava desde o Mille Plateaux, mais especificamente, porque ali a fixação dos povos em regimes de signo definidos pelos europeus Deleuze -Guattari implicava axiologicamente a impossibilidade do neonomadismo ou heceidade esquizoanaliticamente “saudável” além do europeu contemporâneo, isto é, pós-capitalista, sendo o capitalismo no Anti-Édipo, o advento da infixação dos códigos na história. Como já assinalei, de fato isso não é diverso do que pretende a teoria freudiana, e Lacan já havia substituído a noção de “fases” pela de “funções”. A comparação do Anti-Édipo a propósito é de que enquanto na cura xamanística “há todo tipo de jogo das raças, dos clãs, das alianças e das filiações, toda essa deriva histórica e colectiva”, ela é “precisamente o contrário da análise edipiana, quando esmaga obstinadamente o conteúdo dum delírio, quanto o enfia à força no 'vazio simbólico do pai'”.
71 Porém não parece que a mensagem da psicanálise seja, como eles pretendem, “faz as tuas triangulações no teu canto, mete a tua casa entre as da linha paterna e as da linha materna... a tua família é apenas a tua família...”, sobretudo “ o teu pai é apenas o teu pai... assim como teu avô materno, não tens nada que os tomar por chefes.” (p. 134).
72 Primeiro, que o chefe seja tomado por nossos pais é precisamente o que explica segundo Freud a psicologia da “massa” enquanto é ela um fenômeno de identificação coletiva como fenômeno inconsciente, que abole a linha consciente em que raciocinamos com qualquer coerência auto-observável. Segundo, que a distinção do sujeito consciente relativamente a essa massa é o verdadeiramente desejável, que porém Deleuze não atribui ao selvagem, como já salientei. Se não é por uma linha consciente que isso vem a ocorrer na história, também não é pelo privilégio de algum “povo” como tal, o correlato de certa marcação coletiva única. E sim pela modernidade possibilitada no capitalismo.
73 Os devires do esquizoanalizado desenvolvido não são só devires de povos, mas se são também devir mulher, animal, criança, e esses são possibilidades que se apreendem no mito dos povos arcaicos, o fato do acréscimo do devir de povos, “tuareg”, negro, “chui” (chinês), etc., porém sem jamais fixar-se num só, faz do primeiro mundo contemporâneo algo sem precedentes na história, porque não implicando esse “numem” (memória) a sobrecodificação de um “socius”, que não é Estado mas se define, pior ainda, como uma pertença coletiva – já Deleuze e Guattari utilizando desde o Anti-Édipo (p. 133) a classificação de Durkheim da ausência de divisão de trabalho para a confusão imediata de indivíduo e papel social na família primitiva. Segmentaridade verminóide, oposta à evolução de um sistema nervoso central, eis a figura utilizada por Durkheim que Deleuze e Guattari repetem no Mille Plateaux, para opor a sociedade primitiva sem divisão de trabalho e a moderna-ocidental em que a divisão teria chegado ao nível acabado.
74 Assim como é bastante ambíguo considerar que isso seja valorização, usando Morgan e Durkheim mas invertendo a qualificação, há vários problemas no comentário deleuziano sobre o cinema do terceiro mundo, considerando-o especificametnge à luz do que vem se desenvolvendo na nossa produção cultural. O principal sendo a oposição verdadeiramente obsoleta entre o intelectual e o autor, algo que não tem sentido algum mesmo em Cinema 2, quando se trata dos cineastas do primeiro mundo, com cujas reflexões Deleuze dialoga – assim relacionando-as às questões intelectuais correntes.
75 Mas o intelectual do terceiro mundo é apenas uma cabeça vazia, pois para Deleuze a sua “tomada de consciência é desqualificada” porque ocorre “num vazio”, e se ele está criticando aí figuras ironizadas pelo próprio cinema local, não apreende que não se trata senão do pseudo-intelectual que se utiliza da instiuição, não que não haja produção conceitual e científica especialmente na área social (p. 261, 264, 265). Na disjunção abrupta de intelectual e autor de cinema, recalca-se o fato de que aquilo que está sendo investido como o referencial cultural local na nossa arte, não é mito ou memória sem passar pela utilização da informação antropológica, histórica e política que envolve o presente e seus questionamentos. Tudo isso que já não supomos possível ser copiado da Europa em vez de produzido por nós mesmos, conforme as situações e linguagens que hoje conservam matrizes do próprio fenômeno.
76 A suposição deleuziana resultaria numa proposta de arte meramente cartilhesca, pelo que se pode deduzir da suposta obrigação do cineasta reproduzir os filmes de multinacionais da mídia internacional para alcançar as massas, de fato suposição ingênua, pois o cinema que ele está julgando, como o de Glauber, é “de arte”, como se rotula aquele cujo circuito não é meramente “comercial”. Assim o próprio Glauber , em “O Século do Cinema”, deplorava que o cinema de arte europeu importado monopolizasse os cineastas brasileiros que os copiavam, quando deviam em vez da cópia investir a cultura local.
77 Deleuze não viu a irredutibilidade nocional entre “cultura” e “povo” - este último um termo não definido, aliás, por ele, além do que o colonizador nega existir. Pelo que já examinamos, pode-se considerar o conceito deleuze-guattariano como regime de signos ou “socius” - isto é, algo como regime da “nação”, porém de fato noção complicada porque querendo evitar o termo Estado, apenas lida com costumes, não alçando-se ao campo heterogêneo das leis - que além do capitalismo seria redutível a um estereótipo, pois não se pode considerar já o ideal-tipo ou arquétipo de outro modo que este, em todo caso, justamente ao que não nos consideramos redutíveis.
78 Como já ressaltei, esse tipo de concepção prejudicou por um século, por exemplo, à sinologia, que persistiu na interpretação do taoísmo como algum ramo de Confúcio, quando a heterogeneidade da letra é nítida, mas dela se pode depreender heresias ao credo psicossocial evolutivo do ocidente, posto que já existe em Chuang e Lao Tse a crítica do Saber como imperativo do dever-ser, como função do Poder, e a arte do desenho taoísta, intensamente erótica não tem nenhum horror da vagina e da penetração. A propósito, nas bancas de jornais estava se vendendo, da coleção Mitos, Deuses, Mistérios, o volume de Rawson e Legeza sobre o Tao, em que constam extensas cópias dessa arte, o que refuta também a condenação straussiana ao abstracionismo como produto do capitalismo – uma vez que já consta há séculos na arte taoísta.
79 E sobre a obsolescência da concepção de que sociedades “primitivas” não tem diferença entre costumes e lei pública, como demonstra Emilio Willems (“antropologia social”, São Paulo, Difel, 1966), sobre a oposição radical de costumes e lei na sociedade Kalinga, e também sobre a universalidade do Estado (para o contraste do positivismo e funcionalismo na história da antropologia e a compreensão desta como ciência, porém, ver o “Introdução à Antropologia Social” de John Beattie, São Paulo, Companhia Editora Nacinal, 1971, como referência menos prejudicada pela filosofia, e mais científica). Por onde torna-se algo incompreensível o “socius” deleuziano, uma vez que o primitivo seria universalmente o marcar da pele, porém é algo básico na antropologia que além disso como mero costume, as sociedades primitivas tem leis muito irredutíveis umas às outras. Inclusive a oposição deleuziana do Estado como apenas presença de imperialismo não procede, já que há formas tribais imperialistas reportadasp em Willems, ou de dominação de grupos interna, além de sociedades primitivas com formas de legislativo democráticas.
80 Também não parece apropriado tratar o terceiro mundo num mesmo sentido que a “minoria” que integra populações do primeiro mundo. Deleuze parece ao mesmo tempo que rotular uma condição unívoca de ausência de cisão público-privado, compreender que de fato não é o mesmo, porém é algo precário considerar que o terceiro mundo pode ser distinto do primeiro assim como a pequena da grande nação – o Brasil é enorme – ou de línguas menores e maiores (o português é falado em muitos países, e a questão da variação é interna a toda língua).
81 Ao ver de Glauber aquilo de que precisamos para um cinema de arte menos limitado nada tem a ver com “povo”, uma vez que ele nunca parece terr suposto que algo falta além de dinheiro. Sendo só dinheiro o requisitado, pois independente do cânon da cópia a inventiva também não poderia faltar se o nosso intertexto cultural descoberto na ciência livre de toda dominação cultural ocidentalista, é a riqueza da nossa arte possível. Mas como se pode observar, o dinheiro aqui é algo mais do que apenas mecenato, se bem que bem acolhido, e sim a formação de um meio de cultura com recursos próprios.
82 Como vemos, a estetização do intertexto antropológico social já não resulta num folclorismo ridículo que seria resgatável com benevolência apenas por um olhar interessado no caráter pulsional do não reprimido. Bem inversamente, trata-se dos problemas – o cangaço não é a violência arcaica sem estar num contexto de dominação política atual implicando pela perpetuação do latifúndio o recalque da mudança social e do desenvolvimento cultural, não há arcaísmo que não seja produzido, se o espírito nunca é algo estancável. Além disso, Glauber tratou questões da subjetividade como o homossexualismo e a agressividade feminina.
83 O mérito do cinema moderno como questão estética (do primeiro mundo), que Deleuze seccionou do cinema político (do terceiro mundo), é algo a que voltaremos mais à frente, por ora contudo já sendo importante notar não ser assim cindível pelos investimentos de Glauber nas particularidades da paisagem local. As situações óticas e sonoras puras, sobre que Deleuze reflete em termos da modernidade, pareceriam algo em conexão local apenas com o investimento de câmera que Ligia Pape tematizou afirmando-o como investimento contrário ao de mídia que subsume a cãmera ao olho, não apenas o olho sensório-motor mas da ideologia como tal, na qual não há significado que não seja préconceptível unívoco à cena ideológica. O pop como arte da câmera é o desfazimento do “pré-significado unívoco” da mídia, ainda que, e por isso mesmo, podendo utilizar o que seriam seus mostráveis, num outro regime do mostrar, que explora os recursos unicamente da câmera, não limitáveis pela expectativa do olho.
84 Por aí já veríamos que a problematização de que se trata não é tão a-política assim, com base apenas na disjunção deleuziana de maquínico-intelectivo e sensório-motor impregnado de ideologia – ao contrário do signo autoinvestido com que Jameson supõs que a mídia se desideologizava num sentido bastante mau, porque a ideologia seria ainda cultura. Mas os investimentos de Glauber também o problematizam, quando, por exemplo, sendo da luminisidade da praia nordestina, forma um jogo do cineasta questionando os limites da câmera que é fabricada no primeiro mundo, assim limitada quanto à apreensão dessa clareza intensificada.
85 Aqui, aparentemente ao contrário de Pape, é o olho que questiona a câmera, porém nos dois casos vemos que a deleuziana situação ótica “pura” parte de uma disjunção questionável, seja à inserção ambiental, seja à ação como politicamente cooptada ou problematizada. E como temos visto desde a revolução micro-informática, é todo o conceito pós-estrutural de máquina que se tornou problematizado por um limite a-político, a máquina fora do devir efetivo, pensável sem logomarca.
86 Guattari podia considerar assim, na condição de um phylum maquínico, que um tipo de máquina recalcava outra, a máquina de escrever recalcada pelo computador pessoal, porém de fato nunca inclui a logomarca nesse modus operandi do recalque, que hoje é nítido em vários níveis. Em “Papel Máquina”, Derrida já é motivado a meditar sobre o computador escrevente, porém não chega realmente à indissociação necessária da máquina à logomarca. O que já estava precedido pelo açambarcamento da pesquisa científica por patrocínio da logomarca, o que implica hoje a propriedade empresarial da transcrição de gens. Como crítico do Saber como meio de dominação do Poder, Foucault jamais integrou essa questão, pelo contrário, supunha que fora do Estado, a empresa neoliberal – cuja origem seria o funcionalismo do Ordo alemão – não teria qualquer relação com a dominação dos costumes que ele creditava à medicina como política de gestão governamental, num contraste admirável com as revelações de Stuart Hall sobre o neoliberalismo inglês.
e. 2) A clivagem do Inconsciente e o terceiro mundo
1 É interessante que Jameson classifique duas formas de alegoria enquanto algo que distinguiria ao mesmo tempo a prosa realista e o seu deslocamento terceiro mundista como “alegoria nacional”, conforme o conceito jamesoniano, onde sempre se pode ler o destino do protagonista como tropo da situação do país. Comenta assim sobre o oitoscentista Galdos que de fato se poderia constatar algo como alegoria nacional, citando seu comentário em Fortunata y Jacinta, sobre o surto ciclotímico do personagem: “Verificabase em él lo que don Baldomero habia dicho del pais : que padecía febres alternativas de libertad y de paz”. Mas rechaça Jameson a dedução pela qual seria a mesma estrutura do realismo do terceiro mundo, supostamente justificável pelo fato da Espanha ser um país europeu mas periférico no sistema do capitalismo moderno, cujo centro são os países líderes da industrialização e sua cultura, como Inglaterra e França nos termos jamesonianos.
2 É verdade, conforme Jameson, que as duas mulheres do título de Perez Galdos encarnam a oposição de pobreza e riqueza, e que o protanista está entre ambas, mas também é verdade que a rica Fortunata é ela mesma casada, assim sua hesitação entre fugir com o amante ou deixar-se ficar abandonando-o também figuraria a opção nacional pendente entre revolução e restauração. Pareceria a mesma flutuação (“floating”) ou estrutura transferível (“transferable structure”) da situação do personagem à do país, detectável segundo a leitura de Jameson no “Ah Q” de Lu Xun, escritor chinês da metade inicial do século XX.
3 O que resulta numa aporia do texto a meu ver, posto que para Jameson a anomalia – ou como alerta ele, “talvez o mais pernicioso (“damaging”)” do que apenas não nos fornecer as satisfações da vanguarda europeia” sendo “sua tendência à nos recordar estágios ultrapassados (“outmoded stages”) do nosso próprio desenvolvimento cultural do primeiro mundo” - do nosso realismo do terceiro mundo, estaria em que esse romance que estourava no mercado internacional depois dos anos cinquenta, como o americano-latino que já visamos, estava sendo escrito ainda “como em Dreiser ou Sherwood Anderson” (p. 65). Porém Lu Xun, que Jameson analisa nesse artigo para demonstrar a alegoria da China entre capitalismo moderno e império antigo, sendo de fato contemporâneo deles. O “Diário de um Louco” sendo de 1918 segundo Jameson, e aqueles autores norte-americanos produzindo até meios da década de quarenta.
4 Em todo caso, para Jameson a coincidência em Galdos de uma provável analogia de personagem e país não chega a configurar identidade estrutural com a alegoria nacional do terceiro mundo, porque na literatura de Galdos sempre se pode inverter o sentido da analogia, “reverter essa prioridade e ler a analogia política como decoração metafórica” do destino individual, assim apenas “mera intensificação figurativa (“figural”) deste”. (p. 79)
5 O interessante aqui não é só a ênfase no caráter estrutural da classificação do terceiro mundo literário em Jameson. O que por si só é algo bastante forçado, já que todo o fenômeno literário do realismo como gênero que determina um efeito específico na margem pode ser enquadrado, inversamente ao isolacionismo jamesoniano, na observação de Carpeaux sobre o sucesso de Zola: “Em numerosas edições e traduções baratas, a sua obra está circulando pelo mundo inteiro, constituindo para inúmeros leitores a primeira iniciação e a iniciação definitiva na literatura. Entre estes inúmeros leitores há tantos e tantos aos quais a leitura de Zola sugere a ideia de escrever um romance sobre as suas próprias experiências em ambientes profissionais e nacionais que a literatura ainda não descobriu e que se parecem com os ambientes descobertos pelo próprio Zola; o seu método é evidentemente o indicado para ampliar os horizontes literários, não na dimensão da profundidade, mas horizontalmente. Daí a influência permanente que Zola exerce sobre os jovens romancistas da América latina e dos países asiáticos e africanos.” (História da literatura ocidental, Rio de Janeiro, Alhambra, 1987, V. VI, p. 1571, o grifo é meu).
6 Porém vimos com os críticos americano-latinos dos meios da década de setenta, que essa é apenas parte da história, que não explica a segunda onda da literatura localmente integrada, a qual não se enquadra no realismo senão problematizando o que é o Real. Se eles não chegaram à designação do pós-modernismo, emergindo somente desde os anos oitenta, o que tratamos acima assinala contudo um sintoma, na medida em que nos anos setenta já se tratava de pelo menos cinquenta anos de modernismo local, mas a terminologia se voltou em todo caso ao “realismo”, ainda que de outro real. Ora, desde o romantismo se tratou de nacionalidades, o modernismo foi porém a assunção dela em termos de raízes culturais formativas de sintaxes pluralizadas. Já o realismo, entre ambos, a investiu como não podia deixar de ser, enquanto situação histórica. Desse modo, sendo a literatura do tipo, mas, como coloquei antes (ver livro 2), desde o determinismo que o explica contra a ideologia da livre escolha consciente, como poderia haver uma diferença radical do Centro e da Margem? O paradoxo é notável. É aplicando o determinismo realista que se distinguem como primitivo e desenvolvido, a margem e o centro, mas a aplicação estava então sendo o feito em todos os lugares, na qualidade da ciência, o universal em si.
7 Assim Enrique aduziu sobre a origem do nosso realismo em Zola, mas pelo viés de um comentário sobre algo bem contemporâneo, a anti-literatura de Truman Capote a Günter Walraff – ele também cita Oscar Lewis. Eis a arte “que não questiona a realidade a recria ou a inventa”, o “procedimento esquartejado entre a literatura e a pesquisa” sociológica, e que assim converte-se “na fotografia de uma realidade social”, ou “o instantâneo de uma situação fixa” na crítica feliz citada de Luis Harss, e em relação a qual testemunhar é ao mesmo tempo ter julgado. Dados um negro, um índio, um pobre, um bandido ou uma prostituta, já tudo se fez como se o que se houvesse dado fosse o anjo do juízo final sobre a história: “O escritor que pretendia indagar era antes o espetador justiceiro dessa vergonha, aquele que a via de longe mas julgava conhecê-la através de breves excursões ou de visitas parecidas com férias, as quais tomava notas à maneira de Zola na estação ferroviária, atuando mais por simpatia do que por identificação com seus personagens, porque não podia mudar de alma nem de pele” (p. 203)
8 O sintoma da permanência do rótulo, ainda assim, tem o ar de explicar-se: “Glauber Rocha assinalou o irreal desse realismo, ao referir-se a O Cangaceiro, o filme de Lima Barreto, que 'cria a ilusão do mundo do cangaço com um quadro semelhante à ilusão do mundo do bandido do Texas'”. A diferença, pois. Segundo Enrique: “Para percebê-lo foi necessário esperar que o realismo exigisse que a obra de arte tivesse incidência na prática revolucionária, porque então se conformava com a indagação da realidade”, em vez do que limitara localmente o realismo socialista, a idealização do presente com vistas à planificação do futuro, ou a cópia da realidde estrangeira.
9 Não surpreende que o realismo como a mais “fiel imitação” da realidade seja creditada ao cubismo, à arte pop e ao nouveau roman, aquele por não hipostasiar a perspectiva única, estes por lidarem diretamente com os objetos do cotidiano, ou seja, ao que habitualmente designamos modernismo. (p.202) Como entre os congressisas da Tchecoslováquia trata-se do que na Vanguarda pode se conservar pelo critério de ser apenas um realismo melhorado. Assim não há para a distância de Zola senão a mesma entre o fora e o dentro: “O coronelismo havia roubado tudo aos camponeses; o realismo escamoteou-lhes a alma”, e se João Guimarães Rosa não é Jorge Amado, é porque aquele, “o mais barroco dos escritores de qualquer língua latina... 'traçou as coordenadas espirituais da paisagem do sertão'”. (p. 203)
10 E por que se conservar titularmente o “realismo” dessa “outra realidade”, se ela em si mesma é barroca, surrealista, modernista ou como “outra” coisa qualquer, antes que o real daquele realismo de fora? A explicação é ainda modernista, a fórmula é de Brecht. O motivo é “o que mais convém” ao realismo, segundo ele. Conforme Enrique, para Brecht sendo essa conveniência “o critério de amplitude e não o de restrição”. Seria o mesmo em Leopoldo Marechal, a propósito da indistinção completa entre o real e o fantástico, uma vez que “é real o que vem do nada”. (p. 210)
11 Mas a mesma ilimitação é o que o realismo de Zola conquistava, conforme Carpeaux. Contra a linguagem literária de Flaubert, a adoção pioneira da linguagem plebeia, do povo na vida comum. Contra a seleção dos assuntos como se escrevendo “virginibus pueris que”, jamais omitir “qualquer experiência adulta.” (p. 1570)
11 Certo, o modernismo proscreveu precisamente a linguagem comum, descobrindo a pluralidade do signo como o seu a-fundamento real. Visando o que nós consideraríamos não “realismo” novo como ele diz, mas pós-moderno, Enrique já faz o balanço. Os realistas de sobra, nessa altura do século XX, continuavam a brandir contra o novo fantástico a mesma acusação de hermetismo e elitismo esteticista que a Vanguarda conhecera, mas agora já se podia retrucar que se os realistas que escreviam na linguagem do povo pretenderam fazer dele tanto o destinatário como o objeto, o fato é que o povo é o iletrado (ele ainda dizia “analfabeto”). Assim tanto faz ser um romance realista socialista ou a prosa mais sofisticada da vanguarda, para o povo ambos do mesmo modo não existem, “e toda literatura de denúncia ficou nas mãos de um setor da classe média que, de um modo ou de outro, é culpado ou cúmplice da mesma realidade brutal de que dava testemunho”. (p. 206)
12 Não temos razões para crer que as coisas mudam com a mídia ou com as bolsas para negros nas universidades, posto que a mídia se limita a veicular o que o suposto “povo” quer que ela diga, não obstante na suposta como tal linguagem dele – assim homogeneizada, quando a descoberta da sociolinguística o questionaria - e o limite ideológico é restritíssimo, enquanto o paternalismo universitário é do memo modo controlável. Ao que eu soube, inclusive tem sido utilizados métodos de limite à paráfrase para apresentação de trabalhos de alunos, além de serem exigidos em “word”. O que não obstante as aparências, é compreensível - pela duração de década e meia do “pt” realista socialista associado ao capitalismo de mídia, que no Brasil atual resultou numa incrível inversão pela qual antigos modernistas e novos prosaicos se uniram contra toda e qualquer literatura que não fosse restrita à linguagem de jornal.
13 Ignorando as conquistas não só da literatura como da teoria literária e da sócio-linguística, de modo que ainda supondo a transcrição possível de um gênero a outro sem alteração da mensagem, o notável é que esses inversores se dirigiam polemicamente contra – pasme-se – Joyce, escritor de cem anos atrás.
14 O que mais uma vez pode não ser tão absconso como parece, num meio já totalmente permeado pela prosa nova sem quebra de sintaxe, se assim a polêmica de fato pode parecer a justificativa subreptícia da ausência de circulação de mercado de obras de renovação linguística e interlocução cultural, como a de Luis Carlos de Morais Junior e poetas do que poderíamos tratar como círculo pós-moderno.
15 Em todo caso, na concepção de Enrique a classe média ledora ocidental ou ocidentalizada é quem tem o mérito de ter se cansado do estilo claro e conciso da denúncia realista oitoscentista, que teve assim que solicitar armas à Vanguarda - como ao expressionismo, ao cartaz, etc. - que já estava instigando aquela classe na exigência da renovação. E se o fantástico novo da literatura americano-latina tardia desdobriu a interioridade porque se envolveu diretamente com ela, como vimos ser a opinião de Enrique, essa arte engajada não podia deixar de ser tão programática como a anterior realista ortodoxa por assim expressar, não criar ou recriar sem fazê-lo de fato. Já não se limita ao tipo, porque descobriu que o camponês não é o suporte de relações sociais que o transcendem, nem um tipo ideal a definir-se. Na efetividade, “pode ser amável ou bárbaro, sóbrio ou carnavalesco, violento ou submisso”, mas se é sempre “humano”, o essencial é isto: o ganho de mais-realidade é mais do que da arte, seja o cinema, ou a literatura, ele abrange “sobretudo, o futuro, porque a libertação dos camponeses não é um merecimento em virtude das qualidades morais de seus indivíduos, mas um direito historicamente adquirido, a golpes”.(204)
16 Porém assim teríamos apenas um problema verdadeiro, a meu ver, posto que não sabemos como definir a libertação dos camponeses, se eles não são um mesmo. E não podemos prever de antemão como compõem sua heterogeneidade com algum objetivo político em comum.
17 Mas, como vemos, a arte nova da alma, como da interioridade povoada de realidades alternativas que não são já sociológicas mas do imaginário ilimitado como das cidades habitadas pelos mortos, dos tigres que habitam os quartos, dos peixes que retornam pelos espelhos, além dos delírios dos proscritos que já não são apenas vistos como episódios do enfrentamento da ordem social, não tem outro nome que ainda realismo, e ela não quer outra coisa que programar a vida.
18 A permanência subreptícia sempre possível de Zola é pois um sintoma, porém ainda aqui, inversamente ao pressuposto por Jameson, não poderíamos definir um locus desde uma situação de fronteira. Em Deleuze (“Lógica do Sentido”) é o próprio Zola que conjura o escritor do fora, não porque não fosse mister conhecê-lo e à história, mas porque seria injustiça fazer de Zola como literato – enquanto “escritor” moderno no sentido intransitivo barthesiano do termo - alguém cuja ambição era a de ser um repórter. Aí Deleuze esbarrando num dogma biográfico arraigado na teoria da literatura, como o pode testemunhar Carpeaux anotando que não há mistério na obra e na personalidade de Zola, “um pequeno burguês tímido e ambicioso, trabalhador assíduo, escritor profissional com desejos confessados de fazer publicidade e ganhar dinheiro. Zola tem muito de jornalista, de repórter...”. Eis a chave da ilimitação que ele, nisso o realismo em pessoa, nos trouxe: “e, na qualidade de repórter, descobriu o mundo moderno, ao qual até então a literatura não prestara a atenção devida” (p. 1571).
19 Aqui vemos portanto, algo que escapou a Jorge Enrique. O mundo ilimitado era o moderno, posto que antes o mito limitava tudo, era a totalidade fechada e sem história. Eis o axioma discursivo. Porém o fantástico novo latino-americano não é apenas a ilimitação da interioridade, sem que, assim, a axiomática tenha se deslocado ostensivamente com relação ao enunciado da modernidade como tal. Como poderia existir um realismo – este a oposição tautólogica da modernidade ao mito - de “outra realidade”?
20 Voltaremos a esse tema, necessariamente, posto que o estudo de Deleuze sobre Zola em A Lógica do Sentido, parece fornecer resposta negativa à pergunta, mas somente sendo esta formulada já por uma aposta da crítica na interioridade, e certamente não é bem conservar a oposição que Deleuze semelha pretender. Não obstante ele utilizar o termo “interior”, o que o naturalismo zolaísta visa é algo que explica ao mesmo tempo o dentro e o fora. Se ele precisamente não é um escritor do sentimento, “ Esta denegação do sentimeno em proveito da ideia fixa tem evidentemente várias razões em Zola. Invocaremos primeiro a moda do tempo, a importância do esquema fisiológico. A 'fisiologia', desde Balzac, desempenhava o papel literário hoje conferido à psicanálise (fisiologia de um país, de uma profissão, etc.)”. Se aí vemos que o tema nacional não se limita a fatos, desce ao determinismo, o objetivo deleuziano é mostrar justamente que quanto a este é Zola o mestre da decomposição que isola a fissura trabalhando os corpos independente de sua saúde ou doença, pois, compondo os instintos em sistema, a fissura, este os ordena conferindo um primado da destruição. A fissura ressoa de corpo a corpo, pela impulsão dos encontros ou a potencialização do vício como do álcool, conforme Deleuze, e eis a trama renovada em Zola. O que ressoa com a observação da sua originalidade em Carpeaux, para quem os personagens de Zola, assim como os de Balzac, voltam em romances diferentes, mas ao contrário de Balzac, os dele retornam não só “para representar determinadas classes e sim para continuar a ação”.
21 Tudo na fissura se limita a um grande instinto de morte, ela é o sadismo – ressoando de pessoa a pessoa, dos encontros dos corpos aos fatos histórico- sociais do império napoleônico - e, se o épico da decadência imperativa que não se abate de fora sem comunicar-se a um todo desde a constituição mais íntima dos seres, acaba desembocando numa promessa histórica, se “o otimismo socialista de Zola quer dizer que, pela fissura, já é o proletariado que passa”, ainda aí “é num mesmo movimento, que é o do épico, que os mais baixos instintos se refletem no terrível Instinto de Morte, mas também que o Instinto de morte se reflete em um espaço aberto e talvez contra si mesmo” (p. 341). Conforme Deleuze “a literatura otimista de Zola não é diferente de sua literatura pútrida”.
22 Lembrando que A Lógica do Sentido é intensamente psicanalítico, temos assim a equação Zola-Freud-(Klein)-Deleuze. Em meu estudo (blog) sobre a Vanguarda, situando-a no que neste livro tenho tratado como a fase fálica (neocolonialista) da geoegologia ocidental, constatei as expressões da misoginia da “senhora palavra”, um sintoma clássico dos surrealistas e Artaud. E quando no alto modernismo aparentemente o sintoma está sendo superado, vemos que o é apenas pelo estabelecimento da vagina em altura, como pura superfície, ao modo de algumas esculturas abstratas e certos termos que pude recolher até em Robe Grillet.
23 Conforme o dogma psicanalítico, produzido na mesma época da Vanguarda, na castração, o momento em que constatamos a feminilidade da mãe, o visto produzido no inconsciente é como a linha de uma ferida, uma cicatriz. Pelo dogma, na pioneira presentação do sexo, nunca visamos, portanto, a profundidade, o canal vaginal. O que não existe no inconsciente, se nele não resta precisamente a cicatriz como fissura, o que impede a visão em altura e empurra à regressão anal. Ora, na Lógica do Sentido, o dogma é o mesmo, a cicatriz é a superfície a que acedemos na castração como a coalescência da superfície do pensamento em nosso cérebro. O pensamento, isto é, a possibilidade do conceito em vez da repetição do dado , o atingimento da “estrutura outrem” em vez da duplicação do corpo próprio em todos os outros vistos pois apenas como aliados ou inimigos.
23 Já o estudo deleuziano sobre Tournier, no mesmo volume o define. O pré-castração, a perversão, é a ausência de outrem. Mas é Lacan quem contribui para impossibilitar – como em Zola – que tal ausência seja creditada a um acontecimento exterior ou a uma hereditariedade interna. Na leitura de Deleuze, Tournier faz pois o inverso de Defoe na ilha deserta, não constroi do nada a civilização como um progresso, demonstra a regressão psíquica aos primórdios da socialização infantil.
24 Trata-se “em Lacan e sua escola” da “necessidade de compreender os comportamentos perversos a partir de uma estrutura e de definir esta estrutura que condiciona os próprios comportamentos” (p. 328). Ora, a estrutura é o que está mudando conforme as funções que elas possibilitam são completas e se acumulam para gerar novas, de modo que o sadismo como estrutura perversa que não pensa é condição da estrutura inteligente que pensa, o passado arcaico desta, a anterioridade necessária. Não menos que a oposição mais completa.
25 Eis como é tão claro e compreensível que o proletariado seja o que, em Zola lido por Deleuze como já o determinismo estrutural, não se diferencia como natureza do que lhe é tão oposto e antagônico na realidade como o sadismo. Ambos são tão opostos como a morte relativamente ao futuro, porém ambos dependem da mesma variável.
26 E se Deleuze abandona a psicanálise assim que se associa a Guattari, vemos que a diferença entre estrutura e “processo” é apenas, neles, que este é composto pelo nomadismo daquela, o processo é o de gerar estruturas até um telos que porém é intrínseco ao processo. Porém essa relativização da teleologia (ou teleonomia) estrutural não abole o princípio que é sua questão, a saber, como atingimos o pensamento, este que se projeta conceitualmente como “superfície” do sentido relativa à profundidade dos corpos e formalmente independente dela. Conforme o axioma deleuziano, o mais profundo é a pele, ao que se poderia ajuntar, o mais liso provém da necessária cicatriz, uma esfoladela.
27 O tema da superfície tem várias conotações na filosofia de Deleuze. Sendo o a priori do pensável, a superfície torna-se porém mais explorada por ele na sua teoria da arte, desdobrando-se da concepção do inconsciente criador da “memória” como regime de signos. Se o que se cria assim é superfície, não se limita ao poético, posto que engendra as possibilidades da ciência e da filosofia. Em “O que é a filosofia?” trata-se das bifurcações entre áreas assim radicalmente delimitadas imiscíveis, arte, ciência e filosofia. Em textos como especialmente o Mille Plateaux, noções transversais são mais características, e a superfície o é basicamente, mas conectando-se ao próprio tema da transversalidade, como o tema do texto. Aí Deleuze e Guattari transcendem a designação usual do “tecido” por trama e urdidura, de modo que a trama se reconceitua, sem a urdidura, pela consistência do feltro, cujo fabrico é por “aglomeração”.
28 Em todo caso, o proletariado é também a noção fecundante do Anti-Édipo que se autoposiciona um materialismo marxista. A produção (libido) é a economia, e quanto a esta, é sempre ela mesma, abole a diferença do dentro e do fora. Teremos que retornar a isso, mas desde aqui podemos afirmar que em todo caso podemos afirmar que o “princípio de realidade”, em relação ao dogma freudiano, é o que está mudando desde os fins da modernidade até agora. Eis o nível básico da interlocução dos fenômenos culturais desde rupturas fundamentais como de Marcuse, o próprio Lacan em alguns aspectos e especialmente o pós-estruturalismo. Mas essa mudança, como tenho insistido, é impulsionada pelas alterações das certezas a propósito do primitivo, desde as transformações do terceiro mundo.
29 Mas também é interessante a questão da alegoria jamesoniana, a partir do paralelismo que podemos constatar na questão tratada no Anti-Édipo. Ali a dualidade das mulheres, pobre e rica, é visada porém como algo particular ao discurso freudiano, e Lacan, particularmente. Conforme Deleuze e Guattari no Anti-Édipo: “Lacan foi o primeiro a dar relevo a estes temas que chegam para pôr em questão todo o Édipo; e mostra a existência de um 'complexo social' em que um sujeito tanto tende a assumir o seu próprio papel, à custa de um desdobramento do objecto sexual em mulher rica e mulher pobre, como a garantir a unidade do objecto mas, desta vez, à custa de um desdobramento da 'sua própria função social' no outro extremo da cadeia”.
30 Ora, para Deleuze e Guattari , o essencial é indagar sobre se “O grande Outro, indispensável à posição de desejo [edipiano], não será o Outro social, a diferença social apreendida e investida como não-família no seio da própria família?”. Utilizam-se aí de Ph. Girard, para quem “não há família onde não existam vacúolos, onde não passem cortes extra-familiares, por onde a libido se infiltra para investir sexualmente o não-familiar, ou seja, a outra classe determinada nas espécies empíricas do 'mais rico ou do mais pobre', e por vezes os dois ao mesmo tempo”.
31 Assim, “A luta de classes passa pelo mais íntimo da experiência do desejo. Não é o romance familiar que é um derivado do Édipo, é o Édipo que é um derivado do romance familiar.” (p. 284, 285). Aparentemente aí está a opinião simetricamente inversa de Jameson, porém a questão permaneceria. Quem investe o que? Se a libido investida é subjetiva e não de massa, então ela é edipiana, tanto para Deleuze e Guattari como para Jameson. Logo, ainda que a libido edipiana seja investida fora da família, se ela o é, quem investe é um sujeito, e não a sociedade, e o que ele investe retroage portanto para um “si”do seu desejo, não a um sistema de produção.
32 A propósito, a teoria interpretativa da literatura em Jameson considera três instâncias, o ato simbólico da libido, a sociedade de classes e a estrutura do modo de produção. Os dois últimos são conotáveis pelo primeiro, que é o que produz o artefato estético, porém não é de fato estruturante deste, que se limita ao investimento da libido. Mas dessa maneira a aparência da discordância se desfaz, Jameson e Deleuze-Guattari estando todos num mesmo limite epistemológico. A análise jamesoniana não começa de fato pela leitura do próprio texto sem o a priori estrutural que é o modo de produção. Logo, mantendo o a priori do capitalismo como exclusivamente moderno-ocidental, não poderia ser o mesmo “ato socialmente simbólico” fora dele. Nessa via Jameson teoriza o que seria a interrupção dos outros modos de produção pelo capitalismo, como o aporte válido para análise das situações do terceiro mundo. Não vê assim o que já equacionamos como o compatível com a informação histórica, a saber, que não há um capitalismo intrínseco europeu, mas o imperialismo, e portanto, tampouco modos de produção abalroados por ele, mas sim situações pós-coloniais inteiramente estruturadas pelo mesmo imperialismo.
33 É sem dúvida constatável, a meu ver, a segregação da condição moderno-ocidental em Deleuze e Guattari, ainda que como alternativa ao Édipo freudiano, o correlato do capitalismo intrínseco europeu. Assim, como vemos, se há um nomadismo das massas anti-edipiano nesse pós-estruturalismo, o que ele restitui não pode não ser sujeito – Guattari voltará a falar de “subjetividade” em Caosmose e em Três Ecologias – mas assim, repetindo, a subjetividade embora dita nômade não pode não ser moderno-ocidental.
34 Tanto Deleuze como Jameson liberam esquemas que se alternam com informações antropológicas atualizadas à cartografia dos modos de produção de Marx, que culmina na sociedade sem classes, mantendo porém o mesmo princípio. Em todo caso, o conjunto dos modos de produção totaliza a geopolítica mundial e cada modo de produção é originário da inteligibilidade “local” possível da história, isto é, fornecendo a gênese formal dos conteúdos (os códigos ideológicos) em cada caso.
35 No mapa de Jameson temos: mitos e magia no modo de produção primitivo-comunista; monarquia sagrada no modo de produção neolítico gentílico; política e cidadania no modo de produção da cidade antiga; dominação pessoal no despotismo ou modo de produção asiático; relações pessoais no feudalismo; reificação da mercadoria no capitalismo, num crescendo desde a subjetividade burguesa até o sistema interconectado do capitalismo tardio cuja lógica social é a esquizofrenia midiática; e o que se deve supor como comunismo futuro, se do terceiro mundo se perpetuar a luta de classes até a abolição delas.
36 Mas a leitura interpretativa da história teria que lidar com a interceptação de cada modo pelo capitalismo ao longo da modernidade. Contudo, vemos o limite dessa problematização, pois na atualidade a cisão do pós-moderno esquizofrênico no Centro e do ante-moderno alegórico realista na margem é o diagnóstico de um hiato total dos modos de produção respectivamente multinacional e de horizonte político nacionalista. O que é uma contradição em termos – se o multinacional é o imperialismo em si e para si.
37 No mapa de Deleuze e Guattari, traduzindo os modo de produção como “regimes de signos”, temos
I) semiótica pré-significante / Segmentaridade flexível / povos tribais: nômades caçadores, selvagens, antropófagos; xamãs.
II) semiótica significante / Segmentaridade dura / rostidade, centralidade, burocracia, delírio paranóico; Estado ocidental, grandes impérios sedentários; sacerdotes, feiticeiros.
III) semiótica contra-significante / Segmentaridade dura, numeração do povo, ordem / povos bárbaros, nômades guerreiros das estepes, Hyksos, Mongóis, judeus, sociedades secretas; totalitarismos / hordas/ máquinas de guerra; profetas.
IV) semiótica pós-significante / Subjetivação / romance ocidental, psicanálise, delírio passional, aspectos do povo judeu (processos sucessivos); nômades migrantes e imigrantes, autoritarismos de massa, nazi-fascismos) ; adivinhos
V ) semiótica a-significante / linhas de criação moderno-ocidentais / arte, pensamento, grupos, comunidades; artistas.
38 Nessa esquematização do Mille Plateaux (“sur quelques régimes de signes”), na semiótica asignificante vemos a binareidade psicanalítica de arcaico e desenvolvido retornar subrepticiamente, ainda que como tal ela convenha a um programa de ultrapassagem do próprio regime de signo, mas para atingir a memória (“plano de consistência”) como o plano inconsciente que os traça a qualquer um. O que seria o equivalente da sociedade sem classes, e com efeito a terminoloia aí é da “desestratificação”.
39 A ambiguidade também se depreende mesmo que os regimes como semióticas comportem possibilidades transformacionais entre si ou mistos. Assim, como extratos, sendo compostas por linhas não apenas duras ou flexíveis, mas também de fuga, que precipitam infixação do devir, desestratificação e reestratificação. Pois factualmente somente o a-significante é “diagramático” na acepção de ser puramente inclusivo de todos os demais, traçando o diagrama de suas funções. Assim como na arte ou na ciência produz-se o conceito ou a expressão dos dados que elas explicam ou definem. Além disso, só ele é esse estado de espírito em que realmente não nos identificamos com a estratificação social, não classificamos outrem segundo um sistema de status pré-estabelecido.
40 E se o mestre yaqui de Castaneda, o pré-significante, possa atingir por vezes o diagramático, quando se trata de situar o ocidental, o capítulo “visagéité” ( “rostidade”) já não deixa dúvida. O não-ocidental como o selvagem não tem “rosto”, ele só concebe a cabeça e o corpo, e assim não tem linguagem (langue)p. 220) pois se expressa polivocamente, mensagem não restrita ao verbal. Mas se o “rosto” é a dominação burocrática possível, o ocidental não poderia ultrapassá-la pelo que seria nominalmente uma “regressão” . Aqui o “devir” mostra bem que não se trata de “ser” (“nous échouerons toujour à faire le Negre ou l”Indien, mème le Chinois...”, “D'abord il ne s'agit jamais d'un retour à...”, “Il ne sagit pas de revenir aux sémiotiques presignificantes et présubjectives primitives...', “Nous ne pouvons pas reveir em arrière. Seuls les névrosés, ou, comme dit Lawrence, les renégats, les tricheurs, tentent uns régression.” (p. 231) /// nota de pé de página “sempre se falha ao se fazer de negro ou índio, mesmo chinês...”, “primeiro não se trata jamais de um retorno à...”, “Não se trata de retornar às semióticas presignificantes e presubjetivas primitivas...”, “Não podemos voltar atrás. Só os neuróticos, ou, como diz Lawrence, os renegados, os traidores, tentam uma regressão”. ///
41 Mas se há uma política contra a dominação significante, da língua ou da rostidade – enquanto definindo o império ocidental e o capitalismo, que, aliás, como vimos, faz um misto com a subjetivação passional – ela é possível apenas passando por eles: “à travers le mur du significant” (através do muro do significante), e fazer correr linhas de assignificância; “dans le trou noir de la conscience er de la passion subjectives” (no buracro negro da consciência e da paixão subjetivas), e descobrir partículas transformáveis que se podem relançar em amores vivos, não subjetivos, a espaços não subsumidos a paisagem. Sendo que a rostidade é o sistema muro branco, buraco negro (faces/olhos) que informa tudo o que é visto e preside à concepção sensível das paisagens (que assim inexistiria nos demais regimes de signos).
42 Não creio portanto que se deva desqualificar o aconselhamento “aos que procuram um assunto para uma tese sobre psicanálise...” de que sejam “vastas considerações sobre epistemologia analítica”, para privilegiar assuntos “modestos e rigorosos” como a teoria das criadas ou da criadagem no pensamento de Freud, conforme asseveram Deleuze e Guattari. Posto que não há menos seriedade em se reconstituir o intertexto das verdades sobre que Freud raciocina, e por aí iríamos encontrar que não é a luta de classes o seu lastro, mesmo e sobretudo se este for capitalístico, mas sim a divisão internacional do trabalho, que prescreve-se como divisão do arcaico e do civilizado, isto é, desenvolvido.
43 Também em Freud e nas psicologias do desenvolvimento, não há pulsão pura analisável, mas o que dela se depreende num complexo que implica o objeto parental, e mais amplamente, investimentos que são culturalmente envolvidos pela subsunção à função educativa (repressiva primária, função não negada na esquizoanálise), e, assim, numa tão longa história como a da humanidade seria mesmo inevitável que a ontogênese repetisse vez por outra, quando não resta opção, a filogênese. Não há pois a problemática da pulsão individual, mas os esquemas das sociedades que desde a origem serviram para dar conta dela num comportamento intramundano possível. Porém sendo a filogênese um eufemismo para a divisão geopolítica do arcaico e do moderno-ocidental a partir de um intertexto antropológico científico já perfeitamente obsoleto. Mas é este intertexto que Deleuze e Guattari se encarregaram de reativar, radicalizando uma via que já estava sendo relativizada pelos novos meios informativos na episteme e nas transformações do político.
44 Volto a observar que nenhum desses temas é simples, e aqui podemos apenas tangenciar os pontos salientes da problemática com o objetivo de ao menos situá-la num estudo voltado ao presente que porém se defronta com ele enquanto um produto do seu intertexto, que é o que precisamos constatar transformado e dar conta das mudanças assim como até onde afetam. Já enfatizei a complexidade da questão pós-moderna, mas até aqui podemos, à luz da problemática do tempo, apreender que ele não parte da ausência de um povo que precisa inventar, mas desfaz a impressão de que o “povo” na acepção da identidade redutível, em vez da acepção de população efetiva ou status não privilegiado, existiria por situar-se numa heterogeneidade com que pretende manter uma interlocução que seja ao menos pertinente.
45 Essa heterogeneidade, que não é nacional mas distribuída num conflito móvel, também não depende de um corte entre o indivíduo e a sociedade de modo a se colocar dentro ou fora, mas não porque existiria a decomposição que poria a ambos a nú, e sim por que a pertinência da situação não se dá na mera justaposição de si num espaço exterior a si. A situação é construída, tratam-se dos gêneros em que se constroi – assim um grande julgamento é composto de notícias na mídia, estudos sobre o caso, diagnósticos médicos, toda a História que o precede como informação culta, o que se tematiza em ‘The Public Burning”, conforme citado em Linda Hutcheon.
46 Seja a sociedade ou um discurso passional, podemos questionar do que se compõe não como tipo ou caso, mas como texto. Por mais que pudesse parecer incongruente, o historicismo na arquitetura e artes plásticas, que consiste na citação reiterada da história da arte, e as práticas de reescritura que tem animado a literatura, teria assim algo em comum com o texto biográfico de experiência pessoal historicamente inserida tanto como com a narrativa que se decompõe continuamente a si mesma, questionando as categorias que utiliza (como o “eu” e o '”tu” englobantes), mais do que determinando um curso de leitura que simularia um universo ao mesmo tempo pararelo ao concreto e íntimo ao escrito como pretendera Barthes.
47 Em nenhum desses casos se trata de realismo, posto que a questão não está na circunscrição de algo como realidade oposta seja lá o que for, mas da objetividade que porém já não cremos que possa ser unilateralmente teorizada como no pólo antagônico, o do pensamento. E sim estando em questão os elementos textuais, o intertexto, os meios coesivos, o endereçamento, de sua construção.
48 Pode ser que o cinema tenha um potencial de mostragem das impossibilidades da redução fenomenológica ou estrutural ampliado, já que ele não pode desfazer a superfície para mostrar a variação dos regimes como o que está por trás das “aberrações”. Elas coexistem na superfície com qualquer normalidade aparente.
e. 3) O Terceiro Mundo e o Limite da Modernidade
1 Veja-se o filme “A Doce Vida”, de Fellini. A referência é a Europa, mas a situação do personagem é perfeitamente legível como uma problematização da situação da margem, situada num contexto de país latino. O belo Marcelo deseja suas eleitas algo exóticas, não o tipo físico nacional, mas do Centro desenvolvido, moderno e capitalista, este que do mundo latino contemporâneo seria o objetivo vir a ser. São exemplarmente a loura rica de automóvel e a atriz norte-americana, com quem ele se relaciona no filme, sempre cercadas na cena pelo fenótipo tradicional, a morena gordinha, com que contrastam.
2 Marcelo habita preferencialmente o mundo rico elegante, mas sobretudo o aeroporto como jornalista da outra cena, a de alhures, do jet set estrangeiro, e efetivamente “paquerando” a aeromoça quando se trata de cobrir o avião da atriz. Se há um tipo feminino latino que se lhe assemelha, ambos jovens ideais modernizados nacionais, como a namorada magra e morena que se droga, ela só pode suicidar-se de barbitúricos. Pois para ela não há o recurso cênico do deslocamento pela aparência, para expressar sua identidade excentrada. Pois se ele é o tipo igual, que satisfaria a demanda ideologicamente, aquilo que compõe o tipo sendo porém a outridade, eis novo veículo da inconstância de rapaz, vedado ao feminino. Latin lover sui generis.
3 Nessa outra identidade, transformadora da ideologia, há certamente mais que uma alegoria nacional, um desejo que engaja socialmente. Mas os motivos aí parecem inexplicados apenas pelo fato do país latino ser em todo caso europeu.
4 Já a relação dos níveis da construção estética, os níveis do ato simbólico libidinal sujetivo e do social, conforme as categorias de Jameson, é o que o contraste dos tipos físicos estilizados enfatiza. Na leitura que estou desenvolvendo, o filme seria construído explorando justamente essa relação dos níveis, que Jameson mesmo exemplifica pelo modo como a atração e o desejo pessoal geralmente expressam escolhas de classe social. Porém Felini sabiamente transcende a cisão de classes econômicas que define o social, conforme Jameson unicamente entre burguesia e proletariado. Felini tornando a estória do amor latino situada num mundo que só entendemos bem na inteligibilidade da cisão norte/sul.
5 Mais do que cidade e campo, o construto opositivo de Felini é geopolítico, internacionalmente relacionado. O tipo físico nórdico e o arrojo da aparência de estilo moderno das mulheres que atraem não é o determinante da riqueza, o tipo tradicional não é mostrado pobre. A propósito poderíamos até ampliar a gama de cobertura estrutural. Não só o capitalismo periférico dependente, mas o capitalismo Globalizado “central”, abrangendo protagonistas como o Japão e os primos latinos na União Europeia, onde há sobreposição de tradição e modernidade – a propósito, o número da “National Geographic” dos anos oitenta sobre o Japão salientava a sobreposição, destacando que o papel da hierarquia familiar, a autoridade dos mais velhos, era geralmente observado nos costumes.
6 Mas se os estilos americanos, a mulher rica e a atriz vinda dos Estados Unidos, simbolizam a riqueza de um modo libidinal, é a riqueza mesma que assim transcende a classe por algo mais, a modernidade tecnológica, o situamento geopolítico do capitalismo em países nórdicos. O que se considera modelar como o projeto de desenvolvimento local, aquilo em que Marcelo e seus colegas de profissão estão social e existencialmente interessados, o que na lógica da estória tipificam como a inteligentzia localmente situada. O que a estória mostra, a classe ascendente na margem sendo mais do que a classe do dinheiro, é a classe “esclarecida”, letrada, ou seja, internacionalmente integrada como o próprio projeto político.
7 As oposições construtivas do desejo, por onde se pode esperar estar este relacionado à extratificação social, vemos que se regem pelo cultural, mesmo e sobretudo se a conotação seja econômica e política, nesse nível em que ambas refletem-se apenas na profissão e na vida social.
8 Tornando-se “A Doce Vida” uma espécie de radiografia poética do mundo pós-1945, assim a carta libidinal da inteligibilidade geopolítica norte-sul, parece-me já um documento da viragem pós-modernista na arte do cinema. E se após o Clube de Roma e os anos noventa, a Globalização tornou o locus da modernização na margem quase incompreensível, pela sobreposição de industrialismo tecnológico multinacional radicalizado mas imperativo do “desenvolvimento zero”, a estrutura norte/sul é a mesma, apenas deslocando o signo da modernização pela possibilidade populista religiosa, protestante ou católica, em todo caso cooptação ocidental.
9 O tema da sobreposição do velho e do novo revela-se assim profético uma vez que estrutural. E o arqui-signo da sobreposição do velho e do novo já poderia ser considerado a cena inicial de “A Doce Vida”, em que vemos a estátua tradicionalíssima do Cristo nos ares, sendo transportada pendurando-se no ultramoderno avião, com os jornalistas neste utilizando-se prazeirosamene de câmeras para espiar as moças ricas nas piscinas dos terraços dos hoteis internacionais. As moças saúdam festivamente o avião com o Cristo pendurado, e os jornalistas que as filmam sorrindo, mas assim sugerindo também que acolhem ao público que está vindo assistir ao filme. Aí parece caber a concepção de Amengual, citada por Deleuze, de Fellini como o cineasta que abole a diferença entre olhar e ser olhado (p. 111). Mas assim, o “gigantesco Luna-Park” que o mundo se torna, como jogo de infinitos trânsitos entre entradas múltiplas, na concepção deleuziana, a meu ver tem uma geratividade, e as moças saúdam na cena do Cristo pendurado no avião a esse ego virtual ocidental como o observador ideal que ao mesmo tempo é o intertexto e a que se destina a visibilidade deste mundo.
10 O status pós-moderno é mais do que um rótulo incômodo, que emerge pela pressão de inúmeros fatores, porém com um ingrediente de aparente incongruência cujos motivos transcendem essa profusão do que poderia ser dito. Inversamente, trata-se de uma constância em torno do cultural como elemento de uma nova ênfase, porém sendo um cultural singularmente transformado. O efeito raramente resulta na assunção prosaica de que isso é o que seria esperável, se justamente o que há é um cultural já não apenas derivado, como efeito abstrato, da antiga base econômica. O modernismo tendeu para esse limite pós economicista, mas pelo que podemos perceber agora não o ultrapassou, se o resultado atual mostra-se desse modo inantecipável. Se até agora foi inusual o resultado, a explicação é que a cultura que se mostra autonomamente destoa de tudo o que se designou culturalismo na inteligibilidade do conflito leste-oeste. Em vez de originária como o arcaico, ela é o que está se modernizando, nem o primitivo nem o desenvolvido, problematizando as categorias estanques. E em vez de um passado que passou no tempo, uma arqueologia do presente histórico. Quanto ao mapa político, os segmentos sociais engajados na modernização, como vimos, são compostos desde uma gama de opções estratégicas, e a jeneuse doré hight tech local de antes do Clube de Roma tem se duplicado pelo populismo religioso ocidental mais diretamente em tensão com a heterogeneidade local desde aí.
11 Assim por exemplo a adesão religiosa típica às igrejas populistas, de contingentes negros, pugnando com as religiões populares de origem afro, a ubanda e o cadomblé. Como venho sublinhando, esse exemplo mostra bem que a questão não é simples, uma vez que a heterogeneidade sofre o afunilamento de sua expressão, não apenas pelo antagonismo do desejo modernizante que crê realmente na possibilidade de modernização via capitalismo, ou da economia violenta deste que contrapõe seus determinismos imperialistas a esta crença. Mas sobretudo pelos oportunismos ilegalistas que se utilizam ainda do modernismo arcaizante “pulsional” para fingir que isto, afinal, é a transformação esperada da esquerda sovieticista.
4 ) O Cinema e o Inconsciente Político
1 Se a sobreposição do populismo e da corrupção é o que se tem visto, constatamos pelo nosso mapa político que não seria de surpreender, ao contrário do que se poderia supor. O que vimos acima permite afirmar realmente um contexto para o qual a crítica, esta que tem a função de rotular, formada porém na interlocução com outras obras antes que pós-modernas, não demonstra ter categorias apropriadas. Mas um estudo da crítica recente à luz desse problema revelaria a que conduziu a pressão e o que resultou das tentativas de escamotear a transformação.
2 Quanto ao deslocamento do status da modernidade entre o Anti-Édipo e Cinema 2, por exemplo, vemos que neste de fato Deleuze não tem apenas uma e sim duas definições de modernidade estética. Sendo a definição do cinema político moderno inteiramente dependente da classificação do terceiro mundo por deficiência de povo, a definição do cinema moderno enquanto arte é sem qualquer relação com este.
3 Por outro lado, em Mille Plateaux a questão da ausência de povo vem tratada na imanência do primeiro mundo. Clássico e barroco, romantismo, modernismo, três instâncias bem diferentes, como três modos de afontar o caos: a forma, a terra natal e o cosmos. Porém tanto o romantismo como o modernismo reclamam da ausência do povo, um tema de Klee mas também da Alemanha romanticista (p. 415 a 417).
4 É interessante que Jorge Enrique tenha negado que se devesse falar do caos ou mesmo do elemento da liberdade total, com referência à literatura e arte latino-americanas, mas o suposto adequado, a violência, é tematizada em função de Glauber, quue porém a imputou criticamente a cineastas ocidentais como Nicholas Rey. Nesse trecho Enrique referencia a desordem temporal em romances da prosa atual da América Latina, que transtornam o passar dos anos, 1941, 1919 …, algo constatável em Mille Plateaux, 1914, 10.000 ac...
5 Em Cinema 2, o status de clássico é definido em termos de realismo, e a modernidade se inaugura pelo neorealismo enquanto um primeiro deslocamento da imagem centrada na ação sensório motoramente encadeada. É quanto a isso que podemos agora retornar ao problema da terminologia deleuziana do dentro e do fora, colocado como o da ultrapagem zolaísta da oposição que, porém, só é feita pelo deslocamento estrutural ou processual que a reconfigura na oposição alternativa dos modos de produção ou regimes estruturais. Em nosso cômputo da aporia deleuziana, a pluralidade dos modos enuncia a ultrapassagem da binareidade psicanalítica do antes e do depois edipianos, mas de fato ela é relançada justamente por isso que a modernidade se opõe ao que assim se define por relação a ela, como regressão. Em Cinema 2 esse problema torna-se expresso. É só a modernidade do cinema ocidental que permite colocar a questão da ficcionalidade estritamente como o auto-questionamento da operação fundante da oposição.
6 Aqui podemos resumir o que temos constatado ao longo deste estudo. Como se sabe amplamente, Freud colocou a cisão do dentro e fora como o princípio da vida psíquica, quando as sensações do bebê conduzem à percepção do intervalo entre a demanda e a saciação, aquilo que em nossa mente já formada compreendemos como o interior ou sujeito (nós mesmos desejantes na demanda) e o exterior ou objeto (desejado demandado), com a ressalva lacaniana pela qual “demanda” é o termo do desejo pré-genital, e “desejo” é tecnicamente apenas o que tem por correlato o sexo e amor genital.
7 Mas na cisão inicial da vida psíquica, entre o interior e o exterior a nós, a primeira oposição é primariamente percebida como contraste entre o bom e mau. O fora é ameaçadora intrusão em Freud, aquilo que em Klein é o princípio esquizofrênico da fragmentação do sujeito. A ambiguidade sendo a regra dos processos primários, esse conjunto a quatro termos, fora/mal, dentro/bem, vai sofrer várias reacomodações até estabilizar-se a independência dos dois pares um relativamente ao outro, fora/dentro, bem/mal, e estabelecerem-se relações atributivas objetivamente fixáveis como sentido recorrente da experiência comum.
8 A conquista dos processos secundários, maturação psíquica desde a função genital, onde são possíveis apenas representações ideais de relações perceptivas em vez das ocorrências corpóreas participativas destas, que caracterizam a primareidade, é desdobrada entre a ontogênese e a filogênese de modo a liberar-se uma classificação antropológica cultural universal. A modernidade desde Lacan, como estrutura psicossocial evolutiva científica, pode ser assim designada como o deslocamento da oposição entre realidade e ficção por um outro par, o Real e o objetivo.
9 O Real compreende não apenas o que existe fora de nós e a nós mesmos enquanto seres efetivos, mas também a interioridade enquanto o sujeito dos processos, primário e secundário. O delírio psicopatológico, a linguagem estética, as ilusões, são tão reais como um sonho cujo conteúdo, independente de ser a presentação do impossível, não pode ser diferente do que se o vivencia. Se sonhamos com lentes de contato que proliferam misteriosamente num meio líquido como um copo de água - de modo que tornou problemático saber como discenir o utilizável, proliferando-se as embaçadas, entre uma limpa e com bordas definidas, outra revelando-se rota entre os dedos, até acordamos fisicamente enjoados após várias tentativas mais ou menos fracassadas de resolver a questão durante o sonho - não foi certamente com ursos ou coqueiros que sonhamos esta noite.
10 Neste Real que abarca ambos, seja a ilusão ou a realidade, enxertamos relações psíquicas que permitem ao cérebro desempenhar suas funções psíquicas objetivas. Não há objetividade que não dependa dessas relações imanentes. O Real comporta as pulsões e os processos do imaginário, nele está a alteridade do que os comanda, relativamente ao que na objetividade que libera a nossa consciência cindida do que ela foi na infância, podemos reconhecer como nós mesmos. Para a psicanálise o que comanda é a libido, o Outro inconsciente, enquanto o objetivo é a organização da linguagem, onde podemos estabelecer fatos. Em Deleuze e como uma tendência do pós-estruturalismo em geral, o Outro é conceituado por um retorno ao problema originário da cisão do dentro e do fora.
11 A objetividade torna-se variável como os regimes de signo, a “jouissance” lacaniana, que é a experiência assim ampliada para abarcar desde o inconsciente arcaico, torna-se visada como “diferance”, à Derrida, o “inconsciente maquínico” ou “desejante” de Deleuze e Guattari, potência de produzir regimes de signos, como de objetividades. O cinema torna-se o horizonte ideal da reconstituição dessa problemática, porque ele se instala na própria gênese da imagem perceptiva.
12 Mas o desdobramento da classificação antropológica visando o ser efetivamente geopolítico, epistemologicamente estrutural da modernidade, é o que minha perspectiva geoegológica mostrou implicar o limite de todo o investimento que tem no Outro inconsciente o horizonte de sua própria ambiguidade, implícita na duplicidade do estatuto “arcaico”, justamente entre o dentro e o fora, o individual e o social. Aqui portanto localizamos o sintoma da neurose geoegológica do discurso do inconsciente na episteme ocidentalista. O que ela precisaria para franquear o limite, é desfazer a diferença do arcaico e colocar num mesmo nível “multicultural” o conhecimento antropológico em progresso que já conquistamos. Graças ao qual se torna coerente o engajamento na mudança do conflito norte/sul em integração planetária sem prejuízo da autonomia e economia das populações cultural e politicamente em devir. Mas se não basta o conhecimento para mudar a própria episteme, o aparente paradoxo é o que vimos como o limite posto pela neurose discursiva do imperialismo.
13 A contradição do pós-estruturalismo é portanto conservar o “senhorio” nietzschiano por onde o inconsciente é um retorno a Kant, ainda que por um kantismo ampliado até a gênese pulsional, um transcendentalismo radical; mas querer assim estar ultrapassando a lógica interna do discurso edipiano, de modo que as reacomodações da oposição inicial do dentro e do fora (bom e mau) até a transformação efetivante da linguagem (pragmática factual) já não tem determinação interna, além da composição das bordas da fissura com o que nela vem formigar conforme o mundo em que o processo esteja em devir, de modo a transformar a brecha em superfície do pensável. Não tem determinação, mas é a determinação personificada, toda a determinação (transcendental) possível. A própria condição da episteme enquanto auto-limitada como, se possível, transcendental – isto é, geoegológica.
14 Um outro modo de colocar essa contradição é evidenciado propriamente pela incursão deleuziana à teoria do cinema. A teoria do cinema em si mesma é aí defendida como prática conceituadora da experiência da arte cinematográfica, não a solvência de qualquer foco naquilo que seria ao mesmo tempo a teoria e a arte em si. (p. 331 e segs.)
15 Começando pela definição da cena que nós, os espectadores vemos num filme, em termos de “imagem cristal” como composição do que é visto pelos personagens enquanto estando fora deles (“atual”), e como é visto por eles enquanto componente da experiência interior deles (“virtual”). A cena se compõe, pois, entre duas apresentações do tempo que são concomitantes nela enquanto una, a imagem composta como vemos na tela. O atual é o presente, o virtual é o passado como o elemento em que a interioridade dos personagens se move. O passado deles, enquanto a memória que eles criaram como sentido de suas vidas.
16 Assim é, conforme Deleuze, ao menos quando o cinema ultrapassa o limite da “imagem movimento” regrada pelas leis de uma factualidade já convencionada, e se converte numa verdadeira potência ficcionalizante, ao encontro da “imagem tempo” que deverá gerar sua própria objetividade em função do que a arte do cineasta “pensa” do que se pode liberar pelo cristal. Uma rachadura (Renoir, p. 106); a perfeição (Ophuls, p. 104); ou a fecundação, o que fazer do futuro, se é que no filme deva existir um como o germen cristalino que fecunda o meio (Felini, p. 107).
17 Na determinação libidinal psicanalítica, os processos (freud) ou as funções estruturais (Lacan) do inconsciente se desenvolvem atemporalmente. Não há o elemento do tempo no inconsciente. O pós-estruturalismo o introduziu, e em Derrida vemos extensas críticas aos artigos freudianos que cuidam da evitação do tempo no âmbito inconsciente, mostrando que incorre na verdade em contradições. A adaptação derridiana do inconsciente freudiano em termos de “escritura psíquica”, introduz o tempo pela instância da letra, enquanto operante discreto de qualquer semiótica imanente ao devir da “diferance”. A letra é o que só opera por um e em um “espaçamento” que é, pela sua operação mesma, temporalizante. Espaço-tempo é então “espaçamento” psíquico operante da “letra” , como um regime semiótico que em todo caso imperativamente instaura-se como dupla articulação gráfico-fônica, numa “brisura” entre o signo (estacionário) e sua ordem de leitura (movente). A experiência da linguagem não se define como comunicação ou intencionalidade, mas como iterabilidade de um regime da letra, gramatologia que torna ambas possíveis como seu efeito, mas sendo em si prévia e imiscível a elas.
17 Em Deleuze, porém, há três sínteses temporais independentes (presente, passado, futuro), como em Diferença e Repetição, que depois vão ser articuladas, no AntiÉdipo, como transformações da energia psíquica entre produção (libido), memória (numem) e subjetivação (voluptas). O comportamento intramundano é mapeado na memória inconsciente que cria um passado virtual como uma câmera escura em nós, que criaria por destacamento de imagens desde um movimento realmente atuado (a criança tentando andar até a mãe que a espera incentivando-a) imagens arquetípicas que se incrustam como passado autônomo de todo presente possível (a criança coloca a mão na boca, envesga os olhos por um momento, está fixando uma marca inconsciente do assim tornado “seu” psiquismo).
18 Aí concebemos as estruturas dos fatos que serão, na síntese do futuro onde se instalam os regimes de trocas de mensagens ou linguagem nesse sentido, passíveis de crença ou menosprezo. Há pois algo que escapa ao julgamento, mas o preside enquanto tal.
19 Minha intenção aqui é mostrar que o modo como Derrida tratou a contradição da temporalidade em Freud, a partir da letra, mais se aproxima do que seria a ultrapassagem do limite neurótico geoegológico na direção da pós-modernidade. Não há aí por exemplo – creio eu – a oposição da produção e anti-produção (bloqueio) que Deleuze e Guattari definem para a libido dos nossos hábitos e a memória virtual que legisla sobre a possibilidade corporificada deles, assim como, na outra ponta, sobre as nossas crença sobre o mundo e nós mesmos. Mas assim podemos evidenciar com mais clareza o limite.
20 Deleuze não deixou de tematizar a questão do dinheiro como o suporte da arte cinematográfica, mais que qualquer outra. Ele tratou os comentários canônicos dessa questão por certa fuga pela tangente, a meu ver, na medida em que se o cinema pôde servir a alguns desfechos cínicos no tratamento dela, de modo a assumir-se que a arte do filme existirá enquanto existir o dinheiro que o produz, nem mais nem menos, ele sintetizou a matéria e o espírito, por assim dizer, depressa demais, ao considerar que assim o dinheiro é o tempo. Este o elemento Real do cinema. Não o inverso. Mas vemos que ao tratar o problema do filme de arte como não apenas a pressuposição recíproca do atual e do virtual, mas também quando exibe o que poderíamos aqui designar uma metalinguagem – a cena do filme mostra um teatro, ou um outro filme dentro dele, uma tela, uma televisão funcionando, etc. - a mesma solução já parece insuficiente. “O que o filme dentro do filme exprime é o circuito infernal entre a imagem e o dinheiro, a inflação que o tempo põe na troca, a 'alta estonteante'. O filme é o movimento, mas o filme dentro do filme é o dinheiro, é o tempo”. (p. 99)
21 Vemos por exemplo, quando Glauber expressa que o problema do cinema do terceiro mundo é o dinheiro, que ele não está dizendo o mesmo que o preceito cínico – arte, porém porque se paga, como quem dissesse, amor, porém porque há a carne, e, mais geralmente, espírito, em havendo matéria. Ele não parece referir-se ao filme que está sendo feito como o fenômeno de ser pago, mas ao cinema enquanto a instituição. É mais do que o dinheiro deste ou daquele filme, o que precisamos. É o investimento na arte como uma prática conscientizada do desenvolvimento local, prática corrente, e assim o conceito do cineasta como criador de mundos imanentes à arte, como artista – em vez do missionário seja lá do que for, não obstante acontecer à arte também dela ser ou poder ser engajada.
22 Mas algo decisivo a propósito, ignorado por Deleuze, é que bem antes do cinema, o romantismo é que criou o procedimento da cena dentro da cena, como quando o autor da peça aparecia nela nesse mesmo status de autor. A isso chamou-se “ironia”, um locus primordial do romantismo cujas definições e interpretações são infindáveis, algumas bastante abstrusas – tanto que parecem elas mesmas irônicas. Ora, a ironia marca, em todo caso, no romantismo, a presença da infinitude. Ela é incômoda, porque não nos pertence a priori. Pode ser que Deus nos salve, e nos dê a vida eterna, mas certamente não serão todos os chamados, aqueles que serão escolhidos, e ninguém sabe para onde vai no dia do juízo. Assim não creio que se pudesse por um efeito de retrogradação supor que já no romantismo tratava-se de realçar o fato pecuniário do espetáculo. A ironia marcava a impossibilidade paradoxal do que nos é como que tautologicamente o verdadeiramente íntimo, o estofo anímico, o “infinito anelo”, o desejo de sermos eternos. A imperfeição habita tudo o que é humano, porque não satisfaz ao desejo Real. Nada é infinito, exceto o horizonte dos valores, o inconsciente, o desejo do infinito que só pertence a Deus e seus eleitos.
23 A arte romântica se opõe à clássica porque neste reina o ideal da beleza plástica, o contentamento possível do belo como supostamente exequível perfeição. O romantismo pode encontrar somente o pitoresco na sua estética do belo. Ora, o problema do enunciado deleuziano, mais geralmente todo o limite epistemológico balizado desde o simbolismo, é o empreendimento contraditório de se reconduzir a duplicidade do ser que deseja, ao transcendental kantiano. A duplicidade expressa o Eu como a epistemologia pós-kantiana, enquanto ele sim transcendental. O impossível para Kant, onde o eu é o deduzido desde a experiência possibilidade pelo transcendental enquanto Razão impessoal.
24 A contradição do kantismo pode ser assim definida, como no enunciado deleuziano que despreza kantianamente, o Eu como apenas epifenômeno de uma natureza pre-estabelecida em sua harmonia com o Homem, o autômato espiritual. Assim o limite da metalinguagem cinematográfica é o que relança a estrutura cristalina do filme. Em vez da ironia na borda do infinito, tratar-se-ia da totalidade, o “tarde demais” de algo que já não pode ser (p. 118, 119). É o passado puro, aquilo que comanda toda a possibilidade do sentido. É um paradoxo deleuziano que o sentido só seja possível enquanto subjetivado por uma memória virtual, como vimos a memória de alguém sexuado, etc., e que a memória virtual não seja relacionada a um sujeito transcendental enquanto justamente assim um “eu”, mas ao “inconsciente” puro como razão kantiana apenas agora dotada de uma gênese.
25 Mas podemos ver que um eu precisa existir independente do meramente deduzido, justamente se o eu é o necessariamente deduzido do transcendental. O que não ocorre com qualquer outra instância, uma vez que o sistema de categorias de que decorre a vigência de um regime é agora não a realidade por si, o que o empirismo destituiu de qualquer possibilidade de se autovalidar como objeto de um saber, mas a garantia da ciência enquanto apenas objetividade relativa a um “eu”. Somente assim “saber absoluto”.
26 Eis a contradição que os pós-kantianos romanticistas souberam apontar a Kant. E o eu assim o é, segundo assegura ingenuamente Deleuze, como se tudo se resumisse aí. Deduzido, tanto mais que a constatação da decalagem do empírico e do transcendental, da consciência perante algo mais que a condiciona como o que ela não pode controlar e que a acossa como o desejo, o destino ou o sintoma, se traduz como na fórmula de Rimbaud, je est un autre. “Je” é quem fala, quem tem uma língua, quem pode falar ainda que nada além de sua outridade. Mas aqui, diferente da consideração das quatro fórmulas poéticas que traduzem ao ver de Deleuze o kantismo, Rimbaud já não é o parvo romanticista que fica aquém de Kant, como da modernidade, porque lida apenas com a oposição do ato e da potência, conforme então o considerava Deleuze. O outro de que fala Rimbaud ressoa agora, em Cinema 2, com o povo do terceiro mundo: é um preto, um animal, uma raça inferior... (p. 186).
27 Porém esse outro do cinema moderno enquanto tal, não do moderno cinema político como circunscreve-se o do terceiro mundo, é aí somente um papel – e o negro, ele mesmo enquanto tal, precisará investir-se de um papel de negro “através dos seus papéis brancos”, para se tornar na cena esse outro que desloca a ipseidade tautológica, não problematizada, do sujeito. O outro é uma potência do autômato espiritual. Ele realiza como a modernidade do cinema, na imagem tempo, o que o cineasta do terceiro mundo não faz, a saber, a ficção pessoal. E a noção filosófica tanto como esquizoanalíica do autômato espiritual é o que o cinema, afrontando seu risco de morte perante o fascismo, encena como a múmia. Não se trata apenas da múmia como realmente objeto da cena, personagem monstro, etc., mas nela a personificação de uma função como em Rosselini: “A heroína de Europa 51, múmia irradiando ternura”. (p. 206)
28 Mas retroagindo assim para antes da dialética do “eu” e do enunciado do saber, não certamente para a ingenuidade da coisa por si, mas para a totalidade do sentido, não surpreende portanto que Deleuze tenha que lidar com o problema: como é que o autômato espiritual se tornou fascista - de um modo que não está conjurado na “tela” dos computadores a que se reduz a história como a guerra atual ? (p. 199). A pergunta cabe, pois, desde que o fascismo só resultou num delírio de massa por ter sido uma montagem tão bem estetizada, e politicamente uma ficcionalização de papeis. Leni Riefenstahl não era medíocre.
29 Aqui certamente o campo estrutural leva vantagem sobre a totalidade heideggeriana de que aparentemente ele decorre. Quanto ao passado puro, ou virtual, é à duração bergsoniana que se necessita recorrer, antes que ao Verstehen de um significado existencial. Na citação de Bergson por Deleuze: “Aquele que tomar consciência do contínuo desdobramento de seu presente em percepção e em lembrança (…) será comparável ao ator que desempenha automaticamente seu papel, se escutando e olhando encenar”. (p. 100)
30 Mas nesse automatismo, por onde poderíamos reaver o desejo, para além da condição de carência dessa completude da consciência, possibilitada na psicanálise pelo atingimento genital da função? Como a máquina pode desejar além da fissura que ela já deve ter transmutado na celebração moderna da fabulação ilimitada como a única possibilidade do Real? O inconsciente é algo inútil, como a memória do que não nos é útil lembrar e que ainda assim não nos deixa, como um monumento comemorativo que não se sabe para que serve, como praxes decorativas em costumes que perpetuamos, de que já não sabemos porque foram criadas. Para Deleuze não parece ser assim, contudo. O “inconsciente”, eis a produção, o comportamento ultramundano, qualquer “economia” possível, subjetiva ou histórico-social. Mas que diferença pode haver entre o hitlerismo e o cinema “moderno”, como entre o papel automático e a ideologia personificada? Ou antes, entre o senhorio nietzschiano e o mundo do fascismo, uma vez que não se poderia pensar a categoria do senhor sem o seu contrário, a quem ele domina ou comanda.
31 E no entanto, toda a polêmica contra Hegel que o pós-estruturalismo envolve insiste nisso, zombar do trabalho como do que transcende o escravo e é o meio da liberdade, se esta seria pífia não sendo “senhorio”, Bataille, Bataille... Saudando Hegel, mas repetindo Nietzsche, conforme o Derrida de “A escritura e a diferença”, no artigo “um hegelianismo sem reserva”.
32 Em Deleuze tratava-se da grande reconstituição de Nietzsche como filósofo, por onde toda a conceituação hegeliana do escravo será transvasada na caracterização da degeneração da força, e o contrário é o que resulta conceitualmente na celebração do Super-Homem como a realização completa da Vontade de Potência.
33 Nenhuma diferença visível. O fascismo emprega os mesmos meios da arte, se confunde com ela porque é um devir de massa, não uma simples representação – tese já exposta em Mille Plateaux. Porém, o problema da epistemologia nietzschiana, que o pós-estruturalismo nunca descobre, é o seguinte. Nietzsche concebeu a metafísica como a base do direito, e esta como mascarada – no sentido encoberto, contudo, ou seja, conforme a má consciência ou força degenerada, um mau fingimento de não ser fingimento de modo algum. A metafísica, só podiam tê-la inventado os fracos, contaminando assim todo o pleroma arquetipal onde a força sã apenas persevera em seu “senhorio”, desde que haja algo ou alguém sobre quem dominar. Mas a lição nietzchiana da história está profundamente errada – o que é tão óbvio que o caráter sintomático da fundação salta aos olhos.
34 Não foram os sofistas, a democracia e o direito, conquistados na luta de classes grega, que criaram a metafísica, mas, inversamente, a nobreza esgrimindo diretamente contra eles. A metafísica não foi criação daqueles que Nietzsche designa os fracos, mas sim dos fortes, os nobres que se consideravam da raça superior, cartada do partido da nobreza em Atenas, muito simpatizante de Sparta, beneficiados pelo ouro persa, reativamente à democracia. E em se tratando de cinema, aliás, eis o que a história ensina como o que se poderia esperar, num trocadilho jocoso. A Sparta atual, Hollywood em pessoa, beneficiada pelo Santoro persa. Numa mistificação total dos fatos, pois ao contrário da película, foi Atenas em vez de Sparta quem debelou o perigo das Polis livres virarem Satrapias do grande rei.
Escusado registrar que desde o filme arquétipo da Globalização local há produtos marca “Sparta”, especialmente esotéricos, lojas “Sparta”, etc. Platão não era Cristo, se este é o tipo encarnado da justiça igualitária. Pois para Platão não se trata de livre escolha entre o bem e o mal, se queremos ou não, nós, qualquer um, a eternidade na pessoa do Cristo. Mas de uma seleção aristocrática que precede as almas deste mundo conforme sábias e aptas a comandar os outros ou o contrário, dependendo delas terem ou não conservado, desde o além de onde vieram, os poderes de anamnese.
35 Todo mundo sabe disso, Nietzsche lembrou-se mais tarde, como relata em Ecce Homo, porém não alterou a fórmula do direito como criação de um tipo, o judeu fisicamente fraco – o inverso do potente, o romano fisicamente forte. E, não obstante, o direito continuando a seu ver o regime libidinal da metafísica. Ainda, sem que a entrada de Roma na história tenha feito lembrar a Nietzsche o papel histórico do direito romano. Este que na perspectiva da totalidade social deveria estar muito mais relacionado ao cristianismo eclesiástico romano do que o direito poligâmico hebreu influente dos cristianismos antigos que foram reprimidos pelo braço armado dos “concílios”.
36 Até agora a junção impossível do direito com a metafísica não foi desfeita. Sendo a base construtora da geoegologia ocidental, compreende-se o sintoma, numa era como a atual, em que toda a antropologia social não pode desconhecer que entre os assim designados primitivos, tribais, existem formulações da democracia e do direito, e que a primeira civilização conhecida, o Sumer, funcionava como uma Cidade – Estado com instituições parlamentares. Porém a clivagem de conhecimento empírico e grandes relatos se aprofunda pela instância geoegológica imperialista. Sintomaticamente, nietschianos como Jean-Pierre Faye são admiradores do Acad imperial invasor do Sumer, a quem atribui ele nada menos que a história, porque ao imitar a escrita dos sumerianos, a faz aportar aos judeus, e assim, “hadaga”, comentário, crônica e história, seria para ele corruptela de “Acad”. Noção bastante duvidosa de história. Porém nada original, como confusão que resulta da acomodação forçada dos novos conhecimentos que o impedem, à tripartição de selvagens, bárbaros e civilizados que concede ao horror imperial a missão de ter fixado a letra entre os homens. Marx, antes de Nietzsche.
37 Ignorância de muita antropologia, porém o essencial para manter a Grécia como o berço europeu – a propósito, ver o meu “Filosofia, ceticismo, religião; com um estudo sobre Diógenes Laércio”, onde analiso as fórmulas atualíssimas dessa identidade europeia como variados tipos de falsificações da Grécia, que já uma leitura de Laércio corta admiravelmente bem.
38 Se o direito é banalizado na metafísica como mero ramo da ideologia em proveito dos “produtores”, os braços operários em Marx, os senhores de regimes políticos em Nietzche, assistimos a uma espantosa inversão da história grega conhecida, porém sintoma coerente numa episteme cuja base é a dicotomia de primitivos livres e ocidentais reprimidos porém únicos inteligentes. A dicotomia, pois, de ausência e presença de Estado, na ambiguidade imperialista dessa liberdade originária que não era, ela mesma, reconhecimento de outrem, mas vazão total à pulsão – o contrário da consciência cristã.
39 O nazismo não era diferente dessa concepção, quando ela já estava modulada nas totalidades sociais, como de raças culturais que, então, deviam lutar pelo prêmio histórico do domínio do mundo como a mais forte e originária. O pan-germanismo dessa época não se limita a simples repetição do Romantismo. Claro sintoma disto é a própria definição da Alemanha. A romântica tendo sido a introdução da legalidade e da subjetividade. A nazista, ao contrário, o discurso da ditadura e da superioridade coletiva, da raça cultural apta ao domínio das outras numa era em que o neocolonialismo era o significado possível das armas tecnológicas que pioneiramente permitiam esse domínio planetário.
40 No nazismo e no heideggerianismo a mística das totalidades sociais, a banalização ao vulgar da outra falsificação de Nietzsche, a Grécia berço da Europa, sem consciência do pecado, frente a Judeia, contaminação da Europa, como má consciência do arrependimento, da vida como expiação, a Judeia prototípica do “oriente” schopenhaueriano. Porém não há de fato totalidades imiscíveis, pois, primeiro, quanto à letra do mito, o judeu não importou as influências orientais que fizeram na Grécia a fortuna da filosofia a partir do mito da expiação pelo karma, assim introduzindo entre Pitágoras e Platão a problemática da alma como sujeito epistêmico. Na letra hebraica, inversamente, não há lei kármica, a vida é dom de Deus, criação feliz, e o pecado é uma problemática independente da explicação ontológica, funda uma antropologia totalmente imanente. E, segundo, a influência da Grécia na Judeia, que os historiadores atribuem com provas satisfatórias ao livro do Eclesiastes, é que introduz aí a meditação sobre a a “vaidade”, a vacuidade de tudo, o pessimismo, etc.
41 A formulação deleuziana para escapar à equalização de automatismo nietzschiano do signo e fascismo - falsificado agora, no Cinema 2, em (falsária-anti-falsa) consciência metafísica - é calcada no procedimento já recorrente, da minoração do item para solver-se em algo mais abrangente. Se o fascismo é o intolerável, a coisa em si de que ele devém como a má possibilidade frente à arte livre boa, é que é o intolerável em si. “A ruptura sensório-motora”, por onde o virtual é reencontrado no absconso de um pensamento que não se pensa, uma memória que não se recorda, “faz do homem um vidente que é surpreendido por algo intolerável no mundo, e confrontado com algo impensável no pensamento” (p.205) . É o mundo, enquanto não substancial mas o reflexo da potência, o que é intolerável, pois a potência só o é da lei do seu desejo.
42 Assim porém podemos indagar se a questão em Cinema 2 não é impulsionada pelo mesmo intuito que no Mille Plateaux, justificar o nazismo como deriva interna ao desejo. Sem passar pela questão histórica específica do neocolonialismo e da tecnologia aliados, e principalmente omitindo a questão mais difícil, sobre a ausência de opção política na Alemanha devastada pela Inglaterra – mas será que essa ausência era alemã? De fato, o antisemitismo era universal na Europa de então, mas quanto à Alemanha após 1917, não havia opção porque todos os outros possíveis eram igualmente crenças na originareidade de um grupo totalizável, contra o assim compreensivelmente ultraminoritário liberalismo constitucional ou social-democracia, esta que vivia humilhada por motejos tais como os de nada menos que um Sorel.
43 Uma situação deploravelmente semelhante à do Brasil na fase atual da Globalização, oriundo de praticamente duas décadas de petismo, e onde porém o deleuzismo tem se feito grandemente presente com uma alternativa afunilada no existencialismo dublê do neotomismo. Já na Inglaterra e na França, sem dúvida, a situação triunfante do liberalismo em 1917 adaptava-se perfeitamente ao anti-semitismo, anti-germanismo, neocolonialismo, etc.
44 O contorno sutil da problemática do autômato espiritual como fórmula perfeitamente aplicável ao nazismo histórico, em Deleuze, é apenas “Acreditar”, embora já não “em outro mundo, mas na vinculação do homem e do mundo, no amor ou na vida, acreditar nisso como no impossível, no impensável, que no entanto só pode ser pensado: algo possível, senão sufoco'”. (p. 205) Sem negar que se trate aí de boa psicologia, a questão nem chega a ser que o problema é resolvido recolocando-se apenas pelo que não é, em vez do que o suscita pelo que é. Como é que se deseja, em vez do que não corresponde ao que desejamos, quando isso acontece.
45 A impotência do pensamento frente à tomada do poder dos sentidos pelo cinema ultraestetizado que passa ao comando das pulsões e dos papeis sociais, torna-se a crença na vida e o encontro do sentido: a crença é a vida. O ultrapassamento do fascismo é algo difícil de ver nesse trecho, mas parece que o raciocínio é que não haverá fascismo assim que entendermos, como Artaud ou Dreyer, que seja o que for que criarmos em termos de crença com o objetivo de continuar vivendo em vez de sucumbir ao intolerável, por mais espetacular ou inumerável que seja, sempre será menos do que a angústia que nos fez criar, porque é ela o nosso ser humano. Com a ressalva de que Deleuze não fala de “angústia”, mas de “absurdo”.
46 Mas assim o que vemos proliferar é uma sucessão de pares de opostos entre o sim e o não, o bem e o mal, como o fascismo e a arte, a potência e o absurdo, a árvore e o rizoma, o molar e o molecular, o duro e o flexível, o estriado e o liso, o fraco e o forte, o escravo e o senhor, e tantos mais pares de opostos deleuze-guattarianos que podem ser conhecidos.
47 Essa é uma objeção feita a Melanie Klein por Marjorie Brierley, em 1943 (“A controvérsia Freud-Klein...). Ela indaga diretamente a Klein, ainda que pronunciando-se em conferência na IPA (associação internacional de psicanálise), a propósito da possibilidade da condução da terapia kleiniana, até o que seria o ponto em que o analisando pudesse fazer a clivagem do objeto bom e do objeto mau, converter-se numa “solução irrealista” para o problema real. Este que consiste em interiorizar o fora, mas na qualidade representável do objeto, pelo Self.
48 “Solução religiosa”. O mundo está povoado por seres bons e seres maus restritos como tais não a um sistema objetivamente coerente, em que os objetos são representados por qualidades atribuíveis intrínsecas a eles, num continuum de relações objetivas possíveis, mas pelo que nos diz respeito, enquanto o único ser a que todo esse mundo duplica. Mas o que queremos na psicanálise conforme Briesley, é uma solução que alcance a realidade como o que o sujeito objetiva, este capaz de lidar com a concepção científica do mundo. (p. 608) – de fato trata-se da possibilidade de acusar na terapia kleiniana a “falta de realismo”, o que não quer dizer falta do Real, e sim de objetividade naquele sentido em que um pensamento, não a simples identificação narcisista, é alcançado. (p. 606)
49 A resposta de Klein numa conferência na IPA na mesma época – a qual era do confronto radical de Melanie Klein e Ana Freud - centrou-se na transferência, porque as indagações de Briesley visavam a sua técnica. Mas assim a questão do objeto ficou esclarecida, a meu ver, porquanto o que o analista devia personificar conforme a técnica em causa, seriam não apenas pessoas reais e objetos que o analisando internalizou constituintes do seu superego, mas a ambivalência neles residentes entre o bom e o mau, a proveniência da angústia.
50 Antes que apenas resolver a cisão do bem e do mal, tratar-se-ia de um “movimento de ida e vinda” prendendo-se “a um intercâmbio de figuras reais e fantasiadas, externas e internas, representadas pelo analista”. E se o que está sendo vivenciado é uma análise da vida de fantasia onde estariam encerradas a culpa e a ansiedade por enfrentar, de fato a situação psicanalítica se baseia na “inter-relação” entre realidade e fantasia, como entre consciente e inconsciente . (p. 618, 619)
51 Mais uma vez, poderíamos considerar que Deleuze pretende a mesma solução, não obstante a crítica ao edipianismo de Klein no Anti-Édipo. Trata-se da crença, e Roberto Machado, em seu estudo sobre “Deleuze, a arte e a filosofia”, insiste sobremaneira na ênfase deleuziana da crença como noção filosófica: “Deleuze nomeia, em pares, os filósofos que, segundo ele, subtituíram o saber pela crença, observando que, apesar das diferenças entre eles, em todos, a crença não se volta para um outro mundo, mas para este mundo, tal como ele é. Pascal-Hume, Kant-Fichte, Kierkgaard-Nietzsche, Lequier-Renouvier” (“Deleuze, a arte e a filosofia, p. 288). A nota de Machado que aqui citei é ela mesma citação da nota nº 30 de Deleuze em Cinema 2 (p. 207).
52 Assim como não se pode dar conta da realidade, assim como a vidência é o correlato da impotência da volição e da consciência, pela auto-descoberta de si como autômato espiritual, como o germe de um cristal tão harmônico como pré-estabelecido e tanto mais determinantemente por tê-lo sido por nós mesmos nesse automatismo, a crença não deixa de ser objetividade, mas aquela que transitou pela nossa fantasia. Contudo, o problema permanece. Por que o desejo – e qual? Em Klein a resposta ainda é o Édipo. Mas Deleuze rejeitou-a, justamente em favor do tempo, que não é porém o que passa.
53 Em Cinema 2 a filosofia da crença se expressa como o fundamento do cinema, em termos de “catolicidade”, como lemos no “sumário” integrando a lista de itens do capítulo 7 e se desenvolve com o tema da crença, desde a página 206. Aí a oposição mais intensa se encarna numa virulência textual nietzschiana contra a verdade enquanto o avesso da vida, aquilo que adoece e impede, e as potências da ficcionalização, como do falso, inversamente, o que a cura e fortalece (p.206 e segs.).
54 O problema de se entender essa formulação é grande, porém, posto que ela não vai implicar o que parece, como a correlação utilitária entre a crença interior como o que favorece e um comportamento exterior de favorecimento da crença – contra tudo e todos, contra a verdade dos outros, etc. Justamente a catolicidade efetiva, como a confisssão de muitos cineastas e a mola de sua atratividade enquanto religião de massas, não é a fé, mas a “mise em scène”, e aqui Deleuze cita a fórmula de Elie Faure, o cinema como o culto que substitui as catedrais.
55 Mas assim o objeto da crença não é o correlato de um “penso” tal que o fundamento seria “o todo como sujeito” se este não resulta como a totalidade conceitual de um comando de harmônicos supra-sensoriais, “sensação totalmente fisiológica”. (p. 192) Assim o “sujeito” não sendo o da pessoa, mas o autômato espiritual nela engendrado à força, cinema do “soco”, do “choque”, eisensteiniano, soviético. O conceito que sintetiza os harmônicos supra-sensoriais invade o córtex para forçar o nascimento do Penso cinematografico. O conceito é o todo. (p. 191)
56 Nem a crença é uma fé no que está dentro de nós enquanto a interioridade homogênea do reconhecimento, coerente ao Si como senso íntimo. Aquilo em que devemos crer, é em que já não podemos acreditar como numa evidência substancial, é justamente o que está fora de nós como esse mundo moderno que se tornou um dever revolucionar, mundo estranho do capitalismo e da fábrica da disponibilização de tudo, como “um roteiro ruim” na visão de Godard, assim tornado veículo de situações óticas e sonoras puras, que já não compacta o sujeito como interior a si: “o fato moderno é que já não acreditamos neste mundo”. (p. 207)
57 Aí o objeto da crença não são as partes e sim o todo: “O homem está no mundo como numa situação ótica e sonora pura. A reação da qual o homem está privado só pode ser substituída pela crença. Somente a crença no mundo pode religar o homem com o que ele vê e ouve”. Se o Rosselini tardio passa a suspeitar da arte, “à qual censura o ser infantil e chorosa”, quer “substituí-la por uma moral que nos restitua uma crença capaz de perpetuar a vida”. (p. 208) Ou a propósito de Pasolini: “O pensamento é arrebatado pela exterioridade de uma 'crença', para fora de qualquer interioridade de um saber. Seria essa a maneira de Pasolini ser, ainda, católico?” O tema da crença e sua virulência planfetária em defesa da vida, desde aí se torna um teorema, como o título do filme de Pasolini, um princípio de realidade do cinema. (p. 212 e segs.)
58 Mas assim a complicação do dentro e do fora, pois a religação com o mundo, se é com o que vemos e ouvimos, eis os nossos afetos em vez de apenas um conteúdo de nossas percepções enquanto representações apenas ideais. Ou antes, é a ideia que sofreu uma súbita torção, ao pensamento o cinema visa comunicar um choque que não tem nada a ver com violência. Ou seja, agora a crença volta a se acomodar com a interioridade, porém é um dentro mais entranhado do que todo o passível de reconhecimento, compulsões em função das quais nós cremos. Uma interioridade do Real, que, como vimos, é de onde provem o delírio, todas as inquietações, a encenação da morte – “Saló” é a interioridade pura de um fascismo que se realizou de todo, logo, a impossibilidade dele mesmo, um todo fechado, encurralado. (p. 211)
59 Mas inversamente a “Saló”, o “Teorema” é um problema vivo, um problema externo em volta do qual tudo converge, uma questão que obseda a quem descobre que não sabe respondê-la.
60 Na condição dos nossos afetos, não se trata de sermos afetados diretamente por algo de fora que porta a característica tal ou qual, e embora Deleuze não o diga expressamente, parece-me que essa sim é a violência, como não apenas desta ou aquela cena, mas o princípio de fundo do cinema capitalista de sucesso. O fora aqui também não é o da prosa cinematográfica, d e Oswald de Andrade, produzida como montagem, que Luis Carlos de Morais Junior conceituou como excência, justamente um fora que só subsiste em função do seu tratamento estético e pulsional.
61 Se inversamente, a violência do fora é o que me parece o princípiio do cinema capitalista de massas, uma teoria do cinema seria mais do que tudo requerida como o que efetivamente proveria uma teoria da forma ideológica da mídia. Nela, como o que vemos sempre menos disfarçado, sempre mais o tempo inteiro na “Globalização” que Deleuze não chegou a conhecer, a verdade não é o que alguém pode saber, mas o que o big brother personifica como aquele ou aquela personagem cênica (ator/atriz, logomarca, estereótipo ou nome) que encarna o dever-ser. O afeto é sentimento mas como automatismo do provocado, e aquilo que provoca encarna portanto o poder absoluto do dever ser, a suposta lógica do fato subsumindo toda verdade e sendo o mostrar a forma pura da moral. A provocação contudo não é o correlato de um conceito, é a objetividade ideológica do disponível. A beleza de qualquer jovem e o desejo enlouquecido dos homens expresso também no desprezo imediato pelas outras; as demais supostas necessidades a que satisfazem as mercadorias, comer tanto quanto superar outrem em alguma coisa; tudo com a condição de que não haja qualquer conceito, e trate-se apenas da coisa em si inegável a priori, etc.
62 A propósito da ideologia como processo que se radicaliza no tempo, gostaria de registrar aqui o destino que teve a charge de Mino Carta, dos anos ___ numa faculdade de letras particular atual, cujo esforço pedagógico “personalizado” era fazer caber todo conteúdo de cursos universitários na pré-formatação dos cursinhos populares de inglês. Na charge, cuja linguagem era bem corrente dos jornais de médio esclarecimento na época da publicação, vemos o personagem refletindo sobre como ele teve que se esforçar para se tornar, no quadrinho final “um ser humano”, mas na sucessão dos quadrinhos até aí, sendo ele progressivamente sobreposto por uma pilha de objetos até que só vemos a pilha das mercadorias. Pois bem, a professora da faculdade de letras ficou indignada quando eu disse que se tratava obviamente de crítica da sociedade de consumo – aliás o que estava escrito no gabarito do livro que citava Carta, referencial da bibliografia do curso. “De onde ela tirou isso?” tonitroou a pobre criatura, tomada de intensa fúria. Segundo a professora, o óbvio era que o autor estava refletindo sobre como todos nós somos existencialmente dependentes das mercadorias industrializadas.
63 Na violência da linguagem do cinema de mídia como demonstração ad nausea da onipotência do fora, discordar é matar ou bater, em todo caso, destruir, pois não há a questão e as opiniões possíveis, somente a coisa no seu todo mostrável e a forma pura da consciência que é a passividade do provocado-necessitado, e o que se segue como o que ele faz ou quer. Por onde os processos de pessoas que protestam ter a imagem manipulada na tela como o exemplo do antagonista do mocinho. Ou a reclamação de que o antagonista é sempre índio ou latino-americano, etc. Eu mesma quereria muito saber como é que a imagem do meu irmão David Colchete, músico, baterista de Rock, foi parar num filme de Tim Hobbins, com ator sósia dele, caracterizado com os mesmos óculos e roupas, etc., representando personagem do mesmo nome, assassinado de madrugada pelo mocinho porém sem que os outros personagens soubessem, assim convenientemente dado por atropelado para que o outro (Hobbins) casasse com a mulher dele. Vi o filme em 1997 ou 98, tendo em janeiro de 2000, o meu irmão David (29 anos) morrido atropelado de madrugada, porém sem que saibamos direito como pode ter ido parar no local que se informou ter ocorrido o atropelamento. Nesse filme, onde a nata do cinema americano faz figuração, David era um produtor de cinema que valorizava filmes pessimistas, por serem realistas, contra o que estava o personagem de Hobbins, cineasta também, mas que considerava a vida real melhor do que David pensava, e valorizava filmes otimistas.
64 Não creio pois que se pudesse reduzir, podendo-se sempre menos, a imagem do filme violento da mídia ao regime que Deleuze supôs contrário do cinema de arte, o regime sensório-motor. Na propaganda mais comezinha, o olho é o que salta, do rosto humano a um desenho animado do olho que atravessa os espaços impulsionado pelo desejo do seu visto, a velocidade jamais é a mesma da imagem de ontem, etc.
65 O absoluto não é o que se pode enunciar como uma experiência própria, é a coerção imperiosa de um dado perceptivo ou uma situação exteriores sobre a passividade percipiente de um organismo, como no behaviorismo radical de Watson. Este criador do beahviorismo, que da psicologia transitou à propaganda, por não resistir a críticas, onde porém ficou muito rico. Um personagem é a oposição concreta do espaço que ocupa aos outros personagens, se um é suprimido, outro ocupa ostensivamente o lugar onde estava.
66 Naquilo que Deleuze considera o princípio teoremático do cinema de arte, ao contrário dessa violência, em nossos afetos, já o vimos, trata-se da relação da memória ou planificação virtual do comportamento possível, a educação dos sentidos, com a pragmática de uma língua que elas permitem produzir-se porém numa síntese ou modo energético autônomo em que se articula o que cremos ser o mundo a partir do que cremos sermos nós mesmos, e a questão do pensamento como da inteligência, filosofia ou arte, seria atingir esse ponto em que o mais íntimo e vital se torna o mais exterior e arbitrário.
67 As partes estão subsumidas num todo que só é produzido por sua interconexão, como membros de uma família dos quais os conteúdos dos sentimentos e delírios são apenas o reflexo dos outros em si. O cinema expressa a verdade do pensável, a ambiguidade insuportável do dentro e do fora: “o que lhes dá vida é o fato de serem projeções de um fora que os faz penetrar uns nos outros, como projeções cônicas ou metamorfoses”, ou como o seio da mãe para um bebê que necessita alimentar-se, poderíamos recordar de Freud, nunca reconhecido como esse fora, preenchido o espaço de intervalo com um grito. A contradição aparente dos vereditos sobre o cinema, forçar a pensar em Eisenstein, impotência do pensamento pela passividade total a que submete o receptor, em Artaud, se desfaz. Um único plano – eis todo o cinema na superfície impiedosa e indesafiável da tela: “Aquilo que de qualquer modo vejo”, e que desautorizou qualquer propósito na pergunta sobre o que há para ver, “é esta a fórmula do intolerável. Ela exprime uma nova relação do pensamento com o ver, ou com a fonte luminosa, que está sempre colocando o pensamento para fora de si mesmo, para fora do saber, fora da ação”. (p. 211 e segs.)
68 Contudo, convem insistir, esses afetos destilados do cinema, sendo antes correlatos ideias de um plano, mesmo que dependam em sua realização cênica da graça ou acaso como do feliz encontro na exterioridade do mundo, são algo de bem outro que factuais sentimentos. Como é que a máquina se faz suporte do desejo? Em que sentido se pode compreender que ela seja desejante, se ela não deseja nada como o que estaria – realmente – num fora de si como de sua planificação ideal? Sobretudo, como o desejo escapa à ideologia?
69 Essa questão pode ser posta numa teoria do cinema pela indagação sobre o que acontece com o gênero documentário. Mais amplamente trata-se da rejeição artaudiana do cinema como uma visibilidade dada, assim o que faz violência à mente como o que coage a pensar – não recriamos a cena de um livro preenchendo os pontos vazios com nossa fantasia, conforme a teoria de Ingarden de modo que mesmo se o autor não disse, ao enunciar que o personagem é idoso concebemos a brancura dos cabelos, pois o filme impõe a nós a informação totalizante do dado cênico. Como evitar a violência, como conjurar a catatonia do desejo, quando a planificação inconsciente da memória obteve o redobro de sua intenção antiprodutiva na própria instância de produção social via tela?
70 O big brother, a tela imensa, a fonte de luz única na mais profunda escuridão. E o computador o reproduzirá, pluralizando a fonte em milhões de pequenas luzes únicas no fundo dos nossos quartos, único contato com os outros e o mundo – muito mais abrangente do que considerava Virilio, posto que para este o substituído pela tela computadorizada era apenas a natureza e o teatro distante como da guerra no deserto, mas agora vemos que é a própria vida social e a história, o significado reificado das pessoas elas mesmas fechando-se como todo o possível na pantomina do seu mostrado simulacro.
71 Voltando ao que considerei adequado para um conceito de violência cênica, ou ideológica em geral, a intromissão do fora pode ser definida como o mecanismo da chantagem, eis porque o objeto da dominação info-midiática violenta é sedutor, não dessexualizado funcional como acreditava Baudrillard. Mas se o mecanismo funciona substituindo por um axioma externo o que seria a espontaneidade de nossa ação, interna, como ele seria distinguível do modus operandi de um autômato espiritual que se substituiu ao outro? Do ponto de vista do desejo, enquanto explicado na teoria esquizoanalítica, nada muda.
72 O mecanismo da chantagem é o fetichismo, poderíamos acrescentar, mas não apenas como o que anima o empreendimento do chantagista – quero x de y, obrigo y a entregar-me x se ele quer z, então x é um fetiche e não apenas um objeto funcional ao meu conforto, se independente de tudo o mais, formalmente eu o quero apenas pelo fato de x passar pelo desejo do Outro, reificado y, pouco importando que o que ele queira é z ou w. É sim o fetichismo muito mais radicalmente, posto que transforma o desejo de y por z ou w, que independente da chantagem poderia ser funcional ao conforto dele, naquilo que passa pelo desejo do outro, eu.
73 Mas como não considerar que essa é a operação do cinema, se ele nos obriga a realizar todo o pensamento de um filme, de modo que somos nós e não ele quem deve conceder o correlato de uma estética transcendental, se o que desejamos se torna a fonte de luz, encerrando o público na sala escura?
74 Não é só que ele nos obriga a pensar o que ele quer que pensemos, intolerável ou amável, numa cena, mas sim que a cena é um fetiche necessariamente substitutivo da objetividade, se o que pensamos é o correlato da chantagem da luz como do nosso desejo de ver. Há um locus do ver transgressivo no teatro modernista, que se dirigia por vezes ao público em termos derrisórios pelo simples fato de estar vendo. Suprema ironia voluptuosa de um ato em si criminoso.
75 Um modo mais direto de se colocar esse problema da substituição do fetiche na chantagem geral e cinematográfica (midiática) em particular, é então o cinema documentário porque ele não comunica, ao contrário de um cinema de arte na acepção mais comum, um princípio oculto, o que o cineasta viu e quer fazer ver como a solução do seu problema de como comunicar um visível que sendo o seu, é poético, uma poiese (produção). E assim não é uma violência. O documentário seria de modo direto a violência do fora não mediada pela partição da oposição ao dentro, ela mesma tendo sua gênese desde um inconsciente que vê. Um fora puro, o denunciado, para quem não vê.
76 É interessante aqui o resultado da experiência a que submeteram psicólogos, um grupo de conhecidos preconceituosos, fazendo-os ver propagandas que satirizavam obviamente atitudes de preconceituosos. O resultado foi que nos relatos dos espectadores preconceituosos, a propaganda apareceu como valorizadora dos satirizados preconceituosos, assim como confirmadora dos estereótipos da desvalorização dos discriminados. Sobre essa experiência, de Cooper e Jahoda na Universidade de Columbia, ver o Elementos de Psicologia, de Kretch e Crutchfield ( São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1974, v. 2, p. 380). Mas um filme de arte não é uma simples propaganda, que para ser vista como a coisa de dois minutos precisa aliciar de algum modo, e um documentário deve justamente, ao contrário, contar com recursos aptos a romper a inércia da recepção construída de cômodos estereótipos. O recenseamento desses recursos em Deleuze teria que atacar a questão do documentário por um ângulo interno ao desejo, mas como fazer comunicar o desejo nesse caso, se ele é da justiça?
77 Uma resposta que poderíamos antecipar pela leitura do que precede é esclarecida pela proposição básica do cinema de arte como o deslocamento do tempo cronológico. Soa à banalidade. O tempo não cronológico é o velho conhecido tempo psicológico, e é um senso comum generalizado que o tempo dos sentimentos não é o do relógio, aquilo pelo que esperamos ansiosamente demora e o que tentamos evitar se precipita, porém transcorreram-se exatamente a mesma quantidade de minutos. Mas a resposta em Deleuze é original porque o significado do sentimento não é o comum.
78 Os sentimentos não são o provocado, a decorrência uniforme e imperiosa de algo na pontualidade indesafiável do agora atuando sobre uma interioridade. Eles são resultados de lances que se superpõem como eternidades limitadas umas pelas outras, idades ou tempos: “Se os sentimentos são idades do mundo, o pensamento é o tempo não cronológico que lhe corresponde”. (p.152) Mas assim, como arqueologia cuja aventura não é a reconstituição tanto como é a superposição das idades num vivido tornado imanente, mundo interior do personagem de quem os sentimentos são significados na tela, o pensamento construído pelo personagem não ultrapassa a violência apenas por ser outro o demonstrado, um raciocínio objetivo por meio do que se demonstra. Um juízo em vez de outro, essa imagem em vez daquela, com a condição de que não substituam o seu possível - ainda que enquanto um vir a ser que como se mostra não pode ser outro - por uma disfarçada fantasia do necessário.
79 Um ceticismo fundamental animaria a modernidade como a liberdade celebrada do tempo na história, porém não é assim que Deleuze – e em geral, os modernos – querem. Mesmo a psicanálise, quando ela ultrapassa os limites da análise didática e se interroga seriamente sobre o inconsciente do analista para não repetir Joan Rivière a julgar que o seu paciente é neurótico porque a analista considera a mulher dele feia, ou seja, mesmo Lacan, este o enunciante do axioma de qual tudo aqui depende: o Real se mostra, a realidade se demonstra. Por vezes parece que é bem lícito considerar que ele não pensa de outro modo que Deleuze, quando enuncia o atingimento do pensamento conforme o paradigma do cinema de arte. Hipnose. A repetição de um mesmo “jogo” cerebral, uma mesma sobreposição arqueológica, de sítios de objetos sensíveis, que explica porque a sucessão cronológica das datas é agora perfeitamente dispensável.
80 “O mundo tornou-se memória, cérebro, superposição das idades ou dos lóbulos, mas o próprio cérebro tornou-se consciência, continuação das idades, criação ou crescimento de lóbulos sempre novos, recriação de matéria à maneira do estireno”. (p. 153) Estranha consciência, a continuidade de um certo jogo, a razão de ser não é que não seja necessária, pelo contrário, mas se reduz à regra do jogo.
81 Se essa resposta é a definição do cinema de qualidade em geral, ela deveria abranger o documentário, mas assim não sabemos para que serviria este. O documentário não encena sua própria regra, reproduz o que assim colocado seria apenas a banalidade.
82 Mas conforme o visto, o político se reduz a afeto como à simpatia. E nesse ponto é que ficamos em dúvida sobre a capacidade lacaniana de ultrapassagem. Não julgaríamos uma questão internacional pelo que nos parece justo ou abusivo, mas sim se gostamos mais da burka islâmica ou do rosto nú da jovem ocidental, e nosso gostar também não é juízo do que nos parece objetivamente, mas aquilo que pensamos no sentido do que gostaríamos de ser. Um erro notável do deleuzismo é supor que Lawrence fez algum “devir árabe”, quando na verdade sua consciência podia pender para a justiça da causa nacionalista àquela altura, mas quanto à crença subjetiva, Lawrence nunca vacilou quanto à orgulhosa auto-convicção de ser um hábil agente do governo inglês utilizando-se da força dos árabes apenas como estratégia numa guerra com muito maiores proporções, governo que muito possivelmente os estava enganando – e de fato estava.
83 Como a explicação deleuziana do cinema documentário esquivaria esse resultado de uma razão no limite propagandística? A meu ver de fato ele não o faz de todo, mas é importante que comece a sua explanação desse ponto a partir de um comentário sobre a veracidade. O pivô aqui é a narrativa. O aporte estrutural deleuziano sempre foi anti-narrativo, porém como tenho sustentado, narrativa e sistema não se excluem, ao contrário das ingenuidades da new left à Carol Gilligan ou Benhabib. É o que a geoegologia demonstra. A História, ao se tornar supostamente ciência porque suportada por um determinismo ocidentalista psicossocialmente evolutivo, o sistema, desde o positivismo em diante, de fato deixa de ser ciência, mas justamente porque assim se narrativiza. A perda da independência equivale à descientificização não porque transfere a cientificidade para outro campo, a sociologia ou o existencialismo, mas por que a narrativiza, trocando-a enquanto o que a cientificizou pioneiramente na era romanticista, o conceito historiador, não a memória mas a atuação metodológica sobre o documento, por um “grande relato” resultado do sistema determinista. Limite comum à metodologia funcional e ao estruturalismo, eis o que explica o resultado a meu ver ridículo de Jean Pierre Faye sobre Heidegger, como paradoxalmente o que ele mesmo pretendera estar mostrando. Como o narrativo se reduz ao estrutural, este que é porém, enquanto sistema inconsciente, um Imperativo (injunção).
84 O começo da posição do problema do cinema verdade ou documentário, em Deleuze, é pois um retorno da narrativa, mas a partir de uma denegação da verdade, ou da História, como a função generalizável dele. Ora, o que é a verdade? - que como já vimos, à Nietzsche é tratada como o mais oposto à vida, quando, pelo contrário, para além do bom e mau narcisistas pode-se convir que ao menos nem sempre é assim. Um certo nominalismo seria bem vindo, como em Ockham, entre podermos saber tudo ou não podermos saber nada seria melhor argumentar em prol de que ao menos podemos saber alguma coisa. Mas a condenação total da verdade deleuze-nietzschiana deveria também suscitar a questão do que ela seja, mesmo enquanto o negável – antes da antipatia de um riposte formal de que ainda a resposta seria verdadeira “para si”, etc.
85 Eis o sintoma. Para Deleuze, “pensamos que a narrativa se refere em geral à relação sujeito-objeto e ao desenvolvimento dessa relação” (p. 179), a narrativa sendo diferente da narração que se restringe no cinema ao encadeamento dos movimentos sensório-motores. O que “pensamos”, erradamente, pois, é que “o modelo da verdade encontra então sua expressão plena, não mais na conexão sensório-motora, mas na adequação do sujeito e do objeto”. Não reduzindo este àquele, mas sim à sua lógica transcendental objetiva que justamente depende de um si estabilizado que não se confunde com o objeto. Entre ambos, poderíamos acrescentar, há objetividade quando um sistema categorial, formalmente conceituável, vem impedir a confusão.
86 Deleuze não pensa diferente disso, porém antes insisti na necessidade da epistemologia atual relativizar o sistema de categorias conhecido não no sentido moderno, como em Heidegger, pelo qual a substância – o “quid” ou essência – pode ser culturalmente variável em vez de positivisticamente universal. E sim num sentido que desfaz a totalidade na medida que não há substância a priori na mente, nem o número, a substância é formada num desenvolvimento mental que não é descritível por uma gênese substancial, mas como um pensamento por relações, em que a substância (quid ou essência) só posteriormente se torna independente do lugar, etc. - e o número também é formado, não a priori, porém é ainda anterior ao conceito que lhe parece diretamente antagônico, de caos ou mistura aleatória, conforme Piaget.
87 Assim portanto, a questão da adequação de sujeito e objeto não é bem o que resume o problema da verdade, as relações em presença dados ambos não se reduzem ao adequado pois não há explicação da constância formativa além da constatação de que é assim na subjetividade, um dos polos da adequação não coexiste sempre com o outro, nem se vai da carência à potência, o estabelecimento do que é uma ou outra é um preconceito a partir da posição de uma delas, por exemplo o número, como presença potencial inversa à mistura como carência do número – e nesse sentido Heidegger não escapa, pois o que precede o empírico como o pré da pre-sença é para ele ainda substância a priori como significação do “Ser”.
88 Deleuze parece manter o postulado da modernidade. O que ele objeta ao modelo de verdade, se não é a adequação sujeito e objeto, é ser “necessário precisar o que são sujeito e objeto na condição do cinema” (p. 179), mas sendo esta um pretexto para sua concepção do inconsciente formativo, superando assim o erro possível naquilo que pensamos. É certo que a condição é aqui importante, não sendo a mesma do cinema e do teatro. Só no cinema pode ocorrer a convenção de se designar objetivo o que a câmera “vê” e subjetivo o que o personagem “vê”, mas assim é a mesma personagem que vê e que é vista, pois a câmera não deixa de ver a própria personagem.
89 A montagem cinematográfica é pois o que deve solucionar o problema de como produzir a relação complexa do subjetivo e objetivo, mas o cerne do argumento deleuziano é que há dois regimes dessa produção, conforme um cinema vulgar ou clássico e um cinema de arte ou moderno. A partição sendo entre quem carece e quem possui o conhecimento do inconsciente como crítica da verdade, crítica do empírico sem o transcendental, este o signo (mais o pulsional). Como já enfatizei bastante, porém, sendo o mais ambíguo do discurso geoegológico o que vem antes, pois o primitivo é o pulsional menos o saber do que é pulsional, etc.
90 A solução do cinema clássico segundo Deleuze, visa produzir “a identidade da personagem vista e que vê, mas também a identidade do cineasta-câmera, que vê a personagem e o que a persongagem vê”. (p. 180) Ele deve produzir a fórmula Eu=Eu, a Verdade do personagem. Mas desde o Laing americano e Orson Welles em Cidadão Kane, trata-se de um outro regime narrativo, não já o da “veracidade”, pois nesse novo regime, como o “cinema de poesia” que Pasolini designara, o que o cineasta faz é a confusão do subjetivo e do objetivo: “ a distinção se desvanecia entre o que a personagem subjetivamente via e o que a câmera objetivamente via”, a câmera não decicindo entre uma e outra mas “porque a câmera adquiria uma presença subjetiva... uma visão interior que entrava numa relação de simulação (mimesis) com a maneira de ver do personagem”. (p. 181)
91 É nesse ponto que um tipo de cinema documentário se torna criticado, como o de Grierson e Leacock, com polos documentário ou etnográfico, de investigação ou reportagem. (p. 182) “O que Nietzsche havia mostrado – que o ideal da verdade era a ficção mais profunda, no âmago do real – o cinema ainda não havia percebido.” (p. 182) É por volta dos sixties, com Cassevetes e Shirley Clarke (cinema direto), Pierre Perault (cinema vivido) ou Jean Rouch (cinema verdade) que a veracidade se torna criticada como limite do documentário, na medida em que ela “necessariamente exprime as ideias dominantes ou o ponto de vista do colonizador”. Aí “a ficção é inseparável de uma “veneração' que a apresenta como verdadeira, na religião, na sociedade, no cinema, no sistema de imagens”. E a fórmula injuntiva de Nietzsche, “suprime tuas venerações”, se torna afinal assimilado.
92 Porém esse texto é ambíguo, na medida em que aparentemente a crítica desvenda a verdade como nada além de veneração, mas o sujeito criticado da proposição de Perrault é “toda ficção”. Deleuze concebe pois que “Quando Perrault se dirige a suas personagens reais do Quebec, não é apenas para eliminar a ficção, mas para libertá-la do modelo de verdade que a penetra, e encontrar ao contrário a pura e simples função de fabulação que se opõe a esse modelo”. (p. 182, 183)
93 A “fabulação” se torna o eixo do cinema documentário, valorizável como o que não se reduz à veracidade: “O que o cinema deve apreender não é a identidade de uma personagem, real ou fictícia, através de seus aspectos objetivos e subjetivos. É o devir da personagem real quando ela própria se põe a 'ficcionar', quando entra 'em flagrante delito de criar lendas', e assim contribui para a invenção de seu povo”. Aqui, o sujeito deduzido na paralogia do kantismo, como acima demonstramos: “A personagem não é separável de um antes e de um depois, mas que ela reúne na passagem de um estado ao outro. Ela própria se torna um outro, quando se põe a fabular sem nunca ser fictícia”. Como podemos observar, nesse ponto extremo do argumento, a paralogia chega a ser pressentida mas não ultrapassada – a ficção radical libertada, porém assim não ficção.
94 Certo, o que se enuncia ultrapassado é a oposição do real e da ficção. Mas “Se a alternativa real-fictício é tão completamente ultrapassada é porque a câmera, em vez de talhar um presente, ficticio ou real, liga constantemente a personagem ao antes e ao depois que constituem uma imagem-tempo direta”. Primeiro a personagem é real, mas assim, para conjurar “o modelo” e “afirmar a ficção” ela se põe a fabular inventando-se “não mais separável desse devir que se confunde com um povo”.
95 Mas o que é assim “fabulado”? A questão é pertinente, se a personagem só muda relativamente ao modelo ou estereótipo, só entra em devir, não tornando-se assim justamente efetiva, o que capta o documentário ao contrário da ideologia do estereótipo. Ao contrário, só por ter abandnado o real, ter fabulado, ido além de um si talhado “real” (não “fabulado”) antes do seu próprio devir. A questão – como a de Perrault – é a pertença a “um povo dominado”, o encontro de “uma identidade coletiva perdida”.
96 Em Rouch (“Les maîtres fous”), as personagens de um rito religioso não ocidental aparecem possessas, em transe, mas depois elas são vistas em suas ocupações ocidentalizadas cotidianas, “são garçons, operários, serventes de pedreiro...”. E a fórmula “'o que é fácil no documentário é que sabemos quem somos e quem filmamos', deixa de valer. A célebre fórmula Eu=Eu (ou sua forma degenerada, eles=eles, deixa de valer para as personagens e para o cineasta, tanto no real quanto na ficção. O que se insinua em graus profundos é antes o 'Eu é outro', de Rimbaud”. (p.185)
97 Mas será que a alternância de papéis sociais basta para configurar a alternância do Ser? E se bastasse, sem que houvesse nunca o nada – o que Sartre censura, mas ao garçon que espantosamente a seu ver assim acredita – o que seria o Ser além dos papeis sociais? A fabulação, a potência... mas de que, além disso, a intencionalidade, a consciência “de”?
98 Não é certamente a esse resíduo fenomenológico que Deleuze quer chegar, mas aos componentes dele, e, no entanto, os componentes só o são dele – não podemos evitar a dedução hostilizada, da consciência transcendental. A alteridade no ponto em que parece maximamente exaltada é de fato inteiramente neutralizada. O antes e o depois não passaram, não se tratou de nada perdido.
99 O problema podemos ver, tanto mais que Deleuze grafa o nome de Bertolucci. Certo, para negar que ele, ou Godard e Antonioni, sejam “a origem da transformação da narrativa”, ao contrário do que considera Pasolini. Eles são derivados, a transformação foi feita (“talvez”) por Lang e Welles. (p. 181). Mas são exemplos canônicos. Ora, podemos lembrar aqui o que Bertolucci realizou como documentário ou o equivalente, a reconstituição histórica, do imperador chinês capturado pela revolução maoísta.
100 “Fabulação” milionária, super-produção para mostrar o que era o povo, porém o filme, baseado na autobiografia do imperador, vai só até a capitulação do regime. A autobiografia, essa pode-se considerar que começa aí, mesmo que reporte a vida de antes. O que importa, pois: que é o povo? A fabulação de Bertolucci fabrica a grandeza, a estonteonte estetização palaciana, uma vida endeusada, idealizada por uma tradição milenar, o que só é turvado pelas ameaças e intrusões do fora – o que espantosamente não seria o povo, como o sujeito dessa tradição, dessa fábula em torno da qual todos os corações gravitam. Mas a autobiografia conta outra história.
101 Assim que o novo regime maoísta entrar, o antigo imperador não será executado, nem se o deixará deportar-se à União Soviética para lá ser julgado, mas sim reeducado na China comunista, e aí é que os problemas começam, não com o regime e seus oficiais controladores do pensamento, mas sim com os antigos ocupantes do palácio, parentes ou serviçais do ex-imperador, que começam a infernizar a vida dele, por emularem considerações maiores perante o novo regime. Este que desmonta os complôs que tais ex-nobres e ex-altos funcionários fabricam constantemente contra o seu antigo soberano, não obstante serem complôs dirigidos como bajulação do regime (delação das joias do imperador, competição humilhando-o como inferior nas tarefas braçais, etc.). O antigo soberano, este o único ingênuo que, alvo da emulação de todos os seus parentes e amigos íntimos, nunca o descobre até ficar de todo patente ou lhe ser revelada pelos oficiais de sua reeducação, e até aí insiste com as autoridades maoístas que não o separem da família, que não o ponham em um outro trem ou num outro departamento reeducativo que ela. Ao cabo de excruciantes experiências de decepção e afrontas movidas pelo seu “povo”, o imperador afinal é considerado reeducado pelos oficiais maoístas, torna-se paramédico e integra-se à sociedade revolucionária – que inexiste no filme de Bertolucci como qualquer “povo”.
102 Se retornarmos à demonstração da paralogia kantiana feita pelo pós-kantismo, vemos pois que o sujeito empírico, deduzido por sua situação na temporalidade única, lógico-transcendental, entre o antes e o depois, é na verdade o fundamento do próprio raciocínio que o estabelece como derivado, se a situação implica nada de possivelmente outro. Assim é a situação o derivado, o axioma é o Eu pensável. O artigo de Deleuze sobre as fórmulas poéticas que resumiriam o kantismo coloca pois um “outro” não rimbaudiano de Rimbaud, apenas como o transcendental é outro por relação ao empírico conforme Kant. Mas em Cinema 2, inversamente, Rimbaud enuncia a alteridade como alternativa de papeis empíricos. É o fato da alternativa existir na pluralidade de papeis que seria agora o transcendental – mas como Deleuze escapa assim de sua própria crítica disso como aristotelismo do potencial e do atual, apenas o metal que se torna um clarim? É certo que a fabulação é memória, porém a partir de um todo do jogo que seria, como regra, o conceito. Mas essa não é ainda a História não narrativizada, na medida em que se o componente desta é a documentação, e o conceito que a seleciona não é um a priori.
103 Se a ironia é o tempo que passa, entre o antes e o depois romanticista não há um sujeito que os recolhe, mas o nada que não é a consciência do para si sartriano. Sendo a finitude radical, mas já como ironia, é ativa, a construção expressiva, figural, de uma posição atuante imanente ao vivido que porém é a duplicidade do que escapa. Processo. Ora, a totalidade nietzschiana ou senhorio, seria ironia ao invés do humor que Deleuze considera o saudável oposto, um modo de frustrar a negação no tempo, porém de um modo que ao contrário do que pareceria “potência” ou poder, a ironia distorcida por uma substituição da posição imanente. Não há possibilidade da potência não ser aristotélica, enquanto aquilo que cumpre o aristocratismo de um dever-ser sem manter-se na verdadeira imanência, e tanto mais que o dever-ser é – cinicamente expresso – o delírio de um mundo possível, a sua semiótica (aqui “cínico” na acepção da escola grega, não o vulgar pejorativo). O dever-ser não sendo portanto, a consciência justa, mas o contrário, se assim considerarmos um fundamento que só se põe pelo rebaixamento do seu contrário, mas só havendo contrário a partir da posição de si.
104 Uma doutrina da ciência que se elevasse ao Eu transcendental teria que ultrapassar a defasagem fichteana assim como a criticaram Schelling e os Schlegel. O eu transcendental se atinge não apenas como o que vem do nada, o Real, suspenso entre um antes e um depois, se estes são reduzidos ao conteúdo de um pensado – sem haver pensado sem pensante. Mas sim como o que não pode decidir, depois das primeiras suspensões, sobre o antes e o depois por relação à situação de si (depois do antes ou antes do depois). Não se vai da carência à potência, como do nada temporal à certeza de si, desconstroi-se a oposição, indo assim do nada temporal à duplicidade do si e do tempo em que consiste nosso ser.
105 Ao contrário do que Deleuze supõe, o romantismo é assim profundamente anti-kantiano, e já se o poderia considerar sobre a arte, que os pós-kantianos não instalam na imaginação sem a esta devolver o conceito, assim a arte julga-se apenas pelo seu próprio conceito variável, não por sua adequação à beleza ou sublimidade como regra geral do gosto. Mas no a-fundamento do sujeito sobre o nada, o Real parece-me ter sido sabiamente, postulado nessa crítica dos românticos, numa relação objetiva com o conteúdo pensável, na medida que ele não é categorial, o antes e o depois são inversamente o que está povoado na história – a suspensão incide sobre conteúdos de fato pensados, não obviamente sobre a categoria em si. Assim poderíamos situar a pós-modernidade. O Real sobre o nada não é “Ser”, mas se é “Eu” (transcendental) , é porque este é o único absoluto que não se pode destituir de todo justamente por ser a síntese de toda relatividade, o originário da relação. Eu não sou outro, justamente porque o Outro real reside como nada em mim.
106 Isso podemos considerar que Lacan ensinou melhor que o pós-estruturalismo, no sentido de uma crítica que vem sendo feita a Deleuze – por exemplo, no excelente estudo sobre este que produziu Ph. Mengue. Pelo sim ou não a propósito de até onde Lacan conduziu a sua análise do inconsciente do analista, que não se limita como análise didática, uma coisa parece certa. Sem a castração, ou o desejo como meu desejo, o objeto de minha escolha (sexual), e eis o Self, é inegável que só resta o fetiche. Onde o Outro não é mais o nada, e o desejo dele é substituir-se ao sujeito, fazer deste o derivado, encarnar o transcendental, fazer da categoria o conteúdo mesmo, dizer o que se queria ter dito, determinar o que se deseja.
107 Realmente se pode indagar, como faz Deleuze: mas por que é o sexo que define? E especialmente sendo o sexo uma espécie de fórmula geral da frustração, que não é exatamente o mesmo que a fantasia. Deleuze respondera que seria melhor mudar a forma de amar, mas isso é o que se pode conjecturar limitado à fantasia. O Real é o que se ama, e o real é imutável, posto que nada está fora do Real. A meu ver podemos considerar, como resposta possível quanto ao sexo psicanalítico, que ele define antes na teoria do que de fato, mas assim ao menos a teoria é boa porque explica o desejo como o seu objeto. O que vimos ficar suspenso em Deleuze e mais geralmente no pós-estruturalismo.
108 Em Lacan, não obstante ele também não chegar à desinversão de Hegel, mesmo como princípio mínimo de alguma crítica competente deste último, vemos que o Self é mais do que pulsional, se ele é a objetividade do “eu” desejante. Então é anti-ideológico, ou seja, contrário à violência nietzcheana imperial. A propósito, lembrando que Aristóteles é grego, porém o aperfeiçoamento metafísico – leia-se aristocrático – que ele obtem após o platonismo já se produz num horizonte efetivamente imperial. Porém Lacan não quer realmente romper com a violência nietzshciana imperial, e assim se tornou um inimigo de Hegel sempre mais aguerrido, com a vantagem de ter enunciado claramente a segunda inversão, desde a primeira de Marx.
109 Sobre a mise em scène como forma geral da articulação Saber-Poder imperial, ver Chuang e Lao Tsé, aí o Saber sendo o confucionismo mesclável aos esoterismos do tipo I Ching, da dinastia proto-cavalheiresca, onde os signos repartem os destinos, aristocrático ou inapto, o céu é o imperador, etc. O Saber criticado é portanto não apenas o que se afirma um conhecimento, astronomia astrológica, etc., mas principalmente a arte palaciana, que se dirige aos cinco sentidos para através deles destilar o fascínio do poder como coisa em si em vez de escolha dos povos ou resultado da guerra.
110 O que permanece valorizável em Deleuze é porém a crítica que não pode já deixar de ser feita, quando se constata que se o sexo, o amor como “meu”, é o que define o transcendental como Eu e situa a objetividade como o locus do pensamento (não “ideológico”), então é preciso de novo explicar o que é o sexo, uma vez que o gênero é cultural.
111 Mas assim seria preciso não parar nesse termo como num signo limite. O que é “cultural”? Se a resposta deleuziana retroage à “memória”, então ela fica presa no fetiche, por mais que ela queira não conjura a ideologia podre da dominação que ela combate. Seria preciso libertar Hegel das suas inversões, positivista ou nietzschiana, mas também reconstituir seu intertexto, que não é como Hegel expressa, limitado ao “império germânico” enquanto o referencial do Estado Constitucional na História, mas sim a América abolicionista do seu presente histórico.
112 Assim reencontraríamos, com o romantismo a ser relido mas já num contexto como o nosso, em que a geoegologia veio à autoconsciência, uma verdadeira catolicidade livre do platonismo nietzscheísta como fórmula inquisitorial emulada pelo protestantismo que hoje em dia é o capitalismo info-midiático (igreja, multinacional, partido, família, etnia – o feminismo engolido entre a primeira e as últimas e todos contra o sujeito).
113 Um cristianismo que, católico ou protestante, seria porém um mistério da graça em vez de dominação sobre os demais, portanto que faz da consciência da liberdade subjetiva – logo, liberdade ética, de crença, religão, pensamento, ciência, etc. - seu mais caro credo, como parece-me que veio a ser o protestantismo alemão entre Schleiermacher e o próprio Hegel. Um retorno à letra dos evangelhos, como Cristo parece melhor personificar, total renúncia à dominação religiosa.
114 É necessário pois não regredir para antes da crítica da cultura, mas sim refletir no que deu errado na história desde aí até agora. Por que a globalização obteve a supressão da crítica em termos de um processo contínuo ao menos como prática institucional corrente, quando o que se expressava já ser necessário, como vimos em Glauber, era a institucionalização da verba da produção cultural independente do business de mídia? Não deveríamos considerar que O que é a filosofia?, de Deleuze e Guattrari, é o divisor de águas nessa transição infeliz, onde o parentesco de estoicismo grego e zen oriental esposado em A Lógica do Sentido é desfeito por um preconceito do oriente supersticioso e incapaz de pensamento conceitual, da elevação de Platão a modelo de conceito filosófico, da restrição da existência da filosofia contemporânea aos “meios” europeus, apenas França, Inglaterra e Alemanha?
115 O que procedemos é pois o trânsito do “discurso”, como o fabulado, a regra do jogo, os enunciados fundantes de qualquer texto num registro dado, o que no pós-estruturalismo podia entretanto ser designado “texto” mas era o seu contrário, ao texto efetivo, cuja construção é porém o seu intertexto, os escritos que o informam.
5 ) O “Outro Real” na América Latina
1 Epistemologia. Transitando do pós-estruturalismo como último determinismo modernista, aos pós-modernos texto e intertexto, vemos que Deleuze procede sua análise discursiva do regime significante a partir da informação textual da sociedade possivelmente esquematizada por círculos concêntricos. Norbert Elias (“introdução à sociologia”) mostrou que essa é uma visão egocêntrica da sociedade, praticada por uma sociologia já ultrapassada, e aqui devemos ler o conceito de egocentrismo não como recalque do ego, mas inversamente, como narcisismo, onde o ego autoconsciente inexiste, por ser ao mesmo tempo tudo e todos. O que podemos atribuir à criança, porém já não cremos que seja o princípio comum de todos os povos “primitivos”.
2 É certo que Norbert Elias objetiva principalmente livrar a sociologia da redução psicológica, poder se conceder os fenômenos da cultura como puramente sociais – não obstante outas disciplinas os conceberem conforme seus desideratos próprios. Se começa a chover, é mais que um só sujeito que usa o guarda-chuva, e se vemos uma multidão acionando os guarda-chuvas assim que começa a chover, podemos apropriar o fenômeno como social. Porém, crendo que a questão de Elias é epistemológica e não ontológica, não “um” reducionismo sociológico em vez de “outro” psicologismo, mas sim a circunscrição das categorias objetivas de um campo de investigação possível, encontramos uma confirmação na sua reordenação esquemática da sociedade.
3 Em vez dos círculos concêntricos (de fora para dentro: estado, indústria, escola, família, ego central, este o rosto na visão deleuziana do regime significante ocidental) narcisistas, teríamos um semicírculo feito com pequenas esferas representando os eus independentes uns dos outros mas interligando-se por traços de valência laterais. Assim um ego está relacionado aos que se posicionam lateralmene a ele por traços, como na junção de elementos químicos, porém as valências podendo ou não estarem “ligadas”, isto é, havendo relação efetiva possível em vez de apenas a alternativa entre mera contiguidade ou identidade totalizada.
4 Como vemos, o Eu é o correlato das relações possíveis. Os egos são “teias de interdependência” na expressão de Elias, mas assim do ponto de vista epistêmico e lógico que aqui tematizo, as relações só são pensáveis desde que o Eu é o pensante. Atingimos o pensamento que desfaz a captura do eu no fetiche e lhe restitui a objetividade, mesmo – e agora, como podemos entender, tanto mais que – na variação da cultura histórica. O limite da narrativa deve ser franqueado pelo texto como não redutível a um discurso ou fabulação, nem a qualquer tipo genético (narração, injunção, descrição, exposição, argumentação), mas como ênfase do seu gênero, e o problema dos escritos que perfazem seu intertexto.
5 O estudo de Luís Carlos de Morais Junior sobre Oswald de Andrade, que utiliza-se do pensamento deleuziano, parece-me entretanto já perfazer-se um aporte pós-moderno nesse sentido. E desde aqui tornamos à sua leitura, no âmbito de nossa perquirição da pós-modernidade relacionada intrinsecamente, como a consideramos, com a produção cultural do terceiro mundo.
6 Uma característica histórica da mutação pós-moderna na sua vertente benéfica de excentramento, precisa ser bem ressaltada para evitar reificar-se o culturalismo modernista como o que ensejamos designar o multiculturalismo em termos de ampliação das fontes culturais produtoras que já não se limitam ao primeiro mundo como horizonte do “desenvolvimento” psicossocial e histórico. Esse traço que só agora temos, não obstante não ser bem definido nova irrupção do novo, como vimos os observadores enfatizarem, é muito oposto ao que o culturalismo modernista fazia, ao importar as informações antropológico-sociais de culturas do terceiro mundo, como especialmente, àquela altura, em plena corrida neocolonialista, de África e Ásia.
7 Como antes sublinhei, a importação era uma repetição possível, como de um devir já estancado pela dominação ocidental. Estando repetindo-se naqueles continentes, em pleno século XX, o etnocídio já perpetrado na colonização americana anterior ao século XIX. Além disso, a cópia da “margem” (assim anexando-se) pelo centro (tautologicamente anexante marginalizante), sendo um processo esterilizador das condições heterogêneas de produção cultural da própria “margem”, essa característica modernista não era invertida apenas porque em regiões já ocidentalizadas na “margem” havia modernismo. Vemos aí a desigualdade transcontinental, entre as situações das Américas sob o imperialismo, num momento oportuno à ênfase desenvolvimentista local, já ocidentalizada e em vias de industrializar-se, e aqueles focos afro-asiáticos que estavam sendo objeto do neocolonialismo duro, cujos dominados eram ainda tribais ou impérios antigos.
8 Nas Américas com maior amplitude situada, mas depois naqueles outros focos à medida em que o século XX avançava e a ocidentalização dos territórios neocoloniais com ele, o modernismo foi o meio cultural em que se elaborava a politização. O marxismo era processualmente filtrado pelo modernismo, uma vez que não se podia tratar da luta de classes além de um status epifenomênico relativamente à dominação imperialista e neocolonialista. Mas o modernismo, como progresso do simbolismo, era a cultura reduzida ao jogo do signo. Primeiro, totalidade fechada, culturas no plural e não ciência universal. Mais importante ainda, copiável num sentido não da falsificação de um quadro por um outro pintor que o vende como se fosse o do pintor original, mas no seu modus operandi, na sua geratividade por assim expressar.
9 Mesmo que houvesse flagrante contradição entre o veredito suposto histórico do fim último das culturas não ocidentais, que estavam sendo pela primeira vez descobertas no neocolonialismo, e o modernismo em ato nas áreas neocolonizadas e Américas, não era de fato afirmável como fator de ruptura da premissa fundamental. O modernista estaria fazendo na margem, com instrumentos hauridos da teoria ocidental, a semiótica evolutiva do inconsciente, possivelmente unida ao marxismo, com suas raízes localizadas, o mesmo que a vanguarda fizera já nos espetáculos dadá e na renovação teatral artaudiana, no centro.
10 Sobre a época mais tardia desse processo, entre os anos cinquenta e setenta, historiadores do teatro já notaram que Artaud levou vantagem sobre Brecht, quando ambos eram porém ainda as duas grandes opções dadas. E isso, mesmo que considerarmos o fato de Artaud ter tomado a dianteira devido à importância da pluralidade de culturas que ele investiu ao contrário de Brecht, mas sendo com ele todo o modernismo que se via ultrapassado na circunstância do “happening”, cuja emergência, nos sixties, assinalou o fim do teatro pré-concebido, por ser espetáculo dependente da participação real do público – não como Artaud e o dadá o solicitavam, reagindo aos comandos do “diretor” que surgira no modernismo como o motor imóvel do espetáculo. Mas ser pós-artaudiano era ainda relacionável ao que se sucedia, ao contrário da via abandonada do universalismo de Brecht.
11 É verdade que o Brasil filtrou o happening pela ótica de Brecht, no “teatro do oprimido”, o que não chegou a ser considerado pelos historiadores na América e Europa, porém aí ainda vemos que há direcionamento do diretor, pela restrição temática da participação do público à expressão do status oprimido. Em todo caso, esse interregno de vinte anos, até os anos setenta, pode ser considerado “pop” como antecedência do “pós-moderno”, que inicia-se em meios dos anos oitenta, em vez de coincidirem inteiramente.
12 A característica do pós-moderno que ensejei definível é então que, ao contrário da convicção etnocida dos modernistas, mesmo que para eles isso fosse a dominação planetária e não o que gostariam que estivesse acontecendo, bem ao contrário dos capitalistas opressores ou dos marxistas “ortodoxos”, as guerras de descolonização e as contestações do imperialismo na margem mostraram línguas e culturas étnicas vivas, elaborando-se como o meio ativo da guerra de libertação necessária – a propósito, “khmer” é o nome da língua, na oportuna exemplificação do Camboja. Com exceção do caso anômalo brasileiro, vimos que nas Américas o excentramento cultural, desde a prosa nova dos prêmios nobel, é corente com o que demonstrou a estratégia revolucionária do “khmer vermelho” do sudeste asiático, ainda que o modo da contestação e seus motivos não fossem os mesmos.
13 Ou seja, línguas e conteúdos de cultura vivos, ao invés de destruídos ou estancados pelo ocidente, que portanto sobreviveram à dominação secular, por um lado, também já não se trata da totalidade transferível, jogo sempre recomponível como regra de suas peças. Mas da cultura desenvolvendo-se na língua mesma, ou num jogo com ela enquanto não apenas “léxico” ou “gramática” - a alternativa risível – mas problematização de um mundo geopolítico, conjunto móvel, variando na história, dos seus gêneros discursivos, sendo o gênero uma prática cuja qualificação mesma (este em vez de outro) é o que reúne aos duas partes antes abstraíveis separadas como léxico e gramática.
14 Cultura reoperando a sua heterogeneidade, assim também sendo redescoberta, o passado aborígine já não inimigo da história, por não ser temível a afirmação da sua alteridade. Mas, inversamente à homogeneidade como a priori do mero haver da cultura, a heterogeneidade considerável, da cultura que não pode não haver como fato humano, a rica seiva.
15 É interessante a propósito a crítica movida por Derrida a Levi-Strauss, relacionada à “lição de escritura” que o antropólogo acreditava poder ministrar a partir de sua experiência com o chefe ágrafo da tribo, que vislumbrara, talvez como um meio de ultrapassar a distância in loco do ser humano recolhido sobre si, escrevendo, um recurso para também ele escrever.
16 Compreendendo que os sinais na folha referiam-se às coisas no mundo, ainda que não sabendo que os sinais eram convencionais e regulados, põe-se a fazer sinais aleatórios numa folha, e apresenta à tribo o papel assim preenchido de significantes puros, na ocasião cerimonial em que se tratava dele distribuir presentes. Finge, pois, que a destinação de cada presente a cada circundante está predisposta no papel pelos sinais ali grafados.
17 Ele descobriu, com efeito, a escritura, deduz Strauss, embora não a aprendesse concretamente. Ele nada acrescentou ao que já sabia, retruca Derrida na Gramatologia, não por que conhecesse a escrita notacional, aquela que se considera em geral a escrita em si, mas porque nenhum povo é sem escritura, se esta é qualquer sistema de signos, e como todo povo aquela tribo tinha o seu. Strauss nunca prestando atenção às decorações regradas como uma linguagem, dos artefatos que singularizavam-se assim pertencentes à tribo.
18 Porém nenhum dos dois parece saber que o status ágrafo não pode ser atribuído na totalidade às tribos brasileiras, pelo menos não para considerá-las na pré-história, esta definida como ausência de escrita notacional. Pois se conhecem, desde o início do século vinte na Europa, escritas de tribos brasileiras antigas, como registrado no verbete “pedra de letreiro” no Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís Câmara Cascudo (Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1954, p. 696). Na Internet há referência e imagem dessa escrita, que consta em várias porções do território nacional, inclusive em Niterói. Impressiona o relato de Cascudo a propósito de Quenomo, um aborígine do Uaupês,que declarou ao companheiro de viagem dele: “Penhe peoatiára papéra iané iarecô utpa iacoatiara arama”, traduzido por Cascudo: “vocês escrevem o papel, nós temos a pedra para escrever”. E se muita especulação existiu a propósito do que significaria, a hipótese de serem apenas brinquedos índios ficou bastante prejudicada com o tempo. Pois descobriu-se também que algumas tribos atuais dessa época compreendiam alguns sinais. Ao que parece, a hipótese mais favorecida é serem registro das rotas de migração das tribos letradas, de modo que na decifração pelos índios atuais constava o registro da geografia local, como estações conhecidas na migração antiga.
19 Com efeito, os informantes históricos das tribos, que por séculos mantem o conhecimento da origem e agrega os acontecimentos que se sucedem, costumam referenciar justamente a rota da migração pela qual aportaram ao território que ocupam atualmente. Na internet há imagens dos sítios em que constam os sinais da escrita aborígine local, ainda não decifrada, que é abundante porém em várias regiões.
20 Assim o pivô da controvérsia entre Derrida e Strauss – como a tribo straussiana criou a palavra “escrita” na sua língua, na decorrência do antropólogo escritor entre eles ? – ignora o registro de Cascudo a propósito da palavra “escrever” em línguas indígenas já há muito conhecidas.
21 A história vem à atualidade da Globalização, sua anti-narrativa. Nesta, o processo sofre a ruptura total como inversão do curso da liberdade dos povos lentamente conquistada até a descolonização pela guerra há uns setenta anos, por um imperialismo brutal, inantecipado senão pela ficção que já se considerava obsoleta como a dos Orwell e dos Huxley. De fato, insistimos, como é óbvio desde Friedman, não se trata de um super-Estado, mas do que pensavam os existencialistas que era apenas o recurso, suplemento, expediente dele como racionalização do mundo, a saber, a máquina, indiscernível da tecnologia. O estruturalismo otimista zombava tanto disso que para Deleuze “A laranja mecânica” pode se analisar descartando a reflexão existencial sombria que encerra, apenas como “cinema do cérebro” pelo seu regime de imagem cristal. Como vemos, não discordando os (pós)- estruturalistas no principal, a saber, sobre que a grande dominação paranóica era o Estado em si, em vez do capitalismo para si. O que a Globalização do neoliberalismo econômico refuta cabalmente, mas apenas como corolário da realidade antes falsificada nas teorias do capitalismo como não intrinsecamente imperialismo.
22 Mas não se avançará sobre a perplexidade paralisadora que se abateu sobre o planeta na Globalização, resultado da reversão mais abrupta que já se conheceu, pelo seu gigantismo, até que se comece a questionar dos motivos não exteriores como apenas o rol do que o capitalismo fez de tão inusitado desde Reagan, a dessovietização e o modus operandi do crápula ostensivo. Até que possamos colocar em questão portanto, os motivos interiores, intrínsecos à autoconsciência pensante. É preciso revisitar a história dos conceitos, descobrir os pontos de deficiência mas também os enunciados da ultrapassagem e da resistência.
23 Como já vimos, a pesquisa das raízes culturais nacionais, desde Mário e Oswald de Andrade, ao longo do modernismo, não manteve a constante ascendente da elaboração do passado aborígine. Quanto a isso pode-se afirmar que houve nesse início certa antecipação do pós-moderno, mesmo que a insistência no desenvolvimento dessa linha, no meio reificado que se seguiu, pudesse ter sido feita apenas à base de concessões à visão totalizante da antropologia culturalista. Logo retrocedeu porém o modernismo como movimento ao “regionalismo”, prosa realista dos problemas localizados, o que só veio a ser questionado por um novo modernismo “concretista” cujo interesse de recuperar Oswald era porém tudo menos a retomada daquela elaboração.
24 O concretismo aqui pode ser o equivalente do “alto modernismo”, como se designa o “estilo internacional” que se estabilizou na Europa e Estados Unidos, como projeto de racionalização total, à Corbusier e Brasília, privilegiando a vertente desde o funcionalismo da Bauhaus ao abstracionismo geométrico. Mas não porque isso seria, ao contrário do primitivismo, utopia tecnizada do futuro, e sim como uma interpretação particular da gênese que deveria ser retomada para evitar a distopia histórica do permeio, um platonismo de fato.
25 Em todo caso, a alma do concretismo era a propaganda, a comunicação de massa, e a cibernética ocidentalista, distorcendo consideravelmente a teoria de MacLuhan, que condenou severamente os aparelhos de mídia elétrica como o fim da civilização. Ao ver de MacLuhan, a civilização, bem lacanianamente, havia sido o produto da generalização da linearidade do escrito, na invenção da reprodução impressa.
26 O que Deleuze considerou a polivocidade do signo pré-significante tribal, e por isso não “langue” propriamente, foi antes no concretismo interpretado como o que podia ser comodamente transposto à comunicação de massa. A deslinearização que MacLuhan condenou como o fator comum tanto aos mídia elétricos da atualidade como à barbárie anteriro à civilidade, os “concretistas” utilizaram referenciando-a ao que ele atribuíra, mas como se a atribuição fosse a algo positivo. Para Deleuze também, o cinema é uma regime pré-significante do signo, o “verbi-voco-visual” na designação da “polivocidade” pelos teóricos e poetas brasileiros do “concretismo”, os irmãos Campos e Pignatari. Assim jogo semiótico puro.
27 Escritor de obras que devem ser considerados mundos autônomos, porém como uma realidade imanente, expressamente “outra realidade” relativamente ao que é considerado um real unívoco universalmente representado, Luis Carlos de Morais Junior começa suas pesquisas em torno do concretismo. A pista oswaldiana dos “concretos” foi porém nesse início investida menos pela transposição midiática – e especialmente propagandista – em termos de celebração do mundo industrial, lembrando que Pignatari foi mestre em desenho industrial e incorporou propagandas conhecidas como exemplos de poesia concreta, como o neologismo “Lubrax 4” (nome do lubrificante brasileiro). E mais em função das possibilidades de pesquisa linguística ampliada, relacionando-se ao conhecimento antropológico mais desenvolvido nessa época, em que Darci Ribeiro entre outros despontava com realizações literárias inovadoras que se utilizaram da pesquisa antropológica de campo.
28 Em inícios dos anos oitenta, a aposta “concreta” de Luis soava polêmica, especialmente nos meios universitários de letras do Rio de Janeiro, mas ao contrário de um paulistismo filistino, tratava-se em Luís da alternativa ao realismo socialista prosaico que imperava na poesia, como especificamente o culto da esquerda a Afonso Romano de Santana. Mais recentemente Luis reabilitou Ferreira Goulart.
29 Nesse ínterim a influência do concretismo ficou minimizada pelo envolvimento com obras do fantástico latino americano, especialmente Carlos Castaneda, em conexão com a grande influência de Claudio Ulpiano, mestre em Deleuze no Brasil, transitando o seu interresse da letras à filosofia já em inícios dos anos noventa.
30 Desde aí também cultor da literatura clássica da alquimia, contudo Luís a considera incompatível com as leituras que a “interiorizam”, junguianas ou neoplatônicas. A sua vertente poética tem várias idades superpostas, mas assinala, na continuidade, a assimilação das possibilidades do fantástico naquilo que era já inicialmente, enquanto crítica da burguesia e verso esteticista, intenção de franquear as balizas da objetividade eivada de ideologia, nos rumos da inquirição do Real.
31 Vemos que a classificação dicotômica entre o subjetivismo e o objetivismo não cabe. É na captura da objetividade que o Real solicita o sujeito que lhe faça juz, demonstrando-se o Real como “outro” na realidade alternativa que se mostra e arrebata o discurso abrindo-o aos relatos desconexos dos milagres, ritos feiticeiros, conhecimentos alquímicos, tudo isso que por si só implica o enfrentamento dos gêneros dominantes na ciência, arte, filosofia ou senso comum. O terceiro mundo é mais do que a realidade situada geopolítica, é um status que atravessa as épocas históricas e as condições geográficas como o tesouro recalcado dos saberes e as confissões censuradas.
32 Seria compreensível que a trajetória poética de Luís aportasse na assunção da anti-literatura, como em “Poesia de Reciclagem”, e na utilização pelo poema de tudo o que é cotidiano e considerado de hábito o não poético, assim como vemos em seus livros-blog na Internet e nas mensagens provocadoras em face-book. Há muito boa prosa inédita, mas os já publicados “O Homem Secreto”, “Gigante” e “O meteorito dos homens ab-surdos”, são pertinentes à concepção anti-narrativa como a “bem armada bomba-relógio” que ela deve conter segundo Fernando Alegría, se visa atacar a cumplicidade com “a mentira aceita socialmente e venerada em vez da realidade”. Em virulência que “destampa a história como uma onda podre”, de fato podemos igualar a recente poesia invectiva de Luís à tonalidade que atinge Roque Dalton em “El Turno del Ofendido”, na exemplificação de Alegría. (p. 259) Algo que na história da literatura poderia ter como antecedente os angry young man ingleses, precedendo a prosa beat, e que espero ter renovado, com produções como “A Alma Pura” (2014), o “Palavrão” (2017) e outros, na Internet. após minha estréia “pós-moderna”, publicado pela Quártica”, o “Contos do Espelho” (2011), mas especialmente aportes autobiográficos elaborados em mistura com recursos fantásticos e non sense em meu “Contos da Musa Irada” (2011). Este porém inspirado na injunção homérica, “Canta-me ó musa, a ira...” .
33 Ao qual se seguiu o “Irado” de Claudio Carvalho, lançado em “sarau”, e, portanto, compreensivelmente sem motivos para se considerar tão “irado” assim – se em harmonia com o “sarau”, festinha oitoscentista das moçoilas afrancesadas, tão folcloricamente machadiano, que alguém deveria explicar porque motivo foi relançado repentinamente na “globalização”. Se não foi por emulação dos países do sudeste asiático que na globalização fizeram o retrocesso ao reinado, por aqui tendo se tornado de bom tom ser amigo de algum descendente de Petrópolis (onde ainda mora a “família real”), metonimizar o país como “praça da monarquia” melhor parceira dos latifundiários, etc. A propósito, Carvalho é parceiro de Luis, como também o historiador de Brasília, Cid Prado Vale, e mais autores citáveis com quem logra estabelecer parceria como algo de que Luis gosta particularmente, incursionando pela obra didática e reflexão de questões pedagógicas.
34 Mas, em Luis, a mentira veneranda não se limita aos fatos da dominação insidiosa que ele tanto contribui para denunciar. Abrange mais profundamente o que a permite ser definida como aquela degeneração do homem que é preciso transformar, e que se expressa na censura da “outra realidade”. Como na profecia de Otavio Paz, “em nossa época a crítica fundamenta a literatura”, logo, “A criação é crítica e a crítica, criação” (p. 265), a obra crítica de Luís envereda pela recriação alquímica do homem, como em “Alquimia, o magistério solar”, onde contudo aquilo de que se trata transcende a tradição europeia para integrar as falas do “novo mundo” e da nossa cultura corrente. Um neocondoreirismo que se deveria redesignar “petrelismo”, ao convir ele que não temos condor, mas sim o “petrel” como a visão da grande amplitude, o vôo da maior altura.
35 Prefaciei o “Poesia de Reciclagem”, a pedido de Luis, considerando a proposta em ressonância com a vertente pop do dadá, especialmente as concepções de Marcel Duchamp, que deslimitam os rótulos de época e nos apelam até hoje com a mensagem da transformação permanente. O que de tanto precisamos, para desfazer os obstáculos do menosprezo comparativista, de modo que aquilo que está à mão é já suficiente para uma nova festa, uma nova palavra que não apresenta porém nada além do remanejamento das coisas feitas. Se no primeiro mundo esperando-se que venham a se tornar pensáveis em seu assombro, na vertigem tecnológica que torna tudo, por incrível arrojado que seja, por pós-artístico que se apresente na sua perfeição de formas, quase que imediatamente obsoleto, aqui esperando-se que sejam pensadas, por uma vez que seja, como o que teve e tem um lugar e seu sentido na efetividade.
36 Mas devemos ressalvar que os modernistas da vanguarda pioneira se desinteressavam do vocabulário da “anti-arte”, que Breton criticou ao “Grand Jeau” da segunda geração surrealista. Meu interesse no prefácio foi mais de sublinhar a continuidade do dadá ao pop norte-americano, à contrapelo do predomínio surrealista que se estabeleceu entre ambos. Na crítica latino-americana o surrealismo era ainda a palavra de ordem, e no entanto Fernando Alegría permite precisar bem do que se trata na anti-arte pós-moderna, como de uma questão que não havia antes. O que podemos ajuntar que o Grand Jeau não antecipou na sua contradição entre recusa da arte e endeusamento dos cromos do passado. Esse algo é pois talhado às maravilhas para o que se depreende da prosa e poesia de Luís Carlos de Morais Junior.
37 O aporte anti-literário da América Latina recente, que abarca a geração poética da resistência à ditadura, não se define, conforme Alegría, como “mecanismo literário, nem um sistema narrativo, nem uma organização linguística... em troca, uma lenta explosão com muita poeira e coisas e seres no ar...” (p. 247) E “tudo voa” é bem um título de Luís para um quadro de sua criação, quando praticante de pintura. Ironia em velocidade, porém já na consciência que os anos oitenta integraram da ecologia, na era crítica da máquina.
38 Se Alegría se refere assim a autores como Lezama Lima e Juan Emar (“je em marre”), ele expressa: “o humor é insultante, excêntrico, de modo algum simbólico” - como também um tropo da anti-literatura que podemos atribuir. É na captação desse Real provocadora do sujeito adaptado por um simbólico em mutação, criticado porque não chega à liberdade prometida mas se recentra num discurso imperialista, totalizante do devir, se o Real multicultural aí não cabe, que Luís situa o excentramento da prosa oswaldiana.
39 Vemos em Oswald portanto algo que ressoa com Macedonio Fernandez, a quem Noé Jítrik referenciou como autor de Museo de la novela de la eterna”, “o livro que inaugura a grande mudança de orientação consciente da literatura latino-americana” do século XX. Anti-narrativa, a meu ver, algo que decorre da alteração do regime da construção da personagem, na concepção de Jítrik, que supõe ser demonstrável desde o pós-realismo de Horacio Quiroga. A narrativa torna-se função da personagem de modo que se ela muda, toda a estrutura narrativa se altera, mas as mudanças sucessivas compondo o substrato mutante do livro.
40 Em Macedonio Fernandez, é o autor que se coloca a questão de como criar a personagem sem partilhar com ela a característica que a singulariza, por exemplo a genialidade. Já a inexistência pode ser característica de personagens sem prejuízo da textualidade – porém a meu ver sendo necessário lembrar que esse expediente é já conhecido em Walpole, num dos contos do “livro das figuras hieroglíficas” Porém na prosa de Macedonio Fernandez, mais do que um expediente ficcional, trata-se de trazer ao plano do puramente imaginário a perquirição do mesmo problema. Se criar um personagem gênio é um limite para quem só tem a inteligência comum, mais geralmente, se toda criação é função das possibilidades do autor, “o que é criar personagens imaginários?” - pergunta-se Jítrik? A seu ver, Macedonio Fernandez permite colocar que “é seguir modelos também imaginários... que se encontram aí onde a imaginação lhes pode conceder uma forma, porém assim, a identificação autor-criação subsistindo, é de si mesmo que o autor tira “aquilo que ele mesmo tem de imaginário, sua substancia conjectural”, o que implica a mais profunda “recusa de toda imposiçaõ sobre o ser” e “afirmação da liberdade”, quanto a esta é a arte mesma da conjectura: “quantidade infinita de operações, desdobrar-se, dividir-se, reproduzir-se, projetar-se”.
41 A criação é transformação de si, logo, da inteligência do leitor, que faz agora bem mais do que o antigo receptor do realismo, este que apenas devia sofrer pela simpatia ética às vicissitudes da personagem, obviamente sem poder transformar-se nele ou mudar o que quer que seja. A transformação já se torna em ato na recepção da obra pós-realista, ela é feita na linguagem, porém não pelo arbitrário do signo ou da palavra de ordem. E o que Macedonio critica como a substância realista da personagem, Juan Carlos Oneti altera no mesmo rumo. As personagens mudam de identidade, e de apartamento no prédio, assim como de pensamentos. O autor tornou-se portanto função imanente do livro. Em vez de “autor” numa acepção do termo que poria o livro como coisa fabricada, o escritor se torna “organizador” (p. 224). Um tema a meu ver bem barthesiano conforme se pode verificar em “O rumor da língua”.
42 Luis Carlos de Morais Junior, cujo interesse na obra como transformação da consciência e nesse sentido alquimia, deslocando a mera simpatia externa à interioridade dos seres que se constituem na linguagem, recolhe as consequências do estilhaçamento da perspectiva sensório-motora e cronológica linear resultante dos recursos que Oswald introduziu na literatura, como a invenção do que ao ver de Luís se pode designar “'prosa cinematográfica': simultaneísmo, imagismo, cortes, montagens, closes, diferentes velocidades, dança imagística das palavras.” (olho do cíclope, p.23) A prosa cinematográfica forma porém mais do que apenas uma vaga analogia, um verdadeiro processo. A “cinematótica” dessa prosa só se realiza, como reza o título, como antropofagia literária, canibalização do intertexto.
43 Podemos notar aqui uma certa tensão na crítica pós-moderna, como eu designo aquela cujo horizonte temático já são obras que transcendem o horizonte do signo puro como aquele para o qual o modernismo assinalaria. A tensão reside entre a alquimia do autor e o intertexto. Que na pós-modernidade a relação do produtor com o escrito tornou questionável a noção puramente estrutural da autoria que Foucault elevara ao a priori do “não importa quem fala”, é fato histórico. Porém igualmente se pode considerar o intertexto operante como um princípio tão interno ao pós-modernismo que permitiu ao mais ambíguo e polimorfo dos cenários estéticos, onde tudo parece caber vindo de qualquer ponto do horizonte, parecer passível do retorno da teoria a uma “poética”, isto é, uma carta de princípio, como em Llinda Hutcheon.
44 Pode-se considerar que o intertexto está em nós? Mas são as operações permitidas na assimilação dele que transformam a consciência como ao possível. Como as podemos explicar? Se elas nem são o novo, posto que o intertexto preexiste ou continua a partir do preexistente, nem deixam de o ser, se até aqui os personagens não faziam mudar a narrativa quando mudavam, nem trocavam de indentidade ao mudar de pensamento.
45 Na vertente de Luís Carlos de Morais Junior como intérprete de Oswald, a utilização da teoria deleuziana do cinema ganha relevo, sem porém qualquer referência à parte do Cinema 2 relacionada ao cinema do terceiro mundo. Os insights deleuzianos só poderiam ser úteis a uma interpretação da prosa de Oswald como pós-realista, como teoria capaz de tangenciar o procedimento dessa mutação.
46 Como vimos, em Cinema 2 Deleuze resultou bastante ambíguo entre uma ou duas teorias do cinema. O cineasta do terceiro mundo deve inventar um povo como o autor de documentário do primeiro, porém o do terceiro é político na medida mesma em que somente nele não há um político discernível do ético. Em todo caso, o procedimento do terceiro não suscita o pensável do cristal, é memória fabuladora, porém não de um tempo puro, por não ter ficção possível. Como teoria do cinema, ele se reduziria ao caso do documentário, não o meio da veracidade, mas o limite da fabulação a um telos coletivo. Convem aqui a especulação. Não seria nesse ponto que se poderia encontrar algo como uma fórmula da exaustão da modernidade? Desde Lacan e Althusser e culminando no pós-estruturalismo, foi todo o pensável que se tornou legalidade, um regime. Por isso que a terminologia das “fases” já não servia, tornou-se necessária a das “funções”.
47 Porém tanto mais assim foi feito, tanto mais a legalidade tornou-se permeadora de tudo, menos se quis tirar a consequência, a nova universalidade enunciada do Estado. Pelo contrário, a modernidade se reificou ao ponto da máxima expressão do seu sintoma, a dicotomia do primitivo e do estatal, Geoegologia ocidentalista com mecanismo inversivo de defesa contra não o novo, mas sim o heterogêneo. No limite do pensamento modernista sobre o terceiro mundo apenas a coletividade, nenhum horizonte sem o fundo primitivo e promíscuo ao qual a forma é aquilo de que se carece e aquilo a que é preciso ascender - o que criticamos acima, justamente com vistas a uma teoria da inteligência. Não se vai da carência à potência sem que um preconceito sobre a carência tenha nascido na sobredeterminação da potência. O necessário é a restituição da positividade inerente ao que é efetivo. Como observasmos acima sobre a desdoberta de Piaget a propósito da sequência das aquisições, em que o número, não sendo inato, vem contudo antes da noção de mistura.
48 Nesse caso do cinema do terceiro mundo, para Deleuze, e isso mesmo ao contrário do documentário que lhe classifica como procedimento mas enquanto do primeiro mundo, ao que parece, “je” não é outro, é um si mesmo “menor” quando se trata de minorias como os judeus, ou “por vir” a partir de uma negação (o colonizador nega que haja um povo aqui).
49 Na interlocução de Luís porém, o conceito deleuziano que seria pertinente à prosa de Oswald, considerada na sua originalidade como convindo a uma análise do escopo cinematográfico mais do que o literário tradicional, visto que desnuda o procedimento de montagem que é o segredo por trás dos discursos, é o aplicado por Deleuze a Resnais ou Syberberg na citada entrevista a Bellour e Ewald. Esse trecho citado é importante a meu ver até porque enuncia uma concepção da arte de vídeo oposta a de Jameson, para quem as categorias da teoria do cinema não são aplicáveis a este.
50 Aí, inversamente, Deleuze afirma que inicialmente o vídeo ilustrou o que o cinema de arte faz ver, como o investimento dos dois autores citados, a saber, a ruptura não apenas com o limite sensório-motor dos movimentos, por onde os corpos tornam-se suportes de causalidades imanentes, autônomas, na sua evolução liberada no espaço. Mas ruptura também com o associacionismo que predisporia de fora o sentido do movimento evoluindo como o pensamento de alguém concatenadamente no tempo.
52 Em Cinema 2, é a “reversão” que permite, mesmo que a obra moderna entre numa ressonância com o cinema antigo, ainda assim definir-se inequivocamente. “... o cinema moderno pode entrar em contato com o antigo, e a distinção dos dois ser bem relativa. Todavia, ele se definirá idealmente por uma reversão que desencadeia a imagem, e faz o corte começar a valer por si mesmo. O corte, ou interstício entre duas séries de imagens, já não faz parte de uma série nem da outra; é o equivalente de um corte irracional, que determina as relações não-comensuráveis entre imagens”. (p.255)
53 Na entrevista citada por Luís, Deleuze repete a formulação dos “desencadeamentos por cortes irracionais”. Precisando agora que assim “uma imagem secreta do pensamento inspira pelos seus desenvolvimentos, bifurcações e mutações a necessidade constante de criar novos conceitos, não em função de um determinismo externo mas em função de um devir que leva consigo os problemas próprios ”. (o olho do cíclope, p. 24, inverti a expressão “próprios problemas”, para enfatizar que são os problemas inernos ao devir, não os que o determinam como produto do meio).
54 Mas assim Deleuze apenas ampliou, fazendo recuar até o cinema, o juízo de Jameson em seu artigo "La lecture sans l'interpretation; le postmodernisme et le texte vidéo" (1988) sobre a arte do vídeo, como arte nova, isto é, na sua classificação, pós-moderna. Uma esquizofrenia generalizada. Certo, Jameson e Deleuze não tem da esquizofrenia a mesma imagem, pois se Jameson concebe que se trata do signo absoluto, ele deplora que só se consiga uma tal hiperestesia ao preço da incapacidade de se situar num tempo linear que seria o proveitoso para nós mesmos, sujeitos que planejam o futuro mesmo que no tempo da contingência, e por isso mesmo; mas sobretudo seres que podem conceder sentido ao passado pelo seu devir.
55 Assim a questão do inconsciente, psicanalítico fora do tempo ou pós-estrutural de um passado puro, torna-se a decisão sobre a temporalidade mesma. A gênese na psicanálise à Jameson parece ser da consciência situada em seu presente, em que as ligações pertinentes podem ser feitas. O contrário esquizofrênico não é que não subsista, mas que não resulta apenas na hiperestesia que a dominação midiática ou polívoca explora, resultando no sofrimento de um psiquismo que não consegue atribuir sentido à experiência própria. Jameson cita o relato de um delírio esquizofrênico. A pessoa subitamente começa a ver as coisas à volta sem relação umas com as outras, ouve colegiais cantando, mas sem que o canto se integre coerentemente à recepção, a pessoa põe-se a chorar convulsivamente.
56 De fato os textos da esquizoanálise deleuze-guattariana tendem a mascarar completamente que os esquizofrênicos e outros portadores de síndromes que se tentam classificar na medicina, não foram forçados à medicalização, mas voluntariamente a quiseram, queixando-se do sofrimento. Eu li primeiro o artigo sobre o “homem dos lobos” em Mille Plateaux, e a primeira impressão que tive foi que se tratava de um garotinho que gostava muito de lobos, a quem os pais obrigaram a ir ter com Freud para o reprimir por essa esquisitice. Mas depois li o artigo de Freud... Como se sabe, bem inversamente, se trata de um rapaz que se queixa de sofrimentos neuróticos e somatização por problemas digestivos, e que na infância tinha fobia de lobos.
57 Jameson define a esquizofrenia pós-moderna – e a pós-modernidade já sendo a lógica cultural do capitalismo tardio - como o modus operandi da mídia que se limita a repetição de “logos”, imagens que são formuladas conforme o paradigma de marcas comerciais. Os logos midiáticos não remetem a nada fora deles, como slogans concretos, que também não são mensagens com sentido ulterior à própria circulação na mídia. O sentido do logo se reduz a estar sendo circulado midiaticamente. Porém é difícil manter esse juízo a propósito do exemplo princeps de Jameson, o vídeo de arte intitulado AlieNation (Edward Bankus, John Manning e Barbara Lathan), que me parece singularmente influenciado pelo “balé mecânico” de Leger, clássico da vanguarda modernista. O vídeo nem me parece pós-moderno, e sim tipicamente “pop”.
58 Ora, o que me parece pós-moderno, bem inversamente ao a priori da imagem limitada à repetição do circulado na mídia, é a percepção de que há, sim, um procedimento de repetição na arte, mas como o estilizou expressamente o “historicismo” como um dos movimentos pioneiramente designados pós-modernos. Ou seja, a repetição das linguagens estéticas não incide sobre nada fora da “história da arte” como mero atributo do que foram problematizações “estéticas”. Isto é, como um termo para designar o que não tem de fato um designativo comum, ao contrário do que faz supor a palavra “arte”. Até mesmo a História desnarrativizada, anti-narrativa, torna-se o problema do seu texto, historiografia. O pensamento não abstraído dos seus conteúdos, mas os conteúdos não abstraídos do seu caráter intertextualizado, histórico.
59 Assim também Luís o modulou sutilmente relacionando-o a Oswald, mesmo se na aparência convergindo com o deleuziano problema do pensamento puro: “Oswald cria e povoa sua obra com esta criação: a máquina-imagem textual, que é desterritorializada, descentralizadora”. Aqui a oposição dos meios, entre o que solicita muito ou pouco o receptor, se desconstroi: “Ela projeta sua luz de cinema na pele do leitor como se esta fosse o écran, tatuando-a caleidoscopicamente com imagens e cores que dançam, com fusões, fades, plongées, etc. - uma textualidade de cortes, fragmentos, superposições e montagens- agenciamento maquínico leitor/texo que produz o cinema invisível” que seria o dessa literatura”.
60 Com efeito, podemos observar que o procedimento por cortes não associativos abrange o próprio tratamento da parole dos personagens, que Oswald não homogeneíza a partir da questão de um português brasileiro. Mas, bem inversamente, pluraliza na mímese dos n aportuguesamentos imigrantes. A oposição deleuziana de Cinema 2, entre o não-associativo do primeiro mundo como ficcionalidade moderna, e o documentário do terceiro mundo como intertexto cartilhesco do povo por inventar, se desfaz.
61 É na linguagem que a prosa é feita, assim como a imagem. A linguagem não é algo que falta, nem algo oponível ao que seria conotável como “povo”. Aqui também parece-me inverter a suposição que li num artigo na internet, sobre que, para Italo Calvino, o escritor desenvolve a prosa a partir de cenas imaginadas, assim a literatura seria redutível ao cinema por isso que as cenas seriam redutíveis à sucessão como de fotos seriadas. Bem inversamente ao que supôs o autor do artigo, citando Nohl, onde um homem que acorda vê o mundo de um modo quase-onírico, a galinha com cores hiperestimuladas, tendendo a continuar dormindo, até levantar-se mas embrulhando-se num lençol, a literatura não faz sequência prototípica da série de ações sucessivas. Inversamente, vemos bem o retorno ambíguo, a quebra da temporalidade cronológica num estado semi-inconsciente, entre os mundos da vigília e do sonho. Seria um cinema bem vulgar aquele que se limitasse a “fotogramas” sem a montagem como locus da produção. Mas assim a montagem problematiza-se como a linguagem em que a consciência se organiza. O que o estudo de Luís enseja conceituar.
62 A razão pela qual considero Derrida mais pertinente ao pós-modernismo, é sua posição contra qualquer idealização de uma escritura em geral. Isto é, a contradição do que seria um conhecimento do que é qualquer escrita, independente de como se a escreve efetivamente. As escritas não lineares, ao contrário da posição leibniziana ou logocêntrica, não são definíveis como meios indiretos da mesma coisa obtida diretamente pela escrita linear. Sendo essa coisa o significado que prescinde da escrita.
63 Como não há significado que não seja operação do significante (escrita), uma escrita não se compreende sem que se a tenha decifrado. A escrita é o significado possível, não existe a escrita definível generalizada como mero expediente na carência da coisa ao mesmo tempo o ideal significado. A generalização é já a ideia logocêntrica da linguagem, na qual a escrita é secundária relativamente à fala que por sua vez apenas transmite o ideal, o significado que está ao mesmo tempo no mundo e na alma. A definição logocêntrica da linguagem é pois a mais-valia do recalque primário. Não apenas a sublimação via signo, pelo contrário, o recalque do signo, como da materialidade, a cena platônico-egípcia da expulsão da escrita pelo bem da memória, no Fedro. A cena originária da metafísica ocidental.
64 Mesmo que Derrida tenha errado na sua crônica da decifração, a sua gesta da autocompreensão gramatológica ocidental que, assim, é e só podia ser a única universal. Segundo a qual a descoberta de escritas não lineares foi muito tempo apenas correlato da metafísica da língua em geral. Os povos não ocidentais não são todos etnocêntricos, ao contrário do que Derrida pensava ainda. Assim não dependeu do Ocidente ter vindo à idade da decifração para que a evolução psicossocial ante-etnocêntrica se propagasse desde a ciência ocidental. Nem a ideia europeia de decifrar esperou o século XIX, tanto que o maia foi decifrado recentemente utilizando-se os especialistas das tentativas do jesuíta que o recolheu e traduziu na era colonial. A meu ver, sobretudo, não há a história logocêntrica única como “o” ocidente, um regime de inteligibilidade idealista que porém foi o erro que conduziu ao acerto gramatológico. A unidade do ocidente como regime de signo é fantasiosa, é o que o próprio ocidente como desejo imperialista projeta, a partir porém de se opor ao “primitivo” como “um” x opõe-se a “um” y.
65 Em todo caso, vemos que algo é coincidente, entre Jameson e Deleuze. Para ambos a questão do homem é o planejamento, a previsão, e quanto a isso realmente Jameson não alcança a possibilidade da planificação além da cronologia contraditória, cultura que se interpreta como natureza. O planejamento é o de uma visão de mundo mais do que de qualquer agenda aí possível. O ponto de ultrapassagem deleuziano se encontra em Cinema 2: “Como em Eu te amo, eu te amo, há volta à mesma imagem, mas tomada numa série nova... já não há cortes racionais, apenas irracionais”, porém não no sentido do aleatório, e sim por ruptura com um conceito determinado de razão: “Já não há portanto asociação por metáfora ou metonímia, mas re-encadeamento sobre a imagem literal”.
66 Em vez de encadeamentos de imagens associadas como uma imagem depois da outra, operam-se reencadeamentos de imagens independentes como uma imagem mais outra, conforme “toda uma nova rítimica, e um cinema serial ou atonal, uma nova concepção da montagem”. (p. 255, 256)
67 A montagem de signos – “opsignos” e “sonsignos”, de imagens óticas e sonoras puras, até o “cronosigno”, imagem do tempo puro - desloca a noção de concatenação de ideias reflexivas de fatos, porém o que Deleuze não avança é até o que permitiria romper com o aleatório. Se fosse apenas o planejamento como memória virtual, regime de signo, função do passado puro, teríamos novamente a idealidade, a generalidade. E se o ultrapassamos é somente segundo a iterabilidade de alguma escrita, como em Derrida, mas tornando-se um princípio textual. Ou seja, não restando a aporia que creio bem discernível no Limited Inc. - entre a “iterabilidade” como autonomia pura, o proferimento da língua a repetir-se num vazio sem destinatário, na abstração de todo interlocutor, e o contexto sempre situado e povoado como meio da recepção. Como porém se pode pensar o texto iterável como pura forma da lei de sua leitura, se o contexto é em que a leitura ocorre e que, como Derrida mesmo concede, é sempre o mutável histórico e a função dos seus receptores? É interessante que Derrida não tenha se ocupado do problema do Etrusco, que está decifrado quanto à letra, porém não se consegue entender a língua porque as mensagens não se concatenam com qualquer contexto conhecido. Assim nem se decide bem se podemos considerar realmente “decifrado”.
6 ) “Cinematótica” : A tese do Matriarcado
1 Como podemos considerar desde o que vimos sobre as questões da Escrita, o texto encerra a problemática do seu intertexto, as mensagens plurais com que dialoga, e, no limite, todos os textos da História. Somente uma historiografia.
2 Como Luís colocou em função de um contraste possível entre Lyotard e Habermas, como visões da história. Para aquele, ela se torna pós-moderna “sempre multipliando sentidos, montados e relidos, refeitos, eterna decupagem de leituras sobre leituras, todas políticas, cheias de vetores de força com sentido e direção, mas plurais, onde falam as minorias e as margens”. Ao contrário do limite idealista da história para Habermas, “como um todo significativo, texto privilegiado que determina o sentido e a direção dos movimentos sociais segundo parâmetros pré-estabelecidos, que valeriam sempre, mesmo quando investidos pelo movimento (aparente) da dialética”. Se bem que “O Pós-moderno” de Lyotard, não obstante o nome, se mantenha apenas pós-estrutural, como demonstra o caráter ainda autoritário modernista, pretendendo impor contratos pré-definidos “ temporários” de relações familiares, isto é, ao que parece, conjugais.
3 Ora, o interesse da leitura de Luís é fazer ver que são “os dois processos” que “atuam por montagem: em um caso, montagens plurais, coletivas, em que várias forças diferentes se expressam. No outro caso uma montagem ideal, que faz calar as vozes (aparentemente ou não) dissonantes”. (p. 23) Porém expressamente, impede-se solver a distinção de cinema, literatura e teatro, mas sim considerar o híbridos possíveis, os paradoxos. Como o capítulo 5 desenvolve a partir do que seriam experiências relacionáveis à prosa cinematográfica de Oswald de Andrade a exemplo dos textos de Glauber Rocha. Ou os filmes de Julio Brassane. Tabu, que encena o encontro de Oswald e Lamartine Babo, e O Mandarim, que recria a musicalidade das obras do cantor Mario Reis.
4 A intertextualidade inter-gêneros é nesse caso criadora da riqueza expressiva. Assim também na música haveria a conotação do “Cinema Falado”, conforme o título do filme de Caetano Veloso, e o problema crítico do tropicalismo como um movimento de música popular que no entanto veicula-se por meio de questionamentos em filosofia, estética e política. Eis o inusitado problema do compositor, sua ex-centricidade - ao mesmo tempo popular e intelectual. O que abrange o anti-teatro, retroagindo a Qorpo Santo e o que seria um movimento de transformação da própria ciência numa linha de indiscernibilidade não tanto ao ocultismo como à potencializadora science-fiction, lembrando que entre tais brasileiros perseguidos como loucos, bruxos ou hereges estavam inventores de aeroplanos, de transmissores de ondas e de televisão. (p. 147)
5 A antropofagia como proposta estética do modernismo desde Oswald, mas cujos caminhos na trajetória cultural local não se limitam à influência direta, é portanto montagem de um outro pensamento, cuja vocação é um outro real, em que as antíteses não são sobrepassadas. Por um lado, há síntese, mas numa dialética que não seria da idealidade, nem de qualquer factualidade pré-significada, nem mesmo do signo residual à montagem. A dialética resolve-se na “asimilação” (“antropofagia” cultural), que implica não apenas devorar, incorporar, mas também aproveitar, transformar em funções renovadoras do dado.
6 Por outro lado, é a especificidade das antíteses de que se tratam na trajetória enquanto local, o terceiro mundo em questão, que impedem a síntese nos sentidos conhecidos do termo, sendo elas “insolúveis” e “sempre as mesmas” como de “atraso e progresso, de modernidade e arcaísmo”. (p. 155) Porém a oposição em si da trajetória local por relação a de um outro mundo, não é dicotômica. Mesmo que a assimilação renovadora, a originalidade historicizada-textualizada como eu colocaria, seja por isso mais do que apenas o que aprendemos da invenção oswaldiana, um traço que passa a ser característico da produção local quando é qualificada, não se fez enquanto nosso “modernismo' – ou a qualificação – a definição de alguma totalidade. Mas sim só da “antropofagia” como work in progress que não se fecha, não tem o fechamento em si, sendo interlocução permanente.
7 Assim em O Olho do Cíclope parece haver a proposição do problema ser positivamente insolúvel. Não há duas realidades opostas, como do cinema de terceiro e primeiro mundos – de fato como já estudamos, trata-se da vidência do outro real em todo caso, na concepção de Luís. Não há duas inteligibilidades, dois procedimentos, mas sempre o mesmo pós-modernismo, a mesma montagem contrária à do idealismo censório, homogeneizante. Mas a “antropofagia” é uma vocação de interlocução situada, se não sobredeterminada pela ideologia do modelo e da cópia. Aqui, ao contrário do comum, é a pobreza que é artificial, é a riqueza o natural (p. 154).
8 O tropicalismo funciona como uma espécie de comutor da “antropofagia” cultural nessa problemática da trajetória das produções culturais brasileiras até a atualidade, definindo-se na região do problemático antes que do hipotético, do temático antes que do tético, em torno do seu processo mesmo como questão.
9 É o fio vermelho da metodologia crítica literária que vemos poder continuar em “Crisólogo”, o livro de Morais Junior sobre Caetano Veloso, mas que desenvolve pesquisa ampla sobre o movimento tropicalista integrando-o na trajetória da cultura.
10 O título “O olho do ciclope e os novos antropófagos” é assim importante considerar quanto a esse complemento que acresce algo “novo”. Polissemia fecunda, a leitura do livro permite descobrir o recurso in progress de um sentido atribuível. Com a assimilação do heterogêneo – isso que se define como antropofagia (cultural) - por vocação do que assim se assume como cultura formativa local, na particularidade das raízes definida desde o inconsciente poliândrico aborígine até a regra da miscigenação mais plural, os “novos antropófagos” serão sempre vindos, nunca deixarão de existir, mesmo que não vindos, na acepção de ter havido o consenso do nome. E também sendo o que a teoria está criando como a realidade em torno da lenda, do desejo da afirmação da cultura nacional.
11 Torna-se pois a expressão, não tanto um qualificativo da ipseidade do novo enquanto tal, bem mais a autoposição da recepção que é preciso para que ele sempre exista, um horizonte de cultura efetivo, não dominado, não ignorado. Mas também a questão posta pela obra de Oswald é sem dúvida aí conotada. O paradoxo do novo dessa cultura que é produto da sua interlocução - “canibalização” , vem a ser o que se descobre, tanto o porvir como o recalcado da história. Esse teria sido o caminho aberto pelo modernismo oswaldiano, decerto não para esgotar-se nele enquanto obra definida no tempo, mas como senda, como autocompreensão da cultura que assim se posiciona justamente o contrário de um modelo, mas horizonte produtivo.
12 Com esse sentido, o livro de Luís Carlos de Morais Junior resulta um catálogo valiosíssimo do que tem sido produzido na história e recalcado pelos podres poderes da dominação cultural imperialista. Mostra muitos referenciais, informação histórica notável, mas também a sua “intercomunicação”, tendo sabido entretecer os autores referenciais da produção e os da reflexão crítica.
13 A importância de ressaltar a funcionalidade do título valeria portanto por si em qualquer leitura que se propusesse pertinente, porém é mais necessária ainda pelo fato desse livro, um marco histórico na recepção de Oswald, pioneiro numa síntese metodológica adequada ao tratamento da informação cultural local, e catálogo histórico de riqueza notável, ter sido rejeitado para publicação em escala nacional pela comissão julgadora da USP (2014). Aquela mesma instituição que vimos ser saudada pela pérola da dominação cultural produzida por Arantes, como “departamento francês de ultramar”, só que sem mencionar que sustentada pelos impostos extorquidos aos brasileiros, para funcionar como achincalhe do que estes produziram na história e continuam produzindo marginalizados no próprio país, reprovados na própria língua.
14 Pois em meio a outros erros grosseiros da comissão julgadora, como o óbice de não ser definível conceitualmente o étimo “dialética”, pelo pressuposto absconso dela não ser conceito mas uma lógica – como se pudesse ser um sem o outro - a carta da rejeição se insurgia contra o mesmo título, sob o pretexto de que não apresentava o livro nenhum “novo antropófago”. O erro é gritante como interpretação do termo “novo”, que não significa necessariamente o que está sendo produzido hoje, ao contrário do que parece ter sido considerado, mas poderia abranger produções posteriores à do próprio Oswald, como o tropicalismo, profissionais cujas produções pertencem à atualidade e inspiram teses e estudos publicados – como o próprio que se apresentou ao julgamento, e até este evidentemente de “hoje”. Ou o que está sendo pioneiramente assim rotulado, como Qorpo Santo, etc. Porém há muito mais.
15 É algo comezinho que a comissão não apenas cometeu o erro crasso, como deu provas de ser totalmente medíocre, inadequada à função de aprovar livros originais para atualização do cânon, pois se colocou como se julgando algum questionário ou resenha que devesse reproduzir algum texto já fornecido. A incúria da comissão era assim tão aguda, que a carta acusava não ter havido atribuição da origem autoral do conceito de “cinematótica” - que é justamente o conceito produzido por Luís Carlos de Morais Junior no livro apresentado, introduzido à recepção pelo seu livro mesmo, aí explicado o conteúdo proposto como adequado à invenção descoberta na prosa de Oswald de Andrade. Assim portanto o estudo cabendona história da recepção dessa prosa na crítica literária nacional, que viria, nos anos noventa, após o que havia sido alcançado na obra de Maria de Lourdes Eleutério, boa cobertura crítica e de resgate de superações históricas importantes, porém limitada pelo critério de anterioridade ao que se tornou possível pela interlocução do pós-estruturalismo.
16 Não se trata particularmente quanto a isso, de canonizar o pós-estruturalismo como a verdade num terreno em que como o próprio Deleuze expressou, besteira é querer conclusão, mas sim de registrar o documento da interlocução pós-estrutural na crítica literária brasileira, documento que iria mostrar se a utilização revela apenas cópia, aplicação, ou bem inversamente aporte que permitiu localizar questionamentos, descobrir problemas e conceitos novos.
17 Assim também podemos considerar o Crisólogo um novo momento da recepção do tropicalismo, em que Luís libera também catálogo importante de produções e crítica. Quanto ao tropicalismo, já vem canonizado nas antologias escolares como a “transvanguarda” nacional, artistas que desde os sixties pontuaram a resistência à ditadura imperialista, o momento do trauma do genocídio continental perpetrado pelo capitalismo neonazista imperialista.
18 Nas ingenuidades desse período ainda se acreditava na modernização capitalista como dialética do proletariado – sem visibilidade ainda para o capitalismo como aqui vim conceituar, assimetria internacional do capital, banditismo imperialista – e a presença do concretismo na era da transvanguarda, modulando-se nos “popcretos” o atesta suficientemente a meu ver. Porém por outro lado a condição da marginalizado tendo emergido no “simbólico” como se poderia expressar com Lacan - isto é, em nível de legalidade instituída – pela suspensão dos direitos civis e instituição de censura federal sobre publicações circulantes, etc., teria que ter havido o estranhamento do canal na própria cultura que por ele se devia difundir.
19 Não só como conteúdo refletido especialmente nas artes plásticas, a contaminação do canal resultou na exploração de canais alternativos como na poesia do mimeógrafo, e, se a questão parece inadequada ao tropicalismo por ter se propagado principalmente como produção musical de mass midia, na verdade o pop internacional nessa época estava podendo integrar estratégias disruptoras no seio mesmo do sistema midiático. A propósito minha opinião sendo assim também inversa à de Jameson para eventos como o AlieNation.
20 Já vimos que muita crítica histórica efetiva estava sendo feita contra o big business de mídia, o que pode ter resultado numa qualificação defensiva, de modo que o contraste entre o discurso de mídia da era pop do Welfare State keynesiano e do neoliberalismo econômico de Friedman é tão óbvio como o contraste da legislação de um país democrático com a de um país nazista.
21 Mas também devemos equacionar o interesse norte-americano na propaganda do capitalismo como meio de liberdade, o “mundo livre” assim frontalmente oponível ao que seria o meio ditatorial soviético - ainda que aqui, esquizofrenicamente, tal propaganda corrente num meio instituído militar-ditatorial.
22 Seja como for, na altura dos anos oitenta como Stuart Hall demonstrou para o tatcherismo inglês, tal via da intervenção “pop” nos meios de mídia foi cortada de modo ostensivo pela ingerência do neoliberalismo econômico visando obter prerrogativas empresariais de domínio sobre a vida privada, manipulação das consciências por procedimentos de contra-informação generalizados, formatação das subjetividades pela dominação identitária na mídia e pelo açambarcamento das instituições de governo pelo capital, o que desde os anos noventa com a revolução micro-informática implica domínio hediondo sobre os processos mesmos de escrita e leitura, etc.
23 Mas assim o tropicalismo pode ser hoje visado na época do seu rise como uma modalidade da intervenção pop contra dominação cultural na mídia, resultando desse modo porém, devido à sua inserção na trajetória local, não tanto o procedimento recorrente nos Estados Unidos, de reinterpretação dos signos da mídia em objetos parciais do desejo em vez de como eram veiculados, na ambiguidade entre o dever ser dos rituais socialmente consagrados e a glorificação do narcisismo hedonista do consumo. Se bem que haja investimentos similares como o “Objeto de sedução”, de Lygia Pape, um manequim comercial de sutiã, mas assim já mesclando-se ao questionamento da feminilidade em função de construto mercatorial, um tema muito desenvolvido nas artes plásticas pós-modernas.
24 O tropicalismo especialmente investiu na reinterpretação dos signos das raízes culturais recalcadas na história, e contra o que estava integrado todo o aparelho da censura ditatorial visando homogeneizar a ideologia da técnica como simulacro da cultura viva e do potencial pensante. Creio que a tropicália seria por isso mais aproximável à geração beat nos Estados Unidos, mas não por qualquer fator de atraso, já que quanto aos meios da realização utilizou-se dos mesmos aparatos com que puderam contar os movimentos pop àquela altura – e também com as mesmas recusas dos aparatos, como nos naturalismos e hippismos espiritualistas que então se propagavam paralelamente aos investimentos da música pelo big business.
25 Mas assim seria improfícuo definir uma posição política – ou inversamente, “ideológica” – da era pop internacional ou do tropicalismo local. Certamente não estava homogeneizada pela teleologia revolucionária sovieticista, mas nem era o caso pela própria conjuntura ditatorial, além de estar o telos revolucionário já enriquecido pela heterogeneidade situada.
26 O maoísmo impulsionou o “pop” francês no bojo do qual aconteceu o maio de 68, modulações culturais da luta de classes eram necessárias pelos movimentos de libertação nacional nos países dominados pelo imperialismo, enquanto na América a contestação da consciência autoritária unia os black panthers, os protestos contra a guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis. Este último se provou realmente duradouro e é em que podemos apostar agora como o horizonte do futuro político que porém já está integrando o Estado como o locus coerente da legalidade não ditatorialmente conspurcada, abarcando as questões do gênero sexual tanto como da qualidade de vida isenta de dominação desigual do status, e questões da ecologia.
27 A transformação da autoconsciência que vem se encaminhando desde a era pop e o civil rights movement é muito mais abrangente do que apenas a conscientização do conflito de classe como podemos observar. O próprio nacionalismo vem se afirmando como um fator necessário, obviamente, na decorrência da recolonização pela globalização micro-informática-midiática, ao contrário do leitmotiv dos blocos econômicos e neoliberalismo cartelizado. Mas como demonstra o locus da “antropofagia cultural” que Luís Carlos de Morais Junior soube desenvolver entre O olho do cíclope e o Crisólogo, nos anos noventa, trata-se de um conceito de cultura nacional heterogêneo e como potencial de interlocução planetária favorecido pela ampliação dos meios de intercomunicação contextual e linguística com que hoje podemos contar.
28 A nacionalidade, como venho afirmando, é já sem muita controvérsia definível como o horizonte da constituição em função da salvaguarda legal dos direitos civis, e, assim, não sendo redutível a qualquer fantasia de um referencial da ordem acima da cultura que localmente podemos compreender, está porém consciente de coexisistir geopoliticamente, num contexto inter-nacional e planetário.
29 O odioso utilitarismo – na forma como tem sido praticado, de pseudo evidências por via de suposta coação de fatos porém nada além de inteiramente fictícios integrando casos imaginários – que tem permeado a burrice grotesca dos ideólogos da globalização, se limita a projetar um futuro no qual não haveria nada além da linguagem de mídia internacionalizada como únicos veículos materiais de comunicação, obtendo-se cavilosamente a refutação do nacionalismo constitucional. Como sempre acontece com as falácias que o “utilitarismo” inventa, também essa é um círculo vicioso que se baseia na projeção de um estado de coisas futuro cuja existência porém só se viabilizaria se as determinantes fossem a opção histórica dos povos nesse ínterim, o que bem ao contrário, é exatamente o que está em questão. E isso para apenas tangenciar politicamente o assunto, quando na verdade são inúmeros fatores que permitem afirmar como o mais duvidosa a ingerência capitalística do futuro, uma vez que psicoticamente os defensores dela esquecem que a ecologia não o permitirá – além dos inúmeros fatores de acaso que podem igualmente determinar repentinamente não só o fim do capitalismo como do planeta, etc.
30 Num desses “estudos de caso” funcionando como exercício em universidade, de fato minha primeira aula do nível superior, informava-se a situação da guerra nuclear. Os únicos sobreviventes teriam que escolher entre elementos que tentavam entrar no abrigo, sabendo-se que da escolha dependeria o futuro da humanidade desde o pequeno núcleo sobrevivente. Lá fora estavam pois um ladrão, um homossexual, um homem e uma mulher normais. A tarefa era escolher quem devia ser salvo e justificar. Porém ao contrário do que a paralogia travestida de lógica coercitiva pretende, é nítido que a escolha entre o homossexual e o heterossexual procriativo como limite entre o haver ou não da humanidade futura só existia decorrente de uma guerra que provavelmente não ocorrerá se atitudes de preconceito nazista como este mesmo “estudo de caso” que se estava fazendo na aula de administração de empresas deixarem de serem praticados.
31 Soube recentemente que está circulando na internet o argumento “utilitarista” de um tal de Singer que consideram escandalosamente polêmico, de que há prioridade atribuível no salvamento de vidas em caso de incêndio, entre a filha de um comerciante e um diplomata, pois este tem utilidade social. Porém o argumento é obviamente circular ao invés de ser a lógica personificada, posto que a sociedade para quem o diplomata como tal é útil é justamente o conjunto de pessoas integrado pela filha do comerciante. Isso sem falar na paralogia dos futuros contingentes – sobre que até Aristóteles suspendeu o princípio de não contradição – pois não sabemos se o diplomata enquanto profissional será sempre honesto e não pernicioso à sociedade enquanto pessoa privada ou no desempenho da profissão, ou se a filha do comerciante não se tornará diplomata honesta amanhã. A referência a propósito consta no artigo “Singer”, de Lori Gruen ( em “Filósofos Modernos”, organizado por Belshaw e Kemp, São Paulo, Artmed, 2010).
32 De fato a mídia tem uma predileção por não parecer que está vendendo propaganda e programação – como se filmes de mídia não fossem mercadoria e ideologia patrocinada, mas sim o curso da moralidade encarnada, aquela providencialmente de mão única, porém, como se tratasse de natureza em vez de cultura, da necessidade imutável em vez da pluralidade das perspectivas. Um tema de crítica muito praticado nos estudos culturais norte-americanos que tematizam produtos de mídia, como letras de música do rádio; porém no Brasil sendo ao contrário, os “estudos culturais”, como eu soube da UFRJ, invadiram a universidade para alcandorar a mídia mais reduzida à ideologia que já se teve notícia, principalmente quanto à forma, a identidade do “popular” só passando como da pior basbaquice simplória, que é a única patrocinada pela indústria na “globalização”, os “estudos culturais” sendo foco do projeto de censurar a utilização de produções letradas como intertexto de livros escolares ou objeto de estudos universitários sobre produções culturais.
33 A televisão estava mostrando ontem um filme em que três moças fazem várias violências ilegais como formas de abuso contra uma quarta que estava para se casar, por que segundo elas essa moça não amava o noivo, que seria feliz porém com a amiga delas que o amava – maquiavelismo nepotista, que porém era tratado no filme como a perfeição da moralidade. Aliás o “argumento” de que só está certo o que se faz para os amigos – como se não fosse justamente isso agir somente por interesse próprio - é cinismo que tem sido universal na mídia, o que se repete como axioma da moralidade.
34 O filme sempre estereotipando a noiva como “a” antissocial antipática aos demais, como aos caixeiros que a tratavam mal porém o defeito dela era perceber isso e reagir com veemência, a cena principal era entretanto as três atacantes na delegacia, devido os abusos violentos aos direitos humanos que praticaram, o que a noiva lograra provar .
35 Mas segundo o roteiro, as atacantes protagonistas devendo conduzir os agentes da lei à cumplicidade com elas porque do contrário estariam sendo indiferentes ao “amor” - o motivo pelo qual estavam agindo para evitar o casamento iminente. Eis o mais irritante, o cinismo total. Maquiavelismo de pacotilha, os fins justificam os meios, travestido porém de cor de rosa consciência pura das mocinhas angelicais.
36 Nem na cabeça de anta do filme cabe o que poderia acontecer depois do casamento, como o marido conseguir fazer a mulher o amar, ou se ele casasse com a outra a quem não queria, ela podendo deixar de o amar, ou mesmo o casamento como realização do desejo sexual do homem, que era pela noiva, seja lá por que motivos dele ou por quanto tempo iria durar. Mas como nos contos de fadas, o que acontece depois do casamento, e a satisfação sexual sexual como o motivo pelo qual as pessoas costumam se casar são impensáveis, a estorinha só vai até o “sim” no altar.
37 Mas pode ser que, assim colocadas as coisas, seja essa mesma a mensagem que a propaganda da consciência podre desejasse passar. Estão censurando o “sexo”, estão reduzindo as relações humanas ao ascetismo, “somos da igreja”. O que não perceberam é que já ninguém razoavelmente informado deixa de saber que o que estão fazendo é prazeirosa canalhice, sádico-anal = sexual, mais geralmente todo prazer é função da libido, e que, inversamente , a realização dos desejos pessoais sem prejuízo da constituição legal que protege os direitos humanos é prazer saudável. É sem dúvida que a modinha midiática norte-americana do bacana ilegal – após a moda da mocinha que gozava ao torturar o traficante latino -americano, no final dos anos noventa - está totalmente convergente com o achincalhe da constituição – isto é, da nacionalidade – feita às expensas da bíblia, como já reportei estar acontecendo até agora impunemente por campanha de pastor protestante populista no Rio de Janeiro.
38 Esse filme dos anjinhos maquiavélicos foi apresentado ontem na televisão, e a sessão da tarde da Globo é o que se vê em todas as lojas da cidade, o suposto guia de conduta das adolescentes, etc. Escusado observar que não assisto televisão desde que constatei o nazismo do neoliberalismo econômico, porém tive que assistir à cena da delegacia, porque estava numa loja e não havia para onde olhar porque a tela enorme se projetava à frente dos assentos obrigatórios de espera.
39 Os esforços da câmera para obter o tom da sinceridade arquetípica dos anjos de candura maquiavélica era notável, e assisti até quando o policial, que logo se tornou paquerado por uma delas, concordava que ela tinha “acertado” ao convir que ele a estava escutando por causa da denúncia da acusadora, e por isso a polícia descobrira os abusos que vinha praticando. Ser “certo” , em vez de ser o desejado, em se tratando porém de um casamento, e, justamente, de amor, eis a “moral” da estorinha cínica. E depois de ser atendida nessa loja, tendo que visitar várias, eis os mesmos três vestidinhos longos cor de rosa metálico fragmentados em instantâneos por toda parte, exceto se tivéssemos a sorte de estar nos comerciais.
40 Como vemos, os estudos culturais como crítica do discurso “ideológico” nos mass midia vem após a pop art que em muitos exemplos pode ser visada como desconstrução dele. Porém na ambientação da resistência à ditadura, o sovieticismo ainda era um limite da crítica local. Os movimentos “pop” foram rechaçados como ideologia burguesa. Mesmo assim a amplitude da transformação implicou a continuidade das críticas ao tema, por onde se coavam as evidências de que não pode haver desenvolvimento por meio da dependência mais abjeta, o que mesmo os capitalistas reunidos no Clube de Roma inaugurando a globalização- recolonização se esmeram em apregoar, não tendo restando a classificação dos países “em desenvolvimento”.
41 Formalmente o Ocidente declarou sua mentalidade regressiva ao colonialismo de Tordesilhas, apenas a linha traçada tendo se horizontalizado para cobrir todo o hemisfério Sul na qualidade de colônia dominada.
42 Como já registrei a propósito, as evidências de que o capitalismo nunca será etapa dialética ao desenvolvimento na margem anexada por ele mesmo como imperialismo eram negadas já apenas por uma esquerda sonâmbula, teimando na ignorância da realidade da ciência social, da teoria do inconsciente, da ecologia, da história efetiva já bem conhecida. Mas permanece interessante observar o acosso sobre aquele sonambulismo, registrado na letra dos críticos esquerdistas da própria resistência, se esta não rezava pela cartilha obsoleta. Não se trata nesse meu interesse de qualquer atitude ufanista, ou de considerar que algo emergiu isento de qualquer crítica possível. Mas da reconstituição da montagem da contradição de um zoilismo colonialista associado ao sovieticismo internacional que estava, contudo, se abeberando de informações constitutivas de suas próprias categorias explicativas, uma vez que o criticado evidenciava quais eram as que não serviam mais.
7) O Teatro da Resistência
1 Não visamos na ignorância crassa com que a arrogância geoegológica dos alter egos do centro de hoje em dia se pavoneiam, qualquer “crítica” digna desse nome, mas a reificação ideológica de uma neurose que – seria espantoso não fosse o esperado na globalização – vemos baixar feito algum espírito do além no momento em que mais precisaríamos da contestação consequente ao regime insano.
2 Schwarz não seria certamente um referencial que se pudesse subsumir a esse grotesco. Ainda que sua crítica ao tropicalismo e ao modo como a resistência local estava se encaminhando muito mais relacionada à questão cultural que ao determinismo economicista seja certamente limitada, muito do seu texto está refletindo transformações de época importantes. Assim como já vimos, o fato dele se colocar como texto produzido numa excentricidade temporal relativa à publicação, mas por isso emitir um juízo sobre a história como decalagem dos momentos. Nunca apenas cronológica, já que comportando percursos existenciais.
3 O equívoco contemporâneo se torna, querendo e sabendo, ou não, instalado numa relação constitutiva com o equívoco passado. O presente, no equívoco (a ditadura), é acaso mais leitura, ela mesma não “necessária”, do passado. A história contem sempre uma margem, a do seu olvido, enquanto relato, que está para ser contado, desse encontro ou dessa repetição do equívoco. Mas haveria maiores erros do que os narrados pelo conteúdo factual, “certo”, inteiramente documentado, da História? Especialmente dessa história, a do golpe militar, que força a sua margem como a errância dos que ela deslocou do seu processo, do seu caminho, precisamente, históricos? Esses aí ( a juventude intelectualizada) que foram destituídos de seu valor de exemplo, quando eram os que tinham algo a revelar, de sua comunicabilidade plena, de sua vizinhança, de sua proximidade, de sua acquaitance, de sua Compreensão, quando eram os que deveriam de todos esses conceitos fornecer o sentido mesmo ao menos enquanto as categorias que embasavam seu próprio discurso... Estranha exemplaridade, que encena a impossibilidade de alguém falar a langue do outro, e a distopia que nessa esperança vã reside.
4 A tentativa desse texto, informa Schwarz, correspondeu a essa experiência, essa vontade, de assumir literariamente a atualidade, mas sabemos que aquilo a que ela corresponde, enquanto experiência textual ou “memorialismo”, é também uma tentativa, uma vontade de assunção da atualidade, o engajamento político. Ora, como se esperava – e hoje consideramos, erroneamente - já que a geração vindoura deveria refletir nada mais que a alienação, senão a impossibilidade programada pelo sistema de qualquer experiência de responsabilidade política ou existencial, a provocação de um equívoco ao seu Outro se torna um efeito de estrutura, um lugar do texto. Portanto, um Novo Memorialismo, pós-moderno, de modo algum algo sem relação com o que lhe precedeu em termos de vanguardas modernistas.
5 O equívoco, portanto, não é apenas uma contingência. No seu caráter constituído muito pelo acaso, ele encerra aquele incalculável valor existencial ou, em todo caso, político, que pertence ao texto literário, filosófico e de humanities. Ocorre que esse memorialismo é programático, se a experiência que ele tangencia já estava informada nesse rumo, já continha um nível de programa e de crítica (memória e prognóstico).
6 Entre a vanguarda e o pós-moderno, pois, Schwarz se defronta com um presente que é o espanto de um futuro sem passado, pelo divórcio da nova geração, nesse caso a minha, suposta pelos daquela época que iria ser a produzida pela ditadura, conforme a premissa preconceituosa positivista oitoscentista, o biologismo obsoleto do homem produto do meio. Não há modo mais claro de se mostrar a inadequação de se pressupor os objetos das humanities em termos de “coisas”, mas sendo assim, são as relações inteligíveis que se instauram entre eles que não podem se modelar por aquelas que se instituem entre coisas ou entre pessoas e coisas, as relações sujeito-objeto: “O leitor verá que o tempo passou e não passou”.
7 Por aqui, creio que se tornam mais aproximáveis vários temas ligados à pós-modernidade: recuo do investimento formal, retorno da prosa ou narrativa, historicismo (citação estetizada), ênfase na reprodutibilidade e na técnica, mas sempre na imanência da repetição desconstrutiva. Ou seja, a fórmula encerra mais do que o balanço factual da situação (o golpe ainda estava vigente) ou a obviedade de que não haveria qualquer valor científico-humano, filosófico ou literário, num texto escrito para ser lido exclusivamente no presente de sua escrita. A fórmula enuncia, sim, esse deslocamento das cenas literária e pensante, que já se tangenciou ao desenvolver o tema da pós-modernidade. Como em Otavio Paz, a saber, o deslocamento do compromisso com a destrutividade do prévio e com a tradição do novo das vanguardas, a meu ver em favor desse comprometimento da Produção com a Memória.
8 A fórmula portanto é que o texto é o lugar da memória, mas com isso, sem que os teóricos do virtual o previssem, foi o comprometimento “revolucionário” das vanguardas que cedeu lugar à prosa e ao historicismo pós-modernos que não deixaram assim de ter, de certo modo, um compromisso com o novo ou com o presente de sua produção.
9 Após essa conclusão do trecho introdutório de justificativa, o texto de Schwarz começa por encenar a transformação histórica que depôs “o governo populista de Goulart”. A leitura já aqui, fornece um diagnóstico: o golpe se instaura “a fim de garantir o capital e o continente contra o socialismo” - o que hoje seria algo risível considerar, pelo que já estudamos até aqui, pois o alvo não era o socialismo, e sim a independência econômica e política da nacionalidade.
10 Tampouco se poderia afirmar que o povo assistiu “passivamente” à transição do poder, se o texto ele mesmo encena a sua resistência – como se alguém pudesse se colocar, não apenas por um equívoco ideológico, numa condição de não-povo. Um dos pontos de ancoragem textual será, outrossim, a recuperação da aliança entre massas e ativismo político ao longo do decênio inicial do golpe, momento que o senso comum direitista procura veicular como de total apatia popular versus extremismo de grupos de elites intelectualizadas pelo governo de Moscou.
11 Schwars recupera algo da heterogeneidade de orientações do ativismo político. As teorias psico-sociológicas do caráter nacional, aquilo que veríamos como obviamente vindo do modernismo, estavam algo anacrônicas. Mais atual era o nacionalismo da modernização, postura simplista, atendo-se apenas ao reformismo econômico.
12 Por outro lado, conforme Schwarz, havia posturas politizadas como aquelas do cristianismo marxista, e as dos outros “marxismos rivais” que em comum tinham apenas a inspiração leninista e a “recusa abstrata do compromisso populista”. Vale insistir no uso desse termo que se reduz à injusta confusão leninista de duas coisas tão irredutíveis como o caudilhismo e a legalidade democrática. Já o vimos bastante nos livros anteriores, porém hoje é importante enfatizar por estar radicalizada ao extremo, nesse cenário atual desde o impeachment do pt e o intervalo até a eleição de 2018. Sendo o que pela década e meia do pt, foi o fator que reduziu ao máximo a consciência da legalidade local, sem a menor diferença relativamente ao que obsrvei sobre a mídia globalizada. Ou seja, em termos práticos, tendo resultando no caudilhismo, apenas populismo de fato, o contrário do que se apregoava querer evitar, como correlato da assim corrompida consciência política de esquerda, sem que se possa considerar qualquer contrário na direita, obviamente. Lembrando que “caudilho” na nossa história significa os chefes de currais eleitorais do interior, ou seus simulacros místicos como o Padre Cícero. São os políticos populistas ligados aos latifúndio, como no “coronelismo”, ou tradicionalistas como no castilhismo varguista-brizolista.
13 Schwarz atesta certa penetração de massas, da doutrina que restava comum entre as várias orientações dos grupos marxistas na época da resistência à ditadura. A penetração se colocava pela demonstração de que a dominação imperialista estava intrinsecamente ligada à reação interna, de modo que o sentimento patriótico era assim canalizado, ainda mais exacerbado como estava pela circunstância do golpe. Os fatores dessa consciência política popularizada são múltiplos, incluindo a renovação da linguagem dos meios de comunicação de massa e artísticos, que se tornavam, de sujeitos tradicionais estritamente localizados, interlocutores dos acontecimentos internacionais. Schwarz chega a atestar aí uma verdadeira Aufklärung popular. “Generalizar”, livrar-se da mentalidade de província, mesmo nos esquemas do cotidiano, são as senhas desde os anos cinquenta que se intensificam no momento de eclosão do golpe.
14 Quanto ao PC, se influiu pela composição da doutrina anti-imperialista, Schwarz o critica por ter suposto uma cisão no interior das classes produtoras, entre o setor agrário retrógrado e o setor industrial progressista. Esse problemas constatamos interior à leitura histórica de Sodré. Porém a questão, conforme Schwarz, não é que não havia essa cisão, mas sim que ela era menos importante do que a mentalidade das classes produtoras em bloco, frente à pregação comunista. Também ele ignora o alvo imperialista, que não era contra o comunismo sem ser do mesmo modo contra a independência nacional. Ora, a tática da repressão, como vimos, consistiu na descaracterização do processo histórico por uma dicotomia entre direitistas e comunistas, ainda mais inválida do que a interpretação do PC acerca da realidade de classe brasileira. Constatamos portanto que a crítica “comunista” de Schwarz na verdade reproduz o que a direita propagandeava.
15 Schwarz, ao contrário de Sodré ou mesmo do que pudemos apurar em Dreifuss, vê Goulart como tendo se apoiado no PC, estando Goulart equivocado, portanto, quanto ao que seria o apoio das classes produtoras ligadas à urbanização e modernização do país, o que não se verificou na iminência do golp. Assim, ao definir o fator de que resulta o ambiente altamente heterogêneo que se tornou o de elite no Brasil – como na cena da festa do Terra em Transe, de Glauber Rocha, onde confraternizam numa mesma auto-concepção assim designada “populista”, padres, socialistas, intelectuais, militares, sambistas, etc. , pondo lado a lado o blue jeans e a alta costura - ele na verdade enuncia dois vetores. Ora fala da concepção do PC, crente que tomaria o poder garantido pelo governo instituído; ora fala de um PC rosicler, assimilado apenas como o porta-voz da ansiada reforma agrária que beneficiaria a todos, principalmente a burguesia industrial nacionalista – como tenho insistido, conforme o preceito do desenvolvimento industrial (capitalístico) como dialeticamente necessário à conscientização do proletariado e revolução vindoura. Schwarz analisa o que seria visível como a penetração marxista das várias ideologias de modernização nacionalista, desde Vargas.
16 Creio que o exame não é destituído de interesse, mas não que seja compreensível como se o vetor ativo viesse do marxismo desde Prestes, e sim, inversamente, como se os marxismos fossem uma das forças do pensamento de esquerda que informaram o que era efetivamente atuante, o processo em curso na América Latina, de sua independência econômica, desde sua independência política, algo que compacta a nacionalidade heterogenética, como o inconsciente da alteridade em Oswald de Andrade, sendo isso o que não está de forma alguma ignorada como o alvo da guerra imperialista – como vimos no registro do estudo de Pomer sobre a intervenção inglesa no Paraguai, muito antes.
17 Um fator, porém, relevante para o momento do golpe, instituindo a rota de variação da época ao processo histórico da construção da nacionalidade, é sem dúvida a então muito praticada retórica da Revolução. Isso está também registrado no estudo de Mariângela Alves de Lima (“Os grupos ideológicos e o teatro da década de 1970, texto de xerox), que começa, não obstante o título, com o Teatro de Arena de São Paulo, ainda na transição entre os anos cinquenta e sessenta. Justifica-se, de início, o procedimento, porque “um mergulho direto no nosso assunto tornaria incompreensível uma proposta artística que é, essencialmente, a continuidade da renovação teatral...” cujo marco seria o Arena, e tendo por tônica “a ideia de teatro empenhado na transformação concreta da sociedade”.
18 Ora, os grupos que atuam desde aí, ao longo dos sixties, como um modo de resistência à ditadura, não tematizam apenas o escrutínio dos processos históricos do capitalismo, mas propõem aos espectadores um movimento no sentido do socialismo. A escala de valores da crítica social tende à rigidez de uma interpretação que chamamos splitada da História – quando o projeto de um Sujeito central da História resvala da burguesia capitalista para o proletariado industrial. Conforme Mariângela, nesse teatro da resistência, “O personagem é definido pela sua inserção no mundo do trabalho” ( Boal, Guarnieri, Armando Costa, Chico de Assis, Paulo Pontes) o que mais tarde inclui a classe média (Viana Filho, Dias Gomes, Paulo Pontes).
19 O modelo desses grupos parece ser o Opinião, e os CPCs (centros populares de cultura), além do próprio Arena. Ora, entre os anos sessenta e setenta, o que ocorre não seria um decréscimo do investimento da crítica de esquerda no teatro, mas, inversamente, um enriquecimento tão surpreendente dos instrumentos dessa crítica que não haveria “espaço suficiente para tratar da multiplicidade de estratégias”, como da profusão de “soluções cênicas que pontilharam o texto e o espetáculo do teatro dessa época”.
20 Enquanto nos sixties a peça opera como um tribunal popular, ao mesmo tempo edificante como cartilha do politicamente correto em termos da moral da história que se desenrola no palco, reprodução de situações atuais e fatos recentes, nos setenta a linguagem cênica se torna investida nas suas possibilidades teatrais – até mesmo “ reinventaram um musical brasileiro que não era cópia da Brodway”, circularam o “repertório de temas populares de uma forma que fazia valer a sua alta qualidade artística”, e sobretudo, inovou-se quanto ao mecanismo da criação, que se tornou coletiva: não apenas o dramaturgo, mas o ator, o cenógrafo e o músico colaboram na invenção da cena, e como se sabe, Boal também incluirá nessa invenção o próprio público. Quanto a essa participação do público, inclui propostas muito ousadas, como a provocação irritante, ou a invasão da privacidade sexual dos homens pelas atrizes, conforme tive informação.
21 Ora, o interessante aqui não me parece ser tanto a questão de se o alargamento da pretensão ideológica desse teatro, que agora está alcançando não apenas a crítica política mas também filosófica, estética e existencial, pode, como sugere Mariângela e como lhe creditou também seus antagonistas golpistas, ser reduzido ao horizonte marxista ou não. Até porque um marxismo assim seria no mínimo ele mesmo não ortodoxo, ou ao menos, não aquilo que correspondia à própria definição direitista do termo pelo que ser marxista é ser agente pago de Moscou, praticar o realismo socialista ou um tipo definido de vanguarda que não deveria integrar a sexualidade por exemplo.
22 Mais interessante sendo o modo como ela descreve a recepção do golpe pela esquerda atuante, temos que há uma transição assinalável entre o antes e o depois do Ai cinco (1968), o “Ato Institucional” que cassou definitivamente as garantias políticas, sinalizando para o fato de que o golpe não era algo transitório como se pensava no início, mas estava se instalando numa base mais duradoura.
23 Historicamente aceita-se o 68 brasileiro, o contrário do franês, como um golpe dentro do golpe, de modo que não seriam as mesmas forças que, manobradas pelos agentes intervencionistas num primeiro momento, mas ainda supondo que isso estava implementando um interesse local, compreenderam o golpe como algo que logo iria devolver normalidade ao país, em relação àquelas forças que nesse ínterim se haviam identificado com a ideologia intervencionista, transformando assim o programa que havia sido aceito inicialmente pelas forças armadas.
24 A recepção pré-ai cinco do mesmo modo crê que o golpe é transitório, conforme Mariângela, supondo-o inclusive como materialização das forças antagônicas, de modo que apenas se prolonga o teatro cartilhesco calcado, portanto, nessa concepção de que a Revolução socialista é inexorável, corolário da marcha da história. Esse momento é pois sui generis em relação a todo o conjunto variável de aspectos que implementaram as interpretações da nacionalidade. Ele se demarca, inclusive, singular em relação ao que coalesce desde o ai-cinco como a percepção de que arte e militância não podem mais ser abertamente conjugadas. Ora, desde aí a complexidade também invade a cena histórica, pois, por um lado, o horizonte revolucionário se manteve nas opções minoritárias da “clandestinidade” – de que a autobiografia de Neruda é exemplar - ou da luta armada, para logo depois ser substituído pela concepção de “resistência”: em vez da labareda, as pequenas chamas, em vez do instigamento à revolta, a conclamação a resistir.
25 Retornando ao tema dos grupos teatrais que coalescem após a constatação da natureza institucionalizada do golpe, com suas práticas de repressão intensificando pela violência e amplitude tudo o que se conhecia nesse sentido até aqui, a princípio eles tem um caráter comunitário, como recurso à proteção mútua dos integrantes. Na evolução dos acontecimentos, Mariângela observa que ao mesmo tempo que enriquecem sua linguagem, logo se conscientizam do hiato entre o veículo cênico e a recepção almejada – o espaço público tendo se tornado o ambiente alvo da repressão. O teatro migra da cidade para o campo, ou do centro urbano para a periferia (Marcio Souza, Nucleo 2, o Teatro União e Olho Vivo - TUOV), como da linguagem popular para o hermetismo que visa burlar a censura.
26 Tempo de espera (1975) parece o marco da viragem para o que será o teatro dos anos oitenta, quando a vinculação com o horizonte da mudança social deixa de ser algo resgatável na motivação dramatúrgica. Enquanto outras peças estavam mesclando o motivo politico ao enriquecimento da vida interior do personagem, essa peça liquida as premissas que orientam o teatro até aqui: dialogismo com o presente extra-cênico e com a recepção, diegese, mensagem como interpretação da história e do real. Mostra-se apenas, numa focalização hiper-realista, o interior de uma palafita maranhense (casebre sobre águas de rios) com a família ocupada no seu ritual de sobrevivência, os gestos depauperados pela escassez reinante, tendo ao fundo o ruído de motores, sugerindo a proximidade de uma rodovia ultramoderna.
27 A cena reproduz o que se hauriu de uma pesquisa universitária coletiva com as comunidades rurais do Maranhão, orientada por Aldo Leite, e do circuito de escolas e faculdades, repercutiu nas casas de espetáculos do país. Não há qualquer fator na peça que possa sugerir-se projetivamente sobre a realidade que é histórica, mas ao mesmo tempo impondo um outro conceito de história, não mais uma lógica desenvolvendo-se na pressuposição dos fatos, um Ser, mas apenas a factualidade crua dos Entes.
28 Mas vemos que esse sem-sentido não expressa um sentido oculto, como nas peças modernistas ou expressionistas, à Becket ou Inonesco. Inversamente, trata-se do manifesto cujo escândalo não requer recursos expressionistas. Trata-se, pois, do desvelado, do não – ocultável, no entanto, não-visto senão por essa Cena que, posta à frente, ainda assim permanece invisível, pois, como vê-la?
29 Mariângela considera que o importante nessa transformação é que os personagens em cena eram agora exatamente o público a que se havia endereçado antes o teatro ideológico, isto é, aquelas classes desfavorecidas que se esperava conscientizar como agentes revolucionários. Parece-me que isso autoriza a dedução pela qual o que se pensava sujeito do discurso social se tornou o seu objeto, no momento em que o sentido da história como processo coerente da alteridade na margem foi substituído pelo significado da História do ego no centro. Ora os personagens só foram parar na cena porque se os destituiu da possibilidade da recepção da linguagem, da interlocução na culura, ou seja, porque se tornaram não visíveis à nacionalidade, não identificáveis, nem geríveis.
30 A partir desse momento o teatro do pequeno grupo deixou de ter a relevância cabível na resistência, pela proximidade da redemocratização que, como hoje sabemos, não pode ser seriamente considerada, pois o que temos visto é a continuidade da ditadura pela Globalização – pelo que pudemos redefinir os objetivos em função do imperialismo (recolonização). Porém não seria verdadeiro ignorar que nos anos oitenta o teatro do pequeno grupo ou de montagens de pequena escala se conservou como meio de conscientização política, já que a censura vedava a informação histórica recente, mas também de reflexão existencial, do situado social, sexual, crítica da vida privada, etc. Eu mesma participei do grupo de Luis Carlos de Morais Junior, “A Hidra de Lerna”, encenando a sua peça “Mais tarde será o mundo”, crítica da educação escolar (1985/1986), no teatro da biblioteconomia da Uni-Rio. Luís atuou como diretor da peça “A Lira dos Vinte Anos”, de Paulo Coutinho, apresentada no teatro do Liceu de Artes e Ofícios (1985). A enigmática “O mistério da casa da fonte de águas vivas”, estória infanto-juvenil em que Luís reutiliza clichês do gênero fantástico carnavalizando-os, tendo sido encenada por um outro grupo de jovens na Biblioteca do Cocotá (Ilha do Governador) nos anos noventa.
31 Schwarz, que também tangencia a atuação do teatro na coalescência do consenso socialista da nacionalidade, entre a curva para os sixties e a instituição do “ai cinco”, interpela a problemática do novo, como o sinal dos novos tempos, como já assinalamos, através de uma análise do fenômeno tropicalista. A questão me parece interceptar convenientemente a estética do Pop. Schwarz localiza a emergência do pop brasileiro no momento pós-68. Conforme Schwarz, após 68 ambos os setores da assim considerada burguesia nacional, agrário e industrial já haviam notado sobejamente que não eram os sujeitos históricos representados pelo governo federal. Na concepção de Schwaz, a onda de contestação ao regime dessa fase pós-68 se justifica nesse meio de descontentamento geral, por não haver identificação possível entre setores nacionais e política governamental, muito mais do que por algum insumo revolucionário comunista. Isso servia de válvula de escape para aquele estado de coisas, não o inverso.
32 O descontentamento nacional refletiu numa política cultural contraditória administrada pelo governo. Por um lado, o investimento na propaganda da grandeza do país, a partir da natureza mas assim apelando para os valores retrógrados do latifúndio. Por outro lado, a propaganda do alinhamento tecnológico como da modernização como o trunfo máximo do sistema – a fonte do “Milagre Brasileiro” na economia enquanto se multiplicava a entrada de mercadorias e hábitos de consumação ocidentais modernos, um estereótipo que até hoje é praticado na linguagem dos políticos quando querem referenciar o desejável de plataformas destinadas a agradar a burguesia.
33 O que resulta algo confuso na postulação de Schwarz, é que ele atribui o lado modernizante da propaganda ditatorial visando criar um mito da unidade nacional, a setores da burguesia marginalizados pela ditadura.
34 Segundo ele, desde o golpe e até o momento em que o governo vai se lançar numa campanha de mobilização da consciência, até aqui bastando-lhe a aplicação da força bruta, o que ocorre é uma revitalização daquele ímpeto modernizante, em termos de consciência de classe ou de nacionalidade. Rompendo com a lógica da força bruta, a articulação da resistência, a essa altura, estava vitoriosa, conforme Schwarz, em termos da sua preminência sobre a vida cultural, em plena movimentação aquela altura. E justamente pelas circunstâncias, tendo os setores da inteligência do país um papel mais fortemente acentuado na recepção dos que deles esperavam as fórmulas, seja de ruptura com o regime imposto, seja de leitura dos acontecimentos traumáticos.
35 A consciência da guerra revolucionária, burlando a censura federal, atua como pivô do golpe dentro do golpe como se designa a permanência do regime em 68. Uma vez que o governo passa a ter um alvo do seu antagonismo, na verdade, para Schwarz, ocorrendo que ele tenta evitar que a consciência se popularize demais, uma vez que há suficiente base na mentalidade dos setores mais atuantes para aceitá-la como algo valoroso.
36 Em todo caso, o foco do texto de Schwarz se torna a estratégia desse governo que precipita um novo fechamento, ao mesmo tempo que se lança num empreendimento de abertura no sentido da cooptação de sua legitimidade popular. O tema é o que resulta como ambiente cultural no momento da escritura do texto, entre 69 e 70, quando os canais que até aqui ainda galvanizavam a mentalidade progressista se tornam obscurecidos pela atuação consciente da propaganda, no sentido de veicular uma ideologia justificadora do regime.
37 Ora, a estratégia do governo, apoiando-se nas bordas que haviam se tornado minoritárias na composição do processo histórico da nacionalidade, isto é, nas rubricas da mentalidade passadista, tudo aquilo que formava o pensamento “velho”, anterior aos influxos modernizante dos sixties, o próprio governo não ostentava esse perfil, mas uma face tecnocrática, portanto, apenas politicamente conservadora, seu pensamento sendo de fato tecnológico, modernizador e “novo”. O que resulta é um perfil de sobreposição de velho e novo – enquanto que, concomitantemente, o Pop brasileiro sob a rubrica do tropicalismo, está emergindo com o mesmo poder de penetração de massas que a propaganda governamental.
38 Assim, a contradição seria patente nesse meio de cultura, se o tropicalismo fosse uma articulação na continuidade daquele consenso de esquerda e de modernização burguesa, até aqui atuante como projeto que havia se tornado majoritário da nacionalidade autêntica brasileira. Inversamente, se bem que não quanto à retórica, e sim quanto ao estilo e às soluções estéticas, o tropicalismo é definido por Schwarz também como uma insólita sobreposição de velho e novo. Mas não por uma vontade identificada a ideologias arcaicas, e sim por uma espécie de inconsciente repetição do que trafega na cultura de massas daquele momento e é sancionado como cultura popular, ou seja, coincidindo com a retórica governamental.
39 O tropicalismo se torna, portanto, lido como alegoria do país, seu estilo, conforme Schwarz, decorrendo da sobreposição da acabrunhante ideologia caseira com o ultra-moderno importado das técnicas do tratamento do material artístico: retórica mais atrasada do folclore do país tratada com montagem einsensteiniana, com técnicas de música eletrônica, com inovações da prosa de vanguarda como do Finnegans Wake. O desconcertante do resultado, que pode soar como agressivo ao espectador, Schwarz atribui à contradição de forma e conteúdo, pois ao mesmo tempo que justificando, aos olhos daqueles que o repudiam, conteúdos verdadeiramente passadistas, exibindo para aqueles que se identificariam com tais conteúdos, formas espetaculares de uma modernidade que não poderiam jamais aceitar.
40 A análise de Schwarz se detém nesse “disparate” do estilo para alcançar vários dos seus desdobramentos, mas seu diagnóstico é de uma contradição insolúvel instaurada às custas do comercialismo de massas, que não a resolve, é certo, mas que solve o seu impacto tornando-o assimilável. Ora como o “novo”cuja definição não mais abrange uma crítica do conteúdo do antigo ou qualquer obrigação de formular algo que não coincide com ele, mas se especifica unicamente como o que é publicado pela mídia Agora; ora como o que substitui a assimilação do realmente novo, que teria vindo daqueles canais agora às voltas com os obstáculos do regime e da mídia, por uma contrafação de fórmulas conceituadoras do presente através da simples propagação de ditos aparentemente reveladores, “O Brasil é incrível”, “é demais”, é “a fossa” , etc.
41 A alegoria tropicalista, porém, tem o mérito de estender-se à “americo-latinidade”, quando até aí, na opinião de Schwarz, essa associação não costumava ser praticada. Ora, a situação alegorizada é do subdesenvolvimento, onde o novo só se realiza na sua sobreposição ao velho, enquanto que o esquema do desenvolvimento é inverso. Portanto, o efeito de disparate compreende um outro efeito, aquele pelo que o novo que só se realiza nessa sobreposição ao velho, só pode ser ele mesmo de certo modo velho, no sentido de que nunca chega a realizar a novidade do desenvolvimento, em termos de emancipação.
42 A miséria se estende não apenas ao ambiente pobre, mas também, principalmente, ao ambiente rico, à festa abastada, no entanto de contextualização medíocre devido à secular posição tradicionalista de seus personagens, à incultura reinante, etc. Não obstante, o brilho tropicalista, haurido das experiências de consumação tecnológica do seu material que vem dessa origem do Brasil arcaico, folclórico, ressalta o absurdo da composição: efeito mais próprio do estilo enquanto a alegoria que o comanda de dentro do seu sempiterno improviso sobre o que é de “hoje”, os motivos mais banais, os casos mais cotidianos. Os males do passado e o novo que é apenas o efeito de seu agora, fazem um mesmo – não há, portanto, mensagem revolucionária ou qualquer coisa a esperar da arte, a não ser a sensação de identificação com o que é “nosso”, com o que é o mesmo da identidade, etc.
43 Algo que, sendo corretamente atribuível à época ou não, em todo caso, de modo extremamente reificado, mas igualmente impulsionado por estruturas da mídia e muito construído por artistas de mídia que naquela época foram atuantes do tropicalismo e da resistência, todos exilados e retornando na anistia, temos visto desde o impeachment do pt como o único vetor da resistência petista-esquerdista. Agora porém não havendo a solicitação de leitura dos acontecimentos por alguma inteligência, somente a manutenção de um bloco único de todos os possivelmente antagonistas do impeachment e do partido, sem necessidade de reflexão. Bloco cujo discurso é ostensivamente apenas ser dos mesmos que não são os outros. Não se trata de atribuição injusta ou meramente ilação. Há algumas semanas, Luis Carlos Maciel respondeu pessoalmente, pela internet, à crítica de Luís Carlos de Morais Junior a propósito do impeachment como decorrência da legalidade contra a corrupção, nesses termos, de que só se pode falar de nós ou eles, e se não queremos o roubo temerista ou o nazismo de Bolsonaro, só resta Lula.
44 Tornando ao artigo de Schwarz, nesse ponto incursiona ele pelo teatro da época. Não é especialmente elogioso para com os grupos que vimos tratados por Mariângela, no contexto de um estudo de índole histórica. Ele focaliza os grupos – Boal no teatro de Arena, com o musical Opinião, depois com peças que tematizam a história brasileira como o episódio de Tiradentes, e especialmente Zumbi, também musical; o Oficina, de José Celso Martinez Correa; o teatro universitário – de um ponto de vista situado, confrontados ao momento político, mas também estilístico.
45 A invasão da estética de Brecht nesse momento torna-se geral, porque a intenção política é solver as barreiras que foram repentinamente erguidas entre intelectualidade e público de teatro, isto é, a burguesia modernizadora e a esquerda simpatizante dessa causa. Mais tarde, Boal intenta amalgamar Brecht e Stanislawski, a fim de proporcionar volume ao personagem. Schwarz pensa que essas soluções são politicamente simplistas, porque se voltaram à reificação de palavras de ordem hauridas, contudo, de contextos de pensamento atuante. Ele não nota a singularidade local, frente a um contexto internacional em que era Artaud que se tornava a influência importante, como já assinalei. Ou seja, o que ele critica como reacionário é na verdade aqui um gesto tímido, pelo caráter minoritário do situamento, relativamente ao que estava sendo realmente novo ou transformador na ambientação internacional, como o happening e a performance. O artigo de Schwarz não cobre o momento em que estas duas inovações aportam por aqui, em grupos teatrais dos anos oitenta, quando o remanescente da estética politizada cedia espaço a peças de reflexão de conflitos privados, familiares e comportamentais, como acima observei.
46 Na crítica explícita de Schwarz, o efeito almejado do teatro de resistência era apenas assegurar a identificação do público, não com o esforço teórico de um pensamento engajado na problemática social, mas sim com o grupo produtor da peça, que se colocava como referencial exemplar da luta política. A meu ver Schwarz esquece nesse ponto que o grupo produtor da peça, antes dos anos oitenta, estava realmente sendo protagonista histórico da resistência política, o que a ditadura não negligenciava, como em geral a todas as manifestações culturais.
47 Na concepção de Schwarz, o Oficina seria uma exceção ao narcisismo reinante dos que enfrentavam as forças brutais da ditadura arriscando a pele. Mas a exceção convindo à regra. José Celso Martinez Correa agride a plateia burguesa para responsabilizá-la, ou por ter se alinhado com a direita, ou por não ter resistido ao golpe. Contudo, o núcleo da mensagem do Oficina é o mesmo conteúdo reificado que qualifica a revolução sem mais precisar – ou poder – defini-la, ventilar seu propósito e seu sentido, ao passo que o espectador ideal continua existindo, o elemento que se tornaria cúmplice da proposta realizada no palco, com o qual o palco não guardaria nenhuma distância, sendo nesse caso o estudante universitário de esquerda.
48 Esses diagnósticos me parecem veicular um interesse, pelo que deixam entrever a força do que se implementou ao longo da coalescência daquele ímpeto de nacionalidade modernizante-autônoma ou francamente socializante. Se espetáculos que hoje estamos acostumados a apreciar na sua pujança e originalidade, são assim, no momento mesmo de sua emergência, vistos como deceptivos justamente quanto a esses aspectos, podemos aquilatar a magnitude da expectativa que os contrafaz.
49 Ocorre porém, que Schwarz nomeia aquilo pelo que não procura interessar-se, sendo que isso está no cerne do processo histórico que temos intentado recompor. Ao instituir numa centralidade constitutiva da cultura da época da resistência à ditadura, a sobreposição de antigo e novo, ele se descarta do que chama “a famosa variedade cultural do país”, a utilização cênica temática dos elementos africano (que ele nomeia apenas pelo fator religião) e aborígine (que ele tangencia como tribos indígenas arcaicas), os quais estariam de par com trabalhadores “ocasionalmente vendidos tal como escravos, trabalho a meias e complexos industriais” - ou seja, não tipicamente o operariado organizado da cidade. E do mesmo modo, quando critica as peças históricas de Boal, que tematizam o que chamamos o mapa da revolta, como Zumbi e Tiradentes, não concede qualquer relevo à profundidade do processo na sua inflexão do presente, mas ele mesmo os toma como meramente sobrepostos, alusivamente parece-me, ao tema do indesejado regime vigorante.
50 Assim, quando localiza o arcaico brasileiro no tropicalismo, Schwarz não o toma na sua pluralidade, mas como o mesmo conteúdo já veiculado e identificado ao patriarcalismo rural do “TFP” (“terra, família, propriedade”, grupo de extrema direita tradicionalista). Quando não pode deixar de notar que a direita, no entanto, se irrita com essas apresentações, ele supõe que se trata apenas de um antagonismo quanto à forma, na superfície, não quanto ao conteúdo, no que seria visceral em termos de um real avanço estético.
51 Ora, a direita está se formando agora, a custo acomodando-se no esquema que pode não ter criado, mas que foi o setor que provavelmente mais imediatamente o aceitou, tanto quanto o que mais deve ter servido de massa de manobra no período da montagem e cooptação intervencionista. É uma direita que, ela sim, está sobrepondo seus setores velho e novo, que polarizam o seu amplo leque de interpretações da nacionalidade no momento de sua revolução industrial. Ela se irrita, portanto, porque esse arcaico não é o que lhe corresponde, mas àqueles elementos que o discurso marxista não podia interpelar, não tinha como interpretar, senão na forma de uma identificação com o elemento urbano, como se sua aspiração emancipatória pudesse ser a mesma. Outrossim, Schwarz mesmo vai atribuir a novidade formal do Tropicalismo, justamente aquilo de que a direita está se beneficiando, com o que ela está se identificando em termos de linguagem, o aparato técnico da comunicação de massas que então começava a vigorar à escala da televisão (logo a cores), do cinema moderno, do som estereofônico, etc. - sobretudo o surto crescente da indústria automobilística e da motocicleta como propaganda da liberdade, do novo.
52 Esse arcaico vai corresponder, inversamente, parece-me, àquelas linhas da nacionalidade heterogenética com que o modernismo empreendeu uma interlocução. Contudo, esse termo talvez fosse demasiado. Uma leitura, seria mais adequado. Agora, os meios são outros, e não há leitura que não possa ser presentificação do elemento da alteridade, no que seria uma verdadeira interlocução. A religião atuante da cultura afro, da Bahia, não será meramente material de estudo, de história ou poesia, mas comparecerá in loco no espetáculo, etc.
53 O artista não apenas cantará temas folclóricos, mas vestirá - ou despirá conforme o caso – o hábito alterizante da cultura, não apenas para posar de fantasia, mas expressando o envolvimento real de sua afetividade e de sua formação estética com esses elementos heterogêneos de nacionalidade.
54 Que esse investimento não possa deixar de ser político, o descontentamento a tematizar não pode, tampouco, restringir-se à frustração da modernização urbano-industrial. Inversamente, o nível político só se torna exacerbado, uma vez que a questão é a repressão da heterogeneidade cultural, pela limitação formal do espetáculo enquanto um comprometimento estético. O desconcertante parece ter sido que esses elementos – índios e negros, na maioria em certo grau miscigenados, suburbanos e pobres, tanto quanto revisitados repertórios de cantores populares do rádio do início do século - eram população do Brasil, não apenas a classe média informada pela alta cultura europeia ou o latifúndio informado pelo que ela havia sido noutros tempos. Mas o chocante é que sua linguagem fosse aproveitável pelo tratamento técnico, e altamente expressiva nesse meio.
55 Por aí, não me parece que o pop brasileiro se enuncie pioneiramente com o tropicalismo. O interessante neste sendo, inversamente, a retomada, ou uma intenção nesse sentido, do contato com o influxo modernista brasileiro– como seria válido para José Celso Correia, no teatro.
56 Já a viragem de um projeto de nacionalidade modernizante-burguês como o que ainda é típico dos anos quarenta-cinquenta, para aquilo que se verifica desde a curva para os sixties, e coalesce no governo João Goulart, integra estruturalmente os traços que enunciam internacionalmente o pop como uma movimentação cultural. A crítica de Schwarz à linguagem do teatro de resistência, não focaliza a influência de Brecht senão como um retrocesso do “bom teatro que durante anos discutira em português de escola o adultério, a liberdade, a angústia” que assim “parecia ter recuado uma era”.
57 Ora, uma das questões do pop internacional, que se costuma assinalar, como já examinamos, em curso desde a transição dos anos cinquenta, como produção americana de vanguarda, é o recuo da profundidade, no entanto, idealizada, como se pudesse haver uma linguagem universal da subjetividade, independente da forma de sua expressão. Nisso, o primitivismo havia se mantido, no centro, como no surrealismo de Breton ou no grecismo de Duncan, bastante limitado. Isso quando era o caso dessa profundidade estar sendo investida de modo pouco mais informado quanto ao entorno de psicologia, sociologia e antropologia, ou seja, quando não se mantinha na simples mitificação de Ibsen e da estética do século XIX.
58 Ao começar a produzir-se como arte de vanguarda nos Estados Unidos, tomando impulso aos neodadaístas, à renovação do abstracionismo e às pesquisas da percepção como na Op art, o pop não deixa de manter uma linha de problematização do modernismo – por aí a influência de Miró testemunhada em Pollock. Mas todo esse conteúdo da vanguarda histórica européia está agora recontextualizado, seja devido a essas descobertas recentes, seja porque o ambiente cultural nos Estados Unidos está intrinsecamente relacionado à transformação social ensejada pela penetração da comunicação de massas.
59 Esse novo estatuto da superfície tende a ser mais – não menos – apto a interlocução do desejo, ele mesmo interpelado pelo Poder na sociedade chamada de abundância, isto é, modernizada no sentido da ordem transnacional-tecnológica do “late capitalism”. Tanto mais que essa vertente intercepta o boom dos movimentos contestatórios universitários no Centro, mobilizados pelo cenário de guerras que interrompem a Pax imperialista ela mesma calcada no esfriamento de um belicismo no entanto institucionalizado internacionalmente, com proveito para o complexo axial da indústria no império estadunidense, a produção de armamentos e de estratégia militar – sobre isso, o estudo de Julien é igualmente proveitoso.
60 Essas guerras se estendem como o movimento de descolonização na periferia, mas quanto à América Latina, como notamos, Jameson, ao periodizar os sixties, limitou-se a considerar sua problemática limitada ao apogeu da tomada do poder em Cuba. Contudo, elas envolvem o Centro sem intermediação, como no caso da contestação ao envolvimento bélico no Vietnã. Ou melhor, o que ocorre é a inviabilização de se manter a imagem clássica do capitalismo como algo irradiado por um sujeito da história, cuja lógica é a da racionalização da produção interna, e cujos efeitos apenas se estendem às margens, seja porque estas se colocam na sua rota de negócios, seja porque se tornam integradas no processo histórico universal que seria o dessa racionalização. Inversamente, torna-se claro a constituição ex-cêntrica do capitalismo, sua dependência da cooptação e controle na margem, justamente quando é o próprio funcionamento do capital que se torna descentrado e transnacional. Ao contrário do que Jameson supôs, desde os anos setenta o terceiro mundo não deixou de ser o pivô da contestação internacional, como o demonstra o planisfério em curso desde os anos noventa.
61 A meu ver, o central do pop é a concepção pela qual a comunicação de massas, assim como a consumação ilimitada, podem ser, ou resultam, afinal, sempre investidos como por mão dupla, seja pelo viés da imposição dos valores do sistema ao público, seja pelo viés inverso, do desvio ou aproveitamento revolucionário da forma, impostos pelo artista que seria inevitavelmente o instrumento da veiculação da imagem. Como já assinalei, esse aspecto neointervencionista – diverso pois, do “epater le borgeois” da vanguarda pioneira – ficou impossibilitado no neoliberalismo econômico. Porém é certo que um aspecto da consideração histórica do período mais candente da história, que propriamente inaugura a sua autoconsciência planetária como da integração norte/sul, iniciando-se desde a era pop, é sua continuidade até o momento atual. Não por ser minimizável a ruptura que assinalei, mas porque produções continuam e também porque são o intertexto do momento atual.
62 Quanto ao tropicalismo na sua relação com o novo, quando essa noção se torna complexa devido à repercussão do “atual” midiático na sua reposição semântica, vemos que seria importante manter a reserva que o estudo de Luis Morais Jr. sobre Caetano Veloso (“Crisólogo”), observa. A saber, que esse movimento estético não deve ser compreendido como uma unidade, inversamente à fórmula de Schwarz, mas como uma convergência de várias produções que em comum tem apenas a vontade da renovação formal e o engajamento “pop” no horizonte utópico da transformação social. “Tropicalismo lenta luta”, de Tom Zé, ou “Utopia Z” de Caetano Veloso, figuram aí como “prova de que 'Tropicália' em si não quer dizer muita coisa, ou quer dizer muita coisa, e cada um (dos que a fizeram) possui a sua, ou as suas”.
63 Nesse sentido o pensamento de Luís tem evoluído ao conceito de Complexistória, que desenvolve na publicação “Encontros nas esquinas das palavras”, texto que está no prelo, a tese do seu pós-doutorado em “estudos culturais” (2015). O texto veicula alguns anexos com produções minhas (poemas e artigos), que Luís solicitou. Na tese do pós-doutorado, que é porém exclusivamente criação dele, Luís novamente se confronta à política de bloco universitária, pela escolha temática que não se cingia ao interesse de padrãomidiático, inversamente desenvolvendo reflexão acurada sobre a filosofia da temporalidade, produzindo o conceito do “tempo aiônico”, inspirando-se em Deleuze porém com inflexões próprias. O tempo aiônico se torna meio de leitura do tempo na criação poética, que assim se produz numa relação como tempo que é inerente ao texto, inversamente ao tempo cronológico. A tese utiliza-se pois de exemplos de obras que ao ver de Luís entretecem relações produtivas com o tempo. Já o conceito de “complexistória” seria a complicação temporalizadora na qual não apenas os fatos históricos são a matéria efetiva dos processos conceituados. Mas também as intenções ou invenções recalcadas que se expressam de modos alternativos, não substituindo a reconstituição competente da História, mas em formas do imaginário que expressam expectativas da realidade.
64 Relaciona-se a complexistória, a meu ver, de certo modo, com o exercício de imaginação sobre o que poderia ter ocorrido na história se alguns fatores conhecidos variassem, como na sugestão de Weber. Porém Luís visando as produções do imaginário poético em vez do texto historiográfico. Em todo caso, o escopo aí é reconstituir não apenas o que existiu – mesmo que fosse o silenciado. Como também o que aquele que se expressa queria que houvesse existido, como exemplarmente a invenção da estória que conta o estrangeiro, em “O Ano Passado em Marienbad”, à mulher que ele quer seduzir, sobre o que teria sido a experiência dela mesma no passado. Não obstante não corresponder ao que ela se lembra, a imaginação cinematográfica fantasia a expectativa como a realidade, e a sedução se cumpre como deveria, a saber, na parole da seduzida que muda de discurso e convem que tudo era como ele pretendeu.
65 Reiterando que nao se trata de mero narcisismo ou a projeção da má consciência historiadora, censória da verdade. mas sim do que Luís hauriu de sua inspiração inicial em Castaneda, onde o sábio yaqui recorda o costume popular mexicano de contar a história vitoriosa de um líder da resistência anticolonialista, quando na verdade o que ocorreu foi a dominação colonial.
A “complexistória” é instrumento de leitura da cultura, visando a lenda como expressão de mentalidades e forças que são porém historicamente atuantes ainda que atuando na incidência de um resultado factual autônomo, que deveríamos lembrar porém ser só aparentemente definitivo. Assim a “complexistória” como conceituada por Luís, é algo paralelo à minha prática de história “palimpsesto”, na qual lido com textos da História, não com a lenda na cultura, porém para pesquisar o que o texto recalca em termos do próprio discurso – assim por exemplo, a exposição do processo abolicionista oitoscentista, com a lacuna sobre como os próprios negros pensavam e atuavam, sendo inversamente apenas a exposição da política oficial da época. A lacuna instrui portanto aquilo que precisa ser investigado e recuperado em termos de História não apenas idealizada. Em ambas as propostas, a “complexistória” de Luís e a minha história “palimpsesto”, se trata portanto de crítica do discurso recalcador dos elementos históricos efetivos.
66 A complexistória transcende a limitação da ciência como do seu objeto, e alcança as produções do inconsciente, oníricas, estéticas, como o desejo que circula e que não está portanto fora da História, não obstante a conservação da especificidade dos discursos. Um poema de Luís em seu blog “casamento com química”, na Internet, celebra assim o que teria sido a consciência politizada mais expressiva da personagem Carmem Miranda – que no entanto, não obstante ser símbolo exportado do “Brasil”, foi proverbialmente conhecida pela passividade reacionária. Mas como conceito, a complexistória desenvolve temas que a meu ver tem ressonância em Jaspers e na teoria do inconsciente, relacionando-se às questões da temporalidade não cronológica da infância.
67 Mas seria de se enfatizar quando ao estudo tropicalista de Luís, que a heterogeneidade interna que ele cobre a propósito abrange a reflexão crítica que dela tem se ocupado. O que conviria à constatação da maturidade do processo cultural nacional, documentando sua intercomunicação conquistada, sua autoconsciência. O tropicalismo teria sido tanto a arte final como o resultado possibilitado dessa trajetória.
68 Porém cabe ressaltar o que estamos constatandoo que ocorre agora, e quando o governo de esquerda tornara-se também realidade como o fruto na sua árvore, como o alinhamento midiático de artistas – não só tropicalistas como Caetano Veloso, mas também como Chico Buarque, relacionados à esquerda “bem pensante” - historicamente relacionados à resistência. O alinhamento à mídia que estou configurando traduzindo-se não por concessões diretas a esta ou àquela companhia, do que não temos documentação, mas pela agressão aos estudiosos da cultura brasileira e sua história, que não podem evitar a tangência de suas obras. Engrossando o cordão do abuso da lei, que é a distorção nítida dos direitos civis feita por utilização casuísta e/ou elitista da própria constituição, entretecido como de costume pelos latifundiários e outros defraudadores da consciência e do ser humano, apoiaram aqueles e outros artistas consagrados como da esquerda histórica, a censura. Por processos movidos ou apoio a estes, censuraram obras circulando com sistematização de informações entretanto há muito constantes na mídia – a quem não invectivam, obviamente.
69 As universidades e a produção de livros conhece agora uma censura inaudita, a de um público suposto exemplar da consciência alheia, o que é grotesco, e do próprio produtor cultural estudado. A única coisa que tal exemplaridade psicótica desconhece esplendidamente é o sentido da informação verdadeira, isto é, justamente não a que quer impor palavras de ordem, mas a que explicita suas fontes, metodologia, expondo aos receptores seus argumentos como o que possa interessar à interlocução e à crítica.
70 A propósito, hoje, 27 de novembro de 2017, data na qual estava mais uma vez anunciado o pagamento dos dois meses de salários atrasados dos funcionários públicos, o 13º do ano passado e o desse ano, não ocorreu o pagamento, e o governo nem mesmo anunciou a previsão de quando ocorrerá. Como registrei ao longo deste estudo, o roubo puro e simples dos salários dos servidores públicos brasileiros, professores, médicos, pesquisadores bolsistas, e demais categorias, está acontecendo desde há um ano, a suspensão dos aumentos salariais desde há mais de cinco anos, assim como nesse ínterim das verbas para funcionamento das escolas e hospitais, equipamento de polícia, merenda escolar, etc.
71 Sendo de amplo conhecimento, contudo considero pertinente registrar que os “funcionários públicos”, sendo empregados do Estado, ascedem ao cargo por prova (“concurso público”) que deve mensurar seus conhecimentos, escalonada conforme o nível do cargo para diplomas de escolaridade fundamental, médio ou superior. Concorrendo com milhares de outros profissionais, são portanto selecionados como os melhores de sua área. Na maioria dos casos o cargo exige “dedicação exclusiva”, especialmente de professores universitários ou de colégios profissionalizantes, isto é, não podendo ter outro emprego.
72 São estas pessoas, a elite da inteligência e da consciência dos direitos nacional, que estão sendo violentamente assaltados naquilo que é o direito mais básico reconhecido em todo o mundo, de recebimento de salário por contrato previamente estabelecido com o empregador e comprovados serviços executados.
73 Não existe qualquer justificativa para o ato insano dos traidores dos milhares de seres humanos que estão assim expostos, ato que deve ser considerado de tortura, não só devido às privações óbvias a que estão submetendo os trabalhadores dos serviços públicos, como porque não há qualquer providência do governo para impedir a cobrança feita de modo escandaloso e brutal por operadoras terceirizadas, de contas atrasadas, não obstante ser óbvio que as firmas cobradoras, geralmente multinacionais, assim como as instituições de empréstimos bancários, estão lucrando e muito com os juros acumulados pelos atrasos. Ato de violência inominável, ato de responsabilidade do presidente Michel Temer e de todos os que tem atribuição para o coibir e até agora não o fizeram. A propósito, ver o Livro 2 onde listei os abusos que as multinacionais que privatizaram setores de serviços básicos estão perpetrando (independente de atrasos salariais), como contas estapafúrdias, maus tratos ao cidadão no telefone, etc., configurando regime de extorção monetária e opressão de atendimento, ao que os atrasos acrescem neoescravismo.
74 Que espécie de discurso os impulsiona, se obsessivamente propagandeiam na televisão o desejo de verem os profissionais letrados, os mais qualificados do país, exercendo atividades do trabalho indigente, de vendedores ambulantes de salgadinhos, faxina, etc. - tudo que cheire atividade braçal desqualificada, tendente ao comércio ilegal, sem pagamento de imposto ou fiscalização da qualidade, com ódio conspícuo à inteligência, com vanglória de se estar frustrando as carreiras racionais, zombando-se do conhecimento – inversamente, jactando-se da “escola” de samba, como da “autoridade” do senso-comum, bem ao contrário do que previam os “estudos subalternos”, e principalmente bem ao contrário do absurdo foucaultiano de que o pobre (trabalhador) é honesto porque a burguesia o convenceu da – suposta por ele como tal – mentira de que o bandido era o “outro” pobre (não trabalhador).
75 À pergunta dos estudos culturais “Can the subalter speak”? Podemos responder que por um lado parece capciosa – pois “quem” fala é o ser humano, não havendo qualquer língua do “subalterno”, mas por outro lado, a resposta que aprendemos é não, posto que na experiência que temos, se não se impede que tenha comportamento incivilizado no local de trabalho contra a população pagante, a partir da simples manutenção da segurança como da legalidade, só o que faz é repetir o instinto de morte do sadismo. Obviamente porque ao invés de letramento e instituições de governo saudáveis, tudo o que se tem visto há anos é o peleguismo e o oportunismo mais nojento que se utiliza vampirescamente da ignorância crassa por meio de líderes religiosos, partidos, crime organizado internacional, mídias, etc.
76 Não há nada mais incongruente com o comportamento do ilegalista pelego nacional, de partidos corruptos ou igrejas populistas, como característico de caixas de supermercado e motoristas de ônibus do Rio de Janeiro, êmulos da baixa burguesia suburbana “globalizada”, do que o discurso de que o crime e das taras deles é algum reflexo de situação social de carência. Pelo contrário, se jactam do crime como de comportamento da suposta autoridade do subalterno ou do membro da igreja sobre a população que pensam vilmente subjugar pela força física. O comportamento sádico, numa população intencionalmente desletrada, visa testemunhar a aplicação de castigos físicos ou assassinato sobre os subjugados, não nutrindo qualquer admiração por meios legais de consenso ou respeito à pessoa humana. Preferem o quadro de um subjugado e um déspota, ao quadro de duas pessoas em situação de igualdade legal do status.
77 A idiotice do “líder” é pervasiva. A jactância é total quando se prova ou acusa – não admitem erro algum, ainda que não significando que neguem o que fazem, pelo contrário, porém o monopólio do erro é do subalterno contra quem não se pode acusar nada sem que se esteja atuando o direitismo ou elitismo abjetos. O que é abjeto é ser sujeito, não fantasiar ser a coletividade. A ordem é a preferência do “outro” sobre a vida do sujeito – mas numa inversão fantasística óbvia, pela qual o “outro” é a identidade (outro = outro) mas o sujeito é o que abominam como a liberdade possível. Não tem qualquer consciência de que as decisões, opiniões e privacidade alheia não pertencem a coletividade alguma, mas o respeito da lei prevê as garantias dos direitos individuais. O mais nojento é o comportamento sexual fetichista que corrompe a juventude, com o que todo o aparato da articulação governo-multinacionais-mídia tem colaborado de modo insidioso.
78 Porém não são os corrompidos vis jactanciosos quando se trata de quem possam ter medo, como quando se trata do imigrante europeu, ou o técnico de computador, pelo contrário, esses são “os que sabem”. Paralelamente toda a canalização da produção rebate-se nos delírios de grandeza da prostituição, “beleza” (imaginária/ninfeta), mídia, etc. O Brasil é hoje capital mundial do crime, resultado do neoliberalismo econômico, que deve ser imputado a todos os que internacionalmente colaboraram para isso ao longo dos anos do governo Obama, Pt, etc.
79 Não creio em justiça que condenasse aqueles que agissem em legítima defesa da vida contra esses assaltantes dos salários assim como dos criminosos comuns do cotidiano. A constituição não pode garantir os direitos daqueles que negam seguir a sua lei assim negando os direitos alheios. A permanência de um governo anti-constitucional – como o que nega a prioridade dos salários e verbas do serviço público - implica obviamente reconhecermos estado de suspensão da democracia e da legalidade, estarmos sob uma ditadura genocida.
80 Escusado registrar não ser crível o argumento de que não há o montante dos pagamentos. Repetindo, contra a nojenta publicidade, os servidores do Estado não se limitam a velhos, mas mesmo que se limitassem seriam pessoas tão integrantes da cidadania como quaisquer outras. Repetindo, contra a parvoíce de indivíduos tão cínicos que ao declararem o resultado de anos consecutivos de neoliberalismo econômico oficial – desde FHC – em termos de caos financeiro, vão caretear contra o Estado como se fosse este o culpado, velhos aqueles que ainda meramente declinam o vocábulo, e a única providência necessária fosse implantar o neoliberalismo econômico: porém a verdade é que se há caos constatado, a culpa é do regime instituído, o neoliberalismo econômico, que assim está falido, já não tem respaldo científico, não é a doutrina da atualidade, não passa do lixo racista positivista do século XIX. Contudo não havendo nenhuma promessa de mudança nos discursos dos candidatos às eleições.
81 Repetindo, para desvanecimento das pretensões dos apartheidistas, a obsolescência da mentalidade não se mensura pela idade cronológica. Repetindo contra os assassinos, em todo o mundo o critério de desenvolvimento nacional é a longevidade da população, ao contrário do poder pedófilo representar qualquer prosperidade, possibilidade de progresso ou novidade. Na atualidade não contamos já com “ismos” utópicos, nem os desejamos, mas compreendemos que fora da liberdade democrática não há objetivo “político” - na acepção do que contempla a igualdade de status e a heterogeneidade existencial. Além disso, porém, não há nem nunca houve qualquer antítese entre a democracia e o uso da força na defesa dos direitos dos cidadãos contra aqueles que usam a força ou a fraude para desrespeitá-los e dominá-los.
82 Mesmo que não considerando inocentes os acusados de corrupção, não consideramos já que a “lava jato”, a comissão que tem se encarregado da prisão de inúmeros políticos assim acusados – porém sem imputação de multinacionais, ou sem que os abusos monstruosos que reportei nesse estudo por parte de multinacionais contra a população sejam sequer investigados – esteja isenta de cumplicidade com a operação de roubo dos salários. Não podemos deixar de configurar cumplicidade, porque os membros dessa comissão tem poder legal para impedir a suspensão dos pagamentos salariais porém não o exerce de modo a impossibilitar o quadro dos atrasos escandalosos. Demais aparelhos do jurídico também negaram justiça à causa da constituição e dos seres humanos que estão passando fome ou sendo despejados, dependendo da caridade pública ou do gasto de suas últimas economias, até onde o possam, por terem servido à população do país ao longo de suas carreiras. Como ressaltei, a constituição ordena prioridade ao pagamento e verbas dos servidores públicos, e qualquer ser humano consciente obviamente não o negaria. Tais profissionais de justiça, sendo eles mesmos servidores públicos, porém advogam em causa própria e os juízes concedem ordem de pagamento ao governo somente a eles mesmos, profissionais de justiça, negando-a quando se trata das demais categorias.
83 Outrossim , o governo continua recebendo os mesmos impostos e os aumentaram, provavelmente continuam as mesmas concessões e isenções de impostos a multinacionais que se multiplicam na nação, não tem dívida externa, sustenta propaganda fascista em displays por todo o país, sustenta importações de bugiganga digital que não cessaram, etc.
84 O que se define formalmente como neoescravismo, porém sendo obviamente a desmontagem do que restou do Estado constitucional brasileiro, perpetrada pela quadrilha internacional de bandidos que capitaneiam a dominação info-midiática assim designada globalização, que nada configura além de recolonização odiosa dos povos.
85 Aqui, portanto, conclamo a todos os chefes de Estado conscientes, não-corruptos, e aos integrantes honestos das instituições internacionais, que intervenham energicamente contra o terrorismo ditatorial brasileiro que está sendo perpetrado contra milhares de servidores públicos, num ato de total negação dos direitos humanos básicos, perpetuando-se há mais de um ano no país. Conclamamos nesse sentido de que se exija a regularização dos pagamentos e a restituição integral dos pagamentos atrasados, imediatas, sem qualquer adiamento possível dado o caráter inconstitucional da suspensão, além da retratação ao público por tê-lo mantido sem comunicação precisa acerca dos seus direitos salariais por tão longo tempo.
86 Este estudo informa que nas previsões das eleições presidenciais do ano que vem, o candidato neonazista local, Bolsonaro, está com expressiva margem do intenções de voto conforme alardeia a mídia, contando ainda com o apoio declarado do General Mourão, na ativa, que defende a tese de novo golpe militar. Os concorrentes além dele são o pt e capitães de indústria info-midiática ligados às multinacionais. Não há ninguém dentre eles que tenha tomado a palavra para protestar contra o neoescravismo.
87 O que ensejei mostrar neste longo escrito é que já não há qualquer justificativa na ciência contemporânea para o abuso dos direitos da cidadania. Não há teoria qualquer que possa definir condições originárias do ser humano em termos de características dominantes dentre variações possíveis. O conhecimento objetivo e a consciência política não foram adquiridos a partir de um foco de irradiação no tempo e no espaço, mas vem produzindo-se a partir da ruptura da homogeneidade, pelo “encontro de culturas” que assinala o processo antropológico da integração norte/sul, e dependem da descoberta da alteridade. A genética não é determinante sem relacionar-se às variáveis histórico-sociais.
88 O critério de desenvolvimento já não se limita pelo potencial bélico ou domínio tecnológico e sim pela qualidade de vida da população, que se mensura pelos itens de bom nível de habitação, privacidade da pessoa física, acesso a atendimento de saúde, acesso ao letramento em todos os níveis e aos bens culturais, boa alimentação, bom nível de renda, boa habitação, etc. - conforme os itens mensurados na avaliação do “índice do desenvolvimento humano” (IDH).
89 A conscientização da necessidade de restrição da natalidade de modo a evitar super-população, a qualificação da mão de obra, a existência de produção cultural em alto nível e de livre expressão assim como livre consciência crítica dos problemas, a longevidade da população, a autonomia das escolhas pessoais e a ausência total de restrição à singularidade e expansão da personalidade pessoal, a privacidade, a atribuição dos direitos constituídos, tudo isso está basicamente instituído como o que o Estado nacional tem o dever de promover e garantir, como aquilo mesmo cuja garantia é sustentada pelos impostos e observância da lei constitucional pela população.
90 Todos estes quesitos de política governamental, e o conceito de desenvolvimento humano pela qualidade de vida, são incompatíveis com o que está acontecendo na Globalização como política de avassalamento do Estado, anti-constitucionalidade conspícua, alienação da propriedade nacional, alienação da privacidade por “personal computer” de mercado perfeitamente intrusável, etc. Também não são pauta de qualquer plataforma das candidaturas que estão sendo apresentadas às eleições. Não há qualquer razão para acreditar que dentre mais de cem milhões de brasileiros, não haja quem compreenda com clareza o que é a legalidade, o bom governo, e os direitos humanos. O que urge é a renovação dos quadros de representação civil, que devem ser livres do pré-condicionamento info-midiático.
91 Aquilo de que necessitamos, é a consciência da geoegologia como refutação de qualquer superioridade do Saber colonizador, de modo a podermos romper a barreira da contra-informação, sobretudo na atualidade desfazer o mito de que a micro-informática é algo bom, sendo inversamente banditismo de mercado. O que precisamos se queremos desenvolvimento humano é derrubar os dispositivos de lavagem cerebral e dominação cultural do imperialismo, atualmente instrumentado de modo cínico por mercado de “search” “internet”, monopólio de escrita e letramento por aparelhos ilegalmente intrusados, com disfunções óbvias do aparelhamento, computadores “pessoais” com pré-configuração de mercado. E podermos estar certos quanto ao fato dos cidadãos estarem bem informados sobre a realidade humana, histórica, e social.
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IV) NOTAS
Notas do Livro I :
Nota 1 : Tradução adaptada dos versos de Mannes :
“Sentindo-se lerdo, sentindo-se doente?
Tome uma dose de Ike e Dick”
“Philip Morris, Lucky Strike
Alka-Seltzer, eu gosto de Ike”
“Salve a B.B. D. & O
que disse à nação para onde ir
que negociou pela propaganda
como nos vender um novo presidente”.
Nota 2 : O almirante Mahan é referenciado no artigo de Gerth e Mills sobre “A mudança histórico-social”, que faz uma resenha das teorias da modernidade conhecidas. O artigo consta em “Teorias da estratificação social” (São Paulo, Companhia editora nacional, 1978, p. 29). por seu brilhante estudo sobre o papel do poder marítimo no conflito de Napoleão e Inglaterra. É de fato exemplar a meu ver, mais do que de teoria da modernidade como era da expansão do poder econômico, como sugerem Gerth e Mills. É na verdade como eles mesmos evidenciam, uma tese do poder econômico moderno como imperialismo, logo, como militarismo. Pois não foi apenas a “barateza do bloqueio” que fez a superioridade bélica da Inglaterra, mas sobretudo “a aquisição de possessões ultramarinas pela Grã-Bretanha”, conforme demonstra o estudo do Almirante Mahan.
O tema do colonialismo e imperialismo é obviamente importante ao mundo inteiro, porém a tese do Almirante Mahan sobre a Grã-Bretanha sendo particularmente interessante à história do Brasil, já que foi a estratégia inglesa contra Napoleão que pressionou a vinda da família real portuguesa para o Brasil, interferindo com o processo de independência local, que já vinha de algumas décadas antes a partir da organização dos movimentos de libertação nacional. Assim resultou na dominação imperialista da independência pífia, da mesma dinastia coloniazadora.
A tese da modernidade como expansão do poder armado militar, de E. A. Ross e E. M. Early entre outros, é um complemento da tese da expansão econômica, como a meu ver corresponde ao que o Almirante Mahan pensou demonstrar. Mesmo que seu estudo enfatizasse que frente aos elementos que destacamos da estratégia inglesa, de nada adiantou a imensa capacidade militarista de Napoleão ou a superioridade técnica do exército francês.
A tradução do “poder econômico” moderno por “possessões imperialistas”, é tese da atualidade verdadeiramente muito mais pertinente que a cooptação identitária branda à Foucault – que, como vemos por Vigiar e Punir, poderia fazer um piquenique com Lipovetski, em vez de ser considerado tão oposto a tal basbaque cantor das branduras da sociedade industrial.
Assim também os estudos que aqui desenvolvo mostram a neurose discursiva da esquerda anti-estatal, que assim mascara o fato da dominação como exclusivamente imperialismo – porque desse modo esperava ela demonstrar teses do progresso psicossocial ocidental, como protagonista da ciência social ocidental, a ser imposta sobre o terceiro mundo como modelo. Assim como venho afirmar, o “Imperialismo” não é só poder econômico mas principalmente dominação cultural, e como todo mundo já sabe há décadas, atuante por igual de esquerdas e direitas corruptas contra os interesses da sociedade de direitos civis representada – e não antagonizada – pelo Estado constitucional.
Minha tese da modernidade, como exponho nos livros 2 e 3, é pois instumento de crítica do discurso neurótico que designo “geo-ego-logia”, ali definido e desenvolvido.
O artigo de Gerth e Mills como referenciei, consta na coleção de artigos organizada por Otavio Ianni, intitulada “Teorias de estratificação social, leituras de sociologia” . Não obstante apresentar ele mesmo trabalhos sociológicos e históricos importantes, como sobre a “doutrina de segurança nacional” vigente na época da ditadura, Ianni não acertou a meu ver na perspectiva sobre a globalização (“Teorias da Globalização”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1996), como aliás ocorreu com vários bons autores nacionais, o que decorre entre outros fatores da reiterada atitude da esquerda totalmente sem crítica do que até na União Soviética já se considerava o “fetichismo da tecnologia” (Ver Romanova, A Expansão dos Estados Unidos na América Latina, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, p.66, mas interessante sendo todo esse trecho intitulado “os Estados Unidos criam uma base social na América Latina”, p. 64).
A atitude atávica do progressismo esquerdista temperado apenas pelo obsoleto gramscismo de um “consentimento” que inexiste, ao qual até mesmo a própria dita esquerda se esmera por impedir que seja efetivo, tanto mais continua pregando Gramsci, Deleuze, etc., resultou pelo governo de esquerda associado à Globalização, na pior baixeza a que se tem submetido a inteligência humana, política suja a nível de Orwell, porém contra a cidadania detentora de garantias do Estado democrático.
Os cidadãos estão sendo mero apêndice de programas microsoft utilizados com certeza por redes de mafiosos com fins de dominação sobre a vidas privadas, sabotar textos, destroem arquivos, plagiar com fins opostos aos da pessoa que escreve, provocar stress, esgotamento nervoso, estafa, doença cardíaca, etc., - ou seja, matar simplesmente. Os programas Microsoft - pré-configuração de pacote em vez de programação particular solicitada a profissionais brasileiros conforme a necessidade do cliente - por si mesmo são porém nada além de sucata insultuosa, totalmente inútil além de perniciosa por formatação de logomarca e ideologias nazistas sobre a escrita, com disfunções óbvias visando passar doença mental como aprosexia (impossibilidade de concentra atenção), dislexia (imcompreensão de textos), etc.., quando se trata de celular (watsapp) geralmente está embutido desde a loja com máfia de prostituição que invadem o arquivo de computador com centenas de fotos de prostitutas, etc.; usam uns gatos pingados para dizerem que com o computador se pode “ganhar dinheiro”, porém o que está acontecendo é o caos financeiro devido ao monopólio da importação e circulação monetária para indústria de tintas de impressão, manutenção de computador, celular, etc. tudo isso que o país está impossibilitado sempre mais de produzir, etc. – o “etc.’, significando que não admitimos que se diga que não se sabe sobejamente do que se trata.
Principalmente pernicioso como aparelhagem de invasão da privacidade, derrelicção da pessoa, contra-informação, impedimento do raciocínio e da escrita, avassalamento da cultura, disseminação de padrões corruptos, doença mental, etc – tudo num discurso que visa, como é do costume dos capitalistas, vender a “coisa” micro-informática como se fosse um fenômeno da natureza personificada a que precisa se submeter a espécie, não o produto de escolhas políticas que estão sendo porém viciadas pelas fraudes imperialistas do poder econômico. Reitero, como tenho aposto em vários escritos, que nunca me foi pedida nem por mim concedida qualquer licença para intrusão de terceiros em meu computador, uso de imagens, manipulação de relações pessoais ou propaganda, e quanto às provas de intrusão, ver nota 37, Livro 2. O uso do computador afinal é impossibilitado – informo que enquanto estou agregando as notas, o instumento de localização de palavras está sabotado, obviamente, não sendo defeito, pois funciona intermitentemente. Um notebook comprado na Tijuca a mais de 2.000 não se pode utilizar porque destrói os arquivos, já tendo sido consertado, obviamente por ser intrusado por bandidos nojentos que visam impedir-nos, assim como a linha do telefone, etc. Tenho solicitado pena de morte contra invasão de computador – o que o abjeo imperialismmo planta na internet no search são apenas elogios a hakers, em vez dos bons usos do computador, da legalidade e da cobrança a empresas que circulam produtos podres.
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Quanto mais débil mental o comportamento planejado do criminoso cooptado pela rede de dominação, mais pensa que está “fazendo” alguma coisa ao invés de nada. O pior foi que a utilização escravista dos maus aparelhos microsoft está historicamente protagonizada pelo pt, a esquerda standard do país, durante as quase duas décadas recentes do governo. A esquerda local de fato até hoje não assimilou a crítica do business de mídia como meio principal do capitalismo.
Como exemplo da atitude de esquerda, Heloneida Studart, que se notabilizou pelo feminismo marxista, achava que a televisão era um instrumento de modernização contestador da “autoridade dos pais”, de modo que as mulheres que não aprovavam programas eram ali consideradas como a “passiva”, que “deseja a imutabilidade do mundo”, a quem “tudo lhe contesta a autoridade” assim como o vizinho cujo corte de cabelo o filho copia, e principalmente que luta pelo respeito à privacidade apenas “no desejo de manter valores que a sacrificam”. Essas mulheres são classificadas juntamente com as hitleristas da Alemanha nazista.
Quanto à defasagem das estatísticas femininas em testes de moralidade, é o tema relacionado à minha crítica de Benhabib. Aparece tratado por Studart ainda na década de setenta, rotulando a “mulher” como “retardada” - sem lembrar que não são todas as mulheres que não passam no teste, apenas um número médio maior que o dos homens reprovados.
Além disso, ela não defende que o motivo da defasagem estatística nos testes seja educação, como quer Kohlberg e eu mesma considero, nem que seja natureza, como critiquei Benhabib e Carol Gilligan por acreditar, isto é, segundo elas, que o teste é que está errado e que a mulher tem “mentalidade narrativa”, originária, que julga a própria questão apresentada – o que elas fazem dessa “narrativa” porém é negar a reciprocidade como fundamento dos direitos humanos, o que me parece obviamente impossível. Mas ninguém na psicologia considera o teste de juízo moral como teste de sanidade mental. Studard, inversamente, supõe que em vez do que a seu ver se deveria, tratar tais mulheres supostamente julgadas “retardadas” com psiquiatra, para um “tratamento de reabilitação como fazem com excepcionais”, entroniza-se a mulher como dona de casa, o que ela ainda aceitava ser de fato o papel de “rainha do lar”, em vez do serviço da casa, cuidado dos filhos, etc. - negando portanto, como parlamentar trabalhista de esquerda, o trabalho feminino e os direitos que deveriam ser correspondentes. (“Mulher, objeto de cama e mesa”, edição não comerciável, Rio de Janeiro, Vozes, 1974, ps. 1; 22, 23)
Em meu “O pós-moderno; poder, linguagem e história” (Rio de Janeiro, Líteris, 2012, p. 62) analiso o discurso contraditório da esquerda que, como o por mim citado Thabet, culpava as personalidades de jovens sonhadoras e poéticas do terceiro mundo, se afeitos à literatura, pelo fato da dependência tecnológica, o que seria a seu ver contrafactado se – vale repetir – “uma maciça campanha publicitária” que pudesse usar “todos os meios da comunicação e todas as vantagens da tecnologia”, formatasse literalmente as personalidades. Não se sabe como, pois no discurso dele a formatação aparece como resultado imediato do haver da mídia autoritariamente dirigista partidária, que lograria reduzir afinal todos os jovens à personalidade dos engenheiros, exatas, firmes e criteriosas – quanto aos não jovens parece não importar ao argumento. Aqui agrego o registro do seu receituário “desenvolvimentista” , abrangendo a reforma das línguas faladas no terceiro mundo, pois a seu ver, para virmos a produzir tecnologia, precisaríamos da “transformação e modernização do idioma num instrumento de expressão funcional e prático”, para a qual “considerações religiosas, fanátias e tradicionais não deveriam ser um obstáculo”. Bem inversamente a Jameson, é a esquerda não nacionalista que confunde público e privado, o que seria de se esperar pela origem positivista. A “análise” de Thabet da suposta inadequação linguística do terceiro mundo à tecnologia, como consta no artigo citado, visa especialmente o árabe.
A contradição manifesta é que o referido discurso aparece num livro de artigos sobre como o terceiro mundo é dominado pelo primeiro, mencionando-se entre outros aspectos do imperialismo até o “projeto camelô” da Cia como formatadora de curriculuns escolares na margem, o qual foi desativado na época, por ter vazado a partir da recusa do Chile aceitá-lo, assim tornando-se criticado por intelectuais do mundo inteiro (F. Tabak, org. “Dependência tecnológica e desenvolvimento nacional”, Rio de janeiro, Pallas, 1975; sobre o projeto camelô, cujo objetivo era impingir o behaviorismo e a ideologia contra-revolucionária, p. 25, no artigo de Burhop; O artigo de Thabet é elogioso para com Kennedy à p. 63, omitindo que perpetrou o golpe militar no Brasil m 1964, prega a transformação linguística à p. 67 e a formatação midiática das personalidades à p. 73. A introdução por Tabak repete várias vezes o epíteto de “atrasado” aos países do terceiro mundo.
Não tenho a menor dúvida sobre o reconhecimento nítido de todos os pontos do receituário de Thabet na política de informática da Globalização brasileira ao longo dos anos recentes, que se estende da info-midia à educação escolar. As considerações presentes não contradizem o que mais à frente (Livros 2 e 3) reporto sobre os setores da esquerda que antes da Globalização estavam, inversamente, se conscientizando da dominação cultural e assim renovando o marxismo – as quais estão hoje sofrendo os ataques de banditismos vis.
Notas do Livro 2 :
= nota 1
A atuação de Plinio Salgado fez-se notável no campo cultural por ter sido ele o líder de um movimento estético modernista, o “Anta”, besta de nome científico “Tapirus terrestris”, também designado “verde-amarelismo”, que se antagonizava aos participantes da Semana de Arte Moderna de 22, especialmente Oswald de Andrade, estes porém, com seus congêneres, os verdadeiros modernistas históricos que são marcos em vários ramos estéticos (poesia, literatura, pintura, música, arquitetura, escultura). Os modernistas históricos realizaram uma revolução cultural com um sentido peculiar irredutível ao modernismo europeu, por utilizar pioneiramente fontes culturais antropológicas brasileiras, como do índio e do negro, aglutinando um ramo de pesquisa estética permanente, com influência em vários movimentos culturais posteriores a partir do “manifesto pau-Brasil”. Também por pensarem o primitivismo não como “ideal-tipo”, mas em termos de miscigenação como vocação democrática, e assim também princípio de renovação na ciência da História local. Seria interessante lembrar que esta peculiaridade é um fenômeno americano latino, conforme Otávio Paz salientou ao especificar que o modernismo inverteu a direção da importação cultural, indo das Américas à Espanha, já não o contrário como típico anteriormente.
Inversamente, 1926 assinala a ofensiva integralista fascista na cultura, com o “Anta” lançado contra o modernismo “pau-Brasil”. A proposta de Salgado era primitivista nacionalista mas pregando identidade nacional unitária, de tipo fascista, que teria supostamente na idolatria do Tupi o referencial. Obviamente só o símbolo escolhido já mostra o grotesco do integralismo, sendo “anta” signo de burrice ou grosseria, inversamente ao comum dos animais nacionais imaginados prestigiosos. O tipo de política segregacionista que na Globalização tem se verificado, consistindo na cooptação de “minorias” como negros, índios, mulheres, etc., não para extensão da cidadania democrática, mas para se aproveitar de complexos de inferioridade , de modo a promovê-los a agentes racistas do fascismo. A minoria assim não veicula sua história e heterogeneidade, é agrupado na base de suposta igualdade de modelos “ideal-tipo” que apenas repetem o estereótipo inventado pelo fascismo, servindo como aparelho repressivo dos que não são cooptáveis e geralmente contra a cidadania esclarecida, segundo o esquema imperialista conhecido como “regra indireta”. Além disso, como característica especificamente nazi-fascista difusa, os grupos repetem o mesmo, votando igual, mas cada grupo se supõe o originário “superior”.
Não por acaso, na redemocratização, em inícios dos anos noventa, estava havendo a revalorização acadêmica de Oswald como pensador democrático. Mas a Globalização de inícios dos anos dois mil assinalou um componente reacionário similar à atuação golpista do “Anta” que Dreifuss relatou sobre o líder ditatorial da CIA . Componente que se espraiou para alteração conspícua da linguagem de mídia, centrada no baixo nível com ideologia nazista, dominação da sociedade, censura na Universidade por vários meios ainda que não estatais, partrocínio e/ou impunidade a grupos e práticas declaradamente nazi-fascistas, etc. Neste estudo relato à frente as intoleráveis condições caóticas presentes. O livro 3 explora a questão cultural relacionada ao elemento político.
nota 2 .
Não obstante todo aparato da fraude a alto custo, o resultado da eleição de 1962 não favorecer de nenhum modo os candidatos do IPES/IBAD. Porém não é certo deduzir que a vitória das forças nacionais favoráveis a Goulart foi o fator que conduziu ao golpe reacionário. Como se pode ver pela informação de Dreifuss a propósio de Mourão Filho. As duas fases, eleitoral e golpista militar, estavam planejadas desde antes da eleição (p. 374). E se Mourão Filho atuava sem integração ao IPES, quanto ao planejamento deste seguia o General Golbery do Couto e Silva, para quem o golpe só teria sentido se a opinião pública se mostrasse favorável, o que evidentemente seria o esperado das eleições (p. 375). Como o resultado eleitoral foi contrário ao golpismo, a exposição fica algo ambígua, porém parece que o andamento do texto dreifussiano autoriza deduzir que a seu ver o IPES confiou na própria ação de mobilização das massas. Em todo caso, esta ação estava coordenado ao armamenento das classes anti-goularistas (ver nota 3).
nota 3
Não obstante a impressão de hegemonia de esquerda que o estudo de caso real reporta, Dreifuss também registra acuradamente a forte penetração da mentalidade anti-goularista e anti-esquerdista nos meios estudantis, protagonizada por estudantes de classe média-alta e alta. A grupos espontaneamente formados como o GAP (Grupo de Ação Patriótica) de Aristóteles Drummond, ressoavam os esquemas de sabotagem coordenados por divisões especiais do IPES cujos responsáveis eram do alto escalão nas forças armadas e segurança pública. Os esquemas resultavam em ações de impacto contra pessoas, eventos e atividades consideradas reformistas democráticas e apoiadas pelo governo federal goularista. O contingente utilizado da segurança pública e forças armadas era enorme, de centenas de agentes. Quanto ao GAP, foi contatado pela Embaixada Americana e CIA para receber apoio e material de divulgação doutrinária, logo se tornando armado, como aliás vários protagonistas do golpe incentivavam aos seus correligionários. Não obstante a conspiração em marcha, o governo federal logrou investigação da PM, que efetivamente provou a criminalidade das ações do GAP e vários grupos paramilitares, atingindo ainda atividades da deputada lacerdista Sandra Cavalcanti. Porém, conforme nota Dreifuss, o julgamento do caso ficou atribuído a um conspirador golpista, o General Sardenberg, que liberou a liderança do GAP assim como tornou a captura dos demais de nulo efeito (p. 383 e seguintes).
nota 4
Os números do genocídio são de difícil cálculo, devido à proteção de que usufrui até hoje o esquema de segurança ditatorial. A disponibilização dos documentos secretos devido ao tempo decorrido tem sido sempre negada pelo Congresso. Conforme fontes, relativamente à América Latina, só na Argentina o número provável varia de 30 mil a 10 mil vítimas.
nota 5
Estudos sobre a resistência cultural à ditadura ão importantes, e deveriam estar integrados aos curriculuns, tanto pelo conhecimento dos referenciais que cobrem, como para pesquisa e crítica do ambiente teórico, discurso, psicologia, etc. O texto de Schwarz sobre Cultura e Política é bastante abrangente, sendo sua tese citada em Deleuze (“Cinema 2”). Porém atua mais como crítico marxista do movimento de renovação cultural. Mariângela Alves de Lima (Os grupos ideológicos e o teatro da década de 1970) cobre com minúcia e boa compreensão os grupos de teatro que se formaram como estratégia de resistência, alguns alcançando importância histórica. Ana Mae Barbosa (Arte-educação na cultura brasileira) estuda as atitudes despreparadas que se revelaram no ambiente dos educadores que deviam reorganizar a escola na redemocratização, quando foram revogadas as intervenções diretas do governo ditatorial. Muito mais referenciais deveriam se tornar conhecidos. A propósito ver o livro 3.
nota 6
Ver nota 1 a propósito da trajetória cultural do modernismo, com influência na política. Sem dúvida, o modernismo histórico aglutinou a independência cultural anti-colonialista-imperialista e da nacionalidade nesse sentido libertário, que colhe frutos na conscientização patente da era Goulart. A pós-modernidade emerge pela necessidade de lidar com o limite das definições do processo de emancipação política pautadas pela premisa de que isso basta sendo o processo em si mesmo. Ou seja, podemos definir o limite do “modernismo” oswaldiano na sua crença na universalidade da “revolução dos gerentes” à Burnham. Nesse sentido visamos a ironia do modernismo como ao mesmo tempo a emergência da palavra das singularidades culturais na vigência dessa premissa. Também complica esse paradoxo o forte impulso do marxismo universalizante naquele momento de conscientização das nacionalidades do terceiro mundo. Ver livro 3 a propósito de Oswald, o modernismo e o pós-modernismo.
Nota 7
Ver nota 3 a propósito da participação golpista de Sandra Cavalcanti, sendo importante lembrar que na redemocratização ela atuou como força de voto nas eleições.
Nota 8
Tem havido processos contra invasão de privacidade e manipulação identitária de pessoas comuns por diretores de mídia, o que configura o que poderíamos designar panopticum utilizando o termo do projeto de Benthan de visibilidade penitenciária total – mas como visibilidade clandestina sobre a vida privada – o que é aliás incentivado por meio de propaganda de “droler”, meios de espionagem eletrônica, etc. Sobre a exacerbação desse processo de degeneração social pela componente micro-informático, estudamos com minúcia à frente. Sobretudo cabe ressaltar que aqueles que se utilizam de mera cópia da vida ou de documentos, estudos, produções, etc., de pessoas roubadas, para se vangloriarem de serem artistas famosos, reduzem-se apenas a ladrões despudorados, cabendo participação dos lucros que auferem por aquelas pessoas que plagiam, assim como atribuição verdadeira da autoria.
nota 9,
Quanto aos juros pagos aos poupadores, inversamente aos 10% usuais para empréstimos, é de 0, 5 %. Os processos contra a ação inconstitucional do governo roubando o salário dos servidores são indeferidos por juizes que consideram estarem estes apenas sofrendo um “aborrecimento” - conforme noticiado. Quando o que deve acontecer é condenação dos fautores da inconstitucionalildade por perdas e danos daqueles a quem estão submentendo ao roubo.
nota 10
Também as leis não eram discutidas por todos, e sim só pela assembleia que devia votá-la. Todos dentre a população masculina e livre eram alguma vez sorteados para participar de cargos públicos, o que diferencia nosso processo de representação, mas por isso mesmo é o atual o racional, uma vez que consideramos a heterogeneidade subjetiva. Mesmo assim, a meu ver, deveríamos impugnar a etimologia da “democracia” como governo do “povo”, já que o “demos” de que se tratava naquele contexto da reforma grega, não significava necessariamente “povo”, e sim “região da cidade” ou “circunscrição terrotorial”, que foram instituídas por Clístenes (508, ac.) e por ele reunidas em dez “tribos”. Clístenes assim procedeu instituindo a democracia, “tomando as tribos como unidade hásica da reorganização do governo”, conforme Ellauri e Baridon (Historia Universal, Grecia, Buenos Aires, Kapeluz, 1958, p. 63). Pela ordenação dos demos, não implica tampouco que sejam as regiões ou tribos diretamente que governam , mas sim que o governo é do país que se organiza em demos ou tribos. Clístenes operou assim a mudança do status dos cidadãos, que se tornavam integrados pela região (“demos”) em que habitavam, dotadas de igualdade perante a lei, já não pela classe diferenciada dos nobres e plebeus como na era arcaica, ou de ricos e pobres como na reforma anterior de Solon.
Nota 11
As Notas conceituais que Dreifuss agrega ao seu já citado estudo (“1964, a conquista do Estado”, e que são importantes à minha crítica pós-moderna como ideias oriundas da sociologia moderna, constam à p. 40 (sobre (“bloco histórico”) e p.43 (sobre “populismo”) .
nota 12
Um exemplo da truculência com que a renovação cultural dos sixties era recebida aqui, é o artigo de Soares e Miranda, “Contribuição ao estudo de Wilhelm Reich” (Tempo Brasileiro nº 36, “A história e os discursos” janeiro/junho 1974). Aí vemos não só Foucault misturado com Reich, mas uma denegação veemente de que as mudanças de costumes e liberação sexual fossem algo além de ideologia burguesa, imiscível à psicanálise reichiana, sem consideração qualquer para o fato de ser Reich uma grande influência da juventude nessa época.
Nota 13
A propósito dos métodos para burlar “ a regra do livre acesso” de modo a restringir ao máximo a participação em seu seminário do Collège de France, que abrangiam escolher espaço exíguo de modo a caber muito poucos (p. 105). Por outro lado, a participação reportada de Duby na televisão, de modo a estereotipar a história para as massas como mera consultoria dos filmes fascinantes à Depardieu (p. 128 e seguintes). A restrição de cobertura dos referenciais medievais estudados apenas à aristocracia (p. 144). A consideração de que o saneamento da questão social seria “uma sociedade nivelada” que só despertaria consternação porque ela “não dispõe de estímulos. Com muitíssima sorte, pode no máximo desfrutar de uma felicidade sem graça como a dos nambikuaras... uma felicidade sonolenta” (p. 155).
nota 14
Os movimentos de libertação nacional genuínos, reprimidos pela “independência” movida a império português, prosseguiram como resistência, como na Confederação do Equador. Já a Praieira, ainda romanticista, tem influência do socialismo francês.
Nota 15
Mesmo sendo de uso comezinho, registro aqui a diferença dos termos “império” e “imperialismo”. O primeiro significa regime político instituído ditatorial, cujo chefe único é um imperador, sendo o caso do primeiro regime da independência brasileira, mas sendo o imperador oriundo da dinastia lusa colonizadora. “Imperialismo” é o processo que vige desde o século XIX, de açambarcamento político de nações a outros países por meio de dependência econômica e cultural, de modo que esses países se tornam “potências” - não precisando ser o governo, mas sim as empresas sediadas nesses países os agentes da dominação, mas de modo que o governo os garante. O Imperialismo perpetua as relações colonialistas nesse sentido estrito dos séculos XVI a XVIII, na qual o açambarcamento é total, político e militar, nesse caso o território dominado é chamado colonia e a potência designada metrópole. As nações dependentes ao imperialismo são via de regra ex-colônias. Não consideramos aqui a Globalização como algo estruturalmente diverso de imperialismo, apenas tendo conotações próprias devido ao volume dos negócios e maximização das formas de domínio econômico, de modo que não há agora a suposição de países “em desenvolvimento”. Como ficou evidente, não há preconceito aqui contra a imigração como fenômeno comum em qualquer país, o termo “colonização” está bem contextualizado na literatura histórica. Mas não tenho dúvida de que na atualidade um tipo de imigração ao terceiro mundo com fundações de colônias nesse sentido comum na verdade está se revestindo de uma conotação desagradabilíssima de colonização naquele outro, como se houvesse algum tipo de superioridade, etc. - notícias a propósito de apartheid são conhecidas na imprensa especialmente ao Sul do país.
nota 15 b .
A história das ferrovias em Sodré (“História da Burguesia Brasileira”) começam com o complô do império de Pedro II com o capitalismo inglês, associados contra o capital nacional do Barão de Mauá, que Sodré caracteriza como o “primeiro burguês brasileiro” (p. 115) e “aventura burguesa pioneira” (p. 120). O complô resultou na transferência do erário do empresário nacional aos capitalistas ingleses, assim como de cada projeto ferroviário dele a companhias ferroviárias inglesas (p. 118). Porém o próprio Lenin é citado por Sodré: “A construção das ferrovias brasileiras é realizada principalmente com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães. Os países interessados asseguram-se, no curso das operações financeiras, ligadas à construção das ferrovias, os pedidos de materiais de construção.” (p. 138) Opinião sobre a hegemonia do capital inglês naz ferrovias brasileiras, mesmo havendo outros participantes internacionais à p. 168, onde também se observa o que decorreu como ódio nacionalista ao império britanico. Sobre o papel do governo imperial como construtor, mas com capitais emprestados aos ingleses, e empréstimos cujos requisitos somente favoreciam os lucros do credor, p. 166. A partir daí, em todo caso, a conclusão de Sodré: “ficou monopolizado [pelas ferrovias inglesas] o escoamento do café para o litoral” (p. 119). Assim, também, “... o desenvolvimento dos transportes alargava a penetração das mercadorias importadas e, portanto, as dimensões do mercado”, de modo que trazendo matérias-primas do interior ao litoral, também levavam aos rincões mais extremos “os produtos importados”, e, assim “subverteram os seus costumes de consumo”. (p. 129)
nota 16
Sobre a comparação das economias imperial e republicano, Sodré, A História da Burguesia Brasileira, op. cit. p. 166, 167. A República encontrou situação nada satisfatória devido ao montante de empréstimos deixados pelo império: “O destino destes empréstimos era, sistematicamenge, o financiamento do latifúndio, o retorno à origem, para alimentar o imperialismo, isto é, o fortalecimento das forças de atraso”. Ou, em outros termos, “Destinavam-se, pois, a financiar o atraso, a dissipar nos setores latifundiários mais ligados ao escravismo extinto as dúvidas levantadas contra o regime monárquico”. A opinião oposta é de Antonio Faria em “Arquivo de Sombras”: “A República não criou, mas contribuiu decisivamente para o agravamento do desequilíbrio econômico e a deterioração das contas públicas...”
O quadro era agravado pela corrupção e favoritismo que se instalaram com o novo regime nos serviços públicos e nas fímbrias do Tesouro Nacional, corporificados nas fraudulentas concessões e subvenções obtidas através da advocacia administrativa”. ( p, 53, livro citado à frente, ver nota 116 b para a crítica de Faria a Sodré). Faria pretende constituir sua leitura, portanto, sem referencial direto na política econômica, somente na análise administrativa (p. 52) uma vez que a posse do ministério da fazenda por Murtinho na época de Campos Sales foi a seu ver meio para utilizar-se da proficiência de Murtinho no arranjo político de negociatas, não tendo ele conhecimentos de Economia (p. 48).
Murtinho era na verdade médico, especializado em homeopatia, por outro lado também Faria atribuindo a ele consciente ideário spenceriano. Exemplo “do desempenho da advocacia administrativa” é a fraude no pagamento de dívida pelo Estado a empreiteira de estrada de ferro privada, pois o valor dos serviços acabou orçado “trinta e duas vezes mais elevado do que o justo” (p. 57, 58). A subsunção da economia à política chegou ao ponto de Sales assumir a compra da imprensa com dinheiro público para propaganda administrativa e rechaço das críticas (p. 54). A propósito, a pitoresca notícia sobre o apelido popular de Campos “Selos”(p. 46), devido à sobrecarga de fisco que ele implementou – porém Murtinho arrogando-se, como ministro, a ser quem tinha autoridade na questão do fisco (p. 54). Também chamavam Campos Sales de “Baiacu” e “Pavão”, símbolos da vaidade autoritária, “ex-senhor de escravos do Baranhão”. “Patriarca”. Ficando no pitoresco, é ainda interessante a notícia sobre que as esfígies das cédulas monetárias, que Murtinho teria decretado, era retratos de prostitutas. Segundo outros, não era da Sra. Prates, famosa cortesã, a esfígie, mas de Laurinda Santos Lobo “sobrinha e amante do celibatário de Santa Tereza”. Também há versão de que se tratava de outra pessoa como a amante.
O historiador J. M. de Carvalho, citado por Faria por seu trabalho sobre a relação dos conservadores com a imagem feminina, assim conclui que a República “só encontrava seu rosto na versão da mulher corrpompida, era uma Res publica no sentido em que a prostituta era uma mulher pública”. (p. 60, 61). Porém à parte a pilhéria, o que está sendo revelado é, pelo contrário, que a instância pública, como da legalidade, não foi desenvolvida devido ao açambarcamento oligárquico, isto é, de pessoas e grupos privados, das instituições políticas. Murtinho – assim como na ideologia, a prostituta - é a antítese da legalidade pública. Nesse sentido, o juízo de Faria sobre a corrupção na República não é defesa do Império, ainda que o argumento aparente alguma ambiguidade, começando pela asserção de que “A República inaugurou um período de aviltamento do padrão ético e político dos integrantes do parlamento em relação ao regime deposto”. Mas isso porque todas as práticas de corrupção sistêmica “foram produtos de ações conscientes e intencionais de indivíduos formados política e existenciamente no Império, boa parte dos quais desempenhando funções públicas durante a Monarquia”. (p. 33)
A propósito, “As Joias da Coroa”, do importante autor de O Ateneu, Raul Pompeia, mostra o Imperador como insaciável pedófilo. Afinal também Sodré, já no Radiografia de um modelo, teve que atacar o problema do imperialismo como modernização conservadora, mas ele o fez apenas por atenção à desnacionalização econômica na ditadura, onde o predomínio transnacional resultaria em que “o conteúdo progressista, antiimperialista e antifeudal da atividade econômica do Estado, no Brasil, foi transformado em seu antípoda” (p.146), de modo que agora “ao Estado caberia, no Brasil, segundo o chamado 'modelo brasileiro de desenvolvimento', montar a infra-estrutura destinada a proporcionar às empresas multinacionais um funcionamento satisfatório”. (p. 145), e ele chamava agora o “repertório de medidas antigas”, ao contrário, àquelas providências do Estado que visariam a prosperidade da população nacional, como “ação legislativa através do orçamento e controle das relações de produção; protecionismo estatal, ao capitalismo ncional; atividade financeira destinada a redistribuir a renda, com vistas a estimular o desenvolvmento; participação na acumulação do capital pelo crédito público,... controle de preços...”, entre outros itens. (p. 146)
nota 16 b
A crítica de Faria a Sodré revela-se importante em nosso contexto, sendo a mesma que a minha. É fato corrente em História do Brasil, que as oligarquias do império reassumiram o governo após o interregno da República da Espada como do florianismo progressista. Porém não se segue assim a premissa leninista de que a mentalidade oligárquica constitui-se, conforme expressão de Sodré, em “forças do atraso” como defesa do “velho” e recusa do “novo” (História da Burguesia Brasileira, op. cit. p. 112) coentextensivos diretamene às oposições de economias agrícola cafeeira e industrial, e do mesmo modo, à oligarquia tradicional e burguesia modernizante. Eis o que percebeu Faria, ao referenciar a interpretação de Sodré a propósito de Murtinho, como “'a figura mais característica da política que derrotaria a burguesia' na questão industrial e, portanto, de reforço da economia feudal” (“Arquivo de sombras”, op. cit. p. 51).
Faria considera que José Bello estaria mais certo por atribuir na Históiria da República, “a reconstrução financeira do início do século [XIX] ao darwinismo financeiro do ministro da Fazenda de Campos Salles”. Não significa valorizar José Bello como historiador, pois conhecendo-o ressalta logo tratar-se de racista bem acomodado, mas inegavelmente bom observador dos fatos.
As oposições leninistas de Sodré não captam o quadro, por não lidar ele com o sentido contextual dos termos. A oposição de indústria e exportação de matéria-prima não tem em Economia efetiva (neo)-liberal o mesmo sentido que tem na Ciência da História marxista. Naquela, a exportação de matéria-prima é “stability of exchange” na acepção de Adam Smith, e ater-se a ela significa seguir a regra do mais puro (neo)-liberalismo econômico, de modo que o Estado não precisaria intervir, tomar empréstimos, etc. Esse é o receituáriio do “ghost thinker” de Murtinho segundo Faria, o economista inglês Philip Villeman, de quem ele cita a expressão acima. Para o imperialismo, portanto, a oligarquia imperial-republicana não é “agrária” mas sim comercial e assim industrializada quanto ao consumo (garantido, i.e., importado, a garantia aí sendo apenas o contrário da situação verdadeiramente agrária, dos que não tem participação do capital estrangeiro).
O dejá vu do leitor contemporâneo enojado com o neoliberalismo econômico é total, mas visto que o smithianismo estava naquela época escorado no spencerianismo racista positivista – de modo que a transição oligárquica da República Velha não foi menos positivista que os revolucionários da Espada. O “republicanizar a república” como lema de Murtinho era privatizá-la, mas o fundamento spenceriano do direito das raças fortes ao domínio é patente, não obstante podermos mostrar que essa ideologia – que na época era ciência biológica – como qualquer outra está eivada de contradições.
A suposta coerência de não competir com a indústria forte europeia é contraditória com o fato dela só ser forte por não haver a mesma competição, assim, conforme Faria (p. 49, 50), que analisa muito bem as regras da “ortodoxia” econômica spenceriana, o que aqui seria excessivo, não só Murtinho as endossou pressurosamente, como o ideário e atuação dele foram seguidos “por partre substancial da historiografia econômica brasileira, bem como pelos ministros da área econômica que o sucederam até a década de 1950, tais como Leopoldo Bulhões, João Pandiá Calógeras e Eugênio Gudin”. Hayek e Friedman se encarregaram de atualizar esse cadastro, tornando-o a substância da atualidade. Se essa ortodoxia “gerou distorções nas políticas monetária, bancária, cambial e fiscal, dificultando a industrialização”, segundo Faria, “segundo algumas interpretações”, o argumento não era só da classe oportunista que às expensas das demais, se beneficiava com o imperialismo, mas de toda uma mentalidade racista que se perpetua indefinidamente.
A premissa de Murtinho era de que o brasileiro não poderia, “como muitos aspiram, tomar os Estados Unidos da América do Norte como tipo para o nosso desenvolvimento industrial”, por não ter “aptidões superiores de sua raça, força que representa o papel principal no progresso industrial desse grande país”. O conceito de indústria sem o correlato cultural do que ela cria e ao que ela atende é que está ideologicamente constituído assim, de modo a confundir-se a tecnologia com alguma “verdade revelada” - expressão que Faria também utiliza (p. 49). O dejá vu abrangeria naturalmente a “alma feminina” na política, a bonita prostituta como signo do poder, mas como a mola da dominação internacional info-midiática ao invés de algo particular à República – Ver nota 27.
nota 17
Dreifuss também registra a repercussão do golpe na imprensa internacional. O artigo de Philip Siekman sobre a ação do empresariado na derrubada do governo federal foi considerado pela liderança do IPES do Rio “uma questão muito séria” e “prejudicial ao IPES e a alguns de seus membros”. Houve comunicado a São Paulo sobre o artigo “comprometedor” que havia sido porém comentado na imprensa local. Porém o título do artigo em Fortune (3 : 147-49. 1964 ) parece bem congruente com a propaganda do golpe: “When executives turned revolutionaries – A story hitherto untold: how São Paulo businessmen conspired to overthrow Brazil's comunist-infested government”.
nota 18
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Atualmente, mais do que a diversificação da fabricação, de modo que um mesmo produto tem as partes fabricadas em países diferentes conforme a vantagem da instalação local em termos de menor preço de custo, está havendo a “terceirização” do setor de serviços, a desordenada proliferação de empresas particulares que se apropriam de partes de um serviço, por exemplo, a folha de pagamento dos funcionários públicos estaduais foi vendida recentemente, a empresa particular ou a empresa que cobra contas atrasadas é terceirizada relativamente à titular da conta, etc. Quanto à folha de pagamento, a venda seguiu a prática da privatização de estatais, primeiro ocorrendo um “sucateamento” pelos poderes públicos, de modo a fazer-se a propaganda da venda como saneamento. Pouco antes da venda da folha este ano (2017), ocorreu a pagadoria do Estado autorizar desconto de 5% para um sindicato ilegal, desconhecido dos profissionais, e sendo que o desconto sindical regular é em torno de 1%.
nota 19
Muito do material de Mirow é oriundo dos registros de inquéritos policiais, parlamentares e processos particulares movidos contra carteis, alguns escandalosos. Especialmente relevante a meu ver são: o processo movido pela Zenith Radio Corporation contra empresas jamponesas do setor Eletrônica de Consumo, iniciado em setembro de 1974 na Pennsylvania, Estados Unidos. (p. 20) Nesse processo a Phillips, General Eletric e Siemens foram as suspeitas principais de financiarem o dumping dirirido por empresas japonesas contra concorrentes médios dos gigantes cartelizados da indústria eletrônica. (p. 67). E a série de processos abertos contra menbros da amosa conspiração da indústria elétrica, julgada em 1963, na Filadélfia. O juiz Ganey expressou-se veementemente durante o julgamento: “estamos frente a um exermplo chocan de de procedimento criminoso de vastos setores de nossa economia... Os acusados destruíram as alternativas que hoje oferecemos como membros do mundo livre ao capitalismo de Estado, ao socialismo e à eventuaal ditadura” (p. 33) Em outro trecho, parece ser o mesmo processo que Mirow reporta: “Em 1963, 29 empresas e 46 dirigentes de indústria de material elétrico foram autuados e processados no caso da 'Grande Conspiração da Indústria Elétrica'. Trinta diretores receberam pena de prisão... A esses processos se seguiram outros 1.800 processos suplementres, de perdas e danos, acarretando centenas de milhõs de dólares em indenizações triplas (treble damages) efetivamente pagas”. (p.190)
nota 20
Máxima importância, visto que não apenas se pode acusar de oposto ao Estado um capitalismo cuja prática de cartel e imperialismo nazi-fascista pode se limitar a uma qualificação de difuso. Partidos fascistas estão sendo formalmente organizados na atualidade, sem dúvida atuando no Rio de Janeiro, não obstante a proibição legal. Os discursos fascistas se pautam geralmente pelo princípio do neoliberalismo econômico.
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Nota 21
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Porém até Outubro de 2017 continuam atrasados, sendo típico do fenômeno total descaso da informação ao público e mostras de que se trata de política deliberada de humilhação e maus tratos à população brasileira – isto é, ressalvando, achincalhe ostensivo a tudo o que possa associar-se nocional e praticamente à autonomia do país: sua constituição, estruturas internas aos interesses da representação constitucional, coerência de processos, desenvolvimento humano local, pessoas e práticas ligadas a esses interesses. Além disso, repressão brutal a passeatas e greves, porém a instituição de polícia, por sua conotação de serviço público “nacional”, sofrendo o mesmo tratamento abusivo ao ponto do absurdo (ver à frente nota 23).
nota 22
Historicamente importante registrar porém, como situação de absurdo, não só o nível genocida da defasagem das forças policiais relativamente ao crime organizado, mencionado neste estudo, como a suspensão de verba para gasolina das viaturas no Reveión de 2016, nesta mesma ocasião, a expulsão das famílias das residências num subúrbio do Rio por exigência do poder paralelo, invasão de delegacias para obter soltura de presos, etc. A imagem da polícia está totalmentre comprometida com a repressão a drogas, quando para tanto seria preciso ofensiva do porte do Doi Codi ditatorial, ou, o que seria coerente, a discriminalização do uso que é extremamente e cada vez mais generalizado, mas significativamente não havendo nenhuma dessas duas coisas. Testemunhos históricos da provável origem do tráfico na corrupção militar ditatorial na América Latina, de modo a entendermos porque se perpetua o caos, sendo do interesse desses “negócios”, ver capítulo 6, trecho “a”, neste estudo. O estereótipo da polícia como repressão a drogas evidentementge eclipsa a imagem da polícia como defensora da população contra os crimes ordinários que efetivamente a prejudicam, revelando-se mais a propaganda do estereótipo como um meio de sabotar a consciència dos serviços públicos da nacionalidade. Porém o estereótipo pode não ter ressonância na consciência de muitos policiais responsáveis, e é possível que a incongruente criminalização da droga tenha o mesmo destino da escravidão, findando pela recusa da polícia em reprimir os acusados por aquilo que já não se considera crime, como a fuga de escravos.
Nota 23
O que, como já acentuei, recursivamente só será atingido fazendo-se cessar os obstáculos promovidos pelo Imperialismo. A propósito do argumento de que o capitalismo interno é tanto rapina de classe como qualquer outro, vemos que prejudica a própria causa, que é defender a luta de classes contra as políticas reformistas nacionalistas, visto que quanto à Luta de Classes, só tem sentido conceitual numa moldura teórica com previsibilidade limitada ao capitalismo interno. Uma vez não existindo potências ou super-potências, eis justamente o que se espera em termos de social- democracia, que não necessita porém de ditadura do proletariado. Para a contradição marxista nesse ponto, ver o Livro 3.
nota 24,
Ver a nota 23.
nota 25
A propaganda ultra-direitista na Internet contra o “forum de São Paulo” caracteristicamente não foi acompanhada de anúncios de publicação de estudos sérios a propósito – assim aqui suspendo o juízo a propósito. Limitou-se aquela propaganda à praxe internet das trinta linhas pouco coerentes mas infletidas por radicalismo candente – trinta, quando o assunto é muito “intelectual” e diretor da consciência , meia dúzia ordinariamente. Sem dúvida foi legitimamente representativa a mobilização nacional a favor do impeachment do quarto governo “pt”, porém foi explorada pela adesão do grupo de artistas de mídia paulistas em torno do intelectual Olavo de Carvalho que mora nos USA, sendo este um tomista, e desde os anos noventa estando atuante grupo de jesuítas – com revista própria - em torno do tomismo renovado pela “ética da comunicação” derivada da Teoria Crítica, de Habermas a Gadamer. Um movimento agressivo contra a teoria do inconsciente, nas Universidades, que eu mesma testemunhei em meu curso na Uerj. Naturalmente a “comunicação” aí deturpada para caber na reificação do business de mídia como algum tipo “novo” de “consciência coletiva” fascista.
nota 26
Já reportei estar em trânsito a venda do serviço de águas públicas a uma multinacional, aqui noticio a instabilidade da situação da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que está sendo alvo de campanha tenaz do governo federal junto ao estadual para ser privatizada, pelo que eu soube. A propósito, na chicana dos salários e dos servidores públicos que está ocorrendo há mais de um ano sem defesa por parte de qualquer instância, a Uerj junto as Faetecs (escolas secundárias profissionalizantes) são as pior tratadas, porque quando se anuncia que a “educação” foi paga após certo tempo de atraso, na verdade a Uerj e as Faetecs não são necessariamente inclusas, uma vez que respondem por Secretaria outra que da “educação”, de “ciência e tecnologia”. Assim o pagamento delas é feito à parte, de modo que o descompasso tem sido flagrante em alguns períodos. O governo federal – o “vice” do pt, “vice” empossado após o impeachment da presidência - foi responsável por “arrestos” da verba já destinada pelo governo estadual aos salários no Natal de 2016. Já em meses recentes é o governo estadual o responsável pelos atrasos, pois ao menos a medida contra os “arrestos” federais foi tomada pelo
judiciário. Imensas filas para obtensão de bolsas de alimentos no centro da cidade, destinadas a servidores públicos e especialmente aposentados, por comitês de ajuda tem se verificado. Muitos nem podem chegar lá por que não tem o dinheiro do ônibus. A passagem está caríssima, praticamente quatro reais por viagem em carros os mais simples das companhias de ônibus. Também por vezes não podem pegar ônibus para o trabalho, isto em nível de profissionais formados em universidade. A propósito, os gastos nababescos feitos com o dinheiro público para obras faraônicas recentes, que apenas visaram beneficiar linhas de ônibus novas.
nota 27
O pior, totalmente deplorável, do que temos visto, é a degradação da consciência da juventude, usada como bucha de canhão do capital info-midiático, reduzida a identificação com a coisa tecnológica vendida a preço de “novidade absoluta' a cada semestre (que se limita a sucata para ser intrusada pelo “espertinho”); especialmente a cooptação das moças, que se tornam capturadas por aparelhos cênicos de mídia que ao mesmo tempo veiculam “moda” de um comportamento que é o machismo invertido, pela “mulher do mercado de trabalho', mas com relevo apenas por ser o estereótipo do desejo chulo masculino, com mentalidade brutal, sem consciência privada, que há muito já havia sido superada nas expressões da cultura nacional. A doença mental propagada por um regime de desinformação programada.
A propósito do que vimos na nota 16b sobre a intromissão do sexo privado nas instituições públicas pela ilustração da República pela figura de prostitutas, na Globalização a linguagem paranoica que se instituiu desde fins dos anos noventa tem na “primeira vez” a expressão idolatrada, repetida ad nausea por toda redação de jornalismo, e analogia à clef dos programas quaisquer. A “primeira vez” – obviamente que do homem – é classicamente a função da prostituta, mas no oportunismo de cooptação de minorias, que na Globalização reeditou Gilberto Freire em vez da interlocução com os movimentos atuais internacionais tão anti-racistas quanto anti-identitários, o fascismo identitário consagrou a figura da negra escrava iniciadora sexual do “senhorzinho” das fazendas (tipicamente nordestinas) como o signo nacional generalizado e do negrismo concreto.
Não se trata já de pilhéria. A paranoia da primeira vez se constroi também na contaminação midiática da universidade e da “informação”, de modo que se ensina “a sério” que em todo e qualquer texto o “que” ele informa está escrito no primeiro parágrafo, na ideologia se julga o produto não pelo resultado mas pelo modo como se iniciou a feitura, etc. Escusado sublinhar a conexão disso com o aparheid etário contra idade adulta e contra “mulher” (que não “jovem”). Assim é universal o discurso de que a idiotice total dos soft wares defeituosos e de modo algum funcionais só é criticada por “velhos” que “não sabem” “mexer” com a “tecnologia”. O computador é invenção nada nova na acepção do que foi introduzido apenas desde os anos dois mil (conceitoreflexivo), isto é, agora mesmo (termo costumeiro), mas é propagandeado como sem nada tecnológico precedenter.
Na internet não se mostra, quando se pesquisa “vitrola” (vinil que antecedeu CD), os ultrapotentes e mais eletronicamente arrojados aparelhos de som que tínhamos nos anos setenta e oitenta do que os de agora. Mostram, como se fossem os que tínhamos, gramofones ou lay-outs antiquados, com som de baixa potência. A indústria fonográfica devia ser investigada por todos os interessados nos traços do regime neonazista. Restringiu de todo os lançamentos a ritmos tão simples quanto estritamente pre-condicionados - não vendendo música normal e originalmente elaborada de espécie alguma- cujas letras, a única coisa que “varia” no gênero, são porém sempre restritas a vocabulário unidimensional de tão reduzido, com o conteúdo de estereótipos de brutalidade machista e sexualidade exibicionista como se único discurso do “jovem”do “povo”.
O “importante” tornou-se o critério da “cultura” mas significando apenas ter vendido milhões de cópias ainda que para ser esquecido amanhã – assim circulou na internet atribuído dito do atual ocupante da Academia Brasileira de Letras, Antonio Cícero, de que a “equinha pocotó” (música chula de 2002), é “mais importante” que Os Lusíadas porque este não teria atingido (“sido importante para”) o mesmo número de pessoas
nota 28
Eis o texto na íntegra: “ É inútil dizer que naõ é a 'bricolage' da ideologia estruturalista que pode fornecer os meios de explorar o imenso espaço do continente que Marx nos abriu (as Berbinfunguen não revelam de uma 'combinatória'!). O continente está aberto há cem anos. Os únicos que aí tem penetrado são os militantes das lutas de classes revolucionárias. Para nossa vergonha, os intelectuais nem sequer suspeitam da existência desse continente, excepto para o anexar e explorar como uma vulgar colônias. Devemos reconhecer e explorar este continente para\ o libertar dos seus ocupantes.” Além disso, “Para aí chegar basta seguir os que nos precederam desde há cem anos: os militantes revolucinários da luta de classses. Devemos aprender com eles aquilo que eles já sabem”. Conferência de 23 de Janeiro de 1968, no Seminário Hegel organizado por Jean Hippolite em 1967 no Collège de France. Constam os textos do seminário e o de Althusser em “Hegel e o pensamento moderno”, Porto, Rés Editora, 1979).
nota 30
A propósito, o artigo de Antonin Liehm, “Le nouveau contrat social et les intellectuels” sobre a URSS, na Tel Quel (2º trimestre,1974).
nota 31
Ao que parece, trata-se do mesmo nome da Comissão La Follete, da qual Rorty nada disse, mas que em Maurice Dobb é a fonte da documentação para a situação calamitosa da corrupção capitalística na América do Norte. Vale citar o texto de Dobb: “Fora dos países fascistas, é nos Estados Unidfos onde se encontra evidência mais completa em tempos recentes, dos poderes exercidos pelas grandes companhias no sentido de privar os trabalhadores dos seus direitos de associação, reunião e opinião, e, depois da aprovação da Lei de Relações de Trabalho de 1935, no sentido de frustrar os objetivos da legislação federal . Esta história está contada nos volumosos a nais de u,m comissão de inquérito do Senado> a Comissão La Follete. Em alguns aspectos, é uma história de sabor bem medieval, com seus bandos particulartes de condottieri, sustentados pelas grandes companhias para uso contra seus próprios empregados, com a interpenetração do pessoal comercial e a administração pública local, com seus métodos mafiosos e o emprego da espionagem particular, suborno e brutalidade em escala impressionante”. (“A evolução do capitalismo”, op, cit. p. 353) Um relatório fala de “série de conspirações organizadas para destruir as liberdades civis dos trabalhadores...” em Los Angeles, Califórnia, e a Bethelem Steel Corporation, muito influente no negócio de matérias-primas brasileiras, é aí “acusada de 'preferir resolver as disputas industriais, não de modo pacífico através da negociação, mas por meio do fomento à corrupção municial e movimentos de 'vigilantes' na cidade de Johnstown”. (p. 354). O envolvimento de corrupção da segurança pública, do gangsterismo e da imprensa é também documentado como testemunha do próprio La Follete. (p. 355) Em meu blog designado “A história da dominação” desenvolvo este tema (porém sendo duvidoso que o público o possa acessar, mesmo estando na Internet, a propósito ver nota 347).
nota 32
O texto de Lacan (“a agressividade em psicanálise” 1948) consta em seus Escritos, Rio de Janeiro, Zahar, 1998 – já a expressão mesma (“desrealizante”), consta em “O estádio do espelho” (1949; ibid.) O artigo de Slavoj Zizeck, intitulado “O espectro da ideologia”, é uma provocação ao pós-estruturalismo. A propósito, o Real em Lacan, como componente da tríade que se complementa pelo Imaginário (mente pré-linguística) e o Simbólico (mente linguística), designa simplesmene o corpo efetivo, aquele que é o veículo do comportamento (sistema percepção/consciência em Freud) em vez do “termo mais complicado em Lacan” como suspeitam os críticos D. Cornell e A. Thurschwell, que o designam tanto como “o que fica fora do complexo de Édipo” (não fica, já que a clivagem anatômica do feminino e masculino é aí fundamental), “o 'potencial imanente' do próprio simbólico” ( o que é o oposto da fórmula anterior), ou “reino incognoscível, inexpressivo em linguagem” - conforme colocam no artigo “Feminismo, Negatividade, Intersubjetividade” que também se dirige contrariamente a Julia Kristeva. O artigo está na coleção de textos de teóricos feministas intitulado “Feminismo como crítica da modernidade; releitura dos pensadores contemporâneos do ponto de vista da mulher”, editado por S. Benhabib e Drucilla Cornell (Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1987).
nota 33
E, como vimos antes (Livro 1), pela confiança conquistada pela imprensa, também dos Republicanos na Califórnia, anti-Nixon em Watergate.
nota 34
A possibilidade de acidentes e erros provocados não por acaso, mas com objetivos definidos dos capitalistas, é assustadora porém muito crível, uma vez que as privatizações se fazem sobre setores absolutamente estratégicos – ou seja, não restando na prática autonomia do país pois as decisões reais não pertencem aos cargos constituídos, mas a interesses do capital privado não nacional. Espantoso em condições normais, porém bastante característico nas deploráveis de hoje em dia, nem há estudos ou notícias sobre o destino dos sobreviventes das cidades destruídas em Minas Gerais (2015) pela incúria da multinacional mineradora Samarco, que açambarcou a estatal Vale do Rio Doce na onda inicial das privatizações contrárias aos interesses e desejos expressos do povo, na época de FHC. As cidades continham patrimônio histórico mundial do Barroco, sendo as igrejas de Mariana ornamentadas pelo “Aleijadinho”, o grande artista do século XVIII, e alguns moradores possuindo privadamente coleções da arte sacra barroca. Além das três cidades destruídas, a multinacional Samarco contaminou irreversivelmente a ecologia de área florestal maior que alguns países da Europa e vasta região marítima. Quanto ao patrimônio cultural destruído, terrorismo similar ao que tem se verificado em várias regiões do mundo, como no episódio da destruição do sítio arqueológico de Palmira. O governo, ainda antes do impeachment, não tomou qualquer providência, como salientei, assim como até agora não houve cobrança à multinacional. A periculosidade das atividades da multinacional Samarco, na região, relatada porém na época do acidente por ausência das medidas de segurança necessárias, continua, portanto. O pacote neoliberal que abrangeu a venda da Vale, por FHC, já continha os mesmos itens que tem sido radicalizados desde o “pt” até o atual “vice”:' programas de privatização especialmenbte dos setores estratégicos (telefonia, telecomunicações, eletricidade, exploração de minérios, etc.) e perseguição aos empregos dos funcionários públicos: pesquisadores, professores, médicos, segurança, administração, justiça.
nota 35
O Centro do Rio de Janeiro está ostentando pixação de muro - ilegal, porém gigantescas como é praxe atual – incitando a assassinato contra “o branco”. Não obstante a abolição já contar com um mais de um século, haver várias leis anti-discriminação racial, bolsas de estudos para negros nas universidades, e termos colaborado intensamente contra o racismo remanescente nos costumes. Nem por isso nos tornamos racistas, apenas deploramos o fascismo da “regra indireta” que se utiliza de “minorias” apenas como estereótipos do autoritarismo oportunista. Ao lado dessa pixação, que está na parede lateral do Teatro João Caetano, limítrofe aos quarteis de polícia na Praça Tiradentes, assim como também à sede do PDT, há ainda a do pastor protestante cuja seita se congrega em torno da campanha anti-constitucional “bíblia sim, constituição não” - provavelmente devido às conquistas de direitos civis dos homossexuais contra que se batem
oportunisticamente várias dessas seitas que proliferam como indústria cultural de massas desde os anos setenta, com óbvio capital estrangeiro – ou seja, apenas um tipo de grupo ilegalistsa-autoritário entre os outros, sem que a religião em si tenha a culpa, uma vez que é uma expressão cultural historicamente adaptável. A pixação anticonstitucional desse “pastor” tem se multiplicado em vários bairros, da Zona Sul à Zona Norte, e a pixação do Centro ostenta o endereço do Site da Campanha anticonstitucional dele na Internet.
nota 36
Ver nota 37 .
nota 36 b
Tal tipo de “burrice” grotesca tem sido o pão cotidiano do que vemos na Internet, enquanto alijam-se dos instrumentos de localização os artigos e referenciais sequer normais. O mesmo tipo de nojento que intervem nos computadores a partir de óbvia intrusão ilegal, etc. A título de exemplo,uma pesquisa sobre a descoberta do zero entre os maias, o “search” sobre o zero na Roma antiga – que não era conhecido - mostra o primeiro site com o título “os romanos não precisavam do zero”. Para alguma história da deficiência mental ou da sordidez, note-se que esse tipo de “burrice” grotesca, que tem sido ostensivamente observável na info-midiática, já não é igual à “burrice” ingênua, boba, característica do padrão Jim Aubrey na televisão. Um dos traços da grotesca, além de causar um tipo de repulsa violenta, verdadeiramente incômoda, não apenas um sentimento de impaciência ou de paternalismo como antes, caracteriza-se por ser agressiva, autoritária, monomaniacamente impositiva de “algo” como superior - que porém não se justifica - despótico, a priori sem defeito (ostensiva e dicotomicamente contrastada, lado a lado, a “x” “defeituoso”que só o é por ser o contrário do injustificado “superior”). Portanto, de modo algum ingênua, carente e non-sense como eram os exemplos aubreyanos de Halberstam. Mantem-se contudo o preceito programático de “mentiras, bobagens e peitos” (ver livro 1).
= nota 37
Estive na cyberdelegacia em junho (2013), para denunciar invasão na minha conta na Internet, o que constatei por várias sabotagens na elaboração do texto em blogspot, pelo impedimento de postagem, mas especialmente por ter verificado adição de palavras chulas a um texto anteriormente postado, o blog “sociologia” onde consta um estudo meu sobre Talcott Parsons. Como não houve registro da queixa, alegando a cyberdelegacia que não era relacionável à ação de polícia, desde então só ocorreu incremento dos abusos, sem que se possa atribuir a mau funcionamento do próprio computador.
Arquivos não registrados por mim no computador apareceram na área de trabalho. Vários modos de impedir o funcionamento regular são constatados. Neste mesmo momento em que faço a revisão do texto deste livro, o instrumento de localização de palavras, que seria importante na revisão, está obvimente sabotado, pois “misteriosamente” o computador responde não constar qualquer das palavra por localizar, mesmo quando o termo está à nossa frente na tela.
Um notebook que comprei não pode ser usado por que a intrusão resulta na destruição dos arquivos. Antes de se tornar inutilizável, o que ocorreu foi que o uso do aparelho - não obstante ter apresentado defeitos estranhos desde a loja, e mesmo, nessa loja Ponto Frio do Shopping Tijuca onde foi feita a compra por mais de 2000 reais, terem tentado agregar um seguro de vida à compra do aparelho (2014) – resultou na destruição do meu blog “psicologia” que eu estava revisando na Internet. É importante referenciar aqui, porque este blog está citado no meu livro publicado, o “Pós-Moderno, poder, linguagem e história”. Ou seja, blog de antes dessa publicação, a revisão no ano passado (2016) resultou na destruição do texto, na própria página da internet, como constatei após ter revisado a metade, quando retornei à página para completar a revisão. A seguir desse ato terrorista, o aparelho impede todo uso do Word. Neste notebook, a seguir do episódio mencionado também apareceram, nos “documentos” arquivos que não foram lá registrados por mim.
Na conta de “blogspot” na internet a intrusão foi tornando cada vez mais impossível a utilização, sendo importante que as pessoas estejam conscientes de que os conteúdos do que coloca na internet são alteráveis por hackers. Além disso, declaro aqui que as imagens associadas na página do search ao meu nome (“Eliane Colchete”), que assino em todos os blogs de minha exclusiva autoria, não são da minha pessoa, mas de desconhecidos, especialmente o retrato da mulher gorda que costumam colocar na página. Só há duas fotos minhas na Internet, a do “Dazibao”, blog de poesias com o Luís, e das páginas do blog, que é a foto que está na orelha do meu “Filosofia, Ceticismo e Religião; com um estudo de Diógenes Laércio”, publicado pela Quártica, sendo o texto de apresentação da orelha escrito pelo Luís. Todos os textos assinados por mim são exclusivamente de minha autoria, os do Luís são exclusivamente da autoria dele, os textos que elaboramos em parceria são apenas os publicados conjuntamente com o meu nome e o dele.
Deixei de usar o “blogspot” desde junho deste ano (2017), tendo iniciado o uso em 2012, com o blog “crônica do Rio” (que, aliás, foi imediatamente sabotado porque o acesso ao nome do blog é desviado por uma página que o corrige erradamente informando “você quis dizer “crônica do Dia”, o blog oficial do Flamengo para onde a página redireciona impedindo calhordamente o acesso ao verdadeiro endereço, o realmente solicitado; o meu blog contem crítica à globalização, análise do processo histórico atual e um estudo sobre o Romantismo onde inovo conceitos sobre o tema). Também o editor de blogspot – como antes os demais editores - está agora impedindo tudo o que não for de tamanho pequeno, incompatível com veiculação de ideias e estudos, e de fato podemos afirmar sobre a contra-informação ridícula na internet nada além de que “O textículo é um saco”. Não tem nada de útil, ao contrário do que pretendem fazer parecer, sendo inversamente danoso a toda cultura neste país e impeditivo do desenvolvimento. Nada além de imperalismo do pior tipo jamais perpetrado contra a consciência, a independência dos seres humanos e o futuro da espécie.
A última patifaria que puderam fazer devido à minha utilização do “blogspot” foi o que constatei na lista dos blogs. Como eu havia colocado o estudo sobre a “filosofia da potência”, que só pôde ser publicado em três blogs diferentes porque não permitiam postar tudo num só, intitulei cada um com o mesmo nome mas seguidos de números, seriando as partes publicadas. Porém constatei depois que haviam alterado o título dos que continuavam o inicial – ou seja, impedindo a seriação na mente do leitor, se por acaso pudesse achar todas as páginas. O título que colocaram era um que eu havia usado temporariamente como protesto: “Morra quem mexeu na minha página sem autorização”. Parece que o idiota que faz a sabotagem supõs que eu mesma ia tirar a condenação para recolocar o título apropriado. Jamais retirarei a condenação que julgo cabível. Não agreguei texto algum na internet desde junho deste ano, exceto poemas o blog com o Lui, que sugeri a ele em parceria (“Dazibao”).
Não compreendo como a polícia pode não ter a ver com invasão da privacidade a esse nível. Além disso, a linha do telefone é obviamente intrusada, com os telefonemas sendo amiúde interrompidos do modo mais sem vergonha que se possa imaginar, pela insistência na interrupção, por vezes mais de dez num telefonema assim como pelo descaramento com que fazem as sabotagens ao nosso cotidiano, nossos atos, nossa privacidade, etc. Consultas com médicos não podem ser agendadas por telefone, porque verifica-se depois, indo ao consultório, que nenhum agendamento foi feito, não obstante ao telefone ter sido “feito” por quem não se sabe. Independente do caso pessoal que estou relatando, toda a política de monopólio por logomarca privada de computador pessoal , monopólio da escrita, dos documentos públicos, do letramento, etc., é ilegal, não obstante ter sido até agora o cerne do regime vigente neste país, com o agravante da logomarca não ser nacional.
Notas do Livro 3 : Volume 1
nota 1
A legalidade na acepção liberal atual, definida conforme critérios científicos racionais quanto aos sujeitos que atuam conforme seu regime, enquanto sujeitos sãos (conscientes), implica em ser a lei das pessoas que conjuntamente ou por processos racionais de representação, a escolheram. Não podendo haver nada superior à lei assim escolhida, por não haver nada superior ao critério de direito existencial da autonomia dos sujeitos humanos conscientes (adultos e sãos). Por isso mesmo a legalidade implicando a legitimidade da lei como questão posta unicamente à sua letra, não à natureza de qualquer instância superior de que devesse derivar-se.
As pessoas não são homogeneizáveis, uma lei reflete o consenso do heterogêneo especificamente para certa ação que obriga a reciprocidade entre os sujeitos que nela são implicados. Como um regime de Estado, pois, que abrange o jurídico mas o transcende pelo legislativo que o torna possível e o executivo que o torna efetivo, o pluripartidarismo traduz a heterogeneidade de situações da população numa democracia, assim como o caráter nacional da composição das leis (“constituição”) está refletido nas situações (formas de atuação conjunta) localmente consideradas dotadas de sentido. Assim também vemos que a cisão público-privado, como de leis e costumes, é garantida, pois a lei não tem sentido senão como regulação dos interesses das partes que interagem numa ação – ou que são coibidas de agir quando a ação ou algum modo dela se definir ilegal. Não há legislação cabível sobre decisões pessoais.
A noção de autonomia aqui definida pode ser relacionada a Piaget, assim como na sua teoria da moralidade, opondo-se à noção “heterônoma” infantil da lei (que teria autoridade por si mesma, apenas poir ser ordem, independente dos sujeitos, de modo que os próprios jogadores não poderiam mudar a regra do jogo mesmo se todos concordassem assim o desejar). Porém sem prejuízo da crítica de Lacan à teoria piagetiana da fala infantil (ver o Seminário 10). Mas seria interessante na atualidade, a relação entre a heterogeneidade democrática e a ciência do cérebro, que já descreve as decisões em termos de heterogeneidade “populacional” ou “assembleias” de neurônios. Porém, como se poderia esperar do recentramento neoanal, tem-se referenciado a isto como “darwinismo neural”.
Os tradicionalismos reacionários, os pressupostos de saber ditatorial e todos os derivados do anarquismo, que por igual porfiam por obter respaldo para a obsoleta noção de autoridade “ética” superior à legalidade “racional”, tem muito frequentemente forjado um mito da feudalidade ou império como era da liberdade dos servos na vida privada, além das obrigações de trabalho públicas. A falsidade dessa concepção pode ser demonstrada pela obrigação da primeira noite de núpcias da serva virgem ser oferecida ao senhor feudal proprietário da terra. A donzela que se casava não podia dispor de sua virgindade, que pertencia ao nobre. Não há melhor meio de simbolizar a perversão contra a consciência da autonomia existencial da pessoa, a censura prática contra a consciência da alteridade.
Além disso, já enfatizei bastante o contraste da noção foucaultiana de tolerância imperial relativamente ao estudo das leis de escravização e brutalidade espantosa contra pobres na Europa, que Maurice Dobb fornece em A Evolução do Capitalismo, para a mesma época – além dos conhecidos estudos sobre a Inquisição medieval. O império dos “pedros” oitoscentista local ostenta a mesma ideologia da força bruta contra a representação civil racional. Convem sublinhar a neurose geoegológica do imperialismo, o discurso da dominação cultural, como atualização da antiga neurose aristocrática-imperial.
nota 2
As três vertentes definidas como subsumindo geralmente as teorias do capitalismo, como podemos ver, recobrem desde bem antes da metodologia funcional weberiana. Aqui aproveito para ressalvar, quanto à diferença de latente e manifesto que tenho utilizado para o funcionalismo entre Nietzsche e Weber, que estou ciente da controvérsia de H. Bhabha contra a utilização dessa oposição por Eduardo Said, para designar a irredutibilidade entre as fantasias do colonizador sobre o Oriente, e sua prática histórica efetiva. (“A questão do Outro; diferença, discriminação e o discurso do colonialismo”, in: “Pós-modernismo e política”, Rio de Janeiro, Rocco, 1992, org. Holanda, H. B.). Realmente há mais integração do que oposição entre o supostos dois níveis, como também se poderia atribuir ao que desejo enfatizar como os dois períodos do pós-positivismo, em que o funcionalismo não era e era expresso como tal, não obstante este sempre ser o substrato da crítica pós-positivista antes do rise estruturalista. Mas a margem de irredutibilidade é o que está sendo ressaltado como existente – de modo que uma sobredeterminação “funcional” dos dois fatores, como requeria Bhabha, é o que já está dependendo de um juízo sobre a diferença deles. Bhabha parece-me equivocado ao supor que existe “funcionalidade” atribuível a uma fantasia, em vez desta ser inversamente o que impede a funcionalidade objetiva de algo aquilatável enquanto o ajuste ao seu próprio imperativo enunciado. Assim com relação ao colonialismo, que diz estar sendo o progresso mas na realidade impedindo-o na prática da dominação econômica. A fantasia aí é a ambivalência (sujeito do progresso justificando-se como tal frente ao outro, mas outro que não pode progredir pela natureza mesma dele); a prática é a funcionalidade relativa ao interesse ( de domínio político e econômico puro e simples). Se o interesse fica cego para a consciência de que está agindo contra a humanidade, a ecologia, etc., é só nesse aspecto que podemos considerar a integração dos fatores (fantasia latente, prática manifesta), não na análise do fenômeno colonial em si – pois a fantasia do poder o transcende obviamente. Nem se pode nisso retroceder à forma do conflito leste/oeste, pelo qual a burguesia enquanto agente da dominação econômica (de classe) não podia ver a totalidade. Confunde Bhabha, a meu ver, as metodologias estruturalista e – justamente – funcionalista, não podendo apreender algo atuante, nesse caso a fantasia não como uma função mas, inversamente, como o desvio de uma função, sendo esta definida como aquilo que tem uma funcionalidade (objetiva), precisamente com o que se choca o conteúdo da fantasia, a qual, sendo explicação impossível, em vez de funcionalidade se estrutura apenas por uma ambiguidade. (neurose, no limite psicose). Se ele mesmo tentou definir a cusa da ambivalência dos sentimentos do colonizador sobre o colonizado, não define porém como é que ela se integraria ao que tratou como aparato efetivo da dominação onde nenhuma ambivalência se pode divisar (ver a propósito de Bhabha o que tangenciei no livro 3). Ainda que com algumas defasagens, sem alcançar o processo na sua generalidade, Said atingiu com precisão a paralogia do saber ocidentalista e merece ser um precursor da geoegologia que neste estudo estou apresentando como minha proposta metodológica pós-moderna, já ulterior à fase de transição como estabilização conceitual do conflito norte/sul que já descarta o procedimento paralógico da “modernidade”.
nota 3
O livro mencionado é “Um departamento francês de ultramar” (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994), autor Paulo Eduardo Arantes. A jactância desse desvio de verbas públicas, que deviam ser aplicadas ao desenvolvimento dos profissionais brasileiros e à formação de público leitor, chega ao cúmulo de colocar como questão séria, o por que haver pessoas que escrevem sobre teoria mas não são docentes da usp.
Poderia parecer supérfluo ressaltar, porém creio importante o registro de que não há neste meu estudo, qualquer preconceito com a imigração por si só, como fenômeno conhecido em todos os países. A configuração de um processo dirigido de ocupação para alijamento de população nativa devido a domínio ilegitimável sobre o Estado é o que se torna obviamente criticável. A diferença dos sentidos de colônia de estrangeiros num país e colonização histórica sobre os países do terceiro mundo é trivial, dado que naquele caso a colônia está sob a lei do país, mas neste, ao contrário, o país designado colônia está sob possessão daquele que se designa metrópole relativamente a ele. Quanto ao estado de coisas universitário, já registrei que o ódio ao Estado brasileiro abrange destruir as públicas, porém o que temos visto como tendência nelas é a instalação de feudos de imigrantes inclusive tendo havido a moda de se publicarem artigos de brasileiros em revistas, mas todos com nomes estrangeiros – só se descobre a nacionalidade como que por acaso...
nota 4
Ver Henri Wallon, “La consciência y la vida subconsciente”, Buenos Aires, Kapeluz, 1948. Também seu “As origens do caráter na criança”, São Paulo, Difel, 1971.
nota 5
Seyla Benhabib, como deploravelmente muito do que se diz “feminismo” ligado à new left, não apreende pois que o “sujeito” do Estado constitucional contemporâneo é aquele que atribui aos outros a subjetividade como heterogeneidade em nível privado. O contrário da generalização do déspota. O texto de Benhabib que aqui estou criticando, de modo que ao contrário dele, considero justos tanto o riposte de Kohlberg a Gilligan como a base na privacidade de Rawls, consta em “Feminismo como crítica da modernidade”, organizado por D. Cornell e S. Benhabib (Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1987). Escusado observar que como escritora pratico a anti-narrativa. Uma posição mais recente e melhor do feminismo, isento de domínio sobre as personalidades próprias das pessoas, considero o artigo de Jane Flax, intitulado “Pós-modernismo e as relações de gênero na teoria feminista” (in “Pós-modernismo e política”, org. Hollanda, H. B. op. cit., ver a nota 2). Flax contem muitos insights importantes, ainda que estivesse restrita aos anos noventa, quando ainda se podia falar da atualidade como “transição”. Mas provavelmente já seria agora a época certa para abandonarmos o termo “feminismo”, ou conservar um uso por razões históricas, e pensarmos mais em termos de “teoria do gênero sexual”, que interessa tanto a pessoas de sexo biológico masculino como feminino, em suas opções existenciais. Lembrando que podemos levantar questões relativas ao “gênero sexual” enquanto construto cultural, como opressão de gênero, processos formativos, discriminação das opções pessoais, etc. Mas não podemos sem perigo de total falsa consciência, atacar diretamente as evidências da biologia do “sexo”, conforme exemplifiquei utilizando-me de referências em Daniel Kimble, “A psicologia como ciência biológica” (Rio de Janeiro, Zahar, 1975). Nem podemos reduzir a “sexualidade” como fator da personalidade subjetiva, às questões culturais que envolvem o gênero.
Nota 6
Essa é uma questão interessante aos estudantes de Locke, pois nele o magistrado aomesmo tempo reinstaura o estado originário e o suprime como o contrário. Ele restaura a igualdade existencial dos litigantes, contra o estado de dominação ou de privilégio (estado de guerra). Mas é o contrário do estado natural, porque neste, segundo Locke, só podemos apelar a Deus em caso de guerra (litígio), e se há porém o magistrado que julga acima dos litigantes, por lei equitativa reconhecida por eles, então o estado é de sociedade, já não natural, e como estado social é a superação da guerra.
Nota 7
Não só Foucault, mas especialmente Althusser desde o Lire le Capital, confundem propositadamente antropologia filosófica (“cultural”) e social. O objetivo deles é poder afirmar que toda antropologia é paralógica – como generalização indevida (indemonstrável). Mas a primeira, somente o que de fato conotam pelo termo “antropologia”, é enunciado sobre o sentido da humanidade, é um ramo da filosofia, mas a segunda é ciência com objeto próprio, nasce em inícios do século XX como trabalho de campo que informa costumes e regimes das sociedades no tempo e no espaço. O trabalho de campo não apenas “observa”, mas ao contrário do que qualquer um poderia fazer (como missionários, viajantes, etc.), define questões metodologicamente definidas e tem assim seus resultados controláveis pela análise crítica, de modo a podermos avaliar se são congruentes com as premissas definidas ou não. O trabalho de campo equivale à pesquisa operacional em sociologia, único meio válido racionalmente de se estar informado sobre quais são os grupos sociais e as questões reais de certa sociedade – o que não costumamos ver no Brasil ser citada para efeitos de plataforma de políticos quanto aos problemas a se resolverem, o que fazem é dizerem que estão copiando o que viram num outro país, porém sem consciência de que as soluções de lá são ajustadas para problemas de lá. Assim a pesquisa “operacional” não significa ter propostas de resolver os problemas encontrados, o que dependeria de haver alguma sociologia “aplicada”, mas também do compromisso político, etc. Na sociologia operacional do crime a invalidação de preconceitos sobre tendência à criminalidade por condições definidas (pobreza, pais separados, mães que trabalham fora, amizades de outros delinquentes, etc.), foi feito pela análise das pesquisas que supunham estar confirmando o contrário, pois mostrou-se a incongruência entre os resultados e as premissas naquelas pesquisas. Ao contrário do senso-comum, o protagonista do crime na sociedade estudada eram as firmas americanas e a etnia dominante. Ver a propósito o “Introdução à sociologia”, do professor Bottomore (Rio de Janeiro, Zahar, 1970, capítulo 19 “Problemas Sociais”) que tem também uma boa apresentação da trajetória dos estudos e da noção de patologia social. Fica nítido o quanto as noções de criminologia de Foucault eram vulgares, de comum preconceito, embora demagógicas. É aliás notável como a coleção designada “biblioteca de ciências sociais” que a Zahar editou há algumas décadas, tenha tantos volumes de autores ingleses e americanos, baseados na informação da sociologia operacional, mas não tenha título de pesquisa ou analista local. Sabia-se tudo sobre como eram os hábitos dos grupos de status de Londres ou a estrutura imobiliária norte-americana na década de 70, mas nada de nada sobre São Paulo ou Rio de Janeiro – nem quais eram os equivalentes nelas das mesmas funções, se considerada mera questão de aplicação do modelo, ou que singularidades lhes seriam atribuíveis.
nota 8
Ressalvo aqui, porém, que em seu Seminário 10 (A angústia) realmente desenvolve uma reflexão da duplicidade no estilo fantástico do romanticismo, não reduzida à questão classicista do sósia ou da anamorfose. Em meu blog O Romantismo, el doble e o fantástico, não equacionei o seminário 10, que ainda não conhecia. Também ali não equacionei o erro da teoria literária atual, que trata invariavelmente o duplo literário com um comentário sobre o que seria a explicação freudiana (o duplo do narcisismo infantil), porém sendo esta apenas a explicação de Oto Rank. Em meu blog desenvolvi a leitura minuciosa de Rank, mas não conhecia ainda o texto do próprio Freud, que discorda de Rank, não considerando os escritores fantásticos psicóticos (fixação na fase mais arcaica), e sim que o duplo é alegoria já do super-ego. Minha própria concepção, que relaciona o duplo à epistemologia pós-kantiana e à superação do dualismo mente e corpo pela integração evolucionista da noção de organismo, o interpreta como visão romântica do conflito determinante entre desejo e cultura. Algo que com certas reservas, também é o que Lacan pensa (em termos de “objeto x” independente), o que não parece tão simplesmente o freudiano super-ego.
nota 9
Mesmo considerndo a desconstrução derridiana muito mais fecunda do que a oposição foucaultiana de penalidades brutal mas periférica antiga e branda mas identitária moderna, que sinceramente deploro, nessa controvérsia porém Derrida não teve razão, a meu ver. Em Descartes, a loucura não retorna na hipótese do sonho, pois o sonhador não está caracterizando o primitivo, que é certamente natureza universal mas só que ela menos o progresso universal – e essa carência, mas num homem civilizado, é a loucura na época clássica, o que não resulta na qualificação de patologias mentais da modernidade, apenas no contrário simples da razão. Porém Foucault não chegou a analisar a teoria política clássica, assim não alcançando a origem do problema da loucura na noção de estado de natureza primitivo. A propósito, meu blog “O projeto da des-razão”, onde traço paralelos da história da psiquiatria em Foucault, Lacan, Deleuze e Guattari, e também desenvolvo algo da filosofia cartesiana conforme relacionada à crítica de Derrida. Mesmo ressaltando que os regimes clássico e contemporâneo são tão opostos que não resta a noção de loucura (como generalizada ausência de razão) na modernidade, vemos que a base patologia mental/primitivo, permanece na homologia da fixação. É interessante lembrar que Mario de Andrade designou “desvairismo” ao seu primitivismo. Sobre a homologia, ver nota 4, com as referências essenciais de Wallon na sua caracterização, assim como a completude na informação antropológica. Sobre a relação de ontogênese e filogênese em Freud, especialmente a análise de “o homem dos lobos”), mas também toda a sua interpretaçãoda cultura, como em Totem e Tabu, que reflete na ciência social de Roheim. A propósito da interpretação freudiana da cultura, que abrange todas as disciplinas de ciências humanas, ver o artigo de Pierre Kauffman, “A teoria freudiana da cultura”, in Châtelet, História da filosofia, volume 8, “O século XX” (Rio de Janeiro, Zahar, 1974). Não obstante algumas discordâncias, considero o artigo instrutivo.
nota 10
O que hoje já ocorre, entretanto, pois os protestantes, mesmo após os seminários modernistas evolucionistas do século XX, na Globalização tem se insurgido contra vários temas científicos, especialmente a Evolução, além de se colocarem ostensivamente contra a constituição nacional, como está ocorrendo com um pastor no Rio de Janeiro, que pixa os muros da cidade impunemente, com slogan contra a lei civil, pela bíblia como única lei. Como a pixação é cuidada, localizam-se na zona sul, centro e região burguesa onde vi uma igreja dele, presume-se que está relacionado a poderes, quem sabe esperam unificar a lei da bíblia com Petrópolis (onde mora a família real portuguesa) – como secularmente se fazia no “antigo regime”.
Nota 11
O divórcio mencionado é a alma do escrito proustiano “Contre Saint-Beuve”.
Notas do Livro 3 : Volume 2
Livro 3 :
Notas do Volume 2
Nota 1
As referências que tenho utilizado são: Hutcheon, Linda: “A poética do pós-modernismo”, Rio de Janeiro, Imago, 1991. Os textos de Jameson, “Third-World Literatura in the Era os Multinational Capitalism”; “The cultural logic of late capitalism” ;(todos dois são textos de xerox, artigos publicados em Social Text entre 1986 / 1987), e La lecture sans interprétation – le postmodernisme et le texte vidéo” (texto de xerox, publicado em Communications, 1988); e a resposta a Jameson por Aljaz Ahmad, “Jameson's Rhetoric of Otherness and the 'National Allegory” (xerox, publicado em Social Texto, outono 1986). Os textos de Eagleton, “Against the grain” (xerox sem referências); “As ilusões do pós-modernismo” ( Rio de Janeiro, Zahar, 1998) – sendo aliás notável a contradição entre ambos, pois no primeiro, Eagleton acusa o pós-estruturalismo de ser um logicismo, mas no segundo os acusa de serem irracionalistas, Eagleton se posicionando um prosélito do universal, do grande relato, etc. Os textos de Eduardo Subirats: “A flor e o cristal”, São Paulo, Nobel, 1988; “Da vanguarda ao pós-moderno”, São Paulo, Nobel, 1987. Otavio Paz, “O labirinto da solidão e post scriptum”, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984; “Os filhos do barro – do romantismo à vanguarda”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. Foucault, salvo os citados no texto, volumes da coleção “Ditos e Escritos” (organização de Manoel de Barros da Motta, Forense Universitária) ; Nietzsche, os citados no texto ou referências esparsas de memória. Baudrillard, J. “O sistema dos objetos” ,São Paulo, Perspectiva, 2008. As listas de obras publicadas, minhas, de Luís Carlos de Morais Junior, e dos títulos em parceria dele comigo, estão em anexo após as notas.
A propósito da minha concepção sobre os produtos do business de mídia, é inversa à de Jameson. Não creio que a mídia esteja sendo copiada pelas linguagens estéticas pós-modernas, nem mesmo na arte Pop, nesta sendo de fato desconstruída como veiculação “midiática” mercadológica, para ser comunizada e questionada como o contrário do que a mídia pretende ser, “signo” (ao invés de “verdade” ideal).. Ao contrário, sempre a mídia copia tempos depois, o que havia sido a inovação técnica ou o sentido cultural da renovação estética. Esta porém, na época em que ocorre, tem um sentido questionador da ideologia, a mídia, pelo contrário, só copia quando aquele sentido já não se conserva, tanto pelo modo como copia, como porque o faz como reação ao que está sendo questionador agora na linguagem estética. O surrealismo estava nas ilustrações das revistas na década de setenta, quando o que havia era a arte Pop, mas uma das vertentes desta, o hiper-realismo, está agora reificada, distorcendo-se na mensagem da força brutal (fotos hiper-realistas de costas masculinas musculosas, ou de insetos microscópicos amplificados de modo a própria natureza parecer poderosamente agressiva).
A propósito da famosa “morte da arte” na pós-modernidade, é o que me parece realizado, ainda que não tenha sido referenciada por qualquer das fontes que aqui estou utilizando, posto que já não há qualquer doutrina que possa definir univocamente qualquer prática assim designada. Há linguagens estéticas, por “estética” entendendo modalidades de problematização e produções em modalidades de performance como música, teatro, dança, literatura, cinema, etc., problematizações que podem tanto ser do conteúdo daquilo que se trata por História da Arte, como dos rótulos estanques a propósito das próprias “modalidades”.
Nota 2
Sobre os estudos culturais como crítica dos mass midia, ver especialmente referências e comentário em Jonahan Culler, “Teoria Literária”, São Paulo, Beca produções culturais, 1999. Aí é digno de nota o rigorismo de algumas críticas, que não me parecem ter equacionado a polissemia inerente ao poético no gênero “letra de música”, para criticar um sentido único que porém é questionável como interpretação. Porém sem dúvida o locus da crítica do discurso dos mass midia é em si algo muito necessário, e o que precisa ser enfatizado quanto aos “estudos culturais”, além disso, é o que da rubrica se espraia como parâmetro de “estudos” para os demais âmbitos como espero ter ficado claro. Porém é importante sublinhar que no Brasil tem sido ao contrário, os “estudos culturais”, como eu soube da UFRJ, invadiram a universidade para alcandorar a mídia mais reduzida à ideologia que já se teve notícia, principalmente quanto à forma, a identidade do “popular” só passando na propaganda de mídia como da pior basbaquice simplória, como a única patrocinada pela indústria na “globalização”. Assim deve ser denunciado que os “estudos culturais” - não só na UFRJ, mas como tendência geral - no Brasil estão sendo foco do projetos de censurar a utilização de produções letradas como intertexto de livros escolares ou objeto de estudos universitários sobre produções culturais. Hà projetos de substituição de leitura dos livros canônicos do processo literário, como José de Alencar e Machado de Assis, geralmente estudados no ginásio, por material de jornal e revista, ou livros escritos especificamente para elidirem elaboração da língua e tudo o que puder suscitar questões de interpretação.Há também projetos de grupos étnicos para coibir o estudo de História Geral nas escolas, substituindo-o por conteúdos de religião afro, protestante, etc.. .
Não há a menor dúvida sobre que pode haver ligação entre tais projetos terroristas na cultura, e as operações de banditismo que relatei sobre a sabotagem em meu computador – uma vez que produzo textos de cultura letrada e estudos históricos - por agentes clandestinos que a meu ver seria a meu ver obrigação da polícia identificar e prender como a qualquer criminoso, assim como do CADE seria obrigação impedir que indústrias micro-informáticas circulassem produtos podres contra a consciência e a cultura nacionais, assim como multar e/ou prender os responsáveis se puder haver prova de sabotagem dolosa por parte dos fabricantes contra os usuários.
Assim é algo notável que os estudos culturais nos Estados Unidos tenham resultado por vezes num rigorismo purista como vemos em exemplos citados por Culler, enquanto no Brasil não se tenha crítica do que é do pior nível da “ideologia” patrocinada obviamente pelos podres poderes do business de mídia.
Nota 2'
O artigo de Jane Flax, “Pós-modernismo e as relações de gênero na teoria feminista”, consta em “Pós-modernismo e política”, coleção de artigos organizada por Hollanda, H. B. O artigo de Jane Flax, “Pós-modernismo e as relações de gênero na teoria feminista”, consta em “Pós-modernismo e política”, coleção de artigos organizada por Hollanda, H. B.
Nota 3
As obras de Oswald de Andrade que estou utilizando são as da coleção “Obras completas”, especialmente “Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970. Sobre o aporte de Rollnik a propósito de Oswald conheço apenas uma xerox que circulou na Uerj nos anos noventa. O estudo de Eleutério se intitula “Oswald, itinerário de um homem sem profissão”, Campinas SP, Unicamp, 1989. “O Olho do ciclope”, de Luís Carlos de Morais Junior está citado em anexo, na lista de obras publicadas (ver à frente)
Nota 4
Minhas referências utilizadas aqui são a História da Filosofia de Bréhier, texto de Xerox (há alguns anos atrás estava sendo oferecido o original em francês na Internet). Mas sobre os Estados Unidos, de A. S. Bogomólov, “A filosofia Americana no século XX”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.
Nota 5
Marcuse Herbert, “Eros e Civilização, uma interpretação filosófica do pensamento de Freud”Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Cientificos, 2009.
Nota 6
As referências em biologia são de T. Storer e R. Usinger, “Zoologia geral”, São Paulo, cia. ed. Nacional, 1978. p. 140 Livro bastante informativo, porém já defasado, por exemplo ainda indagando sobre a possibilidade dos canais de marte (p. 239)– a propósito dessa fantasia, ver Carl Sagan, “Cosmos”, New York e Canada, Randon House, 1980 p. 107 . Storer e Usinger são ainda típicos da pertinência do padrão “positivista” eugênico na hereditariedade; foucault pode ter visado tal tipo de conservantismo, que não se nega existir, porém não sendo a dominante, como ele sugeriu, e especialmente desde os sixties sendo até mesmo avesso ao curso corrente; o recentramento neonazista da dominação info-informática apresenta pois anormalidades flagrantes relativamente a este. Algo que podemos observar é a alteração na figura divulgada sobre como seria a aparência do corpo visto pelo critério da ênfase das sensações. O livro de Kimble, que mostra a proporção quantitativa de córtex responsável pelo controle de várias partes do corpo, apresenta uma superfície semi-circular, na linha da qual se perfilam, mais proeminentes, uma boca, os olhos, mãos, mas também o sexo. (p. 266) Nos anos noventa foi muito reproduzida em revistas a figura de motivação similr, porém como ícone da aparência habitual do corpo, um jovenzinho caricaturado, apenas com a cabeça em cima, projetada para a frente agressivamente, bem maior que o resto diminuto abaixo do pescoço, portanto sem sexo, apenas as mãos também proeminentes..
Nota 7
R. Gorman, “A visão dual, Alfred Schutz e o mito da ciência social fenomenológica”, Rio de Janeiro, Zahar, 1979. Gorman assinalava a crítica a Husserl e Shutz jassumida na própria imanência do existencialismo heideggeriano. Porém ao contrário do que Gorman supunha como a tendência da ciência social mantendo-se existencialista a partir dessa crítica, , a tendência desde então até agora, devido à utilidade do estereótipo de “modos de vida” dicotomizáveis para a dominação info-midiática neonazista, foi de radicalização do já superado, resultando na corrupção, abuso da privacidade, etc., generalizados.
Nota 8
Os textos de Piaget que estou utilizando são principalmente dos Pensadores, volume “Piaget”. Ver meus blogs na internet (se possível), intitulados “Piaget” e o “Teoria moral na Geoegologia”, onde constam referências a estudiosos de Piaget e mais bibliografia consultada, especialmente o “Psychologie et eppistémologie, pour une théorie de la connaissance” (Paris, Gonthier, 1970), onde Piaget desmente ser kantiano – pelo fato de ter descoberto o número como não sendo a priori, e a mistura ser aquisiçaõ posterior ao número – porém apresentado como kantiano na contracapa do livro, por um texto da editora. A propósito da coleção Os Pensadores, seria preciso sempre lembrar que os textos que publicam não são completos, a rubrica “texto integral” no Brasil significa apenas que tiveram o que aprecem considerar a boa vontade de não reescrever o texto para gênero pupularesco, não significa publicação do texto completo. Os texto de Lacan aqui utilizados, são os Seminários da coleção Zahar, com textos estabelecidos por J. A. Miller.
Nota 9
A designação sempre pejorativa de “filosofante”, encontramos – algo curiosamente - no comentário ácido, mas bastante simplificado, dos funcionalistas franceses Ferry e Renault a propósito dos “sixties”, que eles enfeixaram unicamente ao horizonte estruturalista. O livro destes funcionalistas é intitulado La pensée 68, tratado como os “sixties philosophantes” desde o capítulo 1. Porém a intenção de Ferry e Renault não foi apenas contra o estruturalismo, mas de forjar um ideal tipo exemplar, tanto dos anos oitenta (contra os “sixties”) como também nacionalista, assim tachando os representantes do estruturalismo na França de cópias dos alemães: Foucault de Nietzche, Derrida de Heidegger, Lacan de Freud, Bourdieu de Marx. Ao que parece, Ferry e Renault consideraram os anos oitenta um retorno à linhagem francesa da filosofia, especialmente durkheimniano, e o locus da crítica aos sixties assim “filosofantes” (estruturalistas germanizantes-germanizados). Porém Lacan pensava estar tornando a psicanálise uma província francesa, tirando-a dos ingleses à Jones e Klein. Raros pensavam nela a essa altura como algo original de Freud, que nem mesmo era alemão, era austríaco.
O livro de Cruz Costa que estou utilizando é o “Panorama da história da filosofia no Brasil”. São Paulo, Cultrix, 1960. O de Antonio Paim é o “História das ideias filosóficas no Brasil”, São Paulo, Grijalbo, 1974. Ambos são canônicos em cursos universitários.
Nota 10
O texto de Schwarz intitulado “Cultura e Política”, integra o volume “O pai de família e outros estudos”, que está oferecido na Internet. Os textos de Deleuze: “Logique du sens”, Paris, Les editions de Minuit, 1969; “Cinema 2, A imagem tempo”, São Paulo, Brasiliense, 1990; “Diferença e Repetição', Rio de Janeiro, Graal, 1988; “A Dobra – Leibniz e o barroco”, Campinas, SP, Papirus, 1991, “Nietzche e a filosofia”, Rio de Janeiro, Editora Rio (faculdades Estacio de Sá), 1976; “O Anti-Édipo”, edições Assírio e Alvim; “Mille Plateaux”, Paris, Les editions de minuit, 1980. Sobre Deleuze, Mengue, Ph. “Gilles Deleuze ou le système du multiple”, Paris, Kimé, 1994. O artigo de Severo Sarduy, “O barroco e o neobarroco” consta em “America Latina e sua Literatura” (São Paulo, Perspectiva, 1979; copyright da Unesco, 1972), coleção de artigos solicitados pela UNESCO. Nesta mesma coleção, os textos que estou utilizando: Fernando Alegría, “Antiliteratura”; Rodriguez Monegal, “Tradição e renovação”; Noé Jítrik, “Destruição e formas nas narrações”; R. F. Retamar, “Intercomunicação e nova literatura”; Antonio Houaiss, “A pluralidade linguística”; M. Benedetti,“Temas e problemas”; J. Enrique, “O realismo de outra realidade”. Ver anexo as referências de Luís Carlos de Morais Junior, porém especialmente quanto ao aimará, “Carlos Castaneda e A fresta entre os mundos, vislumbres da filosofia Ãnahuacha n o século XXI, Rio de Janeiro, Litteris, 2012; citações alusivas, p. 70, 73, 74; mais detalhada p. 102. O livro está também em blog , com mesmo título , endereço htts:// omardasvozes.blogspot.com.br.
Nota 11
Fritzjoff Capra é célebre por seu O Tao da Física, onde porém há muita mistura, sob a rubrica da filosofia oriental”, de pensamentos cuja proveniência é bem desigual, como do Taoísmo chinês e do Vedanta hindu. Especialmente importante contudo é Heinz von Forster, como bom crítico do reducionismo computacional da inteligência humana, salientando por exemplo que nem mesmo se deve designar “memória” ao banco de dados do computador, já que a função da memória é humana como algo em devir. A propósito, a entrevista de Forster, que é porém especialista em cibernética e linguagem computacional, a Pessis-Pasternak: “Do Caos à inteligência artificial”, São Paulo, Unesp, 1993. Nessa entrevista, Forster realiza também o que a meu ver é uma aproximação sensata de Castaneda, com a questão do “ver” visionário restrita a uma prática específica que assim conteria sua explicação intrínseca. O que me parece ser o caso da própria ciência na concepção de Foster, que desse modo mantem a inteligência fora da abstração de mero reflexo objetivo ou a priorístico, bem relacionada a práticas heterogêneas, autônomas. .
Nota 11
A ausência de consciência da máquina como produto de empresa privada e reserva de patente se tornou típica da “anta” recentrada (sádico-anal psicótica) das cias pós-modernas. Uma vez que microsoft e etc., fazem a propaganda do seu sexo como recalque da “vovó”, junto com a do programa do laptop do ano como recalque do ano passado, e como o capital-fascismo tem usado os subalternos não para letrá-los, etc., mas como massa de manobra contra a população, para esses empregados a “empresa” é coletiva. A consciência de que se trata de capital privado é inteiramente obnublada, assim quando se trata da questão social, a anta recentrada pós-moderna grita contra os salários dos letrados, por mais medianos (para menos) que sejam, porque não ocorre de na cabeça dela haver a significação da palavrinha “lucro”. Enquanto isso, como as estatísticas informam, as multinacionais tiveram lucros fabulosos, os ricos ficaram mais ricos, porém havendo menos ricos, etc., e já pode haver monopólio de capital privado sobre setores estratégicos e serviços básicos, o que configura escravismo de um país. A propósito, não coloquei as citações de Deleuze em negrito e sublinhadas, nem qualquer outra citação, nem tal palhaçada corresponde minimamente a minha concepção, não obstante aparecerem assim, o que já tive que corrigir (a não ser que tornem a fazer a sabotagem, o que não é nada incomum ocorrer).
Anexos :
= Obras publicadas de Luís Carlos de Morais Junior (referenciadas também as obras em pareceria com Eliane Colchete)
- Livros:
- Musicologia:
1. Crisólogo – O Estudante de Poesia Caetano Veloso. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2004.
2. Proteu ou: A Arte das Transmutações – Leituras, Audições e Visões da Obra de Jorge Mautner. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2004.
3. Proteu ou: A Arte das Transmutações – Leituras, Audições e Visões da Obra de Jorge Mautner. 2 ed., revista e ampliada. Contém 10 entrevistas inéditas com Jorge Mautner. Rio de Janeiro: Litteris, 2011.
4. O Estudante do Coração. Rio de Janeiro: Quártica, 2010.
5. O Estudante do Coração – Ensaios Sobre a Arte Pós-Moderna (Noel Rosa e outros autores). Segunda edição: revista e amplificada. Rio de Janeiro: Litteris, 2013.
6. O Sol Nasceu pra Todos – A História Secreta do Samba. Prefácio de Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Litteris, 2011.
- Poesia:
7. Larápio. Rio de Janeiro: Kroart, 2004.
8. Pindorama. Rio de Janeiro: Litteris, 2004.
9. O Caminho de Pernambuco (com Eliane Blener). Rio de Janeiro: Quártica, 2010.
10. O Meteorito dos Homens Ab e Surdos. Rio de Janeiro: Quártica, 2011.
11. Natureza Viva. Rio de Janeiro: Quártica, 2012.
12. Abobrinhas Requintadas – Exquisite Zucchinis (com Eliane Marques Colchete). Rio de Janeiro: Quártica, 2012.
13. Eu Sou o Quinto Beatle. Rio de Janeiro: Quártica, 2012.
14. Linhas Cruzadas (com Caio Reis Morais et alii). Rio de Janeiro: Quártica, 2014.
15. Poesia de Reciclagem. Rio de Janeiro: Litteris, 2014.
16. Eu, o mestre da verdade. Rio de Janeiro: Quártica, 2017.
- Romance:
15. Y e os Hippies (com Eliane Blener). Rio de Janeiro: Quártica, 2009.
16. Crisopeia (com Eliane Blener). Rio de Janeiro: Quártica, 2010.
17. Clone versus Gólem (com Eliane Blener). Rio de Janeiro: Quártica, 2010.
18. O Portal do Terceiro Milênio (com Eliane Colchete). Rio de Janeiro: Quártica, 2011.
19. Gigante. Rio de Janeiro: Quártica, 2012.
20. O Homem Secreto. Rio de Janeiro: Quártica, 2013.
21. Rocambole de Carne à Copacabana (com Cláudio Carvalho e Cid Valle). Rio de Janeiro: Litteris, 2013.
- Contos:
22. Metaneurônios Atomizados (com Marcus Vinicius de Medeiros). Rio de Janeiro: t.mais.oito, 2008.
23. O superprocessador de emoções do aquecimento global {novelo ou: contogeração}. Rio de Janeiro: publicado na internet, 2016.
- Surdez:
24. Os que ouvem mais que nós (com Carlos Hilton). Rio de Janeiro: Litteris, 2013.
25. Outras Palavras (com Claudio Carvalho). Rio de Janeiro: Litteris, 2014
- Teoria:
26. O Olho do Ciclope e os Novos Antropófagos – Antropofagia Cinematótica na Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Quártica, 2009.
27. As Vivências Pós-modernas (et alii). Rio de Janeiro: Quártica, 2013.
28. Encontros nas esquinas das palavras: cinematótica transtemporal e complexistória na lírica brasileira atual ou: impressões de vertigens, ou ainda: devires do soneto brasileiro. Rio de Janeiro: livro do pós-doutorado em Estudos Culturais realizado no PACC da Faculdade de Letras/UFRJ, 2015.
29. Laboratório de Letras (com Eliane Marques Colchete de Morais). Rio de Janeiro: Litteris, 2017.
- Filosofia:
30. A Formação da Filosofia Contemporânea (com Eliane Marques Colchete). Rio de Janeiro: Litteris, 2014.
Educação:
31. A Autoeducação e o Século 21. Rio de Janeiro: Litteris, 2014.
- Misticismo:
32. Carlos Castaneda e a Fresta entre os Mundos – Vislumbres da Filosofia Ānahuacah no Século XXI. Contém entrevista inédita com Luiz Carlos Maciel, a carta a Robert Gordon Wasson e as notas de campo de Carlos Castaneda traduzidas. Rio de Janeiro: Litteris, 2012.
33. Alquimia: o Arquimagistério Solar. Rio de Janeiro: Quártica Premium, 2013.
34 . Encontros nas Esquinas das Palavras, 2015 (no prelo)
= Obras publicadas de Eliane Colchete (pela Quártica editora):
Contos do Espelho (2011)
Contos da Musa Irada (2011)
O Pós-moderno; Poder, Linguagem e História (2012)
Filosofia, Ceticismo, Religião, com um esudo sobre Diógenes Laércio (2013)
Blogs na Internet // , a conta em “blogspot” com todos os títulos listados está em meu nome , “Eliane Colchete”, pelo qual podem ser acessados; alguns textos vem com pseudônimo; não tenho outros textos na Internet além dos blogs aqui listados; todos os conteúdos são de minha exclusiva autoria.)
a) blogs com Estudos :
1) Hegel e a conversão europeia da história
2) Hegel e a conversão europeia da história II
3) Hegel e a conversão europeia da história III (um dentre estes três aparece com o título de protesto “morte à filha da puta que está mexendo no meu blog sem autorização” – que, como já reportei acima, foi recolocado pelo próprio bandido invasor da conta, como relatei acima, ver nota 37 livro 2 )
4 Teoria Moral na Geoegologia
5 A conspiração (sobre o livro de Mirow)
6 A Crítica da Identidade
7 A Escalada do Império (o texto que corresponde corrigido e ampliado ao presente Livro 1; coloquei o título “esperando o porco” no blog, na hipótese de assim conseguir desviar da página o sabotador do texto que estava impedindo a escrita com inúmeras disfunções, minimização de letras, etc.)
8 A Geoegologia
9 ageoegologia (a repetição do título é apenas devido a recusa do provedor de blogspot liberar espaço ao blog requisitado, barrando a entrada de qualquer título com palavra já conhecida, restando o neologismo não recusável)
10 A Greve Geral (Sobre George Sorel, com aportes de Klein e o pequeno Hans de Lacan)
11 A Mesopotâmia (sobre Antiguidade Oriental com um estudo sobre Heidegger)
12 A Juventude está podre, preferimos os punks (reflexões sobre o nazismo de mídia e a questão do texto literário)
13 A juventude está podre, continuação
14 A Estética de Hegel
15 ainterpretaçãodomito
16 Anti-Mídia
17 arte, ciência e política
18 contra o dispositivo (geoegologia II)
19 geoegologia III (com o título “denúncia de censura na internet, devido ao provedor de blogspot não permitir a apresentação contínua do texto, porém não tendo o provedor interface com os usuários, também não definindo previamente o número de páginas utilizáveis )
20 Desenvolvimento, conceito atual
21 Ética
22 Enlightment
23 Escritos em Humanities
24 Espaço Texto (o pedaço do estudo “filosofia da potência” – o estudo tendo sido impedido, pelo provedor, de ser apresentado completo no mesmo blog; o provedor simplesmente tirou um dos pedaços, pois constatei somente dois blogs com o estudo);
25 Estudos em Sociologia
26 Estudos Gregos
27 Estudos Hegelianos
28 Estudos Medievais
29 Filosofia da Potência (o pedaço inicial do estudo com este nome, com a trajetória histórica de Aristóteles a Avicena, Bruno e Schelling, Hegel e Nietzshe (Deleuze e o marxismo atual, Heidegger)
30 Geoegologia, Ciência e Política (o pedaço inicial da primeira apresentação da Geoegologia na Internet)
31 Hegel
32 Heidegger e a História
33 História da Dominação
34 Leituras do Modernismo entre o pop e o pós
35 lista de blogs (com os títulos presentes, porém alguns espaços já tendo sido reaproveitados, porque o provedor não permite novos blogs na minha conta, alegando, por uma inscrição, que “já tenho muitos” desde que completei 100);
36 marxeaciência
37 marxeoterceiromundo
38 Modelos Científicos
39 Neocapitalismo
40 nietzschefreudeocontextoatual
41 O pós-modernismo entre os conceitos de discurso, memória e texto (registrado com o título “O robô feliz”)
42 O devir das ciências humanas (com um pedaço muito pequeno do meu estudo (2006 a 2008) que referenciei acima com este nome);
43 O projeto da des-razão: o nascimento da clínica (cotejo de Foucault, Derrida, Deleuze e Lacan a propósito da história da psicopatologia, e temas filosóficos relacionados a estes autores)
44 O pós-modernismo
45 O Romantismo, el doble e o fantástico
46 O seminário crítico (sobre a relação de Lacan e o maio de 68, com aportes de autores a propósito deste)
47 odevirdasch2 (mais um pedaço do estudo com este nome)
48 oneoempirismo
49 os gregos e a democracia
50 parmênides, sofística, metafísica
51 Pensamento e relação (blog sabotado, com minimização constante da letra, interrompida a postagem; trata-se dos estudos de Derrida sobre Levinas e Freud, com desenvolvimentos sobre Deleuze e Bastide; minha intenção é a crítica do modelo de inconsciente calcado no signo sem relação)
52 Pensamento e Relação (continuação do estudo anterior, com aportes de Marcelo Dascal, e a teoria do inconsciente kantiano-pós-estruturalista)
53 Piaget
54 porquenãoapoioacandidaturadopt (2014 )
55 Psicologia (este o texto que reportei ter sido destruído, depois consegui localizar uma cópia num pen drive)
56 psicologia continuação
57 pós-modernismo (neste texto, de que gosto especialmente, e que desenvolve a explicação da geoegologia, há extenso estudo sobre a “ideologia” em que utilizei Eagleton, e referencio com minúcia aportes de Lucien Goldman e Malraux, Bakhtin, Althusser, o congresso na Tchecoslováquia e o marxismo humanista).
58 Releituras do contrato social (extenso estudo sobre Rousseau, com um contraste das noções de contrato social e constituição contemporânea)
59 Sobre Taoísmo e Ceticismo (extenso estudo sobre antropologia e história da China antiga, a filosofia chinesa antiga, e o taísmo em particular com aportes da teoria política)
60 Sobre Taoísmo e Ceticismo, continuação (trecho que deveria estar na mesma página que o anterior, porém no qual estudo ramos não apenas filosóficos do taoísmo, mas sim os religiosos populares imaportantes na história, e algo do zen budismo, também aportes sobre a arte taoísta nos países asiáticos);
61 Sociologia
62 Temas de filosofia moderna
63 teoriapolítica2 (pedaço do devir das ciências humanas)
64 teoria política
65 teorias em ciência social
66 textos da contemporaneidadea
67 textos escolhidos
68 trajetória da vanguarda ( também estudo que aprecio particularmente, sobre a vanguarda do século XX, inclusive o novo romance e o estruturalismo)
69 uma controvérsia recente (sobre a polêmica da desconstrução na teoria literária, com aportes de Umberto Eco, Culler e mais autores);
70 Vem você também vencer (publicado com o título)
71 Ética (intitulado Face à Hecatombe, com estudo crítico sobre Apel e a questão ecológica; este estudo foi feito em meio ao “Teoria da moral na geoegologia”, como aporte que eu precisei na elaboração daquele, onde desenvolvo minha crítica a Habermas e o pragmatismo, mas também cobrindo algo da teoria feminista)
72 As leituras (com estudos sobre Jameson, metáfora em Lacan, Derrida, Wellbery, temas de teoria da literatura, a leitura de Derrida sobre Benjamin, história e crítica do anarquismo de Sorel a Chomsky e Foucault)
Literatura :
1 A Alma Pura
2 Escrita Corrente (com denúncias sobre o search na internet na época do atentado às cidades de Minas, poemas, e um romance policial intitulado “O Atentado à Rede de Trattorias”.
3 Escritos (texto autobiográfico; prosa crítica do cotidiano em 2016 do impeachment, e memórias)
4 Histórias da Clandestinidade
5 Hotmailmemories
6 Meg
7 O Clube de Conferências
8 Opalavrão (o título na verdade é “Palavrão”, em inglês “dirty word”, mas só com o artigo pôde ser registrado pelo provedor)
9 osidiotizadoseoqueaconteceucomeles
10 Romance de Juventude (ao romance intitulado “Vem Você Também Vencer”, com o título com que pude exibira inicialmente, devido ao impedimento do provedor)
b) = Poesia :
1 A Poesia é Robô
2 poemas
3 poesia reunida
c) = blogs de denúncia, informação e protesto
1 contra a política do jagunço
2 exigimoscpicontramicrosoft
3 fora
4 fora bandidagem do governo (cobrindo desde o início da traição aos servidores públicos)
5 fora governo de patifes
6 morte à ditadura de fascínoras
7 morte à censura e discriminação
8 morteaoinvasor
9 oelenco
10 roubo da população indefesa
11 broads, boobs and busts
12 comofuncionaoneofascismonoriodejaneiro
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